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À sombra do flamboyant Marinaldo l batista Um casal, uma sina. Sofrer. Como eles mesmos disseram: A vida gira, não há espaço para choro nem lamentações. Movida por forças que não lhe dizem respeito ou que tem tudo a ver, talvez pelo pecado capital que todos levamos ao nascer. Um novo autor que dar falas aos personagens, para que eles próprios insiram suas verdades, histórias e vida. Vocês vão se sentirem no âmago da ação, bem próximos, como fizessem parte da mesma.


Homens haverá antes e depois Dele indefinidamente. Sofrerão calamidades, injustiças, flagelos, por dolo do pecado que lhes coubera, nessa vida ou em outras nunca se sabe, pois há os que nascem em berço de ouro, outros vejam todos, enquadremos a câmera, um Zé ninguém, sem eira nem beira, como dizem, nesse povoado, ali, empurrando agora um carrinho, feito de tábuas e restos de bicicletas, cata lixo e papelão para a sobrevivência, - teve uma história e como todas as histórias, começo, meio e fim. Há justos sessenta anos, sobe diariamente essa ladeira íngreme. Para no meio exausto, parece ter cansado da vida e deste mundo, mas a esperança, -esta é latente- não o faz desistir, sempre almeja uma vida melhor, coça a cabeça e olha o vazio, no instante em que um moleque alheio as suas dores grita, - Zé das candeias! Zé das candeias! Ele acorda do torpor que se encontra inicia um sorriso, para logo depois gritar e soltar impropérios e palavrões. -Filhos da puta! Filhos de uma quenga! Filhos de uma vaca! Zé das candeias é a buceta da mãe! Fazia isso toda vez que o chamavam assim, desde quando tomou conhecimento que se divertiam fazendo chacota de si mesmo. “A quem interessam as dores alheias!”, pensava. Vinha todos os dias por essa estrada de terra e quando chegava ao topo, parava como agora, tornava-se sério, fazia o nome do pai, visualizando um flamboyant vermelho (Quem nunca se encantou com um flamboyant florido), onde voavam borboletas de todas as cores e colibris azuis em busca do néctar. “Para os diabos com minha vida, dizia para si rindo da própria miséria. Deus tem mais para dar do que o diabo para carregar!” E dançava quando falava e acendia duas lâmpadas situadas no bagageiro do carrinho, por isso o apelido.


-Zé das candeias! Bradaram novamente dois meninos, sumindo numa esquina. Era desses homens fortes vindos do sertão, espadaúdo, mãos grandes cheias de calos, uma calva, olhos escuros, a voz mansa de quem muita necessidade passou e passa. Desses que se olharmos amiúde, em qualquer povoado os encontramos, e tem tudo para serem infelizes, contudo vivem sorrindo da sorte arranjos da vida. Uma grande veia na testa solfeja no compasso da batida de um coração. Olha para os pés e os sente colados na terra. Terra vermelha, árida e se encontram esfolados, ardendo de tanto subir e descer, aquela estrada que de onde esta avista o cruzeiro, a ponta do morro e algumas casas. Urubus voam no céu e moradores do lugar como ele desce e sobe a todo o momento, como formigueiro ou procissão de desvalidos vindos do lixão onde a maior parte retira o sustento. Ali se sentou numa sombra bendita, um pequeno cajueiro selvagem, “aqui pego uma fresca”, pensou, assim aguentava a descida que aí dizem, todos os santos ajudam, pegou um papelão, dobrou-o e sentou-se sobre, “assim melhor fica”, estica as canelas, finas e olha em volta. Observa o lixão ardendo. O vento sopra ao contrário trazendo a fumaça. O cheiro de carniça dava-lhe asco, vontade de vomitar. Tinha esperança de um dia sair dali, num golpe de sorte ou do destino nunca se sabe, a verdade é arredia, e isso não era vida, a que vivia. Lembrou-se da mulher Antonieta e franziu o cenho. Foi numa manhã de janeiro, lembra bem, pois chovia e as máquinas já cavoucava a terra. -Zé... Você sabe que Deus escreve certo por linhas tortas, não sabe? -Sim mulher. É o que dizem... -Não! Não! Quero saber da sua fé.


Isso foi bem cedo, quando o primeiro galo cantou e Zé das candeias bem viu que nem luzes no céu havia, somente a escuridão, o cheiro do café coado e uma brisa, balançava as folhas da goiabeira no quintal. -Sim? -De coração? Havia sons nos outros quintais, uma criança chorava, a sirene da fábrica tocou três vezes, o dia clareava. -De coração. Antonieta continuou falando como uma cantilena. -Eu sei muito bem de nossas dificuldades. Mas foi sem querer. Antonieta mirou a lua, ainda não desaparecera. Jogou mais água no coador, silenciou-se. Apareceram-lhe duas lágrimas no canto de cada olho, hesitaram em sair, mas quando baixou a face para falar, caíram e se perderam no chão de terra batida. -Acho que estou grávida foi dizendo isso e caindo de vez no choro. Zé das candeias coçou a cabeça, espantado. Olhou o velho relógio pendurado na parede, o ponteiro dos segundos batia ao ritmo de seu coração. Olhou o galinheiro no fundo. Um galo velho montou na única galinha, estrebuchou e desceu sacolejando as penas esticou o gogó e cantou. -Mas como foi acontecer isso mulher! Lembra-se da ultima vez que você perdeu o bebê e para não mais acontecer, a Filomena, enfermeira do posto nos ensinou, lembra? Falou bem explicada, Dizia assim: “ Teve vontade, introduzam este plástico no membro duro, invenção das melhores, imitava no dedo a camisinha, depois de feito isso, podem meter sem nenhum embaraço, disse isso com um sorriso ridículo nos


lábios que você própria não gostou e ainda comentou: mulher sem pudor, falou em casa.” - E que entre quatro paredes o casal não deve ter vergonha, e sim muita malícia e sendo assim a vida ficava bem melhor usufruindo de todos os prazeres não obstante a pobreza. Acrescentou ainda: É tudo que o pobre ainda pode fazer. Por fim disse sorrindo:

-Aproveitem enquanto podem! -Já falei com você... Que é só terminarem o condomínio que constroem ali, que me emprego na casa de alguma dona e se tudo correr bem... Teve receio de terminar a frase. Olhou as maquinas pela janela, monstros que acordavam. Sorveu o café preto jogando a borra que restou no tronco da bananeira. Completou: -E o que Deus dá só Ele toma.

Antonieta colocou do avesso o coador, encheu duas xícaras, colocou sobre a mesinha do canto e se postou no umbral, olhando as máquinas gemerem. Pareciam bichos no cio. De soslaio via Zé das candeias remexer as mãos, isto fazia quando estava nervoso, o ressoar das máquinas cortando a terra, virou-se de costas, Zé das candeias notou está mais magra, o vestido puído sobrava nas ancas, canelas finas e arqueadas, de relance viu um menino pular do barranco, - que perigo essas crianças sem pais, pensou. Zé das candeias pegou seu café sobre a mesa, - ela não me ofereceu como todos os dias, talvez esquecesse, e tomou de um gole, acocorou-se perto do banquinho, começou fazer um cigarro de palha olhando as formigas em filas. -Criança dá muito trabalho, Antonieta, preocupação até demais.


Cortou a palha, espalhou o fumo na mão. Um galo cantou, cachorros latiram, ele levantou o pescoço para ver o que era. Um urubu pousado bem em cima do galinheiro. Levantou-se com uma pedra na mão. -Xô, bicho nojento! Raça ruim, demônio de asa. Soltava à ira que sentia. Cada dia eles se aproximam mais. A voz saía rouca, vinda do fundo, mas a mente não detinha, águas buliçosas.

Enquanto pitava pensava consigo: pobre não tem esse direito não, veja só, colocar mais um sofredor no mundo. Soltava a fumaça cheirosa, que me ia até a cozinha espezinhar meu nariz. Calculava escrevinhando no chão com um graveto, quantos litros de leite seriam necessários para manter uma criança bem alimentada depois do desmame. No primeiro ano sabia a amamentação era importante e cansou de ver no sertão, mulheres esqueléticas sugadas até a última gota. “Antonieta como está, só osso, não ia aguentar”.

Levanta o boné para coçar a cabeça, lembrou-se da vida sofrida da infância balançou a cabeça e ficou olhando uma formiga que agora passeia pelo suor de sua perna, desce pela planta do pé fazendo cócegas e deliberado, esmaga-a com a ponta do dedão.

Molhou o cigarro nos lábio e reacendera com uma baforada. A fumaça em volta, o cheiro do fumo, os olhos arderam e umedeceram talvez por alguma lembrança triste, de repente soltara a frase que demorou em sair: -Tem jeito sim Antonieta! Só não tem jeito para a morte.


Antonieta virou-se assustada viu os seus olhos escuros, rugas na testa macilenta, gotas de suor na fronte a boca entreaberta ainda no sibilar do final da frase. Parecia um cão danado, na lua cheia. Lembrou-se da ultima vez quando consentiu tamanho crime, tirar a vida de um inocente que não pediu para nascer, e soubera mais tarde, era um menino lindo, sadio e sem defeitos como sonham as mães, Zé das candeias sibilou mais alguma coisa, “Que a negra Adelaide, a parteira do morro, daria um jeito como sempre deu. É só querer. Ou não sabes que todos os anjinhos que desceram aqui do morro e que oxalá subiram aos céus, não lhe sujaram as mãos?” Antonieta para não ouvir as últimas palavras que açoitariam seu coração, apertou a válvula da panela soltando num chiado toda pressão. Colocou-a embaixo da torneira e soltou um Palavrão. Zé das candeias sem perceber continuou: -Hoje mesmo, quando separava o lixo ali, -apontara com o dedo um canto da cerca -passou um, num caixão branquinho. Os pais choravam talvez fingindo, como num teatro, numa cena qualquer, mas no fundo sabiam era menos uma boca prá comer, menos um fruto podre que poria a perder outros tantos, já fora o tempo que as pedras viravam pães, tempos de milagres. As mãos que dá, também tiram. Antonieta ficara em silêncio. Entrara a lavar as xícaras.

Continuou a dizer que o que não podia era fazer filhos para encherem as prisões, para ficarem na tutela do estado, pois a maioria que nasce aqui, sem oportunidades, cai no crime, nas drogas ou bandidagens. E terminava dizendo que era mais um para sofrer e que não podiam de jeito nenhum ter esse bendito filho. Antonieta batera as panelas e Zé das candeias sabia que ela estava contrariada. Não tinha coragem pensou. “Mas nascer e viver sofrendo com fome, falta de tudo não estava


certo. Duvido que Deus queira isso para seus filhos. Tudo vem do homem. O egoísmo e a ganância desenfreada são os causadores de todo o mal. O inferno é aqui mesmo.” Tinha um pensamento simples. Se ele bem cedo, subisse ao lixão e pegasse mais do que precisasse para viver, outros não teriam o que comer. E nessas ocasiões sabia, não adiantava olhar para cima, para o céu nessas horas de aflição. A não ser para saber do clima, se ia chover ou ver os urubus ou como agora via várias pipas coloridas planando.

Entrega-lhe um copo d água. Antonieta sugou-a sôfrega e trêmula até o fim. O olhar de Zé das candeias era para fora, para o morro recortado pelas máquinas, paras as pipas para o mundo.

Fica observando perdido em pensamento. Ver o vento vibrar no plástico e envergar a vareta. Uma passa bem próxima como uma vela de barco cheia de vento. Levanta-se, bate os fundilhos da calça, o capim seco desgruda, observa em volta, quanto tempo se passou pergunta-se, o sol alto, amarelo, suarento. Ainda tivera alguns pensamentos soltos, como aquela pipa azul, pensava se fosse menino será meu companheiro, de folguedos, de bola na pelada no campinho da caixa d’água. Banhar-se-iam juntos, prendendo o ar nos pulmões como fazia em criança, ensinaria atirar com estilingue não o deixaria sozinho como o filho da velha Quitéria tão magrinho, mas quando o acharam afogado, depois de horas desaparecido, encontraram-no tão inchado, desfeito, a cara gorda, que mal coubera no caixão. É sempre triste perder um filho, mesmo sabendo que a morte é inevitável, queremos que aconteça seguindo uma ordem dita natural, uma escala, do mais velho para o mais moço, como se a vida tivesse dessas coisas, como não houvesse o infortúnio, a má sorte ou desdita de cada um.


-Caralho, essa pipa é maneira. Já fui bom nisso, suspirou. Uma pipa veio debicando ao encontro da outra querendo briga. Levantou-se ficando na ponta dos pés. “Quando o filho crescesse ensinaria a arte de soltar pipa.” Avista o menino de longe. Observa a batalha como um general. Grita: -Tem cerol? O menino do outro lado responde: - Do bom seu Zé, vidro de lâmpada moído. -Eles vão pensar que você esta fugindo veja. Estão aproximando rápidos. Deixa vir. Isso... Isso. -Dá mais linha e deixa o vento pesar. -Já dei todo o carretel! -Isso! Agora segura e deixa subir. -Puxa como tá subindo! -Vão me pegar de lado, veja! -Espera! Agora a faça descer, rápido. Deixa cair de encontro à outra. Isso.

Quanto tempo não sabe, ficou a pensar e quando entrava em si, ficava apático e insensível à temperatura e sons e dores como viajasse por mundos distantes. -Então agora dá corda quando ele vier pro seu lado debica e deixa descer, assim, assim, bravo, agora o golpe de misericórdia, isso puxa pelo rabo. O menino sorriu. Depois grita: -Cortei! Cortei! Olhou o céu as horas passaram quase onze, sabia descobrir olhando para o alto, sentia o movimento dos


ventos, dos pássaros, do sol, a cor o cheiro das coisas e sabia o dia que ia chover, de calor, de frio e até das estiagens.

Por fim Zé das candeias ver quando os meninos descem correndo do topo do morro, pulando cipó, gritando, é minha é minha. Zé das candeias ri, desce o morro olhando para o chão, ainda olha o flamboyant ao longe, empurra a Janelinha que se abre para o puxado, a goiabeira cheia de pássaros, o morro, o silencio, bem longe dos sons do passado.

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“Não foi de hoje , quando me ensinou, cortar a pipa que eu conheci Zé das candeias”. Não. Vem de longe. Eu tinha oito anos, mais ou menos. Ele dezessete. No tempo de alistar-se no exército. Bem antes de descobri-lo, quase mendigando, sempre rondando as feiras, vagando incerto pelas ruas do povoado. As calças rasgadas e sujas a pele cheia de fuligens, sempre empurrando o carrinho com as candeias. Fora desde quando eu fugia com Zé banguela, para os banhos de rios. Algumas dessas vezes ele nadava conosco. Minha mãe não sabia. Só Zé banguela e eu. Fazíamos a farra. Sempre tivemos medo dele, era estranho, falava sozinho, às vezes ria também talvez com seus fantasmas. Naquele tempo chegávamos às margens do rio, abandonávamos as roupas, éramos livres pensávamos. Sonhávamos mil coisas, “Eu dizia Zé banguela, um dia vou ser doutor.” Ele me imitava, mergulhando de uma pedra e gritava: “Eu vou ser aviador de caça, para matar os alemães.” Já Zezinho três pernas, pois esse era seu apelido antes, por ter o pênis avantajado, não contava seus sonhos. Era tempo das mudanças o ano era sessenta e quatro pósgolpe militar. Depois soube que ele queria ser guerrilheiro de


alguma organização, isso quando era contrariado, o sangue parecia esquentar nas veias, e impactava o coração. Depois esfriava, e voltava à vida comum, mas havia uma semente plantada faltava algo para germinar, um silêncio, uma coisa interna. Depois desses banhos, nos chamava para ouvir numa vitrola, sabe-se lá onde arrumava, no seu quartinho de fundos, ele colocava para rodar, Caetano, Gil ou Chico, e pedia silêncio e tentava nos mostrar que por trás das letras, nas entrelinhas dizia, prestem atenção nessas passagens, recados ocultos de revolução. Para mim eram melosas e nada mais. Ele falava que em um conto ou romance, o mais importante não era o enredo, nem os personagens e sim as mensagens que deveríamos encontrar nas entrelinhas e muitas vezes oculta que os bons autores as escondiam. Contava a história de cada um no exílio, longe da terra e da pátria, viraram meus heróis também. Mas naquela época não passava de sonhos distantes, pois o que me interessava realmente eram as brincadeiras de pião, estilingues, os rios, açudes e a noite o que inflamava embaixo das cobertas, era meu pênis, e o pegava e manipulava devagar pensando em minhas musas, geralmente as mocinhas de filmes americanos. Nesse tempo ele fazia-me mil conjecturas, de liberdade, de luta... Pensava que todo o jovem teria que ser revolucionário, tentar mudar o mundo, nem que fosse a custa da própria vida. Eu ouvia o final das canções e na cama a noite assoviava relaxado, virava-me para o lado e dormia. Num dia, de manhã ensolarada, depois de uma noite chuvosa. Combinamos eu e Zé banguela ir caçar lá pras bandas do açude. Fomos chamar Zé três pernas, mas encontramos a porta fechada. Tinha saído bem cedo falaram. Preparamos os estilingues, as melhores pedras, o embornal. Passamos pelo curral, Mané branco tirava o leite, quando fechamos a porteira ele chamava “Paraíba” à vaca malhada. O bezerro esfomeado cabeceava as tetas da vaca. Mané branco deixou-o mamar um pouco, é para limpar o leite, vi isso justo quando eu trepava na porteira. Zé banguela me esperava já


do outro lado, embaixo do juazeiro. Ouvimos chocalhos bem longe nas pedras. As cabras do falecido Valdevino. No córrego, onde às vezes pescávamos lambaris, íamos passar direto, juro, paramos não foi por malícia não, mas vinha lá do fundo, entre as ramas de melão de são Caetano uns gemidos estranhos. Caímos de cócoras em silêncio. Seriam as filhas do falecido? Pensamos juntos. Isso porque vi o sorriso na cara do Zé banguela. Com a falta de dente a gengiva vermelha. O dedo nos lábios pedia silêncio. Fomos engatinhando. Se elas, seria muita felicidade. Já a havíamos vistos noutra ocasião tomando banho e eram tão meninas e puras, os seios branquinhos, branquinhos que dava uma vontade grande de mordê-los e aquela moitinha de cabelos pretos e ralos, as mãos longas ensaboando as partes. Quando descemos as pedras, ficamos mudos. Zé três pernas segurava o rabo de uma mula, e a terceira perna tava todinho dentro dela. Soltava gemidos estranhos. Saímos dali correndo envergonhados. Longe sentamos numa pedra e rimos até doer à barriga. De noite, acariciando-me, embalado pelas canções de amores impossíveis gozei. Um líquido viscoso sujou todo o meu calção. No outro dia falei para Zé três pernas no que ele me disse sorrindo: - É esperma seu besta. Desse dia em diante fiquei com muito dó do Zé. Pensava comigo: Devia ser muito solitário para fazer um negócio daqueles. Tempo depois sumiu, e quando voltou era chamado Zé das candeias já não ouvia tais músicas, e lembrava pouco de mim. Sempre o vejo no morro, olhando o vazio, as pipas ou o sol caindo, única coisa bonita nesse lugar.

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No outro dia Zé das candeias

acordou bem cedo disposto a

recolher a maior quantidade possível de coisas. Obter maiores lucros. Olhou para trás e viu as chaminés soltando fumaça na maioria dos barracos. Só o da velha Quitéria não, agora sozinha no mundo, perdida. As máquinas já engoliam a terra, empurrando para os lados, e os moleques formavam uma pelada no platô. Avistou as telhas de zinco do barraco, encoberto pela goiabeira. O cruzeiro ficara para trás, na ponta da cruz dormia um urubu e riu. Persignou-se. Deus me livre, do mal. Alguma carniça fedia, o interesse move montanhas, sabia todas àquelas máquinas cortando o topo do morro, construirão mansões, visam somente o lucro. Antonieta é trabalhadeira, dava graças a Deus por lhes dá saúde e isso nos basta, tudo o que temos foi conseguido com nosso suor, e será tudo como Deus quiser. Atravessou o esgoto a céu aberto, na encosta, ouviu o tilintar das panelas, ao longe, Antonieta dera para cantar, e olhou atrás, viu o lixão ao longe, fumegando, brilhava ao sol, prata, parecia um monstro vivo, cheio de odores fétidos, revirado constantemente por crianças e urubus, topou numa pedra, porcaria de vida, empurrou o carrinho com mais força, abriu a cancela, colocada ali para não invadirem. Animais e crianças se misturavam numa agonia de medo e esperança, a caça de algum achado, despejou o conteúdo do carrinho no chão para reciclar, papéis de um lado, plásticos doutro, metais aqui, e passou na mente a frase que se esgueirava desde o alvorecer, “Estou grávida!”. Do topo via o centro da cidade, a torre da igreja, imponente, o relógio marcava dez horas, além o bairro dos ricos, outra reciclagem, pensou; eles são metais preciosos, nós, apenas refugos, sobreviventes das migalhas, pegou o crucifixo que o deixou azebre no pescoço, olhou pros céus com fé, azul, riu da ideia, olhou a pipa bem alta, lembrou-se do menino, seu sorriso, livre, cheio de sonhos, sonhos irrecuperáveis.


Enquanto separava o lixo escarafunchava as ideias, dizia: “ Tempo bom, a infância, tão longe, meandros do tempo.” Lembrou-se quando um dia saiu para o quintal escavou a terra e sentiu a umidade brotando nos seus dedos macios. A terra é mãe e mulher, semelhança que mais tarde sentira nas carnes, tenras e úmidas, o cheiro salso. Naquele dia, lembrança quase apagada, a vizinha, chegou para ele e dissera: “Vem!” E cantou uma canção de amor como as sereias de Ulisses. Não conseguiu se desvencilhar ou não queria. Não se amarrou como o herói. Ela puxou-o pela mão. Morna e suada, guiou-o como a um cego, levou-o ao quintal entre plantas e roseiras. Um vestidinho com listras vermelhas. Atrás de um jasmim o beijou. Sentiu as carnes vibrarem sob o tecido, quase perdera o fôlego, e sentiu na ponta dos dedos bem no meio das pernas dela, a agonia que ela sentia. Uma agonia de estranhos toques, uma maciez, rugosidades, fendas e formas diversas, secos e molhados, furos e continuidade, aspereza e suavidade, calor e frio, tremor e brandura. Depois um sentimento de liberdade e de arrependimento, de ternura e solidão, sentimentos tão diversos e semelhantes, uma estranheza, um amortecimento como quando no mato, achava ninho de coruja nas tocas. Assustado contraiu a mão e tentou fugir sem conseguir, outras vezes deixou-se guiar por caminhos incertos, e ela abraçou-o ávida. Depois de segundos ou horas, o tempo é efêmero, estremeceu articulando um ai. Beijou-o muitas vezes, como fosse sua dona, era seu escravo, e o dominou. Dizia, faz isso ele fazia, faz aquilo, e o foi levando como a correnteza de um rio, ele menino ela mulher feita, tinha cheiro no sovaco, um aroma bom de mulher no cio. Naquele dia levou o perfume consigo, “era para não esquecer”, dissera depois, numa roda de meninos. E dormiu aquela noite sentindo nos dedos aquele odor de carne indecifrável, como olhar um abismo sem vislumbrar o fundo.


Tudo isso se passou em sua mente como num filme mudo, filmes de Charles Chaplin tão distante e tão perto, e viu os mesmos olhos tristes de estrela cadente. Haverá tristeza maior? Dizia: “Já a perdoei e a esqueci por aqueles atos, mas seus olhos, jamais! Nem em mil anos”. Um urubu passou rente. Sai bicho, gritou. Na volta passou na vendinha de seu Severino, pagou a conta atrasada como sempre. Pediu uma cana e sentou num canto. Não era homem de muita conversa. Tomou-a de uma talagada só. Severino puxou assunto, - dizem por aí que a comunidade vai melhorar, até os lotes já subiram de preço. Ele confirmou com um aceno de cabeça. Era seu jeito, quando preocupado se fechava como uma concha. Lembrou-se de Antonieta a barriga crescendo, ficando mais ranzinza deu para reclamar, disse hoje de manhã, o dinheiro não vai sobrar quase nada, a cachaça que você tá tomando, Deus me livre, ta tirando nosso leite. Ele retrucou, - Esse mês acha que vai sobrar, esses fios de cobre vão render bem, pagam bastante por eles e pelas latinhas. Não devia se preocupar com isso, era coisa de homem, e com esse bairro que vão levantar aí tudo vai melhorar se Deus quiser e aí fazemos um puxadinho, do outro lado, sem precisar cortar a goiabeira. Ela eu não corto, já decidi, o bem-te-vi e os sanhaçus cantarão onde? Como ficaria o final de tarde, o por do sol sem o canto deles. -Como vai à construção? Puxou assunto com Severino o dono do bar. Severino, passando um pano velho no balcão respondeu: -De vento em popa, Zé, dizem que mesmo antes de ficar pronto vão transferir vários moradores. -É mesmo! Como deve ser isso? -Ah! Não entendo essas coisas, tem gente que compra na planta essas coisas. -Estranho eu não vi construir nenhuma casa ainda, e já muraram. Um muro alto. Quer o de sempre?


-Uma pinga e um troço desse aí. Era um pé de galinha boiando em gordura, - É... Rico gosta de segurança. Pensou um pouco e filosofou: - São três classes que temos agora: Os encarcerados, protegidos pelo estado, os milionários protegidos pelas geringonças que o dinheiro pode comprar e a classe consumidora. -Lá vem você com esse papo atravessado. Papo comunista. O muro caiu. Zé das candeias pestanejou, coçou o escroto olhando o vazio. Severino sem dizer nada, esperando terminar o ato. Terminou de se coçar não respondeu de imediato, roeu o pé de galinha que Severino havia entregado em um guardanapo, espantou um mosquito que teimava em pousar em seu nariz, tirou o chapéu e bateu no ar. Viu-o subir revoando e pousar em cima da sua cabeça, num mata mosca quarado. Todos estavam presos à fita. Este último ficou colado na fita, os olhinhos brancos inertes os fitando. Ainda se mexiam.

-Caiu... Caiu... Mas outros se levantarão. Para mim existem só duas classes. Os que estão dentro do muro(mandam) e os que estão fora(Obedecem), o resto é balela. Severino escutou calado, com a língua tentava tirar algo que impregnara sua dentadura. Impaciente pegou-a com as mãos, e tirou o que o atormentava, - uma folha de couve esfregando-o em sua calça. Voltou-a para a boca e falou: -Não acredito que toda a culpa recaia no capitalismo. Por acaso o seu berço não é os Estados unidos da América? E lá não tem mendigo não. Ou melhor. Quase não. -Isso é o que você pensa nessa cabeça chata. Para sustentar suas ganâncias, inventam doenças, insinuam medos, viciam os jovens com drogas e jogos eletrônicos,


fazem a guerra, e o que lhes escapam, derrubam governos, deprime países e seus pobres, escondem debaixo dos tapetes.

Nisso um moleque entra ofegante. Do nariz desse catarro pegajoso. Grita: -Zé das candeias me desculpa, mas nasceu sua filha! Agorinha mesmo. Zé das candeias fez menção de falar algo, balançou a cabeça negativamente, não valia a pena disse: “pendura essa” e desceu a ladeira, enxergou as telhas de zinco do barraco, encoberto pela goiabeira. “Talvez o bem-te-vi estivesse cantando agora”.

*** Antonieta depois de adiantar o almoço, uma sopa rala de feijão, viu Zé das candeias sair, direto para o bar pensou, deitou-se na rede e vieram-lhe os sonhos. Estava num jardim todo florido e uma menina corria pelo gramado. Reconheceu sua filha pelo sorriso. Corria a seu encontro de braços abertos. Via a cena de vários ângulos. De cima, de longe dois pontos se encontrando. De lado o perfil, seus cabelos desgrenhados, os braços como cego no escuro, á frente esperando o contato. De baixo, uns olhos tristes, ensombrados, de medo. Por quê? As pernas sem forças. No encontro inusitado de mãe e filha. Súbito surge um urubu. Daqueles enormes que já viu de criação arrancar os olhos. Voa rasante. Vai de encontro à filha? Ai meu Deus suspira. As garras suspende a filha pelos ombros. Antonieta quase perde o fôlego, gritando, solta infeliz, solta minha filhinha os olhos brilhavam com ódio como ao acender de mil luzes. Luta inútil. Não conseguia alcançar por mais que tentava. Na beira do abismo caiu. Caindo via a ave agourenta com a filha nas garras, se distanciando rapidamente. Continuou


caindo no abismo, interminável e desconhecido. E a ave agourenta subiu com a filha nas garras, se distanciando rapidamente. Enquanto isso ela caia. As rochas escarpadas passavam. O vestido velho foi para a cabeça devido à velocidade. Os cabelos entravam nos olhos. Continuou caindo no abismo, interminável ao desconhecido.

Acordou soluçando. O coração pequeno no peito. Quando parou de pensar no sonho, já era noite, nem vira quando Zé chegou. Quis entender tudo, construindo cada passo. Zé vendo que adormecera no banquinho, levou-a para a cama em silêncio. Agora via que era noite alta e ficou pensando no sonho, aliviada. Não passara de um pesadelo, passou a mão pela barriga, sim estava ali, sentia-o palpitar dentro dela. Com certeza ele bebera, sentiu o cheiro no ar. Não tem jeito. Levantou-se pegou água na jarra, Sonho mais besta meu Deus, onde já se viu, deve ser as conversas atravessadas do Zé. Olhou pela janela o negrume da noite, nenhuma luzinha para lhe acudir nesse momento crucial em que os sonhos bons, teimam em não acontecer. “Ô homem idiota, todos sabem que onde comem dois comem três.” Suplicou algo, sabia que mesmo debaixo da escuridão existiam as estrelas, a mesma que um dia avisara aos reis a boa nova. -“Virá com saúde se Deus quiser” - e essa mesma, oxalá estivesse no céu compreenderia toda sua aflição. Porém a ciência nos diz o que há no céu hoje, é apenas imagem do passado, inclusive as do deserto de tempos memoráveis, que brilharam em dezembro, há muito morrera, e muitas morrem e morrerão a todos os dias, chova ou faça sol ignorando os sonhos. Assim viu o sol nascer, as máquinas se movimentarem, os urubus subirem aos céus, os galos cantarem, as chaminés


arderem, e o cheiro do café outrora tão bom hoje lhe dava enjoo.

4

Zé das candeias não saiu para trabalhar

nessa quinta feira.

“O que você tem Zé?” Alem da febre, um calor diferente o queimava por dentro algo que não se cura com remédios. Enquanto tremia debaixo das cobertas, Antonieta trouxeralhe um chá quente de erva cidreira, - é bom para o sangue dissera, atravessou o esgoto a céu aberto que saia do quintal e corria ribanceira abaixo, onde porcos e galinhas chapinhavam e moleques soltavam barquinhos de papel. Ouviu Antonieta cantar. Pela janela viu o cruzeiro, o lixão fumegando, as máquinas. E foi com esse som e cheiros que cochilou e sonhou. Transformara-se numa grande ave preta. Não estranhara como Sancho. Achara até normal, os olhos de rapina, as garras afiadas. Mediu-se no espelho. Não era o corvo. Não. Viu obscuro. Pois os pesadelos são sempre cheio de névoas. Um urubu rei. E como no poema, ele recitava versos de “O corvo” de Edgar Alan Poe. Ouvia o farfalhar das asas e algo assim: “Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!” E ao recitar tão belos versos, comia um cérebro. Seria do filho? Como definir tamanha dor? Depois de saciar-se, bicou o umbigo, e os intestinos de tão pequena criança derramaram-se sobre a mesa. Sem dó engolia. Continuou recitando e engolindo:


“A treva enorme fitando, fiquei perdido receando, Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais. Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita, E a única palavra dita foi um nome cheio de ais Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.” Os olhos eram lúgubres. Esperneou-se na cama. Estava molhado de suor. Ao acordar perguntou-se: Eu o corvo? Não. Não desejo a morte de ninguém. Ficou matutando a tarde inteira o significado de tal sonho. Não chegou a conclusão alguma. Ou para amenizar um pouco a culpa de pensamentos desprezíveis, culpou suas leituras, era chegado a historias sórdidas, lia Fiódor Dostoievski, Kafka e muitos outros. Aprendera a ler sozinho, orgulhava-se disso. Ainda escutou Antonieta lhe falar que teve febre alta e que variando não falava coisa com coisa. Ouviu ainda a descarga do banheiro imaginou o esgoto se enchendo de excrementos, descer a ribanceira em cascatas. À tarde caiu, o sol debruçou-se na encosta, a fumaça mudava de direção a cada instante, olhou para trás, viu o lixão ao longe, fumegando. Levantou-se e foi para o quintal. Encontrou Antonieta vinda do banheiro se se esgueirou para não se trombarem, e a ouviu dizer, que amanhã iria ao médico. Ao pular o esgoto topou numa pedra, (Tantas nos caminhos), porcaria de vida, empurrou o carrinho para os fundos, abriu a cancela, despejou tudo no chão e começou a reciclar.

***

Logo que chegou Antonieta, viu que não seria fácil seu dia. Teria que transpor todo aquele amontoado de gente, pareciam ter vindo de uma guerra, tanto eram os doentes, por ali. De tudo tinha um pouco. Tanto os sentados como os


deitados, recebiam atendimento, ali mesmo. Era tudo na base do improviso. Um mulato que tinha o tórax esmagado tomava o soro deitado e um segundo segurava o vidro no alto. Mulheres, velhos, meninos e crianças jogados pelos cantos como coisas esquecidas. Uns tinham os olhos enfaixados, membros quebrados, dilacerados, gemidos, moribundos em cadeiras de rodas, uma senhora segurava o filho no colo, a moleira abaulada, os olhos em órbita, no geral mulheres grávidas esperando a boa hora, do descanso de nove meses seguidos, dócil esperando o filho. Antonieta aturdida chegou-se para a atendente, um telefone na mão dava ordens fazia a triagem, disse “minha senhora...” não chegou a terminar a frase, a atendente a cara enorme, carnes rígidas de quem nunca esboça algum sentimento, esticou os beiços numa menção que esperasse na fila por obséquio, como todos que estavam ali pelos cantos. A fila estava desconexa. Gente deitado, em pé ou carregados. Uma vozinha miúda acordou-a: -Não se preocupe, é todo dia assim. Era uma criança de olhos lindos, cor de mel. Tinha algo de triste no seu olhar. Continuou: - Já me acostumei. Passou a mão sobre a sua cabeça careca. Perguntou: -O que você faz aqui, tão pequeno e lindo, meu filho? -Faço quimioterapia. -E o que tem aí nessa caixa? Querendo mudar de assunto. -Meus brinquedos. -E porque não os tira? -Estão tristes. -Qual o motivo? -Por mim.


-Tira-os para passear, que eles ficarão alegres. -Já falei com eles, mil vezes que não ligassem para mim, pois eu tenho minha vida eles as deles. -E o que eles falam? -Não falam. Ficam assim como estão. -E como eles estão? -Amuados. -Diga-lhes que você é forte e vai sair dessa. -Já falei. É só quando me veem chorar que ficam assim. Mas vou levando, o pior são as náuseas, as tonturas... O resto suporta bem. Até a tristeza deles. E você o que tem? -Estou nos dias de ganhar meu nenê. Espero ter uma criança linda como você. - Que ele tenha melhor sorte do que eu! Desejou o menino sorrindo. Antonieta engoliu um soluço. A atendente chamou o menino. Ele foi com passos indecisos, miúdo. Ela seguiu-o em pensamento. Viu-o claramente sentar na cama de lençóis brancos, o médico perguntar coisas, ele deitar, via pelos seus olhos o teto branco, tudo limpo, nenhuma aranha viva, os corredores frios, as mãos frias. Lembrou-se a primeira vez que foi num hospital. Foi visitar o pai que sofrera um derrame cerebral. Vêm na lembrança, corredores frios, portas entreabertas mostrando os sofrimentos, pessoas por um fio, crianças no berçário, uns chegando outros partindo. Entra no quarto do pai. Lembra quando o via sempre ao pé do velho rádio Mullard, valvulado, sentado na cadeira de balanço, sempre atento à hora do Brasil, aquela música esfuziante de Villa Lobos, notícias urgentes, a sombra dele enorme na parede. Era como olhar uma montanha de longe, ansiosa por


descobrir seus segredos. Entra no quarto. A respiração entrecortada no aparelho. Bip... Bip...Bip... Num ritmo lento. A mãe na cabeceira. Cumprimentou-a com um aceno. Tudo parado, os movimentos, os sentimentos represados na garganta. A mãe falara sussurrada: -Fale qualquer coisa, talvez ele reconheça sua voz. Ele a admira muito. Os olhos umedeceram. Na mãe ela viu as rugas, o cabelo brancos, recém-pintados, vaidosa, a voz já fraca. Acrescentou com um sorriso: - Hoje de manhã ele apertou minha mão. Não queria soltar. Antonieta tentou falar algo, não saiu. –Segure então em sua mão, disse-lhe a mãe. Fora como tocar numa árvore de casca grossa, cheia de calos. A boca cheia de tubos estava sem a prótese, às pintas escureceram-se mais, o rosto um desassossego, daquele homem enérgico. Nas peças que fazia no torno, tão perfeitas, tão delicadas. “O que ele faz é perfeito, diziam” Quase ouviu dizer o que sempre ouviu dele: “O homem vale o que tem”. Lembra-se dele como uma pessoa enérgica, mas cheia de amor, inibido pelos sentimentos. A máquina ressoava os bips. Inflava o ar nos pulmões. -Senhora! Chegou a sua vez. Acorda dos pensamentos. O médico a recebe com um bom dia. Apalpa-a, ausculta-a e mede-a. Escreve rápido num papel branco, ela pensa no menino, o que seria dele, ora para todas as crianças do mundo. Diz subitamente: -O que será dele doutor? -De quem?


-Da criança. O médico tirando o estetoscópio. -Nasce por esses dias. -Não o meu doutor! O dos olhos tristes. -Tem um mês de vida.

***

Um homem, espadaúdo, subia a estradinha que dava para o morro. Olhou em volta, “Grandes possibilidades de se dá bem aqui.” No primeiro serviço que arrumou conseguiu comprar um lote. Construiu para si um barraco destes que vemos pelas marginais de todas as cidades de médio porte, ambicionando para o futuro dias melhores. Logo perdera o emprego e começou viver na clandestinidade. Os tempos eram outros. Devia ser culpa de meus pecados dizia para si. Fora sempre uma pessoa temente a Deus isso era o que dizia, verdade era que nunca usou os atalhos, preferia os caminhos já traçados. Teimoso, dizia-se de si que a infância não fora fácil, que fizera muitas burradas na vida que Deus o perdoar-se, pois queria melhorar a todo custo. E o que fizera para trás era passado no íntimo sentia o que era realmente, foi quando conheceu os heterônimos, fora como tomar um choque num fio desencapado, e desde aquele dia, ficara como se olhasse o mundo e as coisas como as transpassando, aquele olhar que somente quem os tem é: os poetas e os loucos. Depois conheceu Antonieta e se apaixonou. Talvez porque ela tinha o olhar meio perdido. Foi numa dessas tragédias que a natureza prega na gente. Uma encosta caiu no período de


chuva, destruindo toda uma rua. Gente houve que perdera tudo. Antonieta era uma delas. Foi morar com outros, debaixo de um viaduto. O que chamou a atenção dele foi quando tudo aconteceu, toda aquela destruição, mulheres tinham perdido maridos, homens, filhos todos choravam e ela suja de lama, os cabelos destrambelhados, os ajudava solícita, uma jornalista sensacionalista perguntara de onde ela retirava forças para ajudar os outros, tinha havido mortes. Ela, Antonieta, olhara para a câmera e falara baixinho: - Não perdi nada que o valha somente um pequeno caderno de poemas. E caíra no choro. Isto lhe marcou eternamente. Como uma mulher vivendo em tão precário estado conseguia ler poemas e principalmente de amor? Era inacreditável.

5

Zé das candeias se via num caco de espelho,

pendurado na

goiabeira, onde fazia de vez em quando a barba, e pensava que tudo ainda era um sonho, simplesmente um sonho, que logo viria a cabo cedo ou tarde, pois sabia que a roda da vida não parava tudo é movimento oscilatório como os pêndulos de um relógio. Ansioso e medo pelo novo talvez porque nunca ousara andar sem saber onde punha os pés. “Acho que somos gados soltos pelo mundo sem destino.” Enquanto os beiços assoviava uma cantiga vinda dos cafundós do tempo. Depois lavou o rosto e puxou o engradado que fazia a vez de banco, entornou no prato um caldo fino de feijão, misturou a farinha de mandioca, fazendo bolinhos com a mão e foi engolindo em silêncio. Lembrou-se de Antonieta quando começou os enjoos. “Parece que foi ontem quando ela lhe disse chorando estou grávida,


assustado olhou-a de soslaio, viu a barriga sequinha sinal nenhum de gravidez, ora deve estar em embrião, pensou.” -Você viu? -O que? -Tanto movimento hoje. La em cima o ronco das máquinas, parecia monstros. -Já sabem o que vão construir? -Os filhos da negra Adelaide passaram agora mesmo e eu os sondei. Ouviram homens falando, de papel na mão, riscando o chão e diziam que as alamedas começariam daqui de baixo e ia até no pé de morro, e nesse ponto ouviram bem, a numeração na esquerda era par, e o da direita ímpar. Ainda falou que era assim sucessivo, para as famílias não se perderem. Tive pensando mais cedo, vai ser bom para todos nós, você pode trabalhar de jardineiro, registro na carteira... -O mesmo pensei de você... Antonieta levantou-se da mesa e jogou o resto de comida na pia, - os enjoos. Estava pensando outro dia que seria melhor para nós, largarmos o lixão, que essa vida que temos é uma desgraça, só comparada aos dos bichos e às vezes pior, Deus me perdoe. Zé das candeias se levantou, novamente no espelho, viu as carnes flácidas, e os olhos fundos, deteriorando-o vivo, sem brilhos. “É... Estamos ficando velhos vem aí um filho, temos que pensar em seu futuro. Sorriu e viu os poucos dentes que tinha estavam amarelos, a língua saburrosa e as gengivas inchadas. Vincos fundos sulcava o rosto. “Os músculos, carnes, vísceras e ossos formam o corpo, - carcaça que mais cedo ou mais tarde os vermes comerão e restará o espírito, Dizia sua madrinha quando ele triste perguntava: Por que


tinha nascido”. Todos tem uma missão na terra.” “Qual seria a sua?”. Antonieta desde quando menina fora uma arteira. Trabalho dera para nascer, dissera a mãe. Nascera virada empurrando o mundo com os pés. Andou com sete meses, e as pernas arqueadas davam-lhe um ar de pata. Desde garota tinha loucura por passarinhos, ficava horas embaixo das juremas, dos juazeiros para ouvir seus cantos. Logo piava igual em imitá-los. Primeiro foi os bem te vis depois o canário da terra, o sabiá. “Mãe eu gosto tanto mais tanto queria todos para mim.” Assim é que se tornou exímia construtora de gaiolas. Andava sempre com canivete e palitos na mão. Esquentava um arame no fogo da candeia e furava para passar os palitos. Veio o primeiro alçapão. Pegou um canário. Ficou embriagada quando o sentiu na mão, trêmulo, coração aos pinotes. Encheu a parede de casa. Um belo dia quando lhe veio à primeira menstruação, falou com a mãe, “O canto deles quando presos é tão triste, que me da melancolia.” Nessa mesma manhã soltou-os a todos. O trinca ferro pousou no angico ali perto Cantou: “bom dia seu Chico” olhou em volta com os olhinhos pequeninos e voou para longe. O pintassilgo pousou na borda da mata e fez tiiii-tiiii-tiiii-tiii-tititititititititititititititi. Na vez do coleiro, ficou na cumeeira: tuí-tuí, zel-zel. Ela dissera: -Xô passarinho lindo, vai embora! A partir desse dia, gostava de ouvi-los cantando pelos matos soltos. Foi quando numa manhã daquelas depois de um temporal tudo é belo as plantas respiram a mata em sons de alegria, saíra, mas cedo para ouvi o galo de campina nos juazeiros. Ah! Canto bonito. Fora encontrada depois toda machucada sangrando. Nunca se soube da verdade. Uns falavam dos ciganos que sempre passavam por ali todos os anos. Outros dos vaqueiros que


voltavam das vaquejadas. Desde esse dia ela emudeceu. Ficou mais sisuda, tinha dez anos, uma criança, falaram. Maldade só. Como poderia, nem peito tinha lisa como menino, maldade só. Depois vieram à seca, a maior e todos partiram, os pais morreram, ficara só no mundo. *** Zé das candeias sempre gostou do contato com a terra, os pés descalços, sentindo a areia, o barro molhado, o bagaço da cana. Ruim era pisar em espinho de juá, atravessava a sola do pé como dói, gostava de viver livre, defecar de cócoras no mato, o céu azulzinho e distante, longe da gente, longe de tudo, desabrigado, feito bicho no pasto, sem dono, sem amor, no sofrimento diário. Muitas vezes pensava na morte e dizia, não quero morrer de morte matada, nem de doença ruim. Que seja amena, como o murchar de um galho, secando, perdendo o verde, o cheiro, cor, que seja devagar e sem dor, tomara que dormindo, é morte melhor; não a dos santos, pois não mereço, com a vida que padeço, com os pecados que carrego. Sonho teve e tem muitos, sonho. Conheci muitas mulheres antes de Antonieta, mulheres que senti não eram para mim. Teve uma, que se chamava Liberdade. Vestia um vestido todo listado de vermelho e quando a mandei se despir vi a calcinha toda enfeitada, porra, cheios de laços e penduricalhos, tinha cinquenta estrelinhas num fundo azul. Tudo para chamar atenção e foi tirando tudo sem nenhum rubor. Uma quenga logo pensei, pois mulher honesta se conhece pelas mãos porra, brilham a óleo de cozinha. Essa as unhas eram vermelhas, bem feitas, enorme, como garras. A xoxota tinha só uma tira de pelos bem rentes ao buraco. E aí não tive dó nem piedade dela. Quando enfiei a rola como gemia! Essas não me enganam, mulher honesta não geme, ou geme no ouvido, gemidos engolidos com o prazer, sem se olhar no espelho como essas devassas. Mandei logo ir chupando minhas bolas. Caralho! Ela chupava com uma carinha de rata quando come queijo,


os olhinhos ficavam pequenos. Depois a coloquei de quatro e aquela bunda branquinha mandei ver. Dei umas tapas bem dado na bunda, bonita bunda, mas de vagabunda, ficou vermelhinha, gozei bem dentro aproveitei cada centímetro daquela buceta. Enfiei o dedo no cu dela só para sentir o calor. Já quando conheci Antonieta o negocio foi diferente. Ela entrou desconfiada no barraco, passou direto pela cama e sentou-se aos pés de uma pilha de livros que nesse tempo eu tinha. Mexeu em todos, tirou um, abriu numa página e leu: “Da minha aldeia vejo quando da terra se pode ver no Universo... Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer Porque eu sou do tamanho do que vejo E não do tamanho da minha altura... Nas cidades a vida é mais pequena Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro. Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave, Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu, Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar, E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver.” Depois com uma vozinha pequena e triste completou: -Alberto Caeiro, e fechou o livro. Sentou-se sobre a mala de madeira onde guardava minhas roupas balançando as perninhas finas cheias de veias azuis. As unhas dos pés pintadas de branco, um laço rosa prendendo os cabelos, uns olhinhos saltitantes e escuros cobertos por cílios longos e arrebitados. Estava triste, pois tinha perdido tudo e lhe ofereci meus livros, que anos e anos juntei-os em minhas caminhadas. E transamos uma semana depois ela lendo um poema para mim. Nesse dia resolvemos juntar os panos, dividir nossa vida.


6

Os últimos meses foram medonhos. Antonieta inchara tanto que parecia uma pipa. A enorme barriga, sem jeito, deitar era difícil, andando de pernas abertas, bufando com o peso, de vez em quando acariciava a criança, o atrevido dava-lhe chutes avisando, e nessas horas ela me mostrava, e eu achava muito estranho, parecia mesmo um saco de batatas, o desenho perfeito dos pés, empurrando, encontrando ou procurando espaço, sem importar com as dores que causava. Desde a formação, somos uns egoístas, quando os espermatozoides em verdadeira maratona, correm deixando atrás os irmãos, tudo para entrar no óvulo e fechar a porta para os outros, e essa concorrência se levará por toda uma vida ou mil vidas, se preciso, para aplacar toda a ganância, verdadeiros sacos sem fundos. O doutor me levou pela mão, as roupas brancas brilhavam ao sol. “A criança nasceu, venha vê-lo, foi dizendo, - Deus que tudo sabe e manda a cruz para cada, com o peso que podemos carregar, e o senhor é forte”. “Que palavras sem nexo, nenhum filho é cruz, cruz, Jesus carregou para nos salvar, E maior jamais terá, diga-se de passagem, mesmo sendo ele o Filho. – Quero ver meu filho!”. O corredor de uma cor só; sem graça, branco, a luz fria, ambientes frios, cheiros repulsivos de medicamentos, pessoas andando silenciosos, doentes deitados olhares queixosos parados em algum lugar fora daqui, às vezes em algum campo, quando nos sentimos presos ou tristes é o campo que vem primeiro na mente, a relva verde, os pássaros as nuvens formando figuras a brisa, ah! A brisa como é bom senti-la bater no rosto, “Essas coisas acontecem!”, “o rosto, sim o rosto era isso que o doutor queria dizer, olhando-se bem se


parece com ambos.” - Defeito na formação disse, não vai andar nem falar, a vida tem dessas coisas. Passou o braço sobre os meus ombros. Quando entrei no quarto vi Antonieta despenteada, o olhar perdido, quando me viu entrar engoliu seco, já tinha visto, me chamou no canto, pegou na minha mão forte, mais forte do que outras vezes e sussurrou, é nossa filha apesar de tudo e quero respeito. Não se falou mais nisso. Ali naquele momento soube o que há muito pensava. Que o mais importante em um ser é a alma, ou espírito. E aquele ali, veio naquela forma, me deu um leve sorriso, mostrava que as aparências enganam e, monstro não era e iria amá-la pelo resto da vida, Deus perdoa mais quando peguei aquela coisa no meu colo, aquele corpo achatado, com dois prolongamentos de membros pareciam garras, a cabeça enorme e mesmo assim sorria, mostrando as gengivas vermelhas e babadas, sou eu filha, estarei do seu lado sempre, para o que der e vier, enxugou as lágrimas que brotavam do canto do olho. “É muita emoção falou o doutor, ela vai precisar muito de vocês, muita compreensão e amor, tenha fé em Deus que é pai”. “Obrigado doutor desculpe, pois é meu primeiro filho”. “Vou visitar outros pacientes, fique com Deus, me abraçando”. Antonieta nesse momento suspirou, talvez sonhando, traga ela para mamar, disse oferecendo o peito e a coisa sugou com força, e ela fechou os olhos e cantou uma canção de ninar bem antiga que todas as mães cantam, e ouvi só o deglutir, e o sugar, sons inerentes a recém-nascidos. Saí exausto do hospital. Parecia que passei todo o dia a caminhar. Quando subia o morro alguns moleques mexeram comigo e não dei importância, antes quando ouvia “Zé das candeias”, assoviava alto, imitando o freio de um trem, vi latinhas e fui catando, pois agora éramos três, e a vida tava difícil, o sapato apertava os pés, retirei-os, pendurei-os no


pescoço, uma figura interessante eu era, o saco nas costas, o sapato no pescoço, um chapéu largo na cabeça, outros falavam eu acenava com a cabeça um perguntou que bicho te mordeu nada não, minha filha nasceu, com saúde é o que pedimos amanhã todos vão saber, vão falar nos bares, nas praças e até nas igrejas, esse povo sabe falar e notícia ruim vai de avião, e foi dando um aperto aqui no meu coração, e aí parei no adro da igreja aproveitei e rezei o padre nosso, era o que sabia rezar, o que vou fazer, pedi força e paciência, lembrei-me de Jó, teria eu toda aquela fé, senti uma força inabalável, espero que qualquer ventarola não me balance como as folhas de uma palmeira. 7

A menina todo dia empurrou-na para o banho de sol. Era o dever de Zé das candeias. Já não buliam com ele. Tristezas não se podem enterrá-la simplesmente, pois logo as raízes crescem em mil feixes minúsculos e de tempos em tempos brotam como ervas daninhas. E o direito ao sol todos tem até os prisioneiros. É vitamina para o corpo e todos os dias, deixavam-na na calçada e ela contente com a luz começou a estirar os membros que mal pareciam braços e sorrir inocentemente para os transeuntes, e essas tentativas de alegria, pareciam mais gemidos. Consternados com o que viam passaram a jogar moedas no reservatório dedicado a colher suas excreções. Vanusa que significava esperança era seu nome, escolhido entre mil pela madrinha de batismo, coitada, com o tilintar das moedas sorria, e balançava os membros, como agradecendo e abria a bocarra, e as crianças passavam ao largo. Quando o sol esquentou, àquela hora em vez de remédio se tornaria veneno, Zé das candeias subia e a empurrava para a sombra sem antes receber dela gemidos e caretas que já se acostumara. O que tinha de melhor no homem era a semelhança que diziam ter com Deus. Zé


brincava com isso, dizia era a imagem no espelho: Semelhantes e tão contrário. Um nobre o outro com tantos sentimentos sombrios. Assim foi que Antonio Candeias, viu a bacia repleta de moedas. Ofendido em seu orgulho, dissera, sempre trabalhei nunca precisei de esmolas, era pobre, mas nenhum mendigo, que Deus o livre aceitar aquilo, empurrou a porta que abriu num rangido, Antonieta acocorada em frente à panela, o radio sobre o engradado tocava uma musica qualquer, deixou acabar para quebrar o silencio, pois quando Antonieta estava assim, não podia chama-la atenção, “Venha Vanusa, deita aqui puxou os papelões fez uma esteira e deitou-a, Antonieta fez uma graça como fazem para crianças, alguma careta ou fala-se com voz fina e recebeu de volta movimentos de braços e pernas”. Os olhos fecharam como janelas e na penumbra agradeceu a Deus. Que cara essa homem, parece que viu alguma assombração! Pega do prato aí e almoça, deve ser fome. -Não, não é veja e empurrou a bacia. –Meu Deus quanto dinheiro! O que vai ser de nós agora. Zé das candeias comeu em silencio, o caldo ralo de feijão tomou um copo fundo de água, jogou o resto no tronco da goiabeira, depois um copo de café e acendeu o cigarro. A fumaça subiu pelo furo no teto, vai empestear a menina, Falou Antonieta, ele foi pra fora se sentou no banco, as máquinas pararam para o almoço, só os urubus voavam em círculos e alguns meninos gritavam pulando dos barrancos. Disse depois de pensar longamente: -Vamos cedo à igreja e doamos a igreja, deve ter alguém precisando mais do que nós. Não precisamos disso, passamos aperto eu sei, mas nunca pensei ganhar dinheiro desse modo. Deitou-se no papelão e por distração foi contando as moedas, centavos por centavos e viu que o arrecadado num


dia, dava toda uma semana por ele trabalhada. Uma aranha no teto tecia sua teia. Guardou num saco em cima da mesa. Como prometera no outro dia levou para a paróquia e foi recebido pelo padre com alegria. Pensou que seria improvável aceitar aquelas ofertas, tinha sangue nas veias, a família não teve e nunca terá mendigos ou pedinches. A honestidade em primeiro lugar ou a esperança é a ultima que morre e que aos humildes e pobres o reino dos céus. Depois para si, desconfiava que, tais filosofias foram criadas para mantê-los quietos, pura mordaças que vinham dos séculos e séculos, mantidos em evidências, pelos que eternamente se mantinham no poder e para sempre como os reis e príncipes, os ditadores; e ao povo a canga, a miséria, o resto, como cães miseráveis. E em sua cabeça fervilhava ideias, vinham em forma de triangulo, e em seus ápices a matéria, dinheiro e a base à ganância. Outras vezes poliformes voavam círculos, pentágonos, e mil formas diferentes tendo às vezes como base a fome e a miséria. No seu entender a ganância era a maior miséria humana, pois diante dela, o homem não tinha limites, e tendo um, quer dois; se dois quer três isso indefinidamente. E esses produtos que se tornam indispensáveis à vida são vermes a empreita. Como cancro ou o câncer, vai comendo nosso âmago, multiplicando-se em células ruins, destruindo os órgãos, os homens a vida.

8

-Sai daqui! Sai! Vamos! Pestilento! Foi assim Antonieta, que o velho falava. Logo quando cheguei ao lixão de manhã. Pegou um galho seco e atirou sem


dó. O cão, coitado, deu uma volta de noventa graus safandose da pancada, que se pegasse arruinava a anca traseira. Tinha mais ou menos cinquenta anos, pois a vida que levamos, tira-nos muitos anos de vida. O cão molhado da neblina, os pelos sujos colado ao corpo deixava-o mais franzino. Mostrou irritados os dentes, e andou para o lado, esgueirando com o rabo entre as pernas. Parou debaixo de um pequeno arbusto e na sombra ficou lambendo as feridas. O velho, porra! Olhou-me de alto a baixo, catou o que queria, espalhando como fazem as galinhas quando ciscam, empurrando para trás com os pés o que não lhe servia. Quando encheu o saco roto, olhou o sol, ardia na pele imunda, já bastava pensou, colocou-o nos ombros e passou por mim bufando. Só quando o velho trôpego desceu a estradinha, passou sob o cruzeiro, nesse instante o cão saiu da toca e esgueirou-se em minha frente, você precisava ver, me olhou de uma forma porra, com os olhos tristes, puxou um naco de carne e comeu. Olhei paro o alto, prestando atenção nos urubus, que com o cheiro de carniça, circulavam afoitos, quase rentes, os bicos semiabertos, planando a nossa frente, os olhinhos batiam descompassados e giravam as cabeças de um lado pro outro. O cão depois se levantou como que dizendo nunca se sabe, ainda não estou morto, rosnou paro alto, nesse momento um urubu baixou próximo, levantando poeira e fumaça com as asas. Não se importavam com nossa presença, ficou nos olhando soberbo, indiferente a paisagem. O que nos distinguia era somente nossa arquitetura, nosso modelo ou corpo nossas almas, esta era similar, só queriam viver e para sobrevivermos eu tive certeza naquele momento, até matamos. *** “Minha filha o que tem, doutor?” “Um pequeno aleijão dissera, ficando mais sério, depois com um ar de riso, para me acalmar, pois ele viu de soslaio enquanto ia relatando que eu também quisera rir.”


-Ah! Ah! Ah! Coloca mais uma cachaça aqui Severino! Passa a régua. Verdade! Quase ri! Mas não era prá ri? “Eu principiei a querer ri porque me lembrei de uma piada que ontem mesmo quando tomava uma cana, um colega me contou quase morri de ri”. Era o mesmo assunto, um pai, coitado recebeu a notícia do nascimento do filho. O médico falou com ele a mesmíssima frase. -Ah! Ah! Ah! Socava o balcão. Mais uma Severino! Respirou fundo e a virou de goela abaixo. -Não esta bebendo demais Zé? Falou Severino, passando a toalha sobre o balcão. -Não enche! Bota mais uma. “No berço uma coisa que parecia ter uma forma de orelha, Seu filho, disse o médico. O pai, coitado, com o carinho que lhe é peculiar falou alguma frase carinhosa, como falam os pais: - pobre filho, ou meu filho, - ou qualquer coisa que o valha, nisso o médico interveio: - Pai, fala mais alto que ele é um pouco surdo.” -Ah! Ah! Ah! Zé gargalhava segurando a barriga. Os olhos encheram-se d’água. “O riso que quase dei ontem aflorou nos meus beiços.” Acordou dos pensamentos com a mesma frase bradando em seus ouvidos. “Um pequeno defeito!” “Não pensei em nada, ou somente na piada.” “Sua filha tem um aleijão, - calou-se por uns segundos, -mas que diabo, é minha filha.” Fixei os olhos do doutor, seu olhar, os olhos acostumados a tudo, não brilhava, vi alguns pelos que saiam em suas narinas, com tanto zelo com os filhos dos outros nem tem tempo de cuidar de si, uma veia batia no seu pescoço, o hálito ardia como fogo em minhas ventas. Gemeu alguma coisa imperceptível e desapareceu no corredor.


“Que dó me deu de mim, de Antonieta e de minha filha.” Fui andando pelo corredor sem rumo, uma cruz na parede. “Que sofrimento pensou.” “Ela estava no berçário, o doutor me puxou pelo braço mais uma vez e vi aquela coisa que tinha somente tronco e membros curtos, só pensei numa tartaruga, é uma tartaruguinha. Aquilo para mim fora demais. A gota d’água. Caí na gargalhada. Todos me olhavam estupefato. Outra piada me veio à cabeça. Nessas situações, morro de ri, não sei por que. No enterro do filho da Velha Quitéria quando vi aquele menino que era magrinho, gordo como uma baleia, o defunto, as mãos cruzadas no peito os lábios pálidos e as unhas compridas, desatei a ri. A Velha coitada me olhou com uma cara de compaixão! Não consegui parar de ri. Fui expulso do velório e nunca mais fui convidado para tal. Ria da miséria dos outros.” Pediu a saideira. Bebeu de um gole, e saiu tropeçando nas cadeiras. Ria alto, cutucou nos bolsos atrás de cigarros tirou um num maço todo amassado e acendeu depois de várias tentativas. Severino olhou para os fregueses que sem entenderem nada, por isso fez com o indicador aquele sinal que significava louco. ***

Uma bela manhã, quando Zé das candeias voltava do banho de sol, a filha sorria, as moedas tilintavam na bacia, Antonieta chegou cansada, faltava ar, pois viera correndo desde a rua de baixo, e engolindo as palavras soltou a notícia: -Não é condomínio não, torcia as mãos uma na outra, Filhos da puta nos enganaram direitinho. É um cemitério. Chama-se parque da saudade. Colocaram a placa agorinha mesmo. Olha o folheto. Estica um papel em direção dele. No papel falava de última morada um descanso para a família. Incitava o público em geral comprar já o seu lugar, dizia por


fim em letras garrafais, uma visão de toda a cidade, pertinho do céu. Zé das candeias deu um soco na perna, trincou os dentes, enganaram-nos direitinhos. Antonieta continuou: -Dizem até que os barracos já caíram de preço. É a única verdade nessa vida, - a morte, - mas ninguém quer vê-la do quintal. Dizem que é uma vista desprezível e melancólica. Zé das candeias sentiu um aperto no coração, voltou a empurrar o carrinho, Vanusa, indiferente a tudo sorria para o sol. -O que vamos fazer agora Antonieta? Vender flores? Água mineral nos velórios? E isso, veja, apontou a bacia repleta de moedas. Como dói meu coração. Nunca fomos de aceitar esmolas. Antonieta arrumou o cabelo encarapitado, enfiou um grampo baixando as pontas e andou na frente ajeitando a saia. -Ontem quando fui deixar o dinheiro na paróquia pensei, porque não ficar com um pouco para nós? Parou na estrada e mostrou os pés. Comprei uma nova sandália veja. -Que pecado Antonieta! O dinheiro do padre. Ela fez uma cara de quem não tá nem aí, dizendo: -Pelo que eu saiba eles doam para nossa filha, não deve ser pecado tirar um pouco para as necessidades. Soube que o padre, tira um pouco para as obras, um pouco para eles e o resto manda prá Roma. E eu pensei comigo, Roma ta tão longe... -Mas eu acho... Antonieta sem deixá-lo terminar: -Aquela carne ensopada que eu fiz, ontem, bem que você gostou, fala se estou mentindo? -Verdade, mas...


-Soube também que a igreja é riquíssima! Pois as mãos nas ancas: -E ontem Zé, quando vi você subindo o oitão lembra, o sol batia em suas costas, vi a sua sombra no chão. Juro que não estou brincando, mas como você parecia com um burro de carga. De tão grande que era o volume que carregava. Você não merece isso homem, nós não merecemos. E se as doações é para nossa filha, mau nenhum terá em usufruirmos delas. Depois dessa conversa Zé das candeias ampliou o raio de atuação levando a filha lá para as bandas da capelinha onde diariamente havia um funeral. Os parentes dos mortos quando se defrontavam com aquele ser horrendo, triste pela perda de um ente querido, não economizava nas esmolas e a vida deles, Zé das candeias, Antonieta e filha melhorava a olhos vistos. Meses depois todo o povo notava a melhora a olhos vistos. O barraco tinha antena parabólica, comprara um velho carro, a telha trocara pela de cerâmica, fizera um puxadinho, onde Zé das candeias depois do serviço tentava alguns versos, Antonieta passava a roupa e a filha ria feito gemidos. Seis meses depois quando tudo corria como um rio tranquilo, uma chuvarada de protestos caiu-lhes sobre suas cabeças. No domingo, o sermão do padre Damião dizia assim: “Tem paroquiano, trazendo suas mazelas, para o adro da igreja e capelinha”. “Aproveitam os bons sentimentos dos outros, não sabendo estes que a paróquia tem planos para ajudar as pessoas que realmente precisam”. Por isso, a partir de hoje, falou o padre alto e em bom som, ficavam terminantemente proibidas às esmolas no entorno da catedral. Se quiserem doar, irmãos têm o dízimo. -Ele falou de nós Antonieta! Se pudesse àquela hora, cavar um buraco a meus pés eu teria feito e desaparecido, de tanta vergonha que passei. E olha que teve uma hora do


sermão que ele nos fitou, como o olhar de Judas para Jesus, antes do fatídico beijo. -Depois veio dar a mão para gente. Que a senti macia que nem bunda de nenê, pois nunca trabalhou na vida, deve ter ferido quando tocou a minha, veja, parece casca de angico. Olhou para as próprias mãos. -E ainda nos chamou de ricos você viu? Dissera: “ Esses falsos pobres que andam por aí usando da bondade divina” – Será que é porque colocamos dentaduras novas, e nosso rosto deixou de ter aquela cor macilenta, os contornos arredondaram-se e as dores famélicas, estas não sentimos mais? Ele é que não sabe que aprendi desde cedo o conceito de apertar o cinto no sentido conotativo, lá pros doze anos o meu cinto achava-se no último furo, quando muitas vezes era acordado por cólicas provocadas pela fome. E que na miséria não há tempo para chorar e a vida não espera, o mundo gira. “Meus pais sumiram pelo mundo me abandonaram sozinho. Temos que ser forte bola para frente, Sobreviver não é fácil Antonieta, dia e noite empurrando esse carrinho, defendendo uns trocados para sobreviver.” “Fui treteiro menino solto no mundo e o mundo nos ensina e nos corrompe.” Assim foi a hora que o vimos subir o morro, falava sozinho ou com seus fantasmas quando o menino gritou “Zé das candeias” e ele fez os trejeitos com os pés e as mãos, e depois olhou em volta e viu de onde estava, o cruzeiro, e logo atrás as cruzinhas todas enfileiradas, umas pintadas de branco, outras abandonadas a sorte. Suspirou: -Ah! O Flamboyant! Viu o tapete de rosas vermelhas que se formavam todos os dias quando as flores caiam e sob a sombra desse flamboyant, duas cruzes brancas com os nomes em negro: Antonieta e Vanusa - eternamente.


Uma febre, uma virose levara Antonieta e Vanusa ao mesmo tempo. E esse tempo o cemitĂŠrio jĂĄ era quase todo habitado.

Fim

Á Sombra do Flamboyant  

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