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Programa de Iniciação Científica – ProIC 2012/2013 Conselho Nacional de Pesquisa– CNPq Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - FAU/UnB

Arquivo Público e Patrimônio Moderno: o caso da Ermida Dom Bosco

Marina Azevedo Lira Graduanda FAU/UnB

Dra. Ana Elisabete Medeiros Orientadora Professora Adjunta do Departamento de Teoria e História da Arquitetura e Urbanismo FAU/UnB


Agradecimentos Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento e Pesquisa – CNPq, que permitiu a possibilidade desta pesquisa, juntamente com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES, que financiou-a durante o período de um ano. Ao Wilson Vieira Jr, Elias Manoel da Silva, Jader Silva de Oliveira, Carmem Pereira de Souza, Rita de Cássia Alves da Rocha e demais funcionários do Arquivo Público do Distrito Federal que contribuíram com informações para a realização desta pesquisa. E, em especial, à Ana Elisabete de Almeida Medeiros, que orientou com dedicação e excelência o desenvolvimento desta pesquisa.

Arquivo Público e Patrimônio: o caso da Ermida Dom Bosco1 Resumo: A Ermida Dom Bosco foi construída em 1956, antes mesmo da construção de Brasília, sendo um marco para a cidade e, em 1988, foi tombada como patrimônio moderno do Distrito Federal. A presente pesquisa busca estabelecer a relação entre preservação e documentação a partir do estudo de caso da Ermida Dom Bosco e do Arquivo Público do Distrito Federal, local onde as memórias mais importantes de Brasília estão preservadas. Palavras-chave: Ermida Dom Bosco, Arquivo Público do Distrito Federal, Patrimônio Moderno, Brasília, Documento.

Abstract: The Dom Bosco Shrine was built in 1956, even before the construction of Brasília, as an important object to the city and, in 1988, it was recognized as Federal District’s modern patrimony. This search looks forward to estabilish the relation between preservation and documentation from studies about the Dom Bosco Shrine and the Public Archive of Federal District, which holds the most important memories of Brasília. Key words: Dom Bosco Shrine, Public Archive of Federal District, Modern Patrimony, Brasilia, Document.

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Obs: Imagem da capa retirada do arquivo digital do Arquivo Público do Distrito Federal


INTRODUÇÃO   “Israel Pinheiro sempre desejou que fosse D. Bosco o Padroeiro de Brasília. Tudo estava a indicar que esse era o caminho certo. Não só sua profecia se concretizara, como os sacerdotes da Ordem por ele fundada, os Salesianos, haviam marcado com sua presença pioneira e mesmo com gestos simbólicos de grande força os primórdios da nova capital.” – TAMANINI, L. Fernando.

A construção da Ermida Dom Bosco foi concluída em 31 de dezembro de 1956 segundo o desejo de Israel Pinheiro de consagrar Brasília a D. Bosco, santo que segundo a crença geral previra em sonho-visão em 30 de agosto de 1883 o surgimento de Brasília entre os paralelos 15º e 20º. Israel Pinheiro, que na época era presidente da NOVACAP – Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil e, mais tarde, prefeito de Brasília, fez questão de erguer, antes de qualquer coisa, esta homenagem a Dom Bosco. Considerada a primeira obra de alvenaria de Brasília, algumas fontes indicam que o projeto foi assinado por Oscar Niemeyer, como a própria placa existente na Ermida Dom Bosco, ainda que existam controvérsias quanto a essa questão. Tombada pelo GDF – Governo do Distrito Federal, como patrimônio em 02 de março de 1988, a Ermida possui um valor histórico único em Brasília, pois representa a concretização de um sonho, o marco de construção civil. Além disso, confirma uma das características marcantes da Capital Federal, que é o misticismo, presente antes mesmo da conclusão da própria cidade. Por ser um patrimônio do GDF, a Ermida Dom Bosco deveria ser melhor valorizada e conhecida pela população. Entretanto, inexistem publicações que levem ao público especializado – arquitetos, urbanistas, engenheiros – ou leigo informações acerca deste bem patrimonial. A despeito dos avanços das discussões acerca da preservação do patrimônio resultante da arquitetura e urbanismo modernistas, o tema ainda é muito recente. Assim, as poucas atenções a ele destinadas resumem-se, quase sempre, ao Plano Urbanístico de Brasília, reconhecido como patrimônio mundial pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, ou às expressões paradigmáticas da arquitetura modernista reconhecidas como patrimônio nacional, como é o caso da Catedral Metropolitana, do Palácio do Itamaraty, entre outros. A preservação do patrimônio moderno está intimamente associada à questão da documentação: é o documento que garante a autenticidade do patrimônio, valoriza-o, além de ser imprescindível para qualquer tipo de intervenção futura. Logo, é necessário que a documentação existente sobre um patrimônio moderno esteja reunida, preservada e devidamente identificada para que o bem patrimonial possa ser preservado da melhor maneira possível. Então, neste contexto, entra em cena o ArPDF – Arquivo Público do Distrito Federal. Criado em 1985 com o objetivo de contribuir com a preservação dos acervos documentais, o ArPDF conta com o Fundo NOVACAP, considerado Memória do Mundo2 pela UNESCO, destacando assim a importância da sua preservação, em especial do Fundo NOVACAP, para a humanidade.

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Em 2007, o Fundo NOVACAP foi reconhecido como Memória do Mundo, que é um programa da UNESCO criado em 1992 com o objetivo de identificar e preservar documentos e arquivos de grande valor histórico.


Mas, como pensar a relação entre acervo documental e patrimônio cultural no Distrito Federal tendo como objeto de análise a Ermida Dom Bosco e o ArPDF? É com o intuito de responder a esta pergunta que a presente pesquisa se estrutura em quatro partes. A primeira consiste em um estudo sobre a relação entre o patrimônio moderno e a documentação para sua preservação. A segunda parte avança em um contexto mais específico, descrevendo e analisando a Ermida Dom Bosco e sua importância para ser considerada patrimônio moderno do Distrito Federal. A terceira procura mostrar a relação existente entre o patrimônio moderno do GDF e o ArPDF, explicando o surgimento do Arquivo Público no Brasil, chegando no ArPDF, com suas relações e sua situação atual e procedimentos, com ênfase no ICA-AtoM, ferramenta online de classificação arquivística. Por último, a quarta parte mostra de que forma se dá, de fato, a relação entre o ArPDF e a Ermida Dom Bosco, com os resultados encontrados durante o período de pesquisa. Desvendar o que o ArPDF guarda a respeito da Ermida e entender como trazer estas informações a público podem ajudar na preservação de um patrimônio cultural ainda pouco conhecido.

PATRIMÔNIO  E  DOCUMENTAÇÃO     1.1 Patrimônio Moderno Quando um bem é considerado patrimônio cultural, atribui-se a ele um valor. Por ser detentor deste valor, este bem precisa ser preservado afim de que gerações futuras possam conhecê-lo e reconhecê-lo. Ainda que futuramente possa ser usado de outras formas, ao preservar a configuração original de um edifício reconhecido como patrimônio cultural é possível fornecer às futuras gerações o que representou o modo de vida das gerações anteriores, por exemplo. Para isso, é necessária a preservação desse bem, que pode ser tanto um livro quanto um marco arquitetônico, um sítio urbano ou, mais recentemente, uma expressão imaterial de um saber fazer, visando à conservação de suas características originais, que devem ser documentadas desde o início de sua concepção até possíveis mudanças que ocorram com o passar do tempo. Dividindo-se entre bens móveis e bens imóveis, os monumentos históricos representam um valor de nacionalidade que remete à criação do Estado Moderno. A Revolução Francesa, como movimento que instituiu o Estado Moderno Francês, motivou a criação de um símbolo, de algo que representasse a identidade nacional do Estado nascente. A importância da arquitetura moderna como patrimônio histórico e artístico nacional surge muito depois, na segunda metade do século XX e se justifica, dentre outros, pela necessidade de se preservar a nova identidade moderna. O surgimento da arquitetura moderna foi estimulado pelo contexto pós-Primeira Guerra Mundial, em que se buscava uma arquitetura prática e acessível a todos, sem influência direta dos estilos do passado. No texto de Marshall Berman, “Tudo que é sólido desmancha no ar” (BERMAN, 2007), há um conceito interessante que retrata bem o contexto em que o homem moderno se encontrava: fazendo uma paródia do passado, Berman considera que o homem


“precisa de história porque a vê como uma espécie de guarda-roupa onde todas as fantasias estão guardadas. Ele repara que nenhuma lhe serve. O homem moderno jamais se mostrará bem trajado; nenhum papel social é um figurino perfeito.”

Logo, esse homem moderno busca experimentar a vida moderna, para a partir daí começar a expandir suas ideias, até alcançar um nível global. A partir do fim da Segunda Guerra Mundial, a arquitetura moderna atingiu seu ápice nos Estados Unidos, com um grande número de arquitetos que imigraram para o país devido a guerras, na Europa. Com grande adesão, desde edifícios residenciais até prédios do governo, a aparência moderna de concreto, ou aço e vidro se tornou freqüente nesses locais. Na América Latina e, em especial, no Brasil, o modernismo floresceu no período pós-guerra, com grandes nomes como os arquitetos Lucio Costa (1902-1998), e Oscar Niemeyer (1907-2012) e do paisagista Roberto Burle Marx (1909-1994). A construção de Brasília (1956-1960) envolveu a linguagem da arquitetura e urbanismo modernos dos dois arquitetos e do paisagista de forma muito clara, como, por exemplo, no projeto das Superquadras. A partir da década de 1960, a arquitetura e urbanismo modernos começaram a entrar em decadência, sendo objetos de severas críticas, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. Logo, começou-se a discussão sobre a preservação dessas edificações, com enfoque maior nas estruturas icônicas. Na Europa, em um contexto mais local, por exemplo, os ícones do movimento modernista, como a Bauhaus, de Walter Gropius e a Villa Savoye, do Le Corbusier, também iniciaram discussões a respeito de patrimônio moderno e sua preservação em suas respectivas nações (a questão passou a um nível internacional a partir do século XXI). Algumas iniciativas foram tomadas, como a criação do DOCOMOMO International Working Party for the Documentation and Conservation of Buildings, Sites and Neighborhoods of the Modern Movement, em 1988, que refletiu no crescimento do movimento de preservação da arquitetura moderna. No contexto inglês, a utilização de entrevistas populares serviu para a escolha de edifícios que deveriam ou não ser preservados, de certa forma atribuindo a eles um valor: caso o resultado da pesquisa apontasse que para a maioria dos entrevistados o edifício em questão era importante, então ele adquiriria o status de Herança Inglesa. No que diz respeito aos Estados Unidos, a percepção de edifícios como parte de uma herança cultural surgiu a partir da última década do século XX, paralelamente ao que acontecia na Europa. O pós-guerra gerou uma necessidade de edifícios novos durante o período moderno da arquitetura e, devido a isso, a percepção de bens como herança cultural não se restringiu àqueles icônicos (como, por exemplo, obras de Frank Lloyd Wright, precursoras do movimento de preservação da arquitetura moderna americana), permitindo assim um olhar diferenciado sobre a arquitetura considerada ordinária. O interesse na preservação da arquitetura moderna iniciou-se por volta de 1970, com movimentos preservacionistas, de dimensões locais, no Reino Unido e nos Estados Unidos. Apenas em 1995, quando ocorreu a primeira Conferência de Preservação do Passado Recente (Preserving the Recent Past Conference) em Chicago, a preservação da arquitetura moderna tomou uma dimensão maior, mas ainda abrangendo apenas monumentos norte-americanos. Trazendo para o contexto de Brasília, o governador da cidade em 1986, José Aparecido, apresentou à UNESCO a candidatura da Capital Federal como patrimônio da humanidade. Em 1987, Léon Pressouyre, relator do Patrimônio Mundial, propõe que


Brasília não obtenha tal título a não ser que seja criada uma legislação que proteja a cidade. Assim, neste mesmo ano, foi regulamentada a lei Santiago Dantas3, com o intuito de proteger o Plano Piloto. Outro anteprojeto de lei é elaborado em 1989, propondo uma preservação para o patrimônio do Distrito Federal, o que resultaria na criação de um Instituto do Patrimônio Cultural do Distrito Federal, de um Fundo do Patrimônio Cultural do DF e de um Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural do DF. Um argumento interessante que Lucio Costa (COSTA, Carta de 01/01/1990) traz à tona é o de que “só mesmo o tombamento será capaz de assegurar às gerações futuras a oportunidade e o direito de conhecer Brasília tal como foi concebida.”

Após essa declaração e, juntamente com os demais movimentos realizados, em 1990, a Procuradoria Jurídica do IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, publica a notificação de tombamento do Plano Piloto nos jornais da cidade, reconhecendo o valor histórico de Brasília e a importância da sua preservação. Com uma das condições do documento de tombamento, devem ser mantidas as características das quatro escalas de Brasília: monumental, residencial, gregária e bucólica. Este documento, então, testifica as qualidades que devem ser preservadas para que Brasília mantenha as mesmas características que foram consideradas importantes para o tombamento, ou seja, as quatro escalas de Lucio Costa. A partir disso, vê-se a importância da documentação para a arquitetura e o urbanismo. 1.2 Documentação Pode-se dividir a origem da preservação do patrimônio em duas vertentes: a do restauro estilístico, segundo o pensamento de Viollet-le-Duc, que acredita que a melhor forma de preservar um bem arquitetônico seria pensar o que o autor do projeto usaria para substituir algo que se deteriorou com o tempo, modificando assim a obra de forma a preservá-la em boas condições. A outra vertente é a do restauro romântico defendido por John Ruskin e segundo o qual, não se deve modificar um bem tombado de forma alguma; ainda que este deteriore-se com o passar do tempo, pois uma possível modificação levaria à perda do valor de antiguidade e criaria-se um documento falso. Seguindo este pensamento, a própria arquitetura seria um documento por ser testemunha do passado, das técnicas construtivas e do cotidiano dos usuários que por ali passaram. Esse estado de documento começou a ser reconhecido a partir do século XVIII, quando teve início a discussão acerca da importância da documentação. Tal questão veio novamente à tona após as duas Grandes Guerras, em que a discussão sobre preservação e patrimônio teve certo enfoque devido à destruição em massa que ocorreu ao redor do mundo, em especial na Europa. A UNESCO, então, instituiu as Cartas Patrimoniais, que são documentos resultantes de assembleias e congressos a respeito da prática preservacionista, de forma a reafirmar os consensos atingidos. Dentro deste contexto, em 1964, estabeleceu-se a partir da Carta de Veneza que

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A lei foi elaborada em abril de 1960.


“A conservação de monumentos é sempre favorecida por sua destinação a uma função útil à sociedade; tal destinação é, portanto, desejável, mas não pode nem deve alterar a disposição ou a decoração dos edifícios. Já a restauração é uma operação que deve ter caráter excepcional. Tem por objetivo conservar e revelar os valores estéticos e históricos do monumento e fundamenta-se no respeito ao material original e aos documentos autênticos.” - Carta de Veneza in CURY. Cartas Patrimoniais. p.92

No trecho acima vê-se uma preocupação com a preservação e o respeito à documentação, de forma a preservar a autenticidade do monumento. A importância do documento nos processos de conservação e restauro ainda é exaltada em outro trecho da Carta de Veneza: “Os trabalhos de conservação, de restauração e de escavação serão sempre acompanhados pela elaboração de uma documentação precisa, sob a forma de relatórios analíticos e críticos, ilustrados com desenhos e fotografias.” - Carta de Veneza in CURY. Cartas Patrimoniais. p.95

Além disso, recomenda-se na Carta de Veneza que essa documentação seja guardada em um órgão público, como o Arquivo Nacional, e, se possível publicado de forma a disseminar a informação. Dessa forma, os valores de um bem seriam preservados e estariam à disposição da sociedade na forma desta documentação. No caso da arquitetura, a documentação possui um caráter um pouco diferente das demais obras de arte, pois para que o edifício, por exemplo, seja construído, plantas, cortes e vistas são necessários para a compreensão do projeto do arquiteto. Esses documentos, se relacionados a um bem tombado, são, por extensão, obras de arte que também devem ser preservadas e consideradas bens patrimoniais. Ainda que o projeto não tenha sido executado da forma em que o arquiteto planejou, aquelas plantas, cortes e fachadas são a memória, a essência daquilo que o arquiteto desejava construir. Esses documentos completam o edifício, facilitando sua compreensão. No entanto, caso os documentos estejam sem identificação, a compreensão da obra ainda é possível, o que já não acontece com tanta clareza se o edifício não possui plantas, cortes e vistas. Nesse cenário, cria-se uma concepção própria somente daquilo que se vê, sendo necessária a documentação original para que o pensamento do arquiteto seja melhor compreendido. 1.3 Patrimônio Moderno e Documentação Ao ser considerado patrimônio moderno, certo bem é merecedor de preservação por possuir características únicas, podendo, por exemplo, ser uma obra de arte, ter sido feita por um grande autor, trazer à tona uma perspectiva do período moderno. Para a preservação de um patrimônio, a existência de um documento como testemunho do passado é de extrema importância. Além de ser fonte de saber científico, a documentação de um bem patrimonial permite que a conservação deste bem seja feita da melhor forma possível, sendo assim essencial para tal fim. No caso de bens arquitetônicos, a documentação pode ocorrer por meio de relatórios orais, fotos, reportagens e, principalmente, por meio de plantas baixas, cortes, fachadas e vistas. Ou seja, para a melhor preservação de um edifício considerado patrimônio, é de extrema importância que seus desenhos técnicos também sejam preservados.


No caso da arquitetura moderna, a documentação tem um significado especial, pois justamente na época do movimento moderno é que a prática da arquitetura e urbanismo tornou-se intimamente associadas, de maneira geral, à produção de uma arquitetura e urbanismo impressos, ou seja, a uma arquitetura e urbanismo em forma de textos, imagens, desenhos e fotografias indissociáveis do objeto arquitetônico e urbanístico edificado. Com isso, atentou-se mais para a preservação de desenhos arquitetônicos de forma a preservar as ideias geridas pelos arquitetos do movimento moderno. Ainda assim, as questões de patrimônio moderno só começaram a vir à tona por volta dos anos 80, com enfoque no tombamento de Brasília como patrimônio cultural moderno da humanidade pela UNESCO. Trazendo para o contexto do patrimônio tombado pelo Governo do Distrito FederalGDF, temos, por exemplo, a Ermida Dom Bosco. Considerada patrimônio moderno do Distrito Federal, este bem arquitetônico possui características únicas que dão a ela certo valor e marcam o período do início da construção de Brasília. A Ermida reforça a identidade desta cidade por ser símbolo de um sonho que ocorreu muito antes da concepção de Brasília. Como possui um valor, uma importância grande, foi considerada patrimônio e como tal deve ser preservada e devidamente documentada.

A  ERMIDA  DOM  BOSCO  

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Israel Pinheiro, engenheiro que teve grande importância na construção de Brasília, desejava que Dom Bosco fosse o padroeiro da nova capital federal que seria construída. No entanto, Dom Bosco foi considerado o segundo padroeiro da cidade, sendo a padroeira de Brasília Nossa Senhora Aparecida. Um dos fatos que motivou o engenheiro a homenagear este santo foi um sonho que Dom Bosco teve em 1883 sem nem mesmo conhecer o Brasil. Nas palavras do santo: “Eu enxergava nas entranhas das montanhas e no seio profundo das planícies. Tinha ante meus olhos as riquezas incomparáveis desses países as quais um dia hão de ser descobertas. Mas isto não era tudo. Entre os paralelos 15º e 20º havia uma depressão bastante larga e comprida, partindo de um ponto onde se formava um lugar. Então, repetidamente, uma voz falou: ‘Quando vierem escavar as minas ocultas no meio dessas montanhas, surgirá aqui a terra prometida, vertendo leite e mel. Será uma riqueza inconcebível.” - LIMA, Denise Pereira e ALMEIDA, Maria Vilani de. História e Geografia do Distrito Federal. Editora FTD, 2009, p. 27.

Coincidentemente ou não, o sítio castanho, local escolhido para a construção de Brasília, está localizado justamente entre os paralelos 15º e 20º. Assim, por iniciativa do engenheiro Israel Pinheiro, a Ermida Dom Bosco foi erguida justamente no paralelo 15º47’ e, devido à altitude de 1000 m do ponto onde se encontra, tem uma vista privilegiada de Brasília, com visão direta para onde seriam construídos o Lago Paranoá e o Palácio da Alvorada. Por definição, Ermida é caracterizada como uma construção de cunho religioso que se encontra afastada da cidade. De fato, a Ermida Dom Bosco, quando construída, estava em um local isolado e com vista privilegiada da nova capital que seria construída, o que, segundo Israel Pinheiro, protegeria todos os trabalhadores. A construção está firmada sobre uma plataforma de lajes e possui uma forma triangular, com cinco metros de base e dez de altura. Apresenta uma abertura pequena para permitir a visão da imagem de Dom Bosco que se encontra dentro dela, sobre um suporte de pedra. Inaugurada antes mesmo de Brasília, a Ermida Dom Bosco ficou pronta em 31 de dezembro de 1956 e é a primeira construção de concreto da nova capital federal. A primeira missa foi celebrada no dia 24 de março 1957, pelos padres salesianos Oswaldo Sérgio Lobo e Virgínio Fistarol. Esta foi a primeira missa vespertina realizada em Brasília. A missa oficial, celebrada pelo padre Vírginio Fistarol, ocorreu em 04 de maio de 1957 e contou com a presença dos diretores da NOVACAP. No dia 22 de agosto desse mesmo ano, o padre Renato Ziggiotti, Reitor Maior dos Salesianos na época, prometeu enviar diretamente da Itália uma imagem do santo em mármore Carrara, de forma a substituir a de gesso que se encontrava no interior da Ermida. Cumprindo essa promessa, a imagem de Dom Bosco chegou em Brasília em 1958, tendo sido confeccionada pelos irmãos Arreghini. A autoria do projeto da Ermida Dom Bosco é, até o momento, algo incerto, pois mesmo que L. Fernando Tamanini afirme em seu livro “Brasília Memória da Construção” seja um projeto assinado por Oscar Niemeyer em novembro de 1956, não foram encontrados documentos oficiais que comprovem esse fato. A dúvida foi gerada pelo livro “Guia de Obras de Oscar Niemeyer Brasília 50 anos”, onde os autores afirmam que a Ermida foi projetada por algum arquiteto da NOVACAP, sem especificar o autor do trabalho. Além disso, afirma também que Oscar Niemeyer negou a autoria do projeto. Vale lembrar que Niemeyer era chefe do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da NOVACAP, ou seja, ele coordenava uma equipe de arquitetos que participaram da construção de Brasília.


Seguindo esse pensamento, há possibilidade de que um desses arquitetos supervisionados tenha feito o projeto da Ermida. Ainda assim, ao visitar a Ermida Dom Bosco, é possível ler na placa ali afixada a seguinte informação: “Ermida Dom Bosco/ Dom Bosco Shrine: Projeto do arquiteto Oscar Niemeyer, foi inaugurada em 1957. Primeira obra em argamassa de Brasília, foi construída em homenagem ao padre italiano São João Bosco, que criou a Ordem dos Salesianos (Salesians Order).”

Tombada como patrimônio moderno de Distrito Federal em 02 de março de 1988 por meio do Decreto nº 11.032 do GDF, a Ermida Dom Bosco é um local freqüentado diariamente por muitos cidadãos e turistas, sobretudo depois que em 1999, ganhou o Parque Ecológico da Ermida Dom Bosco que, com o apoio do Governo do Distrito Federal, foi construído com o objetivo de que turistas e, principalmente, moradores das proximidades tivessem um lugar agradável para freqüentar. Um evento importante que acontece anualmente é a Festa de Dom Bosco, peregrinação à Ermida Dom Bosco que ocorre desde 1961, no último domingo de agosto, de forma a homenagear o Santo, patrono da cidade. Infelizmente, nos outros períodos do ano, vê-se que a Ermida encontra-se, de certa forma, abandonada, pois apresenta vegetação malcuidada, calçadas rachadas e eventuais pichações. Essa situação é relatada não só pelos jornais, mas também pelos freqüentadores do local, o que inclui desde skatistas até apreciadores do pôr-do-sol. Uma das razões que pode dificultar sua preservação vem a ser o descaso existente com a documentação deste bem patrimonial: não é possível achar com facilidade plantas, cortes, vistas, e relatos oficiais a respeito de seu projeto e de sua construção. Como foi dito anteriormente, o relato da situação da Ermida, tanto no presente quanto no passado, fica por conta dos jornais, o que pode levar a informações duvidosas e/ou incertas, como, por exemplo, as publicações existentes que se contradizem quanto ao autor do projeto.

O  ARQUIVO  PÚBLICO  DO  DISTRITO  FEDERAL   O Arquivo Público do Distrito Federal – ArPDF representa um local onde a memória brasiliense é preservada, onde documentos referentes à Brasília são referenciais do passado. Esse referencial pode apresentar diferentes pontos de vista, sendo assim um processo coletivo de construção da história, com relatos de experiências e conhecimentos diversos. E este processo vai muito além do Distrito Federal. Como, por exemplo, temos o Arquivo Nacional, que contém memórias que são referenciais do Brasil desde o período colonial. O Arquivo Nacional teve sua origem em 1838, quando o Arquivo Público do Império foi criado com a finalidade de guardar os documentos públicos. Foi organizado em três seções: Administrativa, Legislativa e Histórica. Em 1876, o Arquivo foi reorganizado, adicionando-se uma nova seção: a Judiciária. O Arquivo Público do Império também passou por reformulações nominais, tanto em 1893 quanto em 1911, quando foi nomeado de Arquivo Público Nacional e de Arquivo Nacional, respectivamente. Em 1932, além de uma Secretaria, outras duas seções foram adicionadas: Biblioteca e Mapoteca. Em 1978, foram criados o Sistema Nacional de Arquivos – SINAR e a Comissão Nacional de Arquivos – CONAR, de forma a apoiar o Arquivo Nacional, juntamente com a Associação Cultural do


Arquivo Nacional – ACAN, esta criada em 1987. De forma a definir diretrizes para aprimorar o funcionamento do SINAR, em 1994 foi criado o Conselho Nacional de Arquivos – CONARQ. A criação do Sistema de Gestão de Documentos de Arquivo – SIGA, em 2003, conferiu ao Arquivo Nacional um papel estratégico junto à Administração Pública Federal e demais órgãos e entidades dessa esfera do governo. Atualmente, o Arquivo Nacional situa-se na Praça da República n. 173, no Rio de Janeiro, onde funcionou a antiga Casa da Moeda (1868-1983) e integra a estrutura básica do Ministério da Justiça. Em 1972, o I Congresso Brasileiro de Arquivologia sugeriu ao GDF que fosse criado seu respectivo Arquivo Público. No final da década de 1980, a pesquisa acerca da história recente do Brasil foi incentivada, com a abertura de novos programas institucionais. Por fim, em março de 1985, o Arquivo Público do Distrito Federal – ArPDF foi criado, com o objetivo de “planejar e coordenar o recolhimento de documentos produzidos e acumulados pelo Poder Executivo da capital brasileira, assim como de documentos privados de interesse público.” – Sobre o ArPDF4

Assim, o material recolhido, que diz respeito principalmente àquele relacionado à história de Brasília, seria preservado e colocado à disposição da população. Com uma área de 1200 m², o ArPDF possui uma mapoteca, um laboratório fotográfico, uma sala de consultas, salas climatizadas (controle realizado através de desumidificadores, ar condicionado e termohigrográficos) e um acervo contendo documentos em diversos formatos: textuais, audiovisuais e cartográficos. Esse acervo é composto por sete fundos públicos, correspondendo a documentos acumulados de um órgão, instituição ou administração pública, e três fundos privados, que correspondem a trajetórias de pessoas públicas, conforme listado a seguir: Companhia Urbanizadora da Nova Capital – NOVACAP Secretaria de Comunicação Social – SCS

Fundos Públicos

Secretaria de Segurança Pública – SSP Fundação Cultural do Distrito Federal – FCDF Gabinete do Governador – GabGov Arquivo Público do Distrito Federal – ArPDF Administração Regional de Taguatinga – AdTG

Fundos Privados

Brasília Palace Hotel – BPH Juca Chaves – JC Yvonne Jean – YJ

Dos fundos citados, o mais relevante seria o fundo NOVACAP, que foi reconhecido pela UNESCO e contém diversos documentos de valor permanente 4

http://www.arpdf.df.gov.br/sobre-o-arquivo/o-arquivo-publico-do-df.html


relacionados às construções de Brasília, desde o período da interiorização, passando pela construção, inauguração até os dias atuais. Criada em 1956, a NOVACAP tinha por objetivo inicial planejar e executar os serviços de localização e urbanização da Futura Capital. O recolhimento deste acervo foi realizado em 1987. Em 2013, de forma a facilitar o acesso universal à informação contida ali, o ArPDF começou a digitalizar e registrar sua documentação em fichas que encontram-se hospedadas em uma plataforma chamada ICA-AtoM. ICA-AtoM é uma ferramenta arquivista totalmente baseada na internet, em que “ICA” corresponde à Conselho Internacional de Arquivos (International Council on Archives) e “AtoM” à Acesso à Memória (Access to Memory). O projeto inicial desta ferramenta surgiu em 2003, quando o Comitê de Tecnologia da Informação do Conselho Internacional de Arquivos notificou a necessidade de um sistema que permitisse a livre busca de informação arquivista (OSARIS). Devido à falta de investimentos, essa iniciativa não avançou. Somente em 2005 o projeto recebeu um investimento de quarenta e cinco mil euros do Programa de Informação para Todos, da UNESCO, com o objetivo de criar um guia online para fontes arquivísticas relacionadas com a violação dos direitos humanos. A partir disso, outras instituições investiram nessa iniciativa e o desenvolvimento desse projeto continuou até julho de 2008, quando a primeira versão beta do ICA-AtoM 1.0 foi lançada durante o Congresso do Conselho Internacional de Arquivos (ICA Congress) em Kuala Lampur. Entre os valores e propósitos do projeto ICA-AtoM, tem-se que deve ser totalmente hospedado na internet, de forma a permitir que o acesso à informação esteja sempre online e disponível para a sociedade de forma grátis. O projeto ainda permite descrições dos arquivos de acordo com os padrões do Conselho Internacional de Arquivos, mas também sendo flexível e passível de customização. A comunidade arquivística respondeu a essa iniciativa de forma positiva e o desenvolvimento do ICA-AtoM continua até os dias de hoje. Em junho de 2011, aproximadamente 200 instituições ao redor do mundo já utilizavam o ICA-AtoM. Assim, o ArPDF não só preserva as memórias de Brasília, mas também produz memórias, no sentido de reafirmar a identidade brasiliense para qualquer cidadão que desejar aprofundar-se na história da Capital Federal, com memórias material e imaterial.

METODOLOGIA  E  RESULTADOS  OBTIDOS   3.1 Metodologia Como descrito anteriormente, o objetivo desta pesquisa é responder a seguinte pergunta: “Como pensar a relação entre acervo documental e patrimônio cultural no Distrito Federal tendo como objeto de análise a Ermida Dom Bosco e o ArPDF? ” Durante o período de Agosto de 2012 a Agosto de 2013, a pesquisa acerca da Ermida Dom Bosco se desenvolveu segundo as etapas descritas na tabela abaixo, buscando responder à problemática que motivou o desenvolvimento da pesquisa.


Etapa 1 – Estudo da relação entre o Acervo Documental e o Patrimônio Cultural e, simultaneamente, estudo do sistema de organização do Arquivo Público e do contexto histórico em que a Ermida Dom Bosco se insere; Etapa 2 – Sistematização dos critérios de busca baseados nos resultados obtidos na primeira etapa, estabelecendo de forma mais específica o método de pesquisa; Etapa 3 – Busca de documentos acerca da Ermida Dom Bosco no Arquivo Público; Etapa 4 – Busca de documentos acerca da Ermida Dom Bosco em outras fontes além do ArPDF; Etapa 5 – Questionário de Acompanhamento de Pesquisa Etapa 6 – Elaboração do Relatório Final; Etapa 7 – Entrega do Relatório Final Etapa 8 – Elaboração do pôster para ser avaliado pelo Comitê Avaliador Externo do ProIC/DPP/UnB; Etapa 9 – Entrega do pôster para ser avaliado pelo Comitê Avaliador Externo do ProIC/DPP/UnB;

Na etapa 1, que consiste no “estudo da relação entre o Acervo Documental e o Patrimônio Cultural e, simultaneamente, estudo do sistema de organização do Arquivo Público e do contexto histórico em que a Ermida Dom Bosco se insere”, diversos textos acerca do Patrimônio Moderno, do histórico da documentação e da preservação, da Ermida Dom Bosco e do ArPDF foram lidos, e estes estão listados na bibliografia. A busca de documentação sobre a Ermida Dom Bosco no ArPDF não foi tão satisfatória quanto o esperado, devido à pequena quantidade de material disponível, conforme será listado abaixo, nos resultados encontrados. Esse acontecimento levou à pesquisa em outras fontes, que é o foco da etapa 4. As outras fontes que foram consultadas além do Arquivo Público do Distrito Federal foram a Administração de Brasília, a Administração do Lago Sul, a SUPHAC – Subsecretaria do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural e a própria Ermida Dom Bosco. Em março de 2013, o ArPDF propôs que também fosse utilizado nesta pesquisa o ICA-Atom, novo método de documentação virtual utilizado no Arquivo. No entanto, por ser um método ainda em fase de aprendizado, não foi possível acrescentá-lo ao método de pesquisa por conta da limitação de tempo.


3.2 Resultados encontrados Inicialmente, a pesquisa por materiais acerca da Ermida Dom Bosco no ArPDF voltou-se para o fundo NOVACAP. Utilizando as palavras-chave Ermida Dom Bosco, Israel Pinheiro, Parque Ecológico Ermida Dom Bosco, Oscar Niemeyer, Igrejas, Lago Sul. Lago Paranoá e, relacionando essas palavras com o período de 1956 a 1960, não foi encontrado nenhum material acerca da construção da Ermida Dom Bosco nas caixas do fundo NOVACAP. Assim, a pesquisa prosseguiu para os documentos digitalizados pelo ArPDF. Dentre estes documentos, foram encontradas 12 fotos e 4 digitalizações de reportagens da Revista Brasília acerca da Ermida Dom Bosco, sendo que destas 4 digitalizações, 3 são fotos que ocupam a página inteira. Na biblioteca do ArPDF, foram encontrados quatro livros que contêm algumas páginas que tratam da Ermida Dom Bosco. No entanto, não foi possível ter acesso a um dos livros. Ainda assim, os livros encontrados são “Brasília Memória da Construção”, “História e Geografia do Distrito Federal” e “De Aknaton a JK das Pirâmides a Brasília”, e foram devidamente mencionados na bibliografia deste artigo. Vale ressaltar que não foi encontrado nenhum livro que tratasse especificamente da Ermida Dom Bosco; sempre que era mencionada nestes livros, estava inserida no contexto da construção de Brasília.

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A pesquisa prosseguiu na parte de recortes de jornais, localizada na sala Honestino Guimarães. Não se sabe ao certo se este material encontrado pertence a um fundo específico, visto que a gaveta contém apenas uma folha com as palavras-chave das reportagens contidas


ali. Como uma das palavras-chave é “Igrejas DF”, que diz respeito a umas das pastas contida nesta gaveta, está de acordo com as palavras-chave utilizadas nesta pesquisa. A maior quantidade de documentos a respeito da Ermida Dom Bosco foi encontrada neste pasta, totalizando 30 recortes de jornais, sendo que o mais antigo é de 1976 e o mais recente é de 2004. Nenhuma planta de construção da Ermida foi encontrada no Arquivo Público do Distrito Federal. No entanto, existem 12 plantas de uma reforma do Parque Ecológico da Ermida Dom Bosco que nunca aconteceu, sendo que não é possível identificar com clareza quem é o arquiteto responsável pelo projeto. Nestas plantas constam projetos de uma casa para o vigia e de um pequeno centro comercial com áreas de alimentação, além da documentação das dimensões da Ermida. Outra possível fonte de documentos acerca da Ermida seria a Administração Regional do Lago Sul (localizada na SHIS QI 11), visto que a Ermida encontra-se na QI 29 do Lago Sul. No entanto, nenhum material foi encontrado ali, mas foi sugerido que a Administração de Brasília provavelmente teria algum documento. Infelizmente, nenhum documento acerca da Ermida Dom Bosco foi encontrado ali também, pois os responsáveis pela parte de documentos afirmaram que seria difícil encontrar algo que correspondesse a 1956, ano em que a Ermida foi construída e quatro anos antes da construção de Brasília.


CONCLUSÃO     Construída antes mesmo de Brasília, a Ermida Dom Bosco é um monumento marcante para a cidade não só por conta da sua data de construção, mas também por envolver grandes nomes da construção da capital brasileira, como Israel Pinheiro e, mesmo que duvidosamente, Oscar Niemeyer. Como tal, teve o merecido reconhecimento pelo Governo do Distrito Federal ao ser tombada como patrimônio cultural. Esse reconhecimento somou-se ao que já existia por parte dos católicos brasilienses, que veem o local como uma homenagem ao santo Dom Bosco e também pelos moradores das proximidades e skatistas, que por sua vez veem a Ermida e seu parque como um local agradável com uma vista admirável. Como parte da memória brasiliense, a documentação deste bem também deveria ser reconhecida e preservada, com o intuito de testificar as qualidades da Ermida Dom Bosco como patrimônio moderno, servindo como testemunha do passado e completando a obra arquitetônica com informações que não podem ser vistas na construção. Plantas, cortes, fachadas, registros orais, fotografias e qualquer tipo de documentação existente reafirmam o valor da Ermida para a cidade de Brasília. Para encontrar a documentação acerca da Ermida, por quê não o Arquivo Público do Distrito Federal, local onde a maioria dos documentos acerca da construção de Brasília se encontram? Essa indagação nos leva à pergunta que motivou o desenvolvimento desta pesquisa: Mas, como pensar a relação entre acervo documental e patrimônio cultural no Distrito Federal tendo como objeto de análise a Ermida Dom Bosco e o ArPDF? Ao analisar os objetos propostos, viu-se que essa relação é, de certa forma, fraca. Infelizmente, pouca documentação acerca da Ermida Dom Bosco foi encontrada no ArPDF. Em meio a tantas caixas do fundo NOVACAP, nenhuma planta ou relatório foram encontrados. A maior fonte de informação foram os recortes de jornais, que muitas vezes passavam informações genéricas e cotidianas acerca deste bem patrimonial. A planta, relativa a uma reforma do Parque que nunca ocorreu, não fornece claramente quem foi o arquiteto responsável pelo projeto. Por ser um bem construído antes mesmo da própria cidade, talvez seja justamente por isso que não se encontra documentação acerca da Ermida Dom Bosco. Como foi dito em alguns locais de pesquisa, por ter sido construída antes de 1960, seria impossível encontrar documentos relativos a ela. Assim, a Ermida Dom Bosco permanece como uma arquitetura sem documentação; Ainda que seja bonita e agradável e faça parte da memória de Brasília, parte da sua história continua nebulosa: não se sabe ao certo quem a projetou. Problema que, com a devida documentação preservada, não existiria.


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Relatório Final - PIBIC 2012/2013