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A borda extrema do vazio


Arquitetura e Urbanismo - UNISEB Ribeir達o Preto/ SP


“A Borda extrema do vazio” José Saramago


A BORDA EXTREMA DO VAZIO PERCURSO, PASSAGEM E VAZIO

Autora: Maristela Pucci Monteiro Orientadora: Ana Lúcia Ferraz


AGRADECIMENTOS


APRESENTAÇÃO O simbolismo da arquitetura, como toda forma de arte, é muito mais expressivo do que funcional e técnico. Este trabalho tem como objetivo mostrar a importância simbólica da arquitetura, alternando entre o concreto e o sensível, como o material se torna imaterial, a linha tênue existente entre o céu e a agua, a vida e a morte... Especificamente da arquitetura mortuária, o cemitério. Como o arquiteto fornece o espaço, e este é modificado pela integração do usuário com um caráter individual e simbólico, mostrando enfim que a morte cria vida.

Em geral, as inscrições tumulares, fotos e decoração das sepulturas são reveladoras de como a população elabora a morte das pessoas próximas e como o morto é visto pelo seu grupo familiar e social. As inscrições evidenciam uma idealização do morto que é, muitas vezes, apontado com exemplo. As fotos quase sempre mostram os mortos mais jovens e saudáveis, forma de esconder a realidade da morte [...](BELLOMO, 2008, p. 22).


sumรกrio


introdução

O trabalho expõe a espacialidade simbólica na arquitetura, com uma leitura quase que abstrata, mas potencializando as percepções do espaço. O estado primitivo dos valores humanos é demonstrado através dos símbolos, mostram a trajetória oculta em busca do desconhecido, sem qualquer explicação para suas etapas terrenas, o homem criou símbolos para comungar com seu próprio sentimento. Para representar a passagem do homem por este mundo obscuro que é a vida, muitos símbolos foram criados, dela não sabemos nada, somente sobre sua finitude, a morte é responsável por muitos símbolos conhecidos, por uma caveira, por uma ampulheta, mas também a morte pode ser simbolizada por um símbolo de vida eterna como a fênix que sempre renasce das cinzas; neste sentido os símbolos acompanham o homem desde os primórdios da civilização. Este trabalho tem como objetivo classificar os inúmeros símbolos encontrados em estudos de referência, na tentativa de pesquisarmos as inúmeras visões do aspecto da morte e sua moradia, como o projeto torna possível o objeto imaterial. A morte será representada como um percurso, uma passagem e um vazio.

A princípio vão ser estudados dois elementos naturais, a água e a pedra, que com toda sua concretude, torna- se quase que invisíveis, imateriais, na sua representação arquitetônica. Em um segundo instante serão apresentadas leituras projetuais dos cemitérios existentes na cidade de Ribeirão Preto, mostrando todo o simbolismo e intervenção do usuário modificando o espaço. O cemitério foi escolhido como tema por representar a sensibilidade da arquitetura e do usuário, mostrar que o arquiteto domina uma parte, uma parte ele dá, mas a espera do outro. No caso da morte e de sua moradia, as pessoas precisam se manifestar, o espaço será modificado, pois existirá vida marcada no local. Por fim, será apresentado o projeto de um espaço para a morte, que com a mesma concretude e sensibilidade dará conforto e condições para que o usuário demonstre a vida que um dia existiu.


As cidades e os mortos “O que distingue Argia de outras cidades é que no lugar de ar existe terra. As ruas são completamente aterradas, os quartos são cheios de argila até o teto, sobre as escadas pousam outras escadas em negativo, sobre os telhados das casas premem camadas de terreno rochoso como céus enevoados. Não sabemos se os habitantes podem andar pela cidade alargando a galerias das minhocas e as fendas em que se insinuam raízes: a umidade abate os corpos e tira toda a sua força; convém permanecerem parados e deitados, de tão escuro. De Argia, daqui de cima, não se vê nada; há quem diga: “Está lá embaixo“ e é preciso acreditar; os lugares são desertos. “À noite, encostando o ouvido no solo, às vezes se ouve uma porta que bate.” (CALVINO, 1990, p. 116)


a morte A morte é uma simples mudança de estado, Monteiro Lobato dizia: “quando morremos passamos do estado sólido para o gasoso, mas continuamos a ser os mesmos.” Na natureza nada se perde tudo se transforma como diz a lei de Lavoisier. Nada permanece igual. Não existe morte sem vida nem vida sem morte, fazem parte de um mesmo processo, quase simbiótico. A morte não é um estado, em que se possa encontrar um ser vivo, mas sim a passagem de uma forma de vida para outra forma de vida. A morte é o meio, pelo qual a vida se diversifica e progride na evolução das espécies. A vida e a morte são etapas do mesmo processo, mas não se encontram em pé de igualdade; pelo contrário a vida está em um plano superior, pois não depende da morte para existir, mas a morte sim, esta existe em função da vida. � Cem trilhões de células compõem o nosso corpo; cada uma delas comporta-se como se fosse um ser vivo único, seguindo as regras que regem esse planeta, ou seja, nascem, crescem, reproduzem e morrem; é desta forma que se explica o crescimento, a transformação, o envelhecimento e morte do nosso corpo. Para a maior parte dos homens, a morte continua a ser o grande mistério, o sombrio problema que ninguém ousa

olhar de frente; morrer é fatalidade que nos aguarda e devemos esperar a morte com serenidade e confiança. � A nossa vida é como o por do sol. Desce devagar, baixa, vai enfraquecendo, parece desaparecer um instante por baixo do horizonte, é o fim de sua aparência.

A morte não deveria preocupar-nos, pois nunca coincidiremos; enquanto nós existirmos ela não existirá; quando ela existir não existiremos nós. (Karl Marx)�


Existe uma linha tĂŞnue entre o concreto e o sensĂ­vel, o material e o imarerial,


o céu e a água, entre a luz e a sombra...Entre a vida e a morte...

Espaços de passagem


Necrotério de Léon Bridge Moses ÁGUA

Espaços de passagem A PEDRA

Ossário de Mazzano

Cemitério Santo Stefano

Cemitério de Igualada


“Na água tudo é ‘solvido’, toda ‘forma’ é demolida, tudo o que aconteceu deixa de existir; nada do que era antes perdura depois da imersão na água, nem um contorno, nem um ‘sinal’, nem um evento. A imersão é o equivalente ao nível humano, da morte ao nível cósmico, do cataclisma (o Dilúvio) que, periodicamente, dissolve o mundo no oceano primevo. Quebrando todas as formas, destruindo o passado, a água possui este poder de purificação, de regeneração, de dar novo nascimento... A água purifica e regenera porque anula o passado e restaura - mesmo se por um momento - a integridade da aurora das coisas”

(Eliade, 1964, p. 112).


Na água tudo é ‘solvido’, toda ‘forma’ é demolida, tudo o que aconteceu deixa de existir; nada do que era antes perdura depois da imersão na água, nem um contorno, nem um ‘sinal’, nem um evento. A imersão é o equivalente ao nível humano, da morte ao nível cósmico, do cataclisma (o Dilúvio) que, periodicamente, dissolve o mundo no oceano primevo. Quebrando todas as formas, destruindo o passado, a água possui este poder de purificação, de regeneração, de dar novo nascimento... A água purifica e regenera porque anula o passado e restaura - mesmo se por um momento - a integridade da aurora das coisas” (Eliade, 1964, p. 112).

ÁGUA


Necrotério de Léon

Espanha Arquiteto: Jordi Badia / Josep Val Localização: León, Espanha Projeto: 1999 Construção: 2000 Fotografias: Eugeni Pons


O edifício pensa a arquitetura negativa, para baixo da cota da linha do horizonte, ele é a própria linha do horizonte e o plano de água desmaterializa o edifício tornando-o quase imaterial...

ÁGUA Uma folha de água em cima de uma cobertura, mostra a única fachada, refletindo o céu como uma alegoria da morte.

CÉU=CHÃO

Área verde Convívio coletivo Espaço de velar Espaço de preparação


conexões entre dentro e fora Tudo o que emerge da água são os dedos misteriosos em busca de luz para a oração. Espaço de preparação do corpo

Espaço de orações

Área verde

Espaço administrativo e descanso


ESPAÇOS COLETIVOS

A sala de espera se abre para uma grande inclinação gramada e é forrada com madeira envernizada, grandes tapetes e iluminação indireta para melhorar a sua aparência confortável.

Luz

Área verde


FLUXOS Elevadores para acesso dos corpos

Acesso para visitantes

Circulação para transporte de corpos

Circulação para visitantes


Luz

Entrada estacionamento carros fúnebres

Projeção piso superior

Estacionamento para carros fúnebres


céu

reflexo simbiose céu

água

céu


Moses Bridge

Holanda

Arquitetos: RO&AD architecten Ano Projeto: 2011 Área construída: 50 m² Localização: Halsteren, Holanda Fotógrafo: Cortesia RO&AD architecten Escritório Ro&Ad Architekten

Um canal construído para defender a Holanda de invasões estrangeiras tornou-se cenário de uma bela passarela que, em vez de passar suspensa por cima-d’água, parece estar submersa nela. Ideal para quem sempre sonhou em cruzar um rio sem se molhar,a passarela dá acesso ao Fort de Roovere, uma base militar construída no século 17 e considerada patrimônio cultural da humanidade pela Unesco. De longe, a Ponte de Moisés é invisível aos olhos, já que tanto o solo quanto a água estão ao mesmo nível da ponte. Ao aproximar-se, o Forte se abre ao visitante através desta estreita trincheira. Se pode então caminhar até sua porta, como Moisés caminhou entre as águas.


percurso

vida passagem

morte


O existente que “quase” não existe.

reflexo água mundo negativo


imaterial

etĂŠreo


submersa


PEDRA

Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra. - Mas qual é a pedra que sustenta a ponte? – pergunta Kublai Khan. - A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra – responde Marco-, mas pela curva do arco que estas formam. Kublai Khan permanece em silencio, refletindo. Depois acrescenta: - Por que falar de pedra? Só o arco me interessa. Polo responde: - Sem pedras o arco não existe.

CALVINO, Italo. As cidades invisíveis, Companhia das Letras, 1990, p.79.


Cemitério de Igualada Depois de 10 anos de construção , o cemitério de Igualada, fora de Barcelona, Catalunha, Espanha, foi concluída em 1994, como um lugar de reflexão e de memórias. Por mais que o Cemitério Igualada é um lugar para aqueles que devem ser colocado para descansar, é um lugar para aqueles que virão e refletir na solidão e serenidade da paisagem catalã.

Espanha Arquiteto: Enric Miralles + Carme Pinos Localização: Igualada, Catalunha, Espanha Ano de construção: 1984 - 1994


Texturas de concreto e tubos de metal cruzam a descida da rampa, a natureza ĂŠ ordenada pela mĂŁo do homem.


Dois aspectos bem distintos diferenciam a pedra. Por um lado, e devido a sua brutalidade e arestas, simboliza a natureza grosseira e imperfeita do homem. Por outro, graรงas a sua solidez e estabilidade, reflete sua presenรงa imutรกvel.


O espaço parece tão irregular e inacabado que quase não dá para entender. O feio torna-se belo.

Paredes inclinadas com campos quadrados mostram os nomes de famílias inteiras.


Cemitério de Santo Stefano O objetivo do projeto é a ampliação de um cemitério municípios pequena de Santo Stefano al Mare, no lado norte-oeste da Itália, em frente ao mar Mediterrâneo. A nova intervenção está situada em uma faixa de terra pequena entre a parede do cemitério velho e a maneira mar. Esta faixa é orientado de leste a oeste e corre paralelamente à costa. O nível térreo (5 m) está em um nível intermediário entre o nível do mar (0) e ao nível antigo cemitério (8 m).

Arquiteto: Aldo Amoretti + + Marco Calvi Giancarlo Ranalli Localização: Santo Stefano al mare, IM, Itália Projeto Ano: 2003-2005 Ano de construção: 2005-2006 Fotografias: Aldo Amoretti

Itália


Uma seqüência de blocos prismáticos contemporâneo constitui os túmulos. As aberturas entre um bloco e outro permitem um contato visual constante com o mar.

DESFRAGMANTAÇÃO


material

As aberturas entre um bloco e outro permitem um contato visual constante com o mar.


vazio

descansar nos prismas brancos


Ossários novos e Jardim da Lembrança A filosofia da meditação esta clara no projeto, jardins de pedra com uma certa monumentalidade simbólica. Ossários, caixas empilhadas formada por quatro peças orientadas de variadas formas, são configuradas como objetos autônomos.

Itália

Arquiteto: Gaetano Bertolazzi Fotografia: Alberto Muciaccia Colaboradores: Arch Cavagnini Alexander, Ing Ducoli Carla


Ribeirão Preto

cemitérios


CemitĂŠrio da Saudade


História Cemitério da Saudade O Cemitério da Saudade está localizado no Bairro mais populoso de Ribeirão Preto: Campos Elíseos, no quadrilátero formado pela avenida da Saudade e ruas Flavio Uchoa, Luiz Barreto e Fernão Salles. Nas quatro entradas estão localizados guaritas e banheiros públicos, sendo que na entrada principal – pela avenida da Saudade – fica a área administrativa. No interior do cemitério tem uma Capela e um Cruzeiro com local próprio para queimar velas.

Serviços: Dados Técnicos:

Serviços: Sepultamento Exumação Inumação Construção Limpeza, manutenção e segurança

Dados Técnicos: Inaugurado no dia 30 de setembro de 1.893 Área de 100.000 m² 7.500 jazigos (sem área para novas concessões) 2.622 gavetas ossuárias (muro) 126.868 pessoas sepultadas até 22/10/2012.


Acesso principal


CemitĂŠrio Bom Pastor


História Cemitério Bom Pastor Em novembro de 1972, a CODERP recebe a incumbência de projetar construir e administrar um espaço para atender as necessidades de Ribeirão Preto, pois o cemitério da Saudade já não as comportava.

Dados Técnicos:

Totalmente elaborado pela equipe técnica da Coderp, o projeto foi confeccionado em 1973 após visitas a diversos cemitérios jardins do Estado de São Paulo, entre eles o Morumby, Gethsemoni, Alvorada, e os das cidades de Campinas e Piracicaba. Em junho de 1974, o cemitério Bom Pastor encontrava-se á disposição da população, com uma área de 6 alqueires, cerca de 14 mil jazidos, 4 gavetas e lugar para 4 mil indigentes. Todo ajardinado, já não permitia nenhuma edificação sobre os túmulos.

Localização Localizado na região leste da cidade, Avenida das Lágrimas, no Jardim Zara. O Cemitério Bom Pastro fica próximo a Rodovia Anhanguera, aproximadamente cinco quilometros do marco zero da cidade.


Memorial Parque dos Gisassois


Historia Memorial Parque do Girassóis

Dados Técnicos:

No Memorial Parque dos Girassóis o conceito de cemitérioparque ganha uma nova dimensão. O projeto tem 242 mil m², localizados em uma área total de 600 mil m² na zonz sul da cidade. No entornio da área destinada aos jazigos será implantado um extenso cinturão verde formado por árvores nativas. O cenário se completa com um gramado repleto de árvores, jardins e uma área de reserva ambiental. Um projeto arrojado e desenvolvido para oferecer o máximo de aconchego e comodidade em todos os momentos.

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242 mil m² de área total na zona sul Grande reserva ambiental Seis salas de velório Cafeteria Sala de estar Estacionamento com 300 vagas Capela Ecumênica


área

intervenção


Fazenda Experimental

A ESTAÇÃO DA FAZENDA EXPERIMENTAL de Ribeirão Preto, é uma estação do INSTITUTO AGRONOMICO de Campinas ( IAC), que faz parte da SECRETARIA DA AGRICULTURA E ABASTECIMENTO do GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Sendo que, de acordo com o PLANO DIRETOR da cidade de Ribeirão Preto, consta que, 50% de sua área (no mapa escolhida aleatoriamente) está destinada a área de Interesse social, de acordo com o mapa de áreas especiais.

Área escolhida

O percurso representando a vida. Detalhe do mapa de áreas especiais da cidade de Ribeirão Preto


Topografia demonstra baixo risco ambiental

Cota altimĂŠtrica de 570 m


FAZENDA EXPERIMENTAL

ÁREA DE INTERVENÇÃO

O percurso representando a vida.


O percurso representando a vida.


O percurso representando a vida.


DIRETRIZES VIÁRIAS: HIERARQUIA VIÁRIA FUNCIONAL

LEGENDA

TEXTO


DIRETRIZES VIÁRIAS: HIERARQUIA VIÁRIA FÍSICA

LEGENDA

TEXTO


A borda extrema do vazio.