Page 1


Encontrar o tema é um plano que esmorece e renasce a cada passo. O importante é manter a ideia de que tudo se vai transformando fluentemente num percurso de variáveis infinitas. Fazer isto ou aquilo é quase um jogo de arbitrariedades que por esmero ou sentido de oportunidade acaba por constituir uma hipótese. Se é a solução certa só o correr do tempo o pode revelar. Não sabendo bem em que moldes a escala do tempo se processa, não me preocupo com as certezas mas antes com a matéria que suponho ser substância do erro. O que eu realmente gostaria era de puxar cá para fora este sentimento de perturbação que sinto como um ar do tempo, Uma paisagem mesclada de sensações que resultam da percepção intuitiva das coisas. Não existe a necessidade de ser concreto, antes pelo contrário deixar espaço para a dúvida, rasgar a solução do problema e entrar no jogo da destruição porque é dela que nasce a perspectiva.


“…A cadeia de factos que aparece perante os nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstruir a partir dos seus fragmentos aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já não as consegue fechar. Este vendaval arrasta-o irreparavelmente para o futuro, a que ele volta as costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos progresso é esse vendaval. Walter Benjamin “ O Anjo da História”


O A representação de uma Natureza impura e suja em contraste com corpos brancos enredados em ramagens pastosas e troncos pesados de raízes proeminentes representa o outro lado do Éden, aquele destinado Adão e Eva, filhos caídos em desgraça. Aqui a natureza reproduz o estatuto do homem, um espelho da alma, o território como palco das emoções. A modernidade altera o sentido da morte tal como ele é entendido no mito da criação. Sendo a morte entrópica e irreversível, é um mal absoluto que tira todas as esperanças de se viver em plenitude. O homem não pode amar intensamente a sua vida devido ao medo de a perder a qualquer momento. O culto moderno de viver a vida ao máximo, a intensa busca da felicidade através da satisfação de todos o desejos corresponde a uma perspectiva de finitude onde ninguém sabe o que vem a seguir. Assim a vida na terra é uma simulação imperfeita do estado de graça do Éden. Agora o homem sem a aura protectora do seu criador é permeável ao mal que o impele a agir contra si próprio, o inimigo do homem é o próprio homem.


Unfolded I  

A book about Marques Alves Work 2011-2012

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you