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Copyrigth 2012 by To d o s o s d i re i t o s re s e r v a d o s

Marina Moraes Lobão à Editora Companhia das Letras Ltda., rua Cosme Velho, 103 CEP: 22241-090 – Rio de Janeiro – RJ www.companhiadasletras.com.br

Organização C o l a b o r a d o re s

Marina Moraes Lobão Augusto Gomes Júlia Dias Carneiro Myriam Fraga Arnaldo Nogueira Jr.

Revisão

Sonia Peçanha Rodrigo Rosa de Azevedo

Fotografias

Zélia Gattai CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ. G393c Lobão, Marina M. Jorge Amado / Marina M. Lobão Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2012 84p.: 31 cm 1. Jorge Amado. 2. Biografia 1. Título

ISBN

978-85-7302-892-8

CDD

686.2252

CDU

821.111(73)–3


Nesta vida o que vale é o amor. O resto é tudo pinoia…

J orge A mado


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Jorge Amado, por Graciliano Ramos

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Biografia

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Suas Obras


Jorge Amado, por Graciliano Ramos


O ro m a n c e d e Jorge Amado

Há uma literatura antipática e insincera que só usa expressões corretas, só se ocupa de coisas agradáveis, não se molha em dias de inverno e por isso ignora que há pessoas que não podem comprar capas de borracha. Quando a chuva aparece, essa literatura fica bem aquecida, com as portas fechadas. E se é obrigada a sair, enrola o pescoço e levanta os olhos, para não ver a lama nos sapatos. Acha que tudo está direito, que o Brasil é um mundo e que somos felizes. Está claro que ela não sabe em que consiste essa felicidade, mas contenta-se com afirmações e ufanase do seu país. Foi ela que, em horas de amargura, receitou o sorriso como excelente remédio para a crise. Meteu a caneta nas mãos de poetas da Academia e compôs hinos patrióticos; brigou com os estrangeiros que disseram cobras e lagartos desta região abençoada; inspirou a estadistas discursos cheios de inflamações, e antigamente redigiu odes bastante ordinárias: tentou, na Revolução de 30, pagar a dívida externa com donativos de alfinetes para gravatas, botões, broches e moedas de prata. Essa literatura é exercida por cidadãos gordos, banqueiros, acionistas, comerciantes, proprietários, indivíduos que não acham que os outros tenham motivo para estar descontentes. — Vai tudo muito bem — exclamam, como papagaio do naufrágio.

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Ora, não é verdade que tudo vá assim tão bem. Umas coisas vão admiravelmente, porque há literatos com ordenados razoáveis; outras vão mal, porque os vagabundos que dormem nos bancos dos passeios não são literatos nem capitalistas. Nos algodoais e nos canaviais no Nordeste, nas plantações de cacau e de café, nas cidadezinhas decadentes do interior, nas fábricas, nas casas de cômodos, nos prostíbulos, há milhões de criaturas que andam aperreadas. Os Srs. Jorge de Lima e Henrique Pongetti pensam de outra forma: o primeiro gosta de lama do sururu e da maleita; o segundo afirma que um agricultor se deita na rede, joga um punhado de sementes por cima da varanda e tem safra. Mas o Sr. Jorge de Lima nunca apanhou sururu e conhece remédio para a maleita, que é médico. E o Sr. Pongetti, se arrastasse a enxada no eito, de sol a sol, saberia que aquilo pesa e a terra é dura. Dizer que nossa gente não tem vontade de trabalhar é brincadeira. Apesar dos vermes, da sífilis, da cachaça, da seca e de outros males, ela trabalha desesperadamente e vive, comendo da banca podre, está claro. É natural que a literatura nova que por aí andam construindo se ocupe com ela. Sempre vale mais que descrever os lares felizes, que não existem, ou contar histórias

sem pé na nem cabeça, coisas bonitas, arrumadas em conformidade com as regras, como há tempo, quando um sujeito, sem nunca sair do Rio de Janeiro, imitava a algaravia de Lisboa e procurava assunto para obra de ficção do Egito e da Índia. Os escritores atuais foram estudar o subúrbio, a fábrica, o engenho, a prisão da roça, o colégio do professor cambembe. Para isso resignaram-se a abandonar o asfalto e o café, viram de perto muita porcaria, tiveram a coragem de falar errado, como toda gente, sem dicionário, sem gramática, sem manual de retórica. Ouviram gritos, pragas, palavrões e meteram tudo nos livros que escreveram. Podiam ter mudado os gritos em suspiros, as pragas em orações. Podiam, mas acharam melhor pôr os pontos nos ii. O Sr. Jorge Amado é um desses escritores inimigos da convenção e da metáfora, desabusados, observadores atentos. Conheceu, há alguns anos , um casarão de três andares na Ladeira do Pelourinho, Bahia, e resolveu apresentar-nos os hóspedes que lá encontrou – vagabundos, ladrões, meretrizes, operários, crianças viciadas, agitadores, seres que se injuriam em diversas línguas: árabes, judeus, italianos, espanhóis, pretos, retirantes do Ceará, etc. Até bichos. Essa fauna heterogênea não se 13 | Jorge Amado


mostra por atacado na obra do romancista baiano: forma uma cadeia que principia no violinista que percorreu a França, a Alemanha, outros países, e acaba no rato que dorme junto à esteira de um mendigo. O que liga os anéis da cadeia não é o trabalho, como o título do livro. Suor, poderia fazer-nos supor: é a miséria, a miséria completa, nojenta, esmolambada, sem nenhuma espécie de amparo. Todos habitantes do prédio vivem na indigência ou aproximam-se dela. Sente-se, de fato, no livro o cheiro de suor, pois logo no começo surgem à porta alguns trabalhadores do cais do porto. Esses trabalhadores, porém, à exceção do preto Henrique, mexem-se pouco. Sentimos bem é um fedor de muitas coisas misturadas: lama, pus, cachaça, urina, roupa suja, sêmen — uma grande imundície apanhada com minudências excessivas. O autor examinou de lápis na mão a casa de cômodos e muniu-se de anotações, tantas que reproduziu, com todos os erros, uma carta em que se agencia dinheiro para igreja, uma notícia de jornal, um recibo e um desses escritos extravagantes que as pessoas supersticiosas copiam, com receio de que lhes chegue desastre, e remetem a dez indivíduos das suas relações. Esse Jorge Amado | 14

amor à verdade, às vezes prejudicial a um romancista, pois pode fazer - nos crer que lhe falta imaginação, dá a certas páginas de Suor um ar de reportagem. A impressão esmorece logo: algumas linhas adiante vemos a cena admirável em que os personagens saem do papel, movem-se naturalmente, falam, sobretudo falam. O Sr. Jorge Amado arranjou diálogos excelentes. “Sim. Eu sou professor. E no meu cargo...” O caráter de um tipo esboçado em oito palavras. O livro do Sr. Jorge Amado não é propriamente um romance, pelo menos romance como os que estamos habituados a ler. É uma série de pequenos quadros tendentes a mostrar o ódio que os ricos inspiram aos moradores da hospedaria. Essas criaturas passam rapidamente, mas vinte delas ficam gravadas na memória do leitor. Discutem, fuxicam, brigam, fazem confidências e dão “rendezvous” no corrimão perigoso da escada. As expressões que atiram à classe média são ferozes. Uma prostituta fala de um coronel: “Sujo. Que monturo de homem.” Tudo natural quando os pobres se manifestam em palavrões de gíria, quase


sempre uma linguagem obscena em excesso, nada literária, está visto, mas que tem curso na Ladeira do Pelourinho e até em lugares de boa reputação. O autor falha, porém, nos pontos em que a revolta da sua gente deixa de ser instintiva e adota as fórmulas inculcadas pelos agitadores. As figuras de Álvaro Lima, do anarquista espanhol, do comunista judeu, não têm relevo, apesar de serem as mais trabalhadas. Quando elas aparecem, o livro torna-se quase campanudo, por causa das explicações, das definições, que dão aos três personagens um ar pedagógico e contrafeito. O preto Henrique, as moças do terceiro andar, o mendigo, os fregueses da bodega do Fernández, as meretrizes, exprimem-se ingenuamente. Chega um desses homens, traduz a fala em linguagem política, de cartaz – e sentimos um pouco mais ou menos o que experimentamos quando vemos letras explicativas por baixo de desenhos traçados a carvão nas paredes. Não nos parece que o autor, revolucionário, precisasse fazer mais que exibir a miséria e o descontentamento dos hóspedes do casarão. A obra não seria menos boa por isso. O Sr. Jorge Amado tem dito várias vezes que o romance moderno vai suprimir o

personagem, matar o indivíduo. O que interessa é o grupo — uma classe inteira, um colégio, uma fábrica, um engenho de açúcar. Se isso fosse verdade, os romancistas ficariam em grande atrapalhação. Toda análise introspectiva desapareceria. A obra ganharia em superfície, perderia em profundidade. Ora, em Suor há personagens, personagens pouco numerosos. Não percebemos ali o movimento das massas. Na casa do Pelourinho vivem seiscentos moradores, mas apenas travamos relações com alguns deles. Dão-se a conhecer em palestras animadas e os casos íntimos tomam grande importância. Às vezes as pessoas aparecem isoladas, uma tocando violino e chorando glórias perdidas, outra pensando em uma aldeia da Polônia. O sapateiro espanhol apresenta-se conversando com um gato, o homem dos braços cortados é amigo de uma cobra, o mendigo Cabaça entende-se com um rato. Sinal de misantropia. Em uma passagem, garotos, soldados, estudantes, martirizam Ricardo Bitencourt Viana, ótimo sujeito, que auxilia as viúvas e oferece bonecas às crianças. Depois de gritos, protestos, ameaças inúteis com o guarda-chuva quebrado, o homem fecha-se no quarto e vai arrumar ninharias na mala, só, feliz, esquecido da cambada que o 15 | Jorge Amado


atormentava. O autor sente necessidade de meter em casa os seus personagens: não se dão bem na rua. O que mais ressalta no livro são os caracteres individuais. Certas figuras estão admiravelmente lançadas, mas, quando entram na multidão, tornam-se inexpressivas. O que sentimos é a vida de cada um; desgraças miúdas, vícios, doenças, manias. O Sr. Jorge Amado embirra com os heróis. Acha, por isso, que, em Suor o personagem principal é o prédio. História. Não é muito difícil emprestar qualidade humanas a um gato, a uma cobra, a um rato. Já houve quem humanizasse até formigas. Com o imóvel a coisa é diferente. Dizer que ele “vive da vida dos que nele habitam” é jogo de palavras. Em Suor há personagens de carne e osso muito mais importante que os outros: é Jorge Amado, que morou na Ladeira do Pelourinho, 68 e lá conheceu Maria Cabassu e todos aqueles seres estragados que lhe forneceram material para um excelente romance.

G raciliano R amos 17 de fevereiro de 1935

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Biografia

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*

N asce

1912

Jorge

Amado

Jorge Amado aos 2 anos

Filho de João Amado de Faria e de D. Eulália Leal, Jorge Amado de Faria nasceu no dia 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, em Ferradas, distrito de Itabuna - Bahia. O casal teve mais três filhos: Jofre (1915), Joelson (1920) e James (1922). Com apenas dez meses, vê seu pai ser ferido numa tocaia dentro de sua própria fazenda. No ano seguinte uma epidemia de varíola obriga a família a deixar a fazenda e se estabelecer em Ilhéus. Em 1917 a família muda-se para a Fazenda Taranga, em Itajuípe, onde seu pai volta à lida na lavoura de cacau. Em 1918, já alfabetizado por sua mãe, Jorge retorna a Ilhéus e pa ssa a freqüentar a escola de D. Guilhermina, professora que não hesitava usar a palmatória e impor outros castigos a seus alunos.

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Joรฃo Amado e Eulรกlia Amado com os filhos Joelson, James e Jorge, em 1924.

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… 1922

A

caminho da literatura

Alunos do colégio Antônio Vieira, em 1923. Jorge está na segunda fila, de baixo para cima, ao centro.

No ano de 1922 cria um jornalzinho, “A Luneta”, que é distribuído para vizinhos e parentes. Nessa época vai estudar em Salvador, em regime de internato, no Colégio Antonio Vieira, de padres jesuítas. A bela redação que apresentou ao padre Luiz Gonzaga Cabral, com o título de “O Mar”, lhe rende elogios e faz com que o religioso passe a lhe emprestar livros de autores portugueses e de outras partes do mundo. Dois anos depois, seu pai vai levá-lo até o colégio após as férias. Despedem-se e Jorge, ao invés de entrar nele, foge. Viaja por dois meses até chegar à casa de seu avô paterno, José Amado, em Itaporanga, no Sergipe. A pedido de seu pai, seu tio Álvaro o leva de volta para a fazenda em Itajuípe.  É matriculado no Ginásio Ipiranga, novamente como interno. Conhece Adonias Filho e dirige o jornal do grêmio da escola, “A Pátria. Jorge Amado | 22


Jorge e os companheiros da Academia dos Rebeldes

Pouco tempo depois funda “A Folha”, que fazia oposição ao primeiro. No ano de 1927, passa para o regime de externato e vai morar num casarão no Pelourinho. Emprega-se como repórter policial no “Diário da Bahia”. Pouco depois vai para o jornal “O Imparcial”. Uma poesia de sua autoria, “Poema ou prosa”, é publicada na revista “A Luva”. Conhece o pai-de-santo Procópio, que o nomeará ogã (protetor), o primeiro de seus muitos títulos no candomblé. Reúnem-se em torno do experimentado jornalista e poeta Pinheiro da Veiga os integrantes da Academia dos Rebeldes, grupo literário do qual, além de Jorge, faziam parte Clóvis Amorim, Guilherme Dias Gomes, João Cordeiro, Alves Ribeiro, Edison Carneiro, Aydano do Couto Ferraz, Emanuel Assemany, Sosígenes Costa e Walter da Silveira. A Academia fazia oposição ao grupo Arco & Flexa e pregava, no dizer de Jorge Amado, “uma arte moderna sem ser modernista”.

Os trabalhos de seus integrantes são publicados nas revistas “Meridiano” e “O Momento”, ambas fundadas por eles. Em 1929, começa a trabalhar em “O Jornal” onde publica, sob o pseudônimo de Y. Karl, a novela “Lenita”, escrita em parceria com Dias da Costa e Edison Carneiro, que assinavam como Glauter Duval e Juan Pablo. Em 1930 transfere-se para o Rio de Janeiro para estudar. Conhece Vinicius de Moraes, Otávio de Faria e outros nomes importantes da literatura. “Lenita” é editada em livro por A. Coelho Branco Filho, do Rio de Janeiro. Aprovado, entre os primeiros colocados, na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, em 1931, Jorge vê publicado pela Editora Schmidt seu primeiro romance, “O país do carnaval”, com prefácio de Augusto Frederico Schmidt e tiragem de mil exemplares. O livro recebe elogios dos críticos e torna-se um sucesso de público. 23 | Jorge Amado


… 1932

De

frente para o mundo

No ano de 1932, muda-se para um apartamento em Ipanema com o poeta Raul Bopp. Conhece José Américo de Almeida, Amando Fontes, Rachel de Queiroz (através de quem se aproxima dos comunistas) e Gilberto Freyre. Sai a segunda edição de “O país do carnaval”, desta vez com tiragem de dois mil exemplares. Aconselhado por Otávio de Faria e Gastão Cruls, desiste de publicar o romance “Rui Barbosa nº. 2”; para eles, o livro não passava de uma cópia de “O país do carnaval”. Viaja para Pirangi, na Bahia; impressionado com a vida dos trabalhadores da região, começa a escrever “Cacau”. A Ariel Editora, do Rio, em 1933, publica “Cacau”, com tiragem de dois mil exemplares e capa e ilustrações de Santa Rosa. O livro esgota-se em um mês; a segunda edição sai com três mil exemplares. Entre a primeira e a segunda edição de Cacau, Jorge tem acesso, através de José Américo Jorge Amado | 24


de Almeida, aos originais de “Caetés”, romance de Graciliano Ramos. Empolgado com o talento do escritor alagoano, viaja para Maceió só para conhecê-lo, iniciando uma amizade que duraria até a morte de Graciliano. Conhece também José Lins do Rego, Aurélio Buarque de Holanda e Jorge de Lima. Torna-se redator-chefe da revista “Rio Magazine”. Casa-se em dezembro, em Estância, Sergipe, com Matilde Garcia Rosa. Juntos, eles lançam, pela Schmidt, o livro infantil Descoberta do mundo. Em 1934, publica — também pela Ariel — o romance “Suor”. Trabalha na Livraria José Olympio Editora, do Rio de janeiro, primeiro escrevendo releases e depois na parte editorial propriamente dita; tendo influenciado na publicação de “O conde e o passarinho”, primeiro livro de Rubem Braga, e no lançamento de autores latino-americanos como o uruguaio Enrique Amorim, o equatoriano Jorge Icaza, o peruano Ciro

Alegría e o venezuelano Rómulo Gallegos (de quem traduziu o romance “Dona Bárbara”). Nasce sua filha Eulália Dalila Amado, em 1935. Escreve em “A Manhã”, jornal da Aliança Nacional Libertadora, pelo qual cobre a viagem do presidente Getúlio Vargas ao Uruguai e à Argentina. “Cacau” é publicado pela Editorial Claridad, de Buenos Aires. Neste mesmo ano “Cacau” e “Suor” seriam lançados em Moscou. Conclui o curso de Direito. Lança “Jubiabá” pela José Olympio Editora. Sofre sua primeira prisão em 1936, por motivos políticos: acusado de participar do levante ocorrido em novembro do ano anterior em Natal — chamado de “Intentona Comunista” — é detido no Rio. Publica “Mar morto”, que recebe o Prêmio Graça Aranha, da Academia Brasileira de Letras. No ano seguinte faz papel de pescador no filme “Itapuã”, de Ruy Santos, no 25 | Jorge Amado


qual também colabora com o argumento. Viaja pela América Latina e depois vai aos Estados Unidos. Enquanto está fora, sai no Brasil “Capitães da areia”. Quando chega a Belém, vindo do exterior, é avisado pelo escritor paraense Dalcídio Jurandir do golpe de Vargas. Foge para Manaus, mas lá é preso. Seus livros, considerados subversivos, são queimados em plena Salvador por determinação da Sexta Região Militar. Segundo as atas militares, foram queimados 1.694 exemplares de “O país do carnaval”, “Cacau”, “Suor”, “Jubiabá”, “Mar morto” e “Capitães da areia”. Liberto, em 1938, o escritor é mandado para o Rio. Muda-se para São Paulo, onde reside com Rubem Braga. Depois vai para a Bahia e em seguida, Sergipe; aqui imprime uma pequena edição do livro de poemas “A estrada do mar”, que distribui para os amigos. Estréia em dois consagrados idiomas literários do Ocidente: Jorge Amado | 26

“Suor “ sai em inglês pela pequena New America, de Nova York, e “Jubiabá” em francês pela prestigiosa Gallimard. Retorna ao Rio no ano de 1939. Exerce intensa atividade política, em decorrência das torturas de presos e a desarticulação do Partido Comunista. Torna-se redator-chefe das revistas Dom Casmurro e Diretrizes. Inicia colaboração com a revista Vamos ler; que manterá até 1941. Compõe, com Dorival Caymmi e Carlos Lacerda, a serenata “Beijos pela noite”. O escritor franco-argelino Albert Camus, futuro Nobel de Literatura (1957), escreve artigo no jornal Alger Républicain classificando “Jubiabá” de “magnífico e assombroso”. Diretrizes publica o primeiro capítulo de “ABC de Castro Alves”, em 1940, e edita também, em forma de folhetim, a novela “Brandão entre o mar e o amor”, iniciada por Jorge Amado e continuada por José Lins do Rego,


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Enquanto realizava o sonho do pai, ter um filho advogado, Jorge busca seu próprio sonho: escrever um romance.

Graciliano Ramos, Aníbal Machado e Rachel de Queiroz. Trabalha no jornal Meio-Dia. Decide escrever, em 1941, um livro sobre Luís Carlos Prestes, pensando numa possível campanha por sua anistia. Viaja para o Uruguai a fim de recolher material; também faz pesquisas sobre o tema na Argentina. Lança “ABC de Castro Alves”, pela Livraria Martins Editora, de São Paulo.

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… 1942

I deais P olíticos

Zélia Gattai e Jorge Amado

Publica em Buenos Aires “A vida de Luís Carlos Prestes”, em 1942. Embora editado em espanhol, o livro é vendido clandestinamente no Brasil. Volta ao país, mas é preso ao desembarcar em Porto Alegre. De lá é enviado para o Rio. Não permanece, porém, na então capital federal: a polícia decide despachá-lo para Salvador, onde fica confinado. Em 1943 volta às páginas de O Imparcial assinando a seção “Hora da guerra” e escrevendo pequenas histórias na coluna “José, o ingênuo”, que reveza com o Wilson Lins. “Terras do sem fim” é publicado e torna-se seu primeiro livro a ser vendido livremente após seis anos de censura. Em 1944, a pedido de Bibi Ferreira escreve a peça “O amor de Castro Alves”, mas a companhia teatral da atriz é desfeita antes da encenação. Lança “São Jorge dos Ilhéus”. Desquita-se de Matilde. Jorge Amado | 30


Bancada comunista na Câmara dos Deputados. Jorge está em primeiro plano, à esquerda.

Participa, em janeiro de 1945, na condição de chefe da delegação baiana, do I Congresso de Escritores, em São Paulo. O encontro termina com uma manifestação contra o Estado Novo. Jorge é preso por um breve período juntamente com Caio Prado Jr. O Barão de Itararé apresenta o romancista a Zélia Gattai na Boate Bambu, durante jantar em homenagem aos participantes do Congresso de Escritores. Passa a viver em São Paulo, onde chefia a redação do jornal Hoje, do Partido Comunista Brasileiro. Escreve também na Folha da Manhã. Torna-se secretário do Instituto Cultural Brasil-URSS, cujo diretor era Monteiro Lobato. Sai no Brasil “A vida de Luís Carlos Prestes”, rebatizado de “O cavaleiro da esperança”. Em julho, passa a viver com Zélia. No mesmo mês participa, ao lado do poeta chileno Pablo Neruda (que em 1971 ganharia o Nobel de Literatura), do comício de Luís Carlos Prestes no Estádio

do Pacaembu, em São Paulo. Lança “Bahia de Todos os Santos”. É eleito, com 15.315 votos, deputado federal pelo PCB. Publica o conto “História de carnaval” na revista O Cruzeiro. “Terras do sem fim” sai pela respeitada editora A. Knopf, de Nova York. No ano seguinte assume o mandato na Assembléia Constituinte e passa a residir no Rio de Janeiro. Várias de suas emendas, como a da liberdade de culto religioso e a que dispõe sobre direitos autorais, são aprovadas. Lança “Seara vermelha”, pela Martins e, pela Edições Horizonte, do Rio de Janeiro, “Homens e coisas do Partido Comunista”. Entusiasmado com a leitura de “Jubiabá”, chega à Bahia o fotógrafo e etnólogo francês Pierre Verger, que acabaria se radicando em Salvador e se tornando um dos amigos mais íntimos de Jorge Amado. Publica, em 1947, pela Editora do Povo, do Rio de Janeiro, “O amor de Castro Alves”. 31 | Jorge Amado


É um ano de vários acontecimentos na área do cinema para o escritor: a Atlântida compra os direitos de “Terras do sem fim”; ele escreve os diálogos do filme “O cavalo número 13”, uma produção de Fernando de Barros e ainda o argumento de “Estrela da manhã”, que seria dirigido por Mário Peixoto, encarregado também do roteiro. Nasce, no Rio de Janeiro, o filho João Jorge. Com o cancelamento, em janeiro de 1948, do registro do Partido Comunista, o mandato de Jorge Amado é cassado. Sem assento na Câmara Federal e tendo seus livros considerados como “material subversivo”, o escritor parte sozinho em exílio voluntário para Paris. Em fevereiro, sua casa no Rio é invadida por agentes federais, que apreendem livros, fotos e documentos. Logo após o episódio, Zélia e o filho partem para Gênova, Itália, onde Jorge os apanha, levando-os a residir com ele em Paris. É nesta ocasião que o escritor Jorge Amado | 32

trava amizade com Jean-Paul Sartre, Picasso e outros expoentes da literatura e da arte mundial. Na Polônia, participa do Congresso Mundial de Escritores e Artistas pela Paz. Com o título de “Terras violentas”, estréia no Rio a adaptação da Atlântida do romance “Terras do sem fim”. Para comemorar o primeiro aniversário do filho, escreve a história “O gato Malhado e a andorinha Sinhá”. Viaja pela Europa e União Soviética. Em 1949, dirigindo-se para a Tchecoslováquia, onde participaria de um congresso de escritores, sofre um acidente de avião na cidade de Frankfurt, Alemanha; escapa ileso. Morre no Rio, “de repente”, conforme conta o escritor, sua filha Eulália. Por motivos políticos, em 1950, o governo francês expulsa Jorge Amado e sua família do país. O escritor, Zélia e João Jorge passam a residir em Dobris, Tchecoslováquia, no castelo da União dos Escritores. Realiza


Jorge, Zélia e João Jorge na Tchecoslováquia.

Jorge e a filha Paloma,1951.

viagens políticas pela Europa Central e União Soviética. Escreve “O mundo da paz”, livro sobre os países socialistas. No ano seguinte escreve o romance tripartido “Os subterrâneos da liberdade” (Os ásperos tempos, Agonia da noite e A luz no túnel). Sai no Brasil, pela Editorial Vitória, do Rio, o livro “O mundo da paz” pelo qual Jorge Amado seria processado e enquadrado na lei de segurança. Nasce em Praga sua filha Paloma. Recebe, em Moscou, o Prêmio Internacional Stalin.

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Jorge Amado com jovens escritores tchecoslovacos. Castelo de Dobris, 1951.

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… 1952

A

política pela fé

Vai à China e à Mongólia, em 1952. Volta ao Brasil com a família fixando residência no apartamento de seu pai, no Rio de Janeiro. Responde ao processo por “O mundo da paz”. O juiz responsável pelo caso arquiva o processo, dizendo que o livro “é sectário e não subversivo”. Com a aprovação, nos Estados Unidos, da lei anticomunista, o escritor é proibido de entrar naquele país; seus livros também são vetados por lá. Viaja à Europa, Argentina e Chile, em 1953. Na última etapa do giro, é informado sobre a doença de Graciliano Ramos. Volta ao Brasil para rever o amigo, que acabaria morrendo em seguida. Jorge Amado faz então o discurso de despedida à beira do túmulo de Graciliano, a quem substitui na presidência da Associação Brasileira de Escritores. Dirige a coleção “Romances do povo”, da Editorial Vitória; acabará fazendo este trabalho até 1956. Sai a quinta Jorge Amado | 36


Jorge Amado e mãe Menininha do Gantois.

edição de “O mundo da paz”; o escritor proíbe reedições da obra, por acreditar que o livro “trazia uma visão desatualizada da realidade dos países socialistas”. O romance “Os subterrâneos da liberdade” é lançado em três volumes, em 1954. A trilogia provoca uma dura reação dos trotskistas brasileiros, gerando polêmica com o jornalista Hermínio Sacchetta (o “Abelardo Saquilá” do romance). Sai em Portugal, pela Editorial Avante, um folheto de seis páginas assinado por Jorge Amado e Pablo Neruda, cujo objetivo era contribuir para a libertação do líder comunista Álvaro Cunhal e marcar posição contra o salazarismo. De janeiro a março de 1955, permanece em Viena. Em dezembro faz rápida viagem à Bahia. É lançada, pela Ricordi brasileira, em 1956, a partitura de “Não te digo adeus”, com letra de Jorge Amado e música do músico

e maestro amazonense Cláudio Santoro. Assume no Rio a chefia de redação do quinzenário Para-todos, ao lado do irmão James, de Oscar Niemeyer e Moacir Werneck de Castro, dentre outros. Sai do Partido Comunista, segundo explica, “porque queria voltar a escrever”. Jorge Amado diz que sabia desde 1954 das atrocidades de Stalin, denunciadas publicamente neste ano no XX Congresso do PCUS. “Mas na realidade deixei de militar politicamente porque esse engajamento estava me impedindo de ser escritor”, afirma. Viaja ao Oriente ao lado de Zélia, Pablo e Matilde Neruda, em 1957. “Terras do sem fim” é lançado em quadrinhos. Carlo Ponti, cineasta italiano, compra os direitos de “Mar morto”; mas o filme não chega a ser realizado. Conhece a mãe-de-santo Menininha do Gantois, a quem ficaria ligado até a morte dela, ocorrida em agosto de 1986. 37 | Jorge Amado


Cerimônia de Posse na Academia Brasileira de Letras.

Na tranqüilidade de Petrópolis, em 1958, escreve “Gabriela, cravo e canela”. O livro, publicado em agosto, esgota 20 mil exemplares em apenas duas semanas; até dezembro venderia mais de 50 mil exemplares. Sai o disco “Canto de amor à Bahia e quatro acalantos de Gabriela, cravo e canela”, trazendo leituras de Jorge Amado e música de Dorival Caymmi.

Jorge Amado. Funda a Academia de Letras de Ilhéus. Lança na revista Senhor, do Rio de Janeiro, a novela “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua”; a idéia inicial era que este texto, de 98 páginas datilografadas e escrito em dois dias, integrasse o romance “Os pastores da noite”. Naquela mesma publicação sairia o conto “De como o mulato Porciúncula descarregou o seu defunto”.

No ano seguinte, “Gabriela” coleciona prêmios: Machado de Assis, do Instituto Nacional do Livro; Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro e Luiza Cláudio de Souza, do Pen Club, são alguns deles. O romance ultrapassa a casa dos 100 mil exemplares vendidos.

Na condição de vice-presidente da União Brasileira de Escritores, Jorge Amado promove, com o então presidente Peregrino Jr., o Festival do Escritor Brasileiro num shopping center de Copacabana, em 1960. A data do evento, 25 de julho; acabaria sendo consagrada, por decreto governamental, como “Dia do Escritor”. Ciceroneia o casal Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir em sua estada no Brasil.

Recebe em Salvador, do Axé Opô Afonjá, um dos mais altos títulos do candomblé, o de obá orolu (também receberam tal distinção o compositor Dorival Caymmi e o artista plástico Carybé). “Obá, no sentido primitivo, é um dos doze ministros de Xangô”, explica Jorge Amado | 38

Por unanimidade, é eleito, no dia 6 de abril de 1961, em primeiro escrutínio, para a


cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras, que pertencia a Otávio Mangabeira. No mesmo mês estréia na Tv Tupi do Rio de Janeiro a adaptação de “Gabriela” feita por Antônio Bulhões de Carvalho e com direção de Maurício Sherman; no papeltítulo da novela está Janete Vollu de Carvalho e no de Nacib, Renato Consorte. A Metro Goldwin Mayer compra os direitos de adaptação para o cinema de “Gabriela”. Com o dinheiro, Jorge adquire um terreno em Rio Vermelho, então na periferia de Salvador, e começa a construir lá uma casa. Anos depois, o escritor recompraria do estúdio americano os direitos do romance. Ele assegura que não se lembra mais de nenhum dos valores negociados com a Metro. A posse na ABL acontece no dia 17 de julho; lá Jorge Amado é recepcionado por Raimundo Magalhães Jr. Saí “Os velhos marinheiros”, livro que comporta as novelas “A morte e a morte de Quincas Berro Dáguá” Jorge Amado | 40

e “A completa verdade sobre as discutidas aventuras do comandante Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso”. É eleito membro do Conselho da Presidência do Pen Club do Brasil. O presidente Juscelino Kubitschek convida-o para ser embaixador do Brasil na República Árabe Unida; o escritor recusa o convite. Homenagens no Rio, na Bahia e em outros estados por seus 30 anos de atividade literária; sua editora, a Martins, lança um livro alusivo à data. A revista francesa Les Temps Modernes publica a tradução de “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua”.


Casa do Rio Vermelho, com m贸veis desenhados por Lev Smarchevsky


… 1962

A

despedida de um amigo

João e Eulália, pais de Jorge Amado

Seu pai morre no Rio de Janeiro, aos 81 anos de idade, em 1962. Cria a Proa Filmes, companhia de cinema cujo primeiro e único trabalho é a adaptação de “Seara vermelha”, com direção de Alberto D’Avessa e estrelada por Marilda Alves; o filme estrearia no ano seguinte. Saí, pela gráfica O Cruzeiro, o romance policial “O Mistério dos MMM”, escrito por Jorge Amado, Viriato Corrêa, Dinah Silveira de Queiroz, Lúcio Cardoso, Herberto Sales, José Condé, Guimarães Rosa, Antonio Callado, Orígenes Lessa e Rachel de Queiroz. Viagem a Havana, a convite da União dos Escritores Cubanos. “O cavaleiro da esperança” é apreendido pela polícia, em 1963. Instala-se na casa do bairro de Rio Vermelho (à Rua Alagoinhas, 33), onde reside até falecer. Lança “Os pastores da noite”, em 1964. No ano seguinte publica o conto “As mortes e o triunfo de Rosalinda” na antologia “Os Jorge Amado | 42


Amado e o cineasta polonês Polanski.

dez mandamentos”, da editora Civilização Brasileira, do Rio de Janeiro. Graças à intervenção de Guilherme Figueiredo, então adido cultural do Brasil na França, Jorge Amado e sua família recebem autorização para poder entrar de novo naquele país. A Warner Brothers adquire os direitos de filmagem de “A completa verdade sobre as discutidas aventuras do comandante Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso”. Mais de mil pessoas comparecem à primeira sessão de autógrafos de Jorge Amado em Portugal, em 1966, na Sociedade Nacional de Belas Artes. O escritor chega aos mil autógrafos no lançamento de “Dona Flor e seus dois maridos” na livraria Civilização Brasileira, em Salvador. O romance sai com tiragem de 75 mil exemplares. Uma segunda sessão de autógrafos é marcada na capital baiana para atender aos leitores que ficaram de fora da primeira.

A União Brasileira de Escritores, presidida por Peregrino Jr., apresenta em Estocolmo a candidatura formal de Jorge Amado ao Prêmio Nobel de Literatura, em 1967, embora o escritor a recuse. Durante duas horas e meia, Jorge depõe para o arquivo do Museu da Imagem e do Som, na presença de James Amado, do crítico Eduardo Portella e do romancista Antonio Olinto, dentre outros. A UBE insiste em apresentar novamente a candidatura de Jorge Amado ao Nobel, em 1968. O escritor concorda, mas exige que ela seja feita junto com a do romancista português Ferreira de Castro, seu amigo. O cineasta polonês Roman Polanski visita o escritor na Bahia para “agradecer a alegria que seus livros me proporcionaram na juventude”. No ano seguinte lança “Tenda dos milagres” (tiragem de 75 mil exemplares), livro que começou a escrever na casa de campo do

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pintor baiano Genaro de Carvalho. Jorge dizia ter sido este seu melhor romance. Recebe em São Paulo o Prêmio Juca Pato — 1970, da União Brasileira de Escritores, como “Intelectual do Ano”. Lidera, ao lado do escritor gaúcho Érico Veríssimo, um movimento contra a censura prévia aos livros. Estréia o filme “Capitães da areia”, produção americana dirigida por Hall Bartlett. Seu primeiro neto, Bruno, filho de João Jorge e Maria da Luz Celestino nasce em Salvador, em 1971. Divide com Ferreira de Castro o Prêmio Gulbenkian de Ficção, entregue na Academia do Mundo Latino, em Paris. Faz conferência no Instituto de Letras da Universidade da Pensilvânia.

Jorge Amado | 44


Jorge Amado escrevendo “Tenda dos Milagres�.

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… 1972

I nvadindo as telas

Jorge Amado e sua mãe na casa do Rio Vermelho

Sua mãe morre em Salvador, aos 88 anos de idade, em 1972. Nasce Mariana, a primeira neta, filha de Paloma. Sai “Tereza Batista cansada de guerra”. A escola de samba Lins Imperial, do Rio de Janeiro, apresenta o enredo “Bahia de Jorge Amado”. Numa viagem à Europa encontra, em Barcelona, o escritor colombiano Gabriel García Márquez. Nasce Maria João, filha de João Jorge em 1973. Fernando Sabino dirige um documentário sobre Jorge Amado, “Na casa do Rio Vermelho”. Inaugurado em Salvador o Hotel Pelourinho, com registro em placa da época em que o escritor morou naquele local, em 1974. A Martins, que havia pedido concordata no ano anterior, começa a lançar livros de Jorge Amado em co-edição com a Record, do Rio de Janeiro, em 1975. Marcel Camus leva para o cinema o romance Jorge Amado | 46


Jorge Amado e o amigo Carybé

“Os pastores da noite”, que é exibido na França com o título de “Otalia da Bahia”. Este é o ano também da estréia do maior sucesso do escritor na TV: a adaptação do romance “Gabriela, cravo e canela”, com Sônia Braga no papel-título e Armando Bogus interpretando Nacib. Com o fechamento da Livraria Martins Editora, em 1976, Jorge passa a ser autor exclusivo da Record. Nasce a neta Cecília, filha de Paloma. Estréia no cinema “Dona Flor e seus dois maridos”, Após três meses de exibição o filme bate recorde de bilheteria — dez milhões de espectadores. Na Bahia, começa a escrever “Tieta do Agreste”. Participa da Feira Internacional do Livro de Frankfurt; que neste ano é dedicada à literatura latino-americana. A pedido do filho João Jorge e do amigo Carybé, que faz as ilustrações, publica “O gato Malhado e a andorinha Sinhá”.

No ano seguinte, cercado de intensa campanha publicitária, é lançado no Rio o romance “Tieta do Agreste”, que Jorge Amado concluíra em Londres. Também no Rio o autor, participa do ato de inauguração da rua Tieta do Agreste, localizada no Recreio dos Bandeirantes. Recebe o título de sócio benemérito do afoxé Filhos de Gandhi. Estréia “Tenda dos milagres”, filme de Nelson Pereira dos Santos. Interpreta um dos apóstolos de Cristo na cena da “Última Ceia” do filme A Idade da Terra, de Glauber Rocha. A casa onde o escritor viveu em Ferradas é tombada pela Prefeitura de Itabuna. Grava no Rio, para a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, trechos de seus romances “Os pastores da noite” e “Tereza Batista cansada de guerra”. Em 1978, Glauber Rocha realiza documentário abordando a obra de Jorge Amado. O escritor oficializa, no dia 13 de maio, sua união com Zélia Gattai. 47 | Jorge Amado


Sai “Farda fardão camisola de dormir”, em 1979. Estréia na Broadway o musical Saravá baseado em “Dona Flor e seus dois maridos”. Escreve, sob encomenda de um banco, para uma edição especial de fim de ano, o conto “Do recente milagre dos pássaros acontecido em terras de Alagoas, nas ribanceiras do rio São Francisco”. Lança em disco, uma versão do livro “Bahia de Todos os Santos”. Nasce João Jorge Filho, em 1980, outro neto que lhe é dado por João Jorge. A revista Vogue Brasil dedica um número a Jorge Amado, que escreve o texto “O menino grapiúna”, onde conta reminiscências da época em que viveu na região cacaueira. Daí surgiu a idéia de “Tocaia Grande”, que falaria do nascimento e desenvolvimento de uma cidade naquela área. É condecorado como Grande Oficial da Ordem de Santiago da Espada pelo presidente português Ramalho Eanes. Jorge Amado | 48

“O menino grapiúna” é lançado numa edição não-comercial, em 1981. O jornal francês Le Matin publica o conto “Do recente milagre dos pássaros acontecido em terras de Alagoas, nas ribanceiras do rio São Francisco”. “Terras do sem fim” estréia na Tv Globo; na trilha sonora, Jorge Amado assina, com Dorival Caymmi, a música Cantiga de cego. No centenário de Ilhéus, o escritor é homenageado com uma placa e uma escultura de bronze numa rua que leva seu nome; uma outra rua ganha o nome de seu pai. É entrevistado em Salvador pelo escritor peruano Mario Vargas Llosa, que à época apresentava, nas noites de domingo, um programa na TV de seu país.


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R econhecimento 1982 e G lória

O autor passa a ser nome de rua em Itapuã, em 1982. É homenageado no carnaval de Salvador pelo bloco Dengo da Bahia, que apresenta o enredo Bahia de Jorge Amado. Começa a escrever “Bóris, o vermelho”, que, por diferentes motivos, seria seguidamente interrompido e acabou não sendo concluído. Na primeira vez que adiou a redação de “Bóris”, disse que foi “porque a idéia não estava bem amadurecida”. Jorge Amado inicia “Tocaia Grande”. A Caixa Econômica Federal lança seis milhões de bilhetes de loteria com a efígie do escritor. Zélia Gattai publica Um chapéu para viagem, onde conta como conheceu Jorge. Sai a edição comercial de “O menino grapiúna”. Nasce Jorge Amado Neto, filho de João Jorge com sua segunda mulher, Rízia Vaz Coutrim, em 1983. Inaugurado em Ferradas um busto do escritor. Estréia o filme “Gabriela”, co-produção Brasil–Itália dirigida por Bruno Barreto com Sônia Braga Jorge Amado | 50


A inauguração da rua Jorge Amado.

no papel-título e o ator italiano Marcello Mastroianni interpretando Nacib. Em 1984, publica “Tocaia Grande” (com uma anunciada tiragem inicial de 150 mil exemplares). Tenta retomar “Bóris, o vermelho”, mas o deixa de lado para escrever “A guerra dos santos”, título original do romance que se chamaria “O sumiço da santa”. O presidente francês, François Mitterrand, outorga-lhe a comenda da Legião da Honra. Lança “A bola e o goleiro”, uma história infantil. Começa a articular a criação da Fundação Casa de Jorge Amado. Zélia publica Senhora dona do baile, onde fala do primeiro exílio do escritor. Toma posse na Academia de Letras da Bahia (cadeira 21), em 1985. Recebe o título de Grão-Mestre da Ordem do Rio Branco, no grau de Grande Oficial, oferecido pelo governo brasileiro. Participa do Festival de Cinema de Cannes. É homenageado pelo

Centro Georges Pompidou, de Paris, onde se realiza um debate sobre sua obra. Estréia na Rede Globo a minissérie “Tenda dos milagres” (adaptação de Aguinaldo Silva e Regina Braga e direção de Paulo Afonso Grisolli, Maurício Farias e Ignácio Coqueiro; no papel de Pedro Archanjo, Nelson Xavier). Morre, em 1986, aos 73 anos de idade, sua ex-esposa Matilde Mendonça Garcia Rosa. Participa, como presidente do júri, do VIII Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano, em Cuba; na ocasião, é homenageado por Fidel Castro. Decreto assinado pelo presidente José Sarney no dia 2 de julho, data de aniversário de Zélia Gattai, cria a Fundação Casa de Jorge Amado. Lança, pela Berlendis & Vertecchia, de São Paulo, “O capeta Carybé”, sobre o artista plástico argentino, nascido Hector Julio Páride Bernabó, seu amigo desde os anos 50, quando se instalou na Bahia. 51 | Jorge Amado


Inaugurada, no dia 7 de março de 1987, a Fundação Casa de Jorge Amado, que passa a desenvolver intenso trabalho de preservação e divulgação da obra do escritor. Na presidência da entidade está Germano Tabacof e na diretoria executiva, Myriam Fraga. O símbolo da Casa é um exu desenhado por Carybé, que já vinha aparecendo nas edições dos livros de Jorge Amado. Segundo o escritor, exu é um deus dos mais importantes nas religiões fetichistas; se elas admitissem a existência do diabo, ele seria o diabo. Segundo as mães-de-santo, “exu é uma divindade travessa, uma criança, que adora pregar peças e, principalmente, não admite censura”. Recebe o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Lumière, da cidade francesa de Lyon. Lançamento da revista Exu, da Fundação Casa de Jorge Amado; o número de estréia traz uma bibliografia do escritor e um texto dele intitulado “O enterro do Yalorixá”. Zélia lança Jorge Amado | 52

o livro Reportagem incompleta, que reúne fotos que ela fez de Jorge Amado. O escritor recebe o título de sócio honorário do Pen Club do Brasil. Lançado 0 filme “Jubiabá”, dirigido por Nelson Pereira dos Santos. Zélia Gattai publica, em 1988, Jardim de inverno, onde fala do exílio na Tchecoslováquia em companhia de Jorge Amado. A Orquestra Sinfônica da Bahia, sob regência do maestro Carlos Veiga, apresenta uma peça do compositor paulista Francisco Mignone inspirada em “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua”. Publica “O sumiço da santa”. Recebe em Brasília o Prêmio Pablo Picasso, da Unesco, durante o Simpósio Internacional de Escritores da América Latina e do Caribe. Inauguração, em Ilhéus, da Casa de Cultura Jorge Amado. A escola de samba Império Serrano, do Rio de Janeiro, apresenta o enredo “Jorge Amado - Axé, Brasil”, em 1989. Recebe


Carlos Castello Branco, Élvia, José Sarney, Zélia Gattai e José Aparecido na inauguração da Fundação Casa de Jorge Amado

Exu, escultura de Tati Moreno, na porta da Fundação Casa de Jorge Amado.

o Prêmio Pablo Neruda, da Associação dos Escritores Soviéticos. Estréia na Rede Globo a novela “Tieta”, com adaptação de Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares e direção de Paulo Ubiratan, Reynaldo Boury e Luiz Fernando Carvalho; no papel-título, Bety Faria. Jorge Amado é entrevistado no programa do escritor Georges Simenon na TF1 (França). Escreve texto em favor da candidatura à Presidência da República, pelo Partido Comunista Brasileiro, do deputado federal Roberto Freire (PE). Estréia na Tv Bandeirantes a minissérie “Capitães da areia”, com adaptação de José Louzeiro e Antonio Carlos Fontoura e direção de Walter Lima Jr. Em 1990, participa, como representante do Brasil, da comissão internacional que dará assessoria ao projeto de reconstrução da antiga biblioteca de Alexandria, no Egito. Aberto em Recife o arquivo do

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DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) pernambucano, no qual o prontuário de número 6.172 trata das atividades políticas de Jorge Amado. Na Itália recebe os prêmios Cino del Duca, concedido por um júri presidido pelo escritor Maurice Druon, secretário-geral da Academia Francesa. A Universidade Livre de Berlim realiza o seminário “Cultura popular na obra de Jorge Amado”. Paralelamente a “Bóris, o vermelho”, escreve “Navegação de cabotagem”, relato memorialístico, em 1991. Escreve, sob encomenda, para uma empresa italiana, a história “A descoberta da América pelos turcos”, que deveria ser incluída num livro ao lado de textos do americano Norman Mailer e do mexicano Carlos Fuentes. Preside o 14° Festival Cultural de Asylah, Marrocos, cujo tema é “Mestiçagem, o exemplo do Brasil”. Participa do Fórum Mundial das Artes em Veneza, Itália. Jorge Amado | 54


… 1992

A R eclusão

Estréia na Rede Globo, em 1992, a minissérie “Tereza Batista” (com adaptação de Vicente Sesso, direção de Paulo Afonso Grisolli e Patrícia França no papel-título). Publica “Navegação de cabotagem”. Uma série de eventos comemora os 80 anos do escritor. As principais homenagens, naturalmente, se concentram em Salvador: shows no Pelourinho, debates, exposições. Para festejar a data, a Fundação Casa de Jorge Amado publica o livro “Jorge Amado: 80 anos de vida e obra”, organizado por Maried Carneiro e Rosane Canelas Rubim. Paloma Amado e Pedro Costa iniciam a revisão completa da obra do escritor, a fim de eliminar erros acumulados ao longo das sucessivas reedições de seus livros. É homenageado no Centro Georges Pompidou com a exposição Jorge Amado, écrivain de Bahia; no mesmo local participa do seminário “Reencontro de dois mundos”, realizado para comemorar o quarto centenário do descobrimento da América. Jorge Amado | 56


Publica, em 1994, no Brasil, “A descoberta da América pelos turcos” (o projeto do livro com Mailer e Fuentes não vingara, mas o texto de Jorge Amado já tinha saído em 1992 na França). “Gabriela, cravo e canela” inaugura a série de relançamentos revisados da obra do escritor. Recebe, dos governos brasileiro e português, o Prêmio Camões, em 1995. Começa a escrever um romance provisoriamente intitulado “A apostasia universal de Água Brusca”, que focaliza a luta pelo poder entre a igreja e os coronéis do sertão baiano. Recebe o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Pádua, Itália; também na Itália é contemplado com o Prêmio Vitaliano Brancatti. João Moreira Salles realiza o documentário “Jorge Amado”. Em maio de 1996, o escritor sofre em Paris um edema pulmonar. Depois de dez dias de internação, recebe alta e viaja para

Salvador, onde em julho comemora com os amigos os 80 anos de Zélia. Estréia “Tieta do Agreste”, filme de Cacá Diegues, que também assina o roteiro, ao lado de João Ubaldo Ribeiro e Antonio Calmon. No papel¬título, Sônia Braga. Em outubro, é submetido a uma angioplastia. A operação mobiliza atenções do país inteiro e é coroada de pleno êxito. Na saída do hospital o escritor anuncia que retomará “brevemente” seus projetos literários. O romance “Tieta do Agreste” é escolhido como tema do carnaval de Salvador, em 1997. No domingo de folia, o bloco “Amigos do Amado Jorge”, liderado pelo cantor e compositor Caetano Veloso, desfila em homenagem ao romancista, que assiste à festa ao lado de Zélia Gattai no camarote da passarela da Praça do Campo Grande. A editora Record lança “Milagre dos Pássaros”, livro com conto ainda inédito no Brasil. 57 | Jorge Amado


No Salão do Livro de Paris, em 1998, é uma das principais atrações e recebe o título de Doutor Honoris Causa na Sorbonne. Estréia na Rede Globo a mini-série “Dona Flor e seus dois maridos”, adaptação de Dias Gomes para o romance de mesmo nome. Em maio de 1999, é hospitalizado para fazer exames de rotina e tratar de um mal-estar digestivo. Em junho, a Fundação Casa de Jorge Amado lança o livro “Rua Alagoinhas 33, Rio Vermelho”, sobre a casa em que o autor vivia e sobre seu cotidiano. Cada vez mais recluso, face a seus problemas de saúde, comemora em agosto de 2000, com poucos amigos e a família, seus 88 anos. Vivia deprimido por se encontrar quase sem enxergar, sob dieta rigorosa, privandose do que muito gostava: de escrever, de ler um bom livro e de um bom prato.

Jorge Amado | 58


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† 2001

E terno J orge

No dia 21 de junho de 2001, Jorge Amado é internado com uma crise de hiperglicemia e tem uma fibrilação cardíaca. Após alguns dias, retorna à sua casa, porém, em 06 de agosto volta a se sentir mal e falece na cidade de Salvador às 19,30 horas. A seu pedido, seu corpo foi cremado e suas cinzas foram espalhadas em torno de uma mangueira em sua residência no Rio Vermelho.


Suas Obras


o país 1931

do

carNaval

Cacau é narrado em primeira pessoa por um lavrador que trabalhara brevemente como operário fabril. O pequeno romance é a saga de uma tomada de consciência social e política. Atesta o clima de polarização ideológica da época em que foi escrito e o entusiasmo revolucionário de seu jovem autor. Neste apaixonado livro de juventude, com um vigor e uma urgência que o tornam encantador, encontramos alguns dos méritos mais louvados do autor, como o apurado ouvido para a fala popular; o trânsito pelos vários registros do discurso, do mais formal ao mais coloquial; o caloroso afeto por suas criaturas. Livro de denúncia e esperança, anuncia o grande romancista que conquistaria os leitores do Brasil e do mundo nas décadas seguintes.


cacau 1933

Um navio traz de volta ao Brasil o jovem filho de fazendeiro Paulo Rigger, depois de sete anos em Paris, onde cursara direito e absorvera comportamentos e ideias modernas. Nos primeiros dias que passa no Rio de Janeiro, Rigger tenta compreender um país onde já não se sente em casa, que tenta timidamente superar seu atraso oligárquico e ingressar na era industrial e urbana. De volta a Salvador, ele participa de um grupo de poetas fracassados e jornalistas corruptos que giram em torno do cético Pedro Ticiano. Todos se sentem insatisfeitos e buscam um sentido para a existência: no amor, no dinheiro, na política, na vida burguesa ou na religião. Neste romance, as dúvidas e angústias dos personagens espelham a situação do país, que naquele momento passava pela Revolução de 30 e procurava redefinir seus rumos.


suor 1934

Suor é saudado com entusiasmo pelo poeta Oswald de Andrade, que o define como “pequeno grande livro”, focalizando “os cortiços azedos da Bahia”. Na verdade, o que Jorge Amado tematiza é a vida miserável e promíscua da gente amontoada num velho sobrado do Pelourinho, em meio a ratos, baratas e cachorros. Velhos, prostitutas e homossexuais passam pelas páginas do livro, onde se ilumina a figura de Linda, jovem que vai se ligar a um líder operário, o mecânico Álvaro, iniciando-se, assim, em projetos de transformação social. Num comício baiano, Álvaro cai morto, atingido por uma bala disparada pela polícia. Mas Linda não abandona idéias, nem ideais. Vai em frente, distribuindo panfletos subversivos, em cumprimento de sua missão revolucionária, em busca de um mundo novo.


JuBiaBÁ 1935

O romance amadiano como que ganha uma outra dimensão. Publicado em 1935, é um retrato vigoroso da vida negra e mestiça pelos meandros da Cidade da Bahia e seu Recôncavo. Acompanhando as revoltas e reviravoltas do órfão Antonio Balduíno, que vai de mendigo a músico, de capoeirista a boxeador, de trabalhador nas plantações de fumo do Recôncavo a inflamado orador sindical, Jubiabá torna-se um romance onde toda a importância é dada à vida, ao conjunto de gestos e gritos, a uma certa ordenação de impulsos e desejos, a um equilíbrio do sim e do não.


mar morto 1936

O livro trata do nascimento, vida e morte do personagem Guma, que o autor descreve como sendo uma história que se conta nos cais baianos, uma lenda, como ele mesmo diz no final do livro: “assim contam os homens do mar”. O livro conta ainda com a amada de Guma [Lívia], o filho casal e inúmeros pescadores como Mestre Manuel e sua mulher que canta para o mar [Maria Clara], tudo isso temperado com a malandragem e os encantos da Bahia única de Jorge Amado. Em verdade, o livro faz inúmeras referências a outros pescadores célebres, cita exaustivamente santos do candomblé e também descreve com grande detalhe o modo de vida miserável do “povo do mar”, a morte sempre latente, naufrágos e amores.


capitães

de

areia 1937

Nesta história crua e comovente, Jorge Amado narra a vida de um grupo de meninos pobres que moram num trapiche abandonado em Salvador. Os Capitães da Areia têm entre nove e dezesseis anos e vivem de golpes e pequenos furtos, aterrorizando a capital baiana. Influenciada pela militância comunista do autor na época em que foi escrita, a narrativa de Capitães da Areia transcende a orientação política mais imediata. Divididas entre a inocência da infância e a crueza do universo adulto, as crianças têm de lidar com um cotidiano ao mesmo tempo livre e vulnerável, revelando um desamparo e uma fragilidade que, em muitos aspectos, permanecem atuais.


aBc de castro alves 1941

“A praça é do povo, como o céu é do condor”, diz um dos poemas mais conhecidos de Castro Alves, que ficou conhecido como o poeta dos escravos, graças a sua atividade abolicionista e às composições sobre a dor dos africanos cativos. As vivências precoces de coragem, romantismo e luta marcaram sua poesia, pautada pelo amor à liberdade. Para contar a biografia de Castro Alves, Jorge Amado recua até o tempo dos ancestrais do poeta, para então reconstituir os fatos mais importantes de sua vida. Jorge Amado narra, de maneira apaixonada e em ritmo de romanceiro popular, a vida de um escritor que fez da poesia uma arma do povo e um instrumento da beleza, do compromisso e da esperança. O tom lírico e envolvente da narrativa vem combinado ao rigor histórico da pesquisa, à sensibilidade crítica do romancista e aos poemas de Castro Alves intercalados por Jorge Amado à trama biográfica.


o cavaleiro da e speraNÇa 1942

O cavaleiro da esperança louva a dignidade e o heroísmo do maior líder revolucionário brasileiro. O sentimento de injustiça falou cedo ao coração de Prestes, que em sua carreira militar, na juventude, deu início a uma das trajetórias mais singulares da política nacional. Devido ao momento histórico da publicação o livro tem sua primeira edição em espanhol e foi publicado em Buenos Aires. O autor define a Coluna Prestes como o grande momento de um Brasil em busca de si mesmo e compara a importância histórica de Prestes à de Tiradentes, José Bonifácio, Castro Alves e Floriano Peixoto. Escrito quando o Brasil vivia o regime do Estado Novo e o mundo atravessava o período sombrio da Segunda Guerra Mundial e do nazismo, esta biografia reafirma a crença na liberdade, na democracia, na igualdade e no futuro.


terras 1943

do

sem-fim

As promessas de fortuna rápida são ouvidas por toda parte: aqueles que voltam de Ilhéus contam que o fruto do cacaueiro agora vale mais que ouro. Levas de aventureiros partem de Salvador e de cidades do interior para as “terras do sem-fim” no litoral baiano. Os pequenos povoados da região, como Tabocas e Ferradas, esperam ser desbravados para receber as plantações de cacau. O universo dos coronéis, dos lavradores, dos capatazes, das senhoras de família e das prostitutas dos cabarés ganha um panorama histórico e autobiográfico de tonalidade épica. Narrativa formadora do universo ficcional de Jorge Amado, Terras do sem-fim retrata os laços sociais da região, retrabalha memórias de infância do autor e expõe a violência e a exploração que marcaram o período.


são Jorge

dos i lheus

1944

Ilhéus ganhou fama em todo o Brasil graças ao ciclo do cacau. Nas primeiras décadas do século XX, a cidade cresceu vertiginosamente e ficou conhecida como a Rainha do Sul, atraindo trabalhadores e aventureiros de várias partes do nordeste e até mesmo de outras regiões do país. O cacau enriqueceu proprietários de terra, embalou o sonho dos lavradores e foi objeto de lutas sangrentas. Ao lado de Terras do sem-fim, São Jorge dos Ilhéus narra a saga da região cacaueira, com seus primeiros coronéis - personagens como Horácio da Silveira, Frederico Pinto e Sinhô Badaró -, que se tornaram homens ricos e poderosos, seguidos na aventura da exploração do cacau por jovens doutores, trabalhadores urbanos, operários e comerciantes.


seara vermelha 1946

As terras onde Jerônimo e Jucundina trabalharam durante vinte anos no sertão nordestino mudam de mãos, e o novo proprietário dispensa os colonos. Jerônimo e a mulher decidem tentar a sorte nas lavouras de café em São Paulo. A família toda segue a trilha sertaneja: com o casal vão os dois filhos, Agostinho e Marta, três netos, Tonho, Noca e Ernesto, além de dois irmãos de Jerônimo e seus familiares. Seara vermelha é um romance sobre a luta dos retirantes por condições de vida dignas e por um lugar em que possam descansar da luta diária pela sobrevivência. Na jornada pela caatinga, os sertanejos sofrem com a falta de comida e a aspereza da paisagem. Depois de passar fome e penar com o sol abrasador do sertão, chegam finalmente a Juazeiro, às margens do rio São Francisco, de onde seguem viagem, agora de navio.


suBeterrÂNeos da l iBerdade 1954

A trilogia Os subterrâneos da liberdade é composta pelos romances Os ásperos tempos, Agonia da noite e A luz no túnel; caracteriza-se por uma forte crítica à ditadura de Getúlio Vargas do ponto de vista de um integrante do Partido Comunista Brasileiro. Os ásperos tempos narra a instauração do regime ditatorial do Estado Novo, imposto em 1937 por Getúlio Vargas. Agonia da noite dá continuidade a Os ásperos tempos retratando as ações criminosas do regime e a resistência inspirada pelo Partido Comunista Brasileiro. Em A luz no túnel o cenário é ainda mais negativo para o Partido Comunista do que nos outros livros da trilogia, porém a história segue até 1940, quando ocorre o julgamento do líder revolucionário Luís Carlos Prestes, herói maior e estímulo para continuarem na luta.


gaBriela, cravo e caNela 1958

Vinda do agreste, Gabriela chega a Ilhéus em 1925, em busca de trabalho. É levada do “mercado dos escravos” pelo árabe Nacib. O dono do bar Vesúvio não atenta de imediato para a beleza da moça, escondida sob os trapos e a poeira do caminho. Logo todos os homens da cidade vão se render aos encantos de Gabriela Gabriela, cravo e canela narra o caso de amor entre o árabe Nacib e a sertaneja Gabriela e compõe uma crônica do período áureo do cacau na região de Ilhéus. Além do quadro de costumes, o livro descreve alterações profundas na vida social da Bahia dos anos 1920. É Gabriela quem personifica as transformações de uma sociedade patriarcal, arcaica e autoritária, convulsionada pelos sopros de renovação cultural, política e econômica.


os pastores

da

Noite 1964

O casamento de Martim e Marialva provoca rebuliço na cidade da Bahia. O menino Felício é batizado em uma igreja católica do Pelourinho, mas tem como padrinho uma divindade negra, o orixá Ogum. A ocupação do morro do Mata Gato obriga os moradores a enfrentar o proprietário inescrupuloso e a polícia. Os pastores da noite é um romance formado por três episódios independentes, mas que guardam relação profunda entre si e personagens em comum. As três narrativas formam um painel dos enfrentamentos sociais e dos laços comunitários e sincréticos que pautam a vida dos habitantes de Salvador, do Recôncavo e região.


doNa flor e seus dois maridos

1966

Num domingo de Carnaval, Vadinho parou de sambar e caiu duro. Uma vida de boemia chegava ao fim: cachaça, jogatina e noites de esbórnia arruinaram o jovem malandro. Dona Flor acorreu em prantos ao corpo do marido, fantasiado de baiana. Em sete anos de casamento, sofrera com as safadezas de Vadinho, mas o amava. Um ano depois da morte de seu marido, porém, o desejo do corpo lhe incendeia o recato da alma. No melhor estilo de crônica de costumes, Dona Flor e seus dois maridos descreve a vida noturna de Salvador, seus cassinos e cabarés, a culinária baiana, os ritos do candomblé e o convívio entre políticos, doutores, poetas, prostitutas e malandros. Dona Flor encarna contradições bem brasileiras. Dividida entre o fiel e comedido Teodoro e o extravagante e voluptuoso Vadinho, ela decide viver o melhor de dois mundos.


t eNda

dos

milagres 1969

Conta a história de Pedro Archanjo, um mulato de muitos amores que documentou a cultura popular e provou a ascendência negra da aristocracia baiana do início do século XX. A história do herói pobre, boêmio e erudito, que assumiu o preço de colocar o dedo na ferida dos inimigos da mestiçagem. Em Tenda dos Milagres, Jorge Amado opõe as idéias de Archanjo às de Argolo para enaltecer a mestiçagem, a tradição popular e a cultura negra. A narrativa entrelaça com extrema habilidade os registros erudito e popular. As críticas à repressão contra o candomblé e outras manifestações da cultura negra ganham relevo em dois momentos históricos: o começo do século XX, quando da atuação de Pedro Archanjo, e a época em que o livro foi publicado, em plena ditadura militar.


tereZa Bastista caNsada de guerra

1972

Órfã de pai e mãe, a menina Tereza é vendida pela tia Felipa a Justiniano Duarte da Rosa, o capitão Justo. Nas terras dele, é tratada como propriedade, inclusive do ponto de vista sexual. Mas Tereza irá lutar até o fim contra as dominações a que se vê submetida. “Peste, fome e guerra, morte e amor, a vida de Tereza Batista é uma história de cordel”, já adiantava a epígrafe do romance. Na saga dessa heroína não faltam atribulações e conflitos, que ela vai enfrentar com determinação inabalável. E o fim de sua história reacende uma luz de esperança que o cansaço não pode apagar. O espírito do inconformismo, da luta e da sedução (mas também o da recusa da sensualidade) garantem o lugar de Tereza Batista entre as grandes protagonistas de Jorge Amado.


tieta

do

agreste 1977

O livro apresenta uma situação dramática clássica: a de uma adolescente que denunciada por sua irmã Perpetua a seu pai Zé Esteves de suas aventuras e liberdade recebe uma surra de cajado, e é escorraçada de casa pelo pai. Depois de mais de 25 anos ela volta rica e poderosa para cidade de Sant’Ana do Agreste. A sua volta estão típicos representantes do interior baiano, lutando pela sobrevivência, defendendo ou resistindo a preconceitos, almejando pequenas ambições e que compõem um painel vivo dos conflitos e consequências provincianos que antecedem a chegada de sinais do progresso. Relações de poder e corrupção, religiosidade, liberação sexual, moda e consumo, conflito entre progresso e preservação ambiental são assuntos que, incorporados ao enredo do livro, ganham tratamento crítico bemhumorado. Essa combinação faz de Tieta uma narrativa experimental e inovadora.


farda, f ardão, camisola 1979

de

dormir

A acirrada disputa entre os literatos pode ser comparada, com certa licença poética, à guerra travada em terras européias. De um lado, está o coronel Agnaldo Sampaio Pereira, simpatizante do nazismo. Do outro, o general reformado Waldomiro Moreira. A querela prolonga-se por longos quatro meses. Mas os dois candidatos não se equiparam ao estilo e à verve do poeta morto. Tampouco aos princípios humanistas de Bruno. Muito menos ao sucesso que este fazia com as mulheres, como a comunista Maria Manuela. Como indica o subtítulo original, Fábula para acender a esperança, a narrativa é uma sátira leve e divertida do conservadorismo político da elite, da hipocrisia das tradições familiares e da vaidade intelectual dos literatos.


tocaia graNde 1984

Em Tocaia Grande, Jorge Amado descreve o processo de formação de uma cidade nordestina nascida sob o signo da violência e da disputa de terras. Romance caudaloso e panorâmico, revela a “face obscura” de um lugar em que a lei não vigora nem há presença formal do governo. Na região cacaueira, a pequena cidade de Irisópolis é o microcosmo de uma sociedade de funcionamento tradicional e arcaico, que recebe os ventos da modernização sem perder a herança perversa. Apesar do progresso, da emancipação e dos elementos civilizatórios, o lugar vai conservar seus traços originais: o sangue derramado, a marca do pecado e a memória da morte.


o sumiÇo 1988

da

saNta

A imagem de Santa Bárbara requisitada para figurar em uma exposição de arte religiosa, deixou o altar e empreendeu viagem até a cidade da Bahia. Para surpresa geral, ao chegar, Santa Bárbara se transmuta em Iansã, sobe a rampa do Mercado, toma o rumo do elevador Lacerda e some no meio do povo. Em Salvador, ela quer finalizar um trabalho iniciado meses antes, numa Quinta-feira do Bonfim, quando ajudara a jovem e formosa Manela na lavagem das escadarias da igreja. Agora, a divindade aproveita para livrar o espírito de Manela do controle da severa tia Adalgisa. Neste livro de humor contagiante e estilo primoroso, uma santa católica assume sua identidade do candomblé para ensinar aos que encontra pelo caminho o melhor da vida - a alegria e a tolerância -, em uma história que só poderia transcorrer na Bahia de Jorge Amado.


a

descoBerta

américas pelos turcos

das

1994

O sírio Jamil Bichara e o libanês Raduan Murad desembarcam na Bahia em 1903 e se instalam no litoral sul, região grapiúna, eldorado do cacau. O jovem e trabalhador Jamil abre um empório em Itaguassu. O experiente e boêmio Raduan prefere Itabuna. Ali, nova oportunidade de “fazer a América” se apresenta ao “turco” Jamil: o comerciante Ibrahim Jafet quer casar sua primogênita — a feiosa Adma. Em troca, oferece sociedade no armarinho O Barateiro. “A Descoberta da América pelos Turcos”, escrito no início dos anos 90, por ocasião do quinto centenário do descobrimento do continente americano, revisita a formação da cultura cacaueira e do povo brasileiro, essencialmente mestiço. No posfácio, José Saramago qualifica a obra como “prodígio da arte de narrar”e a compara à tradição picaresca, em que se combinam a violência, o humor, a inocência e a astúcia.


1ª edição papel de miolo papel de capa tipografia

N o v e m b ro d e 2 0 1 2 Couché Fosco 150g/m² C a r t ã o S u p re m o A l t a A l v u r a 2 5 0 g / m ² Frutiger

Jorge Amado