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GUNGA A HISTÓRIA DE UM BERIMBAU

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Dos autores Daniel Mota Filipe Balieiro Indara Mayer Marcos Longo Mariana Cristante Mario Francisco Simões Taís Araújo Ilustrações de Célio Pereira Souza

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Dá licença? Tô chegando! Venho pra ficar! Sou historia, não sou novo Sou arco de pau Sou memória do povo Sou berimbau! Você consegue me reconhecer ali naquela roda de capoeira? Então, venha comigo! Vamos entrar no mundo das minhas lembranças... Quem não me viu, vai me ver, e quem me viu, vai entender! 4


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Nasci e me criei na Bahia. Mestre João Pequeno foi quem me deu vida. No começo eu estava muito assustado. Não sabia o que eu era, nem para o que eu servia. Foi um tambor muito gentil, deixado ao meu lado na noite em que fui criado, que me explicou a situação: – Tudo bem? Você parece bastante assustado! Pois pode ficar tranquilo meu amigo. Ninguém aqui vai te fazer mal. – Olá. Mas quem é você? – Ora, perdoe minha falta de educação! Esqueci de me apresentar. Sou o Tambor, mas pode me chamar de Atabaque. Sou um instrumento musical, assim como você Berimbau.

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– Berimbau? É disso que você me chamou? – Sim, Berimbau! Este é o nome que damos para um arco musical como você. Sei que tudo deve estar muito confuso, mas logo você entenderá para o que você foi criado. Amanhã é dia de roda de capoeira e sua presença será muito importante! 7


Cada resposta de meu novo amigo Atabaque só me deixava ainda mais curioso! Assim eu continuava a perguntar: – Capoeira, mas o que é isso? – A Capoeira é uma dança, que no início era uma forma de luta. Foi criada aqui no Brasil pelos africanos que vieram como escravos, mas que depois de muita resistência conseguiram preservar e afirmar sua cultura. Atabaque continuou me explicando: – Dê uma olhada na figura da página ao lado! Na capoeira as pessoas fazem uma roda. Algumas tocam instrumentos musicais e outras acompanham só com palmas. Todos cantam enquanto algumas pessoas fazem movimentos, golpes e acrobacias no centro da 8 roda.


– Uma dança que é também uma luta? Essa tal de capoeira está me parecendo uma coisa muito perigosa, isto sim! – Muita calma meu amigo Berimbau! Não é o que você está pensando. Você vai ver como a capoeira é divertida e segura para 9 aqueles que obedecem ao seu mestre.


Na manhã seguinte fui levado pelo meu mestre João Pequeno para a tal da roda de capoeira. Como eu estava nervoso! Será que o Tambor tinha falado a verdade? Chegando lá vi alguns humanos adultos, mas a maioria eram crianças, de diferentes cores e idades. Um garotinho observava admirado uma outra roda que já havia começado. Realmente eram impressionantes os movimentos e acrobacias feitas pelos capoeiristas!

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Mas as surpresas do dia estavam apenas começando. Meu mestre João Pequeno virou para o menino que estava encantado com a roda e disse: – Ei, garoto! Venha cá participar da roda também! – Mas eu não sei jogar – respondeu ele – Pede licença pro “dono da roda”, menino, que a gente vai te ensinando. – E quem é o dono da roda? Mestre João Pequeno apontou pra mim. Que surpresa! Tinha acabado de nascer e já era dono de uma roda! Fiquei feliz! 12


Logo outras pessoas se juntaram ao redor de mim com mais dois berimbaus. A roda ia começar e eu era o “dono” dela!

[IMAGEM APENAS PARA REFERÊNCIA]

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Mas logo me dei conta que não sabia o que isso significava. E foi aí que o pandeiro me provocou pela primeira vez: – Ei, dono da roda! Vejo que você é novo por aqui. Cuidado para não se perder nos toques viu? – Toques? Quais toques? – perguntei confuso mas o pandeiro não me respondeu. O mestre então me entregou ao jovem garotinho e, segurando nas mãos dele, bateu em mim com uma moeda. Meu corpo estremeceu e fez um “toooiimmm”... A partir dos sons da minha corda, todos começaram a cantar assim: 14


♫ ♪♪ ♫♪ ♫♪ ♫♪♫ ♪♫♪♫♪ ♫♪♫ ♫ ♪♪ Meu Berimbau Toca É Assim Quem é você, que vem de lá Eu vim da Bahia, me apresentar Um arame, uma moeda, uma cabaça, pedaço de pau Meu berimbau toca é assim Dim dim dom dom dim dim dom dim Meu berimbau toca é assim ♫ ♪♪ ♫♪ ♫♪ ♫♪♫ ♪♫♪♫♪ ♫♪♫ ♫ ♪♪

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Em pouco tempo jĂĄ sabia cantar aquela mĂşsica sozinho! 16


O tambor tinha razão. Realmente foi mais divertido do que eu imaginava! Mas esta nem foi minha maior surpresa. Fiquei feliz ao ver os outros companheiros berimbaus me acompanharem nos sons. Tentei chamar a atenção deles, mas com toda aquela agitação não consegui falar com ninguém. O tempo voou e fiquei triste ao ver que a roda tinha acabado. Tive que voltar para casa com o meu mestre e não consegui descobrir de onde vieram aqueles berimbaus mais velhos. 17


Chegando em casa, fui logo perguntando ao meu amigo Atabaque: – Vi dois instrumentos iguais a mim lá na roda. Eu pensava que eu era o único... – Hahaha! Você é um dos instrumentos mais tradicionais aqui do Brasil! – Então você já viu outros iguais a mim... O que mais você sabe, Atabaque? – Ah, eu não sei muita coisa, mas você deveria perguntar para estes berimbaus mais velhos da roda. Eles são os instrumentos mais sábios da região. Eu teria que tentar novamente. Mas no meio da roda era tão difícil! Eu precisaria de um bocado de sorte para conseguir 18 falar com eles.


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No dia seguinte, fui levado para a roda. Tinha que dar um jeito de conversar com os outros berimbaus mais velhos! Estava tão concentrado em chamar a atenção deles que nem dei muita atenção quando fui trocado de mãos. O som que saía de mim havia mudado e cheguei até a imaginar que seria finalmente ouvido pelos sábios. Mas continuava dando tudo errado! Com toda a cantoria e animação da roda eu não conseguia conversar com os dois berimbaus. Nos momentos de descanso e de ensinamentos eu era colocado distante destes instrumentos sábios. Já estava ficando desanimado.

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De repente, a roda acabou. Todo mundo foi saindo e percebi que eu n達o estava sendo levado pelo meu mestre: quem me carregava era aquele menino do dia anterior. O que estava acontecendo?

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Fiquei desesperado! Além de não conseguir falar com os sábios, estava sendo levado para um lugar desconhecido. Será que eu estava sendo roubado? Nada me deixava mais triste do que pensar na possibilidade de nunca mais ver meu mestre... E participar da capoeira? Será que eu nunca mais seria levado para uma roda? Eu não queria nem pensar nisso... Chegando na casa do menino fui colocado num quarto escuro. Tudo parecia naquele dia.

estar

dando

errado

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Estava morrendo de medo. Precisava me acalmar de alguma maneira. Foi então que resolvi começar a cantar uma daquelas músicas que havia aprendido na roda de capoeira.... Mal comecei a cantar a primeira frase e fui interrompido: – Ei! Quem está ai? – Olá, sou um berimbau – respondi – Ah, você é o novo berimbau lá da roda! Nós somos os berimbaus mais velhos, mas pode nos chamar de Giba e Didi. Mestre Tatá é nosso dono. Ele vive aqui com seus filhos e netos. 24


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Os instrumentos sábios com quem tanto tentei conversar durante o dia estavam ali no quarto comigo! Parecia que minha sorte começava a mudar! Giba me perguntou: – Podemos te ajudar em alguma coisa? Você parece preocupado com alguma coisa. – Sim, estou preocupado em voltar para o meu mestre. Mas antes preciso perguntar algumas coisas para vocês. Gostaria de saber mais sobre a nossa origem: De onde nós viemos? Fiquei muito curioso ao saber que existem vários de nós por todo o Brasil. 26


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Os dois instrumentos sábios refletiram bastante antes de me responderem: – Nossa origem está ligada à África. Muitos dizem que fomos criados pelos povos Bantos, vindos de Angola para o Brasil. Mas a resposta não é tão simples assim. Existem arcos musicais como nós entre vários outros povos africanos que também vieram para o Brasil. Na verdade, nós berimbaus somos uma mistura destes arcos de Angola com outros instrumentos, trazidos para cá de diferentes lugares da África. – Há uma diversidade tão grande assim de instrumentos e povos africanos? – Sim – me respondeu Giba – seria um erro muito grande pensarmos na África como uma coisa só. Lá vivem os mais diferentes povos e 28 culturas.


– E toda essa diversidade está presente aqui no Brasil – completou Didi – Sem ela não poderíamos entender a criação de nós berimbaus. De fato somos uma mistura de várias tradições e instrumentos, realizada aqui no Brasil. Achei muito interessante a resposta dos sábios. Aproveitei para perguntar mais: – E nós fomos criados para fazer parte da capoeira? – Não, nem sempre fomos da capoeira! Olhe só essas imagens da próxima página. No início havia capoeira sem berimbau, e berimbau sem capoeira – disse Didi. 29


"Jogar Capüera ou Dance de la Guerre“, de Johann Moritz Rugendas (1834). A CAPOEIRA SEM BERIMBAU

“Escravo tocando berimbau”, de JeanBaptiste Debret (1824).

O BERIMBAU SEM CAPOEIRA 30


– Puxa, por essa eu não esperava! – Haha, nós já fizemos muitas coisas! Como você pode ver na segunda imagem, já fomos até usados por vendedores, para chamar a atenção das pessoas! – me disse Giba – Só depois fomos introduzidos na capoeira! E uma das principais funções era avisar sobre a chegada da polícia, numa época em que a roda não era bem vista pelas autoridades! – completou Didi

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Conversei com os dois berimbaus sábios por várias horas. Prestava muita atenção em todas as histórias e músicas que me contavam. Como era rica nossa história e eu nem sabia! Depois de um bom tempo a porta do quarto foi aberta. Entraram o menino e seu avô Tatá. Eu estava tão animado com a conversa que até tinha esquecido que havia sido levado para longe de meu mestre. Foi então que ouvi o menino e seu avô conversarem:

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– Que belo berimbau é esse que você trouxe para cá, meu neto? – Eu pedi emprestado para o mestre João Pequeno. Queria mostrar para minha irmã. Disse para ela que nunca tinha visto um berimbau tão bem feito, mas ela não acreditou em mim. – Sim. Vejo que você tem razão. Mas depois de mostrar para sua maninha, não esqueça de devolvê-lo amanhã para seu mestre. – Pode deixar vô. Nunca que eu deixaria a roda sem seu berimbau!

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O menino cumpriu sua promessa. No dia seguinte lá estava eu de novo nas mãos de meu mestre, cantando e tocando numa roda de capoeira! A partir daquele dia decidi me chamar GUNGA. Como os sábios me ensinaram, este era um dos antigos nomes dados aos berimbaus. Não havia nome melhor! A verdade é que aquela conversa só despertou ainda mais meu interesse para descobrir coisas sobre minha história e sobre a roda de capoeira. Quer vir comigo nesta busca? Em nosso blog africaemhistorias.blogspot.com vamos encontrar mais informações e dicas PARA SABER MAIS sobre esta rica tradição brasileira. 34


Ent達o, vamos juntos?

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GUNGA A HISTORIA DE UM BERIMBAU  

GUNGA PRONTO TRABALHO FINAL DE ÁFRICA

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