Issuu on Google+

Canadรก e EUA - 1 a 14 de Setembro 2010


2


1. Boston Como planeado, no dia 1 de Setembro de 2010, lá nos encontrámos (o grupo de 18 atriunistas e amigos) no Aeroporto da Portela pelas 9 horas, para iniciar mais uma viagem de longo curso, desta vez ao continente norte-americano. Por se tratar de uma viagem com destino nos EUA, a segurança no Aeroporto foi reforçada, passámos por 2 zonas de controlo magnético e de radar, na segunda das quais chegaram ao requinte de retirar a cobertura da objectiva da minha máquina fotográfica para espreitar, não fosse estar lá um lança rockets disfarçado… em vez da excelente Leica que a equipa… O voo decorreu sem incidentes, e a chegada a NY, bem como as operações da entrada nos EUA, decorreram com as dificuldades habituais, mas com alguma paciência, toda a gente acabou por entrar em terras do Tio Sam. À nossa espera estava o Guidorizzi, o guia, que nos iria acompanhar em toda a viagem. Canadiano de origem brasileira, viria a mostrar-se um excelente profissional que valorizou bastante a nossa viagem com os seus conhecimentos, dando resposta a todas as nossas questões e dúvidas. Apanhámos o autobus que nos conduziu até ao hotel Hyatt Regency em Old Greenwich, situado nos arredores de NY, a cerca de 57 km do Aeroporto Kennedy. No percurso tivemos oportunidade de ter uma primeira visão sobre o inconfundível perfil dos arranha-céus da Big Apple, recortado no horizonte, com uma luminosidade fotogénica, acentuada pelas nuvens que emolduravam o entardecer. A chegada ao hotel foi já de noite, e alguns viajantes, impulsionados pela larica que inundava os seus pobres estômagos vazios, meteram os pés a caminho para descobrirem algo que se pudesse trincar. O meu grupo, depois de alguma dificuldade, aqui as distâncias são grandes porque pensadas em termos de deslocação automóvel e não a pé, lá descobriu um Mac Donald’s (em tempos de 3


fome não se olha o prato, tal como não se olha o dente do cavalo ofertado…), e aí nos deliciámos (?) com uns suculentos hambúrgueres, acompanhados com muita Coca-Cola (aqui começaram as nossas cedências gastronómicas… foi o instinto de sobrevivência a vir ao de cima). A primeira noite foi então dormida no hotel Hyatt Regency de Greenwich e no dealbar do dia 2 de Setembro, depois de um pequeno-almoço servido no pátio interior do hotel, partimos rumo ao nosso primeiro objectivo: a histórica cidade de Boston capital do estado de Massachusetts.

O percurso de cerca de 300 km foi feito no autobus, em velocidade rigorosamente moderada, pois aqui os “cops” são terríveis. Mais tarde teríamos oportunidade de constatar directamente esse rigor yankee. Boston revelou-se-nos como uma cidade peculiar com as suas mais de 100 faculdades e universidades na sua área metropolitana (das quais se destaca a Universidade de Harvard), os seus institutos e centros de pesquisas (o consagrado MIT – Massachusetts Institute of Technology – tem aqui a sua sede) e uma população flutuante de perto de 300.000 estudantes. A visita guiada que efectuámos com um guia local, de nacionalidade venezuelana, revelou-se bastante enriquecedora para o conhecimento dos aspectos históricos da formação e da evolução desta cidade que foi o berço da Revolução Americana que iria culminar na independência dos EUA. Destacamos a figura de Samuel Adams (nasceu e morreu em Boston, 1722 – 1803), governador de Massachusetts e primo de John Adams, segundo presidente dos EUA. Foi um grande promotor da independência do seu país, destacando-se na luta pelo derrube do monopólio do chá, detido pela metrópole britânica. Boston possui 20 circunscrições administrativas e possui uma população de 590.000 habitantes na área urbana e de 5,8 milhões na sua área metropolitana (a Great Boston). Foi fundada em 1630 pelos ingleses e ascendeu à categoria de cidade em 1822. 4


Recordamos alguns dos locais visitados: Quincy Market; Copley Square; John Hancok Tower (o arranha-céus de vidro que domina o centro de Boston); Trinity Church; Beacon Hill; Massechusetts State House; Universidade de Harvard.

Depois de jantar, os mais resistentes ainda tiveram a oportunidade de assistir a um concerto de jazz no Wally’s Café. Este agradável clube de jazz, fundado em 1947 é um dos mais antigos da cidade e apresenta música ao vivo 365 dias por ano. Situa-se no nº 427 da Avenue Massachusetts.

5


2. Cidade do Quebeque No dia 3 de Setembro, após uma noite revigorante no hotel Hyatt Regency Cambridge de Boston, metemo-nos à estrada à hora que viria ser habitual durante a viagem (8h 30m), para vencer os 630 quilómetros que nos separam da cidade do Quebeque. A fronteira canadiana foi atravessada cerca das 13h 10m sem dificuldades de maior, tendo havido alguns quilómetros atrás um oportuno abastecimento líquido (com interessantes graduações alcoólicas) numa loja “Free Tax”. O almoço (num Burger King, para fugir à ditadura do MacDonald's...) foi efectuado na cidade de Sherbrooke, um centro industrial, comercial e cultural, cujos primeiros colonos foram Lealistas britânicos mas que é hoje maioritariamente francófona. Pelas 18 horas chegámos à Cidade do Quebeque e após um pequeno circuito pelo tecido urbano, instalámo-nos no Hotel Delta, um dos arranha-céus mais alto da cidade. Antes do jantar, servido no hotel, um pequeno grupo dos viajantes foi dar uma volta pelas imediações do hotel para desentorpecer as pernas. Atraídos pelo som de uma alegre música

que chegava de uma estreita ruela de St. Augustin, deparáramos com uma realidade que nos haveria de perseguir até ao Hotel des Gouverneurs da cidade de Montreal: Uma animada e colorida festinha gay... Algumas notas sobre a Cidade do Quebeque: Sobranceira ao rio São Lourenço, empoleirada sobre o Cap Diamant, esta cidade é um dos marcos da história do Canadá e da América do Norte. A sua fundação é bastante anterior à das restantes colónias e data de 1608, quando Samuel de Champlain, apercebendo-se do potencial da fortaleza natural, instalou aqui um posto avançado para o comércio de peles.

6


A urbe desenvolveu-se em dois pólos: a cidade alta, com os edifícios governamentais e as fortalezas e a cidade baixa, onde proliferavam os mercadores e os artífices. A sua importância no controlo da navegação fluvial e das rotas comerciais levou a que fosse palco de diversas batalhas entre ingleses e franceses; a sua capitulação em 1759 ditou a entrega da Nova França aos ingleses. No entanto a cidade resistiu sempre como berço da cultura francófona, chegando até aos dias de hoje como o centro do nacionalismo franco-canadiano. A sua população é pois maioritariamente francófona. A arquitectura e o rico passado histórico contribuíram para a sua designação pela ONU, em 1985, como Património da Humanidade. É a única cidade amuralhada da América do Norte. Um passeio pelo alto das suas muralhas é uma experiência interessante pois permite observar o rendilhado das pequenas ruas labirínticas, tão contrastantes com as ruas de padrões geométricos da generalidade das cidades americanas. Como capital da Província do Quebeque, acolhe o parlamento provincial, onde os debates decorrem maioritariamente em francês. O ambiente da cidade é refrescante, com o bulício calmo dos caminhantes, o colorido das decorações das casas e das lojas, a música que nos chega dos diversos bares e cafés. Por momentos imaginamos estar numa qualquer bela cidade do Sul da Europa.

7


No dia 4 de manhã visitámos a basílica neogótica de Saint-Anne-de-Beaupré, construída em 1926, que acolhe anualmente cerca de um milhão e meio de peregrinos. O período de maior número de visitas é no dia 26 de Julho, festa de Santa Ana, a santa padroeira do Quebeque. Poucos quilómetros depois, exactamente a 10 km da cidade do Quebeque, observámos a queda de água de Montmorency, cuja corrente se despenha de uma altura de 83 metros, sendo mais altas do que as cataratas do Niágara.

Antes do almoço visitámos ainda o Parc des Champs-de-Battaille, outrora um campo de batalha, onde há cerca de duzentos e cinquenta anos se enfrentaram, numa batalha decisiva, os exércitos, britânico e francês, definindo a nova ordem político-social do Canadá, com o controlo britânico sobre o Quebeque.

O almoço foi servido no esplêndido Château Frontenac que, com o seu telhado de cobre verde, domina o horizonte do Quebeque Antigo. Foi um dos hotéis-castelos erigido pelos Caminhos de Ferro Canadianos com o objectivo de incentivar o turismo de alta classe, e assim desenvolver o transporte de passageiros nos comboios da companhia. Foi inaugurado em 1893 tendo-se concluído a sua construção em 1993. Possui um total de 650 quartos e o local onde foi construído abrigava a antiga sede do Governo do Quebeque. O último andar do edifício abriga um observatório, que oferece uma vista espectacular de muitos quilómetros do rio São Lourenço.

8


3. Cidade de Montreal No alvor do dia 5 abandonámos a Cidade do Quebeque no já habitual horário das 8h 30m, para percorrer os cerca de 300 quilómetros que nos separam do terceiro objectivo da viagem, a cidade de Montreal. De registar a nossa passagem pela Universidade de Laval, cujas origens remontam a 1663, tendo sido a primeira universidade francófona a ser criada no continente americano. A história desta universidade confunde-se com a da província do Quebeque, pois ela formou a elite intelectual do Quebeque francófono, e ainda hoje a sua influência é marcante.

A viagem decorreu sem nada de importante a assinalar e aproveitámos para recolher um conjunto de informações sobre a realidade canadiana, em conversa com o nosso guia Guidorizzi, que se mostrou bem documentado nesta matéria. Reproduzimos algumas delas: Na actual estrutura política o Chefe de Estado é a Rainha de Inglaterra a qual é representada no país por um Governador-Geral, nomeado para mandatos de 5 anos. Presentemente o cargo é ocupado por uma senhora de origem haitiana. O cargo é de natureza exclusivamente protocolar, e na constituição está previsto a possibilidade da sua extinção. Recorde-se que o Canadá pertence à Commonwealth. O Chefe do Governo é o Primeiro-ministro, leader do partido mais votado nas eleições para o Parlamento Federal (Câmara dos Comuns). Para além da Câmara dos Comuns (Poder Legislativo) existe o Senado (Poder Fiscalizador) cujos membros são de nomeação vitalícia. A idade geral para a reforma é de 65 anos, havendo excepções para profissões de desgaste rápido. O limiar de pobreza está fixado em $17.000 anuais, e abaixo desse valor a família pode beneficiar de ajuda financeira e tem acesso à saúde e à educação totalmente grátis. Toda a medicina é convencionada, à excepção da cirurgia plástica estética e dos dentistas. Existem seguros de saúde facultativos que têm um carácter complementar do serviço público. O imposto sobre o rendimento tem o escalão mais baixo de 17% e o mais alto ultrapassa os 50%. As férias são no geral de 2 semanas anuais e não existe o pagamento do 13º e do 14º mês. Alguns ordenados mensais médios: polícia $5.000; professor primário: $4.000; professor universitário $6.000. 9


Chegados a Montreal, fomos almoçar a um restaurante situado na denominada “cidade subterrânea”. Trata-se de uma vasta rede de amplos corredores bem iluminados que se estendem por 32 km, ladeados por mais de 1.660 lojas, 200 restaurantes, hotéis, cinemas e outro equipamento social. Esta cidade subterrânea permite aos cidadãos continuarem a fazer a sua vida habitual com o mínimo de transtornos, durante os rigorosos invernos que por aqui se verificam. Idêntica solução, viemos a encontrar mais adiante na cidade de Toronto. Após o almoço fomos fazer uma visita guiada, da qual destacamos: a Basílica de Notre-Damede-Montreal, a excelente vista que contemplámos do Plateau Mont-Royal (na companhia de um atrevido e fotogénico guaxinim) e a cerimónia religiosa do Santo Cristo dos Açores, na igreja dos portugueses, que tivemos a oportunidade de presenciar do nosso autobus.

Fomos ainda surpreendidos, numa galeria comercial, com um espectáculo de bizarras personagens (loiríssimos travestis, reluzentes oficiais nazis das SS, insinuantes damas de coleantes vestidos de cabedal, com curiosas aberturas que deixavam vislumbrar reduzidas e transparentes peças de lingerie, decididas dominadoras que de chicote em punho faziam antever dolorosas sevícias e intensos orgasmos, duas sensuais jovens entretidas em arriscados jogos eróticos, empoleiradas num pedestal; enfim, só saúde…). À chegada ao Hôtel des Gouverneurs, encontrámos a explicação para a insólita visão com que tínhamos sido brindados. Nada mais, nada menos do que a realização de um fim-de-semana fetiche (o Montreal Fetish Weekend) para o qual tinha sido reservado todo o 4º piso do nosso hotel… as cores do arco-íris teimavam em nos perseguir! 10


O jantar decorreu num simpático restaurante do Porto Velho após o qual regressámos, numa revigorante caminhada a pé, ao hotel. Aí tivemos oportunidade de assistir mais uma vez ao desfile dos fetiches, devidamente ataviados, para a sua festa que se desenrolava num teatro perto do hotel.

4. Cidade de Ottawa Já mais rotinados nas tarefas do partir e do chegar, do fazer e do desfazer as malas, lá iniciámos o dia 6 de Setembro, partindo rumo à cidade de Ottawa, capital do país, distante 200 quilómetros de Montreal, que agora deixamos. A chegada verificou-se cedo, a meio da manhã de um bonito dia de sol. A primeira paragem foi no centro da cidade frente ao Museu das Belas Artes do Canadá, um bonito edifício de granito e vidro, por si só uma obra de arte, inaugurado em 1988. 11


No exterior do museu presenciamos uma cerimónia de praxe académica, da qual eram objecto uns pobres caloiros (hoje era o primeiro dia de aulas...), que se desenrolava curiosamente sob a sombra protectora de uma gigantesca aranha de bronze carregando no seu ventre 26 ovos de mármore branco. A escultura é da autoria de Luise Bourgeois e o seu título é “Maman” (por quem bem poderiam gritar os seviciados caloiros...). Frente ao museu, a Basílica de Notre-Dame, construída em 1839. Numa visita não muito alongada podemos apreciar a sua rica talha e o enorme órgão de tubos. Retomámos o nosso autobus e passamos pela zona das embaixadas antes de uma nova paragem num miradouro sobre o rio Ottawa e a cidade vizinha de Hull, na margem oposta, onde se destacava a silhueta do Museu Canadiano das Civilizações, que visitaríamos da parte da tarde.

Regressámos ao coração da cidade para uma paragem no centro do poder do país desde 1855: O Parlamento Canadiano. Trata-se de um interessante conjunto de edifícios neogóticos (que nos fazem lembrar os da distante Inglaterra), que alberga a Câmara dos Comuns e o Senado. Na alameda principal, homenageando a Confederação do Canadá, um monumento de pedra circular contendo os brasões de todas as províncias e territórios no qual, sob uma cortina de água, arde uma chama acesa em 1967 pelo então Primeiro-ministro Pierce. Percorrendo os seus jardins bem tratados, deparamos com um sino de bronze danificado, salvo do incêndio que em 1916 destruiu a torre do relógio e alguns edifícios do Parlamento. A placa evocativa descreve esse acontecimento de uma forma poética. “As doze badaladas do velho relógio tocando à meia-noite soaram através de um mar de chamas como se uma voz humana se fizesse ouvir...”.

12


Ainda nos jardins do Parlamento, um outro apontamento que retivemos foi o conjunto escultórico evocando a luta das mulheres pela sua emancipação. “Women are Persons” ou “Les femmes sont des personnes” (aqui na capital deste país multicultural não queremos ser acusados de prejudicar esse equilíbrio...). Na altura pensámos como seria bom que esta óbvia constatação fosse ouvida e praticada em todos os cantos deste nosso mundo, onde a mulher ainda é tratada como propriedade dos seus senhores, em nome de princípios totalmente inaceitáveis.

Após uma pausa para o almoço no restaurante “Fish Market”, cuja ementa de Vieiras (?) não convenceu a generalidade dos viajantes, a parte da tarde foi ocupada com a visita guiada pelo Guidorrizi ao Museu Canadiano das Civilizações, situado na cidade de Hull. Neste interessante museu conta-se, de uma forma viva, a história do Canadá nos últimos 1000 anos, desde a chegada dos Vikings até aos nossos dias. De destacar a riquíssima colecção de totens das tribos índias que habitavam estas terras. 13


Encerrámos o dia a assistir a uma projecção de imagens e sons nas paredes do edifício do Parlamento. Foi um belo espectáculo, no qual, acompanhando a impressão produzida pela beleza das imagens, emergiu uma total sintonia com o conteúdo da mensagem transmitida: multiculturalismo; respeito pela diferença; luta pela paz; defesa do ambiente. O escuro da noite realçava as cores e as figuras e libertava o nosso espírito para uma viagem em direcção a um mundo melhor. Foi um bom final de dia!

5. Cidade de Toronto e Cataratas do Niágara A saída da cidade de Ottawa, no início do dia 7, fez-se ao longo de um imenso jardim que ladeia o Rideau, um conjunto de canais que se estende por mais de 300 quilómetros até à cidade de Kingston (que foi capital do Canadá entre 1841 e 1844). Outrora utilizado para navegação, hoje é um imenso espaço de recreio.

A primeira etapa do dia foi até Rockport, onde demos um passeio de barco pelas chamadas Mil Ilhas, uma área do Rio São Lourenço, já muito perto do Lago Ontário, que possui mais de mil pequenas ilhas, e que constitui um original local de veraneio. Há ilhas e habitações para todos os tamanhos e gostos, desde um insólito e imponente castelo (o Boldt´s Castle, 14


construído por um construído por um excêntrico milionário norte-americano) até uma deliciosa ilhota com uma casinha T0, duas cadeiras e uma árvore… Como curiosidade a ponte internacional mais curta do planeta que une duas ilhotas, existentes, uma de cada lado da fronteira entre o Canadá e os EUA, que divide naquela zona o leito do São Lourenço. Após o almoço, servido em Rockport, rumámos para Toronto. Íamos entrar no Canadá anglófono. Aqui as “casas de banho” deixam de ser “toilettes” e passam à categoria de “washrooms”… curiosas estas subtilezas linguísticas, com que por vezes somos confrontados. Toronto é presentemente a cidade mais importante e dinâmica do Canadá, é o centro financeiro e comercial do país e conta com cerca de 4 milhões de habitantes.

Após um breve descanso no hotel Delta Chelsea, fomos dar um passeio pedonal pela principal artéria, a Yonge Street, até ao City Hall, um curioso edifício formado por duas torres curvas de betão e vidro, que alberga o poder municipal. Perto dele fica a antiga câmara municipal (Old City Hall), um edifício neo-românico do século XIX. Depois de jantar, alguns viajantes menos ensonados, ainda rumaram até à Queen Street 194, para assistir a uma sessão de jazz no “The Rex”, um simpático bar de jazz e blues.

O dia 8 começou com uma interessante visita ao Parlamento da Província de Ontário, um grandioso edifício de grés cor-de-rosa também de estilo neo-romântico construído em 1893. Tivemos oportunidade de visitar o seu interior, incluindo a própria sala das sessões, que apresenta um estilo clássico bem na linha dos parlamentos ingleses. 15


Prosseguimos na volta pela cidade, e uma surpresa nos estava reservada: Uma bica bem portuguesa acompanhada por um lusitano pastel de nata, tudo ao som da emissão da RTP Internacional…, não era ilusão. Estávamos em pleno “Little Portugal” um bairro de Toronto onde o nosso Galo de Barcelos tem direito a um vistoso outdoor pendurado nos candeeiros de rua. A confraternização com alguns compatriotas foi inevitável e acabou com a oferta de jornais e revistas na língua de Camões (ou de Fernando Pessoas? ou de José Saramago?) editados aqui nesta distante capital da província de Ontário. A visita aqui voltou a subir de nível, e de que maneira! Exactamente 346 m, tal é a altura a que se encontra o piso de observação da Torre CN, hoje já transformada em ex-líbris de Toronto. Foi tempo para apreciar a paisagem urbana, tirar algumas fotos e testar a valentia de alguns visitantes, ao pisarem um chão de vidro bem transparente com vista directa e vertical para a terra firme que distava os referidos 346 m.

Como a emoção abre o apetite dali partimos para uma excelente refeição num restaurante italiano de agradável e cuidada decoração. Mais recompostos regressámos à estrada rumo ao próximo objectivo: As Cataratas do Niágara. No caminho passámos por uma pitoresca cidade, Niagara-on-the-Lake, com elegantes mansões e cuidados espaços verdes, e onde se realiza o “Shaw Festival”, um prestigiado festival anual de teatro com peças de Bernard Shaw e outros dramaturgos. A chegada às Cataratas fez-se pouco tempo antes da partida do último barco que nos iria levar numa aventura bastante húmida, até à proximidade das tumultuosas águas. Foi só tempo para envergar nervosamente os impermeáveis que a organização fornece aos valentes marinheiros. Assim todos de azul trajados, lá fomos levados pelo “Maid of the Mist” até debaixo do grande 16


arco de água que se despenha dos 50 m de altura com uma energia que a todos contagiou, e encharcou… Foi uma excitante e revigorante experiência que nos lavou o espírito e molhou o corpo (sobretudo dos joelhos para baixo) e que não esqueceremos tão cedo. Valeu a pena tal molha!

Já secos e de roupa mudada, rumámos à Torre Skylon onde jantámos no restaurante panorâmico que rodava lentamente enquanto nos banqueteávamos com um belo naco de carne. A visão do alto da torre veio confirmar a impressão de que a cidade de Niagara Falls é uma pequena e incaracterística Las Vegas (ou uma grande Feira Popular, se preferirem): Casinos, néons, rodas gigantes, construções desinteressantes, enfim nada que nos fique na memória. Até as pobres cascatas iluminadas de cores garridas, mais pareciam um imenso doce de algodão colorido, que toda a feira de província não dispensa. Mas ao regressar ao hotel já nada disto nos interessava. Amanhã iríamos começar a última parte da aventura na inigualável Nova Iorque.

6. Cidade de New York Start spreading the news I’m leaving today I want to be a part of it New York, New York

Nunca a velha canção de Frank Sinatra soou tão adequada ao nosso estado de espírito, como no início deste dia 9, em que partimos, no horário habitual das 8h 30m, rumo à cidade que não dorme. Fizemos ainda uma breve paragem em Niagara Falls, numa espécie de loja franca, na qual o mais interessante que vimos, foi uma árvore sui generis com as folhas devidamente numeradas…

17


O almoço foi já em território do Tio Sam, num típico restaurante americano de estrada, sem álcool e com muita coca-cola. Prosseguimos o percurso sem incidentes e ao final da tarde avistámos o inconfundível perfil dos arranha-céus de Manhattan, enquadrado num bonito céu com fotogénicas nuvens. A Big Apple aí estava, generosa, obsessiva, irresistível.

A entrada fez-se através do Lincoln Tunnel, que passa sob o Rio Hudson, e logo atingimos a 45th street no cruzamento com a Madison Avenue, onde se localizava o Roosevelt Hotel, que iria ser o nosso pouso nas próximas 4 noites. Após um breve descanso (o desejo de sermos os “king of the hill, top of the list, head of the heap” não permitiu mais…), saímos para um primeiro contacto directo com NY. A 5ª Avenue, o Rockfeller Center, a Times Square, a Broadway, revelaram-se-nos com a sua vibração, a sua energia, a sua cor e o seu fascínio.

O jantar fez-se em dois restaurantes da Times Square, com o grupo a dividir-se ao meio. 18


O regresso ao hotel foi feito com cada um dos viajantes a gizar os planos para utilizarem os 3 dias e meio que restavam, de modo a poderem concretizar os seus desejos profundos nesta visita a NY. No dia seguinte, dia 10 Setembro, após a primeira noite dormida no Hotel Roosevelt, arrancámos para um city-tour pela cidade. Começámos pelo lado poente do Central Park, onde parámos junto ao Edifício Dakota, tristemente célebre pelo assassinato do John Lennon que aqui teve lugar há cerca de 30 anos, exactamente no dia 8 de Dezembro de 1980. Tivemos oportunidade de visitar o Memorial Strawberry Fields Forever, que assinala a morte do criador do Imagine. A visita prosseguiu pelos bairros mais populares de NY, Greenwich Village, Little Italy, China Town, Financial Centre, e a sensação que nos assaltou foi a de que coexistem várias “Novas Iorques” nesta Big Apple. Basta andar dois ou três quarteirões e ao virar de uma esquina, a atmosfera, o ambiente, as pessoas, mudam drasticamente. Começamos a compreender o verdadeiro significado da expressão “melting pot”.

Ainda antes de almoço rumámos até Lower Manhattan, passando pelo Ground Zero, onde decorrem as obras do memorial do 11 Setembro. Fizemos uma breve paragem em Battery Park, de onde se desfruta uma bonita vista sobre o rio Hudson, a Estátua da Liberdade e a Ellis Island. Pudemos aí assistir aos preparativos da cerimónia evocativa do dia de amanhã. O almoço decorreu num centro comercial perto do nosso hotel, e aí despedimo-nos do nosso guia nestes dias intensos, o Guidorizzi, que se mostrou um profissional competente estabelecendo uma excelente relação com o grupo, permitindo um enriquecimento dos nossos conhecimentos sobre os lugares por onde viajámos. Antes tínhamos tido oportunidade de nos despedir do eficiente “driver”, que nos conduziu pelos cerca de 2.500 quilómetros que

19


percorremos (uma injusta multa, pelo ligeiro excesso de velocidade, em estradas dos EUA, só vem confirmar o seu empenho em encurtar as nossas deslocações…). A partir daqui, como era inevitável, o grupo de viajantes subdividiu-se em função dos seus interesses e da sua disponibilidade física, não havendo uma narrativa única sobre a descoberta desta fascinante cidade, mas sim 18 visões, todas diferentes, todas interessantes, cada uma exprimindo as sensações e as vivências, contadas na primeira pessoa. Iremos assim prosseguir com a nossa visão, uma das 18 possíveis, destes dias vividos intensamente na Big Apple. Terminado o almoço, nada melhor do que uma caminhada a pé para nos sentirmos parte desta cidade, para melhor conhecer a sua paisagem humana e também para ajudar um pouco à digestão do repasto. Subimos a 5ª Avenida até ao Metropolian Museum of Art. Fundado em 1870, este museu contém uma colecção que é considerada a mais completa do mundo ocidental, desde a Pré-história até aos nossos tempos. Destacamos a Arte Asiática, a Arte Egípcia, a Pintura e Escultura Europeias (aqui os nossos olhos ficaram pregados aos quadros de Botticelli, de Brueghel, de Rembrandt, de Vermeer – aquela Mulher com Jarro de Água, deixou-nos liquefeitos… - de Rubens, de Van Dyck, de El Greco, de Velázquez, de Monet, de Van Gogh e de muitos outros, que completam uma deslumbrante colecção de 3000 pinturas) e a Arte Moderna (lá estão Picasso, Kandinsky e os principais representantes da escola dos “Oito de Nova Iorque”).

20


Já com as pernas pesadas, mas leves do espírito, embrenhámo-nos numa caminhada descontraída pelo Central Park, o “quintal” desta cidade, que com os seus 340 hectares de espaços verdes plantados com mais de 500 mil árvores, constitui uma zona privilegiada de lazer dos novaiorquinos.

A caminhada prosseguiu até ao Rockefeller Center, considerado o coração de NY. Apesar da dimensão dos diversos edifícios, nos quais estão presentes numerosos elementos de Arte Deco, o conjunto é agradável e constitui um espaço de uma intensa vida urbana. Quando lá chegámos havia um espectáculo de música ao vivo e uma passagem de modelos, que atraíam uma pequena e animada multidão. A jornada já ia longa, e ao cansaço natural das emoções do primeiro dia vivido na Big Apple, começava-se a juntar um vazio nos nossos estômagos, pelo que rumámos à Times Square onde jantámos num Delis da Broadway. No regresso ao hotel já todos nos sentíamos um pouco novaiorquinos… O despertar no dia seguinte veio inevitavelmente trazer-nos à memória os acontecimentos do 11 de Setembro de 2001, as suas causas profundas, as dúvidas sobre a aparente ineficácia dos serviços de segurança e sobretudo o terrível cortejo de cerca de 3 mil mortos. Depois de algumas dúvidas sobre a oportunidade de uma deslocação para as proximidades do Ground Zero, onde iriam decorrer algumas cerimónias evocativas e onde se pressupunha um apertado serviço de segurança, lá decidimos avançar para a concretização de um objectivo que tínhamos definido: A visita à Ellis Island e ao seu museu dedicado à imigração. Divididos em vários táxis (aqui um pequeno comentário me é permitido: fruto da globalização (?), os Yellow Cabs de Nova Iorque foram invadidos pelos modelos japoneses e sul-coreanos, e perderam o encanto dos grandes “sedans” tão característicos desta cidade… manteve-se o amarelo, valha-nos isso.) lá nos dirigimos até Battery Park, sem problemas de maior na passagem pela proximidade do Ground Zero. A aquisição dos bilhetes para o ferry foi fácil e rápida, dado o relativo reduzido número de viajantes, talvez em resultado da data e dos receios dela resultantes. A viagem foi agradável, a 21


luz sobre os arranha-céus da Lower Manhattan e sobre o Rio Hudson era excelente, permitindo uma visão privilegiada e boas fotografias. O barco fez uma primeira paragem na Estátua da Liberdade para o desembarque de alguns viajantes.

Optámos por não sair e seguir a viagem directamente até ao cais da Ellis Island. A visita ao museu iniciou-se com um filme que documenta a história deste centro de recepção de imigrantes, que funcionou entre 1892 e 1954, e pelo qual passaram cerca de 12 milhões de pessoas, antes de se espalharem pelo país na maior onda migratória jamais registada. No exterior existe um mural, o American Immigrant Wall of Honor, onde estão inscritos nomes de imigrantes de todo o mundo. É um local que ilustra como nenhum outro o cadinho multicultural que formou esta nação. Prosseguimos depois com uma visita às instalações do museu, onde através de fotografias, de gravações de vozes e de documentos da época, nos é relatada a odisseia, por vezes bastante dolorosa, que viveram estes milhões de seres humanos, sujeitando-se a tratamentos que hoje nos chocam pela sua desumanidade. Mas a perspectiva de poderem fazer parte do “sonho americano”, de construírem as suas vidas no Novo Mundo que tudo prometia, de fugir à pobreza dos seus países de origem, fornecia-lhes a força necessária para ultrapassar todas as dificuldades. Só que o “sonho americano”, se para alguns foi bem compensador, para outros foi mais um pesadelo nas suas pobres vidas de explorados.

22


Depois de um descanso nos jardins da ilha, com uma excelente vista para Manhattan, apanhámos o barco de regresso. Como já era hora do almoço, e a fome já apertava, instalámo-nos num Delis, próximo de Battery Park, após o que iniciámos uma caminhada pela Water Street, na direcção do nosso próximo alvo, a ponte de Brooklyn. Andados alguns quarteirões, deparámos com uma curiosa iniciativa, um Farmer’s Market onde se vendiam, directamente do produtor ao consumidor, produtos agrícolas. No meio da imensa metrópole, com cerca de 8 milhões de habitantes, arredado do bulício das grandes avenidas, um pacato oásis onde os agricultores vendiam as suas couves e batatas… Nova Iorque não parava de nos surpreender! Prosseguindo pela zona portuária cruzámos a tristemente célebre Wall Street, e não pudemos evitar que os nossos pensamentos resvalassem para recentes acontecimentos que provocaram, e estão ainda a provocar, crises, desemprego e miséria em muitas regiões do globo. A ganância de uns poucos, aliada à falta de uma autoridade fiscalizadora eficaz, criou um sistema baseado na “mão invisível” do mercado que produziu uma gravíssima crise financeira que rapidamente degenerou numa crise económica e social com uma dimensão que ainda hoje não podemos avaliar totalmente.

Mais adiante deparamos com mais uma preciosidade desta cidade, o Bridge Café, que é o mais antigo estabelecimento de comida e bebida de Nova Iorque. Construído em 1794, já passou 23


por várias utilizações, desde mercearia e casa de vinhos até um bordel mal-afamado. Hoje é um café restaurante muito apreciado mundialmente. Percorremos a South Street Seaport, uma zona que foi no século XIX o centro portuário de NY, e que é hoje um animado complexo de lojas, restaurantes e museus. Finalmente chegámos a um dos ex-libris da cidade de NY, a célebre Ponte de Brooklyn. É uma das mais antigas pontes suspensas existente nos Estados Unidos, tem uma extensão de 1.834 metros, e a sua construção iniciou-se em 3 de Janeiro de 1870. Tem um tabuleiro central, exclusivo para peões, e um tabuleiro para as viaturas que passa num nível inferior, pelo que se torna muito agradável uma caminhada a pé nesta ponte. Caminhámos até meio da ponte, e pudemos apreciar as vistas magníficas sobre Manhattan, sobretudo sobre toda a zona do East Side. O dia estava soalheiro, a luminosidade era excelente e talvez por isso o tabuleiro estava repleto de uma multidão heterogénea que se deslocava freneticamente. A paisagem humana abrangia burguesas famílias passeando os rebentos em carrinhos de bebés, ciclistas ataviados com os fatos de licra e os capacetes aerodinâmicos, amishes com os seus costumes tradicionais, jovens tatuados e profusamente enfeitados com vistosos piercings, artistas do skate, negros com penteados esquisitos, enfim um verdadeiro “melting pot”, que obviamente incluía os 6 luso viajantes, convenientemente discretos nos seus trajes de viagem…

24


O regresso foi feito através do chamado Civic Center, onde se concentram os tribunais dos sistemas judiciários federal, estadual e municipal, e que se impõe pela sua arquitectura imponente. Depois de beber uns sumos num café da zona, apanhámos o metro para a 34th street. Íamos subir ao arranhacéus mais alto de NY, depois da destruição do World Trade Center, o legendário Empire State Building. Depois de alguma demora nas bichas para os bilhetes e para os elevadores, lá chegámos à plataforma do 86º andar e durante alguns minutos ficámos em silêncio, subjugados pela fantástica vista de 360º sobre toda a zona de Manhattan. A luminosidade era perfeita, e as máquinas fotográficas depressa começaram na sua azáfama, tentando captar um pouco daquilo que a nossa vista nos transmitia tão intensamente.

Nem demos pelo passar do tempo, e foi com alguma tristeza que descemos dos 380 metros de altura para os passeios da 5ª Avenida. Ao afastarmo-nos não resistimos a um olhar de despedida ao colosso e por momentos a magia sobrepôs-se à realidade. No alto do Empire State, pareceunos ver o King Kong que nos acenava amigavelmente, num breve intervalo da sua luta desesperada contra os aviões da lei e da ordem que furiosamente o atacavam… A nossa deambulação prosseguiu atá outro ponto interessante, o Grand Central Terminal, uma pérola das Beaux Arts, construída em 1913, que se tornou porta de entrada e símbolo da cidade. Destaca-se pela sua beleza e dimensão o Átrio Central e o seu relógio de quatro faces. 25


No caminho para o hotel tivemos ainda de apreciar o átrio do mais belo arranha-céus de NY, o Edifício Chrysler, belo exemplar de Art Déco, revestido de aço inoxidável, construído em 1930 para simbolizar o poderio deste construtor de automóveis. O dia terminou num restaurante da 5ª Avenida, perto do nosso hotel. O domingo amanheceu um pouco enevoado, e como planeado a parte da manhã foi reservada para uma ida até ao bairro de Harlem, para assistir a um serviço religioso com música gospel, numa igreja metodista. A viagem de táxi decorreu sem nada a assinalar, e pouco depois estávamos passeando tranquilamente nas ruas de Harlem, bairro que abriga a maior comunidade negra de NY. O ambiente é completamente diferente da cidade das grandes avenidas, aqui predominam os sinais da cultura afro-americana.

Numa esquina encontrámos um velho cantor de blues, de seu nome artístico King David, que numa bancada improvisada vendia os seus CD’s, de edição caseira, enquanto uma modesta aparelhagem sonora lançava para o ar as notas melancólicas do seu canto. O contacto pessoal foi fácil e depois de uma breve conversa não resistimos, e alguns CD´s foram comprados. Ao chegar à Abyssinian Baptist Church, onde iríamos assistir à missa gospel, verificámos que esta estava reservada para um evento especial, e muito selecto, a avaliar pela distinção no trajar que os convidados ostentavam e nos cromados rutilantes das viaturas em que se faziam deslocar... Com a preciosa ajuda de um morador local, lá encontrámos uma outra igreja onde pudemos assistir à desejada missa gospel. O serviço religioso, a que assistimos é bastante interessante e completamente diferente dos serviços religiosos católicos. Ali respira-se um ambiente espiritual com uma forte relação humana entre os presentes e de grande abertura para com os visitantes. No início da missa, o pastor, que tinha falado connosco no exterior da igreja, desejou-nos as boas-vindas, a nós visitantes que vínhamos de longe, e fomos brindados com uma valente salva de palmas dos presentes, o que nos deixou bastante sensibilizados. 26


No final do serviço fomos também convidados para um beberete no andar superior da igreja, o que declinámos dado os horários apertados que tínhamos neste final de viagem. De destacar os belos momentos de música gospel e de blues, em coro e individualmente, que animaram o serviço religioso e a intervenção do pastor, que com a eloquência própria dos pregadores, que a partir da história dos seus antepassados, escravos oriundos das terras africanas, pintou literalmente um fresco da história dos EUA dos últimos cem anos. Foi com o espírito mais leve e com as vozes quentes e melodiosas nos ouvidos, que apanhámos o metro para a parte baixa da cidade a fim de concretizar a próxima visita, o MoMA (Museum of Modern Art). O MoMA, fundado em 1929, possui um dos mais completos acervos de arte moderna de todo o mundo, cerca de 150 mil obras de arte, desde o pós-impressionismo a uma colecção riquíssima de arte moderna e contemporânea, além de peças de design e obras-primas dos inícios da fotografia e do cinema. Foi um verdadeiro mergulho nas obras de Pablo Picasso, Van Gogh, Toulouse-Lautrec, Salvador Dali, Paul Cézanne, Matisse, Cartier-Bresson Man Ray e de tantos outros.

27


Uma menção particular também para o próprio edifício do museu, com paredes de vidro que permitem a entrada da luz natural e que oferecem curiosos ângulos de visão e vistas inspiradoras para os jardins. Mas o dia estava a terminar, e o regresso ao hotel fezse com alguma chuva que emprestou um brilho especial ao anoitecer nas movimentadas avenidas de NY. No caminho aproveitámos para uma breve visita à Catedral de S. Patrick, considerada a mais bela construção neogótica da cidade e a maior catedral católica dos EUA, com capacidade para 2500 pessoas. A sua construção foi concluída em 1878. No hotel houve uma comemoração especial assinalando a última noite em NY. Reunimo-nos todos num dos quartos, juntámos a comida que cada um tinha comprado, e devidamente regado com o vinho que o Guido nos ofereceu, fizemos um jantar muito peculiar e muito animado. A segunda-feira nasceu sem chuva e com o céu limpo. Após o pequeno-almoço no hotel, cada um procurou concretizar as últimas compras e as últimas visitas. Pela nossa parte iniciámos uma caminhada pela Lower Midtown até 1st Avenue, mais concretamente até à sede das Nações Unidas.

Para além da procura da nossa bandeira nacional (o sentimento patriótico foi mais forte, nestas paragens a milhares de quilómetros de casa…) e da visita à sala da Assembleia Geral, que nos fez recordar alguns momentos históricos ali vividos (veio de repente à memória o discurso de Che Guevara em 1964), destacamos a escultura de Karl Reutersward, denominada “Não-Violência”, que num perfeito simbolismo dá um nó no cano de um revólver. Um último apontamento para uma manifestação frente ao edifício da ONU, de naturais da Guiné Conakry, reclamando eleições livres para este país da África Ocidental.

28


Ă€s 14 horas apanhĂĄmos o transfer para o aeroporto de Newark. Uma tempestade que se abateu sobre a zona fez atrasar de 45 minutos a saĂ­da do Airbus A330 da TAP. Cerca de 7 horas depois a nossa velha Europa recebia-nos, acolhedora, no aeroporto da Portela.

29


A aventura por terras da América do Norte chegara ao fim. De regresso a casa a nossa bagagem aumentou de peso, tantas as lembranças e as novas vivências que guardámos. Conhecemos directamente uma sociedade organizada, a sociedade canadiana, preocupada com a coesão social e com a coexistência de várias culturas no seu território e com uma apreciável qualidade de vida. Visitámos Boston, cidade universitária por excelência, com as suas faculdades, escolas, institutos e laboratórios de investigação. Finalmente mergulhámos na grande metrópole, a Big Apple, a capital de um país que nos chocou várias vezes com o pior da condição humana – a segregação racial e o Kux Klux Klan, a guerra do Vietnam, a caça às bruxas de 1940-50, a dinastia dos Bush, os predadores de Wall Street – e que outras vezes nos tocou com a qualidade dos seus filhos – Thomas Jefferson, os trabalhadores de Chicago lutando em 1886 pelas 8 horas de trabalho diário, Martin Luther King, Bob Dylan, Joan Baez, John Steinbeck, Ernest Hemingway, Paul Auster e tantos outros.

Nova Iorque conquistou-nos pela vida intensa, pelo bulício organizado, pela paisagem humana, pelo mosaico de culturas que ali coexistem, pelos seus bairros acolhedores encaixados entre as grandes avenidas, pela riqueza cultural dos seus museus, pela beleza de alguns dos seus arranha-céus. Agora o tempo é de descansar, de fazer o balanço da viagem de meditar sobre o que vimos e vivemos e, porque não, de planear a próxima escapadela… José Carlos Setembro de 2010

30


Cadernos de Viagem 5