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PRÓLOGO 1859 – Londres, Inglaterra A bela jovem trazia o rosto banhado em suor, franzia a testa, denunciando a enorme dor que heroicamente suportava sem fazer alarde. Seus lábios tremiam num ricto de dor e felicidade. Pessoas andavam apressadas pela sala. De repente, um choro de bebê ecoou pelo quarto. Alívio e alegria para todos. – Meu amor – disse o jovem pai com muita emoção –, é um menino! É um menino!

A RELÍQUIA 1856 – Cambridge, Inglaterra – ... assim, caros alunos – ensinava Sir Oliver Stwart, renomado professor do King’s College –, foi na batalha de Bosworth Field, no ano de 1485, que Henry Tudor venceu o exército de Ricardo III, sendo, em seguida, coroado como Henrique VII. – O mestre fez uma breve pausa, e arrematou: – Com isso chega ao fim a Guerra das Rosas. E, de nossa parte, terminamos esse fascinante capítulo da história da Inglaterra. No entanto, vou pedir para que os ilustres alunos me apresentem um trabalho, o mais detalhado possível, sobre esse período de nossa história. Sugiro que façam o trabalho em duplas, porém irei aceitar trabalhos individuais. Quero isso para depois de amanhã, e não vou tolerar qualquer tipo de atraso! Num instante, um murmúrio de desaprovação ressoou pela sala. Contudo, nenhum dos alunos ousou contestar o enérgico professor. Ao perceber a reprovação da sala, Sir Oliver discursou com veemência: – Senhores, eu percebo o vosso natural desapontamento com relação ao tempo para a entrega do trabalho. No entanto, sei que não estou entregando essa tarefa para crianças, mas sim para homens do King’s College de Cambridge que, num futuro próximo, conduzirão os caminhos da Inglaterra. No mundo que nos defronta lá fora não há lugar para indefinições, medo e preguiça, mas determinação, coragem e ousadia. Os senhores são a elite intelectual deste país, e é esse pensamento que deve nortear todas as vossas decisões e atitudes. O mestre puxou seu relógio de bolso e, à maneira inglesa, consultou calmamente a hora. Após um breve intervalo de tempo, voltou a fixar os olhos em seus alunos:


– Senhores, por hoje é só. Continuaremos os nossos trabalhos na sextafeira – concluiu Sir Oliver enquanto juntava seu material de trabalho, disposto sobre a escrivaninha. Os alunos, sem alarde, reuniram os materiais de escola e foram, aos poucos, deixando o recinto. Tão logo ganhavam o ambiente externo, os jovens passavam a comentar os exigentes trabalhos pedidos pelo mestre. – John – disse William com expressão de desapontamento –, Sir Oliver vai certamente nos deixar loucos com tantos trabalhos. Como será possível contar uma história de décadas em apenas dois dias? William Kenward era um inglês típico, alto, cabelos castanhos, muito inteligente e com ótima memória. Porém não era muito afeito aos esportes e, naquele momento, estava um pouco acima do peso. – William, meu caro – respondeu com a mesma expressão de desapontamento estampada no rosto –, teremos de nos desdobrar, pois o mestre não aceitará pequenos resumos. Com certeza, o melhor seria fazer esse trabalho em dupla. – Concordo, podemos dividi-lo em duas partes, e cada um de nós se encarregar de compor uma. Depois juntamos e fazemos os ajustes necessários. O que acha? – Estou de acordo. Podemos descansar um pouco, almoçar e depois nos encontrarmos na biblioteca. – A que horas? – indagou William. – Sugiro às quinze horas e trinta e dois minutos. Está bem para você? – Sim, para mim está perfeito! Os dois amigos atravessaram uma parte do campus, conversando sobre outros assuntos, próprios da juventude masculina, como as belezas naturais do sexo oposto. E logo após, seguiram caminhos diferentes, com a promessa de se encontrarem novamente à tarde na biblioteca. John McBrian também era um típico inglês, com um metro e oitenta de altura, magro, pele branca e cabelo castanho escuro. Contava com seus 20 anos de idade e estava, nesta fase de sua vida, totalmente focado nos estudos. O pai de John, Sir Morgan McBrian, era um próspero industrial da área têxtil, com os negócios em franca expansão. Possuía uma moderna fábrica de tecidos nas imediações de Londres e seu maior desejo era preparar o seu filho único, John, para, no futuro, assumir os negócios da família, a fim de libertar-se para se dedicar mais à política. Por sua vez, John era fascinado pelo trabalho de Charles Darwin, que conhecia por meio de uma aula ministrada por Sir Oliver. As viagens e pesquisas do médico e naturalista britânico, embora ainda não tivessem sido publicadas, eram conhecidas por alguns amigos mais próximas. Porém, naquele preciso momento, John não conseguia tirar de sua cabeça


o extenso trabalho que deveria entregar para o exigente curso em que estava matriculado. O grande problema não estava na pesquisa sobre o assunto em questão, pois a faculdade contava com uma excelente biblioteca, mas na montagem do trabalho, que deveria ser manuscrito e conter mapas, gráficos e anexos explicativos. O rapaz chegou rapidamente na pequena pensão, situada nas proximidades da universidade, onde dividia um quarto com outros dois estudantes. Logo na entrada encontrou a Sra. Emily Taylor, dona da pensão, uma simpática senhora que contava os seus 50 anos. Sua vida era cuidar dos jovens que vinham de todas as partes da Inglaterra para estudar em Cambridge. – Boa tarde, senhora Taylor – cumprimentou John com elegância. – Muito boa tarde, senhor McBrian – replicou Emily com um meigo sorriso no rosto. – Como estão os estudos na faculdade? O senhor me parece um pouco cansado. – Na verdade, esses últimos dias têm sido trabalhosos, mas estou bem. Apenas com um pouco de fome – respondeu reticente, esperando um convite formal para o almoço. – Ah! Menino, então vamos comer que o almoço já está pronto. – Convidou a gentil senhora, quase cantarolando. *** Conforme combinado, os dois amigos se encontraram na biblioteca precisamente às quinze horas e trinta e dois minutos. E, em virtude da extensão do trabalho, não perderam tempo. Entraram no prédio e solicitaram os livros necessários. O velho relógio de pêndulo parecia girar feito pião. Quando se deram conta, já era quase sete horas da noite. De forma gentil, a bibliotecária veio avisar que o recinto fecharia em alguns minutos.

– Nossa! – exclamou William. – Eu não percebi o tempo passar! Ainda bem que conseguimos adiantar bastante a pesquisa. – É verdade – concordou John com ar de cansado –, foi exaustivo. Quando chegar ao meu quarto, vou transcrever essas informações para o trabalho definitivo. Irei aproveitar e levar este velho manuscrito para ver se encontro algumas curiosidades para enriquecer o trabalho. – Perfeito. De minha parte irei preparar todos os gráficos, mapas e tecer os comentários. Dali a poucos minutos, os dois jovens se despediram, cada qual tomou o caminho para sua residência. A noite prometia ser longa. Teriam de trabalhar duro para que fosse possível dar conta da tarefa. Às sete e trinta da noite, John já estava em seu quarto, debruçado sobre a escrivaninha, à luz de uma velha lâmpada a óleo. Aproveitou que não era ainda muito tarde para transcrever parte do trabalho e assim garantir uma boa caligrafia.


Lá pelas nove, percebeu que já estava exausto. Deixou a escrita de lado e iniciou a pesquisa no manuscrito que trouxera emprestado da biblioteca. O livro era uma relíquia que já devia ter uns cento e cinquenta anos. Nele estavam registrados muitos acontecimentos históricos do norte da Inglaterra. John manuseava o livro com extremo cuidado, pois, sendo amante da literatura, procurava sempre proteger ao máximo os livros. Encontrou várias curiosidades que certamente iriam valorizar o trabalho solicitado por Sir Oliver. De repente, ao virar a página, percebeu que aquela era ligeiramente mais grossa que as demais. Examinando mais detidamente notou existirem duas páginas coladas. O rapaz começou a verificar a estranha colagem e percebeu que as folhas haviam sido cuidadosamente coladas apenas nas bordas, de modo que o meio fi casse livre, formando um tipo de envelope. Ficou claro que a colagem tinha sido feita com o propósito de tornar-se quase invisível. Num primeiro momento, imaginou que alguém teria colado as páginas para esconder parte do texto. No entanto, os textos escritos nas folhas adjacentes não estavam truncados, dando a impressão de que o próprio escritor havia feito tal colagem. Teria sido para esconder algum erro grave de grafia? Ou talvez o intuito do escritor seria esconder algo que não deveria ser lido. O moço ficou extremamente curioso e começou a examinar com mais atenção, procurando encontrar alguma maneira de ler o que estava no interior daquelas duas folhas de papel. Não seria uma tarefa fácil, pois as páginas daquele antigo livro estavam bastante deterioradas. E a última coisa que ele faria na vida era destruir um livro, qualquer que fosse ele. O estudante continuou tateando-as com cuidado e notou que havia uma terceira folha solta entre as duas páginas coladas. O que seria isso? – pensou quase em voz alta. Depois de algum tempo de análise, percebeu que não seria possível separá-las sem causar um certo dano ao livro. Havia ainda o fato de o livro ser único. O que fazer? – pensou. Devolver o livro para a biblioteca sem saber o que estava escrito entre as folhas coladas era uma hipótese que o jovem McBrian não queria considerar. Examinou as outras páginas da relíquia e constatou que apenas aquelas duas folhas estavam coladas. Não havia mais nada de estranho naquele livro. Como deveria proceder? – questionava-se O estudante se deu conta de que havia ainda muito que fazer para concluir o trabalho solicitado pelo mestre de Cambridge. De repente... – Sir Oliver! – exclamou em voz alta, lembrando do professor que, certamente, se interessaria muito pelo achado. Decidiu, então, que iria, logo pela manhã, procurar pelo mestre para mostrar-lhe a estranha colagem no livro e, certamente, com a ajuda do senhor Stwart, poderia tomar uma boa decisão sobre o quê fazer.


Voltou a se concentrar no trabalho da escola, deixando de lado a relíquia da biblioteca do King’s College. Vez por outra, o estudante pousava os olhos sobre o livro com o espírito ardendo em curiosidade. O cansaço do dia unido à fraca luz bruxuleante da lâmpada a óleo foram minando a resistência de John, que se esforçou ao seu limite com a intenção de permanecer acordado. Porém, num dado momento, reconheceu que deveria descansar. Assim, apagou a lâmpada e se recolheu para o sono reparador. *** Acordou com pássaros cantando em sua janela, abriu os olhos e imediatamente se lembrou do livro. Num salto, levantou-se da cama, olhou por bastante tempo para o velho manuscrito sobre a mesa enquanto seu cérebro trabalhava intensamente no sentido de encontrar alguma maneira de soltar as duas páginas. Por fim, vestiu-se e desceu para a cozinha, onde a bondosa senhora Emily já preparava o café da manhã.

– Bom dia, senhora Taylor! – Bom dia, senhor McBrian! Como passou a noite? Percebi que se recolheu tarde ontem. – Ah sim, espero não ter atrapalhado a senhora, mas é que temos um extenso trabalho para entregar amanhã – explicou-se com certa preocupação. – Não, não me atrapalhou em nada. Normalmente eu costumo deitar-me mais tarde e percebi que a luz do seu quarto estava acesa. Vamos, coma a sua refeição, não queremos que ela esfrie, não é? – Claro que não. Durante o café da manhã, John não parou de pensar no livro e chegou à conclusão de que o melhor seria ir até a residência do professor e mostrar o seu achado. *** A casa do mestre ficava a uns trinta minutos de caminhada. Durante o percurso, o rapaz conjecturava em como ele interpretaria a questão. Poderia simplesmente não se interessar e julgar a colagem das páginas de um velho livro uma questão trivial que não merecesse maior atenção. Era um risco que teria de correr, pois nesse caso não lhe restaria outra coisa a não ser devolver o livro para a biblioteca e esquecer o assunto. Por outro lado, conhecendo-o como o conhecia, era muito mais provável que Sir Oliver ficasse tão curioso, até mais que ele próprio, e não descansasse até encontrar uma maneira de abrir aquelas folhas. Esse pensamento o animava sobremaneira. A residência do mestre já estava à vista. John hesitou por um instante. Seria isso mesmo o melhor a fazer?


Olhou para o livro, fechou os olhos como se estivesse conversando consigo mesmo. Então, encheu os pulmões de ar, tomou coragem e se dirigiu para a entrada da casa com passos decididos. *** No escritório de sua casa, o professor estava compenetrado na leitura de uma monografia. – Senhor Stwart – disse a empregada timidamente, meio cabisbaixa –, desculpe-me interrompê-lo, mas um de seus alunos está à porta e gostaria de falar com o senhor. Sir Oliver olhou para a moça enquanto levantava apenas uma sobrancelha, como era de seu costume: – Aluno? Que aluno? – perguntou ao mesmo tempo que fechava o livro em suas mãos. – O rapaz diz chamar-se McBrian, senhor, John McBrian – respondeu a empregada quase dando um passo para trás. Emma Balding era uma jovem que contava seus 18 anos e vivia num vilarejo nas imediações de Cambridge. Há alguns meses trabalhava na residência do mestre do King’s College. Nunca tivera a oportunidade de estudar como gostaria e na infância mal aprendeu a ler. Agora, seu maior sonho era poder se casar com um rapaz por quem nutria paixão e carinho. Sir Oliver levantou-se, deixou o livro sobre a escrivaninha. – John McBrian? – disse, tentando se lembrar do aluno. – Onde ele está? – Na sala de estar, senhor. – respondeu prontamente Emma. – Sim, vamos lá recebê-lo – falou o catedrático. Sir Oliver Stwart era um homem alto, de porte físico vigoroso, embora seus cabelos grisalhos denunciassem a posição de homem maduro. Trazia sempre consigo seu cachimbo e usava um monóculo quando necessitava ler. Sua face era marcada por um largo bigode e um cavanhaque à moda da época. O professor entrou na sala de estar, onde o aluno estava distraído contemplando uma bela tela que parecia ser uma autêntica obra de Edward Calvert. O mestre, após observar um instante, pigarreou de leve para anunciar sua presença. Com um sobressalto, John voltou-se maquinalmente para o renomado professor: – Sir Stwart, bo...bom dia! Desculpe-me se estou atrapalhando, mas é que... – gaguejava o texto que tinha ensaiado durante todo caminho da pensão até a casa do professor. – Acalme-se, meu rapaz – articulou o educador enquanto dava uma baforada em seu inseparável cachimbo. John encheu os pulmões de ar e começou a contar a pequena história de seu misterioso achado. – Senhor Stwart, ontem, durante uma pesquisa que eu estava fazendo para compor o trabalho sobre a Guerra das Rosas, me deparei com uma situação, no mínimo, estranha.


– Como assim? – perguntou tomado de certa curiosidade. – Na busca por enriquecer o trabalho com mais detalhes, peguei este livro na biblioteca da faculdade. E quando folheava o livro na minha escrivaninha, percebi que duas folhas do livro estavam coladas. Uma colagem feita com muito cuidado, dando a impressão de que a pessoa que a fez queria esconder algo dentro. – Que livro é esse? Voltou a inquirir o mestre do King’s College. – O título é War of the Roses. Trata-se de uma verdadeira relíquia que conta a história da Guerra das Rosas – respondeu ao mesmo tempo em que entregava o livro ao professor. – Vejamos – murmurou enquanto dava outra baforada no cachimbo –, onde estão as páginas coladas? – Estão aqui. – indicou com rapidez, feliz pelo interesse do mestre. O professor passou a analisar com cuidado a estranha colagem das páginas e, tal como aconteceu com John, foi ficando cada vez mais intrigado. – Parece-me, meu rapaz – observou, quase falando consigo mesmo –, que existe uma terceira folha no interior, entre estas duas. – Sim, senhor – replicou rapidamente. – Eu também tenho a mesma impressão. – Vejamos – continuou o professor –, vamos abrir para ver o que tem aqui dentro. Diante dos olhos estupefatos de John, o mestre puxou um pequeno canivete que sempre trazia consigo e cuidadosamente cortou a borda inferior das páginas. John não disse uma palavra sequer. Na verdade, ficou assustado com a praticidade do professor. – Veja, senhor McBrian. Realmente existe uma terceira folha no interior, porém parece ser bem mais velha que o livro! John esticou-se todo para ver o papel através da fenda aberta pelo mestre. – Senhor – disse com entusiasmo –, parece que existem inscrições nesta folha. – Sim, sim, vou tentar retirar a folha. Em função de o papel estar muito velho, Sir Oliver trabalhou com imenso cuidado, demorando cerca de vinte minutos para retirá-lo do local em que se encontrava. O estranho pedaço de papel continha algumas inscrições em inglês, um desenho, além de uma data: Mr. Ollirdal Ortauc, like I promised, here is the key Remember: After tenth day the bad dogs run side by side. Be Humble


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8 august, 1688


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