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As funções do profissional de Relações Públicas no cenário da implementação do Programa Mais Alimentos – um estudo de caso1 Jassira CASTRO2 Marley RODRIGUES3 Curso de Comunicação Social – FACCAT4 RESUMO Este trabalho é um estudo de caso da atuação do profissional de Relações Públicas no cenário das políticas públicas voltadas para a agricultura familiar no Brasil com foco na linha de crédito do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar – PRONAF, denominada programa Mais Alimentos, sob a ótica de Kunsch (2003) que estabeleceu quatro funções para este profissional: Administrativa, Mediadora, Estratégica e Política. O campo da pesquisa foi o ambiente profissional da autora, o Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas no Rio Grande do Sul – SIMERS. A implementação do Programa Mais Alimentos, foi precedida por outros acordos entre governo e setores da sociedade como agentes financeiros, entidades setoriais nacionais, entidades de assistência técnica, tais como EMATER e movimentos sociais. Toda esta gama de públicos e as especificidades dos relacionamentos foram propícios à aplicação de ferramentas e técnicas de Relações Públicas. A fim de atingir os objetivos deste trabalho, aplicou-se a metodologia de estudo de caso, através de uma pesquisa qualitativa, para a qual os dados foram coletados a partir da interpretação e das observações feitas no âmbito da pesquisa. Verificou-se neste estudo, a partir do confronto com a bibliografia pesquisada, que o profissional de Relações Públicas está habilitado a contribuir para a facilitação das relações e do diálogo entre o público e o privado. E também no desenvolvimento de ferramentas e processos capazes de promover agilidade e eliminar gargalos entre os diferentes públicos presentes na construção de uma política pública envolvendo governo e diversos setores da sociedade. Palavras-chave: Relações Públicas. Funções de Relações Públicas. Políticas Públicas. Agricultura Familiar. Introdução Esta pesquisa propõe a apresentação de um estudo de caso do Programa Mais Alimentos, uma linha de crédito do Governo Federal voltada para a agricultura familiar, que também possui uma gama significativa de públicos e, portanto, é campo vasto para atuação do profissional de Relações Públicas. A experiência que a autora vivenciou participando de sua implementação, por atuar em uma das entidades parceiras do programa, propiciou-lhe empregar, em diferentes momentos de sua construção, as funções do profissional de Relações Públicas, com ênfase para o modelo indicado por Kunsch (2003): função administrativa, função estratégica, função mediadora e função política. 1

Trabalho de conclusão de curso, habilitação Relações Públicas. Autora do trabalho: jassicastro@hotmail.com 3 Orientadora do trabalho, Doutora em Comunicação Social, professora do Curso de Comunicação Social da Faccat: marley@faccat.br 4 Faculdades Integradas de Taquara - RS 2


Ressalte-se que essa política pública possui características que, desde 2008, quando foi criada, chama a atenção, em especial por sua formatação e alcance social, que são o resultado do diálogo permanente entre todos os entes envolvidos, sendo estes o Governo Federal, as entidades patronais representantes do setor industrial de máquinas e implementos agrícolas, as entidades e profissionais de assistência técnica de extensão rural, as instituições financeiras (bancos) e o pequeno produtor rural brasileiro. Essa composição é o que a torna digna de olhar atento e uma pesquisa mais aprofundada, na qual fiquem evidenciados seus desdobramentos para a sociedade. Assim como Oliveira (2007, p.191), “acreditamos e defendemos que o caminho para a cidadania passa necessariamente pela intensificação das relações entre diferentes setores da sociedade”, neste contexto, pode-se mencionar os desdobramentos deste programa para a sociedade a partir desta intensificação, tais como a aproximação do pequeno produtor rural, identificado com os movimentos sociais, de busca pelo espaço digno para esse trabalhador no contexto social brasileiro com a indústria de máquinas e implementos agrícolas, identificada com a agricultura patronal e de vocação notadamente capitalista. Outro aspecto no qual podese verificar no programa Mais Alimentos, as funções do profissional de Relações Públicas, foi na projeção da imagem do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas nos Rio Grande do Sul – SIMERS. A entidade passou a comunicar-se melhor com seu público fim, as empresas associadas, e a ser uma referência na tomada de iniciativas a favor do setor industrial agrícola. Essas afirmações estão explicitadas nas páginas a seguir, nas quais buscou-se o respaldo de teóricos das Relações Públicas, dando suporte a pesquisa. Para situar o profissional de Relações Públicas no cenário das políticas públicas do Brasil voltadas à agricultura familiar, somos compelidos a uma reflexão sobre a gênese desta atividade e sua multiplicidade de funções, e é quando se encontram elementos que corroboram a necessária e eficaz aplicação das funções desta atividade profissional, não somente no caso em estudo, mas em todos os tipos formais de agrupamento entre pessoas e organizações. Nesse sentido, Kunsch (2009) entende as Relações Públicas como: [...] parte integrante do subsistema social das organizações, tendo como papel fundamental cuidar do lado público desses agrupamentos, que, a partir de diferentes tipologias e características estruturais, englobam as organizações públicas, as privadas, e as da sociedade civil ou do chamado terceiro setor (KUNSCH, 2009, p. 185).

A trajetória desta atividade, à qual são atribuídas inúmeras funções, contou com a contribuição de muitos autores que se debruçaram no estudo das melhores definições e


delimitações, a fim de compor o perfil de um profissional dotado de muitas características e potencialidades. Kunsch (2009, p.204) qualifica o profissional de Relações públicas como um gerenciador da comunicação nas organizações, característica que pode-se atestar na interlocução entre o Sindicato das Indústrias de Máquinas Agrícolas no Rio Grande do Sul e os demais públicos do programa Mais Alimentos. São diferentes instituições, engajadas por diferentes motivações. Contextualização do Programa Mais Alimentos A contextualização do programa Mais Alimentos no cenário das políticas públicas implementadas pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário é voltada para a agricultora familiar no Brasil e tem como objetivo “o fortalecimento das atividades produtivas geradoras de renda das unidades familiares de produção, com linhas de financiamento rural adequadas a realidade de cada agricultor” (BRASIL, 2010, p.7). Estas linhas são viabilizadas através do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar – PRONAF que possui as taxas de juros mais baixas do sistema financeiro nacional e que variam de 0,5% a 4,5% ao ano. É interessante dizer que desde sua criação em 1996, o PRONAF tem registrado as menores taxas de atraso de pagamento de dívidas entre os programas de crédito nacionais (BRASIL, 2010, p.7). O programa Mais Alimentos se diferencia dos demais por ter sido construído, conforme já descrito no capítulo um deste trabalho, com a participação de outros atores sociais, ou seja, não se trata de uma linha de crédito onde somente o Governo fala, a outros setores da sociedade é dado voz para sua construção e implementação, fato que corrobora a aplicabilidade das Relações Públicas neste cenário. “Enfim, por meio de um saber profissional construído, elas podem contribuir para a organização da sociedade civil [...]” (MURADE, 2007, p.163). Pode-se

perceber

que

para

consolidar

essa

política,

o

Ministério

do

Desenvolvimento Agrário e os parceiros do programa Mais Alimentos adotaram práticas identificadas com a atividade de relações públicas, a fim de obter os resultados hoje vistos. Pesquisa e planejamento foram etapas particularmente importantes neste contexto, devido ao ineditismo da proposta: unir a indústria agrícola brasileira, identificada com a agricultura

patronal,

e

agricultura

familiar,

representada

pelo

Ministério

do

Desenvolvimento Agrário, identificado com os movimentos sociais e reforma agrária. Foi


necessário entender as diferenças históricas entre os setores envolvidos para poder articular as ações de implementação do programa. De acordo com César (2007, p. 84) a sociedade civil é composta por iguais e desiguais: de um lado há uma camada da sociedade há muito organizada, representada pela Igreja, mídia e o empresariado, a chamada elite; e de outro está a “facção pouco articulada”, na qual se incluem os trabalhadores rurais da agricultura familiar. Em 2008, por reflexo da crise mundial, também a indústria brasileira estava em um momento crítico, com baixa produção e demissões em massa. No outro extremo, estava o agricultor familiar, que mesmo sendo responsável por, em média, 70% 5 do que vai à mesa dos brasileiros diariamente, encontrava-se trabalhando em condições precárias, dada a ausência ou sucateamento de máquinas e implementos agrícolas. E mais: não havia perspectivas de crescimento econômico no campo, fato que vinha gerando êxodo rural, especialmente entre os jovens. O posicionamento assumido pelo SIMERS no programa Mais Alimentos ganhou dimensão positiva, expressada nas palavras do coordenador nacional do programa, o economista Hercilio Matos, que disse6: “[...] foi indiscutível a participação das indústrias, que responderam à altura a este chamamento histórico. Neste particular, o SIMERS se destacou porque foi um grande mobilizador do setor industrial e da opinião pública”. Para Rodrigues (2005, p. 28), o profissional de Relações Públicas atua como mediador entre organizações e seus públicos: “é por meio dessa atividade que se pode interpretar e comunicar aquilo que o público tem para dizer para as organizações, assim como o que as organizações têm a dizer para o público”. No escopo dos estudos das Relações Públicas e suas funções, Ferrari (2009, p.157) acrescenta que “a comunicação tem hoje um novo papel como processo que permite construir e gerenciar realidades compartilhadas”. Essas realidades, no caso em estudo, estão representadas na constituição jurídica dos públicos do programa Mais Alimentos. São eles: Agentes Financeiros, entidades parceiras (SIMERS, ABIMAQ, ANFAVEA), entidades de assistência técnica de extensão rural; indústrias de máquinas e implementos agrícolas; agricultor familiar, MDA. O trabalho de sensibilização e manutenção do diálogo entre todas as entidades participantes do programa Mais Alimentos foi possível graças ao uso de ferramentas que o profissional de Relações Públicas está habilitado a aplicar, especialmente no fomento à 5

BRASIL, Ministério do Desenvolvimento Agrário; Agricultura Familiar e Censo Agropecuário 2006. Brasilia: MDA, 2009. 6

Declaração publicada no Informativo SIMERS, O Ano Todo a Toda Máquina – Agosto/ 2010


participação efetiva desses públicos em todas as etapas do programa, essencial para que os resultados evidenciados7 no volume de vendas e no valor investido pelo Governo Federal fossem tão positivos. Observa-se que a fluidez no diálogo e pronta resposta por parte das empresas aos chamamentos do programa, em especial das associadas ao SIMERS, foi resultado, entre outros fatores, das ações implementadas na mediação dos relacionamentos existentes, primando pela comunicação direta e aberta, tendo nela o “instrumento vital e imprescindível” (KUNSCH, 2003, p 105) para os resultados desejados. No entender de França (2006, p. 246), “as relações da organização com os públicos são complexas e exigem muita perspicácia no seu gerenciamento”. Assim, buscou-se permanente entendimento com todos os entes atingidos pelo programa. Para melhor ilustrar e atestar os esforços voltados para mobilização dos públicos do programa Mais Alimentos, destacam-se algumas ações em que pode-se verificar as ferramentas e funções da atividade de Relações Públicas, como no quadro a seguir:

Ação

Mailing list - mailing das empresas associadas ao SIMERS que aderiram ao programa Mais Alimentos. Interiorização do Mais Alimentos - consiste na realização de reuniões mensais em diferentes cidades do interior do RS, seguidas de visitas às instalações de empresas que desejam colocar seus produtos na lista de referência do programa ou que já fazem parte do programa.

Função de Relações Públicas

Resultado

Elaboração de lista contendo informações essenciais para o fluxo comunicacional eficiente entre a organização e empresas: Nome da empresa; nome da pessoa responsável pelo Programa Mais Alimentos na empresa; cidade onde está instalada; CNPJ; telefones; e-mail.

- A partir da criação deste mailing, o SIMERS passou a interagir mais rapidamente com os associados aderentes ao programa Mais Alimentos, socializando assuntos de interesse comum. - Os associados passaram a falar entre si virtualmente sobre as ações do programa e a participar mais ativamente de sua construção. - O SIMERS passou a ser o ponto de referência de informações sobre o programa.

O SIMERS é o responsável pela definição da data, local e horário das atividades; emissão dos convites; definição da pauta; locação de espaço e infraestrutura; transporte para sua equipe; confirmações de presença dos associados e do coordenador nacional do programa; agradecimentos; lista de presença; andamento nas decisões tomadas na reunião; feedback para as empresas sobre os seus desdobramentos.

Foram realizadas 20 reuniões e 30 visitas às empresas. O Sindicato pôde conhecer fábricas de associados ligados a entidade há mais de 30 anos e que nunca haviam sido visitadas. Ampliou os canais de relacionamentos para vários setores dentro das indústrias; Conquistou a credibilidade e simpatia das empresas; Ampliou seu alcance na mídia.

Quadro 1: Ações de Mobilização dos Públicos do Programa Mais Alimentos Fonte: elaborado pela autora (2011). Continua.

Be-a-bá do Mais Alimentos. Trata-se de um pequeno manual desenvolvido para informar às empresas entrantes no programa 7

Foi criado um documento padrão, que oferece, em linguagem clara e ordenada, a possibilidade de cada empresa avaliar se está ou não adequada a entrar no programa. A ele estão anexadas a marca do programa

Ampliação em 48% do número de associados à entidade; Facilidade de diálogo e compreensão das etapas pertinentes a adesão ao Mais Alimentos.

Disponível em http://www.mda.gov.br/portal/noticias/item?item_id=7641744, acessso em 19 de junho de 2011


como proceder e o que fazer para estarem habilitadas para que seus produtos sejam financiados pela linha de crédito Mais Alimentos. Parceria na Caravana Mais Alimentos - Tratase de uma feira itinerante, composta por caminhões carregados de máquinas agrícolas, instalada em diferentes cidades do Brasil. Feirão do Mais Alimentos – Espaço de em média 1800m², onde é montado um pavilhão para exposição e venda de de máquinas voltadas exclusivamente para o agricultor familiar e que é realizado dentro das grandes feiras nacionais. No mesmo local, são instalados os bancos, EMATER e entidades parceiras a fim de atenderem o Agricultor Familiar visitante. Captação de Novos Associados Nesta ação o SIMERS empenhou seus esforços para atrair empresas para o programa e a um só tempo, aumentar seu corpo associativo. Pleitos de melhorias para o programa Como entidade representativa da indústria no Rio Grande do Sul, o SIMERS cooperou com as melhorias no programa levando ao Governo Federal as demandas do setor.

para fixação nas máquinas e equipamentos agrícolas vendidos e o Termo de Adesão ao programa, para ser preenchido na empresa, conforme orientação do SIMERS. O Sindicato aderiu a Caravana e realizou a sensibilização de seus associados para participação. Foi desperto o interesse das indústrias para o oferecimento de brindes para sorteio entre os agricultores familiares que foram à feira.

Realizou-se a sensibilização de todas as empresas expositoras da feira pertencentes ao programa, para colocação de máquinas neste local; Mobilizou-se todos os canais de imprensa do estado; Recebeu-se autoridades estaduais e federais neste ambiente; Atendeu-se caravanas de agricultores mobilizadas pela EMATER de vários municípios do Rio Grande do Sul

Das empresas que fizeram parte da Caravana até sua última edição, 50% são associadas do SIMERS.

O modelo criado nesta ocasião repetiu-se em outras feiras. Tivemos grande alcance de mídia;

O SIMERS posicionou-se institucionalmente como entidade parceira do governo neste programa chancelando a entrada de suas antigas e novas associadas.

O SIMERS aumentou em 48% o número de associados desde 2008, quando entrou no programa.

O Sindicato recebe as demandas nas reuniões de interiorização do programa e as leva até Brasília em audiências no Ministério.

Entre as conquistas destacam-se: a perenização do programa, o aumento em 30% no limite de compras do agricultor, a inclusão da modalidade de compra em grupo para colheitadeiras e kits de produtos.

Continuação Quadro 1: Ações de Mobilização dos Públicos do Programa Mais Alimentos Fonte: elaborado pela autora (2011).


Ao abordar as funções do profissional de Relações Públicas no programa Mais Alimentos, é necessário, antes, atentar para os estudos de teóricos que buscam nortear este profissional num conjunto de ações indispensáveis ao exercício de suas atividades fundamentais. Essas ações mereceram atenção de Kunsch (2003), que resumiu o tema apontando as quatro funções essenciais deste profissional: função administrativa, função estratégica, função mediadora e função política, também estudada por Simões (1995). A partir das funções estabelecidas por Kunsch (2003), foi desenvolvido, para esse trabalho, uma matriz de observação e análise dessas funções na implementação do Programa Mais Alimentos, como pode ser observado a seguir.


Trabalhar com diferentes públicos é função inerente ao profissional de Relações Públicas, pois públicos são a “matéria prima” de relações públicas (ANDRADE 1983, p. 22). E mais: facilitar a discussão e fornecer todas as informações para o bom debate público “é tarefa de responsabilidade direta e imediata de Relações Públicas” (ANDRADE,1983, p.19). A gama de públicos com os quais o SIMERS interage, no ano de 2008 foi enriquecida pela chegada de um tipo de trabalhador até aquele momento distante: o agricultor familiar brasileiro. O distanciamento deve-se, fundamentalmente, ao que o Estatuto Social da Entidade determina como razão de sua constituição: “elaborar estudos, defender, coordenar e representar legalmente a categoria econômica da indústria de máquinas e implementos agrícolas, na base territorial abrangida por todos os municípios do Estado do Rio Grande do Sul”. Ou seja, o agricultor familiar não está incluído. O Projeto de Interiorização do programa Mais Alimentos desenvolvido pelo SIMERS, teve efeito na realização de reuniões abertas, com a presença de todos os atores envolvidos no programa, fossem eles públicos diretos ou indiretos, tais como extensionistas da EMATER, bancários, agricultores, funcionários de fábricas, políticos, imprensa, entre outros. Nesses encontros, os presentes tinham liberdade de fazer questionamentos e apresentar suas propostas para aperfeiçoamento do programa. Um público é formado quando um grupo de pessoas possui um tema em comum sobre o qual debater (FORTES, 2003). No caso do Mais Alimentos, como já foi demonstrado, são muitos os públicos, alguns dos quais estratégicos para a consolidação do programa, pois são a parte interessada, os stakeholders8, em seus benefícios diretos, ou ainda, são seus viabilizadores. Análise dos resultados A análise dos resultados orienta-se pela relativização do campo de atuação do profissional de Relações Públicas com as funções que lhe são atribuídas sob a ótica de Kunsch (2003). Também Grunig e Ferrari (2009), Simões (2005) e Duarte (2009) dão suporte teórico na identificação das funções do profissional de Relações Públicas para além das mencionas por Kunsch (2003), mas que contribuem para a ampliação do horizonte da atuação deste profissional. Esta análise partiu da investigação através da observação participativa e da observação direta, quando da implementação do programa de governo denominado Mais Alimentos, cujo 8

O conceito stakeholder foi originalmente definido como aqueles públicos de relevância tal que, sem o suporte deles, as organizações poderiam deixar de existir” (RODRIGUES, 2010, p 135).


cenário permitiu uma pesquisa exploratória, de caráter qualitativo. Esta pesquisa foi efetuada através da observação de um fenômeno inserido na vida real, e que denota a relação públicoprivado, onde os atores constituem uma diversificada rede de públicos no programa. As provas que constituem a relevância do estudo apresentado podem ser observadas no alcance social da política pública Mais Alimentos e as oportunidades de aplicação das habilidades do profissional das Relações Públicas para sua efetivação. A pesquisa foi incrementada através da observação dos registros gerados a partir das rotinas dos atores envolvidos no programa; na observação da mudança de status social ou econômico destes; e nos dados numéricos resultantes do envolvimento de cada um dos públicos do programa: agricultores familiares, indústrias, organizações parceiras, agentes financeiros e governo brasileiro (Ministério do Desenvolvimento Agrário). Neste trabalho, com base nos teóricos de Relações Públicas, em especial Kusch (2003), visualizou-se as ações e suas relações do Programa Mais Alimentos com cada uma das funções de Kunch (2003), como pode ser observado no quadro a seguir. Função Administrativa Administrar

Função Estratégica Construir Desempenhar Estudar

Função Mediadora

Função Política Administrar

Construir Desempenhar Observar Representar Comunicar Dialogar

Comunicar Comunicar Dialogar Dialogar Entender Posicionar Posicionar Quadro 2: Práticas comuns das funções de Relações Públicas. Fonte: Elaborado pela autora com base no quadro 8 (2011).

Estudar Observar Representar Comunicar Dialogar Entender

As funções do profissional de Relações Públicas, delimitadas como quatro principais segundo Kunsch (2003), já mencionadas neste trabalho, norteiam a análise dos resultados deste estudo de caso, quando foi possível identificar sua aplicabilidade nas ações implementadas. Assim, comparadas às ações, pode-se perceber no quadro acima, que a mesma ação contempla uma ou mais funções de acordo com a sua característica, visto que a identificação de uma função em determinada situação, não exclui as demais. Destacamos que “dialogar” e “comunicar” são pré-supostos das Relações Públicas que segundo Grunig (2009, p. 28) “são a maneira pela qual as organizações comunicam-se com seus públicos”. A identificação das quatro funções das Relações Públicas no cenário da implementação do programa Mais Alimentos foi possível não somente pelos resultados


tangíveis, tais como atas, listas de contatos, volume de vendas, entre outros. Percebeu-se juntamente, a caracterização do exercício das Relações Públicas mediante a observação de outros aspectos que são próprios do profissional, representados num conjunto de itens que podem ser observados no quadro a seguir, denominado Composto de Atribuições. Pode-se perceber que um item não exclui o outro, entretanto, a delimitação das funções tal como Kunsch (2003) orienta, permitiu que quase não houvesse repetições destas atribuições. Assim, pode-se dizer que as características e a aplicação consciente de ferramentas próprias de cada função, cooperaram para que os objetivos das ações fossem alcançados. Considerações Finais Este estudo de caso permitiu um conhecimento mais aprofundados sobre as políticas públicas voltadas para a agricultura familiar brasileira e especialmente sobre o programa visto que a pesquisa deu-se no âmbito da construção do referido programa. Percebeu-se a aplicação de ferramentas próprias dos profissionais de Relações Públicas, dada a diversidade dos públicos participantes do programa Mais Alimentos e a complexidade destas relações em que setores do governo e da sociedade se apresentam em sistema de cooperação. Foi possível observar os “contornos e conexões existentes entre o público e o privado [...] se interpenetrado em função de suas ações concretas e a favor de interesses maiores da sociedade como um todo” (NOVELLI, 2007. p.234). No programa Mais Alimentos esta interpenetração foi manifestada em diferentes circunstâncias e, em todas elas, verificou-se a aplicação das práticas das Relações Públicas mediando os diálogos, desenvolvendo processos e aplicando ferramentas nas quais o posicionamento do profissional exigiu plena consciência do saber fazer com responsabilidade. Com os resultados obtidos quanto os desdobramentos da implementação do Programa Mais Alimentos para a sociedade, percebeu-se que os interesses de determinados agentes de influência interferem no curso da história de muitos. Assim, a gestão da comunicação mostrou-se, mais uma vez, fator determinante para transparência e igualdade na mediação dos relacionamentos, pois através dela é possível combater tentativas de vantagens de uns sobre outros, especialmente em situações, como esta, onde o interesse econômico pauta o diálogo. Sob esta ótica, ficou evidenciada a importância da Função Política como instrumento de mediação nas relações de poder existentes na construção e implementação do programa Mais


Alimentos, pois, se de um lado a indústria defendia seus interesses, também o Governo e os agricultores familiares defendiam os seus. Durante o período de observação de cada uma das ações implementadas ao longo dos últimos três anos de existência do programa, foi possível tangenciar paralelamente, outros aspectos nas organizações envolvidas no que se refere a sua cultura e forma de administração. Como exemplo, notou-se que determinadas organizações e empresas, embora tenham bem estruturados a maioria dos seus setores internos, conferem ao marketing todas as atribuições de um departamento de comunicação e colocam todos os públicos no mesmo patamar, fato que pode provocar distorções no fluxo comunicacional. A isso somam-se problemas de comunicação interna e comunicação institucional. Também foi possível observar que a legitimidade e alcance social do programa Mais Alimentos, desencadeou fenômenos paralelos ao seu objetivo principal de “financiar projetos de modernização da infraestrutura das propriedades familiares” (BRASIL, 2010) no meio rural, tais como o recuo do êxodo rural entre os jovens, uma vez que a unidade agrária de seus pais, por estar melhor aparelhada para plantar, colher, armazenar, irrigar, etc, lhe oferecem condições menos penosas e mais viáveis de trabalho, assim como algumas mulheres ampliaram sua fonte de renda realizando trabalhos alternativos e diversificando a produção. Pode-se também perceber que entre as entidades parceiras (ABIMAQ, SIMERS e ANFAVEA) houve aproximação e diálogo em favor de um setor que lhes é comum: a produção industrial. O SIMERS ampliou o número de associados e aproximou-se mais dos antigos graças ao exercício das funções Administrativa e Estratégica das Relações Públicas. Em todos estes desdobramentos notabilizou-se o papel da comunicação como fator de apoio para uma construção onde todos os públicos direta ou indiretamente atingidos, são beneficiados desde que atuem cientes da interdependência com os demais parceiros. Todos estes fatos nos remetem a França (2006, p. 215) para quem no exercício das Relações Públicas, “a reciprocidade é lei”. Do ponto de vista da construção de uma política pública pode-se ver neste estudo de caso, a possibilidade de uma releitura da relação entre o público e o privado através da atuação de profissionais de Relações Públicas e até mesmo, a desconstrução da ideia de um engessamento por parte do sistema público e sua relação com a sociedade. Novelli (2007, p. 225) corrobora dizendo que “em uma sociedade mais flexível e em constante mutação, conceitos fortemente estruturados [...] se encontram em fase de novas definições, como é o


caso da fronteira entre público e o privado”, vê-se neste contexto a presença da função Mediadora como instrumento para legitimar estas relações. Mediante a pesquisa e reflexões feitas até aqui, foi possível vislumbrar no exercício da cidadania e na busca pelo rompimento das diferenças sociais, sejam elas políticas, culturais ou econômicas, um campo propício para o exercício das Relações Públicas, cujo profissional está habilitado a diagnosticar e propor alternativas na mediação dos diálogos em diferentes ambientes. O olhar de Kunsch (2003) delimitando as funções do Relações Públicas em Administrativa, Estratégica, Mediadora e Política, permitiu a condução da pesquisa em uma direção bem definida, fato que não omitiu a percepção dos muitos cenários e possibilidades de atuação deste profissional, antes ressaltou alguns aspectos da relação público-privado pouco observados. O ineditismo da forma de implementação da política estudada e suas relações com seus diversos públicos, foram determinantes para este novo olhar. Notou-se que todas as pesquisas sobre o tema proposto e todas as suas especificidades não foram suficientes para esgotá-lo, e podem se constituir numa ceara onde há muito a ser colhido. Buscar melhor compreensão sobre a atuação do profissional de Relações Públicas em camadas emergentes da economia do país tal como a agricultura familiar brasileira pode ser importante. Assim entende-se que a pesquisa se constitui num meio para nortear a sociedade na direção daquilo que pode torná-la melhor, mais justa e igualitária.

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As funções do profissional de RP no cenário da implementação do Programa Mais Alimentos