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Destaque 1 a cidade Da gente para Os principais tipos e características das intervenções urbanas em Belo Horizonte e o evento BHÁsia “Ceci n’est pas une Bolinho”

A história por trás do personagem Bolinho criado pela grafiteira Maria Raquel Quando a rua Destaque 1 encontra o hip hop

Recriar o passado

PDR e Monge, fundadores do Coletivo Família de Rua, contam sobre a trajetória do grupo, os desafios e os processos de mudança no duelo de MCs

Com a reinauguração do Cine Theatro Brasil e a restauração de outros ícones do passado, Belo Horizonte amplia

1 o seu circuito cultural


Ă?ndice Editorial

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Da gente para a cidade

Palco de gigantes

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Gabriel Guedes: sobre pianos e mĂşsicas


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Recriar o passado

Onde a cena acontece

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“Ceci n’est pas une Bolinho”

Quando a rua encontra o hip hop

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Agenda cultural


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5 Por Flávia Ruas, Jéssica Saliba, Lívia Araújo e Nicole Lima

E

sta revista desvenda parte da cidade de Belo Horizonte. Procura entender o que ocorre lá fora e os processos pelos quais a cidade têm passado. Ela chama a atenção para o que está o tempo todo presente, mas desapercebido devido a um modo tradicional de enxergar o mundo. Ela instiga. Perpassa lugares e ideias.

Editorial

Por debaixo do viaduto grafitado do Santa Tereza até o interior do Cine Brasil, com mais de 80 anos de imponência, achamos a arte em toda a sua multiplicidade, como intervenção, agente político, ator transformador de opi-niões, culturas e sociedades. Um barco na Praça do Papa. Um lambe-lambe deixado no poste. Um bolinho colorindo um muro. Um piano pelo caminho. Um cinema que retoma tempos remotos no meio de cruzamentos agitados. Espaços que dão lugar ao drama da vida. Belo Horizonte, cenário retratado, antes preterida no contexto cultural brasileiro, hoje se soma. Como se costuma dizer dos mineiros em geral, parecia seguir discreta, agindo quieta enquanto se criava artisticamente. Agora, ganha destaque no campo das artes. Com o surgimento de movimentos culturais urbanos, de intervenções artísticas na rua, com o destaque dado às peças teatrais e a reinauguração de teatros antigos, proporciona a conjuntura ideal para desvendar o que se passa por aqui. Não se trata apenas do que ocorre nos palcos, nas ruas, nos cinemas e nas palavras. A revista não se limita por seu conteúdo: decorre da imaginação. Funciona como porta para o contemporâneo e para a cidade. Trata também do que é velho, de histórias, de insatisfação e da vontade de mudar. Tem muito do cenário corriqueiro. Tem de tudo e tem de arte. Depoimentos, roteiro e expressão. Temos, aqui, uma retratação de tudo que está ao redor.


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7 Os principais tipos e características das intervenções urbanas em Belo Horizonte e o evento BHÁsia Por Ana Carolina Marques Lage e Julia Ester Fotos: Ana Letícia Café

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nscrições, stickers, grafites, estênceis. As intervenções urbanas marcam o cenário visual de Belo Horizonte. Além da arte, elas carregam forte caráter político, a voz e a história de uma juventude que sente necessidade de clamar o espaço urbano para si. A visibilidade das intervenções, bem como o que o próprio ato em si representa (modificar, alterar, mudar o curso atual de algo) formam o caráter contemporâneo desta forma de arte. Os stickers são também conhecidos como lambe-lambes, e consistem em papéis e cartazes colados nas paredes e portões com goma (uma mistura feita com farinha, água e polvilho). Geralmente, as imagens escolhidas são compartilhadas entre artistas e interventores pela internet, de forma que uma mesma imagem pode ser colada em vários lugares do país ou do mundo. Já as inscrições são escritos feitos no

Estêncil, Grupo Poro

espaço urbano sem planejamento anterior, geralmente com o material que estiver à mão: desde tinta até pedras e giz. Isso confere um caráter contemporâneo às inscrições, que refletem a vivência do indivíduo dentro do cenário urbano. O grafite ganhou espaço em 1970 com a ascensão do hip hop nos EUA e a sua adesão por parte do público é um processo que se expande até os dias atuais. Em se tratando dessas pinturas na parede feitas à mão livre com spray e rolinhos, Belo Horizonte já foi sede de eventos importantes relacionados ao tema. Por fim, o estêncil consiste na aplicação de tinta, também em spray ou rolinho, sobre um molde que, quando retirado, revela a imagem desejada. Os moldes também são amplamente compartilhados online, como no caso dos lambe-lambes.


No Brasil as intervenções ganharam mais espaço na década de 1930, com nomes pioneiros como Flávio de Carvalho e Hélio Oiticica, que fizeram delas intrumentos contra a ditadura. A arte nas ruas não parou desde então e centros urbanos como São Paulo e Belo Horizonte são espaços de criação. As intervenções passam longe de possuir apenas um caráter estético: são agentes importantes na formação identitária dos jovens na cultura urbana atual. Isso acontece por meio da criação de narrativas e da apropriação de outras já existentes, criando um diálogo entre o interventor e a contemporaneidade urbana: o artista expressa seu desconforto, suas demandas e críticas em relação à cidade, conseguindo um pouco da voz que a marginalização lhe rouba. Outra característica forte das intervenções é a ressignificação: por estar sempre em locais públicos, um interventor pode unir sem problemas seu estêncil, grafite ou inscrição a outro já existente, modificando o significado inicial e conferindo uma nova grade de sentidos e interpretações para aquele espaço. Nesse fenômeno, as disputas tornam-se também muito comuns: os lambe-lambes muitas vezes são arrancados e substituídos, ou podem ser pixados ou grafitados. O espaço urbano-artístico torna-se um campo de disputa por atenção. A própria disputa configura novo significado às intervenções, que aumentam de tamanho e ficam mais ousadas, contribuindo com a esperança dos artistas de que durem mais tempo no lugar estrategicamente escolhido. A efemeridade das intervenções urbanas não se deve somente à concorrência de território entre os próprios artistas: foram

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Intervenção Azulejo de papel, Grupo Poro

muitas as tentativas de associar essa forma de arte ao crime. Em 2008, o jornal Estado de Minas publicou uma matéria que ligava grafiteiros ao tráfico de drogas, expondo, também, a ação do Ministério Público de mapear os produtores através de perfis falsos em redes sociais. Resistindo, Belo Horizonte ganha uma nova cara a cada picho: suas ruas e paredes se transformam num livro da História de jovens que clamaram para si o que lhes é de direito: ocupar a cidade, gritar em palavras e desenhos o que as hegemonias não permitem. Os artistas seguem cobrindo a cidade de poesia política (ou política poética), firmando-se em suas identidades de resistência juvenil e criativa.


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em só de grafites e pichações são constituídas as intervenções urbanas de BH. De 12 de outubro até 08 de dezembro de 2013, a cidade sedia um grande evento internacional de arte pública: o BHÁsia. O projeto, que transforma a capital mineira em um grande museu a céu aberto, conta com megainstalações criadas por renomados artistas asiáticos: Zhang Huan e Jennifer Wen Ma, ambos da China, Subodh Gupta, da Índia, e Tatzu Nishi, do Japão.

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Arte por outros horizontes

ção invertem, de alguma maneira, a forma como tradicionalmente os objetos são entendidos. A artista chinesa Jennifer Wen Ma, por exemplo, inventou uma ilha de 200 metros quadrados com seus próprios canais e caminhos, na Barragem Santa Lúcia. A obra, chamada de “Ilha de encantamento”, é um lugar imaginário, na qual as plantas, meticulosamente pintadas à mão, deixam de realizar a fotossíntese por conta da tinta nanquim que as cobre. No entanto, na ânsia de sobreviver, folhas verdes brotam em meio às folhas negras, deixando que a natureza também faça a arte. Para conferir os detalhes paisagísticos e arquitetônicos da obra, o público poderá visitar a ilha por meio de pedalinhos.

A exposição tem a curadoria de Marcello Dantas, responsável também pelo Museu das Minas e do Metal e o Palácio da Liberdade, além de diversas mostras no Brasil e no exterior. Tem como obras uma ilha artificial, uma urna ancestral, uma casa em cima de uma chaminé e um barco gigante. “A Ásia é o lugar mais diametralmente oposto ao Brasil no globo terrestre. Seu ponto de vista é necessariamente invertido ao nosso. E esse projeto é, de certa forma, uma oportunidade de se ver o mundo ao contrário”, analisa Dantas. “Minas Gerais, por conta de sua exploração mineral, é um estado com uma relação econômica fortíssima com a Ásia, porém, as trocas culturais entre aquela parte do mundo e esta são praticamente inexistentes”, continua. As obras de arte presentes na exposi-

Intervenção BHásia na rodoviária


O indiano Subodh Gupta inverte o conceito tradicional do barco com a obra “Deste corpo para outro”, trazendo “o sonho do mar para o interior desse barco que brota de dentro da terra. Um barco que nos leva em direção a uma utopia perdida”, fala Dantas sobre a obra do artista. A instalação é uma enorme embarcação, com certa de 80 mil litros de água dentro dela, que “penetra” na cidade pela montanha da Praça do Papa, no alto do bairro Mangabeiras. Além de seu próprio “oceano”, o barco leva dentro de si objetos doados por moradores da cidade, transformando-se em uma espécie de mercador de culturas. Para o BHÁsia, o japonês Tatzu Nishi desenvolveu “A correnteza de modernização”, uma obra diferente das que costuma produzir. O artista, conhecido por criar instalações em que intervém

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sobre monumentos públicos, construiu uma chaminé no estacionamento da rodoviária para servir de alicerce a uma casa, sugerindo um lugar um tanto inusitado para uma pessoa habitar. “Essa casa suspensa no céu de Belo Horizonte marca outro extremo simbólico da ideia de viagem: o nosso ponto de partida é inatingível, irretornável. O lar é uma abstração, um dado passado e, no mundo atual, o aconchego não passa de uma ilusão. A casa, com suas luzes acesas e chaminé soltando fumaça, fala desse lugar que só existe em nossa memória”, reflete o curador. Há ainda a “Dragão azul-celeste, tigre branco, pássaro vermelho e tartaruga negra vivem em minério de ferro”, de Zhang Huan. O artista chinês inspirouse em sua própria cultura e criou uma urna ancestral gigantesca para ser ins

Barco na Praça d BHásia


11 talada na Praça da Liberdade. Na China, as pessoas fazem em vida uma urna com bens afetivos para serem enterrados junto ao próprio corpo quando morrerem. A urna de BH, na qual o público pode ingressar, é composta por 185 placas de minério de ferro – a maior riqueza do subsolo de Belo Horizonte – e um piso de placas de vidro iluminadas. “O contato com o estrangeiro através dos tempos foi a base que permitiu que a identidade brasileira se definisse, ainda que antropofagicamente lasciva. Nosso apetite pede diversidade. É hora de experimentarmos outros pratos que nos façam entender melhor quem somos”, fala Marcello Dantas. Como as demais formas de intervenções urbanas, o BHÁsia reconfigura o espaço urbano, manifestando a cultura contemporânea e renovando a cidade. Neste caso em especial, entretanto, os artistas exploraram regiões e tradições desconhecidas a eles para fazer sua arte e promoveram um intercâmbio cultural entre Ásia e Belo Horizonte. As metáforas utilizadas em suas obras, por sua vez, são entendidas de diversas maneiras pelos moradores, que as ressignificam de acordo com o próprio cotidiano.

do Papa, Foto: http://www.cultura.mg.gov.br/

“A Ásia é o

lugar mais diametralmente oposto ao Brasil no globo terrestre. Seu ponto de vista é necessariamente invertido ao nosso. E esse projeto é, de certa forma, uma oportunidade de se ver o mundo ao contrário”


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PALCO DE

GIGANTES Por Bremmer Guimarães e Levy Alves

Os caminhos do fazer teatral em uma época de manifestações políticas


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entrevista no Palácio das Artes de Belo Horizonte, marcada para o final da tarde, teve seu início apenas às 7 horas da noite. Começou, naturalmente, com atraso causado pelo trânsito caótico da capital mineira, pela rotina estressante de trabalhos e de estudos tanto dos entrevistados quanto dos repórteres. No entanto, o atraso não era um fato que atrapalharia a conversa com Felipe Soares, de 26 anos, e Ramon Brant, de 22, atores e estudantes do Centro de Formação Artística da Fundação Clóvis Salgado, o Cefar. Felipe e Ramon se conheceram no início de 2013 durante uma oficina da 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Foi o primeiro contato entre os dois, que já sabiam, por meio da internet, que seriam colegas de turma do curso profissionalizante de teatro do Cefar. A identificação de linguagem e de trabalho entre os dois jovens foi quase imediata: um dia, enquanto conversavam após as aulas, surgiu a ideia de montarem uma peça juntos que falasse sobre as diferenças entre os seres humanos. A proposta inicial, revela Felipe, veio da indagação: “Vamos fazer dois irmãos? Mas um é branco e o outro é preto... Então, um é adotado!”, pensamento que encaixou como a solução. O ponto de partida, que era discutir as diferenças humanas, ganhou um foco: os dois começaram a pesquisar sobre o tema da adoção. As pesquisas tinham como objetivo entender a realidade das pessoas adotadas, qual a relação delas com suas famílias e também saber as razões que movem uma família a adotar uma criança. “A gente não imagina que existam tantas pessoas ao nosso redor que são adotadas. Existe muito preconceito. O tema da adoção ainda é um tabu”, conta Ramon. Com a ajuda de amigos e também por meio de contatos nas redes sociais, os dois jovens chegaram

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15 ao endereço de famílias que tinham crianças adotadas e, então, foram às casas dessas pessoas, conheceram um pouco da vida delas e gravaram entrevistas, o que foi fundamental na construção do texto do espetáculo, afinal, foram mais de 48 horas de áudio gravadas nas entrevistas. Além disso, Felipe e Ramon tiveram a orientação cênica e dramatúrgica de Zé Walter Albinati, da companhia de teatro mineira Cia Luna Lunera, de Belo Horizonte.

A direção de Tiago Gambogi, da companhia de teatro físico F.A.B. – The Detonators, do Brasil e do Reino Unido, contribuiu para que os atores explorassem seus movimentos corporais e criassem uma coreografia a partir das sensações transmitidas pelos áudios dos depoimentos que haviam sido coletados e que assumiram o papel de trilha sonora. O espetáculo ganhou corpo


e também um nome: Chão de Pequenos. Segundo Felipe, pela peça trazer histórias baseadas em fatos reais para o palco, a cena se aproxima de um teatro-documentário. Em cena, Felipe e Ramon interpretam Lucas e Pedro, dois amigos que estão esperando por uma família na casa de adoção. Uma das questões que os atores-autores incluíram na cena foi a da amizade, bruscamente rompida, das crianças nos orfanatos: a qualquer momento eles podem ser adotados por

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famílias diferentes e nunca mais se verem. Além disso, muitas crianças estão acostumadas com a realidade das ruas e sofrem um choque quando são rodeadas de presentes, vivendo em famílias ricas. “Tem que dar amor. Muita gente pensa só em moldar a criança”, alerta Felipe. “As pessoas que adotam pensam mais nelas do que nos direitos da criança. Querem uma criança branca, com menos de um ano...”, critica Ramon. Criada com o objetivo de provocar uma reflexão no público em relação à questão da adoção, a peça tem obtido sucesso em sua proposta. De acordo com


O caso mais marcante ocorreu em uma apresentação no festival Niterói em Cena. Lá, Lucas e Ramon inovaram e levaram a sua peça também para as ruas. Minutos antes de a apresentação começar no palco, eles se vestiram como os personagens, usando roupas velhas e surradas, e atuaram como meninos de rua vendendo balas e chicletes na entrada do teatro onde se daria o espetáculo. Foram desprezados pela grande maioria das pessoas e até mesmo por pessoas da produção da peça,

Espetáculo “Chão de Pequenos”

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os atores, há um contraste entre a postura da plateia antes de a peça começar e a partir do momento em que ela se inicia.

que não os reconheceram e pensaram se tratar de mendigos. Após todos se acomodarem na plateia, a entrada dos dois atores se deu pela mesma portaria de onde o público chegou, trajando as mesmas vestimentas de antes e provocou um choque nas pessoas, quando viram aqueles dois jovens que elas olharam com desconfiança na porta do espetáculo em cima do palco, atuando. “Olhei nos olhos de um por um que nos rejeitaram e deu para perceber a reação forte das pessoas, assim como a reação contrária.


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Os olhos de um cara que comprou na nossa mão estava brilhando”, afirma Ramon. “Depois, todo mundo quis comprar a nossa bala”, complementa Felipe. Ele destaca a importância de se questionar, antes de tudo, o motivo pelo qual aquela bala está sendo vendida, qual a história por trás disso. “A gente tem que partir das perguntas, e não das respostas”, aponta Felipe. Para muitas pessoas da plateia, a comoção é ainda maior: algumas por serem filhas adotivas, outras por terem adotado uma criança ou ainda por trabalharem em um orfanato. “Na Mostra Lab (uma mostra de cenas curtas de Belo Horizonte), tivemos uma reação muito emocionada de uma mulher que estava na plateia. Nós fizemos uma rodinha de debates de poucas pessoas para falar sobre adoção e essa mulher, que foi adotada, deu seu depoimento no final, se emocionou contando a sua história”, ilustra Ramon. É comum ocorrer essa troca de experiências entre os atores e pessoas da plateia após as peças. O sucesso da peça era inesperado pelos rapazes, principalmente pelo fato de ainda estarem começando a trajetória no teatro. Além de aprovada e bastante elogiada pelo público, Chão de Pequenos tem sido bem avaliada pela crítica especializada. No festival Niterói em Cena, o espetáculo ficou entre os mais votados tanto pelo júri popular como pelos críticos e recebeu o prêmio de melhor texto.


Teatro político Felipe e Ramon defendem Chão de Pequenos como um espetáculo de cunho político. As influências para esse tipo de dramaturgia vão desde Bertolt Brecht e Henrik Ibsen, dramaturgos europeus, até Augusto Boal, carioca fundador do Teatro do Oprimido. “O teatro é um ato político muito forte”, Felipe enfatiza. Ramon lembra que na época de Brecht, em uma Alemanha pós guerra mundial, o teatro era feito para ir além do efeito de causar riso, e sim para propor uma reflexão crítica, gerar uma conscientização da sociedade. Brecht queria incomodar e essa também é uma das propostas de Chão de Pequenos. Em meio às polêmicas nos jornais sobre o uso de cães em testes de laboratórios farmacêuticos, o espetáculo problematiza o porquê de muitas pessoas valorizarem mais a adoção de um cão de raça do que a de uma criança. Ao abordarem temas como desigualdade social e adoção, os atores tomam as dores dos personagens reais que representam. A peça tem a função política de ajudar as pessoas que nela estão representadas. Segundo os dois jovens, é muito importante debater um assunto que é pouco abordado pelas grandes mídias. O teatro é uma das manifestações artísticas mais antigas da humanidade e mesmo com o surgimento da televisão e do cinema, não desapareceu. No entanto, fazer teatro político tem seus desafios. É difícil formar um público, pois a maioria da população busca

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21 no teatro uma opção de lazer. Com isso, temas densos acabam espantando algumas plateias, algo que é extremamente compreensível, segundo os atores. Em Belo Horizonte, especialmente, existe o fato de que a cena teatral da cidade parece existir apenas no primeiro trimestre do ano, durante o período da Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, cuja programação é predominantemente de espetáculos cômicos. Ramon, porém, pondera dizendo que a revolta das pessoas também pode ajudar a criar uma assimilação do espectador com a obra, pois ele se vê retratado no palco. A cena dele e de Felipe sempre foi bem aceita nas cidades por onde eles passaram, o que mostra que ainda é possível fazer teatro político. Se é possível viver de teatro, Felipe e Ramon acreditam que sim. Juntos, eles mantêm um programa sobre teatro em uma rádio comunitária de Belo Horizonte, o Dentro da Cena”. Ramon é formado em Comunicação Social e faz trabalhos como freelancer. Por sua vez, Felipe estuda o empreendedorismo teatral: como se inscrever em editais de incentivo à cultura e entender a dinâmica das leis governamentais e também do retorno financeiro das bilheterias. “Como concorrer no mesmo edital que a Fernanda Montenegro?”, ele brinca. No entanto, outro problema da capital mineira é que a cena cultural está muito concentrada na região central e nas suas redondezas, em bairros como Santa Tereza e Santa Efigênia. Falta uma expansão dos teatros, cinemas, casas de shows e centros de cultura para a zona norte. A classe artística de Belo Horizonte também vive uma situa-


ção de comodismo. Muitos espetáculos são feitos apenas para artistas, trazendo linguagens complexas e dificultando a compreensão de quem não é do meio artístico. É preciso levar os assuntos para a periferia, para dentro do ônibus, para o metrô, para a Praça Sete, para onde está o povo, para onde realmente importa informar. “O teatro político não é só dentro do palco”, finaliza Ramon.

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Gabriel Guedes

Entre pianos e O músico é responsável pela doação de pianos a algumas praças importantes de Belo Horizonte e tem uma forte ligação com o Movimento Salve Santa Tereza Por Carolina Resende e Flávia Ruas Fotos por Carolina Resende

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música Em junho deste ano, algumas

praças de Belo Horizonte ganha -ram presentes inusitados. O projeto “Piano na praça” nasceu da vontade de incentivar a ocupação do espaço público com um instrumento pouco popular. Até hoje, cinco pianos foram espalhados em cinco praças da cidade e possibilitaram a apropriação de públicos diversos. Gabriel Guedes é o mentor e financiador desse projeto, com o qual ele descobriu um outro poder da arte e da música: o de transformar pessoas e lugares. Além de seu engajamento político, social e cultural na cidade, Gabriel é músico, compositor, instrumentista e luthier. O jovem de 35 anos é filho de Beto Guedes (músico e

integrante do Clube da Esquina), e neto do compositor Godofredo Guedes. Para se dedicar à carreira de músico independente, abriu o bar Godofredo há cerca de 4 anos no bairro Santa Tereza. Foi durante uma tarde agradável no bar Godofredo que, em tom descontraído, Gabriel Guedes contou um pouco de como surgiu a ideia do “Piano na praça” e falou do seu engajamento com o “Movimento Salve Santa Tereza”. Gabriel falou também de sua produção musical, de como sua relação com a família está atrelada a ela, explicitando suas influências, e deu sua opinião sobre o cenário musical atual.


Gabriel Guedes, em seu bar Godofredo.

Ao Redor: Como surgiu o projeto “Um piano em cada praça”? Gabriel Guedes: A ideia dos pianos começou quando eu morava na rua Rio Doce, no bairro São Lucas, onde havia muitos assaltos. Então, resolvi chamar os amigos e a imprensa e colocar um piano na rua para fazer da música uma forma de protesto. Realmente, durante um mês e meio, surtiu efeito, a bandidagem diminuiu. Apesar de depois ter voltado. Depois, no ano passado, os vereadores queriam aumentar em 60% o salário deles, e então encontrei outro motivo para fazer meu protesto. Levei um piano para a Praça do Papa e, junto com alguns

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amigos, fizemos pique-nique e tocamos música. E então eu descobri que um piano tem poder. No filme que assisti sobre a vida do Van Gogh, tem uma cena em que os músicos estão debaixo de uma árvore, tocando piano, violino e acordeon. Quando vi, pensei: isso seria bom demais! Quando começaram as manifestações desse ano, vi que era a minha chance. Eu tinha dois pianos encostados na minha casa, o primeiro levei pra Praça Bernardo Monteiro e o segundo para a Praça Santa Tereza, ambos durante a Feira da Gratidão. Depois


comprei outros pianos e levei para a Praça do Papa, a Praça Sete e a Praça da Savassi. A.R: E como você avalia a recepção das pessoas em relação aos pianos? G.G: Esses instrumentos, para mim, viraram meio de estudo da psique humana. Veja bem: o piano da Praça Sete, onde teoricamente ficam os moradores de rua, os marginais e hippies da cidade, durou um mês e meio. Já o que eu coloquei na Savassi não durou nem um mês. Um lugar onde, teoricamente, circulam as pessoas de maior poder aquisitivo. Durante a Virada Cultural, tiraram uma foto de três pessoas em cima do piano. Um dia desses eu estava lá, morrendo de vergonha por ter colocado o piano naquele lugar. Além disso, algumas pessoas me cobram pela manutenção deles. Mas depois que eu coloco o piano na praça, ele já não é mais meu. Em todos os pianos eu coloquei uma capa e elas foram roubadas. Coloquei outras novamente, mas roubaram também. Então, eu fico pensando: as pessoas vêm me cobrar porque elas se importam então o piano também é delas. Elas mesmas podem fazer alguma coisa. A minha parte eu já fiz, coloquei o piano lá, mas as pessoas não entendem isso. Daqui a

Acima, Gabriel no colo no seu avó, Godofredo Gudes. Abaixo, Gabriel com seu pai, Beto Guedes. Fotos: arquivo pessoal

pouco, quando começar a chover muito, eu vou virar “o cara que destruiu os pianos”. Mas teve muitos casos interessantes. Um dia apareceu um gari, sentou no piano e começou a tocar Beethoven. Teve uma velhinha que, quando um dos moradores da Praça Santa Tereza colocou uma corrente para ninguém mais tocar, levantou um pouquinho e ficou tentando tocar mesmo assim. Teve também ensaio com o Toninho Horta, no meio da praça. Gente que chegava, tocava e reunia pessoas ao redor, que dançavam.


A.R: Queríamos voltar no que você falou sobre usar a música para questionar a política. Como é isso? G.G: Eu descobri que a música é uma arma potentíssima, porque o inimigo não tem o que fazer contra ela! Nem eu sabia disso quando comecei com esses projetos dos pianos, e acabou que surgiu uma legião de seguidores e defensores dele. Eu fiz uma página na internet que chama “Piano na Praça - Doe um Piano”, abri uma conta no Banco do Brasil e divulguei lá. Eu consegui arrecadar 850 reais, o que deu pra pagar alguns carretos, um pouco do piano, mas nada mais do que isso.

to com algumas pessoas, estou tentando fazer uma articulação com os moradores. Fazemos algumas reuniões e, às vezes, arrecadamos fundos para as ações. A Fiemg (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais) quer colocar uma escola técnica da Fiat no bairro, trazendo mais 3800 pessoas, e o Santa Tereza não comporta. Além disso, querem abrir uma avenida logo em baixo, dentro do bairro. Queremos manter o bairro como ele é, a maioria dos moradores quer isso. Ele só tem duas entradas, não é um bairro de passagem. Com essa avenida que eles querem fazer, o Santa Tereza se tornaria passagem para um fluxo grande de carros. Mas o

Quando o piano estava aqui na Praça Santa Tereza, a prefeitura queria recolher o piano e me multar em R$ 850,00 por dia em que ele estivesse lá. Quando chegaram os fiscais, várias pessoas fizeram uma corrente em volta dele, dando os braços, pra não deixar ninguém levar. E os fiscais voltaram sem o piano, vocês acreditam? A.R: Sobre o Movimento Salve Santa Tereza, qual o seu engajamento? G.G: Financio o movimento, escrevo nota para gravar e, junGabriel Guedes em show no Conservatório UFMG. Foto: Rodrigo Day

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Queremos a revitalização do bairro, a volta dos feirantes, a criação de um espaço multigastrocultural, para ter várias barraquinhas, música, aula de teatro, oficinas e a antiga exposição de cerâmica. É importante a tradicionalidade! Aqui parece que você está no interior, tem muita gente que joga bola na rua. As pessoas vêm pra cá por causa disso, procurando isso. Será que se a gente descaracterizar, elas vão querer vir? Não

A.R: Queríamos falar agora sobre a sua formação como músico. G.G: Bom, tudo começa com o meu bisavô José de Souza, Seu Cazuza, que era sanfoneiro em uma cidade no sertão da Bahia, chamada Riacho de Santana. Ele ensinou música para os filhos. Meu avô, Godofredo, sempre foi autodidata, pintor e compositor. Mudou para Montes Claros e lá fez todas as suas músicas. Antes de ele falecer, deixou uma pasta com cerca de 70 músicas, todas manuscritas, e aí o meu primeiro projeto, o Choros de Godofredo, foi esse: gravar 10 0000 músicas a partir desses manuscritos. O meu avô era luthier também – construía e restaurava instrumentos de corda. Construiu dois pianos e fez até máquina de enrolar corda com aquela máquina de moer carne. Meu pai herdou isso dele. Desde pequeno eu o via fazer aeromodelos e também herdei essa paixão. Mexia com madeiras, ângulos, colas, espessuras, e daí, para fazer um instrumento, é bem parecido. Desde pequeno eu escuto as músicas do meu pai; a maneira de tocar e o estilo dele me influenciaram bastantebastante. Eu tenho uma admiração imensa

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bairro aqui é tradicional, boêmio, artístico. É muito importante manter a característica desse local que ficou conhecido mundialmente por causa do “Clube da Esquina”.


por ele e por suas músicas. A.R: E o pessoal do Clube da Esquina? Eles te inspiraram de alguma forma? G.G: Eles foram fundamentais para minha formação musical, principalmente o Milton [Nascimento] e o Toninho [Horta], que são os caras com quem eu mais me identifico. Eu amo todos. O Tavinho [Moura] e o Lô [Borges] também são extremamente geniais, mas eu vejo no Toninho e no Milton uma peculiaridade que, particularmente, me atrai mais – a maneira de compor, a maneira de cantar do Milton, os acordes do Toninho... Na verdade, esses caras construíram um palácio tão bem erguido e sólido! Eu acho até um pouco difícil alguém dizer que não gosta de Clube da Esquina, porque o Toni-nho Horta tem um império musical particular, o Milton tem um império diferente, o Lô tem outro, o Tavinho outro, meu pai outro. Então tem tudo: jazz, rock, tem pra todos os gostos... A.R: A música independente, como a sua, pode ser uma fuga para os re-quisitos mercadológicos e pode ser uma alternativa diferente, você não acha? Acho, mas nem mesmo essa

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Gabriel Guedes em performance

fuga independente é tão atrativa. Acho que tudo está muito pobre. Não sei se é porque hoje em dia tem muita gente e as pessoas que aparecem são as que tocam em rádio... Têm letras que falam, falam, e não dizem nada. As letras de antes eram muito mais verdadeiras. O povo estava passando por uma situação fudida de ruim, com a repressão, tinha que ter uma maneira inteligente de falar. Eu não sei se eles tinham talentos normais e a gente é medíocre ou se eles estão muito acima e a gente tem um talento normal. Eu também gosto de música clássica, de música


31 barroca. Beethoven demorou 5 anos para fazer a “Quinta Sinfonia”. Johann Sebastian Bach demorou 25 anos para compor a “Missa em Si Menor”, uma obra que é um monumento. Antes, eles paravam para fazer música, para pensar. Hoje em dia - eu me incluo nessa classe - qualquer pessoa faz qualquer coisa; faz uma melodia, uma letrinha, coloca uma coisinha eletrônica e vende. E depois que eu comecei a escutar essas músicas de orquestra, eu acho difícil me saciar com alguma coisa “menor”. Eu faço as minhas músicas, não acho que elas são nada de mais e nem quero

que sejam, mas é a minha contribuição. Eu tenho uma dificuldade em pensar: “quem iria a um show do Gabriel Guedes? Por que ele iria? O que levaria uma pessoa a me assistir?”. Eu tenho uma pouca crença em mim mesmo. Eu gostaria que o máximo de pessoas gostasse do meu trabalho, mas eu não tenho essa intenção mercadológica. A.R: E o seu bar, Godofredo, foi o meio que encontrou de fazer música? G.G: Sim! Eu não sou nada mercadológico. Eu vendia um show ou outro, um mês ou outro, tinha uma vida um pouco difícil, ganhava pouca grana. E eu sempre quis montar um bar, que iria se chamar Johann Sebastian Bar. Aí teve um belo dia em que eu estava na sauna e quando eu saí tomei um vento frio, um choque, e eu tive a ideia de montar um bar com o nome Godofredo. E essa foi a saída que eu encontrei para tocar todo dia, ganhar como músico e também como dono de bar. Foi com o bar que eu consegui financiar meu CD. No último disco que produzi, Gabriel Guedes, eu toquei a maioria dos instrumentos porque eu não tinha como chamar as pessoas e pagá-las, nem


todo mundo vai querer tocar de graça e eu também já sabia tudo o que era pra ser tocado, então resolvi tocar. Foi um disco em que eu gastei, incrivelmente, uns R$ 20 mil, o que é nada, é muito pouco, porque tem orquestra, tem Milton Nascimento, o Clube todo. A.R: Quais são os seus projetos para 2014? G.G: Eu estou inaugurando um bar Godofredo lá no Rio, na rua Martins Ferreira, número 48, no Botafogo. Botafogo porque a gente já quer chegar botando fogo na cidade. Eu pretendo gravar um novo CD, já tenho 10 músicas, e eu que vou financiar esse também. Pretendo colocar mais pianos nas praças - teve um cara que falou que conseguia 10 por 5 mil reais e aí eu estou pensando em pagar aos pouquinhos para, a partir de abril, já chegar e colocar 10 de uma vez. E, tirar férias!

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“Eu descobri que a música é uma arma potentíssima, porque o inimigo não tem o que fazer contra ela!”


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Um dos painéis de Portinari e a plateia no novo Cine Theatro Brasil

Com a reinauguração do Cine Theatro Brasil e a restauração de outros ícones do passado, Belo Horizonte amplia o seu circuito cultural Ivanir Ignacchitti | Karine Silva | Millenne Ferrante | Rafael Cerqueira Fotos por Ana França e Thaís Leocádio


A fachada passou por reforma

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ntre os anos 40 e 80 do século passado, Belo Horizonte era a casa de diversos cinemas de rua que reuniam milhares de pessoas todos os dias. O Cine Theatro Brasil, inaugurado em 1932, era um deles e, assim como os demais, acabou sendo fechado devido à crise que se estabeleceu sobre o setor com a chegada do novo milênio e ao boom dos cinemas de shoppingcenters. Seu destino, porém, acabou sendo melhor que o de seus “colegas”, que foram demolidos ou viraram igrejas, estacionamentos e outros estabelecimentos. Fechado desde julho de 1999, o Cine Theatro Brasil passou por longos 6 anos de reforma e restauração e, após quase 15 anos, as suas portas foram reabertas para o público, mostrando todo o glamour e a grandiosidade de tempos atrás. Aliás, imponência, elegância e exuberância é exatamente com o que nos deparamos ao adentrar no atual Cine Theatro Brasil Vallourec. Em 2006, o prédio foi comprado pela Fundação Sidertube, entidade sem fins lucrativos que representa o Grupo Vallou-

r e c n o Brasil em uma série de projetos voltados para seus empregados e familiares. Com um orçamento de cerca de 53 milhões de reais, a obra contou com verbas advindas de incentivos fiscais às empresas envolvidas, além de um investimento de 24 milhões de reais provenientes do caixa da Vallourec. O prédio foi restaurado de modo a preservar ao máximo as suas características originais, em especial a fachada e as ornamentações, mas ainda assim foram feitas algumas adaptações, como a instalação de ar condicionado e a construção de um novo andar, visando unir o conforto dos tempos modernos com a tradição do século passado. A inauguração do Cine Theatro Brasil Vallourec aconteceu em outubro deste ano e contou com a presença de figuras como Milton Nascimento e com nada menos que a exposição “Guerra e Paz”, do brasileiro Cândido Portinari. A exposição reúne os 2 maiores e mais famosos murais do pintor, além de referências às obras e à sua vida, e ficou exposta até o dia 24 de novembro, data


em que “Guerra e Paz” foi levada para exibição em Paris. Estima-se que até esse dia cerca de 80.000 pessoas tiveram a oportunidade de contemplar as mais ilustres obras do artista. Mais do que ver a obra de Portinari, o público parece desejar rever ou mesmo conhecer o Cine Theatro Brasil. A aposentada Neuza da Cunha, 80 anos, diz: “trazia meus filhos para assistirmos filmes. Era muito bom e muito frequentado. Agora que reabriu eu creio que a importância cultural que ele tinha retornará, pois as pessoas que vinham vão voltar a vir”. Breno Souza, engenheiro, 29, estava no local pela primeira vez e acredita que a reabertura do Cine Theatro representa a ampliação do leque cultural de Belo Horizonte, que hoje conta com várias outras atrações, entre

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shows internacionais e espaços culturais como o Circuito da Praça da Liberdade. Alberto Camissassa, Diretor Presidente do Cine Theatro Brasil Vallourec, ressalta a importância da reabertura do prédio para a valorização cultural da cidade. “Nós estamos devolvendo para Belo Horizonte um espaço que já foi sua referência cultural, com o mesmo glamour que ele tinha há 40, 50 anos atrás. Em conjunto com outras iniciativas de incentivo à cultura que estão acontecendo em BH, como o Circuito Praça da Liberdade e o Sesc Palladium, outro aspecto relevante que essa reabertura traz é de contribuir no processo de revitalização do Centro, que estava muito descuidado há alguns anos.


Parte da exposição de Portinari

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A restauração do Cine Theatro Brasil faz parte de um movimento crescente em Belo Horizonte, em prol da revitalização de antigos espaços culturais do município. O Cine Santa Tereza, no bairro Santa Tereza, e o Cine Pathé, na Savassi, também estão passando por processos de resgate. Essas iniciativas têm partido principalmente de empresas privadas, em função tanto da necessidade de oferecer um melhor retorno às comunidades em que estão inseridas como pela isenção de impostos e concessões do poder público.


Em todas as obras há grande preocupação em manter aspectos originais dos prédios. Segundo Carlos Alberto Maciel, 39, professor da Escola de Arquitetura da UFMG e integrante da equipe responsável pelo projeto inicial de restauração do Cine Theatro Brasil, isso acontece devido à necessidade de recuperar a história em um sentido de contraposição ao consumismo atual. “Restaurar é um ato de resistência, não apenas ao tempo e ao desgaste por ele imposto, mas em relação a uma cultura baseada no consumo que impõe sobre todas as instâncias da vida destruição e reconstrução permanentes, impõe uma superficialidade que decorre da falta de história, de acúmulo, de sedimentação da vida social, coletiva e pública”, aponta. A importância de preservar a história de Belo Horizonte encontra justificativa também no reflexo que esse ato tem sobre a intensificação de sua vida cultural. A implantação de novos espaços junto ao resgate de antigos está associada à necessidade de valorização da cidade, atentando para a capacidade local de oferecer programações culturais diversas e produzir arte de referência, desviando o foco do eixo Rio-São Paulo. A restauração do Cine Theatro Brasil representa, para além da recuperação de um conjunto arquitetônico, a revitalização de uma região de BH que há muito é desprestigiada. O movimento do qual essa revitalização faz parte se dirige em direção a oferecer mais à população belo-horizontina em um processo de reforma cultural da capital mineira, e ao reconhecimento de Minas Gerais como polo de produção e veiculação de obras artísticas de grande valor social.

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Futuros renascimentos

Outras antigas atrações culturais de Belo Horizonte passarão por processos de revi talização de suas sedes. O Cine Pathé na Savassi e o Cine Santa Tereza são duas delas. Ambas são iniciativa de empresas privadas que receberam incentivos do poder público para contribuir para a restauração da memória da capital mineira.

Cine

A restauração do Cin portas em 1999, foi prop Como a PHV possui o intuit em seu entorno e há uma lei que intervenham em um certo bados paguem à sociedade em empresa propôs a restauração d e foyer são tombadas pela Fund Horizonte. O novo Cine Pathé se da Imagem e do Som, tendo seu fu gramação constante de exibição d cinema, palestras, seminários e d bre o fazer cinematográfico e o un atividades do prédio ficam a carg Audiovisual, instituição da Prefe que tem por intuito divulgar o ci de ações educativas e culturai sala de projeção possuirá 21 obra também um café e um ser utilizado pelo CRAV p de memória c


o ia s

CINE SANTA TEREZA

Com um investimento de cerca de R$2 milhões, o Cine Santa Tereza, inaugurado em 1944 e fechado na década de 1980, deve ser restaurado em até nove meses pela Sudecap (Superintendência de Desenvolvimento da Capital). A obra é uma parceria entre a Prefeitura de Belo Horizonte e a Vale e prevê a recuperação da fachada do prédio e a reutilização de parte da estrutura original para a reinauguração do cinema com 146 lugares. Outras estruturas também estão nos planos, e Pathé, que fechou as tais como uma cafeteria, uma biblioteca com acervo osta pela PHV Engenharia. disponível para pesquisa e empréstimo domiciliar, to de construir um novo prédio uma sala de vídeo e uma sala multimídia, com ue estabelece que empresas que palco e camarim, que poderá ser utilizada de distância de prédios tombados para apresentações e outros eventos eração de bens públicos, a emprepara um público de aproximadaio do cinema, cujas fachada e foyer mente 150 pessoas. nicipal de Cultura de Belo Horizonte. de um braço do Museu da Imagem e marcado por uma programação ealização de mostras de cinees que envolvam questões o universo do audiovisuprédio ficam a cargo do diovisual, instituição da Horizonte que tem por iro e nacional por meio ais. Quanto à estrutura o possuirá 214 lugares bra também um café e o, que deve ser utilizado xposição de acervos cinematográfica.

Pathé


Onde a cena

e c e t n o Ac

A import창ncia dos teatros para os movimentos culturais da cidade Por Dulce Miranda e Jonathas Cotrim Fotos por Rodrigo Carvalho

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B

elo Horizonte conta com mais espaços teatrais do que você imagina. Quando comparada a cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, nosso número ainda deixa - e muito - a desejar. Contudo, os espaços voltados para as artes cênicas, em BH, têm aumentado não só devido à popularização do teatro na cidade, mas também a iniciativas dos próprios coletivos teatrais. A atriz mineira Janaína Sperling conta que, nos seus 18 anos de carreira, ocorreram mudanças na

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infraestrutura dos teatros. Hoje, muitos grupos renomados tem sua própria sede na capital, o que lhes possibilita maior autonomia. Ela conta as perdas: “muitos teatros viraram igrejas e acabaram. Alguns estão abandonados... tem um teatro lá no bairro Calafate (na região Oeste da cidade) que é grande, mas está parado há muitos anos e não é reformado, nem nada.” Em contrapartida, ela cita a reinauguração do Cine Theatro Brasil e a criação do espaço SESC Palladium: “mesmo que a passos de formiga, a infraestrutura melhorou”.


43 Alguns espaços tradicionais, como os teatros Marília e Francisco Nunes, no centro de Belo Horizonte, estão passando por um processo de restauração que é parte do programa Adote um Bem Cultural, iniciativa da prefeitura belo-horizontina que visa à proteção de patrimônios culturais da cidade e seu reconhecimento pela população, por meio da reestruturação e reforma desses ambientes. A intenção é facilitar a atração de recursos privados para as obras desses grandes teatros, fazendo com que esses espaços sejam utilizados para os mais variados fins, fomentando produções locais e beneficiando artistas mineiros como Janaína. Entretanto, a classe artística reclama da demora na entrega dos espaços. O Teatro Francisco Nunes, fechado desde abril de 2009, teve sua reforma começada só em maio deste ano e continua cercado por tapumes. Com custos estimados de 10 milhões de reais, sua reinauguração está prevista para janeiro de 2014. Por sua vez, no teatro Marília o investimento orbita a casa dos R$2 milhões e prevê a modernização completa do espaço: mudanças na rampa de acesso, novas saídas de emergência, corredores, aumento dos lugares, revestimento do palco, alterações na fachada, investimentos em luminotecnia e maquinário.

Mesmo com essa iniciativa da prefeitura, nem todos os artistas serão diretamente beneficiados: grupos como o Espanca!, Galpão e ZAP18 (Zona de Arte da Periferia), que possuem sede própria, não terão seus espaços reformados. Esses e outros tantos grupos dependem de investimentos da iniciativa privada e de editais para reformas e manutenção de seus espaços e incentivos à produção. Cida Falabella, coordenadora da ZAP18, conta que “não existe apoio permanente. Um ano acontece e em outro não. Os projetos em sua maioria são anuais, o que prejudica a continuidade. As leis de


incentivo dominam o mercado e ditam regras que nem sempre interessam aos grupos”. “Quando não conseguimos os editais, ficamos praticamente parados”, reitera Flávia Leão, gestora do grupo Espanca!. Flávia conta ainda que uma das peculiaridades do grupo é retratar a realidade de maneira divergente da realizada pelo teatro de massa. Apesar disso, ela afirma que não há pretensão de fazer perceber o mundo de forma diferente. Segundo ela, “dizer que uma peça propõe refletir e resol-

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ver os problemas do mundo torna a arte muito perdida, não sendo essa sua verdadeira função. Por isso, as apresentações do grupo trabalham com realismo fantástico mesclado com problemas sociais, o que as tornam mais subjetivas e pessoais”. A procura pelos espetáculos do Espanca! é grande: as pessoas costumam chegar com duas horas de antecedência e uma hora antes do espetáculo os ingressos estão esgotados. Além de montar encenações, o Espanca! aluga sua sede, em


Para Cida Falabella, da ZAP18, o teatro deveria ser um direito de todo cidadão, não podendo ser visto jamais como um ramo de negócios. Nesse sentido, a companhia trabalha com textos originais ou diálogo com obras de várias naturezas literárias, de Shakespeare a Brecht, passando por Baudelaire e Nietzsche. Afastada do centro, a ZAP 18 tem sua sede no bairro Serrano, sendo um importante polo de convergência cultural. Enquanto o Espanca! é mais conhecido e até já fez turnês pela América Latina, a ZAP 18 possui projetos de capacitação e iniciação teatral. “A arte permite que o ser humano seja melhor, mais

sensível e mais crítico. As oficinas se dirigem a quem quer conhecer o teatro e aos que querem se aprofundar. Acreditamos em uma horizontalidade nas relações e trabalhamos dando voz às pessoas, através do teatro, sejam jovens, sejam adultos”, afirma Falabella. Flávia nos conta que “qualquer manifestação artística que ocupe um espaço é importante. Seja um artista de rua, seja nosso grupo, seja o artista que trabalha no sinal. A cultura tem que ser parte de nossa vida, ao ponto de que sem ela nós ficamos sem identidade”, e conclui afirmando que Belo Horizonte tem tido um bom trabalho na área cultural, pois “vários artistas estão muito empenhados com a ocupação de espaços, com agregar valores e não serem ilhas isoladas”. De todos, o grupo Galpão é o coletivo belo-horizontino que alcançou maior notoriedade: em 3 décadas de existência, já participou de 40 festivais internacionais e de 70 nacionais. Acumula, ainda, mais de 100 prêmios brasilei

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baixo do viaduto Santa Tereza, para pequenos coletivos a preços módicos. “É muito difícil para um grupo que está começando pagar 4000 reais no aluguel de um teatro para uma estreia. Quando a gente oferece o espaço por menos, damos oportunidade a esses novos grupos”, relata Flávia.


ros, incluindo a condecoração do Ministério da Cultura dada a grupos e personalidades que contribuíram e contribuem para a cultura brasileira. Além do sucesso, se destaca também pela sua sede: o Galpão Cine-Horto possui um teatro para cerca de 200 espectadores, sala de cinema com 80 lugares, salas de aula e o Centro de Pesquisa e Memória do Teatro (CPTM), que existe desde 2006 e fornece um acervo de 5500 livros, CDs e DVDs. Além disso, o CPTM oferece cursos e oficinas artísticas e projetos que auxiliam no fomento e na difusão teatral, alcançando artistas locais, nacionais e internacionais. Assim como o Espanca! e a ZAP18, o Galpão depende de incentivos privados e é patrocinado pela Petrobrás. Flávia Leão, gestora cultural do Espanca!, conta como é difícil depender desses recursos: “é necessário que uma marca queira ganhar dinheiro em cima do nosso trabalho para que ele aconteça. É preciso a regulamentação dos incentivos estatais à cultura.” É fato que Belo Horizonte conta com vários e notáveis espaços teatrais, mas ainda há muito o que fazer e no que investir, tanto por parte do poder público quanto privado. Quem se dispuser a

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assistir alguns espetáculos, que ao contrário do que muitos pensam, são abundantes na capital mineira, irá descobrir artistas de sensibilidade e talentos admiráveis. Uma vez, no final do ano passado, o célebre dramaturgo Ariano Suassuna estava em um bate-papo no Grande Teatro do Sesc Palladium, quando afirmou: “o ser humano é um ator, que dá algumas cambalhotas no palco, que é o mundo, e logo se retira. Então o palco é uma coisa fundamental. Quanto mais palcos, melhor”.


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Ceci n est pas une

BOLINHO Por Kelly Cardoso e Vit贸ria Barros Fotos por J茅ssica Malta

A hist贸ria por tr谩s do personagem Bolinho criado pela grafiteira Maria Raquel 48


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Região da Savassi

A

o andar por Belo Horizonte, não é raro encontrar grafites enfeitando as ruas da cidade. Os temas são os mais diversos, mas, de uns tempos para cá, uma certa imagem parece ter conquistado os belo-horizontinos, caindo no gosto popular a ponto de ganhar sua própria marca. O grafite “Bolinho”, como é conhecido, é criação de Maria Raquel Ramiro, uma itabirense de 27 anos, formada em Letras pela UFMG, que de forma despretensiosa decidiu deixar sua marca pelos muros da cidade em que vive. A primeira influência foi do namorado, hoje marido, que também é grafiteiro. Depois, por conta própria, Maria Raquel “Bolinho” se apaixonou pela dinâmica do grafite, pela chance de estar na rua e, claro, de deixar sua própria

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contribuição, que acabaram aparecendo em sua cidade natal. Hoje, Itabira também tem sua porção de bolinhos espalhados pela cidade. Ela explica que sua arte foi movida pela diversão e que retira do cotidiano a inspiração para criar novos bolinhos. “Às vezes, eu estou andando na rua, no supermercado, no ônibus e vou tendo ideias para os bolinhos. Quando posso, eu faço um esboço na hora ou chego em casa correndo e vou desenhar, pra não esquecer a ideia”, conta Maria. Assim, é possível ver bolinhos tomando banho, falando ao celular ou simplesmente secando o “cabelo”. Além das cenas do cotidiano, Maria Raquel também se ins-


51 pira em músicas ou no trabalho de artistas famosos. Na região da Savassi, por exemplo, uma das pinturas traz a frase “Ceci n’est pas une Bolinho”, baseada na obra do pintor belga René Magritte. A artista também se mostra ligada aos acontecimentos atuais: o “Bolinho Rei do Camarote” fez grande sucesso nas redes sociais, assim como o vídeo que lhe serviu de inspiração. A ideia para sua marca registrada veio do seu amor pela culinária. O gosto pela confeitaria e o hábito de preparar cupcakes foi a inspiração que ela precisava para inventar o delicioso mascote

de visual atraente e que está presente em suas criações desde 2009. Seu maior desafio é ser sempre criativa e pensar coisas novas constantemente. A artista não se deixa abater mesmo diante das dificuldades em manter os bolinhos nos muros. Muitos são pintados em espaços que acabam demolidos ou são vítimas dos cartazes de políticos que tomam as paredes em época de eleição e acabam por tampá-los. Foram criados mais de 300 bolinhos pela cidade, mas não é possível saber ao certo quantos resistiram. Os desenhos de cores vibrantes e aspecto delicado contrastam com os locais onde estão pintados: em sua maioria áreas abandonadas e depredadas


da capital mineira. Para Tatiana Rezende, formada em História pela UFMG, “os bolinhos ajudam a cidade a ficar mais animada”. A professora conta que há mais de 3 anos, quando percorria as ruas do bairro Floresta, reparou nos coloridos bolinhos, que na época disputavam espaço com desenhos de sorvetes. Mais tarde, descobriu que, nessa fase, Maria Raquel ainda estava decidindo qual guloseima iria adotar como marca registrada. Hoje, Tatiana é fã dos desenhos e afirma que, diferente de outros grafites muito abstratos, os bolinhos são de fácil compreensão e alegram o ambiente: “as cores são ótimas e as propostas com mistura de trechos de músicas, réplicas de quadros e coisas do dia a dia fazem com que qualquer um fique bem ao se deparar com esses grafites”. A fama dos bolinhos espalhados pela cidade foi tanta que Maria Raquel passou a se dedicar exclu-

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sivamente ao grafite e ser contratada para desenhá-los. A artista explica que, os bolinhos cuja temática é escolhida por ela estão presentes em partes abandonadas da cidade e os bolinhos ‘sob encomenda’ são exclusivos e podem ser feitos de acordo com o desejo do comprador, ocupando um espaço específico ou aparecendo na forma de telas de pintura. O contato com a artista geralmente é feito via redes sociais. A internet, aliás, se tornou a principal forma de reconhecimento pelo seu trabalho. “As pessoas tiram muitas fotos e postam no Instagram, mandam muitas mensagens pela página do Facebook e isso serve como um incentivo para criar novos bolinhos”, comenta a artista. Outra forma de reconhecimento veio por meio da grife mineira Elvira Matilde, que a contratou para pintar


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painéis que enfeitam as lojas dos bairros Savassi e Gutierrez. Não passou muito tempo, Maria Raquel foi novamente contratada pela grife, desta vez para criar estampas das roupas da marca. O sucesso parece ter incentivado a artista, que já patenteou o desenho e está criando a “Loja on-line do Bolinho”, em que pretende vender diversos produtos relacionados ao personagem, como telas e serigrafias, além de receber as encomendas de pintura. Com a loja, que ficará pronta ainda este ano, os bolinhos poderão sair das ruas e deliciar também as casas das pessoas.

Maria Raquel grafitando. Arquivo pessoal.

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Quando a rua encontra o hip hop Ângelo Franco | Aline Azevedo | Lucas Bastos Fotos por Davidson Leite

PDR e Monge, fundadores do Coletivo Família de Rua, contam sobre a trajetória do grupo, os desafios e os processos de mudança no duelo, que sofreu uma pausa e retornou recentemente ao viaduto

“Nós somos um ponto numa rede que não é só belo-horizontina, mas nacional, e que tá acontecendo”, é o que nos contam PDR e Monge. A fim de estender essa rede, o grupo realiza o Família de Rua na Estrada, que está em sua segunda edição e viaja pelo interior de Minas levando hip hop, grafite e a proposta da ocupação urbana. Nacionalmente reconhecidos, já fizeram parcerias com figuras importantes no cenário musical brasileiro, como o Emicida e o Rappin’ Hood.

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Nossa equipe teve a oportunidade de conversar com membros do coletivo Família de Rua, responsáveis pela criação e realização do programa. O projeto, que já contempla outras atividades, tem alcançado e inspirado novos movimentos em outras cidades além da capital mineira. Na nossa conversa, PDR e Monge, fundadores do Coletivo Família de Rua, contaram sobre a trajetória do grupo, os desafios e os processos de mudança no duelo, que sofreu uma pausa em 2012 e retornou recentemente ao viaduto.

ebaixo do viaduto Santa Tereza é onde o Coletivo Família de Rua realiza o famoso Duelo de MC’s. Inicialmente escolhido para fugir da chuva, hoje, o viaduto recebe uma plateia extremamente diversificada: pessoas de 92 lugares diferentes de Belo Horizonte e região metropolitana se encontram para ouvir o rap belo-horizontino. O coletivo conta com uma grande gama de projetos, como a “Real da Rua”, que objetiva ouvir das pessoas novas alternativas para o espaço urbano além do duelo.

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Coletivo Família de Rua: A Família de Rua começa a partir do duelo de MC’s com as demandas dos duelos. Em 2007, quando começamos a realizar o duelo, era um grupo de amigos que iam semanalmente, a princípio para a Praça da Estação, fazer o duelo. Não tinha um grupo que organizava. As pessoas se encontravam e faziam. Aí, ao longo das semanas, as demandas começaram a fazer com que a gente se organizasse, então, cada um começou a ficar por conta de uma função específica: um vai ficar responsável pelo som, um vai apresentar, o outro vai fazer a inscrição dos MC’s... Uns meses depois que o duelo começou, a gente fechou um grupo que, na verdade, é um grupo de grupos. Eu e o Diboa, por exemplo, representávamos o Conspiração Subterrânea e, assim, se formou um grupo a partir de coletivos e grupos de rappers que estavam ali de alguma forma envolvidos no duelo, ajudando cada um com o que podia ajudar. Ao longo dos anos, muitas pessoas passaram pela organização e hoje a Família de Rua são seis pessoas, sendo que três acompanharam desde o início. A Lud e o Rafa, que entraram nos dois últimos anos, são duas pessoas que não são do hip hop e vieram de outros

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Ao redor: Como o coletivo começou e chegou à formação atual?

universos. Eles fizeram trabalhos específicos para o coletivo, de serviço mesmo, e acabaram ficando, porque gostaram do projeto.

A.R.: Do inicio da história até atualmente como vocês veem a aceitação das pessoas em relação ao duelo de MC’s? C.F.R.: A gente sempre fala assim: ele pegou a cidade num momento que tinha essa demanda no sentido de hip hop. Em 2007, não tinha nenhuma ação acontecendo de forma periódica na rua e o hip hop é uma cultura de rua: vem das ruas, naturalmente a gente faz e vivencia nelas, e não tinha nada rolando na época. A gente fazia rodas de MC’s com o Conspiração Subterrânea e rodas de Bboy de dança na Praça Sete em 2005 e 2006, mas não tinha batal h a de MC’s. Em 2007, o duelo

Fotos nessa página: Paula Huven


começa até por causa disso e, com o surgimento da liga de MC’s nacional, esse assunto já estava muito em voga. Quando a gente propõe pra cidade, ela abraça porque não tinha a batalha e nem a própria ocupação do espaço. Aí o duelo começa a crescer de uma forma que é bizarra. Antes, quando era na sexta, a média de público era de 1500 pessoas. Até então não acontecia nada que conseguisse abraçar uma diversidade tão grande de pessoas, sendo do morador de rua do viaduto até a rapaziada de zona sul que descia pra lá. Todo mundo ali numa boa. A.R.: Em relação à questão da ocupação urbana, como vocês enxergam a importância do duelo para o incentivo do crescimento de cultura na cidade? C.F.R.: O duelo de MC’s foi um ponto de virada nesse sentido porque a partir dessa ocupação nossa, no anal das brigas que acabamos levantando pra estar ali toda semana, gerou toda uma movimentação ao redor do duelo e dessas pautas. Acabou que se espalhou pra cidade que já estava no ponto de espalhar – fomos mais uma faísca pra coisa acabar de estourar de vez. A gente já tava numa época que ninguém ocupava as ruas por legislação, por dificuldade, repressão, opressão, e ainda é assim. A gente começa a fazer toda semana isso e a levantar as discussões a partir dessas dificuldades. Aí, assim, a Praia da Estação começa e a gente conecta, aí começa outro movimento e a gente conecta, começa o Quartel Eletrônico e já conecta... Acaba que o duelo virou uma faísca pra isso acontecer e as pessoas entrarem mais de cabeça nessa questão de ocupação do espaço público, com essa cultura que é nossa,

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A.R.: Teve um momento de pausa das atividades no viaduto. Qual foi o momento em que vocês chegaram à conclusão dessa necessidade de parar? C.F.R.: Volta e meia a gente discutia muito sobre isso, por uma série de questões. Fomos amadurecendo até chegar no meio desse ano em que achamos por bem mesmo que era o momento de parar e repensar a forma de realizar o duelo no viaduto. Do jeito que tava já não contemplava a proposta e a essência do duelo, que era realizar uma atividade de cultura do hip hop, criar um ambiente para as pessoas conviverem e ser algo que tivesse um compartilhamento mais amplo e um entendimento da proposta do duelo. Aí a gente demorou muito assim, trabalhamos uma série de coisas, tentamos ir por vários caminhos antes de parar e, quando paramos, era porque não adiantava fazer mais nada naquele momento. Uma mudança de um paradigma nesse sentido ia ser algo de muito longo prazo, que a gente sozinho não ia dar conta naquele momento, até porque estávamos muito estafados mesmo daquilo que vinha acontecendo. Então decidimos repensar e a saída foi essa, de fazer no final de semana a cada quinze dias, de dia no calor do sol e ver como a coisa se dá nesse sentido. A.R.: Nessa fase vocês chegaram a ter conversas com a prefeitura? C.F.R.: No início, em 2008, já tinha o diálogo com o poder público, não só a prefeitura, mas com todas as instâncias possíveis que pudessem passar

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principalmente as culturas juvenis. Então a gente entra nesse ciclo de discussão e tamo aí até hoje.

pela cabeça. Da prefeitura à SLU, Polícia Militar e comissão de segurança pública de eventos culturais da cidade, a gente sempre abriu a questão pro diálogo, mas o poder público é extremamente desarticulado. Chegamos num momento em que decidimos fazer do nosso jeito e do jeito que achávamos que era possível até quando tivermos força para nos reinventar. O duelo acontecia no espaço urbano, e pra muita gente não acontecia nada de errado, mas como pessoas que vivenciam a cultura do hip hop, já não nos sentíamos bem fazendo o duelo daquela forma. Principalmente pelo número muito grande de crianças e adolescentes se destruindo ali por causa de drogas. A principal questão que fortaleceu essa desarticulação do duelo de ir perdendo a força foi a negligência do poder público, algo óbvio para nós. Procuramos uma forma de construir um diálogo e atuação desse poder muito confortável para todo mundo, inclusive para eles, o tempo inteiro partindo do ponto de vista humano mesmo. Pensar algo que fosse construído junto, com a plateia, nós e o poder público, que somasse forças para criar um ambiente seguro no sentido de dar direito a ocupar, não ter repressão policial, não ter desrespeito com o outro. Pode parecer utópico, mas foi o que propusemos o tempo inteiro. O poder público na maior parte das vezes não entendeu, ou não quis e não fez esforço para entender e o público também não. A.R.: Nesse recomeço, vocês fizeram uma reformulação do próprio formato do espaço. Qual é o novo formato e como vocês chegaram a ele? C.F.R.: A mudança, na verdade, foi do dia e horário: domingo à tarde. E foi


muito a partir de algumas experiências que tivemos com outros projetos em outros momentos, por exemplo, o duelo nacional de MC’s do ano passado e desse ano, e o “Allstyles”, que fizemos no início desse ano, foram domingo à tarde. Foi o momento em que vimos que o clima era outro. Na sexta feira, o duelo de MC’s, pela periodicidade, pelo tempo que já acontecia, virou ponto de encontro, mais do que o próprio duelo. As pessoas falavam: “ah, vão encontrar lá no rap, vamo chapar, vamo pirar e depois a gente dá outro rolê” ou ficavam ali pirando e não iam para ver o duelo. As vezes que fizemos no domingo à tarde, vimos que foi mais suave. E essa escolha - mais do que uma escolha, na verdade - essa aposta foi muito em cima disso, porque a gente está ciente que, com o tempo, e o duelo acontecendo sempre, nós corremos o risco de voltar a ter alguns quadros ali. Mas, com esse tempo que a gente ficou parado, nós também estamos com o espírito mais renovado e mais preparados para encarar e lidar com isso. Então foi algo a partir da nossa vivência e a partir do que a gente acredita. Domingo à tarde não é a mesma ideia de uma sexta feira à noite, à meianoite e “dali eu emendo”. A.R.: E vocês continuam pensando em novos projetos?

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C.F.R.: O tempo inteiro (risos). Porque fora a realização do duelo e do game, que são as nossas bases, que fazemos independenteFoto: Paula Huven


A.R.: Qual é o legado que vocês estão deixando para a cidade? C.F.R.: Acho que o maior legado é esse, da gente ir criando essas redes e fortalecendo o que tem sido feito aqui. Belo

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mente, sem grana, tem outro fator, que é hoje a gente viver disso. Então tem esses dois campos: um porque a gente é criativo, já que vagabundo é criativo mesmo (risos), e outro porque a gente tem que gerar esse circuito de projetos pra gente sobreviver. Porque a partir de um determinado momento, a gente já não conseguia fazer mais nada da vida, porque as demandas eram tantas que a gente teve que fazer isso virar um trampo. A gente tá morando aqui não é à toa, aqui é tipo um escritório, então, o tempo inteiro estamos nessa atividade pra coisa desenvolver.

Horizonte, hoje, é a maior referência no que diz respeito a realizar o encontro de hip hop na rua de forma independente e elevou muito o nível de produção de MC’s, principalmente os que batalham. A cidade ganhou um pouco do olhar que antes era mais de São Paulo e do Rio de Janeiro, não só por causa da ocupação e da resistência política, que são importantes, mas, sobretudo, por causa da produção mesmo, do número de MC’s que foram revelados no palco do duelo e que têm se mantido com uma frequência legal, com um nível muito alto de qualidade do trabalho artístico dessa molecada mesmo, de um entendimento do que significa ser um MC do hip hop, o cara que tem essa responsabilidade através da palavra, de levar essa mensagem... Eu acho que, nesse sentido, o trabalho tem sido muito bem feito.

Foto: Paula Huven


AGENDA C musica Show do grupo SOJA

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DATA: de dezembro de 2013 LOCAL: Chevrolet Hall - Av. Nossa Senhora do Carmo, 230 - Sao Pedro - Belo Horizonte PRECO DO INGRESSO: a R$ 160 (inteira) e R$ 80 (meia) Vem à BH a banda americana de reggae SOJA, que traz seus hits True Love, Everything Changes e Not Done Yet. Os ingressos podem ser adquiridos na bilheteria do Chevrolet Hall e no site Tickets For Fun.

Jazz Festival Brasil Christmas Concert

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DATA: a de dezembro de 2013 LOCAL: Teatro Bradesco - Rua da Bahia, 2244 - Bairro Lourdes Belo Horizonte PRECO DO INGRESSO: R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia-entrada). O evento integra a 14º edição do Jazz Festival Brasil e, pela primeira vez em Belo Horizonte, o festival contará com um tributo aos temas natalinos, com um setlist das principais músicas que Louis Armstrong compôs para a Disney, interpretado pela The Satchmo Jazz Band, além de outros importantes artistas da cena. Ingressos na bilheteria do Teatro Bradesco, de segunda a sábado, das 12h às 20h; domingo, das 12h às 19h; e no site da Ingresso Rápido.

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CULTURAL Beatle Week

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DATA: de dezembro de 2013 LOCAL: Cine Theatro Brasil Vallourec - Rua dos Carijós, 258, Centro Circus Rock Bar - Rua Goncalves Dias, 2010, Lourdes Jack Rock Bar - Av. Contorno, 5623, Funcionários Lord Pub - Rua Vicosa, 263 - Sao Pedro Rutger Motors Music Bar - Av. Otacílio Negrao de Lima, 5111, Pampulha Status Café Cultura e Arte - Rua Pernambuco, 1150, Savassi PRECO DO INGRESSO: de R$ 40,00 a R$ 120,00 (consultar) A segunda edição da Beatle Week, festival que transformou BH na “capital beatlemaníaca” do Brasil. O evento traz 5 dias dedicados às músicas dos Beatles com diversos shows e um total de 25 bandas covers locais, nacionais e internacionais. Dentre as grandes atrações internacionais deste ano está o músico inglês Gary Gibson, considerado o maior cover de John Lennon do mundo e um dos destaques da Beatle Week na Inglaterra. Os ingressos estão à venda na bilheteria do Cine Theatro Brasil Vallourec.

LITERATURA Tarde Literária Fino Traco Editora

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DATA: de dezembro de 2013 LOCAL: Espaco CentoeQuatro - Praca Ruy Barbosa, 104 - Centro Belo Horizonte PRECO DO INGRESSO: Entrada franca. A Fino Traço, importante editora de Belo Horizonte, promove o lançamento de publicações infanto-juvenil com 16 novos livros e destaca a participação das mulheres na literatura infantil, pois os livros foram escritos ou coescritos por autoras. A tarde e a noite de autógrafos acontecem com a presença de escritores e ilustradores, contação de histórias com Beatriz Myrrha e o pocket show “Na Trilha da Música” com a autora Cecília Cavalieri França.


arte BAU {Bazar de Arte e Utilidades}

08, 15 e 22

DATA: de deze mbro de 2013 LOCAL: EspaCo CentoeQuatro - PraCa Ruy Barbosa, 104 - Centro Belo Horizonte PRECO DO INGRESSO: R$ 6 (inteira) R$ 3 (meia) O BAU {bazar de arte e utilidades} é um bazar de negócios criativos e autônomos que acontece um domingo por mês no CentoeQuatro. No entanto, no mês de dezembro, devido ao Natal, haverá 3 edições do evento. O público poderá encontrar pequenos lojistas, artesãos e artistas independentes como designers, ilustradores, crafters, artistas plásticos, estilistas entre outros. Com Dj Naroca e Sandri.

24 Feira Nacional de Artesanato

DATA: 03 a 08 de dezembro de 2013 LOCAL: Expominas - Avenida Amazonas, 6030 - Bairro Gameleira Belo Horizonte PRECO DO INGRESSO: R$ 10,00 de quarta a domingo A Feira Nacional de Artesanato é um evento tradicional em Belo Horizonte. Além do crescente número de expositores, conta também com agenda de shows de música regional, como chorinho, cirandeiros e o grupo Meninos de Minas.

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Quem fez ~

~ Diagramacao Alessandra Giovanna - Beatriz Lobato - Enise Silva Marina Novais - Lucas Morais

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~ Edicao Flávia Ruas - Jéssica Saliba - Lívia Araújo - Nicole Lima

Fotografia Ana França Alvarenga - Ana Letícia Café - Davidson Leite Jéssica Malta - Paloma Arantes - Rodrigo Carvalho Thaís Leocádio

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~ Producao Carolina Resende - Isabela Fernanda Leite - Laura Maia Leonardo Melgaço - Marcella Ximenes - Marina Mudado Stella Nardy - Vivian Andrade

Reportagem Aline Azevedo - Ângelo Franco - Ana Carolina Marques Bremmer Guimarães - Dafne Braga - Ivanir Ignacchitti Jonathas Cotrim - Julia Ester - Karine Silva Kelly Cardoso - Levy Alves - Lucas Bastos Rocha Maria Dulce Miranda - Millenne Ferrante Rafael Cerqueira - Vitória Barros


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