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Dona Nadir Entrei no quarto que era reservado para ela. Boa tarde, não repare não a simplicidade, falou me olhando firme, sobrancelhas finas, linhas tênues de penugem reforçadas a lápis, arqueadas pela curiosidade. Bem no meio do ambiente, cama estreita de madeira escura coberta com colcha de chenille azul desbotada. Num canto, a cômoda de gavetas amplas, sobre ela um santuário de madeira onde se apertavam Jesus Crucificado, Nossa Senhora da Carmo, São José com o menino Jesus nos braços e uma imagem menor de Frei Damião. Na frente, uma vela grossa e curta acesa posta num recipiente de vidro e um jarrinho com uns poucos crisântemos quase murchos. Ao lado da cômoda, cadeira de balanço com encosto de palhinha gasto. Do outro lado, perto da cortina amarelada de voil branco, havia uma penteadeira. O espelho um pouco oxidado, salpicado de pontos negros, refletia uma escova de cabelo larga, uma latinha pomada Minâncora e três vidros coloridos de perfume, coisas postas sobre o móvel, onde também estava uma foto em preto e branco quase apagada com seis pessoas posando na escadaria do alpendre de uma casa antiga. Isso é o que sobrou da minha casa, sussurrou com um sorriso cortado de repente por um suspiro leve. Trouxe tudo para aqui para me lembrar com o era o Pilambó. O sítio Pilambó pertenceu à família de Dona Nadir deste quando o povo de Caruaru pudesse sem lembrar, antes de existir luz elétrica, carro, rádio, televisão. Isso ela me contou enquanto procurava uma lata de biscoitos que insistiu logo em me oferecer, embora eu dissesse não, obrigado, não se incomode. Mas aceite que é tão amanteigado, com um pontinho de doce de goiaba no meio. Quando encontrou a lata, abriu e estendeu em minha direção. Nas mãos de dedos nodosos pude ver as unhas bem cuidadas, pintadas de vermelho escuro, e um anel com vistosa pedra cor-de-rosa. Uma pulseira grossa de ouro, cheia de mínimos pingentes, se destacava na pele clara. O vestido de muitos bolsos e estampa florida se ajustado por um cinto branco e estreito. Senhora magra, face vincada pelas rugas que mal disfarçadas por uma leve camada de pó cosmético, lábios finos coloridos pelo batom claro, óculos de aro escuro na ponta do nariz. Os cabelos brancos a coroavam com um sutil ar de dignidade. Prove o biscoito e se sente na cadeira penteadeira, meu filho, que bom que você veio me visitar, mas veio por quê? Deixei alguns biscoitinhos deslizarem pela língua, gostinho doce logo esfacelado pelo trabalho dos dentes. Deliciosos, dona Nadir, vim conversar porque o seu sobrinho me disse que a senhora conhece muita história de


assombração. Não quero lhe incomodar, de jeito nenhum, só bater um papo, é que pesquiso esse assunto, folclore, cultura popular, quero ver se a senhora me ajuda. Sentou-se lentamente na cadeira de balanço, abriu um sorriso discreto e tornou miúdos os olhos de íris escuras. É, sei muita história de malassombro, sim, e gosto de contar, meu filho. A voz suave, que eu ouvia até então, se tornou mais grave, ligeiramente rouca. Isso porque no Pilambó entrava e saia bastante gente. Antero, meu marido, tinha um comércio na cidade e viajava o estado todo fazendo negócio. Fez também muitas amizades nas cidades por ai e esses amigos tinham o costume de se hospedar no Pilambó quando passava por Caruaru. Vinham do litoral rumo ao sertão, ou voltavam do agreste para o Recife, e ficavam lá para uma noite de sono, um café com tapioca, uma prosa na varanda. Todos contavam as histórias que conheciam ou haviam vivido, e os casos de assombração eu gostava de ouvir e guardar da memória. Nunca tive medo dessas coisas de espírito, sabe? Sempre vi vultos, ouvi vozes, sonhei com gente morta, aliás, o Pilambó mesmo era assombrado. Parece que estou vendo a casa grande, quanto janelas de frente, uma porta no meio delas, de um alpendre largo, coberto por telhas inglesas, embaixo uns bancos cumpridos, essa cadeira de balanço e uma rede vermelha onde Antero gostava de deitar depois do almoço. E ali e ficava de conversa com os convidados. Não tivemos filhos, num sabe?, Deus não quis me dar essa graça, mas de criança sempre gostei. Quando vinha chegando a tarde, juntava os filhos dos empregados e os meninos do vizinhança, moleques de pé no chão, de cambito fino, os meninos com redemoinho no meio do cabelos, as meninas menores ainda de calcinha bunda-rica, mandava todos sentarem nos degraus do alpendre, dava um porção de tareco na mão de cada um, começa a falar de malassombro. Era cada olho arregalado, cada boca aberta, uns se agarravam nos outros e gemiam, os mais velhos davam umas risadinhas nervosas, e ninguém arredava do canto. Ficavam calados, escutando, e só iam embora quando eu manava pra casa, com as estrelas acesas no céu. E não era historinha besta, da carochinha, de princesa, nada disso, era história de alma-penada, de botija, de lobisomem. Era brincadeira para eles, mas eu falava de coisa séria, malossombro existe, sim, o mundo é mais do que a gente enxerga, tem o aqui e tem o Além. Pois vou lhe contar muita história medonha que ainda sei, história verdadeira, de dar calafrio na espinha, de deixar cabelo em pé. Dona Nadir encerrou a conversa com um sorriso quase maldoso. Combinei que iria visitá-la sempre nas tarde de quinta-feira. Peço perdão ao leitor por não contar logo como cheguei até ela. Foi um amigo meu que me falou: você pesquisa caso de fantasma, pois precisa conversar com a minha tia, aquelas senhoras bem do interior, sabe?, morou em sítio, quase noventa


anos, ficou viúva aos setenta, não podia mais viver sozinha nas brenhas, trouxemos ela para o Recife, mora num casa de repouso. Bom, o meu encontro com Dona Nadir já relatei. Nas páginas seguintes, reproduzo parte do que ela me contou. Procurei recriar as narrativas suas em minúcias, em cada detalhe. Anotá-las foi tarefa fácil, pois foram contadas em compassos lentos, com as devidas pausas de suspense. Mas ouvir os casos foi, confesso, foi prazeroso e perturbador. Depois dos tais encontros, tive pesadelos, noite de suores frios e movimentos bruscos sob os lençóis. Fica o aviso: dos textos seguir, não espere apenas simples entretimento, anedotas com personagens bizarros. Aqui n’O Recife Assombrado você vai encontrar contos sombrios, de gelar a alma, de deixar cabelos em pé. Leia apenas se tiver coragem.

RELATOS NOTURNOS - Dona Nadir  

Relastos noturnos do O Recife Assombrado