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UFF - Universidade Federal Fluminense EAU - Escola de Arquitetura e Urbanismo Trabalho de Conclusão de Curso - 2016.2

E SE ESSA RUA FOSSE MINHA? A idiossincrasia da experimentação de um corpo feminino no espaço urbano

Autora:

Marina Mariano

Orientadora:

Prof. Dr. Adriana Mattos De Caúla E Silva Coorientadora:

Prof. Dr. Cristina Lontra Nacif

Niterói 2017


Zaha Hadid


“Sim, sou feminista porque acho todas as mulheres

inteligentes,

talentosas

e

duras.

Acredito na habilidade feminina; e no poder e na independência femininas. Antes eu não gostava que me chamassem de arquiteta mulher. O importante é que sou arquiteta, o fato de ser mulher é uma informação secundária. Mas talvez isso tenha ajudado outras mulheres, inspirandoas a escolher uma profissão e fazer algo a respeito,

especialmente

em

um

campo

considerado não apto para mulheres.” Fala da arquiteta e urbanista Zaha Hadid ao Jornal Interview Russia, outubro 2012.


Figura 1


Figura 1: Bertha Lutz, brasileira, biรณloga, diplomata e criadora das bases do feminismo no Brasil. Fonte: ONU.


Agradecimentos

Aos meus pais pelos sacrifícios ao longo de toda a minha vida, possibilitando que eu escrevesse este trabalho algum dia. É resultado de muito amor a paciência com que lidaram com minha caminhada, mesmo que tortuosa, para chegar aqui. É só o começo, seguimos firmes. À minha mãe, Cátia Viana, pelo exemplo de mulher forte, independente e livre. Sua liberdade me fascina! Obrigada por estar comigo para o que der e vier, me apoiar em qualquer decisão e embarcar comigo nos meus sonhos. Ao meu pai, Paulo Cesar Mariano, pelo afinco com que comprometimento com a vida acadêmica e a busca por conhecimento.

construiu

meu

À Lucia de Souza Martins, merecedora de infinitos agradecimentos, por ajudar na minha criação, na formação de quem me tornei e ser uma das mulheres que mais admiro. À Anita, Maria, Regina, Nair, Marilene, Angela e Cremilda por, através de suas batalhas diárias, me estimularem a lutar pela construção de um mundo mais igualitário e justo para elas, para mim e para todas nós mulheres. À Minha orientadora, Adriana Caúla, e coorientadora, Cristina Nacif, que através de seus pensamentos distintos e complementares, fizeram minha ideia crescer, ganhar força e se desenvolver como um Trabalho de Conclusão de Curso. A todos os professores que foram fonte de conhecimento durante minha trajetória acadêmica, dentre eles: Dinah Tereza Papi de Guimaraens, Gerônimo Emilio Almeida Leitão, Glauco Bienenstein, Jorge Baptista de Azevedo, Jorge Crichyno Pinto, Pierre Crapez, Ricarda Lucilia Domingues Tavares, Thereza Christina Couto Carvalho e muitos outros. Em especial aos dois professores que despertaram meu desejo de um dia seguir seus passos: Antonio Marcelo Martins Maciel e Ulysses Magoulas Filho, seres humanos maravilhosos, exemplos de mestres que pretendo seguir e que tive a oportunidade de conviver.


E Se Essa Rua Fosse Minha?

À amiga, Kashmir Soares, pela parceria sem fim em todas as etapas deste trabalho. Somente palavras não são suficientes para tamanha ajuda. Obrigada pelo carinho e respeito de sempre ao aturar minhas crises durante essa jornada (e em muitos outros momentos) e por ser responsável por boa parte das artes deste trabalho. À amiga, Julia Oliveira, por ser a base sustentadora que me segura firme toda vez que o estudo me desafia a sair da zona de conforto do pensamento, entendendo, respeitando e me acolhendo mesmo com as transformações que este movimento gera no que sou. E em acréscimo à Gilson Reis, por toda a solicitude nas consultas históricas e em todas as outras dúvidas que apresentei. Às amigas, Suzana Braga, Aida Cardoso e Patrícia Ferreira por, independente da distância, física e não-física, genuinamente torcerem por mim. Em todas as fases desse projeto e do projeto maior que é a vida. À amiga, Cintia Palu, pela revisão com amor de muitas das palavras contidas neste trabalho. Que grata surpresa poder contar com essa ajuda tão querida. À amiga, Angel Costa, por toda a paciência e ajuda na reta final deste trabalho. À amiga de longa data, Ana Carolina Vilarinho, e ao amigo, Marcos Bloise, pelos esclarecimentos jurídicos e solicitude nas explicações sobre assuntos que não domino o básico. Ao amigo, Bruno Tavares, pelo carinho e ajuda. E aos amigos que cruzaram minha caminhada acadêmica e abrilhantaram minha vida: Caroline do Vale, Jessica Ojana, Adriano Cruz, Lucas Salim e Anna Caroline Monteiro.


Figura 2


Figura 2: Escrita no chĂŁo da rua para a semana internacional anti assĂŠdio nas ruas. Fonte: Site The Huffington Post


Resumo

Os espaços públicos urbanos, dentre suas múltiplas funções, conectam e dão apoio à vida ordinária nas cidades, sua apropriação, que deveria ocorrer de forma democrática, nem sempre é eficaz, privilegiando determinados grupos ou pessoas e excluindo outros. O espaço público ocidental possui uma bagagem histórica de não pertencimento à mulher, possivelmente produzindo resquícios contemporâneos de não apropriação deste espaço pelos corpos femininos. O objetivo deste Trabalho de Conclusão de Curso é analisar como o ser mulher influencia na experimentação plena do espaço urbano. Os conceitos utilizados abordam temas como a relação entre o corpo e o espaço que ele habita, alguns agentes influenciadores na formação do corpo, a construção histórica da posição social da mulher e o panorama atual da vivência da mulher no espaço público. Foram realizados, além do arcabouço teórico que sustenta este trabalho, registros de trajetos em forma de narrativa escrita apresentados aqui por meio das reflexões suscitadas após o cruzamento dos materiais supracitados. O trabalho problematiza os hábitos redutores e excludentes que vêm se repetindo na prática de produção das cidades e reflete, por meio de um abordagem de estudo urbano mais próxima aos praticantes ordinários da cidade, o não atendimento às demandas de suas usuárias. Palavras chave: mulher, espaço público, experimentação


Figura 3


Figura 3: Escrita no chĂŁo da rua para a semana internacional anti assĂŠdio nas ruas. Fonte: Site Colletive Action for Safe Space


Abstract

Public urban spaces, amongst its multiple functions, connect and support ordinary daily life in cities. Therefore its appropriation should be led by democracy, but that is not the reality, some groups are granted privileges while others are segregated. Western public spaces have a historical heritage of neglecting women, which still causes residues of non-appropriation of its space by women. This thesis aims to study how gender influences urban space experimentation, under women's perspective. The concepts used cover topics such as the relation between body and space, the agents that influence and shape bodies, the historical development of women’s social position and a characterization of the environment that they have to deal with nowadays. This work problematizes the excluding habits that have been repeatedly applied on city’s design production. Moreover, it approaches the urban study in a closer view of its users, focusing on women's demands. Palavras chave: gender, woman, public space, experimentation


Figura 4


Figura 4: Escrita no chĂŁo da rua para a semana internacional anti assĂŠdio nas ruas. Fonte: Site Colletive Action for Safe Space


Sumário

1. INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 19 2. METODOLOGIA ..................................................................................................... 26 3. O ENTORNO NOS INVADE .................................................................................... 29 3.1. A Dinâmica .......................................................................................................... 32 3.2. O Capital e o Corpo ............................................................................................. 35 3.3. A Construção ....................................................................................................... 38 3.3.1 O Corpo Feminino ........................................................................................... 39 4. O ONTEM ............................................................................................................... 43 4.1. Sociedade Grega e Sociedade Romana ................................................................... 46 4.2. Idade Média ....................................................................................................... 47 4.3. Renascimento ..................................................................................................... 50 4.3.1. Tratados arquitetônicos .................................................................................. 50 4.4. As Revoluções e Seus Resquícios .......................................................................... 53 4.5. Política, Representatividade, Ganhos e Lutas ......................................................... 63 5. O HOJE .................................................................................................................. 70 5.1. Mobilidade ........................................................................................................... 73 5.2. Permanência ........................................................................................................ 77 5.3. Barreiras ............................................................................................................. 78 6. MICROPRÁTICAS .................................................................................................. 86 6.1. O Acerto do Erro .................................................................................................. 91 6.2. A Proposta .......................................................................................................... 93 7. QUESTIONAMENTOS FINAIS ............................................................................... 98 8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS ....................................................................... 104 9. APÊNDICE ........................................................................................................... 112


Figura 5


Figura 2: Arte urbana na rua de Coimbra, Portugal. Autor: Carol Quixabeira. Fonte: Blog Cartas de Quixabeira.


Introdução

O estudo a seguir foi desenvolvido como Trabalho de Conclusão de Curso do curso de Arquitetura e Urbanismo. Ele intenta contribuir para a melhor compreensão da relação do gênero com o espaço urbano, trabalhando em uma aproximação sobre as experimentações e vivências das mulheres nos espaços públicos da cidade. Este trabalho surgiu de uma inquietação que ainda não tinha nome. O gatilho desencadeador foi o incômodo e insegurança gerados pelos assédios e interpelações que sofri enquanto mulher. A partir disso iniciou-se uma crescente percepção de não aproveitamento pleno da experiência sensorial e física que ocorria do meu corpo no espaço público. Resultando então na proposta de investigação das possibilidades, impedimentos e limitações do corpo feminino no espaço publico.

Figura 6: Inquietação sem nome. Elaboração própria.

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Em um cenário atual de tendência ao conservadorismo, enfrentamos um retrocesso em muitos países no que se refere aos avanços feitos nos direitos das mulheres. Como exemplo temos a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 164/2012, ainda em tramitação no Brasil, cuja a qual “Estabelece a inviolabilidade do direito à vida desde a concepção” 1 ou seja, a retirada do direito [já conquistado, porém não plenamente no Brasil] de interrupção da gestação mesmo nos três casos já considerados legais.2 O projeto pode ser um exemplo do reflexo da herança histórica de controle imposto ao corpo e sexualidade feminina, que vem se reverberando até a atualidade, e também a propensão com que as mulheres são atingidas quando enfrentamos períodos mais conservadores. Por isso a importância de estudos e pesquisas, nas mais diferenciadas áreas de atuação, que enfatizem a condição feminina e possam de alguma forma gerar avanços e/ou conscientização como ferramenta inibidora desses retrocessos. Entendendo o papel influenciador do arquiteto e urbanista ao projetar e idealizar os espaços que serão ocupados e vivenciados pela diversidade carregada pelos corpos, me propus a relatar a particularidade do olhar feminino ao experienciar o espaço da cidade, partindo da suspeita de que hábitos redutores e excludentes vêm se repetindo na prática de produção deste espaço. No capítulo 3. O ENTORNO NOS INVADE, o item 3.1 A DINÂMICA, apoiado majoritariamente nos autores BRITTO (2010), HISSA; NOGUEIRA (2013) e MONNET (2013), identifica-se os três corpos envolvidos neste trabalho. São eles: o corpo que habita a cidade; o corpo da cidade; e o corpo que é a relação corpo-cidade, discorrendo sobre a dinâmica desta relação e os fatores que a caracterizam. Brevemente o item apresenta o reconhecimento e algumas reflexões sobre o papel democrático do espaço público e sua eficácia, chegando a tendência com que a construção das cidades pode ser espelho da estrutura social patriarcal e capitalista que naturalizamos em nossa construção social. Esta 1

Fonte: Site da Câmara dos Deputados http://www.camara.gov.br A lei brasileira prevê o direito à interrupção da gestação se a mesma teve origem em um estupro, coloque a vida da gestante em risco ou em casos de anencefalia. 2

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Introdução

apresentação dos sujeitos inicia a posterior imersão nos agentes transformadores do corpo que habita a cidade. Considerando o capitalismo o sistema econômico e social operante no meio em que vivemos, é importante levantar questões e pontuar argumentos cogitando-o como possível condicionante à formação do corpo. O item 3.2 O CAPITAL E CORPO expõe, baseado no estudo de HARVEY (2004), algumas formas com que o capital pode moldar e padronizar o corpo trabalhador, buscando evidenciar a relação capital-corpo e pretendendo a construção de alicerce para melhor compreender a relação corpo-cidade. O item 3.3. A CONSTRUÇÃO, estabelecendo uma conexão com o item anterior através do consumo, uma das principais atividades econômicas dentro do sistema capitalista, apresenta a ligação entre o incentivo ao consumo e a busca por uma padronização idealizada nos corpos e nas cidades. O subitem 3.3.1. O CORPO FEMININO trata da construção de um ideal feminino de comportamento e aparência física que pode transformar e aprisionar os corpos, marginalizando o diferente, pontuando ainda as ferramentas dentro da publicidade, um dos mecanismos ideológicos poderosos da contemporaneidade, que contribuem para a objetificação, ultra-estetização, banalização da sexualidade e mercantilização do corpo feminino. O capítulo 4. O ONTEM desenvolve, baseado principalmente nos autores ALVES; PITANGUY (1984) e SENNETT (1943), um breve levantamento histórico com os acontecimentos julgados importantes no reconhecimento do papel social da mulher ao longo da história ocidental, seu papel no mercado de trabalho e no uso dos espaços públicos. Este capítulo intenta fortalecer o conhecimento do passado, para que se entenda de forma mais clara os resquícios presentes no uso atual do espaço público pelas mulheres, partindo do pressuposto de que ainda não há o aproveitamento pleno de experimentação da cidade pelo corpo feminino. São abordados alguns períodos históricos, divididos de acordo com a classificação presente na bibliografia mencionada anteriormente, são eles: item 4.1. SOCIEDADE GREGA E SOCIEDADE ROMANA; item 4.2. IDADE MÉDIA; item 4.3. RENASCIMENTO, composto também por um subitem 4.3.1. TRATADOS ARQUITETÔNICOS, onde três tratados arquitetônicos foram analisados pela perspectiva de Diana Agrest (2006) acentuando a apropriação e exclusão do corpo feminino presente nos textos; 4.4. AS 24


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REVOLUÇÕES E SEUS RESQUÍCIOS. Abordando uma perspectiva mais recente, o item 4.5. POLÍTICA, REPRESENTATIVIDADE, GANHOS E PERDAS apresenta alguns passos no reconhecimento da mulher como cidadã, agente política e detentora de direitos civis, desenvolve também uma visão dentro dos parâmetros mencionados da situação atual de alguns direitos conquistados e dos que ainda demandam luta para serem reconhecidos. O capítulo 5. O HOJE traça, através de três estudos, um perfil de uso do espaço público pelas mulheres, tendo como intuito mostrar, através dos dados, um panorama que aponte algumas das carências ainda presentes nos projetos urbanos. O item 5.1. MOBILIDADE discorre sobre um dos principais meios de transporte da cidade de São Paulo, identificando as necessidades e características das usuárias, também apresenta uma experiência internacional positiva de esforços em políticas de transporte e circulação que diminuíram desigualdades no ambiente urbano. O item 5.2. PERMANÊNCIA trata da atual (não)apropriação do espaço público pelas mulheres, focada em uma área de permanência, expondo mecanismos desenvolvidos pelas transeuntes. O item 5.3. BARREIRAS aponta as dificuldades encontradas pelas mulheres enquanto corpo que usufrui, vivencia e utiliza o espaço, mesmo que não plenamente, e algumas das barreiras para reivindicar um espaço dentro deste universo, ao que parece, regido pelo patriarcado. O capítulo 6. MICROPRÁTICAS caracteriza, baseados nos autores CERTEAU (2011) e JACQUES (2006), a ótica adotada para a construção da parte empírica deste trabalho, especificando algumas diferenças nas perspectivas dos projetos urbanos e dos praticantes da cidade e abordando brevemente a espetacularização dos espaços públicos e alguns de seus resultados. O item 6.1. O ACERTO DO ERRO caracteriza a errância urbana através da perspectiva de Paola Berenstein Jacques e apresenta o urbanista errante. O item 6.2. A PROPOSTA desenvolve as reflexões resultantes dos relatos escritos das trajetórias e caminhos vivenciados na minha experimentação do espaço. Esta abordagem errante foi desenvolvida para apresentar um olhar diferente na produção de um estudo urbano. O item 9. APÊNDICE expõe impressões sobre Icaraí e Surry Hills, os dois bairros que despertaram os sentimentos preliminares deste trabalho. 25


Figura 7


Figura 4: Estação Carioca. Autor: Emika Takaki.


Metodologia

A metodologia aplicada na construção deste trabalho é divida em três fases: Prática empírica, Arcabouço Teórico e Interseção. A Prática Empírica consistiu em pesquisa de abordagem exploratória, com o objetivo de proporcionar a vivência do espaço público urbano a fim de formular problemas mais precisos ou criar hipóteses que pudessem ser confrontadas posteriormente (na terceira etapa) com bibliografias relacionadas ao tema. Deste modo, foram registrados os trajetos e andanças pessoais da autora em forma de narrativa escrita e produção de mapas, para que os dados não mensuráveis numericamente como sentimentos, sensações, percepções e intenções pudessem ser analisados. A prática ocorreu por um período de 90 dias, correspondente a 54% do tempo total disponível para desenvolvimento deste trabalho. O Arcabouço Teórico consistiu em uma pesquisa bibliográfica aos materiais publicados em livros, artigos, dissertações, teses e documentários voltados para a temática de gênero e percepção da cidade. O objetivo era o acesso à instrução necessária para maior domínio do tema, intentando embasamento satisfatório para produção de reflexões agregadoras. Esta etapa abrangeu a maior parte do período disponível para o desenvolvimento deste trabalho e ocorreu em paralelo às outras duas etapas presentes nesta metodologia. A Interseção compreendeu o cruzamento das informações e os aprendizados acumulados nas etapas anteriores, com o objetivo de gerar uma produção textual que compusesse o corpo deste trabalho. Esta etapa se desenvolveu em 67 dias, correspondentes a 46% do tempo total disponível.

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Figura 8


Figura 5: Espetรกculo teatral. Fonte: Site BHAZ.


O Entorno nos Invade

Este capítulo apresenta um panorama inicial para entendimento dos agentes influenciadores tanto na formação do corpo, quanto na formação da ligação deste corpo com o espaço que ele habita. É questionada a eficácia do papel democrático que rege os espaços públicos e brevemente exemplificadas algumas áreas que não atendem plenamente as mulheres. Para melhor compreensão dos processos aos quais o corpo é submetido para sua constante transformação, foi trabalhado como o capital molda o corpo, tolhendo e padronizando seu modo de experimentação.

3.1. A Dinâmica O entorno nos invade. Entretanto, somos parte do espaço – assim como parte do mundo, da natureza – feito de parcelas que, inventadas também por nós, não integram um todo maciço, mas produzem composições diversas… “não há um espaço, um belo espaço, um belo espaço ao redor, um belo espaço bem à nossa volta, há milhões de pequenos pedaços de espaços [...]. Em suma, os espaços se multiplicam, se fragmentam e se diversificam” PEREC (2001, p.24, apud HISSA e NOGUEIRA, 2013, p. 56). O espaço é aberto, inconcluso, diversificado, feito também de texturas impalpáveis, do imaterial. Espaço é pele, corpo, chão, cidade. (HISSA; NOGUEIRA, 2013)

O espaço urbano é locus de processos de variadas naturezas e um de seus agentes formadores são os corpos que dele usufruem. Essa experiência sofrida pelo corpo gera “memórias corporais resultantes da experiência de espacialidade” e no espaço urbano “memórias espacializadas dos corpos que as experimentaram”, segundo Fabiana Dultra Britto (2010). O efeito dessa relação de reciprocidade carece de forma, de representação física e depende diretamente da bagagem dos que transitam. Cada corpo experimenta através da composição de sua “rede de referências informativas” (BRITTO, 2010) e a partir delas constrói sua ligação individual e personalizada com o meio. A cidade é escrita pelos corpos e os corpos são escritos pela cidade.

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Como cada espaço é construído de acordo com os significados trazidos pelos seus usuários, “ele é pensado, interpretado e imaginado, ao mesmo tempo que é habitado, vivido ou imposto… O espaço só tem significado em relação aos grupos que o utilizam. Ele é sempre particularizado, orientado, modelado, construído, pela coletividade” (MONNET, 2013, p.221). Em um processo composto por experiências tão particulares e complexas, não cabe interpretá-lo de forma simplista, é impróprio à sua compreensão, assim como “à compreensão de sistemas complexos não-lineares, como o são a vida, a construção da história e a produção de ideias.” (BRITTO, 2010) A vida urbana é feita das relações corpo-cidade, espaço-movimento, afeto-ação. A cidade-terreno é a cidade no nível da rua, produzida por corpos e movimentos, do que está sendo feito da vida urbana. O corpo experimenta a cidade. A cidade vive por meio do corpo dos sujeitos. A cidade é cidade-corpo. (HISSA; NOGUEIRA, 2013, p.56)

Os espaços públicos urbanos compreendem, junto com infraestruturas e equipamentos coletivos, lugares que conectam e dão apoio à vida ordinária e comunitária nas cidades como ruas, avenidas, praças e parques.3 É palco principal da expressão política das forças sociais, abrigando conflitos, disputas e celebrações. Seu caráter dito público, ou seja, acessível a todos, o transfere vocação para o convívio social, expondo seus usuários ao diferente, ao outro. O outro é a ameaça que nos instiga à vivência da nossa diversidade e da diversidade de tudo que habita o espaço. Os corpos são vários. Há o corpo da cidade, os corpos na cidade e a relação – ela mesma, um corpo – cidade-corpo. O corpo da cidade é movente. Ele não é feito apenas do sítio onde a cidade é erguida, mas da vida dos que fazem o mundo que experimentamos na cidade. Na cidade, misturamo-nos sempre – mesmo quando não há desejo de mistura –, desenhando, com nossa heterogeneidade, uma configuração plural e cambiante. Híbrida e contraditória. Antagonismos diversos se inscrevem no corpo da cidade, justamente onde o conflito se pronuncia de maneira mais ou menos ruidosa. (HISSA; NOGUEIRA, 2013, p.58) 3

Segundo Luiz Guilherme Rivera de Castro, arquiteto e urbanista pela FAU USP, professor e pesquisador na FAU Mackenzie, coordena a pesquisa Espaços Públicos e Urbanismo Contemporâneo desde 2007, em entrevista para a Revista AU.

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Em meio a conflitos, experiências e exposições, na realidade prática podemos considerar o espaço público de e para todos? Ao contrário dos imóveis que pertencem desde quase sempre a alguém, as ruas não pertencem a ninguém em princípio (Perec, 2001, p. 62, apud HISSA e NOGUEIRA, 2013, p. 57)... no mundo em que tudo é de alguém – e ter é o verbo que faz a existência no corpo ocidental do mundo (Hissa, 2009) –, cabe pensar a rua como o território do coletivo e do compartilhamento, sem ressalvas? (HISSA; NOGUEIRA, 2013, p.57)

O papel democrático do espaço público é falacioso, segundo Nadja Monnet (2013) a apropriação dos espaços se dá privilegiando determinados grupos ou pessoas e excluindo outros em uma seleção de critérios variados - faixa etária, etnia, classe social, gênero, entre outros - é admitido a uns maior liberdade. Nós, e também os espaços que habitamos, possuímos características moldadas pelo processo de construção social que vivenciamos. Se produzimos cidade que proporcionam vivências desiguais para homens e mulheres, é porque fomos socialmente construídos para naturalizar estas diferenças e hierarquias e, portanto, naturalizamos também a própria construção destas cidades, pautadas pela lógica patriarchal. (PECCINI, 2016)

O espaço público ocidental tem uma bagagem histórica de não pertencimento à mulher . A dominação deste espaço pelo homem resultou na exclusão e/ou no acesso parcial ou regrado e vigiado do sexo feminino que, desde a pólis grega, possuía seu papel naturalizado no lar, seja por leis vigentes ou por leis implícitas advindas do moralismo patriarcal5. Mas para a manutenção do doméstico, muitas vezes o acesso às ruas é necessário, até para exercer um papel que lhe foi imposto, na rua a mulher não encontra um ambiente saudável e receptivo. 4

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Consultar capítulo 2. O ONTEM. Consultar o livro “Carne e pedra” de Richard Sennett e o texto “Flanâncias femininas e etnografia” de Nadja Monnet. 5

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A área de transportes é muito emblemática dessa concepção patriarcal de cidade, justamente por ser um dos setores mais interditados à participação feminina. Por décadas, o referencial técnico de transportes e mobilidade era centrado na fluidez, velocidade e em toda a brutalidade que o trânsito de automotores representa. O espaço público pensado para a aceleração, os roncos dos motores e aquilo que o capitalismo chama de desenvolvimento. E assim, em questão de poucos anos, pessoas foram expulsas das ruas para dar mais espaço às máquinas – ou melhor, ao progresso. Porque, afinal, a convivência e o compartilhamento não poderiam ser mais importantes que a produção. (Pesquisadora Ana Carolina Nunes em artigo publicado na webpage do movimento Cidade Lúdica, 2016)

3.2. O Capital e o Corpo Sendo o capitalismo o sistema econômico e social operante no meio em que vivemos, não é possível dissociá-lo da construção do corpo, já que o meio, um dos participantes desse processo, é regido pela acumulação e circulação do capital. Sendo assim, levantar questões e pontuar argumentos cogitando-o como possível condicionante à formação do corpo é importante para buscar entender a construção social deste corpo (feminino) que vive sua idiossincrática experiência na cidade. Para essa estruturação, David Harvey (2004) utiliza as teorias de Karl Marx que, segundo o autor, tem “seus argumentos ontológicos e epistemológicos” fundados “na real interação corporal sensorial com o mundo”. Segundo David Harvey (2004), o corpo tem o potencial de ser mutável, podendo esta mutação ocorrer de fora para dentro como efeito de um estímulo. Tudo o que é acessível ao corpo, incluindo todo tipo de informação, desde a espacial até a imaterial, é parte do seu processo de formação. “As práticas representacionais que operam na sociedade moldam o corpo (e, mediante as formas de trajar e de se portar propõe todo tipo de sentidos simbólicos adicionais)”. (HARVEY, 2004) Desta forma, através de um complexo processo de formação dependente de fatores socioecológicos diversos, os resultados são “tipos radicalmente distintos de corpos” (HARVEY, 2004). Mas como o sistema capitalista molda o corpo? 35


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Pode-se dizer, a partir da leitura de Harvey (2004), que o corpo que trabalha - “suas capacidades e possibilidades”- é moldado pelas exigências da produção capitalista que os induz a caminhos diferentes e muitas vezes contraditórios entre si. A educação dos trabalhadores faz parte deste paradoxo, o sistema exige instrução, porém não o suficiente ao pensamento livre. Ou seja, diversidade de conhecimento e competências, mas sem que os trabalhadores pensem por si mesmos. Ele exige aptidões, fluidez de funções e mobilidade dos trabalhadores, mas que possam ser controladas, oferecendo, segundo MARX (1976, apud HARVEY, 2004), a antiga divisão do trabalho com particularidades ossificadas. Aos corpos é exigido saúde, mas “com frequência produzem-se deformidades, patologias e doenças”. O corpo está sujeitado a “um conjunto particular de direções contrárias” com o objetivo de transformar a natureza do corpo trabalhador e produzir um novo tipo de corpo, uma máquina produtiva. “Antigas capacidades do corpo humano são reinventadas; novas capacidades são reveladas.” Apesar do trabalhador ter o direito de não ter seu corpo colocado em risco, na prática nem sempre isso é respeitado, como constata o autor: “O foco principal da crítica de Marx ao capitalismo é que ele viola, desfigura, subjuga, danifica e destrói a integridade do corpo que trabalha (até de maneiras que podem ser arriscadas para a continuidade da acumulação do capital)”. O trabalhador além da posição de produtor e agente de troca da mercadoria, força de trabalho , também assume a posição de consumidor. Enquanto possuidor de dinheiro [advindo de seu salário], ele é livre para gastar com tudo aquilo que lhe convém, porém implicitamente há restrições. A quantidade de dinheiro que ele ganha é um fator limitador , já que cabe a ele o acesso somente ao que seu dinheiro é capaz de pagar. E cabe ao capitalista a escolha do que produzir de acordo com o público comprador, essa escolha é influenciada pela preferência de procura do consumidor que é extraída dos desejos de um coletivo. Ou seja, a liberdade de compra é bem mais limitada do que se pensa. O trabalhador alimenta um ciclo, já que recebe do capitalista seu salário que é uma parcela do que produziu com sua força de trabalho, o capitalista se apropria do produto e recebe com a mesma frequência que 36


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paga o salário, a quantia por aquilo que produziu (que na verdade foi produzido pelo trabalhador e é comprado com seu salário). Para isso tem que levar seu corpo ao trabalho todo dia para receber salário e realimentar o ciclo. “Logo, do ponto de vista da sociedade, a classe trabalhadora, mesmo quando se acha fora do processo de trabalho direto, é apêndice do capital tanto quanto o são os instrumentos sem vida do trabalho.” (MARX, 1976, p. 713, 719, apud HARVEY, 2004, p.152) Mas tudo isso presume o “consumo racional” da parte do trabalhador - quer dizer, “racional” do ponto de vista da acumulação do capital (Marx, ed, 1978, p.591). A organização, a mobilização e a canalização dos desejos humanos, o envolvimento político ativo com táticas de persuasão, vigilância e coerção tornam-se parte do aparato de consumo do capitalista, produzindo por sua vez todo tipo de pressões sobre o corpo como sede do “consumo racional”, bem como o seu agente performativo, para fins de maior acumulação (cf. a obsessão de Henry Ford pelo treinamento de assistentes sociais para monitorar o orçamento de seus Trabalhadores). (HARVEY, 2004, p.153)

O domínio do corpo, dos seus desejos, dos seus impulsos sexuais e do seu intelecto, a violação do direito à integridade do corpo e o ciclo formado para que o corpo dependa da circulação do capital e seja por ele persuadido e coibido, são forças implícitas impostas a esse corpo (o do trabalhador) que em seu caráter imaterial se encontram fora do controle de todo e qualquer indivíduo. O capital então se dedica a esculpir o corpo de acordo com seus interesses e exigências e manipula “desejos corporais, vontades, necessidades e relações sociais”. (HARVEY, 2004) O capital dado em troca da força de trabalho é transformado em meios de subsistência que têm de ser consumidos para reproduzir os músculos, os nervos, os ossos e os cérebros dos trabalhadores existentes, e para fazer que novos trabalhadores venham a existir. Logo, nos limites do absolutamente necessário, o consumo individual da classe trabalhadora é a reconversão dos meios de subsistência dados pelo capital em troca da força de trabalho e nova força de trabalho, que o capital pode então voltar a explorar. É a produção e reprodução dos meios de produção mais indispensável do capitalista: o trabalhador. (MARX, 1973, p. 717-718 abud HARVEY, 2004, p. 156)

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Diante de um processo regido por forças externas que visa a homogeneização do corpo para acumulação e circulação do capital, é o próprio corpo que funciona como resistência ao viver esses processos subjetivos - também os espaciais - e ao sobrevivê-los. Certeau (2008) os chama de “corpos ordinários, comuns” e Milton Santos (2008) de “homens lentos, os pobres” , pois são eles que, segundo Maria e Cassio (2013), “ao sofrerem efeitos totalitários da produção do espaço, submetidos às contradições do capitalismo, reescrevem o texto urbano”. Os corpos ordinários desconhecem ou ignoram as regras escritas dentro do cotidiano, a eles cabe o inventivo, sua forma de insubordinação aos rigores e normas. “Ao se desvencilharem das normas de controle, eles grafam, no terreno, caminhos de resistência à reprodução da cidade luminosa, criando usos não previstos, gerando movimento e novos sentidos; eles recolocam o encontro, a seiva do urbano, em cena.” As mulheres fazem parte dos corpos resistentes, pois utilizam o espaço mesmo sem convite, desenvolvem estratégias para habitá-lo e cada vez mais o reivindicam. O estudo do corpo como fonte da experimentação, ao mesmo tempo causa, efeito e veículo na relação dos três corpos citados anteriormente - corpo, cidade e a relação corpocidade - já é uma libertação, como sugere Harvey (2004), à “visão de mundo tradicional atribuída a Descartes, Newton e Locke, que funda o ideal do corpo “civilizado” e “individualizado” (compreendido como uma entidade no espaço e no tempo absolutos e como sede de direitos de propriedade inalienáveis e restritos)”. Se o corpo é fonte e ao mesmo tempo resultado dos “processos sociais de determinação”, “logo, de quem é o corpo que vai ser a medida de todas as coisas? Como e de quê exatamente ele tem condições de ser a medida?”

3.3. A construção O sistema capitalista joga com o domínio velado vendido como liberdade aos corpos e mentes. São promovidos - pela força da imagem, técnicas de comunicação e informação sonhos de consumo que envolvem a “ausência do risco” e não só os corpos, mas também as cidades devem ser disciplinados com essa ausência, segundo Cassio e Maria (2013). Aos 38


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corpos se impõe o saudável e o virtuoso; às cidades a higienização, o controle e a gentrificação. O potencial de experimentação é abafado pela caçada ao inatingível, demandando esforços imensos. O estado permanente da busca do impossível (o que é oferecido impositivamente como o certo ) é que movimenta os mais variados consumos, “o corpo nos ocupa e nos consome… passamos a nos ocupar do corpo, oferecendo a ele infindáveis investimentos de tempo e preocupação, garantindo ao corpo posições de autoridade social” (HISSA; NOGUEIRA, 2013, p.63). A experimentação do corpo passa a ser tolhida dentro de uma normatização, “todos começam a ficar parecidos com todos” (ENRIQUEZ, 2004, p. 58, apud HISSA; NOGUEIRA, 2013, p. 65) e como um sintoma social de padronização, há um reflexo no espaço e na arquitetura. “Persegue-se insistentemente no corpo, na casa, na cidade, uma mesma estética; uma mesma experiência; uma mesma produção subjetiva que, contraditoriamente, é impessoal. Nega-se a passagem do tempo, da alteridade, do risco: são corpos-subjetividade, cartões postais de fragmentos de modernidade presentes na contemporaneidade. Subjetividades-corpo que se recusam ao perigo, à diferença, à abertura. Herméticas. Assim é que emergem modelos de vida como garantias de certas experiências: o gozo e o espetáculo”. (HISSA; NOGUEIRA, 2013, p.65)

3.3.1. O Corpo Feminino Especificamente para as mulheres, os padrões que recaem sobre seus corpos englobam desde a ultra-estetização visual até a submissão comportamental e são ferramentas eficazes no reforço da hierarquização dos papéis sociais atribuídos ao homem e a mulher. É esperado da mulher um padrão comportamental de repressão sexual, discrição, recato, docilidade e obediência, somos ensinadas desde a infância a reprimir desejos e não se expor, em contrapartida as ações e condutas masculinas dispõem de maior liberdade e autonomia. O resultado é a não liberdade do ser e fazer femininos e o engessamento do diferente (não masculino/fora do padrão) como inferior. Vemos o reflexo dessas diferenças também no uso

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do espaço público, onde as mulheres seguem determinadas normas implícitas de comportamento que influenciam sua experimentação plena do espaço6. Sabemos que o corpo feminino que interessa ao discurso da sociedade de consumo, com suas instâncias midiáticas espetacularizantes, é aquele que serve a um duplo papel: o de suporte adequado aos seus ícones e o de produto por excelência. E, assim, cirurgias, próteses, tratamentos e intervenções estéticas mercantilizam o corpo – particularmente o feminino –, transformando-o num objeto de consumo. (SANTOS; HOFF, 2007 apud LUCAS; HOFF, 2008, p2)

A ultra-estetização, vendida pela publicidade diariamente, acarreta um consumo não saudável de produtos, tratamentos e intervenções estéticas e uma objetificação do corpo feminino. O critério de valor passa a ser superficial - a estética - congelando e silenciando o potencial intelectual. Segundo a Euromonitor International7, o Brasil é o terceiro maior mercado consumidor do setor de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos (dados de 2015) e segundo estatísticas da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética, o Brasil ocupa segundo lugar no ranking dos procedimentos estéticos (cirúrgicos e não cirúrgicos), perdendo apenas para os Estados Unidos (dados de 2015). O Brasil, mesmo com tanta diversidade, apresenta em sua publicidade um padrão não compatível com a maioria da população. É exibida a mulher branca, magra, jovem e heterossexual, conferindo status a um tipo de mulher que não representa a pluralidade brasileira. Quem controla a informação prefere o que é facilmente consumido pelo público visando o retorno em números, e nós mulheres temos que lidar com a falta de representatividade e resistir à manipulada tendência de ódio ao nosso corpo. Somos insumo do negócio, pois a insegurança com o que temos de diferente nos faz buscar no consumo de produtos um caminho para se enquadrar no padrão e, utilizando como critério de valor os níveis estéticos, acha-se uma boa justificativa para objetificar e hipererotizar nossos corpos. Mesmo sabendo que as imagens apresentadas sofrem severas edições - o que reafirma um 6

Consultar Capítulo 3. O HOJE. Provedora global de inteligência estratégica de mercado. Pesquisamos e analisamos milhares de dados de produtos e serviços em todo o mundo. 7

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padrão inatingível e irreal - é o que temos acesso todo dia. A produção publicitária brasileira é dominada por uma elite branca, masculina, machista e com um olhar europeu para o mundo, segundo relato de Jacira Melo [Diretora do Instituto Patrícia Galvão] no documentário “Imagens do feminino”. Os produtos midiáticos reforçam os estereótipos masculinos e femininos, onde o homem é representado como o sujeito desejante e a mulher como objeto desejado, fortalecendo e arraigando a posição sociocultural inferiorizada da mulher, principalmente em uma sociedade em que o consumo é tão valorizado. A associação buscada é que o consumo do produto está relacionado com a apropriação da mulher. Os efeitos atingem os corpos retratados e o público alvo, reverberando erotização precoce, banalização da violência, banalização da sexualidade e mercantilização do corpo. Como exemplos temos os comerciais de cerveja, onde o uso da mulher é associado ao produto; os comerciais de depilação, onde a área a ser depilada já está sem pelos - reforçando a pressão contra mecanismos biológicos naturais do corpo feminino -; os comerciais de menstruação, onde o líquido que representa o sangue é azul e em pequenas quantidades, exatamente o oposto ao natural; entre muitos outros que são vinculados diariamente. A publicidade é um dos mecanismos ideológicos poderosos da contemporaneidade, ela atua na constituição da subjetividade das pessoas e delimita valores que serão assimilados. A não representação da mulher como protagonista na sociedade e a exigência de um enquadramento normativo reafirma valores e regulamentos que, para uma emancipação plena, é necessário desconstruir. Além da legitimação de múltiplas formas de dominação. O corpo que não se enquadra é passível do esquecimento, da ridicularização, torna-se invisível e apropriado apenas para prosseguir com o ciclo dos mecanismos de produção e circulação da sociedade de consumo.

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Figura 9: O peso extrapola o fĂ­sico. Fonte: Glamour Healthy Magazine.

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Figura 10


Figura 10: "An American Girl In Italy, 1951." Autor: Ruth Orkin


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Este capítulo é uma breve abordagem histórica da posição social da mulher, do seu papel no mercado de trabalho e do processo ondulatório de ganho, perda e retomada de direitos vivenciado pelas mulheres. Organizar e pontuar as ocorrências relevantes de forma cronológica é de grande importância para o melhor entendimento do processo que produziu a configuração contemporânea da utilização do espaço. A divisão temporal presente nos subcapítulos foi majoritariamente baseada na apresentação dos fatos na obra “O que é feminismo” das autoras Branca Moreira Alves e Jacqueline Pitanguy e da obra “Carne e Pedra” do autor Richard Sennett.

4.1. Sociedade Grega e Sociedade Romana Na sociedade grega em IV A.C. cabia à mulher todas as atividades do âmbito doméstico que garantiam a subsistência do homem livre, dentre elas a fiação, a tecelagem, a alimentação, a extração de minerais, o trabalho agrícola e também a função de reprodução e criação dos filhos. O trabalho manual era exercido por duas posições sociais: os escravos e a mulher. Cabia ao homem atividades nobres na esfera do conhecimento e desenvolvimento intelectual, como filosofia, política e artes. Na Atenas de Péricles, no séc V A.C., além da diferença de funções e acesso ao conhecimento vindos desde o séc passado, de acordo com a fisiologia humana também era diferenciada a posse de direitos e a apropriação dos espaços urbanos. A nudez era valorizada e dignificada pela sociedade, espaços públicos eram reservados para a exibição do corpo jovem e viril, mas as mulheres não eram admitidas e a elas também não era permitida a nudez. Isso porque acreditava-se que os corpos possuíam graus de calor diferentes e que a mulher era a versão mais fria do homem, sendo assim não poderia se expor à nudez, já que seria mais suscetível ao esfriamento. O ambiente ideal para seus corpos frios era o espaço doméstico, nele eram confinadas na maior parte do tempo com vestimentas que as cobriam até os joelhos e, caso tivessem, por conta das tarefas de manutenção da casa, que acessar as ruas, cobriam-se até os tornozelos. 46


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Na Roma Antiga, as meninas conservavam o nome do pai, não tinham direito ao praenomen (nome pessoal que distinguia um indivíduo de outros membros da mesma família), anulando sua individualidade desde o seu nascimento. A mulher era identificada como era vista por essa sociedade, um objeto de posse do dono - o patriarca. Era ele o possuidor de todo o poder, inclusive de morte e vida, sob as mulheres da família. Em 195 D.C., na civilização Romana, as desigualdades atingiam até mesmo a locomoção. Não era permitido às mulheres o uso do transporte público, seu deslocamento era obrigatoriamente realizado a pé. As mulheres, como forma de resistência, protestaram no Senado Romano, e, como resposta, receberam deboche e a promessa da não mudança. Já as sociedades tribais, como em Gália e Germânia, o espaço de atuação da mulher era semelhante ao dos homens, “conjuntamente, faziam a Guerra, participavam dos Conselhos Tribais, ocupavam-se da agricultura e do gado, construíam suas casas…. Funcionavam como juízas, inclusive de homens”, ressalta Branca Moreira Alves e Jacqueline Pitanguy (1984).

4.2. Idade Média Essa significativa participação da mulher presente em algumas das sociedades supracitadas também era vista antes do séc XIII, alguns direitos as abrangiam, como o de propriedade e sucessão, participação em assembleias e até mesmo o direito a voto em alguns casos. Em Bigorre (França), desde o séc XI, o sufrágio era permitido as mulheres que, quando proprietárias, participavam das discussões dos contratos da comunidade. Durante a Idade Média, a esfera extradoméstica era acessível à parte da população feminina, mas dependia da ausência do homem, como em casos em que eles se afastavam para ir às guerras. Elas participavam do comércio com seus maridos e se tornavam comerciantes caso eles falecessem. Também atuavam na área de serralheria e carpintaria e, apesar de participarem das atividades comerciais, recebiam quantias inferiores, o que gerava hostilidade em torno da mão de obra feminina que, segundo os homens, desvalorizava a mão de obra masculina. Elas também tinham acesso ao campo do conhecimento, pois ao assumirem funções nos negócios da família, tinham contato com contabilidade e legislação. 47


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Atuavam nas corporações de ofício, recebiam instrução profissional e também atuavam como aprendiz, podendo tornar-se mestre, caso o marido morresse, pelo período de um ano ou enquanto não mantivesse relações sexuais com outro homem. No século XIV, em Frankfurt, 15 mulheres estudaram Medicina e exerceram a profissão. Em Bolonha, algumas cursaram Medicina e Direito. Foram nomeadas até mesmo poetas oficiais da corte, como o exemplo de Christine de Pisan, que possuía um discurso próximo aos direitos da mulher. No século XV, na sociedade dos Iroqueses e Hurons, o controle de um sexo sobre o outro não era demarcado, as mulheres participavam das decisões relativas à comunidade. A posse de terra e a ascendência espiritual eram os valores exaltados na Idade Média, a atuação da mulher no mercado de trabalho, embora permitida, não as oferecia prestígio social. Os atributos femininos deveriam estar ligados à fragilidade e submissão, características não comuns aos trabalhos realizados. A esfera feminina se afastava do valor do trabalho, das artes e do conhecimento científico. É também na Idade Média que se inicia um dos maiores genocídios cometido dominantemente contra as mulheres, nomeado “caça às bruxas”. Foi uma perseguição através de atos punitivos de cunho religioso as “agentes de Satã”, ou seja, pessoas, majoritariamente mulheres, que realizavam feitiçaria ou a prática de magia para fins malignos, tendo como ajudante o demônio. Com a conversão ao cristianismo da maior parte do continente europeu, a feitiçaria tornou-se crime e acreditar na existência das bruxas era artigo de fé. “Acreditar em bruxas é uma parte essencial da doutrina cristã. Duvidar de sua existência é uma grave heresia contra a Santa Igreja”8, afirmavam o monge alemão Heinrich Kraemer e o padre suíço James Sprenger, autores de Martelo das Feiticeiras. O monopólio feminino da posição/função de bruxa pode ser compreendido em parte através da inexistência de papéis de comando exercido por mulheres na Igreja, desde o século 2 o sacerdócio cristão era privilégio dos homens. As mulheres então encontravam campo de ação e esfera de poder nas práticas mágicas proibidas. Exerciam papel de 8

Trecho retirado da reportagem “Bruxas por trás da caça”.

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curandeiras, parteiras, adivinhas, terapeutas e, embora a maior parcela possuísse condição financeira beirando a miséria, o serviço lhe agregava alto prestígio. As crenças que recaím sobre essas mulheres envolviam adoração ao diabo, envolvimento em rituais malignos, lançamento de feitiços e maldições, roubo e esquartejamento de bebês recém-nascidos antes de receber o batismo (para produção de venenos e poções mágicas), poder de invocar tempestades e chuvas de granizo, poder de matar pessoas só com o olhar, transformação de humanos em animais e a participação no ritual chamado de sabá. O período de tortura, assassinato e punição durou cerca de 400 anos, ápice entre os séculos XV e XVII, não é possível chegar a um número exato de vítimas devido a falta de clareza nos registros existentes e no número de registros que são insuficientes, as estimativas variam entre um total de 200 mil mortos, assim como 9 milhões. Espaços de atuação - mesmo que locais - eram conferidos às ditas “feiticeiras”, esses espaços eram impenetráveis ao domínio masculino, já que os conhecimentos eram geralmente passados de mãe para filha ou de tia para sobrinha, temos então, embutidos na justificativa religiosa, também uma tentativa de manter a posição de poder por parte do homem, detentor e dominador do conhecimento. A medicina também começa a se transformar em um campo exclusivo para homens, logo, tirar o espaço das curandeiras e parteiras, antes possuidoras desta função, era conveniente para dar aos homens o monopólio do saber e do poder de cura. Os rituais do “sabá” compreendiam na superstição medieval uma missa satânica que incluía canibalismo, orgias, perversões sexuais e até mesmo danças e relações sexuais com o demônio, que se encarnava na forma de bode preto, gato gigante ou homem monstro9. A base religiosa das perseguições possui aspectos diversos. Assim como na “maldição bíblica de 9

Os relatos foram retirados da reportagem “Bruxas por trás da caça” da revista Super Interessante e fazem

referência aos livros Martelo das Feiticeiras (1487) e o Quadro da Inconstância dos Anjos Malvados e Demônios (1612).

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Eva”, onde é dada a mulher a responsabilidade pela dúvida do poder de Deus, desobediência a seu comando e persuasão do homem levando-o à queda, temos também Maria, imaculada, concebeu sem pecado. Nas duas há a idealização e projeção da posição da mulher – imaculada ou bruxa - relacionada a repressão dos desejos corpóreos e a resistência ao pecado. A caça as bruxas também tinha um viés presente até hoje em muitos posicionamentos do catolicismo, que é o controle do corpo da mulher e de seus desejos sexuais, pois aquelas que participam de tal ritual onde o sexo, impuro e maléfico, era praticado sem restrições e pudores, eram bruxas e deveriam ser exterminadas.

4.3. Renascimento No Renascimento, a posição social e de direitos da mulher sofre retrocesso, a reintrodução da legislação romana desde o séc XIII reduz seus direitos civis10 e ocorre o seu afastamento da esfera pública. Quando o trabalho se torna o instrumento de transformação do mundo pelo homem, a mulher é retirada de algumas atividades que gradualmente acabam se tornando domínio masculino. Sua posição como trabalhadora é de desvalorização, assim como o trabalho infantil, os salários eram menores e atuavam no campo de atividades menos qualificadas e de baixa remuneração. A ciência e o conhecimento também ocupam esferas valorizadas, porém não extensíveis às mulheres, não se tem registro de mulheres frequentando universidades até meados do séc XIX, para cada uma escola feminina, existiam quatro masculinas. Às mulheres era ensinado prendas domésticas, comportamento e não existia preparação para o ensino superior, em contrapartida aos meninos era ensinado ciências, matemáticas e dada a oportunidade de expandi-las na faculdade.

4.3.1. Tratados Arquitetônicos Este retrocesso também é visto nos textos arquitetônicos. Temos a apropriação e a exclusão do corpo feminino, construída metaforicamente, em três tratados arquitetônicos 10

Inclui restrições ao direito de adquirir bens por herança, reger seus próprios bens e representar-se na justiça.

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renascentistas: o Leon Battista Alberti [De Re Aedificatoria], o de Antonio Averlino Filarete [Tratatto D’Archittetura] e o de Francesco Di Giorgio Martini [Trattato di Architettura, Ingegneria e Arte Militare e Trattato di Architettura Civile e Militare]. Diana Agrest em seu texto “À margem da arquitetura: corpo lógica e sexo” os analisa e ratifica o pensamento velado dentro do corpo de texto e regras renascentistas - matéria prima dos fundamentos da arquitetura ocidental - de apropriação simbólica do corpo feminino. Alberti (com herança Vitruviana) trata o edifício como um análogo ao corpo masculino. Defende a simetria, como no projeto de grandes templos, junto com a concordância e ajuste entre os membros e o todo. Existe aí referência ao desenho feito por Leonardo da Vinci - O Homem Vitrúviano, nesse desenho Da vinci mostra, matematicamente, como o homem é uma sincronia perfeita da simetria e harmonização de elementos. E assim deve ser o edifício. A figura humana retrata é explicitamente a masculina. Já vimos que o edifício é construído como um símile da figura humana. Já lhes mostrei por meio de um símile que um edifício deriva do homem, isto é, de sua forma, membros e medidas... vou demonstrar de que maneira o edifício adquire forma e substância por analogia aos membros e à forma do homem... [falando sobre as origens do edifício] e essas origens estão na minha opinião na sua proporcionalidade em relação ao corpo humano masculino, em sua necessidade de ser nutrido e governado, sem o que ele adoece e morre, como o homem. (FILARETE, 1464)

Filarete admite ao edifício nascimento e morte. O papel de gestora, biologicamente atribuído a mulher, é dado ao arquiteto. A concepção projetual é relacionada a Figura 11: O Homem Vitruviano - Leonardo da Vinci, 1940. Fonte: Wikipedia.

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gestação que, segundo ele, sendo a gestação tarefa impossível sem a mulher, assim é com aquele que deseja construir, tarefa impossível sem o arquiteto. O arquiteto assume o papel da mãe e da ama, aquele que zela e cuida para que o edifício cresça e se complete. O nascimento é um modelo em relevo e menor escala, proporcional e bem dimensionado à forma acabada para ser apresentado ao pai [aquele que deseja construir]. O subconsciente excluidor do corpo da mulher que estas comparações carregam, inicia-se na sua exclusão, quando o corpo masculino é associado à arquitetura a ponto de têla como um organismo vivo e logo após na sua repressão e substituição, no que Agrest chama de “transexualidade arquitetônica”. Depois, em uma extraordinária operação que denomino aqui de transexualidade arquitetônica, em que a repressão da mulher é essencial, ela é substituída e seu lugar é usurpado pelo homem, que, enquanto arquiteto, possui os atributos femininos necessários à concepção e à reprodução. (AGREST, 2006)

Di Giorgio, em sua comparação entre a cidade e o corpo, iguala a praça principal (piazza) ao umbigo localizado centralmente no corpo do homem. “Assim como é pelo umbigo que a natureza humana obtém nutrição e perfeição em seu começo, da mesma forma os demais lugares privados são servidos por essa área comum [piazza].” (DI GIORGIO, 1481) Se, em sua condição de dependência, o umbigo no corpo masculino necessita do alimento provido pela mãe através do cordão umbilical, na comparação de Di Giorgio este (o umbigo) se transforma metaforicamente no “útero” da cidade. “Na construção dessa analogia com arquitetura, o corpo do homem é funcionalmente transformado, feminilizado” (AGREST, 2006) É concedido ao corpo feminino o anonimato. Sua supressão e exclusão é dada ao ser projetado, representado e inscrito no projeto de edifícios e cidades, o corpo masculino. Sua substituição é dada através da usurpação das funções reprodutivas de criação, cabe ao arquiteto dar à luz como uma mulher e ao corpo masculino (seu umbigo) prover subsistência, como o corpo da mulher pelo cordão umbilical.

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A mulher é suprimida na relação analógica entre corpo e arquitetura, pois, de acordo com os textos clássicos, é o corpo do homem que é o corpo natural e perfeitamente proporcional do qual derivam os princípios e as medidas da arquitetura. A mulher é reprimida no modelo da cidade. O atributo distintivo da mulher, a maternidade, é projetado para o corpo masculino. Assim, a mulher é não somente suprimida, mas, na realidade todo seu corpo sexual é reprimido. A mulher é substituída pela figura do arquiteto. Por meio de uma operação transexual, o homem usurpa, no seu desejo de levar a efeito o mito da criação, os atributos reprodutivos da mulher. (AGREST, 2006)

E assim como na motivação da perseguição às mulheres na “caça às bruxas”, o contexto ideológico do cristianismo produz camadas ocultas, porém presentes até mesmo na arquitetura. É admitido, através de Maria, a Rainha dos Céus e Mãe da Igreja, a imaculada concepção, onde o ato sexual não é necessário para que se engravide. O sexo então é negado como parte do processo reprodutivo. E assim é o arquiteto, onde em um ato de vontade puro e assexuado, produz edifícios e cidades. A usurpação do corpo da mulher o capacita para tal função e coloca o homem no centro da criação. Neste cenário, onde Maria possuía um papel imponente, o que era reservado às “nãoMarias”? Às não-Marias, a fogueira. Do outro lado as hereges e bruxas, as que conscientes do sistema de representação vigente, não se enquadravam.

4.4. As Revoluções e Seus Resquícios O século XVIII é marcado por revoluções, luta pela libertação do indivíduo frente ao arbítrio do Estado e à ascensão da burguesia. Nos EUA, apesar de libertação e igualdade serem os princípios bem marcados da luta, a primeira expressão da Declaração de Independência utiliza o termo “homem” [“Todos os homens foram criados iguais”]. Abigail Adams11 resolve reivindicar e garantir a contemplação também do sexo feminino e envia uma carta a seu marido John Quincy:

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Nascida em 1744, abigail foi uma dedicada leitora, que por ser mulher não teve acesso a educação formal, possuindo o privilégio do acesso a grandes bibliotecas de seu pai e avô. Aos 19 casou –se com John Adams, líder

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Espero que no novo Código de Leis... vocês se lembrem das mulheres e sejam mais generosos que seus antepassados... Se não for dada especial atenção às mulheres, estamos resolvidas a nos rebelar e não nos consideraremos obrigadas a cumprir leis, diante das quais não temos nem voz, nem representação. [trecho da carta de Abigail Adams para John Quincy retirado do livro “O que é feminismo”, 1984, p.32]

Recebe como resposta sarcasmo e a clareza de que libertação e igualdade estavam presentes na ideologia liberal, porém não atingiam as mulheres. Quanto ao seu extraordinário código de leis, eu só posso rir. Nossa luta, na verdade, afrouxou os laços de autoridade em todo o país. Crianças e aprendizes desobedecem, escolas e universidades se rebelam, índios afrontam seus guardiões e negros se tornam insolentes com seus senhores. Mas a sua carta é a primeira intimação de uma outra tribo, mais numerosa e poderosa do que todos estes descontentes (...) Esteja certa, nós somos suficientemente lúcidos para não abrir mão do nosso sistema masculino. [trecho da carta resposta de John Quincy retirado do livro “O que é feminismo”, 1984, p.32]

Na França, no desenvolver de sua revolução, a mulher tinha uma participação ativa ao lado do homem no processo revolucionário, mas as transformações idealizadas pelos que gritavam por liberdade e igualdade, não incluíam as mulheres. O feminismo ganha um viés de ação política organizada, reivindicando dentro dessas transformações espaço de alcance para o sexo feminino. Dentre as reivindicações, tínhamos a mudança na lei que dava ao marido o direito absoluto sobre o corpo e os bens de sua mulher e maior igualdade entre os gêneros na vida política e civil. Com a organização solidificada deste grupo de mulheres revolucionárias, suas ideias eram cada vez mais dissipadas através de brochuras, manifestos, motins, participação em eventos da Revolução e formação de clubes políticos. É publicado o texto de Olympe de Gouges, “Os Direitos da Mulher e da Cidadã”, onde a autora reitera a importância do direito das mulheres de usufruir, de forma igual aos homens, de liberdade:

da guerra da Independência e segundo presidente dos Estados Unidos. Possuía uma visão política de igualdade de gênero, apoiando a liberdade, direito de propriedade e oportunidade de educação as mulheres.

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A mulher nasce livre e permanece igual ao homem em direitos. (...) Esses direitos inalienáveis e naturais são: a liberdade, a propriedade, a segurança e sobretudo a resistência à opressão. (...) O exercício dos direitos naturais da mulher só encontra seus limites na tirania que o homem exerce sobre ela; essas limitações devem ser reformadas pelas leis da natureza e da razão. [Trecho da publicação “Os direitos da Mulher e da cidadã” retirado do livro “O que é feminismo” 1984, p.34]

Em 1795, é retirado da mulher o direito de fazer parte da vida pública, é lançado um decreto que proíbe a usufruição do espaço público por mulheres, que devem recolher-se “a seus respectivos domicílios” e se caso fossem encontradas juntas em número maior do que 5 circulando pelas ruas, seriam “dispersadas por força das armas e presas até que a tranquilidade pública retorne a Paris”12. O pensamento de que o público pertence ao homem e o privado à mulher era vigente e respaldado pela lei. No Brasil, entre os séculos XVII e XVIII, as mulheres que utilizavam o espaço público eram as negras e pobres que trabalhavam como ambulantes, aguadeiras, vendeiras ou “negras do tabuleiro”, segundo Risério (2015, apud PECCINI, 2016). O espaço demarcado para a mulher era o privado, eram nos lares que as mulheres brancas e ricas eram enclausuradas e subordinadas aos maridos, cumprindo seu papel de mulher. O padrão de comportamento aceito e estimulado para as mulheres envolvia a manutenção da vida da família e a não exposição. Já as que se relacionavam de alguma forma com o espaço público, não o faziam porque tinham o direito à liberdade, mas por serem consideradas tão inferiores não mereciam nem mesmo o lar. “Este [espaço público] é o lugar dado, historicamente, às prostitutas, às mulheres negras, às mulheres transexuais/transgêneros e pobres.” (PECCINI, 2016)

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Trecho do decreto de 1795 retirado do livro “O que é feminismo”, página 35.

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O século XIX experimenta a consolidação do sistema capitalista, tarefas antes realizadas em domicílio são transferidas para as fábricas, e as mulheres, devido a ausência de formação profissional, exerciam as atividades menos qualificadas e mais subalternas da produção fabril. As condições de trabalho eram as piores possíveis, as mulheres, junto com as crianças, eram superexploradas com salários menores, porém a mesma carga horária de trabalho. Uma das explicações usadas para justificar a diferença, relacionava o “dever” feminino de ter quem as sustente, logo não precisariam de trabalhos tão bem remunerados quanto os dos homens - quem deveria ser o provedor. Os menores salários geravam nos trabalhadores masculinos repúdio a mão de obra feminina, pois além de diminuir o nível salarial geral, era uma concorrência desleal, já que ganhavam bem menos. Com a intensificação da atividade industrial e a superexploração da mão de obra, ocorre o surgimento e intensificação das atividades sindicais. As mulheres têm participação expressiva nessas organizações, na adesão de greves e na luta pelo direito dos trabalhadores. A luta pelo sufrágio universal alcança resultados, é conquistado o fim do voto qualificado por renda e mais uma vez a mulher não é incluída. O sufrágio feminino foi uma luta de aproximadamente 7 décadas, nos Estados Unidos e na Inglaterra, e de 40 anos no Brasil. As sufragistas utilizaram o espaço público como palco de suas reivindicações, protestos e passeatas, muitas vezes violentos. Elas reivindicavam seu direito de participação nas decisões públicas e o direito ao voto, direitos esses defendidos pelas ideias liberais, mas não extensíveis às mulheres, mesmo em um governo composto pelo próprio Partido Liberal.

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TEMPO, tempo, tempo, tempo….


Esta abordagem gráfica visa organizar temporalmente alguns dos acontecimento relatados no capítulo 4. O ONTEM oferecendo uma organização cronológica mais clara. Não intenta, no entanto, a precisão temporal de fatos que muitas vezes não possuem data rígida de início e fim nas bibliografias consultadas.


E Se Essa Rua Fosse Minha?

Figura 5: Cartaz que diz "Estou orgulhosa… meu marido quer que eu faça minha parte. Procure o Serviço de Emprego dos Estados Unidos - Comissão de Poderio Humano para Guerra”. Criação: Howitt, John Newton | U.S. Government Printing Office, 1944.

Figura 12: Pôster pró sufragismo que diz “Mulheres trazem todos os eleitores ao mundo. Deixe as mulheres votarem.” Relembrando os homens que já possuem o direito ao voto, de onde eles vieram. Fonte: Carolina Museum of History's Collection.

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Figura 6: Cartaz com os dizeres "Faça o trabalho que ELE deixou para trás. Candidate-se. Serviço de Emprego dos Estados Unidos”. Criação: Harris, R.G. | U.S. Government Printing Office, 1943.


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Figura 13

Com a tensão e eclosão da Segunda Guerra Mundial no século XX , a participação da mulher na esfera do trabalho torna-se conveniente, sua mobilização é incentivada através de propagandas e a posição até então vigente da donzela indefesa e desprovida de capacidade intelectual, é substituída por uma imagem forte, de postura e capaz de superar as dificuldades sozinha. Grande parte da mão de obra masculina é remanejada para os campos de batalha e as mulheres, como peças manipuláveis, são encorajadas a substituí-los. Aproximadamente seis milhões de mulheres entraram para a força de trabalho das indústrias ou nos esforços de guerra, as propagandas cumpriram seu papel influenciador, mas a situação econômica também exigia ação. Ao fim da guerra, a produção norte-americana sofreu um impacto, o mercado bélico já não era mais rentável e deu lugar à indústria automotiva e de eletrodomésticos. Os antigos trabalhadores voltaram da batalha e não soava mais tão interessante manter a mão de obra feminina trabalhando, o espaço dos homens no mercado de trabalho tinha de ser devolvido. As propagandas, produzidas pelos homens - detentores da produção intelectual -, voltam seus focos para a dona de casa ideal, a função social e o valor pessoal da mulher passaram a ser relacionados ao doméstico e à família. Seu desempenho no lar era o que deveria garantir sua felicidade plena e realização pessoal.

Figura 14

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Figura 15: Propaganda em revista da marca "Bom Bril", década de 1950. Fonte: Laboratório de Ensino e Material Didático.


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Figura 16: Propaganda em revista da marca "Walita", década de 1950. Fonte: Laboratório de Ensino e Material Didático.

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No início do séc XX, a cidade do Rio de Janeiro passava por um processo de reurbanização que fez parte de um amplo plano nacional urbanístico. O projeto de modernização previa a combinação entre beleza, disciplina social, como a higienização física e moral, com uma revisão dos costumes. Um dos resultados seria o apagamento da influência portuguesa na arquitetura brasileira, transformando-a em algo similar às capitais francesas. A transformação também incluía as mulheres, que deveriam se portar imitando os modelos europeus. O centro da cidade deveria ser organizado ao ponto de não ser permitido às mulheres andar desacompanhadas pelas ruas e, para adquirirem experiência para a felicidade matrimonial, deveriam casar-se cedo, sem impedimentos caso o marido fosse bem mais velho. A mulher, que segundo os argumentos católicos era inferior ao homem, deveria ser vigiada e controlada, saindo às ruas para batizar, casar e para ser enterrada. O controle do corpo e dos desejos femininos era rígido, pois Eva – pecadora, manipuladora e suscetível ao pecado – ainda era a imagem atribuída às mulheres. O casamento, arranjado pelos pais, era uma aliança política e econômica, meninas de 12 ou 13 anos poderiam se casar com homens de até 70 anos. O corpo feminino era tratado como a propriedade privada, onde a virgindade era a medida de agregação de valor. Além do controle intenso de sua sexualidade, ainda recaía sobre a mulher a manutenção de uma postura impecável como anfitriã, mãe e dona de casa, atribuindo status aos seus maridos.

4.5. Política, Representatividade, Ganhos e Lutas O direito ao voto feminino no Brasil foi assegurado em 1932 de forma parcial pelo então Presidente Getúlio Vargas, somente as mulheres casadas (com autorização dos maridos), as viúvas e solteiras que tivessem renda própria poderiam exercer sua cidadania. Em 1934, essas restrições foram retiradas do código eleitoral e em 1946 o voto passou a ser obrigatório também às mulheres. A luta por esse direito começou em 1910 com a fundação do Partido Republicano Feminino, pela professora Deolinda Daltro, mas ganhou força somente em 1919, quando a bióloga Bertha Lutz fundou a Liga pela Emancipação Intelectual da Mulher. O primeiro país onde as mulheres conquistaram o direito ao voto foi a Nova Zelândia em 1893. Em 1996, O Congresso Nacional inclui o sistema de cotas, na Legislação Eleitoral, 63


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obrigando os partidos a inscreverem, no mínimo, 20% de mulheres nas chapas proporcionais. Uma tentativa de incentivo à inclusão da participação feminina. Mesmo 83 anos depois de sermos consideradas aptas para o voto, ainda não atingimos igualdade em representação, os índices de mulheres ocupando cargos nas esferas do poder é muito baixo. Em um ranking que avalia a penetração política por gêneros em 146 países, preparado pela União Interparlamentar, o Brasil ocupa o modesto 110º lugar (No ano de 2014). Em 2010 elegemos de forma democrática nossa primeira Presidenta da República mulher, Dilma Rousseff. Gráfico 1: Percentual de deputadas e de senadoras nas Câmaras de diversos países. Câmara dos Deputados

Senado

Dados: União Interparlamentar. Elaboração própria.

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No âmbito trabalhista, conquistamos em 1919 uma resolução determinando salários iguais para homens e mulheres exercendo funções iguais, aprovada pela Organização Internacional do Trabalho. Atualmente, os direitos ainda não garantem na prática essa igualdade. Segundo a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios), as mulheres recebem 74,5% do que recebem os homens no Brasil (pesquisa divulgada em 2015, mas dados recolhidos em 2014). Se o rendimento for considerado de forma mais geral, incluindo benefícios, aposentadorias e outros ganhos não ligados diretamente ao trabalho, este índice cai para 70,7%. Os dados apontam em uma direção, mas a realidade extrapola os números. O processo de emancipação da mulher e igualdade de oportunidade no mercado de trabalho lida com raízes históricas bem profundas, considerando que ainda existe nas entrelinhas sociais a associação do trabalho doméstico ao feminino, inclusive das mulheres que são incumbidas de fazê-lo. A jornada de trabalho feminina é muito maior, pesa sobre as mulheres, além da maternidade (fator que ainda as descredibiliza no mercado de trabalho) , os cuidados com a casa, os filhos , o marido, os idosos e outras forças que puxam as mulheres para o doméstico. Para garantir lugar no mercado de trabalho ou atingir suas aspirações profissionais, é necessário assumir dupla jornada de trabalho, a média semanal de horas dedicadas pelas mulheres para serviços domésticos, as que possuem outra ocupação, é mais do que o dobro da dos homens na mesma situação [Fonte: IBGE, PNAD 2012]. Isso proporciona às mulheres, menos horas de sono, menos horas de lazer e menos horas para se dedicar ao acúmulo de informações sobre novas técnicas e tecnologias. Desta forma, em paralelo ao esgotamento físico, vão sendo excluídas do conhecimento, que permanece restrito aos homens. Em 1945 foi realizada a Conferência de San Francisco que elaborou a Carta da ONU, um dos mais importantes tratados internacionais do século XX. Dos 160 participantes, 3% eram mulheres. Apesar da desigualdade na representatividade entre os gêneros, uma das participantes era a diplomata e bióloga brasileira Bertha Lutz, que foi um dos nomes que lutou pela inclusão da mulher e do tema igualdade de gênero no tratado. Dentre suas participações 65


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no documento, temos o Artigo 8, segundo o qual “as Nações Unidas não farão restrições quanto à elegibilidade de homens e mulheres destinados a participar em qualquer caráter e em condições de igualdade em seus órgãos principais e subsidiários” [Trecho da carta da ONU] e a inclusão do termo “mulher” no preâmbulo da carta, relacionado a abordagem da igualdade de direito de homens e mulheres. Bertha e Minerva Bernardino, representante da República Dominicana, encontraram resistência a seus posicionamentos feministas, até mesmo das outras duas participantes mulheres que achavam que o termo “homem” já era suficientemente extensível ao sexo feminino. Mas as latino americanas lutaram para que a informação fosse precisa, pois segundo elas era “sabido que as mulheres têm sido incluídas no termo ‘homens’ ao longo dos séculos, e que isso sempre resultou no fato de que as mulheres foram impedidas de participar dos assuntos públicos” [trecho retirado da reportagem “Diplomata brasileira foi essencial para menção à igualdade de gênero na Carta da ONU”]. Um marco importante na emancipação feminina e na sua revolução sexual, foi o lançamento em 1960 da pílula anticoncepcional. Lançada primeiramente nos EUA, a invenção significou uma reviravolta no conceito de sexualidade, pois o sexo não seria mais tratado unicamente como meio de reprodução, mas também (ou somente) por prazer. Para a mulher também gerava uma garantia de que não teria sua vida profissional interrompida por uma gravidez indesejada. Em contrapartida, até hoje temos muitos argumentos contra o anticoncepcional, que pode desenvolver sérios efeitos colaterais colocando a vida das mulheres em risco. Sem contar a maior propensão de contrair doenças sexualmente transmissíveis, caso não seja usado o preservativo. Mesmo com avanços nos direitos reprodutivos das mulheres, ainda não atingimos seu ápice, no Brasil a prática do aborto ainda é considerada crime. O primeiro país a legalizar o direito ao aborto no mundo foi a União Soviética, em 1920, permitindo às mulheres o acesso a procedimentos seguros. No Brasil, mais de 2 mil mulheres abortam todos os dias e 47 mil mulheres morrem anualmente no mundo devido a problemas relacionados à realização de

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abortos clandestinos13, mas como a prática ainda é crime, esse número pode ser muito maior. A lei brasileira prevê o direito à interrupção da gestação se a mesma teve origem em um estupro, coloque a vida da gestante em risco ou em casos de anencefalia. Porém, nos últimos três anos [Dados de 2016], o Sistema Único de Saúde realizou cem vezes mais procedimentos pós-aborto do que abortos legalizados, pois a informação não atinge a quem precisa. E como agravante, o médico não é obrigado a fazer o procedimento, caso ele seja pessoalmente contra14. A legalização não visa incentivar a prática, mas educar as gestantes e oferecer métodos seguros de interrupção da gravidez. O tema aborto é extenso e não tenho a pretensão de esgotá-lo em um parágrafo, mas me questiono se os movimentos hoje denominados “pró-vida” entendem a mulher como uma vida válida suficiente para receber o suporte e a assistência, que é ferozmente defendido e garantido a algo que ainda se discute se sentiria dor ou não, se é vida ou não. Uma certeza temos, a mulher clamando por ajuda é religiosa e cientificamente, uma vida. Sem polêmicas, sem dúvidas, sem controvérsias. Talvez toda essa preocupação seja só o velho moralismo conservador de controle do corpo feminino disfarçado de movimento a favor da vida. (De quem?)

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Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). Objeção de consciência: De acordo com o artigo 28 do Código de Ética Médico é direito do médico, “recusar a realização de atos médicos que, embora permitidos por lei, sejam contrários aos ditames de sua consciência”. Ou seja, o médico tem o direito de se recusar a realizar o abortamento em casos de gravidez resultante de violência sexual. No entanto, diz a Norma Técnica, é seu dever informar à mulher sobre seus direitos e, no caso de objeção de consciência, deve garantir a atenção ao abortamento por outro profissional da instituição ou de outro serviço. Não há direito de objeção de consciência em algumas situações excepcionais: 1) risco de morte para a mulher; (Continua na próxima página) 2) em qualquer situação de abortamento juridicamente permitido, na ausência de outro profissional que o faça; 3) quando a mulher puder sofrer danos ou agravos à saúde em razão da omissão do profissional; 4) no atendimento de complicações derivadas do abortamento inseguro, por se tratarem de casos de urgência. (dados retirados do site da CREMESP) 14

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Figura 17: Cartaz a favor da legaização do aborto. Fonte: Site "Esquerda Diário".

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Em 1985 surge a primeira Delegacia de Atendimento Especializado à Mulher – DEAM (SP) e muitas são implantadas em outros estados brasileiros. Em 2006 é aprovada a Lei Maria da Penha, que assegura a proteção das mulheres contra qualquer tipo de violência doméstica, seja física, psicológica, patrimonial ou moral. Em 2012 é aprovada a Lei Carolina Dieckmann, que entre outras coisas, torna crime a invasão de aparelhos eletrônicos para obtenção de dados particulares. Esta lei não é voltada unicamente para o universo feminino, mas auxilia no combate à “pornografia de revanche”, que consiste no compartilhamento de fotos e vídeos íntimos, sem o consentimento de todos os envolvidos, com a intenção de causar prejuízos às vítimas, em sua esmagadora maioria, mulheres. Essas violências de gênero na internet são reflexos da descredibilização das decisões das mulheres e nas expectativas sociais sobre um comportamento apropriado ao sexo feminino, colocando, nesses casos, a culpa na vítima por ter enviado o material íntimo e não no autor ou replicador pela divulgação. Apesar dos avanços, o ambiente que vivemos hoje ainda é de violência e repressão, o Brasil contabiliza 13 homicídios femininos diários no ano de 2013 [Fonte: Mapa da Violência 2015], 5 mulheres são espancadas a cada 2 minutos no país, apesar de 91% dos homens dizerem considerar que “bater em mulher é errado em qualquer situação”, uma em cada cinco mulheres consideram já ter sofrido alguma vez “algum tipo de violência de parte de algum homem, conhecido ou desconhecido” [Fonte: Pesquisa Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado (Fundação Perseu Abramo/SESC, 2010)]. “O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) analisou os registros de violência sexual e concluiu que 89% das vítimas são do sexo feminino e em geral têm baixa escolaridade. Do total, 70% são crianças e adolescentes”, segundo o site Compromisso e Atitude.

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Figura 15: AssĂŠdio nas ruas. Fonte: Site Think Progress.


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O espaço público em seu caráter dito coletivo, compartilhado e de pertencimento geral, nem sempre atinge seus atributos. Diversas características como faixa etária, etnia, classe social, gênero, dentre outras, influenciam a percepção e apropriação deste espaço e muitas vezes são empecilhos para sua usufruição de forma igualitária. Este capítulo aborda perfis de experimentações femininas do espaço urbano, através de três estudos realizados nacional e internacionalmente, sem a pretensão de podar as especificidades de experiências, porém buscando identificar como atualmente as mulheres se deslocam, usufruem e se apropriam do espaço público urbano.

5.1. Mobilidade As mulheres, como outros grupos, possuem diferentes necessidades, padrões distintos de deslocamento e utilizam a cidade de forma variada. Elas enfrentam nos espaços públicos, além das barreiras comuns aos usuários das cidades, inseguranças mais específicas ao sexo feminino, como exposição a assédios, intimidações, comentários de teor sexual, olhares, toques indesejados, ameaças e violências sexuais. Como resposta à construção histórica da posição feminina relacionada ao espaço privado, o lar, as mulheres não experimentam o espaço dito público com a mesma liberdade que a população masculina. A população feminina do Brasil é composta por 104,772 milhões de mulheres, 51,6% do total de brasileiros e 6,3 milhões a mais do que os homens15. Mesmo sendo maioria, é comum que a mobilidade e os aparelhos urbanos não explorem suas especificidades para atender suas demandas. Um estudo da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano de São Paulo16 esboça como o transporte público na cidade é utilizado pelas mulheres, com um perfil diferenciado dos homens, o público feminino apresenta maior diversificação no motivo de suas viagens 15

Dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) 2014, divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). 16 “A mobilidade das mulheres no estado de São Paulo”, feito a partir de dados da pesquisa Origem e Destino de 2012 do Metrô de São Paulo.

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diárias (trabalho e educação despontam a lista). Essa diversidade pode ser resultado do acúmulo de funções que ainda é atribuído à mulher, onde, além de trabalhar fora e ter que se capacitar para tal atividade, é “responsável” pelas tarefas domésticas que muitas vezes fazem necessário o deslocamento como abastecimento do lar, acompanhamento dos filhos para a escola, dos parentes para consultas médicas, etc. As mulheres também andam mais a pé do que homens, utilizam mais o transporte público, fazem percursos mais curtos e são maioria também no uso do metrô. Agregando esses dados ao contexto urbano e social, às segregações e às condições de acessibilidade inadequadas, constatou-se que o raio de ação territorial das mulheres é bem menor, o que incentiva o deslocamento a pé e as viagens curtas. Quanto a direção de um automóvel, os homens têm um percentual praticamente o dobro maior do que as mulheres (26.4% e 13.7% respectivamente), indicando maior percentual masculino de condução do automóvel em suas próprias viagens. Quando adicionado o perfil econômico as pesquisas, agora especificamente relacionada às mulheres, foi demonstrado que no grupo onde a renda era menor, o uso do transporte coletivo e a pé eram maiores e o principal motivo das viagens já não era mais trabalho e sim educação 17, seguido por saúde e assuntos pessoais. Esses dados podem refletir a saída do mercado de trabalho das mulheres para dedicação exclusiva à família e a grande quantidade de trabalhadoras informais, já que contam, na maioria das vezes, com uma divisão de trabalhos domésticos mais desigual do que mulheres com rendas mais elevadas, menor estabilidade no mercado de trabalho e menor acesso às instituições e profissionais que possam dar assistência aos filhos e familiares. Enquanto as mulheres que fazem parte do grupo que possui a maior renda têm índice de 16% andando a pé contra 45% dirigindo seus próprios automóveis, as de menor renda tem índice de 50% andando a pé e 28% de ônibus. 17

Segundo a metodologia adotada nesta pesquisa (OD), em viagens em que um indivíduo acompanha outro, o destino final é computado para ambos. Assim, a mãe que leva o filho à escola ou a mulher que levou um familiar ao hospital tem como destinos "escola" e "saúde", respectivamente.

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Gráfico 2: Viagens por motivo de destino e faixas de renda familiar, segundo sexo feminino (em %). Município de São Paulo - 2012.

Dados: Pesquisa de Mobilidade da Região Metropolitana de São Paulo, METRÔ - Companhia do Metropolitano de São Paulo. Elaboração própria.

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Apesar de maioria entre os usuários do metrô e o maior uso de trajetórias a pé, as mulheres possuem acesso menos amplo à cidade, foi o que constatou Haydée Svab18, pois são os homens que percorrem as maiores distâncias e fazem viagens mais longas. Já Shilpa Ranade, arquiteta indiana, diz em seu livro “Why Loiter? Women and Risk on Mumbai Streets” que “Homens ocupam o espaço [público] de maneira bem diferente. Homens escolhem um caminho porque ele é mais interessante e eles podem passear.” Com suas particularidades, as mulheres possuem um papel ativo no uso da mobilidade urbana, elas compõem o maior grupo de usuários dos equipamentos e a utilização mais orgânica do espaço. Assim sendo, deveriam ter suas necessidades e demandas bem demarcadas e atendidas pelo planejamento urbano. Através dessa inclusão, progredimos na efetivação do direito à cidade e igualdade de acesso aos recursos urbanos Na esfera prática, medidas para alcançar esse padrão mais igualitário são propostas pela pesquisa, como “redução da velocidade máxima de vias, inclusão de motoristas mulheres, possibilidade de desembarque noturno de ônibus em locais seguros, instalação e melhoramentos em calçadas, iluminação, simplificação de tarifas de transporte com integração e elevação da oferta de modais, valor de tarifa por tempo (3h, diário, semanal, mensal) e não somente por trecho de deslocamento, a instalação adequada de creches em quantidade e localização, escolas públicas com educação integral e centros públicos de atividades para a população idosa e pessoas com deficiência.” No âmbito internacional houve, na cidade de Viena, Áustria, em 1999, uma pesquisa direcionada a seus moradores visando estruturar como eles utilizavam o transporte público. As mulheres levavam mais tempo para responder o questionário já que possuem uma rede de trajetos muito mais complexa do que o dos homens, incluindo mais trajetos a pé, desvios e alternância entre os modais. Foi constatada uma queda no uso de praças e parques públicos por meninas a partir de nove anos. A explicação pode vir da menor imposição por 18

Em seu estudo “Evolução dos padrões de deslocamento na Região Metropolitana de São Paulo: a necessidade de uma análise de gênero”, baseado na pesquisa Origem e Destino do Metrô de São Paulo, assim como no material da Prefeitura de São Paulo.

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parte das meninas quanto a disputa de espaços nos parques, ou seja, se em uma quadra de esportes houvesse conflito quanto ao usuário em determinado período, a propensão dos meninos ganharem o “direito” ao uso era bem maior do que as meninas. Afastando-as. Medidas foram criadas pela Prefeitura para a redução das desigualdades no ambiente urbano, a intenção era extrapolar o campo da implantação na cidade e capturar desde a formação da equipe que vai efetivamente planejar as modificações. Dentre as modificações, foi implantado o melhoramento da iluminação das vias, a ampliação das calçadas, a construção de rampas, maior variação nos espaços construídos para prática de esportes, incluindo quadras de badminton e vôlei, e subdivisão de áreas abertas em bolsões semifechados. No planejamento temos o incentivo e financiamento de pesquisas relacionadas ao tema e a exigência em processos de licitações municipais de medidas de melhoria do espaço para as mulheres, proporcionais ao tamanho e especialidade do projeto19. As medidas visavam tornar o ambiente mais igualitário e trazer para a contratação de serviços, empresas e fornecedores um critério qualitativo que demarca o comprometimento dos mesmos com as mudanças. Reconhecendo o acesso à informação como uma base importante para o desenvolvimento da igualdade nas questões de gênero, outra medida da Prefeitura de Viena foi disponibilizar um manual20, facilmente acessado na internet, para incorporar a perspectiva de gênero nas decisões administrativas da cidade.

5.2. Permanência A antropóloga Nadja Monnet buscando refletir sobre a experiência feminina do espaço público urbano, observou a Praça Catalunya (Barcelona, Espanha) por duas horas diárias 19

Projetos que possuam prazo acima de seis meses e custo maior que € 40 mil. GENDER MAINSTREAMING MADE EASY: Practical advice for more gender equality in the Vienna City Administration. O manual pode ser consultado, no idioma inglês, no endereço: https://www.wien.gv.at/menschen/gendermainstreaming/pdf/gender-mainstreaming-made-easy.pdf 20

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durante seis meses. Foi constatado que menos mulheres do que homens frequentavam o espaço, o horário em que a frequência de mulheres era grande, coincidia com os horários de saída das escolas ou do trabalho, os aparelhos de permanência como bancos, raramente eram utilizados pelas mulheres sozinhas e quando eram, ocorria por um período bem curto de tempo. Seja porque alguém as encontrava no local ou porque a ação era apenas uma pausa no percurso que as levaria para outros lugares. As mulheres sozinhas eram geralmente pouco comunicativas, até mesmo com outras mulheres na mesma situação. A autora foi abordada diversas vezes por homens, algumas recebendo propostas e em outras eles bruscamente interromperam a conversa que os próprios tinham iniciado, ao saberem de seu estado civil (casada e com filhos). Parecia requerido implicitamente às mulheres uma “autorização de uso” dos lugares, materializada no sentimento de obrigação de ter uma explicação ou motivo para estar alí ou iniciar uma conversa com alguém. Os homens pareciam aproveitar plenamente o espaço, sem motivos, sem justificativas, o espaço pertencia a eles e eles usufruíam. À antropóloga eram lançados olhares perplexos e interrogadores dos homens, eles estavam ali realizando a mesma atividade de flanância, mas o fato dela ser mulher, abalava o “normal”. Lieber (2016), a partir especialmente de Goffman (2002) lembra que as mulheres só são toleradas no espaço público em determinadas circunstâncias e, uma delas, ao que me parece, é a de não se expor de qualquer maneira e, em todo o caso, não adotar atitudes que saiam das expectativas pré-concebidas do que se espera delas. (MONNET, 2013)

5.3. Barreiras Em 2015 foram divulgados dados do assédio sexual enfrentado por mulheres no sistema metroviário, uma agência de jornalismo com foco em estatísticas e dados públicos [site Fiquem Sabendo] constatou que ocorrem um caso de abuso sexual a cada 2 dias no metrô da cidade de São Paulo. Esse número obteve aumento de 21% em relação ao número

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de assédios em 2014, foram registrados 181 casos 21 de janeiro a dezembro de 2015 e 150* casos de janeiro a dezembro de 2014. Os números foram divulgados com base em dados da Delpom (Delegacia de Polícia do Metropolitano), obtidos por meio da Lei Federal nº 12.527 (Lei de Acesso à Informação).

Figura 19: Arte de Babi Tubelo representando o assédio sofrido pelas mulheres no transporte público. Fonte: Site "Olga" - Campanha "Chega de Fiu Fiu".

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Esses dadoss representam o número de boletins de ocorrência com as três naturezas criminais mais tipificadas pela Polícia Civil em relação ao abuso sexual: importunação ofensiva ao pudor, que, pela lei brasileira, não é crime, mas sim uma contravenção penal (delito de menor gravidade, que não prevê prisão em caso de condenação de um acusado), e os crimes de violação sexual mediante fraude e estupro. O responsável por classificar as situações de abuso ocorridas é o delegado da Polícia Civil. Informações retiradas do site Fiquem Sabendo.

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A grande maioria dos casos registrados (94%) foram classificados como delito de menor gravidade (importunação ofensiva ao pudor) e esse perfil vem sendo repetido em todos os 5 anos pesquisados, onde o número máximo de assédio classificado como estupro foi 3. Cada classificação prevê uma pena22 diferente que funciona de forma gradual de acordo com o nível classificado. Fazendo uma comparação entre os números registrados no ano de 2011 e os números registrados no ano de 2015, houve aumento de 50%, ou seja, o número de registos de assédio sexual dobrou. A Secretaria Estadual de Transportes Metropolitanos acredita que o aumento seja efeito do crescimento do número de usuários da rede e das campanhas de conscientização realizadas para estimular denúncias. Os números apresentados, apesar de serem baseadas em registros, passam longe da realidade enfrentada todo dia pelas mulheres que utilizam os transportes públicos. Neles, é possível encontrar todos os dias variados casos de assédio que não são computados por diferentes motivos, dentre eles, vergonha da vítima e medo de se expor, falta de apoio por parte dos responsáveis em acolher e registrar as ocorrências, hábitos culturais que culpabilizam a vítima e menosprezam assédios como “só uma passadinha de mão”, “só uma encoxada” ou “foi só um elogio”, descredibilização da palavra da vítima e naturalização (ou falta de informação) por parte da vítima do assédio. Como exemplo, temos o caso de uma repórter que tornou pública, em 2015, a traumática experiência de um passageiro ter ejaculado em sua calça no trajeto entre as estações Brás e Bresser-Mooca, no metrô da cidade de São Paulo. Ao procurar um funcionário do Metrô, o mesmo disse que não tinha nada que ele poderia fazer, fez uma pequena busca ao homem com a vítima, mas manteve seu (não) posicionamento. Nenhum registro foi feito, nenhum boletim de ocorrência e nenhum apoio à vítima foi prestado. O funcionário ainda

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As penas são: apenas o pagamento de multa para a importunação ofensiva ao pudor, prisão de dois a seis anos para a violação sexual mediante fraude e de seis a dez anos em caso de estupro. Informações retiradas do site Fiquem Sabendo.

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indagou o porquê a vítima não gritou, se manifestou ou tomou enquanto estava sendo assediada.

algum posicionamento

No caso da repórter houve repercussão, mas quantas mais sofrem ou já sofreram outros tantos tipos de assédio sexual e não tiveram suas vozes ouvidas? Até mesmo as campanhas do Metrô reforçam os estereótipos culturais de que a mulher - indefesa - necessita da força física do homem para proteção.

Figura 20: Campanha de conscientização contra o abuso sexual. Fonte: Portal eletrônico do Governo do Estado de São Paulo.

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Esta campanha mostra a imagem de três homens fortes, com posturas agressivas e com a mensagem “você não está sozinha. Mesmo quando você não vê, estamos aqui cuidando da sua segurança”. Ou seja, nós mulheres enquanto frágeis e desamparadas, devemos nos apoiar no comportamento agressivo “característico” da figura masculina. Existe imbuída uma mensagem de normatização do assédio, os homens com seu “instinto predatório masculino” vão te assediar se tiverem a oportunidade, porém, caso aconteça, os brutamontes estão alí para te defender. Há o estímulo à punição do assediador e não à prevenção do assédio. Outros estereótipos também são reforçados, como a mulher, com seu papel social relativo ao doméstico, necessita da companhia masculina para transitar com segurança pelo espaço público, lugar do desconhecido, lugar de apropriação do homem. A ela é reservado o controlável, o confinamento, o seguro e a ele o inesperado, o fortuito, as ruas. Em uma pesquisa do site Think Olga para a campanha “Chega de Fiu Fiu”, quase 8 mil participantes mulheres foram consultadas através de um formulário online sobre assédio nas ruas. O resultado não foi surpreendente, é espelho do que escutamos das nossas amigas, familiares e conhecidas que utilizam as cidades. 98% delas já haviam sofrido assédio, 90% já trocaram de roupa antes de sair de casa pensando onde iam por causa de assédio e 81% já haviam deixado de fazer algo por medo do assédio.

Gráficos 3: Pesquisa online realizada pela jornalista Karin Hueck em agosto de 2013 com 7762 mulheres brasileiras. Arte: Flávio Bezerra. Fonte: Site “Olga” - Campanha “Chega de Fiu Fiu”.

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É comum o medo de usar os meios de transportes e o espaço público em determinados horários e locais, é diária a preocupação com a vestimenta para não ser assediada nas ruas (apesar da comprovada não eficácia), é inconsciente a formulação mental do trajeto antes de fazê-lo para que não haja exposição às ruas muito escuras ou inabitadas. Nós mulheres ainda não conquistamos na prática o pleno direito de ir e vir nas cidades, a esfera pública ainda não pertence plenamente aos nossos corpos. Se perguntar “uma mulher se sentiria segura andando aqui à noite?” e obter uma resposta positiva provavelmente significa que a maioria das pessoas se sentiria confortável usando aquele espaço. Mulheres podem ser usadas como um termômetro para segurança e outras prioridades em planejamento.” Mildred Warner, professora de planejamento urbano da Universidade de Cornell. [Trecho retirado na íntegra da reportagem “Por que cidades feitas para mulheres são mais igualitárias]

Figura 18: Arte da Campanha “Vivas nos Queremos” que diz “Um dia já não terei medo de andar pela rua, já não terei medo de morrer pelo seu machismo. Fonte: Site da Campanha “Viva nos Queremos” .

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Figura 21

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Figura 22


Figura 19: Pedestres. Fonte: Site The City Fix Brasil.


Micropráticas

O espaço urbano é vivenciado pelos corpos que nele caminham, habitam, ocupam e o experimentam. Essas operações se realizam cotidianamente e muitas vezes de forma involuntária, mas são elas que transformam o espaço projetado em um espaço particular de sensações. O corpo que caminha tem o potencial de ir, vir, desviar e inovar a ordem espacial imposta pelo projeto urbano. Este capítulo irá expor o arcabouço teórico que me apoiei para construir a parte empírica deste trabalho e expõe a minha experimentação do espaço público enquanto um corpo feminino que pratica a cidade. Apresento as reflexões resultantes dos meus trajetos narrados de forma escrita. A abordagem escolhida - a errância - visa evidenciar minha tentativa de produção de um estudo urbano mais próximo aos “praticantes ordinários” da cidade, com a cidade vista do baixo. No capítulo “Caminhadas pela cidade” de CERTEAU (2011), é apresentado pelo autor o desejo do citadino de ver a cidade por uma perspectiva do alto - ser o que Certeau chama de “olho celeste” -, este desejo não é novidade, em algumas representações de cidades em pinturas medievais e renascentistas o ponto de vista retratado é algo como um panorama superior simulado, simulado pois este alcance, na época, ainda não era dominado, porém já retratado/desejado pelos pintores. O desejo de ser o “olho totalizador” que experimenta a singularidade de ver a distância a massa que, manipulável, “obedece aos cheios e vazios do espaço urbano” se mantém. Os edifícios atuais com altos gabaritos que oferecem ao visitante a visão antes somente imaginada, continuam “construindo a ficção que cria eleitores que muda em legibilidade a complexidade da cidade e fixa no texto transparente a sua opaca mobilidade”. Ou seja, ter a visão do conjunto da cidade por cima põe ao alcance dos “praticantes ordinários da cidade” a não ordinariedade , é permitido “o prazer de ‘ver o conjunto’ , de superar, de totalizar o mais desmesurado dos textos humanos [a cidade]”. E segundo Paola Berenstein Jacques (2006), também é “do alto” que se desenvolvem os “métodos de análise contemporâneos das disciplinas urbanas”, ocasionando projetos que

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se afastam da experiência cotidiana e produzem a “cidade-espetáculo”23. A espetacularização da cidade contemporânea desencoraja as possibilidades, reduz a ação urbana através do louvor à imagem, à ordem, o que deveria ser palco das experiências, torna-se “simples cenário, sem corpo, espaços desencarnados”, diminuindo a “experiência urbana enquanto prática cotidiana, estética ou artística”. Como resultado, “espaços públicos contemporâneos, cada vez mais privatizados ou não apropriados”. O possível antídoto seria a errância do urbanista, sentir a cidade (embaixo “down”) e se atentar mais às práticas. O erro seria o não método, “uma ferramenta subjetiva e singular… o devir errante do urbanista poderia ser visto como o contrário de um modelo urbanístico.” Será necessário depois cair de novo no sombrio espaço onde circulam multidões que, visíveis lá do alto, embaixo não vêem? Queda de Ícaro. No 110° andar [no World Trade Center], um cartaz, semelhante a uma esfinge, propõe um enigma ao pedestre por instantes transformado em visionário: It's hard to be down when you are up... “embaixo” (down), a partir dos limiares onde cessa a visibilidade, vivem os praticantes ordinários da cidade… eles são caminhantes, pedestres, wandersmänner, cujo corpo obedece aos cheios e vazios de um “texto” urbano que escrevem sem poder lê-lo. (CERTEAU, 2011, p.170)

São as práticas dos “praticantes ordinários” que nos interessam nesta parte do trabalho, pois são suas operações singulares (caminhar, habitar, ocupar, experimentar...) de um “conhecimento tão cego como no corpo-a-corpo amoroso” que vivem, transformam e contradizem o projeto de disciplinamento sofrido pelo espaço urbano. Tomando partido dos conceitos de lugar e espaço determinados por Certeau24 é o praticante ordinário o principal transformador do lugar em espaço praticado, “assim a rua geometricamente definida por um urbanismo é transformada em espaço pelos pedestres”, nem sempre seguindo a função para a qual o lugar foi inicialmente pensado, ou talvez suprindo através de “procedimentos multiformes resistentes astuciosos e teimosos” lacunas resultantes de negligenciamentos. “Os praticantes da cidade, como os errantes, realmente experimentam os espaços quando os 23

A autora define “Espetáculo” a partir do sentido dado por Guy Debord em A sociedade do Espetáculo, Rio de Janeiro, Contraponto, 1997. 24 “o lugar, a princípio estável e fixo, e o espaço, instável e em movimento” definição de Paola Berestein Jaques

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Micropráticas

percorrem, e assim lhe dão corpo, e vida, pela simples ação de percorrê-los.” JACQUES (2006) Comparando o espaço geométrico com o sentido das palavras, De Certeau designa ao espaço do urbanista o sentido literal da língua, aquele que obedece a disciplina (2011) do “nível normal e normativo” ditado pelos gramáticos e linguistas, já o espaço do pedestre, com seus desvios e variações, seria o sentido figurado, pois se molda de acordo com “uso particular”. É o pedestre através de suas práticas (aqui falaremos da prática do caminhar), que “vota certos lugares à inércia ou ao desaparecimento e, com outros, compõem ‘torneios’ espaciais ‘raros’, ‘acidentais’ ou ilegítimos.” A vida urbana deixa sempre mais remontar aquilo que o projeto urbanístico dela excluía. A linguagem do poder “se urbaniza”, mas a cidade se vê entregue a movimentos contraditórios que se compensam e se combinam fora do poder panóptico. A cidade se torna o tema dominante dos legendários políticos, mas não é mais um campo de operações programadas e controladas. Sob os discursos que a ideologizam, proliferam as astúcias e as combinações de poderes sem identidade, legível, sem tomadas apreensíveis, sem transparência racional - impossíveis de gerir. (CERTEAU, 2011, p.174)

6.1. O Acerto do Erro Segundo De Certeau (2011), o caminhante tem o potencial de inovar a “ordem espacial que organiza um conjunto de possibilidades (por exemplo, por um local por onde é permitido circular) e proibições (por exemplo, por um muro que impede prosseguir)”, o ato de caminhar possibilita um “processo de apropriação do sistema topográfico pelo pedestre” e uma “realização espacial do lugar”, assim o caminhante apesar de obedecer a certas “possibilidades fixadas pela ordem”, tem o poder de legitimar umas e anular outras (“vai somente por aqui, mas não por lá”) e também de dentro dessas possibilidades, criar outras (“por exemplo, criando atalhos ou desvios… se proíbe de ir por caminhos considerados lícitos ou obrigatórios”). Os possíveis usos indicados pelos urbanistas são atualizados cotidianamente pelos experimentadores urbanos. 91


E Se Essa Rua Fosse Minha?

Certamente a questão do andar é significativa e está relacionada com a errância, mas o errante urbano vai além da questão do andar para chegar na experiência do percurso, do percorrer, do deslocamento urbano, que pode também se dar por outros meios. (JACQUES, 2006, p. 119)

O errante urbano presente nos estudos de Paola Berenstein Jacques busca o “estado efêmero de desorientação espacial”, busca perder-se (voluntariamente) mesmo em locais previamente conhecidos e, com a experimentação da desorientação, aguçar todos os outros sentidos, além da visão, para uma percepção sensorial plena. O errante ao contrário do urbanismo, que busca a orientação através de sua representação gráfica (mapas, planos, direções…), concentra-se na desorientação. “Toda a educação do urbanismo está voltada para a questão do se orientar, ou seja, o contrário mesmo do se perder.” O urbanista errante – que, como no caso do arquiteto urbano, seria sobretudo uma postura com relação ao urbanismo enquanto disciplina e prática – seria aquele que busca o estado de espírito errante, que experimenta a cidade através das errâncias, que se preocupa mais com as práticas, ações e percursos, do que com as representações gráficas, planificações ou projeções, ou seja, com os mapas e planos, com o culto do desenho e da imagem. O urbanista errante não vê a cidade somente de cima, em uma representação do tipo mapa, mas a experimenta de dentro, sem necessariamente produzir uma representação qualquer desta experiência. Esta postura com relação à apreensão e compreensão da cidade por si só já constitui uma crítica com relação tanto aos métodos mais difundidos da disciplina urbanística – como o “diagnóstico”, baseado principalmente em bases de dados estatísticos, objetivos e genéricos – quanto à própria espetacularização urbana contemporânea. (JACQUES, 2006, p.118)

A errância urbana, com essa liberdade para receber do espaço informações de variadas fontes, multiplica as possibilidades de análise e estudo do espaço urbano, por permitir um olhar (cheirar, ouvir, tocar e degustar) como um “campo de investigações artísticas aberto”, privilegiando a relação do corpo do cidadão e o corpo urbano. O urbanista errante entende a relação espaço-corpo como protagonista da cidade, seguindo um caminho diferente ao da espetacularização urbana. “O urbanista errante buscaria uma reinvenção corporal, carnal, sensorial das cidades.” (JACQUES, 2006, p.127) 92


Micropráticas

6.2. A Proposta Apoiando-se nos estudos de Paola Berenstein Jacques (2006) e Michel de Certeau (2011), busquei entender, a partir da minha vivência errante da cidade, como o meu corpo feminino experimentava o espaço público. Iniciei em paralelo aos estudos para estruturação deste trabalho um registro diário dos trajetos e andanças em forma de narrativa escrita. Não intentava a princípio a produção de representações gráficas dos trajetos e nem o engessamento de uma área de atuação específica, mas sim a minha vivência cotidiana e a tentativa de um desprendimento metodológico. A proposta era relatar todos os sentimentos, gostos, cheiros, confrontos e situações que meu corpo fosse exposto enquanto eu experimentava a cidade. Meu objetivo era produzir reflexões a partir desta nova forma de analisar e estudar o espaço, exposta por Paola Berenstein Jacques resultado da “experiência de se perder” no “embaixo” de Michel De Certeau. A liberdade de um não recorte territorial acabou produzindo inconscientemente um recorte, a maioria dos meus trajetos tiveram alcance de um raio de aproximadamente 2,5 km do local onde resido e por avançarem distâncias curtas, foram realizados em sua maioria a pé ou utilizando a bicicleta como meio de transporte. Nas exceções, quando o deslocamento excedeu os 2,5 km, utilizei transportes públicos (ônibus, metrô e trem). Tentei diversificar as atividades em meus trajetos, em alguns só houve deslocamento e em outros permanência em diversificados pontos. O Bairro onde foi realizada a maior parte dos trajetos é o bairro de Icaraí, localizado na cidade de Niterói, no Estado do Rio de Janeiro. O bairro possui alta valorização territorial, é de uso majoritariamente residencial, mas também comporta forte concentração de serviços, aglutinando comércios e camelôs. É um bairro nobre de classe média, média-alta e alta. Possui uma malha regular ortogonal, predominância de edifícios residenciais verticalizados

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E Se Essa Rua Fosse Minha?

com alto número de gabaritos, restrito espaço entre as edificações e quarteirões retangulares de aproximadamente 120mx150m. Moro há 15 anos no mesmo edifício e acredito que possuo familiarização com a maioria das ruas do bairro, por isso tive dificuldade no processo de desfamiliarização que Nadja Monnet (2013) diz necessário para que haja um “reposicionamento constante das ideias iniciais” com o intuito de “evitar uma miopia”. Segundo Paola Berenstein Jacques, “perder-se no lugar conhecido é uma experiência mais difícil, porém bem mais rica, do que a desorientação no espaço totalmente desconhecido”, maior do que a complexidade de “perderse” onde já se tem uma orientação espacial definida, foi a dificuldade do meu afastamento do foco consciente em perceber as interpelações que sofreria ao ocupar o espaço urbano. A apreciação do perder-se deu lugar à obrigação de caminhar para produzir os relatos, mecanismos de delegação da atividade foram ativados inconscientemente por mim. Analisando posteriormente os trajetos que fiz, todos eles tinham uma justificativa para acontecer, ou seja, uma atividade que deveria ser realizada e que necessitava de algum deslocamento. A experimentação já não era o principal, mas sim a atividade condicionada a outras atividades. Houve estranhamento no peso que a tarefa se revelou no meu cotidiano, primeiramente porque em um passado recente a experimentação da cidade através da prática do caminhar era o principal exercício que desempenhava como lazer nos dois anos que morei no bairro de Surry Hills, em Sydney, na Austrália. Morei todo o período mencionado na mesma localização e possuía familiarização com o local, mesmo assim tinha fascínio por me perder em sua malha urbana irregular e praticava a errância como atividade recreativa. Meu estranhamento refletiu-se como um obstáculo para a conclusão da proposta inicial desta experiência. Mas suscitou em mim dúvidas quanto ao gatilho da minha aversão a atividade no período de realização deste trabalho. Por que não me sentia convidada a explorar o espaço urbano? Por que a atividade se transformou em sentimentos tão opostos (recreação/obrigação)? (Para impressões e uma caracterização mais detalhada sobre os dois bairros supracitados consultar o item 9. Apêndice ao final deste trabalho.) 94


Micropráticas

Desenvolvi as narrativas escritas das pseudo errâncias por um período de aproximadamente 90 dias (corresponde a 54% do tempo disponível para realização deste trabalho), em todas os meus trajetos sofri algum tipo de assédio enquanto caminhava e/ou fui espectadora de algum. Olhares, abordagens inapropriadas ou não solicitadas, gritos, sussurros, jogadas de corpo para esbarrar “acidentalmente” em mim, são algumas das diversas formas que os assediadores se apropriam para confirmar que o espaço público não é zona de pertencimento do corpo feminino. Desde deixar um cartão pessoal em cima da caixa do meu gato, quando fui levá-lo para um passeio em um parque público do bairro (depois de uma demonstração clara de desinteresse na interação que o interlocutor masculino tentou iniciar comigo) até a completa desconsideração dentro de um transporte público da minha presença e da minha mãe, um homem apoiou o braço posicionando-o entre os nossos rostos, impossibilitando a visão do rosto de uma para a outra e a continuidade da conversa, mesmo com o transporte visivelmente vazio e com pleno espaço para apoio de braço em outros lugares. Me questiono se nas duas situações (e em todas as outras que o corpo feminino é exposto) o corpo em destaque fosse o masculino, se teríamos o mesmo comportamento da outra parte envolvida. Se fôssemos entendidas como sujeito social e não promovidas a objeto de atenção, teríamos uma maior apropriação e experimentação do espaço público? Parece que a demarcação espacial das mulheres resulta numa sabotagem do direito de desfrutar dos benefícios do anonimato que deveria reger as relações entre estranhos em espaços públicos. As características de neutralidade e de mistura do espaço público é mais uma declaração de princípio do que uma realidade palpável, como é também a promiscuidade relacional que aconteceria nesses espaços. Paradoxalmente, na rua, em uma praça pública, a mulher que é “invisibilizada” como um sujeito social, sofre de uma “hiper-visibilização” como objetivo atenção. Mulheres - ou pelo menos algumas, considerados acessíveis - são constantemente vítimas de agressões do nível mais básico piscadelas, toques leves ou mais grosseiros, etc. - mas esse excesso de foco também pode adotar a forma mais sutil de paquera. As mulheres sabem que o espaço urbano não é completamente delas. Elas sabem que podem frequentar alguns lugares em determinados momentos. Se elas são autorizados a permanecer, é na condição de convidada, e desde que saiba ficar de forma adequada… Parece que as mulheres não podem se dar ao luxo de adotar atitudes desviantes. (MONNET, 2013, p.227)

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Este mapa é a representação gráfica dos trajetos que realizei. Ele foi propositalmente construído após a experiência espacial para que não funcionasse como ferramenta de orientação, somente registro.


PERAMBULÂNCIAS...


Figura 23:


Figura 20: Menina protestando. Fonte: Revista Fรณrum.


Questionamentos Finais

Inseridas em um contexto social e histórico de hegemonia do gênero masculino, as mulheres lidam com o forçado engessamento de sua posição de inferioridade em relação ao homem, o que lhes proporciona tratamentos desiguais perante o reconhecimento de direitos, refletindo, dentre outras desigualdades, ao diferenciado acesso aos espaços públicos na escala urbana. O corpo feminino enfrenta processos de desvalorização e controle que afetam desde sua sexualidade e integridade física e mental até a sua apropriação de espaços, como exemplos: a repressão moral a seus desejos; políticas de aborto; violências sexuais; invasões não consentidas a seu corpo; mutilação/alterações, formas que legitimam a dominação e reforçam o desequilíbrio. Diante deste quadro, a complexidade que envolve a experiência urbana é condicionada a fatores redutores quando o corpo que experimenta é o feminino, produzindo uma experimentação da cidade aquém de toda sua potencialidade. O processo limitador da liberdade feminina extrapola os campos que o projeto urbano alcança. Faz parte da nossa função enquanto arquitetos e urbanistas, logo influenciadores do espaço construído, encontrar dentro dos recursos que nos cabem, maneiras de tornar o espaço público menos hostil a todos os seus usuários, incluindo as mulheres. Antecessor às direções projetuais práticas, está a conscientização e o entendimento dos diferentes cenários que continuam reproduzindo carências. O alcance deste trabalho é a percepção, precedente à prática, de uma das facetas destes cenários urbanos contemporâneos. Importante, já que continuamos produzindo cidades que proporcionam vivências desiguais. É inegável as conquistas femininas ao longo de sua história, mas ainda, de maneira geral, convivemos com a violência limitadora de deslocamentos, o assédio vivenciado no cotidiano, a falta de acessibilidade e a injusta distribuição de renda e trabalho que não permite tempo livre suficiente para maior usufruição dos espaços. Se nos privam da utilização de parte do potencial de identificação com o entorno que nos cerca, perdemos possibilidades. O quanto deixamos de viver, sentir e experimentar ao tornar-se mulher25?

25

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino. Somente a mediação de outrem pode constituir um indivíduo como um Outro. Enquanto existe para si, a

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E Se Essa Rua Fosse Minha?

É imposto, a partir da construção social do sexo feminino, além de restrições comportamentais e físicas, um déficit exploratório que nos encarcera, onde o medo nos permite percorrer os espaços, mas não descobri-los, caminhar pelas ruas, mas não explorálas, mover-se com os transportes públicos, mas não abusar da metáfora deste momento de “abstrato domínio ocular do espaço” que joga com a imobilidade de dentro e de fora da caixa de vidro e metal26. A quem pertence a cidade? Somos múltiplos corpos com múltiplas características que se confrontam entre o individual e o coletivo ao habitar os espaços públicos, mas porque ser mulher ainda me enfraquece nestes confrontos? Acredito que estudar e entender essas implicações nos fortalece no combate a replicação de ações que nos limitam. Fomos afastadas da esfera do conhecimento por longos períodos históricos refletindo em um número desigual entre perspectivas masculinas e femininas na produção intelectual (teorias e práticas)27. Apoiar-se em estudos e temas implementando recortes específicos no universo feminino produz e expõe demandas muitas vezes invisibilizadas. A presença na rua, em uma sociedade machista, tira da mulher a posse de seu corpo, já que houve por sua parte resistência a ordem implícita que a aprisiona ao doméstico, se a rua é de ninguém e ao mesmo tempo de todos, a mulher, na rua, torna-se ninguém, passível a posse de todos, de homens que se sentem confortáveis ao importunar, tocar e violentar o corpo que permitiu seu acesso só por estar ali. O espaço e os nossos corpos tornam-se públicos. Quando seremos entendidas como donas do lugar e do corpo que habitamos? “A gente não tá aqui pedindo nada, não. A gente só quer ocupar um lugar que é nosso.” (Fala de Raquel Carvalho no trailer do filme “Chega de fiu fiu - O filme”, produzido pela diretora Amanda Kamanchek) criança não pode apreender-se como sexualmente diferenciada. Entre meninas e meninos, o corpo é, primeiramente, a irradiação de uma subjetividade, o instrumento que efetua a compreensão do mundo: é através dos olhos, das mãos e não das partes sexuais que apreendem o universo” . Simone de Beauvoir - O Segundo Sexo, 1967, p. 9) 26 Consultar capítulo VIII “Naval e carcerário” e capítulo IX “Relatos de espaço” do livro “Práticas de espaço” de Michel de Certeau, 2011) 27 Também produto do apagamento histórico feminino dentro dos campos do conhecimento.

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Questionamentos Finais

Figura 24: Arte da Campanha "Chega de Fiu Fiu". Fonte: Site "Olga"

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Figura 25


Figura 22: Margaret Heafield Hamilton – cientista de computação responsável por desenvolver o conceito moderno de software e criar o programa de voo utilizado na Apollo 11 (a primeira missão tripulada à Lua). Fonte: Site Techmundo.


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mulheres

também

têm

direito

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110


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101


Figura 26


Figura 23: Iniciativa Walk Your City dá dicas de tempo e distância para mostrar lugares que não são tão longes assim, e que caminhar pode ser uma ótima escolha. Fonte: Site The city Fix Brasil.


Apêndice

Neste item exponho minhas impressões sobre dois bairros distintos aos quais o antagonismo de sensações proporcionados ao experimentá-los deu origem às inquietações que motivaram meu interesse pelo estudo da relação do gênero com a experimentação do espaço público. Para uma melhor aproximação dos locais que busco relatar aqui, incluo, além das minhas percepções, dados que julguei importantes para caracterizar os espaços que vivenciei. Falarei sobre o bairro Surry Hills, localizado na cidade de Sydney, no estado de Nova Gales do Sul (New South Wales), na Austrália, e sobre o bairro de Icaraí, localizado na cidade de Niterói, estado do Rio de Janeiro, no Brasil. Não pretendo compará-las, pois devido aos fatores sociais, econômicos e históricos, não acredito que o resultado da comparação seria proveitoso, apenas me detenho a apresentar percepções e sentimentos vivenciados nos espaços públicos dessas cidades. O bairro de Surry Hills, durante sua história, sofreu estágios oscilantes de valorização conectados com os períodos de guerras, a crescente decadência do local levou, na década de 50, ao seu abandono por diversas famílias australianas que procuravam se afastar dos perigos ali presentes, sua má reputação garantia baixos valores das propriedades e pouca procura por moradores. Durante o período pós-guerra , com o afluxo de imigrantes atraídos pelos baixos valores dos imóveis e dos aluguéis e a proximidade ao centro da cidade, o bairro ganhou nova vida, ao ocuparem as casas outrora abandonadas. Os imigrantes habitaram a área, tornando-a novamente residencial e movimentaram o comércio local, invalidando o deserto industrial e comercial que o local havia se transformado. Após essa revitalização, a área passou a ser ponto de interesse de pessoas, majoritariamente jovens, que procuravam fugir dos subúrbios em busca de uma vida mais cosmopolita (A Jakubowicz, 'The City Game: Urban Ideology and Social Conflict', in D Edgar (ed), Social Change in Australia, Cheshire, Melbourne, 1974, p 336), esses jovens compunham uma nova classe média que possuía seu próprio negócio ou trabalhava no serviço público, em corporações ou nas universidades. A área passa por um processo de gentrificação onde antigos edifícios são restaurados e aparecem novos moradores, pertencentes à classe média alta. E como reflexo a este movimento, o valor dos imóveis, dos serviços e dos produtos aumentam causando o afastamento da população de baixa renda que ainda habitava o local. 115


E Se Essa Rua Fosse Minha?

Figura 28: Surry Hills. Fonte: Google Maps.

116

SURRY HILLS

Figura 27: Imagem aĂŠrea Surry Hills. Fonte: Google Maps.


Apêndice

Atualmente, o bairro abriga comércios, residências e áreas industriais leves, possui população majoritariamente de classes sociais de médio e alto padrão e é conhecido como umas das áreas urbanas habitadas pelos hipsters. Os comércios são variados, voltados ao atendimento das demandas de diferentes padrões financeiros, composto por restaurantes que oferecem opções de múltiplas nacionalidades, alguns com preços elevados ao mesmo tempo que redes de fast food e opções mais econômicas, brechós e sebos bem acessíveis ao lado de lojas de grifes conceituadas e galerias de arte, cafeterias e pubs com terraços para agitação da vida noturna.28 A arquitetura é composta predominantemente por casas geminadas vitorianas em bom estado de conservação e edifícios com baixo número de gabaritos, os edifícios mais recentes, que pertencem à minoria das construções, possuem alto número de gabaritos e design contemporâneo arrojado, com uso de estruturas metálicas e vidro. Sua malha urbana irregular, permite a formação de quarteirões de formas interessantes e produz nas esquinas ângulos agudos e obtusos que possibilitam a formação de “micro espaços de permanência” dispostos sem lógica geométrica visível. A área permanece localizada próxima ao distrito comercial central e se conecta a maioria dos locais através de modal ferroviário, rodoviário e hidroviário. Gráfico 4: Métodos de deslocamento dos moradores de Surry Hills para o trabalho. Australian Bureau of Statistics (2011).

28

Fonte: Website “Dictionary of Sydney”. O “Dictionary of Sydney” é um Website que abriga dados e fatos sobre a história de Sydney, contados por contribuidores como professores, historiadores profissionais e especialistas locais

117


E Se Essa Rua Fosse Minha?

Permaneci neste bairro por dois anos morando no mesmo local, uma casa vitoriana geminada dominada por estudantes imigrantes que não pertenciam nem mesmo a classe média, mas necessitavam da localização privilegiada do bairro para se conectar rapidamente com diversas áreas da cidade a fim de atender as demandas de estudo e trabalho. Neste período desenvolvi uma relação próxima com o bairro, utilizava a bicicleta como principal meio de transporte e era bem atendida com ciclovias na maioria das ruas, percorria diariamente 6 km de ida e 6 km de volta no meu trajeto ao trabalho. Com a superpopulação da minha residência (éramos aproximadamente 20 moradores em uma casa de 12 quartos), tinha o espaço público como refúgio em busca de privacidade, os “micro espaços de permanência” por sua irregularidade lógica, proporcionavam uma nova descoberta a cada experimentação que eu me propunha enquanto pedestre. O espaço público urbano me incentivou a iniciar uma atividade física, corria pelas ruas e no parque próximo a minha casa sempre que tinha a oportunidade, principalmente pelo período da madrugada quando as ruas já estavam vazias e eu podia melhor desfrutar a arquitetura. Não tinha vivido, até o momento, uma experiência tão rica de pertencimento ao espaço público, entendi nas vielas estreitas de Surry Hills o quanto o espaço influencia nossos hábitos, nossa identificação com o entorno e nosso sentimento de pertencimento. Apesar de não ter vivido por muito tempo no bairro, não ser natural do país, não ter como primeira língua o idioma principal do local e não pertencer a classe social dominante, me sentia parte da comunidade e permanecia nos espaços sem desconforto. Durante este período não sofri nenhum tipo de violência (verbal e física) enquanto experimentava a cidade como forma de deslocamento ou lazer.

118


Apêndice

O bairro de Icaraí recebeu seu primeiro plano de arruamento no século XIX, o “Plano Taulois” (1840-41), que propunha um traçado urbano regular de malha viária ortogonal com início no litoral marítimo, ele foi um marco facilitador do processo de povoamento do bairro. Após a Segunda Guerra Mundial, houve o aumento da procura por habitações no local pela classe média, com o desejo de morar próximo ao seu grande atrativo: a Praia de Icaraí. Para atendimento à nova demanda, o capital imobiliário iniciou a construção de edificações multifamiliares e alguns investimentos em infraestrutura foram realizados. Com a construção da Ponte Rio-Niterói na década de setenta, houve aumento da procura pelo bairro e sua consolidação como centro urbano polarizador, impulsionando a formação de comércio, serviços e espaços de lazer. A intensa substituição de habitações unifamiliares ou de poucos pavimentos por edifícios com grande número de gabaritos iniciou-se pela orla e reflete hoje na verticalização que o bairro possui. Atualmente o bairro comporta residentes de classe média, média-alta e alta, é em sua maioria residencial, mas também possui forte concentração de serviços, aglutinando comércios e camelôs, o custo de vida é considerado alto nesta localização. Sua malha, apesar de ter sofrido alterações ao longo do tempo, ainda mantém o aspecto regular ortogonal traçado em seu plano de arruamento inicial. Sua orla marítima, que hoje encontra-se totalmente ocupada por edifícios de alto padrão construtivo, possui imóveis de alto valor e é um dos principais espaços públicos de lazer do bairro, junto ao Campo de São Bento, um parque de grande extensão localizado na região central, que oferece atividades de lazer para diferentes faixas etárias. O número de gabaritos e valor dos imóveis decresce à medida em que as quadras se interiorizam. O bairro conta com o Complexo Esportivo Caio Martins, um conjunto de ginásios para diferentes esportes, dentre eles um estádio de futebol pertencente ao clube Botafogo de Futebol e Regatas que encontra-se desativado desde de 2004, outras atividades ainda estão em funcionamento. A vida noturna do bairro é agitada principalmente pelos bares que oferecem atrações e faixas de preço variadas atendendo a diversos públicos.

119


E Se Essa Rua Fosse Minha?

ICARAÍ Figure 30: Icaraí. Fonte: Google Maps.

120

Figure 29: Imagem aérea Icaraí. Fonte: Google Docs


Apêndice

Apesar de Icaraí ser um bairro valorizado, sua arquitetura não é muito atrativa, as casas unifamiliares deram lugar a elevados edifícios de características arquitetônicas monótonas e replicadas em sua maioria. Existem marcos arquitetônicos, como o Museu de Arte Contemporânea projetado pelo arquiteto Niemeyer, mas são pontuais, concentrando o interesse do caminhante somente no ponto de chegada, sem surpresas interessantes ao longo do caminho. Talvez esta seja uma das causas da minha crescente falta de entusiasmo em experienciar o local. Tentei dar continuidade ao uso da bicicleta, mas tive dificuldades para acessar alguns locais por falta de ciclovias em boa parte das ruas, por medo, na falta de ciclovias, de compartilhar as ruas com os veículos, já que as vias são estreitas e comportam carros estacionados em seus dois lados, ou por falta de bicicletários. Porém, achei na bicicleta um dispositivo que me trouxe mais segurança ao acessar os espaços públicos à

noite, me sentia mais protegida, quando sozinha, ao fazer o

caminho com a bicicleta do que andando, a facilidade que o número reduzido de veículos trazia, devido ao horário, também influenciava esta escolha. As calçadas, assim como as ruas, são estreitas em diversos pontos, o que facilita os assédios, já que o espaço para trânsito é reduzido e por consequência te obriga a caminhar bem próximo às

outras pessoas. O pequeno espaço para caminhar combinado com a faixa de

estacionamento de veículos traz a sensação de corredores, onde a finalidade é a passagem de forma rápida, sem o convite para contemplar o entorno. Muitas ruas possuem edifícios com comércios em suas bases e residências em suas torres, durante o dia as ruas são movimentadas e repletas de pedestres, mas na parte da noite, ao fim da hora comercial, as ruas perdem seus olhos caminhantes e oferecem, principalmente às mulheres, um ambiente inseguro. Esta característica, por vezes, inibiu meu acesso aos

locais em horários noturnos e noite adentro . Os espaços

formados por pontos cegos ou vazios eram evitados e condicionavam minha caminhava. Acredito que antes de viver uma outra realidade, não tinha total consciência da minha experiência neste espaço. Naturalizei por muitos anos as limitações reflexos da insegurança que sentia e tinha inconscientemente uma relação não próxima com o entorno. Hoje, o esclarecimento da existência desta relação e de seus agentes formadores suscita dúvidas de como seria minha vivência aqui caso pudesse explorar e sentir o entorno plenamente.

121


E Se Essa Rua Fosse Minha?

RUA S. DOWLING | SURRY HILLS

1

RUA BOURKE | SURRY HILLS

122

2


Apêndice

RUA BOURKE | SURRY HILLS

1.

“Micro

espaços

de

entre

as

permanência” edificações. 2.

Fachadas

vitorianas

interessantes.

1

123


E Se Essa Rua Fosse Minha?

RUA GAVIÃO PEIXOTO | ICARAÍ

1

3

3

2

124


1- Após horário comercial, ruas vazias. A escola, que durante o dia movimenta a área, a noite torna-se uma empena cega cercada por árvores, aumentando a sensação de insegurança. 2-

Escola

calçada

em

com

funcionamento, a

presença

de

pedestres. 3- Comércio formal e informal em funcionamento, rua movimentada por pedestres, falta de ciclovia.

125

E Se Essa Rua Fosse Minha? - A idiossincrasia da experimentação de um corpo feminino no espaço urban  

Trabalho de Conclusão de Curso do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF). Autora: Marina Mariano 2017

E Se Essa Rua Fosse Minha? - A idiossincrasia da experimentação de um corpo feminino no espaço urban  

Trabalho de Conclusão de Curso do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF). Autora: Marina Mariano 2017

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