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Marili Santos

OBSESSテグ Um conto quase possテュvel


Para todos que amam


São José do Rio Preto, 20 de janeiro de 2009 Ricardo, Hoje resolvi escrever para você. Não sei muito bem o que dizer depois de tanto tempo sem nos vermos. O que sei é que senti uma vontade, como a de comer um doce, e pensei que talvez recebesse bem essa carta com notícias minhas. Separei-me no ano passado, foi um tanto traumático, dividimos até as escovas de cabelos, um para cá, um para lá, três panos de prato para mim e três para ele; a sorte é que não tivemos que dividir os filhos, não consegui engravidar, ainda bem, não é mesmo? Soube pela Laura, que você está bem, produzindo, se revelou, não é verdade? Gostei de saber das novidades, do seu novo trabalho, da exposição de fotos em Sampa, infelizmente não pude ir e espero seu perdão, estava em meio ao caos da separação. Enfim, ia postar no seu e-mail, mas senti outra vontade daquelas, de preservar a espera, a demora que só a carta traz; a angústia da incerteza da sua resposta e assim será muito mais fácil e compreensível caso sua carta não chegue. Poderei pensar no extravio dos correios, na morosidade dos serviços... Eu estou sozinha e caso você queira aparecer, conversar, sair, quero dizer que adoraria, muito, mesmo. Aproveito para falar também que sinto saudades, do amigo, que deveria ter sido muito mais que meu amigo, e que talvez a escolha, minha, tenha sido errada.

Um beijo Maria Cristina


São Paulo, 18 de abril de 2009 Maria Cristina,

Demorei muito para escrever a resposta da sua carta porque não queria de fato respondê-la. Depois, achei que talvez fosse necessário esclarecer alguns fatos dessa nossa confusa relação e dessa maneira, “colocar um ponto final” nessa nossa história, que nunca começou. Eu não sei se entendi bem, mas soou muito mal dizer que a vontade de me ver e escrever depois de tudo que aconteceu era comparável a comer um doce. Senti-me uma bomba de chocolate. O fato é que como você mesmo disse, estou muito bem. Trabalhando bastante, feliz, amando e sendo amado. Cristina, infelizmente nosso tempo passou. Sei o quanto é difícil para eu dizer isso, pois desejei você imensamente, absurdamente mais do que imagina, como mulher, e como falou você fez a sua escolha. Sua carta é dramática, estranha e confusa. Não demonstra em nenhum momento afetividade ou saudade de mim, apenas solidão, a solidão da mulher ressentida e amarga. Não quero parecer grosseiro, embora saiba que o esteja sendo, mas gostaria que não me procurasse mais.

Ricardo


Eleonora desceu as escadas e decidiu que ia comprar frutas. Estava com uma vontade incrível de comer abacaxi. Além do mais haviam dito que essa fruta limpava o organismo e dessa maneira aceleravam o metabolismo. Isso era tudo que ela queria acelerar seu metabolismo. Cumprimentou dois vizinhos e o porteiro entregou-lhe as correspondências. Viu que havia uma carta, daquela com selo e tudo, pensou que não via uma carta desse tipo há muito tempo, o selo era lindo, uma réplica do Museu do Ipiranga. O destinatário era ela, porém, o remetente desconhecido, uma tal de Maria Cristina. Curiosa, desistiu do abacaxi, e voltou para o apartamento. Sentou-se na mesa da sala e abriu o envelope.

Eleonora, Poderá achar estranha essa carta, mais ainda o que vou lhe pedir. Sei que não me conhece e tenho informações que nunca soube de mim. O que vou lhe pedir é muito importante, chega a ser meio absurdo, mas necessário. Gostaria de saber como é seu relacionamento com Ricardo, se vocês estão bem... Peço que não conte nada para ele dessa carta, apenas responda se sentir vontade. Se não quiser fazer nada, entenderei. Abraços Maria Cristina Eleonora dobrou a carta-bilhete e não sabia com exatidão o que fazer. Uma confusão de ideias tomou-lhe os pensamentos. Sua mão tremia e estava aparentemente suada. Ricardo dormia ainda. Pensou em acordá-lo e tirar satisfações, mas não era nada do seu feitio ter essa atitude. Quem era essa fulana? Que situação mais absurda era aquela? Como conhecia os dois? Precisava tirar essa história a limpo de qualquer maneira. Angustiada guardou a carta na bolsa e decidiu que pensaria no que fazer depois. Na volta, afinal comprou dois abacaxis, resolveu descascá-los na mesma hora e recordou a ironia da frase “descascar abacaxis”. Tirou olhinho por olhinho do corpo amarelado e aguado e certificou-se que iria responder para aquela maluca. Sim escreveria a resposta, contaria como era sua vida com Ricardo nos mínimos detalhes e aguardaria a resposta, depois disso saberia o que fazer...


O dia transcorreu nos disfarces. Eleonora exagerava nos gestos e sorrisos para que Ricardo não percebesse. E de fato ele não notou nada, os homens em geral não enxergam nada além do bojador. Comeram os vários pedaços de abacaxis, doces e suculentos e foram trabalhar. No entanto a cabeça dela girava, matutava, não estava certa quanto ao que faria; poderia ver o endereço e ir até o local, descobrir o telefone da dita cuja e ligar dando um esporro. Abriu o bilhete na hora do almoço e começou a analisá-lo. Só uma pessoa doente escreveria um negócio desses. O sentimento de raiva logo se transformou em pena. “Peço que não conte nada para ele dessa carta, apenas responda se sentir vontade. Se não quiser fazer nada, entenderei.” Não contaria, pois o desejo era de fato abalar as estruturas, doente, obsessiva, pensava Eleonora, clareando as ideias e pondo-as no lugar certo. Ligou para uma amiga em comum.

– Laura? – Sim, quem é? – Eleonora. – Nossa! Quanto tempo, tudo bem? E o Ricardo? – Tudo joia, estamos bem, na correria, trabalhando, mas na verdade eu liguei para perguntar uma coisa. – O quê? Está tudo bem? Você ficou estranha! – Quem é Maria Cristina? – Ai,ai,ai... Olha, Eleonora esquece isso, já faz tempo... – Laura, por favor, essa louca me mandou uma carta e eu nem sei que ela é; imagino o quem seja; mas porque não soube nada dela; se não soube é porque a coisa foi quente, não sou idiota. – Como é que é, carta? Preciso ver isso. Vamos marcar um café e conversamos com calma. – Está certo, vamos, nas quem foi ela? – Um antigo caso de Ricardo...


No fim da tarde Eleonora foi encontrar-se com Laura em um café onde haviam marcado. Estava aflita e confusa e não sabia se a atitude tomada tinha sido a melhor de todas. Quando entrou no bar procurou e ficou vermelha ao ver Laura e Ricardo em uma mesa de canto.

– O que está acontecendo aqui? – Fui eu que liguei para ele, desculpe, achei melhor ele saber. – Por que não me disse amor? – Amor? Você que nunca me falou nada dessa louca e eu é que tinha que contar que recebi um bilhete de uma antiga “ex” sua? – Calma gente. Senta aí, Eleonora e mostra para gente a carta. – Tá aqui, vejam o absurdo. – Ricardo ela pirou, o que é isso! – Preciso resolver, ela não vai deixar a gente em paz. Ela também me escreveu faz uns meses, a carta está aqui eu trouxe para você ver. Não mostrei antes porque achei que não seria legal, afinal é um passado morto para mim. – Você devia ter me contado antes... – Escuta, vou deixar vocês dois conversarem; mais uma vez Eleonora me desculpe, mas achei que esse assunto deveria ser resolvido por vocês dois, depois nos falamos. – Tudo bem Laura, não devia ter metido você nisso. Obrigada. Tchau... Quem é a Maria Cristina? Deixe-me ler a carta que ela escreveu para você; Por que não me contou? Que coisa, e a confiança, onde fica? – Não contei porque não queria que acontecesse o que está acontecendo. Ver você assim, desconfiando, pensando besteira, duvidando de mim e do meu amor. Maria Cristina foi uma amiga lá de São José do Rio Preto da época do colegial. Eu era muito amigo dela e bem apaixonado. Na faculdade consegui me declarar, mas ela disse que iria estragar nossa amizade. Depois, quando comecei a namorar outra garota ela disse que queria ficar comigo, desisti da moça, começamos a namorar e para encurtar a história ela ficou com meu melhor amigo, casaram e eu sofri feito burro. Vim para São Paulo no fim do ano para terminar o curso aqui. E o resto da história você já conhece.


– Você devia ter me contado antes...

– Por favor, não vamos entrar nessas neuras. A ideia é essa... – Deixe-me ver a carta que ela mandou para você. – Promete não surtar? – Dá logo. – Promete, então! – Tá... Olha isso! Não acredito nessa frase: “O que sei é que senti uma vontade, como a de comer um doce, e pensei que talvez recebesse bem essa carta com notícias minhas.” Que absurdo! – Você jurou. – Como é que eu não vou surtar. Veja isso, então: “a angústia da incerteza da sua resposta e assim será muito mais fácil e compreensível caso sua carta não chegue. Poderei pensar no extravio dos correios, na morosidade dos serviços...” Você respondeu? – Ah! Eleonora deixe isso para lá. – Eu não acredito que você respondeu uma carta para essa louca. Não acredito. O que respondeu, eu quero ver. – Nem lembro o que respondi e não tenho cópia. Já surtou, sabia que não ia durar três minutos. Isso está enchendo, você queria que eu fotografasse a carta, fizesse duas vias com firma reconhecida...

– Nada disso MEU BEM, só queria ter sabido antes. – Vamos para casa. – É uma ordem? – Não, mas vejo que você entrou em cheio na obsessão da Cristina, está fazendo exatamente o que ela gostaria de ter provocado na gente, e isso me aborrece demais. Vamos pensar numa solução... – Ela está sozinha. Quem sabe você não queira satisfazer sua...

– Agora foi demais... Estou indo, vai ficar? – Vou.


Eleonora ficou no bar até muito tarde, pensando e bebendo. Queria entender o problema mais relevante de toda essa história, que era de fato, a omissão de Ricardo do que havia acontecido. Omissão gerada pelo medo, pela falta de confiança nela, ou ainda, por outro motivo qualquer despercebido. Lembrou-se do antigo relacionamento, dos erros, do azar, da falta de confiança. A questão agora era processar esses dados e resolver o que ela faria com isso tudo. Ricardo chegou muito irritado em seu apartamento. Não entendia o ciúme de um passado tão distante. Não compreendia a atitude de nenhuma das duas, e desconjurou a mulherada de uma forma genérica. Praguejava o tempo todo e resolveu ir trabalhar, pois de nada adiantaria desvendar a natureza feminina, ela existe por si só, na sua complexidade contraditória. Começou a separar as fotos que tinha tirado durante o dia, analisando os melhores ângulos, focos e cores. Maria Cristina resolveu naquela noite escrever mais uma vez para Ricardo. Estava solitária e triste. Desistiu de escrever carta e pensou num e-mail. Repensou e passou-lhe a ideia de telefonar. Não sabia o telefone, mas tinha o endereço e seria fácil de achar. Depois sentiu um medo enorme de não ser atendida e outra rejeição seria muito cruel. Revisitou a carta enviada por ele e destacou o seguinte trecho: “desejei você imensamente, absurdamente mais do que imagina, como mulher, e como falou você fez a sua escolha.” Maria Cristina pensava em sua escolha de agora. Ricardo pensava na fotografia certa para compor o catálogo. Eleonora pensava na omissão e no azar que tinha em relacionamentos. Trilogia, tricromia, trifásico. Tricordianos, talvez, não pela cidade de origem, apenas pela situação. Naquela noite ninguém conseguiu fazer mais nada. Eleonora dormiu na casa de uma amiga. Ricardo não separou nenhuma foto em definitivo e Maria Cristina tomou um comprimido para dormir.

Certas obsessões devem durar o tempo da espera a ponto de gerar a angústia, o sofrimento e a dúvida, quer seja da possibilidade do fim ou do inicio de uma nova conspiração...


A obsessão surge na maioria dos casos do desejo reprimido. O desejo de ter algo, ou alguém, provoca o interesse excessivo em relação ao objeto desejado. Não passa por preceitos morais, não passa pelo lado consciente, porque é insano. Ricardo oscilava como um pêndulo, para cá e para lá. Do ponto de vista do amor, Eleonora preenchia todos os requisitos da companheira perfeita. Do outro, existia à vontade, a curiosidade, o ter por nunca ter tido, o maldito desejo, inexplicável e certamente efêmero. Isso tudo passou a girar em sua mente depois desse telefonema:

– Ricardo? – Sou eu. Quem fala? – Três anos foram suficientes para esquecer minha voz. – Ah! Oi, Cristina. – Você pode falar? – O que você quer? – Quero saber se pode e se quer falar comigo? – Olha, Maria Cristina, você já conturbou demais as coisas por aqui. Respondi sua carta e achei que tivesse deixado claro... – Não deixou. – O quê? – Claro. Você não esclareceu nada. Aliás, disse que me desejava. Por isso estou ligando, quero ver você. – Por favor, não faça isso não. Eu vou desligar. Gostaria que... – Tem certeza que não quer me ver? Viver o que não vivemos? – Tenho. Boa noite. – Espera! – Fala. – Me liga a hora que der... – Tchau. Certas obsessões devem durar o tempo da loucura a ponto de gerarem as dúvidas, os desejos e as buscas, sejam das possibilidades de um começo, ou das certezas de um fim...


FINAL ROMÂNTICO Ricardo estava sentado e ainda segurava o telefone, meio atônito pela situação vivida instante antes. Percorreu na memória e formou uma espécie de linha do tempo, recordando os fatos, costurando acontecimentos, recuperando as mágoas, revivendo alegrias. Todo esse movimento foi intenso e de profundo desgaste. Escutou a fechadura da porta e cravou o olhar naquela direção. Eleonora entrou silenciosa e linda. Os dois cruzaram os olhares. Ricardo fotografou a mulher e congelou a imagem: bela, simples, companheira. Eleonora caminhou para perto dele e sentou-se no outro sofá.

– Tudo bem? – Por que não dormiu aqui? – Achei melhor ir lá para Claudinha. Conversamos, foi ótimo. E você? – A louca e chata da Maria Cristina ligou hoje, agora pouco. Estive pensando se não era melhor mudar o telefone, mudar daqui, sei lá, quero ficar em paz com você. Não quero que durma fora. Vamos casar? Isso, nós já moramos juntos há tanto tempo. Nos casamos e mudamos sem telefone... – Que deu em você? – Certeza. – Certeza? – É. Do meu amor. De você. Certeza total. – Que coisa. – O quê? – Não sei... tudo isso. Loucura. – Você não respondeu. – Não sei o que dizer. Fiquei surpresa. Criei uma expectativa tão ruim, que confesso que agora não sei o que responder. – Sim. – E a louca? – Que se dane. Mando o convite de casamento, pior, a Laura conta como uma fofoca e aí batemos o telefone na cara dela, rasgamos todas as cartas que chegarem... – Seu doido...


FINAL REALISTA

Ricardo estava sentado e ainda segurava o telefone, meio atônito pela situação vivida instante antes. Percorreu na memória e formou uma espécie de linha do tempo, recordando os fatos, costurando acontecimentos, recuperando as mágoas, revivendo alegrias. Todo esse movimento foi intenso e de profundo desgaste. Pegou o telefone e decidiu ligar para Maria Cristina.

– Oi. – Sabia que ia ligar. – Por que a certeza? – Senti na sua voz um desejo, como se estivéssemos juntos e próximos. Como se não tivessem passados os três anos. – Por que me procurou? – Arrependimento. – Agora que eu estava bem, com outra pessoa. – Se estivesse realmente apaixonado não estaria falando comigo agora. E também não é essa questão. – Não é verdade. Só quero esclarecer as coisas. – Vem para cá esse fim de semana. Preciso ver você. Fica aqui em casa. E assim podemos esclarecer o que quiser. – Arrependimento do quê? – De tudo. De não termos ficados juntos, da minha escolha errada... – Fala isso agora, por que não me procurou antes? – Ricardo, nossa hora é agora. Eu sinto isso, você tem medo de quê? – Não tenho medo. – Então vem! – Vou ver...


FINAL INUSITADO

Ricardo estava sentado e ainda segurava o telefone, meio atônito pela situação vivida instante antes. Percorreu na memória e formou uma espécie de linha do tempo, recordando os fatos, costurando acontecimentos, recuperando as mágoas, revivendo alegrias. Todo esse movimento foi intenso e de profundo desgaste. Ligou para Eleonora e conversaram por algum tempo. Eles discutiram e acabaram decidindo que era melhor mesmo cada um ir para o seu canto. Acabaram aceitando que a relação estava desgastada e que talvez, estivessem apenas adiando o que seria inevitável. No final da conversa que era mais amistosa acertaram os pormenores do quem fica com o quê. Ligou para Maria Cristina e desceu o sarrafo. Vomitou os três anos de mágoa embutidos, pediu que ela evaporasse de sua vida, foi enfático, grosso, e perverso. Xingou de louca obsessiva, fez a mulher chorar, certificou-se que nunca mais ela o procuraria. Um mês depois, Ricardo estava de malas prontas para a sua viagem. Levou bastante coisa. Talvez passasse aquele ano todo percorrendo os lugares que ele sempre quis. Nada de amores passados, de obsessões vividas. Levaria o dinheiro guardado para que pudesse trabalhar por lá um tempo. Fotografando a cultura dos povos, a paisagem toda, as belezas, os rostos e as almas... Inclusive a sua.


Obsessão