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Mariana Pedroso

Na onda do surf adaptado Um trabalho sobre surf e inclus達o social


Mariana Pedroso

Na onda do surf adaptado Um trabalho sobre surf e inclusão social Sob a orientação do Prof. Ms. Elizeu do Nascimento Silva

Atibaia, SP 2011


Para toda a comunidade do surf. Aloha!


Agradecimentos Primeiramente, quero agradecer a Deus por me proteger nos dias de chuva, e me

orientar quando tudo parecia perdido. Ao meu avô, Mauro, por ter feito parte da minha vida e me ajudado a ser quem eu sou hoje. Ao meu pai e melhor amigo, Sergio, por me

ensinar a amar o oceano e aproveitar a vida, por seu carinho e companheirismo durante todo este percurso. À minha mãe e melhor amiga, Suzete, por dividir comigo sua paixão pelos livros e pela arte, por seu amor incondicional e incomensurável.

Muito obrigada também aos meus dois irmãos, Henrique e Letícia, meus grandes amigos e companheiros de quarto, por todas as risadas, brigas, noites em claro assistindo

desenho e tudo o que faz parte da rotina vivida entre irmãos. Ao meu namorado querido, Diogo, por me acompanhar nas viagens, rir e enlouquecer junto comigo, pelo seu amor

sem tamanho e por sua dedicação sem fim. À minha avó, Rosina, e à minha madrinha, Aurea, por vibrarem com todas as minhas vitórias e preencherem meu coração de

carinho. Aos meus dois mais novos irmãos, meus cunhados Mayara e Henrique, por comemorarem cada etapa vencida.

Quero agradecer também aos meus sogros, Antônio e Helena, e à minha querida cunhada Juliana, pelo carinho e preocupação. À Manuelle Fontes Nogueira, e à


eterna equipe da BR22, Estevão Vernalha, Luiz Beltrami e Carol Serreto, pela chance que me deram e pela amizade construída em pouco mais de um ano de trabalho. Aos amigos, tios e primos, que acompanharam de perto a loucura da estudante que vos fala, no ano do TCC.

Obrigada aos mestres da FAAT Faculdades, Osni Dias, Giuliano Tosin, José Roberto Gonçalves, William Araújo, Flávia Amaral e Moriti Neto, por dividirem seu conhecimento comigo nesse último ano de curso. Ao meu querido orientador, o professor Ms. Elizeu do Nascimento Silva, pela grande ajuda e parceria nessa empreitada. À Melina Souza, pela gentileza de me ajudar com a realização deste trabalho.

Por último quero agradecer aos surfistas Valdemir Corrêa, Henrique Saraiva, Andre Souza, Alcino

Neto, Monique Oliveira, Octaviano Taiu Bueno, Gabriel Cristiano, Ricardo Tatuí e Robledo de Oliveira, aos educadores físicos Francisco Araña, Eduardo da Silveira, Luana Nobre e Renato Bissolotti, aos

psicólogos Yara Pedroso, Leandro Kruszielski e Mariú Casselli, ao shaper Neco Carbone, a Miguel Jorge, da HT Surf, a Gary Blanschke, da Disabled Surfers Association, a Ricardo Gonzalez, do Instituto “Novo

Ser”, ao jornalista Antonio Zanella, à deputada federal Mara Gabrilli, aos fotógrafos Bruno Lemos, Elza Albuquerque, Diana Bueno, Fabio Minduim, Regina Tolomei e Felipe Tolomei, ao ilustrador Stewardt Alex Perius, e às produtoras de “Aloha”, Paula Luana Maia e Carol Araújo, por tornarem esse sonho meu possível.


Índice Apresentação..................................................................................................................11

Nota da Autora: Eu tenho; não porto!.....................................................................13

Prefácio............................................................................................................................17

Introdução: Um Breve Mergulho na História do Surf Adaptado.....................20

Capítulo 1: Heróis......................................................................................................... 32

Transformação.................................................................................................36

Diferenças Invisíveis........................................................................................47

Aspectos Psicológicos......................................................................................59

Inclusão que não Exclui..................................................................................41

Surf e Saúde......................................................................................................56

Capítulo 2: Anjos na Praia.........................................................................................68

Surfistas e Professores....................................................................................73

Surfando com ONGS e Escolas de Surf......................................................88

Especialização..................................................................................................80

Responsabilidade Social................................................................................95

Alunos de Ouro................................................................................................115 9


Capítulo 3: Guerreiros das Ondas...........................................................................128

Vitória................................................................................................................132

Muito Trabalho.............................................................................................. 140

Prancha Adaptada.........................................................................................138

Tecnologia a Favor das Ondas.................................................................... 148 Equipamentos Adaptados............................................................................154

Praia para Todos.............................................................................................162

Corpo Adaptado............................................................................................ 169

Mais Surfe Aqui..............................................................................................183

Sociedade Deficiente..................................................................................... 194

Capítulo 4: Um Aloha à Inclusão........................................................................... 180

Amizade e Parceria....................................................................................... 189 Juntos...............................................................................................................205

Considerações Finais..................................................................................................211

Posfácio..........................................................................................................................216

Bibliografia...................................................................................................................218

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Apresentação Surfar.

No dicionário, o verbo originário da palavra surf, cujo significado é “rebentação das ondas”, se refere ao ato de “deslizar sobre a onda, da crista até a base , fazendo uso de uma prancha”.

Mas, para algumas pessoas, surfar é mais do que isso: representa um estilo de vida, o contato com a natureza, e principalmente, a chance de ser sentir incluído, aceito e respeitado. Na Onda do Surf Adaptado, de Mariana Vasconcellos Pedroso, é um livro-reportagem sobre surf para pessoas com deficiência.

Baseado em entrevistas e relatos de praticantes da modalidade, surfistas profissionais, educadores físicos, psicólogos e representantes de ONGs, a obra tem o objetivo de retratar a realidade do esporte, e apresentar os benefícios físicos, emocionais e psicológicos proporcionados pelo mesmo. Sob orientação do professor Ms. Elizeu do Nascimento Silva, este livro é parte-integrante do Projeto Experimental da aluna, requisito parcial para a formação em Jornalismo, na FAAT Faculdades.

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Nota da Autora: Eu tenho; não porto! Quando comecei a escrever este livro, em maio de 2011, a minha maior

dificuldade foi encontrar o termo correto para me referir aos personagens que ilustrariam o projeto.

Depois de muita pesquisa e leitura, me deparei com quatro possibilidades:

portadores de deficiência, deficientes, portadores de necessidades especiais e pessoas com deficiência.

Num primeiro momento, a segunda opção não me agradou muito: o termo soou-me segregador1 e ofensivo. Além disso, de acordo com um pequeno

manual elaborado pela Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência,

intitulado “Toque aos Jornalistas”, a palavra “deficiente” não deve ser usada

como substantivo, por passar a impressão de que a pessoa inteira é deficiente. Já a terceira opção, “portadores de necessidades especiais” pareceu-me

excessivamente piedosa, como se desmerecesse as coisas incríveis que estas pessoas podem fazer.

1 Aquilo ou aquele que segrega, que separa nitidamente a fim de isolar ou evitar contato.

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Adotei então, o termo “portadores de deficiência”, que a priori, me parecia apropriado. Entretanto, durante a finalização do texto, comecei a me questionar se havia feito a melhor escolha e voltei a buscar respostas.

De fato, os autores que encontrei têm opiniões muito divergentes, e a maioria construiu suas impressões com base em experiências muito pessoais.

Entretanto, o texto de Ricardo de Melo, deficiente visual e autor do blog

“Movimento Livre”, chamou a minha atenção para detalhes que eu não havia percebido e com os quais me identifiquei de imediato.

“[...] Eu não porto minha deficiência como uma carteira ou uma

casa verifico se minhas chaves estão no bolso, se estou

chave. Eu não tenho a opção de deixá-la em casa. Quando saio de

levando meu cartão de transporte público, meus óculos escuros e meu celular. Se eu portasse minha deficiência, eu provavelmente a esqueceria debaixo das almofadas da sala, de propósito.” (Melo, 2011)

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Para a Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência do Governo do Estado de São Paulo, é importante ressaltar também que crer que deficiência é antônimo de eficiência, é o mesmo que considerar as pessoas com deficiência menos capazes.

Sendo assim, resolvi adotar o termo “pessoas com deficiência”, que curiosamente, foi citado pela maioria dos entrevistados na fase de produção do livro. Segundo um artigo publicado no “Jornal Conversa Pessoal”, da Secretaria de Recursos

Humanos do Senado Federal, o termo adotado pelo livro, não esconde ou camufla a deficiência. Pelo contrário: mostra com dignidade a realidade das pessoas, e valoriza as diferenças e necessidades decorrentes da deficiência2.

Sabe-se que a discussão aqui apresentada, se arrasta desde o início dos tempos, porque ninguém nunca soube ao certo a forma correta para se referir a uma

pessoa com deficiência. Por isso, destaco desde já que o objetivo dessa pequena análise introdutória não é julgar o certo ou o errado, nem ditar quais termos

devem ser adotados daqui para frente, e sim, apresentar a escolha no contexto do livro, e justificar porque eu acredito ser o termo “pessoas com deficiência” o que melhor se adapta ao meu trabalho.

2 JORNAL CONVERSA PESSOAL. Como chamar as pessoas com deficiência? Disponível em: http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal70/utilidade_publica_pessoas_ deficiencia.aspx. Acessado em: 26 de out. de 2011.

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Prefácio Aloha! Conhecemos Mariana Pedroso no começo da produção deste livro. E quando ela nos convidou a escrever o prefácio, foi uma honra.

Quando conhecemos o primeiro surfista adaptado e logo após, conhecemos a história do surf

adaptado, mergulhamos de cabeça na ideia. No começo, para meninas que não surfam, costumam andar de all star e não curtem ir à praia, conhecer e trabalhar com o surf foi uma experiência bem

diferente. Mas quando se trabalha com afinco, independente dos gostos, a pessoa passa a vivê-los como se vivenciasse tudo aquilo. O conhecer, as histórias e o surf adaptado, não nos tornaram viciadas em

praia, não nos fez aprender a surfar, mas nos trouxe tanta bagagem e experiências maravilhosas, que

só quem passou e passa algumas horas ao lado deles, sabe como é. É indescritível a sensação de poder dizer o quão eles são impressionantes.

O que é surf adaptado? Surf adaptado é a modalidade surf, só que adaptada à necessidade de cada

um. Na verdade, é mais que isso. É um momento de união; pessoas com o mesmo propósito, deslizando sobre a mesma onda. É amor, é paixão. Sabe aquela sensação, de ver o nascer do sol na praia, esperando a onda crescer? É disso que estou falando. Surf é vida!

Se surf é vida, surf adaptado é superação. Ver o mundo com olhos de surfista é ver o mundo em

igualdade. Todas as pessoas são diferentes. Cada uma com a sua crença, os seus ensinamentos, os seus 17


costumes. Mas, é no mar que a liberdade se encontra. A onda sela a amizade com um belo “drop”. Depois de todos os acontecimentos da vida, você encontra o surf e, com ele, esquece de todos os

problemas. Surfando você pode ser o Kelly Slater, o Mineirinho... Ou pode ser o Val, o Henrique,

o Taiu... mais que personagens, estrelas/autores da própria historia, que encontraram no surf, o

caminho para a superação. Vocês estão prestes a mergulhar numa onda, que cresce a cada dia. E notarão que, nesta mesma onda, existem vários surfistas com o mesmo propósito: surfar!

Falar de surf, em geral, nos passa pela cabeça: praia, mar, sol e aquele dia perfeito; surfistas bronzeados com suas pranchas, de diferentes tamanhos, para diferentes modalidades; curtindo o mar, a natureza,

junto com os amigos. Falar de surf é como se ao fundo, tocasse a música de Jack Johnson, com as notas soando perfeitamente dentro de nossa mente. O surf adaptado não é muito diferente disso. Pois cada surfista, leva sua prancha de diferentes tamanhos, para que cada um possa surfar, cada um do seu jeito; e mesmo assim, juntos.

O livro “Na onda do Surf Adaptado” entra no mar, vai remando para dentro da história do surf e

apresenta histórias surpreendentes de surfistas adaptados. É um momento de conexão com eles, o

momento que nos sentimos junto a eles deslizando sobre as ondas, e curtindo cada momento que o surf pode nos possibilitar. Trip com amigos. Muita música e onda boa. Isso é surf! Quem vai dizer o que é impossível? Mahalo!

Paula Luana Maia e Carol Araújo

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“Eu posso não ser totalmente perfeito, mas algumas partes de mim são realmente excelentes”. Ashleigh Brilliant


Um breve mergulho na hist贸ria do

surf adaptado

A surfista Monique Oliveira, surfando em uma praia no Rio. Foto: Regina Tolomei

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P

or volta de 1778, um capitão da marinha

britânica,chamado James Cook, desembarcou com sua tripulação na distante Polinésia

Francesa. Em meio a praias coralinas e arquipélagos de

origem vulcânica, o capitão observou a ilha e seus habitantes, até descobrir um curioso ritual dos pescadores locais: eles

deslizavam sobre as ondas, em pranchas feitas de madeira tirada das árvores nativas1.

O relato dos homens que surfavam no oceano foi publicado em “As Três Viagens ao Redor do Mundo: Diários de 1768 a 1780”, uma edição rara de 418 páginas. No mesmo ano em que a

França perdia Jean Jaques Rosseau e Voltaire, o mundo ganhava o surf, uma atividade ao ar livre que se consagraria no Havaí, anos mais tarde.

1 HERÓDOTO. Brevíssima História do Surf. Disponível em: http:// herodoto4.blogspot.com/2005/04/brevssima-histria-do-surf.html. Acessado em: 27 de jun. de 2011.

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Naquela época, o costume polinésio estava fortemente atrelado a

questões religiosas e cada etapa do ritual era dedicada aos deuses.

Por isso, em 1800, a atividade praticada no mar foi interpretada como heresia e proibida por um grupo de missionários protestantes2.

Foi só um século depois, quando o surf já era praticado no Havaí, que a modalidade passou de costume de locais à atividade esportiva. Grande parte dessa transformação teve participação e incentivo do nadador

olímpico Duke Paoa Kahanamoku, que venceu os Jogos Olímpicos de

Estocolmo, em 1912, e declarou ser surfista, despertando o interesse de pessoas do mundo inteiro3.

2 HERÓDOTO. Brevíssima História do Surf. Disponível em: http://herodoto4. blogspot.com/2005/04/brevssima-histria-do-surf.html. Acessado em: 27 de jun. de 2011. 3 WIKIPEDIA. Surfe. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Surfe. Acessado em: 26 de out. de 2011.

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Assim, o estado do Havaí, localizado em

um arquipélago do Oceano Pacífico, ficou

mundialmente conhecido como o lar do surf4.

E de repente, na Califórnia, o esporte das ondas virou mania entre jovens e adolescentes.

Na tentativa de arrebatar a melhor onda, homens e mulheres se metiam no mar, carregando pranchas

de até 80 quilos. Foi só em 1934, com a criatividade do salva-vidas Thomas Edward Blake, que a

prancha rústica de madeira foi aperfeiçoada, ganhando leveza e um acessório: a quilha5.

Diz à lenda que Tom perguntou ao comandante de um barco de competição para que servia o “skeg” (quilha). O comandante, por sua vez, teria dito

que era para ajudar a estabilizar o barco durante 4 WIKIPEDIA. Duke Kahanamoku. Disponível em: http:// pt.wikipedia.org/wiki/Duke_Kahanamoku. Acessado em: 26 de out. de 2011. 5 KADGIEN, Thomas F. Oberst. A História das Quilhas. Disponível em: http://heenalu.com.br/blog/?p=24. Acessado em: 26 de out. de 2011

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jogadas duras. De acordo com Kadgien, um dia, Tom

achou um barco abandonado na praia e não pensou duas vezes: arrancou a quilha, modificou-a e colocou-a em sua prancha de surf.

A criação dessa prancha inovadora aconteceu cinco

anos antes da Segunda Guerra Mundial, o conflito entre

nações que deixaria um grande número de mortos e uma quantidade incontável de soldados com algum tipo de deficiência6.

Enquanto a comunidade médica trabalhava para desenvolver atividades físicas que pudessem ser

praticadas pelos homens que serviram na guerra, do

lado de fora dos hospitais, a história do surf ia sendo

construída. Thomas Riitscher Júnior, Margot Riitscher,

Osmar Gonçalves, João Roberto Suplicy Hafers e Júlio Putz 6 NOBRE, Luana Fransolino. História do Esporte Adaptado. Disponível em: http://www.adaptsurf.org.br/documentos/ hist%C3%B3ria_do_surf_sdaptado.pdf. Acessado em: 30 de mar. de 2011.

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foram um dos primeiros surfistas a pegar onda no país7. Já Parreira, coronel da Aeronáutica reformado, foi o primeiro a

ter uma fábrica de pranchas no Brasil: a São Conrado Plásticos Ltda, e um dos únicos a importar poliuretano, numa época em que o planeta vivia o caos pós-guerra.

Mas, nem tudo foram flores. E se, por um lado, as pranchas

iam sendo aprimoradas para ajudar o surf a evoluir, por outro, o esporte enfrentava a dura repressão da Igreja e da mídia. Não era sonho de nenhum pai encontrar o filho metido no

mar com uma prancha, porque de acordo com Fortes (2008), o

esporte era erroneamente relacionado à vadiagem e ao consumo de drogas ilícitas. Por isso, para não criar problemas com a

família, muitos surfistas da época passaram a praticar o esporte escondidos8.

7 WIKIPEDIA. Surfe. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Surfe. Acessado em: 26 de out. de 2011. 8 FORTES, Rafael. Notas sobre Surfe, Mídia e História. Niterói: Recorde: Revista de História do Esporte, v. 1, n. 2, 2008.

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Entre os rebeldes que fugiam para a praia, estava Carlos

Roberto L’Astorina, também conhecido como “Mudinho”, um garoto surdo que deixou o amor pelo mar falar mais alto. Foi

na praia do Arpoador, na cidade do Rio de Janeiro, que Carlos desceu sua primeira onda, e se transformou no primeiro surfista adaptado do mundo9.

Em 1985, ano em que o esporte adaptado se introduzia no Brasil com a chegada da primeira bola de goalball10 pelas

mãos de Steven Dubner11, já era moda no país vestir bermuda florida, tomar sucos e saborear sanduíches naturais, hábitos

que se espalharam junto com o surf. Foi nessa época também que explodiram as sessões de cineclube, com filmes sobre o

esporte, seriados na TV, diversas novelas e programas de rádio dedicados à modalidade12.

Ilustração: Stewardt Alex Perius

9 NUNES, Renato. O Mestre do Estilo Clássico por Twunay. Disponível em: http://carlosmudinho.blogspot.com/. Acessado em: 13 de ago. de 2011. 10 Espécie de futebol adaptado para portadores de deficiência visual, criado em 1946, pelo austríaco Hanz Lorezen e o alemão Sepp Reindle, com o objetivo de reabilitar veteranos que perderam a visão na Segunda Guerra Mundial. 11 COMITÊ PARAOLÍMPICO BRASILEIRO. Goalball. Disponível em: http://www.cpb.org.br/esportes/modalidades/goalball. Acessado em: 27 de jun. de 2011. 12 FORTES, Rafael. Notas sobre Surfe, Mídia e História. Niterói: Recorde:

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Conforme o tempo foi passando, outros esportes foram adaptados para possibilitar a prática por pessoas com

deficiência. Atividades como o basquetebol sobre rodas, o

atletismo e a natação, ganharam praticantes com deficiência em todo o mundo.

Entretanto, alguns especialistas perceberam, tempos depois, que a grande maioria dessas atividades acabava separando as pessoas com deficiência das demais; um processo

segregacionista dentro da proposta de inclusão social13. No surf, a história foi diferente. Depois do pioneirismo de

Carlos “Mudinho”, outras pessoas com diversas limitações resolveram aprender a surfar.

Só aqui no Brasil, temos muitos surfistas com deficiência, dos quais destacamos oito: Carlos “Mudinho”, Valdemir

Revista de História do Esporte, v. 1, n. 2, 2008. 13 COSTA, Dr. Alberto Martins; SOUZA, Sônia Bertoni. Educação Física e Esporte Adaptado: História, Avanços e Retrocessos em Relação aos Princípios da Integração/Inclusão e Perspectivas para o Século XXI. Porto Alegre: Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte, Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 25, n. 3, 2004.

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Corrêa, Robson “Careca”, Taiu Bueno, Alcino “Pirata”, “Pauê” Agaard, Henrique Saraiva e Elias “Figue”.

Além deles, existem vários alunos matriculados em

ONGs e escolas com programas bastante específicos para deficientes.

Organizações não-governamentais como a Adapt Surf (Rio de Janeiro, RJ) e a Surf Especial (Santos, SP), e escolinhas regulamentadas como a Atalaia (Itajaí, SC), a Surfistas para Sempre (Guarujá, SP), a Escola Riviera (Bertioga,

SP), a Pirata Surf Club (Guarujá, SP) e a Escola Radical

(Santos, SP), atendem ou já atenderam pessoas com os mais variados tipos de deficiência.

Fora do Brasil, destacam-se a Acess Surf (Havaí), a Disabled Surfers Association (Austrália), a Life Rolls On e a Wheels 2 Water (ambas dos Estados Unidos).

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Hoje, dezenas de pessoas procuram esses espaços para aprender a surfar e mudar o rumo da vida. Acabam desta forma,

contribuindo muito para a construção da história do esporte, que a cada dia cresce um pouquinho.

Sem a intenção de competir ou disputar troféus, ficarem famosas e aparecerem na TV, dezenas de vidas cruzam a areia em direção à água, apenas pelo prazer de surfar mais uma vez.

Gabriel Cristiano observa as ondas da praia de Pitangueiras. Foto: Mariana Pedroso

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Valdemir CorrĂŞa, surfista com deficiĂŞncia visual.

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Foto: Mariana Pedroso


Capítulo 1

´ Heróis 33


N

a cidade de Santos, o sol enfeita a imensidão azul de um céu com

pouquíssimas nuvens. As quinze para as nove da manhã, já da para

ver o grupo de vinte surfistas devidamente trajados para resistir à baixa temperatura da água. Circulam pela areia, conversando e preparando os equipamentos. Embaixo dos guarda-sóis laranja da escola, alguns verificam se o leash1 está bem preso ao

tornozelo, porque afinal de contas, não é desejo de nenhum surfista perder a prancha dentro d’água.

Em meio ao grupo que se prepara para entrar no oceano, um aluno movimenta os

braços com graciosidade e precisão. Valdemir Corrêa, ou Val, como é chamado pelos colegas, alonga o corpo com a delicadeza de quem não tem pressa, e a convicção de quem sabe o que faz.

1 Cordinha de poliuretano que prende o surfista à prancha. Item fundamental de segurança durante a sessão de surf.

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Me aproximo do surfista, com um misto de ansiedade e confusão na boca do estômago. Não sei se devo atrapalhá-lo agora.

Mas, como se pressentisse minha chegada, ele sorri e me estende a mão com imensa doçura. E numa proximidade quase íntima, comum dos amigos de infância, me

explica porque é tão importante alongar o corpo daquele jeito, antes de cair na água. “O Tai Chi me dá equilíbrio”, conta, com humildade. Antes de entrar no mar, o rapaz que perdeu a visão aos 24 anos, repete alguns movimentos da arte marcial chinesa para obter estabilidade.

Na areia, ao lado do longboard2 amarelo, Val conta que sempre gostou de surf, mas

que a oportunidade de aprender a surfar só veio depois da síndrome que o deixou

cego. Foi ouvindo uma entrevista do professor Francisco Araña no rádio, que ele se sentiu motivado a tentar uma coisa nova.

2 Prancha de surf grande, com pelo menos 9 pés de comprimento. Ideal para surfistas iniciantes e para aqueles que preferem um surf mais clássico.

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Transformação De acordo com Francisco Araña, ou Cisco, instrutor de Val e fundador da Escola Radical e da Cisco Surf School, em Santos, no litoral de São

Paulo, o esporte trouxe muitas vantagens para o aluno: “No caso do Val foram duas coisas: benefícios para a saúde e para ele, como indivíduo. Depois desse tempo todo, ele voltou a estudar por observação nossa,

conseguiu uma bolsa de 100% numa Universidade e é um dos melhores alunos. Tudo isso estava se perdendo”, diz.

O educador que ensina surf para pessoas com deficiência há 20 anos, acredita que o esporte não só abriu portas, como mudou a forma de

Valdemir interagir com o mundo: “Se não fosse o surf ”, explica, “ele ia

ficar dentro de casa, entre quatro paredes e ia ser eternamente cego. Aqui ele não é cego”, conclui.

A psicóloga Yara Pedroso também acredita no poder que o esporte tem de transformar a vida de pessoas como Val. Segundo ela, além de permitir que a pessoa com deficiência saia de uma condição de discriminação, 36


a prática de esportes dá à ela a chance de experimentar a igualdade, a inclusão e o respeito.

“Além disso”, ressalta, “aqueles que têm a oportunidade de trocar experiências com um deficiente, seja no esporte, no trabalho ou

em qualquer outra atividade do dia a dia, acabam aprendendo e,

consequentemente, revendo seus conceitos a respeito do que é ser deficiente”.

“É um aprendizado de mão dupla”, diz. “Enquanto por um lado

possibilita a inclusão do deficiente na sociedade, por outro, quebra o preconceito por parte do grupo que o aceita”.

Esse é o caso do Valdemir, surfista, praticante de tai chi, e futuro educador físico. Na opinião dele, o fato das pessoas o virem com uma prancha

debaixo do braço ao invés de uma bengala, contribui muito para uma

mudança radical de pensamento. “Isso abre a cabeça das outras pessoas”, afirma. “As crianças, os pré-adolescentes e os adolescentes que treinam comigo, por exemplo, vão crescer com outra referência na cabeça”. 37


Os alunos do professor Cisco

finalmente abandonam os guardasóis. Usando roupas de neopreme,

coladas ao corpo, e com um sorriso enérgico capaz de iluminar todo o

canal 2, cruzam a areia na direção do oceano.

Val, o surfista que faz as coisas

sem pressa, não os acompanha. Fica ali, na areia, ao lado

da prancha amarela, sua

Val, durante o bate papo na areia do Gonzaga. Foto: Mariana Pedroso

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companheira de aulas e de ondas.


No bairro do Gonzaga , os raios de sol que nos atingem, também douram os ombros desavisados que desfilam descobertos para lá e para cá. Ainda

é inverno, a água está um gelo, mas tem sol, motivo suficiente para a praia estar cheia, como um fim de semana em Salvador, no mês do carnaval.

Durante o bate papo, entre uma pergunta e outra, somos surpreendidos

pela presença de um turista americano, que para ao nosso lado, e não diz uma única palavra. Minutos se passam e o silêncio se estende. Olho para

o lado e noto a irritação do rapaz, que se mostra profundamente ofendido por não termos lhe dado atenção.

Sem graça, tento resolver o problema. E mesmo desajeitada, me apresento, numa tentativa constrangedora de corrigir meu descuido.

Entretanto, ele não quer falar comigo. Olha irritado para o Val, e em um português enrolado, fala alguma coisa sobre “aluguel de pranchas”.

Estou certa de que, nessa hora, ele se pergunta por que o proprietário do long amarelo nem se digna a olhar para ele. Concluo que é melhor agir

depressa e desfazer a confusão, para evitar que o meu novo amigo ganhe, muito injustamente, a fama de “surfista antipático”. 39


Já que não sei falar inglês, me aproprio de uma linguagem que quase sempre dá certo: tapo os meus olhos com uma das mãos e digo para ele “procurar o Cisco”.

O garoto aponta para o Val, abre a boca e sorri; não necessariamente nessa mesma ordem. Faz um gesto positivo, mas antes de sair, olha para o surfista, com ar de profunda admiração.

Conto ao Val o que acaba acontecer, e ele sorri, como se isso não fosse novidade. Na opinião do surfista, é essa surpresa que o aproxima das pessoas.

Hoje, além de ser o primeiro surfista cego do mundo, Val também tem muitos amigos.

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Inclusão Que Não Exclui De acordo com as jovens Paula Luana Maia e Carol Araújo, produtoras do

documentário “Aloha1” sobre surf adaptado, o surf é uma das poucas atividades adaptadas que promovem o contato entre pessoas com ou sem deficiência.

Elas, que conviveram com o Val durante as filmagens de “Aloha”, no ano passado,

acreditam que o surf não é igual a qualquer outro esporte adaptado, como o futebol e o basquete para cadeirantes: “Se nós fôssemos jogar basquete, por exemplo, não iríamos jogar com nenhum deles, porque não somos deficientes”, explicam.

1 Nome do documentário sobre surf adaptado produzido pelos alunos das Oficinas Querô (Paula Luana Maia, Carolina Araújo e Nildo Ferreira), em 2010.

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O público atendido é muito variado, com pessoas de diferentes atividades, níveis sociais, capacidades e limitações. Essas freqüentam as mesmas aulas participando de um processo natural de inclusão e integração com seus colegas.

(BISSOLOTTI; SANTOS, 2009, pág. 11)

Para Henrique Saraiva, amigo do Val, surfista adaptado e sócio fundador da ONG carioca Adapt Surf, a opinião é a mesma: “O surf pode ser

praticado por pessoas com e sem deficiência”, diz ele, “de todos os sexos, idade e classes sociais. E o melhor é que eu posso estar junto dos meus amigos, surfando de igual pra igual. Não preciso praticar apenas com pessoas deficientes, como ocorre em outros esportes adaptados”.

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Henrique Saraiva alonga o corpo antes de cair na รกgua. Foto: Fabio Minduim

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Val compartilha da opinião do amigo, e vai ainda mais longe: na opinião dele, o esporte é a melhor atividade adaptada existente. Para justificar

sua ideia, ele compara o surf com o goalball, uma modalidade desportiva

desenvolvida para deficientes visuais: “Esse esporte foi idealizado por pessoas

que enxergam. O interessante é que os participantes ficam de joelhos, em uma posição de submissão”, opina. “Por isso, quando dizem que o goalball é um

esporte próprio para quem é cego, eu digo que não; que esse esporte é o surf.

Nele, você está em pé e não de joelhos, numa posição submissa, que é como a maioria da sociedade acha que uma pessoa com deficiência tem que ficar”.

Entende-se por atividade esportiva inclusiva, toda e qualquer que, levando em considerações as potencialidades e as limitações físico-motoras, sensoriais e mentais dos seus praticantes, propicie a sua efetiva participação nas diversas atividades esportivas recreativas, e consequentemente, o desenvolvimento de todas as suas potencialidades.

(AZEVEDO; BARROS, 2004, pág. 78)

As opiniões de Paula, Carol, Henrique e Val se confirmam em dados. De

acordo com informações disponibilizados nos portais da Associação Nacional 44


de Desportos para Deficientes (ANDE), da Associação Desportiva para

Deficientes (ADD), do Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB) e do Hard

Core Sitting Brasil, apenas duas modalidades de uma seleção de quinze categorias, permitem que pessoas com as mais variadas deficiências pratiquem esporte juntas. Atrás do surf adaptado, que não é uma

modalidade olímpica e nem possui um propósito competitivo, estão o polybat2 e o voleibol sentado .

Já modalidades como basquetebol em cadeira de rodas, bocha para

pessoas com paralisia cerebral severa, esgrima adaptada, futebol de sete pc3, goalball, hard core sitting (skate adaptado), judô adaptado, petra

e tênis de mesa em cadeira de rodas, foram criadas ou adaptadas para pessoas com um tipo específico de deficiência.

Nas modalidades restantes (atletismo adaptado, ciclismo adaptado, halterofilismo adaptado e natação adaptada), os participantes são divididos em blocos, de acordo com o grau e tipo de debilidade.

2 Tênis de mesa lateral, criado na Inglaterra, na década de 80. 3 Modalidade futebolística que se disputa nos jogos paraolímpicos, no qual participam atletas com paralisia cerebral.

45

Mar de Santos. Foto: Mariana Pedroso


Acompanhando o desempenho dos surfistas, enquanto converso com Val sobre amizades,

percebo que não posso mais distinguir a turma de alunos como antes: sei que há adultos e crianças, e também homens e mulheres no mar, mas há quinze metros de distância, com um oceano de areia em minha frente, todos eles me parecem iguais.

Daqui onde estou, não posso dizer, por exemplo, quem é mais bonito, ou quem cuida

melhor do cabelo. Quem é mais alto ou quem é mais baixo. Quem corre mais ou quem é mais preguiçoso.

A única coisa que tenho certeza é que todos eles gostam de surf e de praia. E de que as diferenças, neste momento; invisíveis, são apenas detalhes.

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Diferenças Invisíveis A maioria das pessoas que praticam surf adaptado hoje, já experimentou, no passado, outras modalidades adaptadas. O surfista carioca Andre Souza, usuário de cadeira de

rodas devido a um acidente automobilístico em 2000, por exemplo, já foi praticante de remo adaptado, uma modalidade criada na década de 80 pela Superintendência de

Desportos do Rio de Janeiro (SUDERJ), especialmente para pessoas com deficiência física, (lesão medular, pólio e paralisia cerebral) mental e auditiva4.

Apesar de ter gostado da modalidade, de ter treinado nos clubes mais conceituados do Rio (Vasco, Botafogo e Flamengo) e de até ter feito parte da Seleção Brasileira de Remo

Adaptado, Andre percebeu que o esporte não lhe proporcionava uma coisa fundamental: a interação com pessoas que não tem deficiência.

4 COMITÊ PARAOLÍMPICO BRASILEIRO. Remo. Disponível em: http://www.cpb.org.br/ esportes/modalidades/remo. Acessado em: 25 de out. de 2011.

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“O surf acrescenta o benefício do convívio social em minha vida”, diz. “Até pouco tempo, isso não fazia parte vida de pessoas com deficiência, por causa das dificuldades em termos de acessibilidade”.

Hoje, treinando pela ONG Adapt Surf, Andre sabe que na água, as diferenças ficam invisíveis. “Tenho amigos com diferentes comprometimentos, físicos, sensoriais, motores e etc, que praticam surf ”, conta.

“Cada um surfa de acordo com seu comprometimento; eu mesmo surfo

deitado”, explica. “Mesmo não surfando em pé, da forma convencional, me sinto realizado”.Assim como Andre, Val também encontrou no surf, a oportunidade 48


Andre Souza, surfando de joelhos, em uma apresentação da Adapt Surf. Foto: Felipe Tolomei

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Val remando sobre as ondas de Santos.

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Foto: Mariana Pedroso


Assim como Andre, Val também encontrou no surf, a oportunidade de ser tratado

de forma igual pelas pessoas. Ele, que além de surfista, é praticante de karatê5 , conta

que nas competições marciais, o tratamento diferenciado pelo fato dele ser deficiente visual é muito forte.

“Nas competições eles não me deixam lutar, e o único jeito de competir é executando a sequência do kata6”, conta. “Mesmo assim, eu nunca ganhei”.

5 Arte marcial japonesa. 6 Simulação de luta, muito praticada na maioria das artes marciais. O nome sofre alterações dependendo da arte marcial.

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Intrigado com a situação, Val conta que até chegou a questionar o professor de karatê sobre o porquê dele não conseguir vencer um único campeonato. “Ele

disse que eu nunca ganhei porque os juízes achavam uma tremenda humilhação um faixa marrom7 ou preta perder para um faixa roxa cego”.

Para a felicidade dele, no surf, a história não parece se repetir. Em breve, Val

ingressará nas competições convencionais do esporte, disputando títulos de igual para igual com pessoas que não tem nenhuma deficiência.

“Eu escrevi um e-mail para a Associação Brasileira de Surf Profissional

(ABRASP), questionando se eu poderia participar. Fizeram uma votação, e

liberaram minha participação nas competições”, conta. “A única coisa que eu vou

precisar é que alguém entre comigo no mar, apenas para dizer se a onda é boa. O resto, sou eu quem devo fazer sozinho”.

7 Nas artes marciais, as faixas representam a graduação do atleta. Cada cor indica um estágio alcançado pelo aluno, e da mesma forma que acontece com as simulações de luta, a sequencia de cores e os respectivos níveis sofrem alterações dependendo da arte marcial.

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O que ainda é novidade para o Val, já é rotina para a havaiana Bethany

Hamilton. Vivendo há milhares de quilômetros de Santos, a garota de 21 anos,

que perdeu braço esquerdo depois de um ataque de tubarão, já venceu diversos campeonatos de surf.

Sua trajetória é tão importante que, nesse ano, a TriStar Pictures e a Film District, ambas produtoras do grupo Sony Pictures, resolveram lançar “Soul Surfer”, um filme baseado na luta de Bethany para conseguir um lugar nas ondas. Com

direção de Sean McNamara, a obra é um ótimo recurso para divulgar o esporte, e mostrar que as diferenças não existem dentro d’água.

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Foto e Edição: Mariana Pedroso


Já são dez da manhã. As poucas nuvens que cobriam o céu do Gonzaga, já se dispersaram, e tudo o que restou foi um azul tranqüilo, terno e impecável.

Sentada na areia, ao lado do meu novo amigo, escuto o chiado produzido pelas ondas, quebrando lá no fundo. Me arrepio só de perceber que, neste exato momento, eu e ele compartilhamos a mesma canção.

Val sempre gostou desse barulho. E a vontade de surfar também sempre existiu. Pelo o que ele me conta agora, debaixo de sol forte, a única coisa que faltava, era uma oportunidade para praticar o esporte. Coisa que só foi acontecer quando ele perdeu a visão.

Corajoso, hoje o surfista diz ter um estilo bastante radical no surf: gosta de fazer manobras, e desafiar as ondas; coisas que só gente bastante experiente se atreve a fazer.

Os braços e os músculos das pernas, bem delineados, são um reflexo dos exercícios puxados e das remadas bem trabalhadas para ficar o máximo de tempo em pé sobre a prancha. Condicionamento que denota o esforço e a dedicação dos mais de vinte anos de ondas.

Val mal poderia imaginar que, com a perda da visão, descobriria um talento desconhecido: a aptidão para surfar.

Hoje, cheio de saúde, e com muito mais vontade para encarar as ondas da vida, ele não pensa em largar o esporte por nada nesse mundo.

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Surf E Saúde O educador físico Renato Bissolotti conhece bem a rotina de

pessoas como Val, que gostam de se aventurar no meio aquático. Aos 31 anos, ele é professor de natação na Escola de Esportes da Associação Desportiva para Deficientes (ADD) e voluntário no Ambulatório de Esportes Adaptados da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Segundo ele, “o surf pode trazer

benefícios físicos aos seus praticantes, como o aumento da força e da resistência cardiorespiratoria”.

Em se tratando de atividades desenvolvidas no meio líquido, é importante destacar que estas podem auxiliar e contribuir no desenvolvimento global dos alunos envolvidos, pelo fato de apresentarem um fator diferenciado - a água, justamente por serem desenvolvidas atividades em um ambiente diferenciado do habitual - o terrestre.

(BORGES, 2006)

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Além das melhorias citadas por Renato, há quem diga que o esporte é um aliado poderoso para quem não dorme bem à

noite. Henrique Saraiva, o amigo do Val, por exemplo, conta

que o surf melhorou seu sono, além de aliviar dores na coluna e incentivar uma alimentação mais saudável.

O desenvolvimento aprimorado das funções motoras e a

sensação de bem estar também estão na lista de benefícios

proporcionados pelo surf, conforme acredita o neuropsicólogo Leandro Kruszielski. Mas, ainda que tudo isso seja verdade,

alguns cuidados são indispensáveis na hora de iniciar qualquer pessoa, com deficiência ou não, no esporte.

O primeiro passo é descobrir quem pode praticar surf. De

acordo com o professor Eduardo da Silveira, da escola de surf

Surfistas para Sempre, no Guarujá, pessoas com problemas de

coração, alunos que usam aparelhos respiratórios e pessoas com

baixa imunidade não devem praticar surf, para não debilitarem ainda mais sua saúde.

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Entretanto, se esse não for o caso, é dever do instrutor investigar de que forma

ele pode iniciar o aluno nas atividades. “Caso o praticante seja sedentário, é

importante iniciar a atividade de forma gradativa, saber se tem algum problema articular ou de postura”, diz Renato Bissolotti.

Já Henrique Saraiva, surfista com deficiência desde os 18 anos, devido a um tiro que levou na coluna durante um assalto, lembra que é importante o

acompanhamento especializado e o uso de material adequado para garantir a segurança de cada praticante durante a sessão de surf.

Atualmente não se discute mais sobre os benefícios da atividade física, mas sim a forma mais correta de realizá-la para alcançar e/ou manter a saúde; já que a falta e o excesso de exercícios podem ser danosos ao organismo, em se tratando de pessoas portadoras de deficiência. O esporte busca nos fundamentos da atividade física, levar saúde e qualidade de vida aos praticantes que estejam orientados para a forma correta de seu emprego.

(AZEVEDO; BARROS, 2004, pág. 79)

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Aspectos Psicológicos

A saúde do corpo não é a única a receber os benefícios da prática esportiva. De

acordo com a psicóloga Yara Pedroso, o esporte também tem contribuído muito com o aprimoramento do ser humano, enquanto ser social: “A integração que essas atividades proporcionam representa a aceitação e o fim da exclusão”,

explica. “Dessa forma, a pessoa com deficiência passa a se sentir igual, respeitada e compreendida pelo outro. O surf, assim como a prática de qualquer atividade

esportiva, representa para essas pessoas a oportunidade de ser visto como um ser completo e digno”.

A psicóloga ainda acredita que o esporte é um dos maiores responsáveis por

melhorar a auto-estima da pessoa com deficiência. Para Yara, o sentimento de pertença, geralmente proporcionado pelas atividades realizadas em conjunto,

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contribuem para que a pessoa com deficiência se dedique, cada vez mais, à prática de atividades físicas.

“É um estímulo muito forte, que contribui com dedicação contínua aos exercícios”, revela. “Os ganhos, por sua vez, são muito significativos em todo o quadro físico do indivíduo”.

[...] O surf está relacionado à melhora dos aspectos emocionais e sociais, além de ser uma atividade completamente inclusiva, por fazer uso de um espaço aberto, com outros surfistas não-deficientes no mar.

(BISSOLOTTI; SANTOS, 2009, pág. 11)

Já para o neuropiscólogo Leandro Kruszielski, os efeitos do esporte

sobre o indivíduo, podem variar muito, dependendo sempre da pessoa

que está envolvida: “É possível perceber que em alguns casos, o esporte pode significar um novo sentido na vida e, em outros, um meio de

encontrar pessoas ou um mero passatempo”, diz. “Depende muito da história do deficiente e de seus valores”, conclui. 60


Foto e Edição: Mariana Pedroso

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No caso do Andre, lá do Rio de Janeiro, o esporte significou muito mais do que um meio para encontrar lazer. Depois de sofrer o acidente que o deixou na condição de usuário de rodas, ele decidiu procurar o esporte voltado à pessoa com deficiência para recuperar o convívio social. Foi aí que ele conheceu modalidades como o handebol adaptado, o basquete em

cadeira de rodas, o remo adaptado e o surf8. Os esportes devolveram a ele a possibilidade de viver uma vida digna, com a autonomia que toda pessoa com deficiência merece.

“Moro sozinho, arrumo minha casa, passo minhas roupas. Surfo nos finais de semana e

namoro uma cadeirante que é um barato: ela não surfa, mas admira esta prática esportiva. Vou ao cinema, teatro, restaurantes, praias e presto assessoria esportiva para uma pessoa

aqui no Rio de Janeiro. Minha vida hoje é como a de qualquer pessoa que não tem nenhuma deficiência”.

Val também conquistou muitas coisas depois de conhecer o surf. Hoje, além de estar

matriculado em um curso superior, ele aprendeu a se impor perante as situações mais adversas da vida.

“Geralmente, a palavra de uma pessoa cega vale muito pouco”, declara. “O surf me deu argumentos para falar com as outras pessoas”.

8 YOUTUBE. Depoimento de André Souza para a novela “Viver a Vida”. Disponível em: http://www.youtube. com/watch?v=BHmrFhRwqvM. Acessado em: 22 de out. de 2011.

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Andre e Val têm histórias de vida muito parecidas: foi com a ajuda

do esporte, que os dois conseguiram conquistar autonomia, amigos, e principalmente, respeito. Enquanto um voltou a trabalhar, o

outro aprendeu a se defender e conseguiu uma bolsa na faculdade. Conquistas, antes inimagináveis; mas que o surf acabou trazendo para perto.

Sobre a prática de atividades com propósito inclusivo e os benefícios que elas proporcionam, Val é sincero e objetivo: “A convivência é muito boa, e as pessoas só têm a aprender e ganhar”.

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É chegada à hora do Val me mostrar tudo o que disse saber fazer em mais

de duas horas de conversa. Apanho a prancha amarela e entrego-a para ele, enquanto ofereço de apoio, o meu braço direito.

Juntos, nós dois caminhamos pelas areias de Santos, sob os olhares de pessoas curiosas. Sinto que meu coração está acelerado, acometido por uma emoção

jamais sentida. E percebo, que mesmo que a nossa amizade se perca no final do dia, sempre haverá um laço entrelaçando nossas vidas.

O tempo limpo, a ausência de banhistas e as ondas quebrando

convidativamente lá no fundo, motivam ele a se juntar aos colegas. A água está muito mais gelada do que eu imaginava, mas nesta manhã azul e dourada, nada mais importa.

Com o longboard amarelo nos braços, Val caminha devagar, driblando as ondas do Gonzaga. E para a minha surpresa, consegue subir na prancha, na primeira tentativa.

Na água, ele brilha, ao mesmo tempo em que me deixa sem fala: com habilidade e experiência, desce todas as ondas que aparecem, quase enterrando a quilha na areia como só os bons surfistas fazem. 65


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Foto e Edição: Mariana Pedroso


“Eu quero seguir o que o meu coração está pedindo, e dar à minha alma o que ela quer. A minha alma quer surfar”. 67


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Capítulo 2

Anjos na Praia

Vista da praia de Pitangueiras, no município do Guarujá, São Paulo. Foto: Mariana Pedroso

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O

mesmo céu azul que impera na praia do Gonzaga, em Santos, também enfeita o bairro de Pitangueiras, no município do Guarujá, litoral de São Paulo. Aqui,

as ondas que vem de encontro à areia, também se debruçam sobre as bases do

Morro da Campina1, um paredão de terra que separa a região central do restante do município. Diz à lenda que é exatamente aqui, neste cenário de belezas naturais que dão ao Guarujá o título de “Pérola do Atlântico”2, que vive um pirata totalmente diferente dos contos de J. M.

Barrie3, bastante conhecido por sua garra, e muito querido por sua bondade. O único problema,

porém, é que algumas pessoas costumam dizer que, apesar da generosidade, este pirata é mal humorado, mas eu estou disposta a tirar minhas próprias conclusões de perto.

Depois de pegar estrada e dirigir mais alguns quilômetros pelo centro do Guarujá, começo a

sentir um misto de ansiedade e medo. Afinal de contas, não é todo dia que uma estudante de jornalismo sai da cidade onde vive para encontrar um dos primos do “Capitão Gancho”.

Mesmo assim, estaciono o carro e me preparo para o confronto. Apanho minha arma de combate, uma câmera digital Casio EX-Z80, tranco tudo, e vou à luta. 1 Ponto turístico do Guarujá, também conhecido como “Morro do Maluf ”. 2 Apelido concedido ao município, devido às suas belas praias e belezas naturais.

3 James Mathew Barrie foi um escritor e dramaturgo britânico, autor do clássico infantil “Peter Pan”.

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O termômetro do Guarujá marca vinte e oito graus. Mesmo assim, só percebo o quanto

está quente quando saio do carro. Com o corpo envolvido pela massa de calor, vestindo a boa e velha calça jeans, me sinto igual a um extraterrestre que acaba de desembarcar na Terra. E tenho certeza de que todas as pessoas que passam por mim, de bermuda e chinelo de dedo, sabem que eu vim de São Paulo.

Atravesso a avenida, na direção da Pirata Surf Club, tentando não pensar nas terríveis pranchas pelas quais os piratas arremessavam os inimigos ao oceano. Nessa hora,

penso nas reais possibilidades de virar comida de tubarão, caso a entrevista não dê certo, mas desconsidero tudo, no momento em que me encontro com ele:

Alcino Pirata, surfista amputado desde os 15 anos, está na varanda, rodeado de

amigos, emanando bondade e simpatia. Ao notar a minha presença, ele abre as portas de pequena escolinha, onde ensina surf para alunos a partir dos cinco anos de idade. Carismático e extrovertido, o pirata me convida a fazer uma viagem pela história do

surf. Através de jornais antigos e retratos envelhecidos pelo tempo, Alcino me mostra um pouco da trajetória como surfista e o trabalho especial de professor.

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Surfistas E Professores “A ideia de abrir uma escola de surf surgiu da vontade de amparar pessoas que precisavam de ajuda”, conta Alcino. Depois de superar o acidente que ocasionou a amputação da perna esquerda, e de desenvolver uma técnica

que lhe permitiu retornar às ondas, ele decidiu abraçar mais um desafio: o de ser professor.

“No começo, eu queria que as pessoas descobrissem seus potenciais e

superassem seus próprios limites. Hoje, a escola tem 22 anos de existência, e já recebeu mais de vinte mil alunos”.

Além de administrar a escola, Alcino Pirata também é parceiro do

programa “Surfing for All”, um projeto desenvolvido junto com a Associação

Internacional de Surf (ISA), com o objetivo principal de oferecer treinamento às entidades que almejam trabalhar com surf adaptado.

Da união entre o surfista brasileiro e a associação californiana, nasceu um

DVD que reúne informações sobre o esporte, além de técnicas e metodologias para trabalhar com pessoas com deficiência, dentro d’água. 73


Para a associação, Alcino não é só uma inspiração para

pessoas com deficiência, mas para toda a comunidade do

surf. “Ele encarna o espírito da missão ISA perfeitamente”. Pirata também mantém um trabalho com os soldados

do exército americano há três anos. No ano passado, por exemplo, lá no estado da Califórnia, ele ensinou vários soldados com deficiência a surfar.

Enquanto Pirata dá aulas de surf no Guarujá e fora do

Brasil, Henrique Saraiva também deixa a sua marca na

história destes novos campeões. No Rio de Janeiro, durante

as aulas da Adapt Surf, o surfista dá dicas para os iniciantes e chega a descer várias ondas com os alunos. Mesmo não liderando a turma, ele ajuda no que for preciso, e faz de tudo para garantir a segurança e o bem estar de cada surfista.

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E quando o assunto é aula, Henrique é cuidadoso, e defende que para ser um bom instrutor, é preciso, ser apaixonado por ondas e conhecer os limites do corpo. “Ser surfista é

importante”, diz “mas conhecer o mar, as ondas e o corpo, é

essencial para garantir o máximo de segurança aos alunos”. Paula e Carol, produtoras do documentário Aloha, acham que atitudes como a do Pirata e do Henrique são bastante

louváveis. Além disso, elas acreditam que o fato deles terem uma deficiência, ajuda a estabelecer o contato com os alunos.

“Quando a gente chega em algum lugar para tentar ajudar alguém que é deficiente, ou quando a gente vai falar sobre

surf adaptado; geralmente a pessoa não acredita”, contam.

“Ela costuma se irritar e responder que a gente não sabe da dificuldade dela”. “Mas, se é uma pessoa deficiente que vai falar com ela, ela escuta mais, e toma de exemplo”.

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Entretanto, dar aulas de surf adaptado não é uma opção

exclusiva para aqueles que têm algum tipo de deficiência. O professor Cisco Araña, por exemplo, instrutor de surf

do Val, lá em Santos, compartilha com Henrique e Alcino o mesmo amor pelas ondas, e possui opiniões diferentes sobre o ofício especial de ser professor.

De acordo com ele, uma dica importante para aqueles que intencionam dar aulas de surf para pessoas com

deficiência é procurar não enfatizar as limitações dos

alunos. Segundo o professor, essa preocupação excessiva com o problema pode não permitir que a pessoa com

deficiência crie autonomia, além de reforçar ainda mais suas limitações.

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“Quando nós observamos as qualidades do outro,

conseguimos melhorar a qualidade de vida. Quando

nós enfatizamos o problema, inspiramos um cuidado

excessivo das outras pessoas, que só reforça a deficiência e a diferença”, defende.

Cisco ainda revela que, no começo, muitos de seus

professores tinham receio de dar aulas para pessoas com deficiência, e que por esse motivo, foi preciso aconselhálos a deixarem os livros de lado, e arregaçarem as

mangas. “Eu disse para esquecerem o que estava escrito, e

abraçarem a causa com amor”, diz. “É o amor que faz essa transformação”.

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Pirata em uma sessĂŁo de surf na praia de Pipeline, no HavaĂ­. Foto: Bruno Lemos

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Bondade e simpatia não são as únicas qualidades do Pirata. O surfista do Guarujá também é um professor muito dedicado. Todos os dias, ele abre a escolinha com sede na praia de

Pitangueiras, onde dá aulas de surf até às cinco da tarde. Preocupado, conta com a ajuda de uma equipe especializada,

com os melhores preparadores físicos, psicológicos, nutricionistas e fisioterapeutas.

Mas, além da aptidão para ensinar, o professor também exibe, no currículo, uma técnica perfeita para encarar as ondas. Tal

empenho já lhe permitiu surfar nas praias mais perigosas do mundo, tanto na cidade de Padang, na Indonésia, como em Pipeline, no North Shore, Havaí.

Anos de prática fazem do guarujaense, mais do que um

visionário de idéias possíveis: um especialista das águas salgadas. Prestígio que ele mostra merecer com humildade, todos os dias, quando ensina alguém ou quando vai surfar. 79


Especialização Além de técnica, paixão e força de vontade, outro fator há ser considerado por quem deseja dar aulas de surf adaptado é a

especialização. Algumas pessoas, como o professor Eduardo da

escola Surfistas para Sempre, no Guarujá, julgam ser necessário a formação em áreas específicas, como resgate aquático, primeiros socorros e cursos nas áreas de atividade física para pessoas com deficiência. “Além da graduação em educação física”, opina, “é

importante ter uma especialização em saúde e atividade adaptada”. 80


Pirata exibindo agilidade e perfeição na execução das manobras. Foto: Bruno Lemos

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Já Henrique Saraiva, lá do Rio de Janeiro, defende a graduação em

fisioterapia, ciência aplicada à prevenção e tratamento da saúde, por meio

de recursos físicos. “É importante que o instrutor seja um fisioterapeuta com bom conhecimento das ondas”, opina, “já que não existe uma especialização acadêmica para dar aula de surf adaptado”.

O fator psicológico também não fica de fora da questão. Para a psicóloga Mariú Casselli, é muito interessante o instrutor ter o conhecimento

da personalidade dos alunos, suas emoções, auto-estima, ansiedade

e mecanismos de defesa. Mairú também ressalta a importância de se

aprofundar na questão das diferenças individuais dos futuros surfistas, para otimizar ensino e aprendizado.

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Henrique Saraiva tem razão quando diz que não há nenhum curso no Brasil específico para aqueles que intencionam ser professores de surf adaptado.

Entretanto, algumas faculdades do país já oferecem cursos de extensão em

atividade adaptada e saúde. A Universidade Gama Filho, com sede em vários

estados do Brasil, oferece o curso com carga horária de 360h. Seu público-alvo são pessoas graduadas em educação física, fisioterapia, terapia ocupacional

e enfermagem, e as disciplinas são dividas em módulos, de acordo com cada tipo de deficiência4.

4 UNIVERSIDADE GAMA FILHO. Atividade Física Adaptada e Saúde. Disponível em: http://www.posugf.com.br/cursos/curso-atividade-fisica-adaptada-e-saude. Acessado em: 20 de out. de 2011.

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A Faculdade de Educação Física da Unicamp (FEF) também promove a

especialização na área, por meio da pós-graduação. Entre as disciplinas,

podemos destacar Adaptações dos Sistemas Orgânicos ao Treinamento Físico, Atividade Física e Adaptação, e Processos de Avaliação Motora Em Educação Física Adaptada, dentro de um leque de quatorze matérias5.

Em Rio Claro, é o Programa de Atividade Física Adaptada da Universidade

do Estado de São Paulo (UNESP) que dá as cartas. O projeto é um dos únicos a possibilitar que alunos com deficiência sejam também educadores6. Seu

objetivo é desenvolver e adaptar atividades, individualizadas ou em grupos,

que incluam habilidades motoras básicas, aptidão física, habilidades da vida diária e competências em relacionamentos sociais7.

5 FACULDADE DE EDUCAÇÃO FÍSICA DA UNICAMP. Pós-Graduação: Atividade Física Adaptada. Disponível em: http://www.fef.unicamp.br/. Acessado: em 20 de out. de 2011. 6 UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO. Programa de Atividade Física Adaptada. PROEFA Inclusão. Disponível em: http://www.rc.unesp.br/ib/efisica/def2011/ extensao/EXT%20eliane.htm. Acessado em: 20 de out. de 2011. 7 UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO. Programa de Atividade Física Adaptada. PROEFA Inclusão. Disponível em: http://www.rc.unesp.br/ib/efisica/def2011/ extensao/EXT%20eliane.htm. Acessado em: 20 de out. de 2011.

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Já o curso de graduação em Educação física - Bacharelado8, promovido pela

Universidade Positivo, em Curitiba, no estado do Paraná, permite que, quando formado, o profissional atue diretamente na área de educação física adaptada e paradesporto9.

Além dos cursos mencionados, é possível localizar na internet, diversas opções de cursos à distância ou grupos de pesquisa. Com um leque diversificado de opções, a dinâmica nas instituições que promovem o surf adaptado tende a melhorar, cada vez mais.

8 UNIVERSIDADE POSITIVO. Matriz Curricular. Disponível em: http://educacaofisica. up.com.br/painelgpa/uploads/imagens/files/EducFisica/educa%C3%A7%C3%A3o%20 f%C3%ADsica%20bacharelado%20manh%C3%A3_11s.pdf. Acessado em: 20 de out. de 2011. 9 UNIVERSIDADE POSITIVO. Matriz Curricular. Disponível em: http://educacaofisica. up.com.br/painelgpa/uploads/imagens/files/EducFisica/educa%C3%A7%C3%A3o%20 f%C3%ADsica%20bacharelado%20manh%C3%A3_11s.pdf. Acessado em: 20 de out. de 2011.

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86


A Pirata Surf Club fica em uma simpática casinha, construída com

madeira e feixes de sapê. Ao invés de paredes espessas de alvenaria,

vitrines, por onde o visitante consegue ter um pequeno vislumbre dos tesouros que ela guarda.

Nela, réplicas de pranchas antigas e pilhas de equipamentos novos,

retratos envelhecidos pela ação do tempo e recortes de jornais com as

últimas matérias publicadas da escola, forram as paredes do cômodo com um pouco menos de trinta e seis metros quadrados.

Além de centro de treinamento de dezenas de pessoas, com e sem

deficiência, é nessa casa que funciona o Museu do Surf da cidade,

lugar onde relíquias da história do esporte dividem o espaço com uma preciosidade ainda mais rara: a bondade de alguém que transformou suas limitações em motivação para ajudar os outros.

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Surfando Com Ongs E Escolas De Surf Para a psicóloga Mariú Casselli, lugares como a Pirata Surf

Club desempenham um papel muito importante na vida das pessoas com deficiência. De acordo com ela, organizações e

escolas de surf adaptado, por exemplo, reúnem pessoas com o

mesmo interesse, e otimizam as ações voltadas para a questão.

[...] Escolas regulares, que possuam tal orientação inclusiva, constituem os meios mais eficazes de combater atitudes discriminatórias, criando-se comunidades acolhedoras, e construindo uma sociedade inclusiva [...].

(MACIEL, 2000, pág. 51)

Mariú ressalta também que a atividade esportiva

proporcionada por essas instituições permitem à pessoa com

deficiência experimentar a superação de seus limites e melhorar sua auto-estima. “Dessa forma”, diz, “a pessoa é incluída em diversos tipos de atividades, e passa a evitar o isolamento”. 88


Além da Pirata Surf Club existem, no Brasil, dezenas

de outras escolas e ONGs, que trabalham, todos os dias, para tornar o surf uma realidade na vida das pessoas com deficiência. Na praia do Pernambuco, ainda no

município do Guarujá, encontramos a escolinha Surfistas

para Sempre, comandada pelo professor e educador físico Eduardo da Silveira.

No verão, a escola da Rua das Acácias costuma receber

alunos com diversos graus e tipos de deficiência. “Já tive

a oportunidade de trabalhar com surdos, portadores de sindrome de down, alunos amputados e com paralisia cerebral”, diz o professor Eduardo. Em um projeto na

Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP), com campus também no Guarujá, o professor também já teve a oportunidade trabalhar com autistas.

Para o professor, tanto a Surfistas Para Sempre, como as Professor Eduardo e o aluno Toninho. Foto: Arquivo Surfistas para Sempre

demais escolinhas de surf espalhadas por todo o país,

estimulam as pessoas a saírem de casa para mostrar à 89


sociedade que também são importantes. Além disso, ele acredita que o ambiente em que o esporte é praticado faz bem para qualquer pessoa, porque promove a alegria, o contato com o sol e com a água do mar. “Nosso ambiente é repleto de energia”, diz ele. “Essa atmosfera é muito empolgante para todos nós”.

Na cidade de Itajaí, em Santa Catarina, a Associação Escola de Surf e Amigos

Atalaia tem um programa especial, destinado a pessoas com deficiência visual.

Já no Rio de Janeiro, a dona da vez é a ONG Adapt Surf, que há cinco anos, vem transformando a vida de pessoas com deficiência. Com sede na Lagoa, há mais

de 535 quilômetros da escola do professor Eduardo, lá no Guarujá, a ONG carioca oferece, atualmente, aulas de surf gratuitas para mais de 40 alunos.

90


“A ideia de fundar uma instituição com esse propósito surgiu em 2006, durante a faculdade de Educação Física”, explica Luana Fransolino Monteiro Nobre,

membro do Conselho Diretor da instituição. “Realizei uma pesquisa sobre surf adaptado, entrevistei o surfista Henrique Saraiva, que já era meu amigo há

muitos anos, e a partir daí, inspirados pela experiência dele, e principalmente

pela vontade de oferecer essa experiência a mais pessoas, eu, meu marido, Luiz Phelipe, o Henrique e mais alguns amigos, fundamos a ONG”.

O projeto entre amigos deu certo. Hoje, ao lado do amigo Henrique e do marido Luiz Phelipe Monteiro Nobre, Luana trabalha para incluir e integrar pessoas

com os mais diversos tipos de deficiência. A dedicação é tanta, que, em outubro desse ano, a Adapt Surf foi vencedora do “Prêmio Folha Social Empreendedor

do Futuro”, uma pequena prova de reconhecimento da sociedade diante de um trabalho tão bonito.

91


Com a inclusão do deficiente físico no esporte nota-se uma integração que poderia ser favorecida, por meio de atividades que resgatassem nos portadores de deficiência física sentimentos positivos de dignidade e amor próprio. Desta forma a prática da ativ idade física constitui um momento privilegiado de estimulação e percepção das potencialidades do ser humano portador de deficiência. (ANDRADE; BRANDT, 2008)

Fora do país, as coisas parecem funcionar do mesmo jeito. Gary

Blaschke, presidente e fundador da Disabled Surfers Association (do

inglês, Associação dos Surfistas Deficientes), por exemplo, conta que a ONG luta há 26 anos para incluir pessoas com os mais variados tipos de deficiência lá na Austrália: “Asmáticos, amputados, portadores de

paralisia cerebral, síndrome de Down, paraplégicos, tetraplégicos”, diz

Gary. Tudo é acompanhado de perto, de modo que cada surfista possa aproveitar o mar, de maneira segura.

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Para Gary, o segredo do sucesso está em tratar as pessoas sem

diferença: “Surfar é um estilo de vida, é formar amizades, tratar as pessoas como iguais e aceitar qualquer deficiência”.

Além da Disabled Surfers Association, as pessoas com deficiência podem contar também com a Acess Surf (no estado do Havaí), a Life Rolls On e a Wheels 2 Water (ambas da Califórnia).

Trabalhando em lugares diferentes, mas pelo propósito, essas

instituições acabam atuando diretamente na construção de uma sociedade diferente, mais justa e menos discriminatória.

“A falta de entendimento associa o portador de deficiência à

incapacidade”, opina a psicóloga Mariú, sobre a oportunidade

oferecida por esses lugares. De acordo com ela, a atividade esportiva proporcionada pelas ONGs, possibilita que a sociedade passe a enxergar a pessoa com deficiência com um novo olhar.

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A dedicação gratuita a quem precisa, torna o trabalho do Pirata ainda

mais honroso. E é por causa de pessoas como ele, que não têm medo de trabalhar em prol da comunidade, que a vida de muitas pessoas vem sendo transformada.

Se hoje, pessoas com deficiência, tantas vezes desacreditas ou excluídas,

têm a oportunidade de surfar, é graças a três coisas: o amor voluntário, a vontade de mudar o mundo e a certeza de que as coisas sempre podem melhorar.

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Responsabilidade Social As pessoas que treinam na Pirata Surf Club, na Surfistas Para Sempre, na Adapt Surf ou até na Disabled Surfers Association, lá na Austrália, têm

uma coisa em comum, além da paixão pelo esporte: todas elas dependem do trabalho voluntário de cidadãos comprometidos com a causa e, quase sempre, dispostos a trabalhar sem cobrar nada10.

De acordo com Faria (2007) , as ONGs constituem uma forma de suprimir as falhas do governo, com relação à assistência e resolução dos problemas sociais, ambientais e até mesmo, econômicos. Em outras palavras, essas instituições existem para trabalhar nas áreas nas quais o governo não consegue atuar (Marés, 2011) , transformando-se em um elemento de importância vital na sociedade.

10 SUPERINTERESSANTE. Para que servem as ONGs? Disponível em: http://super.abril. com.br/superarquivo/2004/conteudo_124472.shtml. Acessado em: 22 de out. de 2011.

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A Adapt Surf, uma das principais instituições brasileiras de surf adaptado, foi fundada para atender uma das áreas em que as ações do governo

não chegam: a da inclusão de pessoas com deficiência. Afinal, segundo

estimativas da Organização Mundial de Saúde e do Censo realizado em

2000, 14,5% da população brasileira apresenta alguma deficiência física, mental, ou dificuldade visual, de audição ou locomoção11.

De acordo com a professora Luana, foi pensando nas necessidades do

outro e no quanto o surf poderia ajudar as pessoas, que a ONG recebeu a motivação que precisava para ser criada em 2007. “Nós tínhamos,

principalmente, vontade em oferecer essa experiência para mais pessoas”.

Hoje, a ONG já contabiliza mais de 2 mil aulas de surf adaptado12, desde a fundação.

11 ADAPT SURF. Justificativa. Disponível em: http://www.adaptsurf.org.br/quem_ somos_justificativa.html. Acessado em: 23 de out. de 2011. 12 ADAPT SURF. Apresentação. Disponível em: http://www.adaptsurf.org.br/quem_ somos_apresentacao.html. Acessado em: 23 de out. de 2011.

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A surfista Monique e a professora Luana. Foto: Felipe Tolomei

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As escolinhas de surf brasileiras, também se apresentam cada vez mais preocupadas com a inclusão das pessoas com deficiência no esporte. Apesar de oferecerem aulas

particulares, tanto a Pirata Surf Club quanto a escola do professor Cisco, promovem aulas gratuitas de surf.

“1% das pessoas que vem na escola tem algum tipo

de necessidade especial”, revela Cisco. O professor de

Santos diz que, além de pessoas com deficiência física, ele também atende em torno de 50 escolas do projeto “Omelca”, desenvolvido pela Secretaria da Educação

de Santos: “Recebemos grupos de mais ou menos vinte crianças, das quais pelo menos duas têm déficit de

atenção, síndrome de down ou autismo”, conta. “Mas a

gente não separa as crianças, a gente inclui; porque isso que é salutar para eles”. 98


Durante o verão, a Surfistas para Sempre, do professor Eduardo, também recebe alunos com deficiência. Mas o trabalho do professor não é de agora; vem desde a

época da faculdade, dedicação que já lhe rendeu cinco certificados importantes de Responsabilidade Social e Ações Voluntárias13.

Já na Riviera de São Lourenço, no município de Bertioga, é a Escola Riviera uma das principais apoiadoras da questão. Em 2010, a escola, já

proporcionou muitas tardes de surf às pessoas com deficiência, por meio de parcerias firmadas com a

Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE). “Independente do caso, mais uma vez ficou

comprovado que o surf não possui qualquer 13 SURFISTAS PARA SEMPRE. A Escola. Disponível em: http:// surfistasparasempre.com/new/static.php?page=aescola. Acessado em: 23 de out. de 2011.

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limitação podendo ser usado como uma excelente ferramenta de inclusão social,

melhorando a autoestima e proporcionando o bem estar entre seus praticantes”. (Nota da Escola Riviera, 2010)”.

O Instituto Novo Ser também leva surf de graça e outros esportes praticados na praia, para a realidade das pessoas com deficiência. Tudo por meio do projeto

Praia para Todos, realizado em parceria com a Secretaria Municipal de Turismo e instituições do setor privado.

“O projeto teve origem numa idéia nascida durante sessões de fisioterapia em que paciente (Ricardo Gonzalez Rocha Souza) e terapeuta (Alexandre Pinto Reis) discutiam as dificuldades e possibilidades para um deficiente físico, em especial cadeirante, exercer seu direito à cidadania. Surgiu da vontade criativa desses dois entusiastas o primeiro esboço do projeto, cujo ideal e objetivo era desenvolver, mediante parceria entre os setores público e privado, uma infraestrutura acessível para as pessoas com deficiência em pelo menos um posto de cada praia da cidade do Rio de Janeiro”.

(Praia para Todos, 2011)

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A partir de dezembro desse ano, além de atividades esportivas adaptadas, como frescobol, peteca e vôlei sentado, as pessoas com deficiência que estiverem no

Rio de Janeiro, poderão também aprender a surfar com Rico de Souza, surfista e empresário brasileiro.

Mas, apesar de todas essas ações, é importante lembrar que as pessoas com

deficiência não são as únicas a receber atenção e dedicação dessas instituições. Se

para Fortes (2008), houve um tempo em que o surf estava fortemente relacionado à vadiagem e ao consumo de drogas ilícitas, hoje, o esporte é um dos principais

agentes de reabilitação social, tanto no âmbito que se refere à inclusão, por meio do surf adaptado, quanto por meio de programas destinados a comunidades carentes, idosos e preservação do planeta.

O Instituto Tatuí, com sede em Niterói, no Rio de Janeiro, é um exemplo disso.

Fundado em 1998, pelo surfista Ricardo Tatuí, atende crianças de todas as idades, desde que estejam matriculadas na rede municipal ou estadual de ensino. A surfista carioca Monique Oliveira. Foto: Felipe Tolomei

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Ao fazer a inscrição, o aluno recebe o uniforme do projeto e têm acesso gratuito e todo o material necessário: pranchas, parafina e cordinhas. Como cair na água abre o apetite, antes e depois das aulas os alunos fazem um lanche composto de suco, leite, frutas e biscoitos. Além das aulas práticas de surf, precedidas de uma boa sessão de alongamento, os alunos aprendem a respeitar o meio ambiente, a conhecer o direcionamento dos ventos e a remar. Ganham ainda noções de biologia marinha.

(Apresentação - Instituto Tatuí)


Ao lado de Ricardo Tatuí, também estão os surfistas Peterson

Rosa e Jojó de Olivença, que mantém projetos voltados à criança,

em Matinhos, litoral do Paraná, e no Guarujá, litoral de São Paulo, respectivamente.

O programa “Surf na Escola”, comandado por Peterson, promove aulas de surf, palestras e educação ambiental de segunda a

sexta, nos períodos da manhã e da tarde . Em entrevista à revista

“Fluir”, de outubro de 2011, o fundador conta que para participar das atividades oferecidas pela instituição, é preciso ter bom

comportamento e estar com médias e frequências boas na escola.

“É uma forma de fazer com que eles dêem ainda mais importância para os estudos. No começo do ano teve o caso de cinco crianças que queriam participar, só que eles estavam com as notas baixas. Então, eu falei, ‘a vaga de vocês vai ficar reservada, assim que melhorarem na escola vocês começam’. Em menos de um mês, elas já estavam participando das aulas”. (Peterson Rosa para a edição de outubro da “FLUIR”, 2011)

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Já o projeto “Ondas”, do surfista baiano Jojó de Olivença, oferece programas voltados à alfabetização, aulas de surf, geografia,

português, matemática e educação ambiental, além de oficinas de hip-hop, música e grafite14.

O programa que hoje atende cerca de 60 crianças passou por algumas mudanças para atender à comunidade carente.

Com o fim do verão, a cidade ficou vazia e a escola perdeu muitos alunos. Jojó decidiu então utilizar o material para dar aulas a crianças carentes que estavam na praia recolhendo latinhas [...] Além disso, a prefeitura pediu para que trabalhassem com a comunidade Vila Baiana, na época uma das mais violentas e problemáticas do Guarujá.

(FLUIR, 2011)

14 FLUIR. Edição Especial de 28 anos. Heróis da Resistência. Outubro de 2011

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Hoje, há mais de 20 anos a frente do projeto, Jojó atribui ao esporte um papel importante.

Aplicamos os elementos que compõem o esporte, como a prancha, o mar, as ondas e o meio ambiente, nas aulas de geografia, matemática e português. Nosso objetivo não é formar bons surfistas, mas pessoas que surfarão com excelência as ondas da vida”.

(FLUIR, 2011)

Bertioga também está entre as cidades com projetos dedicados à cidadania através do surf. Seu destaque é a Escola Riviera, idealizadora do projeto “Surf para Todos”, destinado à população carente do município15.

15 ESCOLA RIVIERA. Responsabilidade Social: Apresentação. Disponível em: http://www.escolariviera.com.br/responsabilidade-social/ apresentacao-resp-social/. Acessado em: 25 de out. de 2011.

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Nela, as crianças participam de aulas de surf gratuitas o ano inteiro,

além de terem acesso a uma série de outras atividades, como oficinas

de pipas, pintura e colagem, e palestras sobre higiene bucal, nutrição e saúde.

Os alunos matriculados também recebem equipamentos e pranchas

gratuitamente, e têm um dia especial para confraternizar com os pais e familiares16.

No “Instituto Povo do Mar”, em Fortaleza, o destaque é a inclusão digital. Sediado em um dos lugares mais pobres do Ceará, a instituição oferece aulas de surf, reforço escolar, inglês, atendimento psicológico para

as famílias, educação sexual, música, artes plásticas, ioga e aulas de informática, que só enriquecem o aprendizado dos alunos.

Já no projeto “Onda Educacional”, em Ubatuba, é o surfista José Carlos Rennó quem faz bonito.

16 ESCOLA RIVIERA. Responsabilidade Social: Atividades. Disponível em: http:// www.escolariviera.com.br/responsabilidade-social/atividades/. Acessado em: 25 de out. de 2011.

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Eles (os alunos) não tinham nem ouvido falar de surf. [...] A maioria (das crianças) não frequentava o colégio e os pais não estavam nem aí. Então, eu mesmo ia lá e matriculava a criança. [...] Nas reuniões de pais e mestres, eu era chamado. E quando os pais tinham algum problema médico, eles me pediam ajuda. Aí vi que o buraco era mais embaixo”. ( José Carlos Rennó para a edição de outubro da “FLUIR”, 2011)

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Idosos também podem conquistar um espaço nas ondas, através de

projetos como o da Escola Radical, em Santos17. Já o meio ambiente e a conservação das praias, é preocupação de quase todas as instituições

que trabalham com o esporte, realidade que coloca o surfista como ator principal no processo de construção de uma sociedade sustentável.

A equipe aposta na conscientização ambiental como primeiro passo para construir um cidadão melhor.“Quando aprendermos a respeitar o meio ambiente estaremos dando o primeiro passo para uma convivência saudável e harmoniosa.

(O Instituto – Instituto Tatuí)

17 CLICK LITORAL. Notícia: Surf para Terceira Idade retoma atividades em Santos. Disponível em: http://www.clicklitoral.com.br/05753.html. Acessado em: 25 de out. de 2011

A equipe da Adapt Surf reunida na praia.

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Foto: Felipe Tolomei


A Adapt Surf, mais uma vez, é uma das entidades que apóiam a causa. Fundada há quatro anos, a instituição costuma realizar mutirões de

limpeza nas praias do Rio. Também é ela a responsável por organizar

eventos educativos, desenvolver material informativo e fazer uma vistoria permanente das condições ambientais das praias cariocas18.

Em Itanhaém, no litoral sul de São Paulo, a Ecosurf também se destaca

por ser uma instituição preocupada como meio ambiente. Fundada por surfistas comprometidos com a justiça socioambiental19, a ONG possui

projetos de gestão de recursos hídricos, planos de desenvolvimento

de turismo ecológico e rural, além de campanhas de limpeza, como a

“Onda e Água Limpa”; realizada em parceria com a rádio Jovem Pam, e

“Vamos Limpar o Mundo”; que engloba palestras, oficinas e mutirões de limpeza20.

18 ADAPT SURF. Projetos: Preservação da Natureza. Disponível em: http://www. adaptsurf.org.br/projetos_preservacao_da_natureza.html. Acessado em: 25 de out. de 2011. 19 ECOSURFI. Sobre a Ecosurfi. Disponível em: http://www.ecosurfi.org/. Acessado em: 25 de out. de 2011. 20 ECOSURFI. Projetos. Disponível em: http://www.ecosurfi.org/. Acessado em: 25 de out. de 2011.

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Já o projeto S.O.S. Praias Brasil, fundado em 1999 pelo paulista Marcelo Marinello, atua em toda a costa litorânea brasileira,

promovendo atividades de conscientização ambiental, teatro de praia, reciclagem de lixo e encaminhamento de resíduos para usinas de reciclagem21.

Se no passado, a imprensa fazia campanha contra o surf (Fortes, 2008), hoje, ela ajuda a divulgar o que o esporte tem de bom

para oferecer. Essa transformação tem refletido diretamente no número de pessoas que aderiram ao esporte, nos últimos anos. De acordo com a Sociedade Brasileira de Shapers e com a

International Surfing Association (ISA), pelo menos 25 milhões de pessoas, em mais de 100 países, são surfistas22.

21 FLUIR. Heróis da Resistência. 22 SOCIEDADE BRASILEIRA DE SHAPERS. Olimpíadas. Disponível em: http://www.sbs-shapers.com/olimpiadas.html. Acessado em: 25 de out. de 2011.

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Apesar da força de vontade dessas instituições, não é tão fácil

mantê-las quanto parece. Para abrir uma ONG, ou até mesmo

implantar um projeto social, as instituições precisam de recursos específicos23. Segundo o shaper e surfista Neco Carbone, esse é

um dos maiores impasses. “Você precisa registrá-la, contratar um contador e aí as coisas começam a ficar difíceis”.

Além da parte burocrática, as instituições também precisam se

preocupar com o serviço. Os alunos necessitam de equipamentos de qualidade e, principalmente, estrutura, e é nessa hora, que entram as parcerias com instituições do setor privado, um recurso muito

utilizado por ONGs e projetos sociais para receber pranchas, pés de pato e demais equipamentos utilizados na prática do esporte.

Projetos assim também precisam de voluntários, ou seja, gente engajada e disposta a trabalhar sem cobrar nada por isso.

23 LEANDRO, Evelyne. Como montar um Projeto Social. Disponível em: http:// evelyneleandro.wordpress.com/2008/01/31/como-montar-um-projeto-social/. Acessado em: 23 de out. de 2011.

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Sem falar nas doações, que também ajudam as ONGs a dar continuidade em suas atividades.

Com essa ajuda, fica um pouco mais fácil para as instituições oferecer uma estrutura que melhore a vida de centenas de

pessoas com deficiência, enquanto o governo não consegue suprir totalmente essa necessidade24.

De acordo Mara Gabrilli, tetraplégica e deputada federal, ainda não há nenhuma política pública de incentivo ao surf para

pessoas com deficiência, apenas um projeto que é executado

pelos governos municipais: “Não conheço projetos do Governo Federal que incentivem esta prática, diz. “O que existe é o

projeto Praia para Todos, que tem o apoio das prefeituras”. 24 PRAIA PARA TODOS. Comunicado à Imprensa. Disponível em: http:// www.praiaparatodos.com.br/docs/release_2011.pdf. Acessado em: 24 de out. de 2011.

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Da sacada da escola, Pirata acompanha o desempenho dos alunos. Com o olhar experiente, de quem entende do assunto, observa os surfistas

cruzarem a areia, na direção do oceano. Essa é a rotina de alguém que

acorda, todos os dias, para ajudar as pessoas. Como recompensa, recebe carinho, respeito, e o sentimento de dever cumprido.

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Gabriel Cristiano e sua companheira de ondas.

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Foto: Mariana Pedroso


Alunos De Ouro Se no passado, a vontade de ajudar as pessoas motivou o professor do Guarujá, hoje, o incentivo para fazer um trabalho cada vez melhor, vem também dos alunos.

Gabriel Cristiano é um dos garotos que freqüentam a Pirata Surf

Club. Aplicado, vai à aula todos os dias, apenas para curtir o prazer de deslizar sobre as ondas. É o tipo de garoto que sorri o tempo

inteiro; o tipo de pessoa que faz a gente acreditar que a vida vale a pena.

Nas areias esbranquiçadas do Guarujá, ele conta que começou a

surfar graças ao incentivo dos amigos: “Os meninos da minha rua

falavam muito no Pirata, que não tem uma perna e ajuda as pessoas deficientes”, revela. “No começo eu não queria ir, porque a escola fica longe de casa, mas eles me incentivaram, e eu decidi conhecer”.

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Foto: Mariana Pedroso


Esse apoio dos amigos fez com que o Gabriel se transformasse num

atleta completo. Hoje, além do surf, o garoto também nada, joga bola e

é ciclista. Do distrito de Vicente de Carvalho, onde mora com a família, até a praia de Pitangueiras, onde treina, são mais ou menos cinco

minutos de pedalada, trecho que Gabriel cumpre com tranquilidade. “Para me adaptar a tudo, foi questão de tempo”, diz ele. “Comecei a

fazer fisioterapia e treinei bastante. Isso melhorou a minha postura”.

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Outra aluna bastante empenhada ĂŠ a

surfista e modelo Monique Oliveira, que treina pela ONG Adapt Surf hĂĄ um ano

e nove meses. Dona de beleza e simpatia cativantes, ela, que ĂŠ portadora de

paralisia cerebral, teve sua vida totalmente transformada pelo esporte, e assim como

Gabriel, se surpreendeu ao descobrir que poderia aprender a surfar.

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Monique Oliveira curte as ondas do Rio. Foto: Regina Tolomei

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“Fui para a praia com uma amiga e lá, me deparei com um

surfista usuário de cadeira de rodas. A princípio, achei que fosse um surfista machucado, mas depois percebi que não”.

Intrigada com a situação daquele atleta, ela procurou a ONG

carioca para obter mais informações. E uma semana depois, já

estava matriculada, pronta para dar um novo rumo à sua vida. “Hoje”, diz, “sou mais indepentende, feliz, e tenho mais

confiança, coragem e força para continuar a viver, e passar por cima de qualquer obstáculo, como faço nas ondas”.

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Foto: Felipe Tolomei


Andre, em dia de apresentação da Adapt Surf. Foto: Regina Tolomei

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O cadeirante que Monique encontrou na praia, por

sua vez, o surfista Andre Souza, também reconhece as mudanças que o surf trouxe para a sua vida. Ele que

praticava remo, conheceu a proposta da ONG Adapt Surf na internet. Depois de ter experimento outras

modalidades adaptadas, Andre não pensa em largar o

surf por nada, e costuma dizer que o esporte se destaca

por possibilitar a interação social em espaço totalmente público.

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Muito surf no Rio de Janeiro. Foto: Felipe Tolomei

“A praia é um ambiente de lazer frequentado por pessoas de todos os meios e formações. É um lugar excelente para trabalhar a inclusão”. 124


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Depois de uma manhã inteira cuidando dos interesses da escolinha, Alcino apanha a pranchinha bicuda e sai em

direção à praia. Sem a perna mecânica, ele atravessa a faixa de areia, e chega à beira do mar em poucos instantes.

Corro atrás dele, com a máquina fotográfica nas mãos, mas me falta a agilidade que ele tem para conseguir alcançá-lo.

Numa questão de segundos, depois de inúmeras tentativas, já não consigo mais enxergá-lo na imensidão azul.

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Quase sem fôlego, subo a ladeira, contorno a praia, e

finalmente consigo localizar o Pirata, entre os surfistas

locais. Para o meu êxtase, chego na hora exata, e assisto de

camarote, o surfista e professor descer a única onda do dia, com ginga e graciosidade surpreendentes.

Nessa hora, até esqueço da câmera, mas não importa. Tenho certeza, de que este momento, ficará registrado na minha memória, enquanto eu viver.

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Uma big prancha para um grande surfista. Foto: Mariana Pedroso

128 128


CapĂ­tulo 3

Guerreiros das Ondas 129


P

or volta das duas da tarde, quando o sol está lá no alto,

os banhistas recolhem os guarda-sóis e saem para almoçar. Vão à caça dos restaurantes e dos quiosques super lotados

de Pitangueiras, para saborear petiscos e matar fome.

A faixa de areia, agora mais vazia, recebe o calor dos raios, que lá de cima, projetam sombras na praia. E lá, do outro lado da Avenida Marechal

Deodoro, onde os condomínios se enfileiram majestosamente, um homem

pilota uma cadeira de rodas com um controle remoto na altura do queixo.

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Sentada em um banco, na companhia do shaper1 Neco Carbone e do filho dele, Pedro, me emociono ao ver Taiu Bueno dirigir a cadeira até onde

estamos. O brasileiro pioneiro do surf de ondas grandes, ídolo do meu pai, desde que eu era pequena, é dono de uma luz e alegria que impressionam. Animado, ele atravessa a rua, passa pelos turistas que transitam por ali, mexe com os cachorros que passeiam pelo calçadão. E, com um sorriso

grande no rosto, desses de quem tem orgulho da própria história, pergunta se já vimos sua prancha:

“Ter ela parada ali” (no condomínio onde mora), diz ele, “é a melhor coisa”. 1 Profissional que modela e dá forma à prancha.

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Vitória Quem vê Taiu assim, tão contente, não imagina o quanto foi difícil para ele

chegar até aqui. Ele, que era uma das grandes promessas do surf na década de 80, campeão brasileiro em 84 e campeão paulista, em 86, sofreu um

acidente, vinte anos atrás, enquanto descia uma onda na praia de Paúba, em São Sebastião. O fato interrompeu a carreira de surfista, deixando-o na condição de usuário de cadeira de rodas. Entretanto, não foi motivo suficiente para pôr um fim na relação de Taiu com o mar.

Mesmo tendo traumatizado a coluna, e perdido a mobilidade do ombro para baixo, Taiu fez questão de acompanhar o esporte pelos bastidores, participando de campeonatos de surf como locutor e comentarista, e escrevendo colunas em jornais e revistas.

Taiu também tentou voltar a surfar com a ajuda do amigo Neco Carbone.

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Juntos, eles desenharam uma prancha especial, com todas as adaptações necessárias para o guerreiro surfar com segurança. Mas com o passar do tempo, a prancha acabou esquecida no galpão de Neco, cheia de etapas para serem concluídas.

No ano passado, porém, uma surpresa acabou mudando o rumo dessa

história. As jovens Paula Luana Maia e Carol Araújo, estudantes de cinema das Oficinas Querô, procuraram o surfista para fazer um filme sobre surf

adaptado. A ideia era reunir praticantes da modalidade no mesmo espaço, para surfar e falar sobre o esporte.

“Eu falei que não poderia participar porque, até então, eu não surfava”,

explica Taiu. Entretanto, o surfista acabou se recordando, dias depois, do

projeto de prancha que tinha desenvolvido com o amigo Neco Carbone, e

encontrando nele, uma oportunidade de transformar sonho em realidade. “Foi o ‘Aloha’ que deu o empurrão”, explica Neco. “Nós sonhávamos com

isso há muito tempo, e o filme acelerou tudo”. 133


134


Hoje, a prancha que teve a fabricação acelerada para aparecer nas filmagens de “Aloha”, já proporcionou que Taiu pegasse muitas

ondas. E até mesmo a deputada federal Mara Gabrilli, cadeirante desde 1994 devido a um acidente automobilístico, já teve a

oportunidade de experimentar o equipamento arrojado. “Foi uma experiência maravilhosa e emocionante”, conta Mara. “Senti uma

energia incrível, pois adoro me exercitar e amo água. Unir as duas coisas foi sensacional”.

A deputada diz ainda não ter sentido medo nem desconforto no

cockpit da prancha. “O que eu senti foi adrenalina e ansiedade. Foi a coisa mais louca que eu já fiz”, conclui.

A experiência da prancha deu tão certo que Taiu não parou mais de se mexer. De alma lavada, o surfista planeja agora abrir uma

ONG e uma base de surf na praia das Astúrias, para dar aquele empurrãozinho na história de outros surfistas. 135


“A ideia é disponibilizar equipamentos e instrutores,

que possam dar suporte à galera que vá surfar”, revela Neco, o amigo de Taiu. Se tudo correr bem, a futura

base contará com aulas de surf gratuitas, e pranchas à disposição de surfistas com e sem deficiência.

Outra novidade do surfista é a candidatura pelo

Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), no ano que vem. Na política, o guerreiro pretende lutar pelos direitos

das pessoas com deficiência e melhorias no âmbito da acessibilidade.

136


A amizade de Taiu e Neco é o elo forte dessa história.

Juntos, os dois não só construíram uma prancha, como

também encontraram um novo rumo para as suas vidas. Foi a iniciativa da dupla que permitiu a Neco ter de volta a companhia do amigo dentro d’água. E que devolveu a

Taiu, a oportunidade de fazer aquilo que ele mais gosta, desde o dia em que surfou pela primeira vez.

Com amizade e parceria, a dupla venceu desafios, deu

um novo começo à uma história que parecia terminada, e o mais importante: criou novas esperanças para pessoas do mundo inteiro.

137


Prancha Adaptada Antigamente, ver uma pessoa com deficiência surfar era algo improvável. As pranchas eram pesadas, não haviam ferramentas adequadas e nem tecnologia suficiente para construir um

equipamento tão complexo. Hoje, graças ao uso de suportes inteligentes, o cenário mudou de figura: a prancha de Taiu Bueno é um exemplo dessa evolução.

Ela é bastante diferente dos modelos convencionais: tem 14 pés de comprimento (o equivalente a

5 metros), e espaço para três pessoas. No equipamento, também há uma espécie de cockpit , onde

foi instalada uma cadeira, com revestimento de tapeçaria naval. Entretanto, seu maior diferencial não está propriamente no design arrojado, mas na funcionalidade, que permite a prática do

esporte por pessoas que tiveram a mobilidade do corpo quase que totalmente comprometida. De acordo com Neco Carbone, o modelo que Taiu usa para surfar hoje, deve passar por

modificações em breve, para melhorar o desempenho nas ondas. “Estamos estudando alternativas para tirar a cadeira de lá, porque ela é muito pesada”, explica.

Outro problema é com relação à estabilidade, já que a cadeira é alta: “A idéia é fazer alguma coisa no nível do cockpit, porque com um centro de gravidade mais baixo, a possibilidade de virar é menor”.

A prancha de Taiu Bueno não é a única a ter adaptações. O surfista Andre Melo de Souza, do Rio 138


de Janeiro, surfa com uma prancha com duas alças de apoio acopladas. Já a colega de ondas, a

surfista Monique Oliveira, dá show nas praias do Rio em um bodyboard especial, também com alças de apoio, que dão mais segurança à ela durante as manobras.

Em Santos, o surfista Val surfa com um longboard amarelo com 9’10 pés de comprimento, desenvolvido especialmente para deficientes visuais. O professor Cisco Araña, responsável

pelo projeto, conta que o modelo levou mais ou menos dez anos para ser construído: “São dez adaptações seguras, que foram desenvolvidas depois de muita observação”.

A prancha do Val não é lisa como a maioria: há uma espécie de textura na parte superior do equipamento que dispensa o uso de parafina2.

Além disso, há também ondulações para o suporte dos pés, frisos em alto relevo, bordas para as

mãos, velcro para posicionamento e guizos instalados no bico e na rabeta3. A quilha, por sua vez,

é revestida com espuma EVA, para evitar que o próprio Val, ou outros banhistas, se machuquem caso ele caia da prancha.

“A prancha hoje é um facilitador”, explica Cisco. “porque encurta o tempo de aprendizado”. Na opinião de Val, o longboard possibilita também que ele explore manobras, e não fique preso somente à condição de descer a onda. “Ela me permite ir além”, conclui.

2 Produto derivado do petróleo, com propriedades termoplásticas e repelência à água. No surf, a parafina é usada com o propósito de impedir que o surfista escorregue da prancha. 3 Parte de trás da prancha.

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Muito Trabalho Quem vê o longboard amarelo ou a prancha de Taiu Bueno. nem imagina o quanto foi

difícil produzí-las. Porque, além da observação mencionada pelo professor Cisco, o processo costuma envolver uma engenharia delicada,

que faz ou já fez parte da rotina de shapers do mundo inteiro.

Seja ela adaptada ou não, fabricar uma prancha nunca foi tarefa fácil. A produção desse tipo de equipamento requer atenção a uma

série de detalhes muito sutis, porque qualquer erro ou mudança pode alterar totalmente o desempenho do mesmo4.

4 Guia de Pranchas da revista “Fluir”. Outubro de 2003.

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Muito surf na praia das AstĂşrias. Foto: Diana Bueno

141


Na fabricação de uma prancha pelo método convencional (ou seja, sem a

ajuda de softwares ou máquinas), por exemplo, o processo é iniciado em um bloco bruto de poliuretano. É nesse bloco, que shapers como Neco Carbone, dão forma e modelam o equipamento, adaptando-o às necessidades do surfista.

Essa etapa é muito importante, porque é exatamente aí que se descobre as

futuras finalidades da prancha. Cabe ao shaper levantar informações sobre

como será usado o equipamento, o tamanho das ondas que serão surfadas e as características físicas do surfista, afinal, a altura e o peso do atleta são os fatores de maior influência durante a performance.

No equipamento, também é importante prestar atenção em um ponto

conhecido por wide point5, que influencia diretamente no desempenho da

prancha. Wide point localizado a três polegadas atrás do centro, resulta em

manobras mais suaves. No meio, proporciona um equilíbrio entre manobra e

direção. Na frente, a três polegadas da área central, resulta em manobras mais abertas e radicais6.

5 Ponto de largura máxima da prancha. 6 Guia de Pranchas da revista “Fluir”. Outubro de 2003.

142


Bico7, curva de fundo8 e rabeta9 são sempre feitos de acordo com as condições

das ondas. A rabeta do tipo squah, por exemplo, pode ser aplicada a qualquer tipo de prancha. Já a pin tail, é usada em pranchas acima de sete pés de

comprimento, para surfar ondas grandes, ocas e rápidas. A variante round pin é mais adequada para ondas de tamanho médio ou tubulares, como as do Havaí e da Indonésia. O tipo smallow é aconselhável para ondas gordas e cheias. E, por último, a variante wings, é usada em pranchas pequenas e largas.

O shaper ainda tem que ficar atento às configurações do fundo10 e à

distribuição do volume. E até o jeito do atleta surfar deve ser levado em

conta, porque dependendo do estilo, o shaper fará a distribuição correta da

densidade. Se o surfista em questão é mais hábil, e coloca muita força na parte de trás da prancha, por exemplo, a espessura da rabeta tem que ser maior

do que no bico. Mas, se o surfista em questão tem pouca habilidade, e coloca muita força na parte da frente da prancha, tem que haver uma distribuição equilibrada na rabeta e no bico, para ajudá-lo nas remadas.

7 Parte frontal da prancha, que controla o fluxo de água. 8 Curva que controla o fluxo de água. Quanto mais acentuada, menor o fluxo e manobra mais rápida. 9 Parte de trás da prancha. 10 É a configuração da parte de baixo da prancha em sentido transversal.

143


Bordas11 também estão diretamente conectadas ao processo construtivo e exigem

cuidado. As grossas evitam que a água suba ao deck da prancha. Já as finas, permitem que a prancha penetre na água, proporcionando maior sensibilidade.

O shaper também é o responsável por instalar as quilhas na prancha, um acessório que absorve a energia do fluxo de água, agrega pressão e velocidade, além de direcionar o

equipamento. Basicamente, existem quatro tipos e suas respectivas situações de uso: a monoquilha (uma quilha apenas) é recomendada para longboards, por proporcionar

manobras mais clássicas. Biquilhas (duas quilhas), que são usadas em ondas pequenas.

Triquilhas (três quilhas), que por sua vez, estão em quase todas as pranchas, graças a sua versatilidade. E as quadriquilhas (quatro quilhas), para um surf de velocidade.

Esse processo complexo e demorado não é novidade para Neco Carbone. Durante

anos de profissão, o shaper já produziu pranchas dos mais variados tipos, inclusive equipamentos para pessoas com deficiência: “Pranchinhas, longboards, fishes,

funboards”, conta. “O meu trabalho é adaptar pranchas de acordo com a sua finalidade. E no caso da prancha para pessoas com deficiência, é um equipamento que também precisa ser estudado”, explica. “Conversando com o atleta e descobrindo a técnica utilizada, eu desenvolvo o equipamento adequado”. 11 Laterais das pranchas.

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145

Foto: Diana Bueno


Ainda de acordo com Neco, a diferença entre um equipamento

convencional e um equipamento adaptado só aparece mesmo quando o

surfista necessita de acessórios extras, como as alças de apoio instaladas na prancha de Andre Souza, ou a superfície tátil na prancha do Val.

Fora isso, o processo de fabricação de uma prancha convencional e de uma prancha adaptada é igual.

146


Taiu começou a surfar aos 11 anos de idade, nessa mesma praia onde conversamos agora, com uma prancha de isopor.

Foi no mar de Pitangueiras, onde as ondas quebram com força, que o garoto local do Guarujá aprendeu a amar e respeitar o oceano.

De lá para cá, o sol já nasceu e se pôs muitas vezes, e inúmeros modelos diferentes passaram pelas mãos do surfista, na trajetória que o consagrou como um dos melhores big riders12 brasileiros.

Nas praias do Havaí, por exemplo, onde viveu por anos, Taiu já surfou nas

pranchinhas mais velozes do mundo, e impressionou fãs, colegas de profissão e imprensa.

Entretanto, de todas as pranchas que ele já teve, é o protótipo desenvolvido pelo amigo Neco Carbone, o favorito.

Afinal de contas, depois de 20 anos sem descer uma única onda, foi o

equipamento pouco convencional que devolveu a ele a oportunidade de fazer o que mais gosta: surfar.

12 Surfistas de ondas grandes.

147


Tecnologia A Favor Das Ondas

Se ainda vivêssemos na época do Duke Kahanamoku, a

prancha que Taiu tanto adora, não existiria. Simplesmente

porque, naquela época, tudo era feito com toras de árvore de

até 80 quilos, lascas de pedra e pedaços de corais: ferramentas muito precárias para construir um equipamento tão rico em detalhes.

Mas, com a tecnologia, tudo ficou mais fácil: e hoje, já existem softwares e máquinas inteligentes para colocar um fim na dor de cabeça dos fabricantes.

Um dos softwares mais usados é o “Shape3D”. Desenvolvido na França, o programa profissional dá suporte ao shaper,

desde a fase do desenho até a fabricação do produto, uma vez que funciona em qualquer máquina de shape por comando numérico computadorizado13.

Com o software, todo aquele processo detalhado de preparo 13 Máquina desenvolvida para cortar shapes sozinha, seguindo as orientações de um software inteligente de computador.

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do bloco, definição de ponto máximo de largura, cálculo

do volume, acabamento no bico e na rabeta, retoque nas

bordas e implatação das quilhas, é substituído por um único “click”: o programa permite o corte completo das bordas e da longarina, além de oferecer precisão nas medidas.

Além disso, a visão de cada shape é tridimensional, com

zoom digital e iluminação de qualquer ângulo, o que facilita a correção de erros antes do desenho ser enviado para a máquina14.

Mas, para quem pensa que é só lá fora que encontramos tecnologia de ponta, um outro programa, de finalidade

semelhante, vem para mostrar o contrário. O “Surfcad”,

desenvolvido pelo shaper brasileiro Luciano Leão, é muito parecido com o Shape3D, e possibilita que o designer

trabalhe no computador e deixe a parte braçal para a máquina.

14 WAVES. Notícia: Shape 3D chega ao Brasil. Disponível em: http:// waves.terra.com.br/surf/noticia/shape3d-chega-ao-brasil/34118. Acessado em: 21 de out. de 2011.

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149


A prancha do guerreiro. Foto: Mariana Pedroso

150


De acordo com Miguel Jorge, da HTSurf, empresa que comercializa matérias-primas, ferramentas, máquinas e outros equipamentos para shapers, a utilização desse tipo de recurso proporciona

inúmeras vantagens. “A máquina e o software auxiliam e aumentam a qualidade e a produtividade”, diz. “Por meio de comando numérico, a máquina realiza a usinagem das pranchas, tanto de poliuretano quanto de EPS (isopor)”, explica.

Ainda de acordo com Miguel, o tempo de produção pelo novo método é mais curto: “O trabalho que

antes era realizado manualmente, em aproximadamente duas horas, hoje é feito em quinze minutos, com extrema precisão”.

A inovação tecnológica recebe o apoio do shaper Neco Carbone. Ele, que fez uso do Shape 3D e de uma

máquina de comando numérico computadorizado para construir a big prancha de Taiu, acha que com esses softwares, a fabricação ficou mais fácil. “Hoje em dia a gente tem a tecnologia a nosso favor”, diz. “Você faz o projeto e a máquina corta o que foi projetado. Além disso, o programa te dá o volume da

prancha em litros, te ajuda a equalizar o peso da pessoa e te orienta a fazer a distribuição do volume para a prancha não virar”.

No caso da prancha do Taiu, um modelo completamente diferente dos convencionais, o software deu uma ajuda ainda maior: “A prancha dele é para três pessoas, e por isso, foi feita considerando o peso

de três adultos”, conta. “O software também orientou o melhor lugar para o Taiu ficar”, finaliza Neco, lembrando que o cockpit não está exatamente instalado no meio. 151


Além do Shape3D e do Surfcad, os surfistas do Brasil e do mundo também podem contar com os

programas APS3000, Aku Shaper e BoardCAD, ambos para o desenvolvimento de pranchas de surf.

Fábricas especializadas daqui também comercializam máquinas para a fabricação dos pré-shapes. De

acordo com Miguel Jorge, esse tipo de equipamento é recomendado para empresas grandes, e seu preço varia de acordo com os dispositivos e programas que constituem seu sistema: “O preço de venda é de aproximadamente 180 mil reais, dependendo da configuração da máquina”.

Se na época do Duke, a ideia de uma pessoa com deficiência surfar era surreal, por causa da falta de estrutura no equipamento, hoje, graças à tecnologia, a história mudou.

A prancha do Taiu é, atualmente, a prova de que o surf se reestruturou, ao longo dos anos, para receber todas as pessoas que queiram surfar, independentemente da condição física.

No processo de inclusão, que exige transformações profundas, a sociedade se adapta para atender às necessidades das pessoas com deficiência e, com isso, se torna mais atenta às necessidades de todos. Já no de inserção, que se contenta com transformações superficiais, são as pessoas com deficiência se adaptam às necessidades dos modelos que já existem na sociedade, que faz apenas ajustes. (Toque aos Jornalistas, Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência do Governo do Estado de São Paulo).

152


Distantes das ondas que quebram sem pausa, vendedores passam por nós, guiando carrinhos de picolé. Pedro, o filho do Neco, é uma das crianças que se aproximam do “homem do sorvete”, ansioso para ganhar uma sobremesa.

“O trato é o seguinte”, propõe ele a Taiu, “vou tomar o sorvete e depois

apostamos uma corrida”. Minutos depois, com a embalagem em frangalhos e o palito vazio entre os dedos, o garoto dispara pela calçada, seguido pelo surfista de cadeira de rodas.

Posso ouvir a risada dos dois, enquanto eles tomam distância. E me divirto

com o resultado final da disputa, que classifica tanto Taiu quanto Pedro em primeiro lugar.

Entre os turistas que aproveitam a tarde do domingo, localizo a dupla, retornando até nós. E penso que uma corrida tão divertida, não seria

possível se não fosse a rampa acessível recém instalada no calçadão de Pitangueiras.

É graças a ela que Taiu, e outras pessoas com deficiência, podem atravessar a rua com segurança e curtir tudo o que a praia tem para oferecer. 153


Equipamentos Adaptados Que uma prancha adaptada às necessidades do

surfista é indispensável para a prática segura do

surf, todo mundo já sabe. Entretanto, para vencer

os obstáculos da areia e chegar ao oceano, a pessoa com deficiência costuma fazer uso de outros de

equipamentos adaptados, tão importantes quanto à prancha especial.

A rampa acessível é um destaque entre os ítens.

Por meio dela, as pessoas com deficiência têm sua

locomoção facilitada, evitando escadas tanto nas vias públicas, como em lugares fechados.

Para construí-la, em casa ou locais de acesso público (praças, parques, praias e etc.), é preciso seguir uma

série de exigências criadas justamente para garantir a segurança, o conforto e principalmente, a autonomia da pessoa com deficiência. 154


Entre as regras, podemos citar os padrões pré-

estabelecidos de inclinação (geralmente 8,33%), a largura mínima de 1 metro e 20 centímetros e a exigência de

corrimão em ambos os lados. Todas esses regras fazem

parte da Norma Brasileira Regulamentadora 9050 (NBR 9050), criada pela Promotoria de Justiça de Defesa do Idoso e do Portador de Deficiência (PRODIDE), e pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT).

Outro equipamento interessante é o elevador acessível, instalado nos transportes coletivos. No Guarujá, por

exemplo, toda vez que Taiu sente vontade de surfar, o jeito é ir para a praia de ônibus. “O Taiu anda mais de ônibus do que de carro”, conta Neco Carbone.

O companheiro de ondas de Neco explica o porquê: “O ônibus para e eles abaixam o elevador”, revela Taiu. “É mais fácil e demora apenas um minuto”.

155


Para implantar o elevador no transporte público, também exige-se o

cumprimento de uma série de normas técnicas. Ele, que nada mais é do que

uma rampa motorizada, deve permitir, por exemplo, que tanto a pessoa com deficiência em cadeira de rodas, como a pessoa com mobilidade reduzida

em pé, tenham acesso ao interior do veículo. É importante também que essa rampa elevatória tenha uma largura mínima útil de 800 mm, e que esteja

totalmente fixa ao veículo, sem nenhum vão entre o ônibus que exceda 15mm quando em posição de operação ou transporte.

Na opinião de Neco e Taiu, os elevadores nos ônibus do Guarujá deixam tudo

mais prático. “Eu posso ir para lá e para cá o dia inteiro, e ainda economizo bateria”, brinca Taiu, falando da própria cadeira de rodas.

Brincadeiras à parte, na areia, a preocupação com o acesso continua. Tudo porque as rodas da cadeira de Taiu não foram feitas para transitar em

uma superfície tão grossa e disforme. É nessa hora que dois equipamentos

adaptados chegam para cumprir funções muito especiais e tornar a praia um pouco mais acessível. São eles: a esteira de acesso e a cadeira anfíbia. 156


Geralmente confeccionada em plástico ou bambu, a esteira foi criada para

facilitar o trânsito de pessoas nas faixas de areia. Curiosamente, ela não só ajuda as pessoas com deficiência, como também pessoas com mobilidade reduzida, idosos, crianças, gestantes e mães com carrinhos de bebê. De

acordo com o Guia de Acessibilidade das Praias, desenvolvido pela ONG Adapt Surf, essas esteiras melhoram a circulação das pessoas, além de proporcionarem maior autonomia.

Se na areia, a esteira é uma mão na roda, na água é a cadeira anfíbia que melhora a mobilidade das pessoas com deficiência. “A cadeira é a única

maneira dos usuários de cadeira de rodas entrarem no mar com autonomia e segurança, sem a necessidade de serem carregados”, explica Ricardo

Gonzalez, do Instituto Novo Ser, no Rio de Janeiro. De acordo com ele, este

equipamento, em particular, possibilita que a pessoa com deficiência usufrua e aproveite com dignidade, o lazer proporcionado pela praia.

157


Muito parecida com uma cadeira comum, o

tipo anfíbia possui assento reclinável e apoios de pés ajustáveis em várias posições. Mas seu

principal diferencial está nas rodas, especialmente

desenvolvidas para andar na areia e flutuar na água. Segundo a professora Luana Nobre, da ONG Adapt Surf, o valor do equipamento varia de acordo com a quantidade de rodas: a cadeira com quatro rodas,

chega a custar em torno de 4 mil e 500 reais, a com três; 2 mil e 500, e a mais simples, com duas rodas apenas, pode ser comprada por 1 mil e 500 reais. “O custo final do equipamento sempre foi muito

caro”, opina Ricardo. De acordo com ele, o governo não dá subsídios e nem oferece esse tipo de

tecnologia a quem precisa. Além disso, ele acredita

que o número de cadeiras anfíbias de uso gratuito, é insuficientemente compatível com a quantidade de

pessoas que tem alguma deficiência no Brasil. “Essa 158


ferramenta está ainda muito longe de quem precisa, se pensarmos na extensão litorãnea de quase 9 mil quilômetros do país”.

Enquanto a costa brasileira não é totalmente

beneficiada com a chegada do equipamento, as pessoas com deficiência podem adquirir a cadeira em lojas

especializadas ou pela internet. A professora Luana

recomenda sempre o modelo com quatro rodas, que

proporciona maiores benefícios. “Ele é o mais indicado, pois facilita a locomoção e a flutuabilidade, além de proporcionar maior conforto para o usuário”.

Outra opção é frequentar a praia do Leblon aos

domingos, e participar das atividades gratuitas da ONG Adapt Surf. “A prefeitura do Rio cedeu por meio de

convênio estabelecido, em 2008, duas cadeiras anfíbias para a ONG desenvolver as atividades gratuitamente. Para utilizá-las é só frequentar praia do Leblon, em

frente ao posto 11, todos os domingos das 10 às 16 horas.” 159


Acessibilidade e oportunidade são responsáveis pela diminuta participação de pessoas deficientes na sociedade. Essas dificuldades ficam claras quando observamos que tudo é elaborado para os ditos “normais”. Como exemplo, um simples degrau ou uma porta com largura inferior ao de uma cadeira de roda, em um banheiro, pode impossibilitar a passagem. (ANDRADE; BRANDT, 2008)

Na água, com exceção das pranchas adaptadas, os equipamentos utilizados

pelas pessoas com deficiência não diferem muito dos utilizados pelos surfistas iniciantes. Algumas pessoas que surfam de bodyboard, por exemplo, fazem

uso do pé de pato, um acessório para ajudar no nado e na prática de esportes aquáticos. Há também os que se protegem por meio do uso do coletes salva

vidas, como a surfista carioca Monique Oliveira e o próprio Taiu Bueno. Eles, que tiveram a coordenação motora e os movimentos do corpo comprometidos, em

tipos e graus diferentes, se sentem mais seguros ao fazer o uso do equipamento. Além do colete, Taiu usa também uma bóia no pescoço, ítem indispensável no

caso dele, que não tem os movimentos do ombro para baixo. No caso da prancha

virar, como já aconteceu, é o equipamento que traz Taiu para a superfície, mesmo quando ele e os amigos estão surfando no fundo. 160


É exatamente nesse horário, quando o céu se pinta com

a cor alaranjada das castanhas, que Taiu costuma sair do

condomínio onde vive para dar uma volta. Comandando a

cadeira motorizada com o queixo, o surfista passeia pelo calçadão acinzentado e rodeado de coqueiros, desenhando, ainda que sem saber, fragmentos de um novo retrato social. Sua autonomia é

uma das maiores provas de que, apesar dos desafios, a sociedade está se transformando. E de que, muito em breve, viveremos em um mundo acessível a todos.

161


Praia Para Todos

O processo é demorado, mas com a ajuda de instituições

engajadas, as transformações começam a aparecer. De acordo com o

Guia de Acessibilidade nas Praias, elaborado pela ONG Adapt Surf, em 2010, só no Rio de Janeiro existem sete praias com um nível médio de

acessibilidade para pessoas com deficiência. São elas: Leme, Copacabana, Arpoador, Ipanema, Leblon, São Conrado e Barra da Tijuca. Isso significa

que a maioria das praias citadas oferece uma parte das adaptações básicas necessárias para a prática do surf adaptado e do turismo acessível.

162


Para classificá-las a ONG elegeu cinco itens: rampas de acesso à faixa de

areia, esteiras para circulação, cadeira de rodas anfíbia, equipe especializada e infra-estrutura (com postos de salvamento, chuveiros e banheiros

adaptados, faixa de pedestres com sinal sonoro, vagas de estacionamento, piso tátil, guias rebaixadas e rampas de acesso).

Apenas três praias cariocas estão no nível regular (Diabo, Recreio e

Macumba) e quatro no nível ruim ( Joatinga, Reserva, Prainha e Grumari).

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Pitangueiras, Guarujรก.

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Foto: Mariana Pedroso


Em São Paulo, o projeto de praia acessível também já aconteceu,

especialmente nos municípios de Santos e Guarujá. A cidade onde Taiu mora com a esposa, por exemplo, recebeu no ano passado, 12 cadeiras anfíbias15,

segundo informações do Governo do Estado de São Paulo.

“Aqui no Guarujá eles fizeram a praia acessível acontecer durante o verão, e

todo mundo ficou empolgado”, revela Taiu. Mesmo não sabendo se o projeto

terá novas edições, o surfista antecipa o apoio. Para ele, essa foi uma iniciativa bastante interessante da prefeitura.

15 GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Notícia: Governo entrega 12 cadeiras anfíbias para o município do Guarujá. Disponível em: http://www.saopaulo.sp.gov.br/ spnoticias/lenoticia.php?id=209008. Acessado em: 20 de out. de 2011.

165


O que aconteceu no Guarujá é bastante semelhante ao Praia para Todos,

realizado pelo Instituto Novo Ser, lá no Rio de Janeiro, e o Praia Acessível, que acontece em Portugal.

A iniciativa européia partiu de três instituições: o Instituto Nacional para a Reabilitação, o Instituto da Água e o Instituto do Emprego e Formação Profissional, em parceria com o turismo de Portugal, e o objetivo é

o mesmo: oferecer uma estrutura que possibilite o acesso a todas as pessoas, independente das condições físicas de cada uma.

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Com este projecto, e na sequência do que se encontra previsto para a orla costeira e atendendo também à legislação sobre acessibilidade, designadamente o que dispõe o Decreto-Lei nº 163/2006, de 8 de Agosto, pretende-se que as zonas balneares, designadas como tal no âmbito do Artigo 51º do Decreto-Lei nº 236/98, de 1 de Agosto, reúnam um conjunto de condições que permitam o seu uso por todas as pessoas, sem que se ponha em causa a idade e as dificuldades de locomoção ou mobilidade. (Praia Acessível, Instituto Nacional para a Reabilitação)

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Certa vez, a prancha de Taiu Bueno virou durante uma sessão de

surf. O amigo Neco Carbone, e os outros surfistas que estavam na praia, ficaram muito preocupados.

Em meio à correria, Taiu foi o único a manter a calma. E

tranqüilizou os amigos, passando orientações do que deveria ser feito.

Na beira da praia, livre do perigo, o surfista esperou a adrenalina

baixar e fez um pedido: disse às pessoas que queria voltar ao mar. Admirados e intrigados com sua coragem, eles apanharam a

prancha e retornaram às águas do Guarujá para fazer a vontade do amigo.

Hoje, sentado ao meu lado, Taiu demonstra ter muito mais do

que paixão pelo esporte: existe uma sintonia mágica entre ele e a praia.

E é essa conexão, quase surreral, que faz de Taiu um expert das

ondas, e permite a ele saber a hora e o momento certo de entrar na água.

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Corpo Adaptado Se existem aqueles que precisam de equipamentos especiais para

enfrentar as ondas, também existem aqueles que fazem do próprio

corpo, uma arma de combate para encarar o oceano. Alcino Pirata é

um deles. Por causa da deficiência, ele desenvolveu um estilo próprio de surfar, que consiste em utilizar as mãos e o joelho.

“Depois do acidente, ele quis voltar a surfar de bodyboard16”, explica Neco Carbone, compadre e amigo de Alcino. No entanto, de acordo

com o shaper, o surfista não gostou de surfar deitado, e resolveu pegar uma prancha emprestada, dias depois, para tentar surfar novamente

de pé. “Foi aí que ele criou esse estilo de surfar com um pé direito atrás e a mão esquerda na frente”, diz ele. “Hoje ele surfa com uma prancha normal, sem nenhuma adaptação”.

Sobre a técnica desenvolvida, Alcino Pirata é objetivo: “descobri o centro de gravidade perfeito e me sinto totalmente seguro”. 16 Prancha em que se surfa deitado.

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Alcino Pirata Foto: Bruno Lemos

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O aluno Gabriel parece seguir os mesmos passos do professor, e aperfeiçoa a cada dia, a execução dos movimentos em cima

da prancha. Com muito treino e força de vontade, ele também

descobriu sozinho o melhor jeito de se equilibrar para se manter sobre as ondas.

Gabriel conta que no começo caiu muitas vezes da pranchinha bicuda, mas que nunca pensou em desistir. De acordo com

ele, coragem e persistência foram os ingredientes especiais da receita, enquanto o apoio dos mestres, o tempero essencial.

“Os professores me ajudaram muito”, diz ele, sobre a fase de aprendizado. “O pessoal da escola é bem legal”.

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Gabriel Cristiano Foto: Mariana Pedroso

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O sufista Henrique Saraiva

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Foto: Fabio Minduim


Adaptar o próprio corpo também foi uma opção para o surfista Henrique Saraiva, lá do Rio de Janeiro. Apesar de não ser considerado como uma

modalidade do surf adaptado, o “kneeboard,” ou surf de joelhos, foi o jeito que ele encontrou de aproveitar as ondas. “Antes de surfar de kneeboard, tentei surfar de bodyboard”, diz Henrique, “mas tive muitas dores de coluna”. Hoje, surfando em alto estilo, as dores passaram e o surfista mudou sua perspectiva. “O surf pra mim é mais do que um esporte, tornou-se um estilo de vida”.

[...] Então não tem essa diferença: se o cara é profissional, se o cara não manda bem ou se ele vai reto, ele está surfando do mesmo jeito. Mesmo que o cara tenha algumas dificuldades ou debilidades, ele ainda está surfando. ( Jair de Oliveira para o documentário Aloha, 2010)

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Aprender a controlar a mente e o corpo não é uma tarefa fácil. Para chegar onde estão hoje, Pirata, Gabriel e Henrique, tiveram que cair várias vezes e

engolir muita água. O psicólogo Leandro Kruszielski consegue explicar porque

equilibrar-se em uma prancha é tão difícil. Segundo ele, o que torna a atividade

tão complexa é o equilíbrio dinâmico exigido pelo esporte, exatamente o mesmo que a pessoa tem que ter quando vai andar de skate ou bicicleta.

“O atleta precisa manter-se de pé enquanto desloca-se na água (assim como o

ciclista precisa pedalar para poder continuar em equilíbrio)”, explica. “Essa é uma característica interessante do surf ”.

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Leandro também compara o surf com uma teoria famosa de Jean Piaget17, conhecida como equilibração. Resumidamente, essa teoria consiste em

compreender o conhecimento humano partindo do princípio de que todo ser

humano procura manter um estado de equilíbrio (adaptação) com o meio. “O

desenvolvimento cognitivo (em outras palavras, o modo como a gente se percebe ou interpreta) não é um crescente linear, mas uma espécie de espiral que prevê

certos avanços e retrocessos nas estruturas mentais”, explica Leandro. Isso quer

dizer que, assim como no surf, nem sempre é possível ter sucesso e se equilibrar às mais adversas situações da vida.

17 Foi um epistemólogo suíço, considerado como um dos mais importantes pensadores do século XX. Defendeu uma abordagem interdisciplinar para a investigação epistemológica e fundou a Epistemologia Genética, teoria do conhecimento com base no estudo da gênese psicológica do pensamento humano.

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A brisa fria que vem do mar finalmente vence os turistas que transitam sem camisa.

Ainda dá para ver o sol, misturado entre as nuvens, mas alguma coisa nas horas diz que já é tarde, e convida todos a ir para a casa.

Rostos queimados e sacolas de vime seguem na direção dos condomínios, em mais uma tarde de domingo que se acaba.

Devagar, as areias de Pitangueiras se descobrem vazias e solitárias, sobrando apenas os buracos deixados pelos guarda-sóis.

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Taiu Bueno se despede de nós. E depois de atravessar a rampa de acesso, e andar alguns metros, some no condomínio.

Nesse fim de tarde, não teremos surf, e uma parte de mim está frustrada: por um

momento, sinto-me como um jogador de futebol, na final de um campeonato, que mesmo com a vitória, lamenta um gol perdido.

Entretanto, a luz do surfista é tão forte, que de repente, me sinto confortada de novo. E entendo que não foi preciso ver o surf acontecer para me sentir incrível.

É chegada a hora da alma guerreira descansar, com o coração preenchido de duas certezas: amanhã o sol vai nascer de novo. E quando nascer, as ondas estarão esperando por ele, mais uma vez.

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Foto: Arquivo “Aloha”

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Capítulo 4

Um Aloha à Inclusão 181


O

único shopping do Guarujá fica na praia de Pitangueiras, em frente a dezenas de condomínios residenciais. Seja de

manhã ou à tarde, é que aqui que as pessoas costumam se

reunir para fazer compras, tomar um café ou simplesmente, zanzar pelos corredores estreitos.

Pelo La Plage passam, diariamente, turistas e moradores que procuram, dentre outras coisas, fugir da água do mar e do calor da areia. Ponto de encontro entre casais e amigos, o shopping é também, um refúgio para

uma dupla carismática e divertida, que não dropa1 nas ondas e nem gosta de praia, mas entende muito de surf adaptado.

Elas mal se formaram do colégio e já são cineastas. Paula Luana Maia e

Carol Araújo, vencedoras da 9ª edição do “Curta Santos”, contam que a

ideia de fazer um filme sobre surf adaptado nasceu de repente, durante uma aula de produção de roteiro nas Oficinas Querô. Junto do amigo

Nildo Ferreira, as duas meninas escreveram o projeto que, futuramente, seria exibido em São Paulo, Rio de Janeiro e Portugal. 1 Descer a onda da crista até a base.

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Mais Surfe Aqui O documentário produzido por Paula e Carol não é o único a tratar de surf

adaptado. Em 2008, o jornalista Antonio Zanella, produziu o documentário “Uma Luz no Fim do Tubo”, que conta a história do surfista catarinense Elias Figue Diel. O objetivo era mostrar ao público a trajetória do atleta

considerado como uma promessa do surf na década de 80, o acidente que o deixou cego, e o retorno de Figue às ondas.

Apresentado como um dos pré-requisitos para a graduação em Jornalismo, na Faculdade Estácio de Sá de Santa Catarina, o trabalho de Zanella já

recebeu diversos prêmios, como o 2º lugar no Prêmio Unimed-SC Categoria TV, em 2009. Além disso, ficou entre os finalistas em uma série de festivais (Mostra Puc-Rio; Mostra Paralela Gramado Cine Vídeo; Festival Brasileiro de Filmes de Aventura, Turismo e Sustentabilidade; Festival Aruanda;

Festival Um Novo Olhar e Festival Entretodos). Na internet, onde Zanella disponibilizou o documentário2, o filme atingiu mais de 9 mil exibições.

2 ZANELLA, Antonio. Uma Luz no Fim do Tubo. Disponível em: http://www.youtube. com/watch?v=zNJAtRpUY7c. Acessado em: 20 de jun. de 2011

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Mas a maior felicidade para este jovem jornalista é saber que o seu

trabalho ajudou na divulgação do esporte, e que as coisas mudaram muito desde a época que começou a pesquisar sobre o assunto.

“Assisti a um campeonato no Arpoador em que nos intervalos das finais

entravam baterias de exibição com deficientes. Fiquei emocionado, porque há quatro anos, quando comecei a pesquisar sobre o assunto, era difícil achar alguma coisa relacionada”, conta. “Se isso tem alguma relação ou

não, não importa. Tenho certeza que fiz minha parte e agradeço todos os dias, por ter conhecido pessoas tão especiais como o Figue”.

Para o jornalista, as obras intelectuais, de um modo geral, contribuem para promover o esporte, e romper preconceitos ainda fortemente presentes em nossa sociedade.

“Muita gente relaciona o surf com esporte perigoso e impossível de ser

praticado por deficientes; coisa de maconheiro ou vagabundo”, diz. “É hora de mostrar o outro lado, com exemplos de reabilitações sociais”. 184


185


Recentemente, duas produtoras americanas do grupo Sony Pictures,

resolveram roteirizar a trajetória de Bethany Hamilton, outra surfista com deficiência. O resultado foi o filme “Soul Surfer”, que já estreou

nos Estados Unidos, mas ainda não tem data para chegar ao Brasil.

O longa-metragem tem 106 minutos, e retrata o início da carreira de

Bethany, o ataque de tubarão que a deixou deficiente e a luta da atleta para voltar ao mar.

“O Passo de Um Vencedor”, que está sendo produzido pela Um Mais Um – Comunicação e Imagem, segue a mesma onda dos filmes de

surfistas com bonitas histórias de vida. Trazendo como personagem

principal o surfista Paulo Eduardo Chieffi Aagaard, o “Pauê”, a obra

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tem o objetivo de retratar a vida do atleta de São Vicente, que perdeu

parte das duas pernas quando mais jovem, depois de um acidente de trem.

O filme contará com a participação do maestro João Carlos

Martins, que também é citado na autobiografia do surfista, o livro “Caminhando com as Próprias Pernas”.

E por falar em livros, a modalidade também recebeu a contribuição de Octaviano Taiu Bueno, que lançou “Alma Guerreira”, em 1999. O

livro contém a trajetória do surfista que inspirou gerações, crônicas de viagens, relatos de momentos do acidente e o depoimento sincero de como ele superou tudo.

187


A união das jovens produtoras de Aloha foi fundamental para que a dupla

conseguisse produzir o filme, em 2010. Afinal, se não fosse a parceria e o espírito de cooperatividade, o curta-metragem teria muito menos chances de dar certo.

Hoje, caminhando pelos corredores do La Plage, com a praia de Pitangueiras ao fundo, elas relembram do quanto a amizade é importante quando o assunto é

inclusão. E se emocionam ao recordar da equipe entrosada, durante o período de gravação do filme.

Se, descer uma onda, em dia de mar clássico, já é muito bom; melhor ainda é surfar essa mesma onda, ao lado de um amigo.

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Amizade e Parceria O oceano também é o lugar dos encontros. Entre uma série3 e outra,

histórias se cruzam e se intercalam. Como a amizade de Taiu e Robson Careca, surfista que ficou paraplégico depois de sofrer um acidente

automobilístico: Paula e Carol, que estiveram com a dupla no ano passado, durante as filmagens de “Aloha”, contam que os dois já eram grandes amigos antes de se tornarem deficientes.

“O Robson foi visitar o Taiu no hospital quando ele se acidentou”, contam elas. Anos depois, foi Taiu quem teve de visitar o amigo, para retribuir o apoio e dar força.

“As coisas vão melhorando. Não adianta ficar estatelado em uma cama, achando que a vida acabou, porque ela não acabou” (Taiu, para uma entrevista do SBT Repórter, em outubro de 2010). 3 Sequência de ondas.

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Hoje, tanto Taiu quanto Robson voltaram a surfar. Mas, quando o assunto é quem tem o maior número de amigos surfando a

mesma onda, é Taiu quem sai frente, por ter uma prancha que o

permite surfar com mais duas pessoas. Neco Carbone é uma das pessoas que costumam acompanhar Taiu nas longas sessões de surf.

Quando o mar está clássico, lá na praia das Astúrias, é ele quem faz questão de levar o amigo para curtir as ondas. “Eu tenho

medo quando ele vai surfar com alguém e eu não estou junto”, diz ele. Além disso, há o carinho e o cuidado de amigo, que incentivam Neco a estar sempre por perto.

Um pedaço do coração do shaper também está com Alcino

Pirata, amigo de longa data e padrinho de Pedro, filho do Neco.

Eles, que cresceram juntos, encontraram no surf a oportunidade

de transformar o laço de amizade em um sentimento muito mais forte, que só se perpetua com o passar dos anos. “A primeira prancha do Pirata, era minha”, relembra Neco. “Eu vendi-a 190


para ele, e foi com ela que ele começou a entrar em campeonatos”.

De acordo com Neco, a amizade que nasceu antes da deficiência de Alcino, continua forte: Pirata ainda encomenda pranchas de surf, e ajuda o shaper a

desenvolver equipamentos para pessoas com deficiência física.

“Com o Pirata, eu tive a oportunidade de desenvolver

muitas pranchas adaptadas, porque ele tem uma visão muito boa para criar a técnica para cada deficiência”, explica. “Muito do que eu aprendi sobre prancha adaptada, foi na convivência com ele”.

Viajando no balanço das ondas, os encontros continuam a acontecer. Voltando à experiência vivenciada pelas garotas de “Aloha”, descobre-se que os personagens

do filme foram muito mais do que colegas de elenco, durante as gravações.

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“Existia muita amizade. O Henrique Saraiva, por exemplo,

trouxe o fisioterapeuta dele (o educador Luiz Phelipe), e ele acabou ajudando o Careca, o Taiu e o Val”, contam.

“Parece que, por serem deficientes, eles são mais unidos do que tudo. Isto é muito bonito”.

Foi o Aloha também que uniu as histórias de Val e Taiu. “Eu

ainda não surfava nas primeiras tomadas do filme”, conta Taiu, “mas eu fui para a praia do Pernambuco ver o pessoal surfar.

Estava muito frio”, lembra, “começou a anoitecer e todo mundo foi para a calçada. O Val continuou de sunga, todo feliz”.

Taiu ficou impressionado com a vontade de viver do colega:

“Pensei ‘ele não enxerga, mas pegou onda. Olha a felicidade desse cara!’“

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Os amigos Taiu e Neco. Foto: Diana Bueno

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Sociedade Deficiente Embora exista união e gente interessada em fazer as coisas darem certo, ainda há muito o que ser feito para que todas as pessoas tenham acesso ao esporte.

Oportunidade é a palavra de ordem. Apesar do trabalho já existente de algumas ONGs no Brasil e no mundo, ainda faltam postos de atendimento, equipes com profissionais preparados e equipamentos em bom estado à disposição das pessoas. Neco Carbone é uma das pessoas que levantam essa bandeira. Por acompanhar de perto a rotina

do amigo Taiu Bueno, Neco sabe mais do que ninguém, o quanto é difícil enfrentar a

falta de acesso nas praias e a inexistência de pessoas preparadas para darem o devido suporte.

“O Taiu não pode surfar o quanto ele gostaria, por falta da disponibilidade de uma equipe”, declara. “Às vezes, o dia que está bom para ele, eu estou enroscado no trabalho, e fica difícil conciliar os horários”.

Taiu pensa a mesma coisa que o amigo, e por essa razão, alimenta o sonho de fundar uma ONG. A ideia do surfista é ter um posto na praia das Astúrias, onde o surf

é menos perigoso, que disponha de fisioterapeutas, instrutores, cadeiras anfíbias, 194


esteiras para circulação em faixas de areia e demais equipamentos. E o mais importante é que, se tudo sair de acordo com os planos de Taiu, todos os serviços serão prestados gratuitamente, para ampliar ainda mais o número de possíveis praticantes.

“Isso não tem preço”, afirma Neco. “É um serviço que não tem que ser cobrado”. Enquanto os recursos para abrir a ONG não vêm, o jeito é esperar pelas ações do

governo, e acompanhar as parcerias que já deram certo. Um modelo a ser seguido é

o projeto da Escola Radical, em Santos, que leva surf de graça para idosos, crianças,

adolescentes e pessoas com deficiência. No comando da escola, está o professor Cisco

Araña, surfista desde 1968 que enxerga no surf, uma proposta viável de lazer e inclusão

social. Para ele, que possui um projeto em comunhão com o governo há 20 anos, a união entre empresas e primeiro setor, tem grandes chances de dar certo.

“O poder público e o poder privado podem andar juntos”, opina Cisco. “E tanto o

político quanto a empresa devem doar aquilo que é necessário para desenvolver essa, e outras questões”.

A psicóloga Mariú Casselli concorda com o professor em relação ao apoio político, e

aposta também na atenção à criança. Para a psicóloga, é cuidando da base que a gente 195


otimiza as questões sociais. E por falar em criança, escolinhas de surf adaptado podem contribuir, e muito, com o desenvolvimento e a divulgação da modalidade. Na opinião do surfista carioca

Robledo de Oliveira, é só através da implantação de lugares assim, que essas questões receberão a devida atenção. “Precisamos acreditar nessas escolas”, diz ele “e expandilas mundo afora, para que todos tenham uma chance de serem felizes”.

A divulgação também é importante. Apesar das matérias na imprensa, das biografias publicadas e das produções audiovisuais, ainda há quem desconheça a existência do surf adaptado. Para a surfista Monique Oliveira, muitas pessoas, principalmente as

que têm deficiência, precisam saber que a oportunidade de surfar existe, e que se trata de uma prática segura, acompanhada por profissionais que entendem do assunto. Já o surfista Val, acredita que outra coisa que precisa ser repensada é a maneira

como as instituições voltadas à pessoas com deficiência atuam. De acordo com ele, principalmente as entidades destinadas a pessoas com deficiência visual, querem determinar o que cada pessoa precisa fazer.

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“Ainda querem que a gente pratique esportes clássicos para quem é cego, como o

goalball”, diz. “Uma pessoa cega hoje é tratada do mesmo jeito que era tratada anos atrás, não evoluímos nada”.

Os autores Boas, Bim e Barian reafirmam essa ideia: “Sabe-se que a prática de

uma atividade adaptada é pouco difundida, além de pouco diversificada - quando existe”.

Mas, mesmo que se criem espaços para a prática do surf inclusivo, que nasçam

parcerias entre governo e setor e privado, que as instituições que lidam com pessoas com deficiência revejam seus conceitos e que haja maior participação da mídia

na divulgação do esporte, nenhuma dessas ações irá funcionar se as praias não

dispuserem de uma arquitetura compatível com as necessidades das pessoas, com todos os itens básicos de acessibilidade, como rampas de acesso à faixa de areia, esteiras para circulação, cadeira de rodas anfíbia, equipe especializada e infra-

estrutura (com postos de salvamento, chuveiros e banheiros adaptados, faixa de

pedestres com sinal sonoro, vagas de estacionamento, piso tátil, guias rebaixadas e rampas de acesso).

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Pelo menos, é o que pensa Ricardo Gonzalez, do Instituto Novo Ser. “Ainda falta acessibilidade física (rampas, banheiros acessíveis, rebaixamentos de calçada, esteiras para passagem de cadeira de rodas na areia, sinalização sonora e

acessibilidade tátil), além de tecnologias assistivas como as cadeiras anfíbias, que garantiriam o benefício do contato com a praia para todas as pessoas”, diz. “Por

isso, a infraestrutura da praia e seu entorno precisam ser melhorados. Essa pasta tem que ser trabalhada com mais seriedade e continuidade pelos governantes”.

[...] Estas dificuldades resultantes da pouca estrutura para os deficientes físicos, acabam excluindo-os da vida socializada, afinal o portador de deficiência tem as mesmas necessidades de qualquer outro individuo, ou seja, necessita ser valorizado e participar do grupo familiar e social.

(ANDRADE; BRANDT, 2008)

A questão a qual Ricardo se refere é tão séria que até no Guarujá, por onde o projeto Praia Acessível já passou, ainda há muito o que ser feito.

As produtoras de “Aloha” contam que, no ano passado, precisaram de uma cadeira anfíbia para prosseguir com as gravações do filme, e que se surpreenderam ao descobrir que não teriam acesso ao equipamento. 199


“Quando eu procurei as prefeituras das cidades da baixada para usar a cadeira anfíbia”, conta Carol, “não encontrei nenhum responsável pelo

equipamento. A possibilidade de usarmos a cadeira simplesmente nos foi vetada”.

A sorte das garotas foi que o Henrique Saraiva, lá do Rio de Janeiro, levou uma cadeira anfíbia para as gravações.

Ainda de acordo com as meninas, o problema não foi só com relação às cadeiras anfíbias, mas também com o uso de esteiras para circulação

em faixa de areia. Como dois dos personagens do documentário eram

cadeirantes, a produção precisava do equipamento para facilitar a locomoção, durante as filmagens.

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“As esteiras eram enormes e tiveram que vir de Santos”, contam.

“Infelizmente, o sistema é bem falho, e esses equipamentos só são usados

em projetos como o do Pirata no Guarujá, ou da Adapt Surf, no Rio”, reforça Carol.

A dupla lembra também que grande parte da estrutura acessível do município não veio por meio de iniciativas públicas.

“A acessibilidade que existe no shopping e na praia toda, quem conseguiu foi o Taiu. Antes ele não podia nem subir na calçada para passear na praia”.

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Mara Gabrilli também levanta a bandeira da arquitetura acessível. “As

pessoas precisam ter saúde para praticarem esporte, mas também precisam ter calçada em boas condições e transporte adaptado para poderem,

primeiramente, sair de casa”, diz. “É o conjunto de serviços bem executados que determinam o acesso da pessoa com deficiência ao esporte”.

Uma cidade é um projeto de vida. É um plano de vida e um espaço de vida. Para o indivíduo, para a família, para a sociedade, para a biodiversidade e, quer a habitemos, desfrutemos ou compartilhemos, devemos desenvolvê-la como em um sonho, em uma utopia que algum dia alcançaremos. Quando, não o sabemos. Mas temos de alcançá-lo. (RUIZ, Seminário Internacional Esporte e Sociedade)

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Mara surfando na big prancha de Taiu. Foto: Elza Albuquerque

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Mara divide as ondas com os surfistas locais e faz a inclus達o acontecer. Foto: Elza Albuquerque

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Juntos À medida que o tempo passa, fica mais evidente que o surf adaptado é

muito mais do que um esporte para pessoas com deficiência. O estilo livre e a

inexistência do fator competitivo permitem uma interação maior, possibilitando que as pessoas pratiquem o esporte todas juntas, em qualquer praia do mundo. Porque, mais importante do que promover o contato entre pessoas com

deficiência, é fazer a inclusão social chegar às vias de fato. Isso significa romper

com o antigo costume de achar que projetos isolados, voltados somente a pessoas com deficiência, podem realmente, incluí-las na sociedade.

[...] Será possível pensar na criação de um esporte no qual todos participassem juntos, deficientes ou não? Será possível uma educação física inclusiva? Não temos respostas para muitas questões, mas entendemos que este é o momento de reflexões e quem sabe descobertas. Podemos afirmar que conviver com a diferença e a diversidade humanas é possível, mas teremos que superar valores e princípios estigmatizantes ainda tão presentes nas relações sociais entre os homens.

(COSTA; SOUZA, 2004)

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O surf tem se apresentado como uma janela para o novo. E não é à toa que a

modalidade recebe o apoio de quem já tem muitos anos de ondas nas costas. O surfista Robledo de Oliveira, por exemplo, é um veterano no ambiente salgado. São 25 anos surfando e compartilhando a paixão pelo esporte, algo que o torna praticamente um PhD no assunto.

Apesar do prestígio e dos inúmeros campeonatos disputados, o surfista de

Saquarema, conhecida como a Capital Nacional do Surf, não perde a humildade.

Robledo admira o surf adaptado, e acredita que a modalidade é o melhor jeito da pessoa com deficiência mostrar sua garra e valor: “É um ato de superação muito forte, que mostra para todo o mundo, o quanto o ser humano pode se superar”.

Ainda na opinião do surfista, a modalidade em si, possui algumas vantagens sobre as demais atividades adaptadas, porque além do propósito esportivo, representa também o encontro do ser humano com ele mesmo. “O surf adaptado”, diz “é

completo em todos os sentidos, por preencher todos os espaços vazios do corpo, da mente, e da alma”.

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Diz-se que a cidade deve ser construída para todos. Isso pode ser visto em todas as campanhas políticas, “a cidade para todos”, “o país para todos”, eu mesmo vi muitos anúncios desse tipo aqui. Mas atrevo-me a dizer que não, que se deve construir a cidade e o país com todos, não para todos. Porque sempre aprendemos dos outros e com outros, porque os outros são a melhor possibilidade, porque só é possível realizar nossos sonhos quando nos encontramos com os sonhos de outros. Porque para construir um projeto de vida pessoal, familiar e social, é necessário acreditar em si mesmo e partilhar com todos. (RUIZ)

Em Niterói, conhecida como Cidade Sorriso, outra lenda viva do esporte também apóia a inclusão social nas ondas. Ricardo Tatuí tem 31 anos de surf, muitos

títulos e grande admiração pelas pessoas com deficiência que se aventuram no oceano.

“É super legal ver alguém se esforçar para surfar, mesmo com alguma dificuldade”, diz. “Eu acho o surf adaptado muito bom”.

Ele, que fundou uma ONG em 1998 com o propósito de ensinar surf para

crianças e adolescentes, é uma das pessoas que mais acreditam no surf como

proposta de inclusão social. Para Ricardo, além de tudo o que já está sendo feito em prol da categoria, seria também muito interessante inserir a modalidade de vez nos eventos de surf: “É uma excelente oportunidade de inserção”, diz ele. 207


A ideia do Ricardo é boa, e já foi abraçada por alguns dos principais campeonatos de surf do mundo. Em outubro desse ano, o “Quiksilver Brazil Open of Surfing”,

realizado na praia do Arpoador, no Rio de Janeiro, contou com a exibição dos alunos da Adapt Surf; que caíram na água para mostrar do que são capazes.

E por falar na ONG carioca, é importante lembrar que, durante todo o ano, a

instituição realiza demonstrações de surf adaptado. É por meio dessas exibições que as pessoas podem conferir o trabalho da instituição de perto, e aprender um pouco mais sobre o esporte.

Já na Austrália, do outro lado do globo, é a Disabled Surfers Association a responsável por ações semelhantes. O presidente da instituição revela que, atualmente, é ela quem detém o maior evento de surf adapto do mundo: “São mais de 160 participantes com deficiências graves”, diz Gary.

Na América do Norte, o “Extremity Games” também está entre os destaques. Como o próprio nome sugere, são jogos organizados pela Athletes with Disabilities Network

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(ADN), com o objetivo principal de promover qualidade de vida para as pessoas com deficiência, através do esporte.

Em Portugal, mais especificamente na Costa da Caparica, a bola da vez é o “Surf for All”. Trata-se um evento gratuito, destinado a pessoas com deficiência, organizado

pela Duckdive – Bodyboard & Surf School & Camp, juntamente com a Associação Salvador, o Estado Liquido.org e a Federação Portuguesa de Desporto Para Pessoas com Deficiência.

Por último, em Peniche, no distrito de Leiria, é no “Rip Curl Pro Portugal” que os

surfistas com deficiência se encontram para curtir as ondas. A Federação Nacional de Cooperativas de Solidariedade Social (Fenacerci) é a entidade responsável por coordenar a participação dos surfistas adaptados no evento.

As sessões irão permitir que Organizações Associadas da FENACERCI (CERCI’S) possam usufruir de uma experiência de surf única e inesquecível, bem como contactar com um evento de grande prestígio Internacional e impacto mediático que decorre em Peniche.

(Nota de Imprensa – Fenacerci)

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Aos poucos, a modalidade vai ganhando o espaço e o prestígio que merece. E pessoas com deficiência, que sofreram discriminação e preconceito em outras modalidades esportivas, vão recebendo a chance de realizar no surf, o sonho da inclusão social.

Como o Val, que no ano que vem, vai disputar o seu primeiro campeonato. Ou como

alunos da Adapt Surf, que durante o Quiksilver Brazil Open of Surfing, no Arpoador, foram aplaudidos de pé por gente que fez do amor pelas ondas, sua profissão.

Talvez, em um futuro não muito distante, quando o surf for transformado em um

esporte olímpico, veremos atletas como Val, Henrique Saraiva, Alcino Pirata, Gabriel Cristiano, Andre Souza, Monique Oliveira, Taiu Beuno e tantos outros, subirem ao pódio.

Porque é ali, no patamar mais alto do esporte, em um degrau mais perto das estrelas, que esses talentosos guerreiros, sempre mereceram estar.

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Considerações Finais Em uma rua qualquer do Guarujá, com a vista privilegiada do mirante, observo os surfistas que estão dentro d’água.

Daqui onde estou, há mais ou menos quinze metros de distância da água, consigo

apenas distinguir o contorno de seus corpos e a sombra borrada de suas pranchas, que remexem inquietas sobre a rebentação.

Cada um, à sua maneira, rema quando uma série boa entra, na tentativa de arrebatar a melhor onda do dia, e encerrar a tarde com glória e prestígio.

Entre sucessos e tropeços, alguns conseguem ser mais rápidos que o oceano, e exibem experiência e equilíbrio, do fundo até a beira.

A essa altura do chão, o mar é infinitamente maior. E mesmo que haja uma tentativa, não dá para saber com precisão, o real volume de água, ou ter uma ideia de quantas espécies marinhas partilham o mesmo ecossistema: visto de cima, o oceano é a coisa mais homogênea que existe.

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Volto a olhar os surfistas. Sem querer, acabo pensando nas mil e uma particularidades de cada um. Tantos gostos diferentes, defeitos e complexidades. Coisas que agora, se mostram tão borradas quanto reflexo na água.

Daqui, onde o mar é muito mais azul, sob a luz alaranjada do poente, não faz diferença se sou homem ou mulher. Velho ou criança. Se não enxergo ou se não sei falar. Se não posso andar ou correr.

Porque no momento em que eu cair na água, tenha eu ou não dificuldades, a única

coisa que vai importar, é se eu quero surfar. E se eu tenho força de vontade e coragem para ir atrás dos meus sonhos.

Surfar essa onda foi mais do que realizar um trabalho. Mais do que mergulhar no

esporte. Mais do que ouvir histórias. Através deste projeto, eu pude perceber que por mais que os problemas sociais existam, e por mais que algumas dificuldades sejam grandes, nada é maior do que o mundo em que a gente vive, nossa fé e força.

É claro que para este universo ficar ainda melhor, e mais pessoas poderem vivenciar o que vi acontecer, de perto, faltam políticas públicas, atenção especial do governo,

estrutura e incentivo. Mesmo assim, é muito bom saber que existem no mundo, pessoas tentando escrever uma nova história, e gente trabalhando para que isso aconteça. 212


Se, durante muitos anos, o surf esteve relacionado a questões que não condizem

em nada com a sua realidade, hoje, o esporte é um dos maiores exemplos de que a

inclusão é um processo possível e imensamente vantajoso, não só para as pessoas que têm deficiência, como também para toda a sociedade.

Por tudo o que vi e vivenciei, e por todas as histórias que compartilharam comigo, na areia da praia, afirmo sem medo: o surf é o esporte mais completo. Aloha, e até uma próxima onda!

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214


“E amanhã, quando o dia surgir e o sol sorrir no horizonte, olhe para o mar, e lá estaremos descendo lindas montanhas azuis”. Sergio Pedroso

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Posfácio De perto, todos são iguais Mariana tem muita história para contar. Ela desceu a serra e foi ver o mar. Descobriu, entre os

incontáveis personagens litorâneos, habilidosos surfistas deslizando sobre as ondas do Guarujá, SP. Vistos da areia, são todos iguais. Fazem evoluções mágicas na água, desafiam as ondas, escalam

paredões líquidos, enfiam-se em tubos d’água que duram apenas alguns segundos. Vistos à distância,

parecem executar passos de uma dança estranha em par com seus longboards de dimensões variadas. Mariana os viu de perto e constatou que de fato são todos iguais. Há quem tenha deficiência visual,

há quem tenha perdido membros, há pessoas com má formação congênita, há quem tenha perdido

funções cerebrais, há quem tenha perdido tudo. Há, também, quem é reconhecido pela sociedade como “normal”. Mas são todos iguais.

Mariana descobriu que os esportes adaptados podem ser excludentes. Que o surf, ao contrário, é

agregador. Tendo ou não deficiência, os praticantes dividem os mesmos espaços na areia, investem contra as mesmas ondas, compartilham a mesma paixão pelo esporte e pela vida.

As histórias que Mariana tem para contar resultam de vivência e por isso são transmitidas de forma

tão convincente. Seguindo as diretrizes do bom jornalismo, ela muniu-se previamente de conhecimento 216


teórico e na sequência foi conferir in loco se o recorte de realidade sobre o qual decidiu se debruçar

correspondia ao que os livros diziam. Ao longo do 2º semestre de 2011, conheceu pessoas, entrevistou, fotografou e observou – mais que tudo, observou – ao ponto de impressionar-se e poder contar as singularidades deste microcosmo da grande teia social na qual vivemos.

Realizado no contexto do Projeto Experimental do curso de Comunicação Social – habilitação

em Jornalismo – da FAAT Faculdades, o livro “Na onda do surf adaptado” tem dupla finalidade:

demonstrar as habilidades e competências adquiridas pela aluna Mariana Pedroso ao longo do curso e, principalmente, contribuir para os debates sobre esportes adaptados e inclusão social.

Vida longa ao livro “Na onda do surf adaptado”. Que ele renda muitas outras histórias à sua autora, Mariana Pedroso. Aloha! Prof. Ms. Elizeu do Nascimento Silva

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Livros LIMA, Edvaldo Pereira. Escrita Total. São Paulo: Editora Manole, 2009.

LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas Ampliadas. São Paulo: Editora Manole, 2009.

Monografias BISSOLOTTI, Renato Rocha; SANTOS, Ivan Ferreira. Surf: como proposta de lazer para pessoa com deficiência. São Paulo: Universidade Faculdades Metropolitanas Unidas, Graduação em natação e atividades aquáticas, 2009.

Periódicos FLUIR. Edição Especial 28 anos. São Paulo: Editora Peixes. ano 28, n. 10, ed. 312, 2011. FLUIR. Guia de Pranchas. São Paulo: Editora Peixes., 2003. 225


Reportagens Programa A LIGA (26/04/2011). S達o Paulo: TV Bandeirantes, 2011.

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Na Onda do Surf Adaptado  

Na Onda do Surf Adaptado, de Mariana Vasconcellos Pedroso é um livro-reportagem sobre surf para pessoas com deficiência. Baseado em entrevis...

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