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artemísia

edição nº 01

literatura HQ O MURO

Música MULHERES NO ROCK

cinema MOANA

social

ECOA, MULHER! novembro / 2018 editora independente

novembro // 2018

As mulheres foram às ruas e fizeram história nas eleições de 2018 1


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OUÇA

inspire-se sinta reaja emocione-se

novembro // 2018

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artemísia

edição nº 01

diretora executiva marília freitas editora chefe editores // lara magalhães produtora executiva literatura anna cristina mariana pereira pires design gráfico joão kleber social maiara beckrich fotografia catarina souza edição de imagens televisão lovelove6 lara vascoutto redação salma fernandes música diretor de arte anna vitória katelyn abreu

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novembro // 2018

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Gastrite Nervosa, por LoveLove6 // 2017


Gastrite Nervosa, por LoveLove6 // 2017

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editorial Henihicidiate sunt latia dolo et la doluptatibus milit imperuptam nonsequam id untum impostibus ipsum untorer natusam sit ma nus aut fuga. Nam explicaborum voluptatet, odissitin namus, te parciduntis rem con remoluptium que doluptas que sunt aliquam rersperes cus que poriatq uatestem abo. Em voloriam quis eum ne imus. Ga. Ad qui aceate pore volum nus dolor ma vitistempe nos essunt aut antio te dollandi sae porpore sserum eum iliqui ut ma vellica borporis etur autet dolorum ut parum es exerestis explibus, tem as comnihicid eicab imin parum rerum digenem. Agnis simus alit por sum reicaecest, inis re venesequi to omnit abo. Et miliqui ne offic tem essecus nus esciditium nobis dolent peribus doluptia nam et faceat. Ecabor res maiorep erionsenit, et acesti dolorit optae laut aliquae necte eos rest, ommodis qui acerrovid earuntis ut omnim inciae voluptate odiciur sectur?

marĂ­lia freitas

editorial novembro // 2018

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p. 10

'O MURO' E A SAÍDA DA INFÂNCIA NA CULTURA POP Poética, sensível, cheia de referências musicais da época e muito bem ilustrada, se pauta num clichê da cultura pop: a saída da infância para a adolescência.

sumário p. 14

É MODINHA SER SELVÁTICA! Garotas que estão abalando as estruturas do rock e que você precisa conhecer.

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p. 24

SE FERE NOSSA EXISTÊNCIA, SEREMOS RESISTÊNCIA! Um consolo que não chega a amenizar a dor por completo, mas é um começo.

sumário p. 34

MOANA E O PROCESSO DE RESIGNIFICAÇÃO DE SER PRINCESA A quebra de estereótipos torna-se presente e necessária.

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Página da HQ "O Muro"

O MURO e a transição da infância a adolescência Geralmente, o rito de passagem do amadurecimento pode render “mesmices”, caso não seja abordado com certa sensibilidade.

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literatura Mariana Pereira Pires Estudante de jornalismo, apaixonada por riot grrl, cinema, literatura, chá e musicais. Ainda não superei meu amor por bandas punk de adolescente e nem meu sonho de ser a Kim Gordon um dia.

O

Muro,

de

Somos apresentados à menina e sua

Céline Fraipont,

melhor amiga, que logo de cara já

conta a história

mostram esse comportamento adulto

de Rosie, uma

precoce que vamos ver em toda a

adolescente

HQ

belga

no

história. A naturalidade com que

final dos anos oitenta que

pedem cigarros uma a outra contrasta

se vê perdida e sozinha

com a ansiedade e a inocência a

no mundo. Sua mãe a

respeito da primeira menstruação.

deixou

em

Rosie se mostra carente de afeto e

Dubai com o namorado e

atenção quando pede para a amiga

seu pai constantemente

jurar nunca abandoná-la – o que

viaja a trabalho. Logo, a

eventualmente

menina precisa assumir

uma ponte sutil com a premissa de

as rédeas de sua vida e as

que as idas e vindas de pessoas

responsabilidades de um

moldam

adulto, o que, combinado

personagem. A HQ é recheada de

com

de

perdas, que vão uma a uma definindo

abandono, culmina em um

o caminho de Rosie e seus propósitos.

para

a

viver

sensação

comportamento

a

acontece,

fazendo

personalidade

da

rebelde

e auto-destrutivo. O título da HQ faz menção a um muro, onde a personagem passa com e

os a

melhor

onde

jovem

dias

amiga

conhece

traficante

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sentada

um

judeu.

Amadurecer, ser adolescente e crescer são fases complicadas na vida de cada um de nós

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Lendo não pude deixar de

a situação das duas a época

comparar

em que ambas as histórias

a

Rosie

com

a

Tracy, uma das personagens

se

principais do filme Aos Treze,

quanto Tracy possuem plena

interpretada por Evan Rachel

consciência da gravidade dos

Wood. Assim como Rosie,

seus atos, preferindo ignorá-la,

Tracy experimenta conflitos

como se estivessem em uma

familiares e negligências

busca de identidade própria

afetivas, o que (também)

ou de um alivio para toda

gera

personalidade

aquela solidão e tédio diários.

auto-destrutiva

É engraçado reparar como

e rebelde. Enquanto Tracy

tanto quanto a literatura se

encontra conforto em meio a

usam dos mesmos artifícios

cena badalada de Los Angeles

e

do começo dos anos 2000, com

essa passagem da infância

Evan Rachel Wood e Nikki Reed

drogas, bebida e sexo, Rosie

para

no filme Aos Treze

encontra o mesmo, sendo a

pautada

uma

insegura,

passam.

clichês

a

Tanto

para

representar

adolescência em

Rosie

meio

Cristiane

F.

única marca que diferencia

Cena do filme Eu, Christiane F. 13 anos, Drogada e Prostituída, baseado no livro que narra a história da personagem principal por meio de seus relatos. Christiane se tornou viciada em drogas aos treze anos.

Temas como abuso de drogas, álcool, sexo sempre

O modo com que essa transformação é representada

contrastam com momentos de inocência infantil. No

nos filmes e livros é sempre repentina e sem motivação

caso de meninas é interessante observar que o assunto

nenhuma, além do fato da menina ter menstruado.

da primeira menstruação serve como uma espécie

A

de ritual de passagem, como se fosse uma exigência

é

meninas começarem a apresentar um comportamento

meninas se tornarem mulheres sexuais e rebeldes.

menstruação, vista

como

nesse

tipo

principal

de

culpada

representação, das

inocentes

sexual e uma tendência à rebeldia assim que menstruam.

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de

quando

menstruei

agir como uma mocinha leva meninas

a

a desenvolverem uma maturidade

vez:

e uma vida sexual precoce, muitas

da

vezes com caras mais velhos, já que

ginecologista

os meninos da sua idade são tidos

varias tabelinhas

como “imaturos” (dado que não

para

marcar

passam pelas mesmas exigências as

meu ciclo, que

quais as meninas são submetidas). A

acabaram sendo

cultura pop só passa o pano (e ainda

usadas

como

transfere a culpa para uma condição

m a rc a - p á g i n a s

biológica e natural) em cima de

do Harry Potter.

algo

primeira ganhei

enraizado

culturalmente.

Dramas que possuem como tema Enquanto

a

essa passagem brusca da infância

cultura pop usa

para a adolescência acabam muitas

a

vezes por serem apenas mais do

menstruação

como

bode

mesmo, sendo da responsabilidade

expiatório,

do roteirista a sensibilidade exigida

na

real

para tocar o leitor. Nesse caso, não

que

só da roteirista, mas também do

dessas

ilustrador, que captou lindamente

O problema é que a idade média em

m u d a n ç a s

esse clima sombrio e angustiante da

que ocorre a primeira menstruação

comportamentais derivam da pressão

personagem e o colocou no papel.

é entre os doze e treze anos. E com

social imposta às garotas assim que

doze anos você não é mulher ainda.

menstruam (e até mesmo antes) para

Você é uma criança. Eu ainda lembro

serem mocinhas. A obrigação de ser e

vida

sabemos parte

Ricamente

ilustrada,

em

dão um toque ainda mais

escala preto e branco, a arte

cativante

da HQ até me lembrou algo

final, entretanto, soa clichê

com xilogravuras, o que me

e um tanto forçado, como se

deixou ainda mais animada

servisse unicamente para dar

e curiosa acerca de outros

o impulso para a personagem

trabalhos do Bailly. Os álbuns

principal mudar e arranjar

e

músicas

um propósito de vida. am

no

decorrer

apresentados da

e

nostálgico. O

de

T dro como emas a g e s as, á buso exo lco com cons semp ol ino mom tras re ta cên e cia ntos m d inf ani e tl

história Editora Nemo Abril de 2015 R$ 39,90 192 páginas

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é modinha ser selvática 7 novas garotas do rock para conhecer e amar As mulheres dominam no palco e ilíricam abertamente sobre sexualidade, vivência e ser

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mĂşsica

Salma JĂ´, vocalista da banda Carne Doce

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anna vitória Jornalista e ex-futura-rockstar, gosta cada vez mais da ideia de estar se tornando uma mulher adulta, mas sente muita falta das férias escolares. Sonha em escrever livros, trabalhar de pijamas, viajar o mundo, derrubar o patriarcado e casar com Harry Styles.

N

ão é novidade que o rock

Mesmo o legado de nomes como

sempre

terreno

Debbie Harry, Stevie Nicks, Alanis

ocupado por homens, em

Morissette e outros nomes que citamos

que lugar de mulher era

em nossa lista de formação parecem

na condição de musa ou de groupie

estar confinados numa eterna nostalgia.

admiradora.

é

No entanto, existem mulheres fazendo

cenário

música boa hoje, mulheres de uma nova

hostil, as mulheres sempre estiveram

geração que combinam referências de

por aí, com pés e guitarras na porta,

várias épocas e estilos, que usam as

reivindicando seu espaço e gritando

redes sociais para publicar suas canções

para que abrissem espaço para outras

direto dos seus quartos e ainda produzir

mulheres na frente e em cima dos palcos.

posts e tweets, que aprenderam a tocar

Não estamos mais nos anos 60 e há

sozinhas ou que estudaram música na

quem diga que o rock foi sepultado faz

faculdade. São mulheres jovens que

tempo, muito por causa da sua relutância

têm algo a dizer e nos dão um motivo

em

acompanhar

para continuar prestando atenção no

os novos tempos e as novas vozes.

menino rock, seguindo firme adiante.

novidade

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se

foi

Mas

um

também

que, apesar

diversificar

e

do

não

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Any Other

Silently. Quietly. Going Away 2015

Any Other é uma banda italiana liderada por Adele Nigro, que assina as composições, canta e toca guitarra. Ao lado dela estão Erica Lonardi, na bateria, e Marco Giudici, no baixo. Os dois, no entanto, chegaram depois, quando a essência da banda já estava formada e essa essência é toda de Adele. Depois de sair de sua antiga banda, The Lovecats, aos 21 anos, a artista pensava sobre qual seria o seu próximo passo e se aquele

era o fim de sua carreira na

chamada de “melhor artista italiana”

música. Antes de desistir, no

pela Rolling Stone local, pouco tempo

entanto, ela agendou alguns

depois da publicação lançar uma lista

shows sozinha e começou a

com os melhores álbuns italianos

apresentar com um violão

dos últimos tempos sem um único

acústico

músicas

nome feminino. O fato não passou

que tinha feito e que depois

despercebido por Adele, que disse

fariam

primeiro

em entrevista ao The Attic que para o

EP do Any Other, Sonnet #4,

próximo álbum da banda, que sai ainda

gravado em apenas dois dias.

este ano, ela não pretende mais falar

Em 2015, já com a formação completa,

com jornalistas homens sobre como

a banda lançou o álbum Silently. Quietly.

é ser uma mulher no meio musical,

Going Away, com músicas que são tudo

menos ainda se isso for servir como “

aquilo que se espera de uma coleção

bad word ografia” para destacá-la na

de experiências de uma mulher de 20

cena em nome de uma boa manchete,

e poucos anos se perguntando como é

mas ignorando tudo de legal que tem

caminhar sozinha no mundo e dizendo

sido feito fora do radar condicionado

as coisas da forma como as vê. O olhar

dos homens brancos heterossexuais.

algumas

parte

do

de Adele é melancólico e poético e a roupagem indie rock das músicas faz com elas pareçam saídas dos anos 90. Recentemente Adele Nigro foi

Carne Doce

Tônus 2018

Carne Doce é uma banda goiana

o respeito aos rapazes, no entanto,

formada por Salma Jô e outros

Salma Jô, vocalista e compositora, é a

quatro caras. Digo assim, sem citar

alma da Carne Doce, que guia todo o

nomes, não para lançar um shade

resto.

gratuito aos outros músicos, que são

Sua voz tem um timbre muito

muito competentes, os responsáveis

característico, marcante, alto e

por uma parte importante da

pode até ser incômodo no começo

experiência de ouvir Carne Doce,

para quem não está acostumada

que é o instrumental pesado, às vezes

com o estilo. Foi incômodo para

psicodélico, que se espalha em faixas

mim, inclusive, mas é impossível

de mais de cinco minutos. Com todo

parar de ouvir porque suas palavras

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fazem o papel de te envolver até

como “Artemísia”, em que fala sobre

fãs. Hinário feminista ou não, podemos

aquele vozeirão te engolir. Princesa, o

aborto, “Amiga”, sobre solidão, com

confiar no taco de uma artista que alerta

segundo álbum da banda, lançado em

espaço para a doçura surpreendente

em “Falo”, música sobre a presença

2016, ganhou fama de disco feminista,

de “Eu Te Odeio”. Todo esse sucesso

feminina na música: não é modinha

embora essa não tenha sido a intenção

faz nascer uma expectativa para o

ser selvática, porque ela sempre foi

inicial da artista, de fazer um manifesto

terceiro disco, que deve sair ainda

assim, e há de continuar sendo. Amém.

político. O que ela fez foi falar

esse ano, e que Salma definiu como

sobre suas experiências sem medir

“um tiro no escuro”, com potencial

palavras, e assim surgiram músicas

para ser diferente do que esperam os Historian

Lucy Dacus

2018

Quando estreou em 2016 com o single “I

No Burden, seu álbum de estreia, fizeram

Don’t Wanna Be Funny Anymore”, Lucy

com que fosse comum chamá-la de Daria

Dacus tinha tudo o que precisava

da nova geração em críticas e perfis. Para

para um debut indie de sucesso

além do humor ácido e das alfinetadas,

na internet: ela era uma garota

foi a consistência e a qualidade de seu

tocando guitarra cantando

trabalho que fizeram com que pouco

uma música ácida sobre os

tempo depois a artista de 20 anos do

estereótipos que garotas são

interior da Virginia fosse cortejada por

forçadas a se enquadrar para

várias gravadoras até escolher assinar

pertencer. A engraçadinha. A

com a Matador Records, casa do Yo La

bonitinha. A groupie. A menina

Tengo, uma de suas bandas favoritas.

das artes. Lucy não queria ser nenhuma delas e também não queria mais sorrir para deixar os outros confortáveis, e esse tom, presente em muitas das letras de

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Em Historian, lançado em 2018, Lucy

faz sentido quando há tanta perda nas

fica chato e sua voz nos traz conforto

Dacus

porque

letras: a de um amor e confiança em

mesmo quando canta sobre abismos

merece toda essa atenção e prestígio.

um ex-namorado abusivo, tema de

profundos. Em entrevista, ela conta

Nas letras, que ela considera o cerne

“Night Shift”, que abre o disco, até a

que seu único ritual de palco é sempre

de

compositora

morte, no caso de “Pillar of Truth”,

passar batom vermelho (Ruby Woo, da

mergulha fundo em sua obsessão

escrita ao pé da cama da avó que

MAC, caso você esteja curiosa) porque

por registrar o tempo e documentá-

morreria em breve. Melodicamente,

isso a força a parar para prestar

lo, aceitando o desafio de registrar

ouvimos sempre sua mesma guitarra

atenção e sinto que é exatamente isso

acontecimentos e emoções quando

que vai crescendo ao longo da música

que suas músicas nos levam a fazer.

elas estão acontecendo. Essa urgência

e esperar por sua explosão nunca

mostra

seu

novamente

trabalho,

a

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Mitski

Be the Cowboy 2018

os seus trabalhos. Por já ter se mudado

e é difícil não pensar nisso ao ouvir

tantas vezes, esse controle é uma

“Your Best American Girl”, sua música

forma de garantir que ela

de maior sucesso. No entanto, em

sempre consiga tocar suas

entrevistas e textos de redes sociais

músicas,

independente

ela também faz questão de dizer que

das circunstâncias. Mitski

nem tudo que ela faz é sobre raça

também

de

ou gênero, embora tudo seja sobre

controle

raça ou gênero. “Your Best American

composições

Girl” é sobre amar demais uma

e não deixa que tomem seu

pessoa de um mundo diferente, um

faz

reivindicar sobre

ofício

como

questão o

suas

reações

M i t s k i

aos

acontecimentos

Miyawaki tem 27 anos, é filha de mãe

suas

músicas

passionais porque

o direito de ser uma garota normal é

profundamente

um de seus maiores gestos políticos.

japonesa e pai americano, já morou

emocionais e honestas. Ela canta, sim,

Em agosto, Mitski lançará seu quinto

em 13 países diferentes durante a

sobre amor, raiva, solidão e acerta em

álbum, Be The Cowboy, que já teve

infância e a adolescência, e começou

todos os nossos nervos, com guitarras

dois singles divulgados: “Geyser” e

a fazer as próprias músicas porque

ruidosas e uma voz melódica, única,

“Nobody”. Neste último ela fala sobre

sentia que essa era a única coisa

sempre no tom certo; e ela quer que

se sentir sozinha de um jeito que é

nesse mundo que realmente poderia

todos saibam que isso é fruto de talento,

quase constrangedor de tão honesto,

lhe pertencer. Mitski gravou sozinha

esforço, escolhas artísticas racionais e

o tipo de coisa que ela faz de melhor

todos os instrumentos de seus quatro

conscientes. Mitski reconhece como

e já nos dá motivos para aguardar

álbuns lançados até agora, contando

sua história e sua identidade racial

ansiosamente esse novo lançamento.

com ajuda apenas do produtor Patrick

fazem com que seja fácil transformá-

Hyland, que esteve com ela em todos

la num estandarte da diversidade,

são

descompasso universal, e reivindicar

Clean

Soccer Mommy

2018

Sophie Allison é o nome por trás

e bares de pessoas – garotos – que

de Soccer Mommy, que lançou seu

faziam música, mas nunca abriram

primeiro álbum de estúdio, Clean, em

espaço para ela. Pouco antes de

2018, um tempo depois de começar

se mudar pra Nova York, onde foi

a publicar suas músicas – que ela

para fazer faculdade, ela decidiu

mesmo descreve como “chill but

mostrar

kinda sad” – no Bandcamp. Sophie

mundo e romper por conta própria

cresceu em Nashville e passou a

com o clube do bolinha que conhecia.

seu

trabalho

para

o

adolescência frequentando rodinhas

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Embora seja um trabalho de estúdio

Duff e Taylor Swift como referências

rejeita

bem acabado e produzido, o estilo

líricas e românticas, e não aponto isso

sentimentos que surgem em “Cool”

lo-fi de Soccer Mommy faz com que as

como um demérito. É especialmente

e “Your Dog”, respectivamente, duas

músicas do álbum ainda soem como

reconfortante

ela

coisas aparentemente contraditórias,

se Sophie estivesse gravando por

consegue transitar entre o desconforto

mas que fazem parte da confusão

conta própria dentro do seu quarto

de saber que está melhor sem aquele

que é ser uma jovem mulher, amar

da adolescência a partir de letras

amor que só trouxe decepção, mas nem

e descobrir quem se é o que se

saídas direto de um diário. Clean é

por isso se livra do desejo de ser amada

quer ser nesse mundo. Fazer isso

todo sobre relacionamentos amorosos

e desejada por ele, de ser a garota

funcionar – e ainda parecer cool – é

e desilusão, um registro das primeiras

legal e descolada que costuma ser o

o grande trunfo de Sophie Allison,

experiências de uma mulher que

objeto de desejo dos garotos pelos

nossa nova melhor amiga famosa.

acabou de completar 21 anos e

quais ela insiste em se apaixonar. Ela

cresceu tendo Avril Lavigne, Hilary

quer ser legal desse jeito, mas também

St. Vincent

a

forma

como

de

cachorrinho,

2017

MASSEDUCTION funciona como um

mulher por trás de St. Vincent – destoe

bom passeio por todos os estilos

um pouco dos outros da lista por se

explorados em sua discografia até

tratar de uma artista mais conhecida,

agora, bem como suas referências,

experiente e até mesmo consagrada

ao mesmo tempo que flerta com

que os outros nomes já citados. Não

novo, já que agora ela trabalha

sei nem se é possível enquadrar seu

com Jack Antonoff, um dos

som na caixinha do rock, mas rockstar

produtores

é a única coisa que penso ao vê-la se

Nas letras, Annie assume

apresentando ao vivo. Aos 35 anos de

o

idade, Annie lançou em 2017 seu sexto

dominatrix e o universo que

álbum de estúdio, MASSEDUCTION,

constrói em suas letras é puro

cuja capa mostra ela de bunda virada

vício e excesso, com batidas

para o público,num cenário plastificado

eletrônicas e barulhentas, como a

e marcado por cores muito vibrantes.

faixa título, mas que também encontra

O álbum veio com a missão de suceder

espaço para inesperados e bem-

seu aclamadíssimo trabalho anterior,

vindos momentos de calma, em que

autointitulado,

sempre,

sua voz brilha sozinha de um jeito que

o que ela entregou não era nada

faz chorar, como em “Hang On Me”.

daquilo que esperávamos quando

Acredito que o forte teor de frescor e

anunciou que faria um álbum que

subversão que existe em seu trabalho

refletisse o momento político atual.

seja aquela ruptura idealizada que fez

como

feita

MASSEDUCTION

Talvez o nome de Annie Clark – a

e,

ser

papel

do

da

mantê-lo vivo, seja ela roqueira ou não.

momento.

personagem

o rock nascer há algumas décadas e St. Vincent tem feito um bom trabalho em

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Willow

The 1st 2017

oportunidades extraordinárias, com chance de explorar toda possibilidade que aparecesse. E mesmo assim, em “Boy”, faixa que abre The 1st, ela fala sobre o medo de parecer chata aos olhos do menino que gosta, justamente por viver num mundo cercado de estrelas e que isso pode ser assustador para quem vê de fora. É esse tipo de honestidade crua misturada com clássicas angústias adolescentes e reflexões sobre gênero e liberdade sexual que fazem seu trabalho tão interessante e, sim, maduro. Depois de pirar e experimentar bastante em seus trabalhos iniciais, parece que Willow está se encontrando nessa sonoridade que mistura folk e rock alternativo, uma coisa meio anos 90 – um salto até distante para uma autêntica representante da A vida de Willow Smith é extraordinária o suficiente para

geração Z pós-millennial – sem deixar de lado o caminho

que aos 17 anos ela tenha lançado seu segundo álbum,

percorrido até aqui, com forte influência R&B. “Boy” parece

considerado maduro pela crítica, quase 10 anos depois de

quase boba diante de outros momentos mais inspirados

sua estreia no mundo da música, com o hit “Whip My Hair”,

do álbum, como “Romance” e “And Contentment”, mas

feito quando ela tinha apenas 10 anos de idade. Willow é

é um momento que o álbum e artista brilham por se

filha de Will Smith e Jada Pinkett Smith, irmã de Jaden

aconchegar nessa vulnerabilidade, mostrando ao que

Smith, uma garota que cresceu com acesso a artistas e

vieram, e permitir que ela alcance até mesmo as estrelas. am

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LUTA É SUBSTANTIVO FEMININO Quantas vidas você está disposto a sacrificar por causa do seu medo?

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capa

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maiara beckrich Formada em Ciências Sociais, lésbica, indígena de descendência boliviana e feminista. Desconstruindo e resignificando nas rodas de militância e mesas de bar. Jogo futebol desde que aprendi a andar e, atualmente, defendo as cores do Pelado Real.

"N

ão há um limão tão azedo que não

Ao mesmo tempo, a instabilidade política e

possamos transformar em algo parecido

econômica abriu espaço para novos problemas e o

com limonada”, disse um médico, numa

agravamento de velhos conhecidos como a inflação

série, para um pai que havia acabado de

e o desemprego. Nesse cenário conturbado, o último

perder um de seus trigêmeos no parto de risco da

domingo seria o dia de fazermos a democracia

esposa. Por mais inspiradora que a fala seja, porém,

valer e limpar a sujeira que há anos é regra na

ela não ameniza a dor que está sendo sentida, tanto

política brasileira. O resultado, no entanto, apenas

que, na verdade, o médico não fala sobre a limonada

confirmou que tempos sombrios espreitam em

propriamente dita, mas em algo parecido com uma.

nosso futuro: com mais de 50% dos votos na maioria

Um consolo que não chega a amenizar por completo

das regiões do país, o candidato que mais temíamos

a dor, mas é um começo. A desilusão está em muitos

foi confirmado para o segundo turno – e o apoio tão

lugares e é engraçado como a fala consegue se

expressivo da população é assustador. Para outros

aplicar em diversos contextos – desde a sala de

cargos políticos, como deputados e senadores,

espera de um hospital, após um parto complicado,

a situação não é muito melhor: candidatos que

até o sofá da sala de casa, enquanto o país assiste

propagam a intolerância e o ódio contra minorias

a apuração dos votos da última eleição. No dia 7 de

tiveram um desempenho igualmente expressivo

outubro de 2018, milhões de brasileiros caminharam

nas urnas – um fenômeno, no mínimo, aterrorizante.

até suas seções eleitorais para exercer seus direitos de

“São tempos sombrios, não há como negar. Nosso

cidadãos – um direito,

mundo jamais enfrentou ameaça maior do que

é

preciso

lembrar,

a que enfrenta hoje”. Poderia ser apenas mais

muito

uma frase de um filme, de uma produção da

recentemente,

cultura pop, mas reflete diretamente a ameaça

conquistado

com

que enfrentamos enquanto democracia. Aprovada

readquirido

muita

luta

e

às

pela Assembléia Nacional Constituinte em 22

de

muitas

de setembro e promulgada em 5 de outubro de

esse

1988, nossa Constituição é nova, tem apenas 30

momento com ansiedade e já

anos. E em 30 anos de existência já foi colocada à

prevíamos que ele seria difícil: nos

prova diversas vezes – mas essa é, sem sombra de

últimos anos, assistimos a um golpe político de

dúvidas, a maior ameaça já colocada diante dela.

custas

vidas. Esperamos

perto e, dia após dia, escândalos de corrupção eram desmascarados e abafados com a mesma velocidade e sem que pudéssemos fazer muita coisa.

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Grandes veículos internacionais como New York Times,

exercer livremente seus direitos legal e constitucionalmente

Financial Times, The Guardian, The Economist e Le Monde

garantidos. Como se não bastasse, é também o responsável

vêm se manifestando e se posicionando contra um governo

por dedicar o voto a favor do impeachment de Dilma

do candidato de extrema-direita. Como se não bastasse ser um candidato que legitima o ódio e a intolerância, que não faz questão de disfarçar o machismo, a homofobia e a misoginia de seus discursos, não é preparado para comandar a presidência de nosso país sequer no âmbito econômico ou da segurança pública, que ele diz tanto querer melhorar. As propostas de seu plano de governo são vazias e sem embasamento teórico, quando participa de debates fica claro o seu despreparo (por isso foge deles), sempre recorrendo a chavões e frases de efeito para fugir das questões que realmente importam. Em quase três décadas como deputado pelo estado do Rio de Janeiro, só conseguiu aprovar dois projetos de lei: uma proposta que estende o benefício de isenção do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) para produtos de informática e outro que autoriza o uso da chamada fosfoetanolamina sintética, conhecida popularmente como a “pílula do câncer”. Entre a inexpressividade de seus

Rousseff, em 2016, ao torturador da Ditadura Militar e ex-

projetos e a falta de aprovação dos mesmos, figuram alguns

chefe do DOI-Codi, Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.

projetos de lei que procuram diminuir direitos conquistados,

Muitos de seus eleitores declaram sua preferência por causa

como é o caso da PL 6055/2013 que busca revogar a

de sua suposta honestidade e luta contra a corrupção, mas o

Lei 12.845 que obriga os hospitais do Sistema Único de

candidato não faz uma coisa ou outra: em 2014, parte do PP,

Saúde (SUS) a oferecer às vítimas de violência sexual um

admitiu ter recebido dinheiro ilegal da JBS, relativizando o ato

atendimento emergencial integral, o que inclui a oferta de

dizendo “O partido recebeu propina sim, mas qual partido

serviços de profilaxia da gravidez para vítimas de estupro.

não recebe propina?”. Ele e seus filhos enriqueceram na

Além de projetos que beiram o absurdo, seus votos no

política e acumulam, entre outros bens, R$15 milhões em

Plenário da Câmara demonstram que sua lealdade não está

imóveis,

com seu eleitor, mas com ele mesmo. Nas sessões a respeito

que “sonegam tudo

da reforma trabalhista, enquanto deputado, ele votou contra

quanto for possível”.

os trabalhadores, ou seja, aprovou o texto responsável por

Desde 1995 recebia

alterar regras de remuneração, negociações salariais, entre

auxílio-moradia

outros, propostas pelo governo de Michel Temer. Votou

e

também contra a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com

o

benefício

Deficiência (Lei 13.146), que visa promover condições para

cancelado

que pessoas com deficiência tenham acesso e possam

foi denunciado – mas quando isso ocorreu, ele e o

novembro // 2018

admitindo

pediu

para fosse

quando

não é preparado para comandar a presidência de nosso país sequer no âmbito econômico ou da segurança pública 27


e

recebido

No entanto, o candidato que quase

que, mais tarde, ficaria conhecido

auxílio.

conseguiu uma vitória no primeiro

como a Terceira Onda, cujo objetivo

Somos um país de maioria feminina.

turno se refere a negros por arrobas,

era demonstrar o modus operandi de

Mulheres

em

diz que filho seu não namoraria

regimes como o nazismo e o fascismo, o

número, trabalham mais e ganham

mulher negra porque foi muito bem

discurso de ódio empregado por esses

menos. Segundo estatísticas do IBGE,

educado e afirmou seu desprezo pela

regimes – sobretudo, o antissemitismo

cerca de 28,9 milhões de famílias são

população indígena. Nas eleições de

nazista – e como muitos cidadãos

atualmente chefiadas por mulheres,

2014 tivemos um candidato alinhado

alemães viriam a alegar o total

grande número das quais luta sozinha

ao posicionamento de Jair Bolsonaro:

desconhecimento sobre o massacre

para sustentar e manter o núcleo sem

Levy Fidelix, o mesmo que disse em

de

a participação de nenhum homem. A

debate, ofensivamente, que “aparelho

ciganos, deficientes, comunistas, etc,

desigualdade social é uma ferida de

excretor não reproduz”. Levy obteve

ao fim da Segunda Guerra Mundial.

gênero e ódio e a existência de um

menos de 1% de votos. Atualmente,

Mas como alegar inocência quando

candidato com um percentual de votos

General Mourão, vice de Bolsonaro,

eles faziam parte dos 37% de eleitores

que quase chega a 50% e que declarou

sugeriu seu nome para presidir a

que, em 1932, votaram no partido de

abertamente que não empregaria uma

Câmara dos Deputados em caso de

Adolf Hitler e apoiaram seus ideais?

mulher com o mesmo salário de um

vitória definitiva. O que aconteceu com

homem é absurdo. Somos também o

o Brasil nos últimos quatro anos para

país que mais mata pessoas LGBTQ+.

que um candidato homofóbico, fascista,

E o mesmo candidato declarou que

misógino e racista deixasse de ser

prefere ver um filho morto a vê-lo se

piada e passasse a ser levado a sério?

assumir homossexual. Somos o país

Em 1967, o professor norte-americano

cuja maioria da população é negra.

Ron Jones realizou o experimento

até

o

filho 730

mil

havia reais

superam

de

homens

judeus, negros, homossexuais,

Professor Ron Jones

28

revistaartemisia.com.br


Manifestantes em protesto contra o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) no RJ

Utilizando técnicas de controle social similares às utilizadas na Alemanha nazista e implantando novas regras de conduta, o experimento evidenciou não apenas a facilidade com que os alunos foram seduzidos pelo discurso fascista, mas o surgimento de um comportamento alienado e violento com o qual muitos passaram a agir dentro do ambiente escolar, e a reprodução do sentimento de superioridade em relação àqueles que não faziam parte do movimento. Conforme explica Caroline de Alencar Barbosa, em artigo intitulado “Discussões Acerca do Ensino da História do Fascismo na Escola: O Caso da Terceira Onda (1967)”:

“(…) Enquanto movimento político [o fascismo] pode ser entendido como a reprodução de um sentimento de superioridade que promove a construção de identidade nacional comum. [Os fascistas] expressavam repúdio radical da ordem política liberal e parlamentar, assumindo antimaterialismo e buscando novos valores como antissocialismo, valorização das forças irracionais, exaltação do instinto e da violência política.” novembro // 2018

29


No mesmo artigo,Carolina também relata que o fascismo pode

O sangue que está sendo derramado não vai ser lavado

surgir em diferentes contextos e que suas características se

com tanta facilidade, pois não é fruto da ignorância.

adaptam de acordo com o cenário no qual estão inseridos.

Bolsonaro é direto, sempre disse ao que veio. Se a nação

No caso do Brasil, no entanto, é possível perceber algumas

escolher olhar para o outro lado e elegê-lo, isso apenas nos

semelhanças com sua forma mais óbvia de atuação: o

dirá que o fascismo não está se instalando, mas sim se faz

discurso contra minorias, a rejeição aos direitos humanos

presente em nossos lares, ruas, cidades. Independente do

básicos e a propagação de fake news, em um contexto de

resultado do dia 28 de outubro, nós já perdemos muita coisa.

instabilidade política e econômica, frequentes escândalos

Como as notícias falsas

de corrupção e a perda da fé na democracia. Como Hitler, a figura de Jair Bolsonaro segue a cartilha do anti-político radical e politicamente incorreto que promete a restauração dos valores ditos tradicionais e soluções simplistas e

Notícias falsas sempre existiram. A conhecida falácia

milagrosas para os problemas do país, que surge inicialmente

de envenenamento do poço – ou seja, falar mal de

como uma piada para então cair no gosto popular. Como na

outro, mesmo que com mentiras, apenas para se obter

Alemanha da década de 1930, muitos brasileiros acreditam

vantagem – não pode ser considerado algo novo. Porém,

que as declarações polêmicas do candidato são apenas uma

nestas eleições, a novidade esteve no fato de que o

forma de chocar o público, que ele não vai implementar suas

candidato com maior tempo televisivo não chegou nem

ideias mais controversas e radicais. A História, assim como

perto de um segundo turno, ao passo que Bolsonaro,

o resultado das eleições do último domingo, no entanto, são

com menos de dez segundos de propaganda eleitoral,

a prova de que elas não poderiam estar mais equivocadas.

Permitir que um homem desses chegue ao poder é ser co-autor de uma tragédia anunciada. Bolsonaro já deixou bem claro que apoia a ditadura, a tortura e a morte de quem lhe é diferente. O sangue de suas futuras vítimas não está somente nas mãos dele, mas nas de seus eleitores que, movidos pelo ódio às minorias e à pluralidade, e pelo

conquistou 46,62% dos votos válidos. Como isso ocorreu?

120

milhões

de

brasileiros

utilizam

o

WhatsApp

diariamente. 66% dessas pessoas compartilha conteúdo político no aplicativo. A desinformação que circula no aplicativo é gigantesca, especialmente em grupos. O critério é simples: se fulano compartilhou e fulano é uma

anti-petismo, lava suas mãos perante o sofrimento alheio. A

pessoa confiável, então isso é verdade. Se fala aquilo que

figura de Bolsonaro legitima tanto ódio e preconceito que

você quer ouvir, melhor ainda. Ninguém sabe qual é ao

as pessoas estão fazendo cada vez menos esforço para

certo a fonte da informação, tampouco se os critérios

esconder o que pensam, e mesmo entre aqueles que dizem

jornalísticos de apuração estão presentes, mas a fake news

apoiá-lo com ressalvas deixam evidente um outro grande

se torna verdade pela confiança em relações (familiares, de

problema que enfrentamos, que é a recusa de boa parte das

amizade, trabalho e afins). A gravidade dessa disseminação

pessoas em olhar para os lados e reconhecer que algumas

de informações aumenta quando uma pessoa de confiança

lutas, algumas causas, são maiores do que elas. Apoiá-lo com

apresenta um argumento estruturado – ainda que fraco de

ressalvas é privilégio de quem não é diretamente atingido por suas ações e discursos, de quem pode fechar os olhos e acreditar que é possível apoiar alguém pela metade e não se importar com quem será atingido por inteiro. É privilégio de quem não sente o medo na pele e no corpo odiado por eles.

30

influenciaram esse resultado

embasamento, incoerente com reais propostas e reforçado pelo ódio à oposição – e o expõe para um público que compra com facilidade qualquer coisa que vê. As pessoas acabam tendo a tendência de concordar com aquilo que

revistaartemisia.com.br


O que aconteceu com o Brasil nos últimos quatro anos para que um candidato homofóbico, fascista, misógino e racista deixasse de ser piada e passasse a ser levado a sério?

Movimento #EleNão na Cinelândia, Rio de Janeiro

novembro // 2018

31


apenas reforça o que acreditam e

o fenômeno Bolsonaro. Existiam outros

do PT (visto como a encarnação de

rejeitar

candidatos com posicionamento mais

todos os males brasileiros), o grande

conservador,

Messias que veio para salvar o país

fato a

32

veementemente

ou

argumento

desestabilizar

qualquer

que

à

direita,

e

esquecendo que o caminho para

que

mesmo

aqueles que estão indignados com

a expansão do conhecimento é a

apoiados em discursos cristãos, mas

as reviravoltas e os escândalos de

reflexão racional de ambos os lados.

apenas um que combinava tudo isso

corrupção aos quais assistimos nos

Esta não foi uma eleição para escolher

com discursos de ódio e desrespeito

últimos anos, ao vê-lo numa emissora

o melhor, mas sim para evitar o pior.

à democracia – e enquanto ele por

de um “homem de deus”, percebem

O voto útil se fez presente durante

pouco não foi eleito no primeiro

nele uma saída do fundo do poço.

toda a campanha, tanto em redes

turno, esses

sociais quanto nos debates, com os

expressão de votos irrelevante. O

Ao vivermos numa bolha internética

próprios candidatos se unindo em

buraco é, portanto, mais embaixo.

repleta

discurso contra Bolsonaro. A ameaça

Na última quinta-feira (04/10), o

conhece sites confiáveis de jornalismo

à democracia nunca foi tão forte

candidato não ocupou seu lugar

e sabe como ir atrás da informação

desde que o Brasil recuperou seus

no

correta, esquecemos

direitos individuais e coletivos, mas

Globo, alegando atestado médico

parte dos brasileiros não possui

o medo da corrupção e as notícias

que o recomendava a não falar por

acesso à internet, e mesmo entre

falsas espalhadas no aplicativo e

muito tempo, mas ironicamente foi

grande parte da população com

nas redes contribuíram para que a

entrevistado na Record – o único

maior nível de ensino, meio em que o

extrema-direita, antes

como

a ter esse espaço, o que configura

referido candidato também é favorito,

piada, tomasse corpo e ganhasse voz

crime eleitoral –, onde declarou que

não há discernimento, entendimento

nas ruas e nas urnas. A democracia

suas já comprovadas

também terminou por se tornar a fraca

alegações

desculpa daqueles que justificam seu

racistas e homofóbicas

voto em Bolsonaro: “democracia é a

são fake news plantadas

alternância de poder”, mas, na prática,

contra ele para que

só se for para tirar um único partido,

não chegasse ao posto

o PT, de jogo. É sabido que o PSDB,

eleitoral.

tão dominante quanto, não gera tanta

parte

comoção e revolta, ainda que o governo

brasileira se informa

dos

apenas pela TV e pelo

candidatos

crenças,

alinhados

veementemente contra o PT e tudo

seus

suas

venha

vista

tenha

uma

ele

representa,

outros

tradicional

da

até

tiveram

debate

da

restaurar

a

família

tradicional,

uma

Rede

de

gente

militante,

que

que

grande

machistas,

Grande população

participação significativa nas crises

WhatsApp.

Quando

por quais passamos, sendo a crise

um candidato que se

hídrica que assolou o estado de São

diz contra a corrupção,

Paulo durante o governo de Geraldo

que promete modificar

Alckmin uma das mais relevantes.

profundamente

moldes

sobre construção da informação, ou

Mesmo o argumento do desejo de

governamentais do Brasil e que se

até mesmo honestidade intelectual

mudança não se sustenta para explicar

autointitula o verdadeiro antagonista

para motivar o esforço para averiguar

os

revistaartemisia.com.br


o que é ou não falso. É palavra contra

pessoas querem desesperadamente

diminuir a angústia do que é ser

palavra e quem ganha é quem fala

voltar para um passado que elas

sujeito histórico e transitório – porque

diretamente aos ódios e temores

acreditavam

mais

é isso que somos – mas, como canta

individuais de cada um. Bolsonaro

seguro. Aliás, nem só de instabilidade

Belchior, “o passado é uma roupa que

não está à frente apenas pelas fake

política e econômica é feito esse

já não serve mais” e nem servia antes.

news, mas elas foram um dos fatores

terremoto, mas sim de um período de

mais decisivos para sua quase vitória.

transição que estamos enfrentando

Nossa única forma de sobreviver é

Vale

de

em escala global, em que instituições

seguindo adiante para construir um

instabilidade política e econômica

antes sólidas estão mostrando suas

mundo novo e melhor, e não destruir

como o que enfrentamos no Brasil (e

rachaduras e é difícil saber o que

as coisas boas que os últimos anos

no mundo) nos últimos anos alimentam

existe do lado de lá. Não é fácil

nos

inclinações conservadores porque as

aceitar que tudo é caos, não queremos

democracia, ainda que cambaleantes.

dizer

que

períodos

ser

melhor

e

trouxeram, tipo

liberdade

e

nunca se renda, nunca desista da luta E agora? “Nunca

se

desista

entre o candidato da democracia

palavra feminina. Assim como luta e

da luta”. O legado das Sufragistas

e dos direitos civis e o candidato

democracia. Nossas vozes precisam

nunca se fez tão necessário como

do fascismo, do ódio e do medo.

continuar sendo ouvidas, o que temos

agora. O clima é de medo, sim, e de

Quando, em vídeo gravado após o

a dizer importa. “Hitler não chegou ao

desesperança, mas são em momentos

resultado do primeiro turno, Bolsonaro

poder porque todos os alemães eram

como esses que precisamos nos unir,

diz que “acabará com todos os

nazistas ou anti-semitas, mas porque

criar laços e uma rede de proteção,

ativismos”, ele quer dizer, de maneira

muitas

acolhimento e luta. No próximo 28

clara, que pretender calar aquele que

vista grossa.” Este é o momento não

de

novamente

se opõe, que luta, que expõe. Sinalizar

apenas de votar certo, mas de sermos

diante da urna eletrônica decidindo

o fim do ativismo é recorrer ao medo

disseminadoras

nosso futuro pelos próximos quatro

e ao silenciamento daqueles que

combatentes e combativas contra a

anos – mas também por todos os anos

colocam a cara a tapa, que fazem – e são

ignorância, a violência e a intolerância

que vierão a seguir. Não estamos

– oposição. E agora, mais do que nunca,

que ameaçam tomar conta do país. am

mais escolhendo entre candidatos de

não podemos desistir. Precisamos

partido ‘x’ ou ‘y’, estamos escolhendo

continuar existindo, resistindo. Resistir:

outubro

renda, nunca

estaremos

novembro // 2018

pessoas

razoáveis

de

fizeram

informação

e

33


cinema

as altas aventuras de ser uma PRINCESA Moana marca o estágio mais revolucionário do longo e demorado processo de ressignificação do conceito de princesa na cultura pop.

34

revistaartemisia.com.br


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lara vascouto Criadora e editora do Nó de Oito. Internacionalista. Viciada em desconstrução. Optou por ser pobre e feliz na praia ao invés de rica e triste em São Paulo.

J

á há um bom tempo tenho

Pois bem, inicialmente eu entendi essa

critérios pelos quais reconhecemos

tido dificuldade com os meus

cena exatamente pelo o que ela é: uma

uma princesa da Disney. Isso sem

sentimentos

ao

piadinha autoconsciente da Disney

contar que há uma quase certeza

conceito de princesa. Se por

para mostrar que Moana não tem

de que ela entrará oficialmente na

aversão

nada a ver com o estereótipo clássico

franquia Disney Princesa em breve.

ao estereótipo clássico (que nada

de princesa. Ela é uma aventureira

mais é do que uma representação

e uma heroína sem tirar nem pôr,

certeira do ideal machista “bela,

com zero preocupação em ser bela

recatada e do lar”), por outro me sinto

e em se casar com um príncipe.

um

lado

sinto

em

relação

completa

completamente atraída por várias

O que me leva a um ponto importante...

Dá da

princesas notórias que a cultura pop

Só que aí eu fiquei pensando que nada

nos presenteou ao longo dos anos.

disso impede que todo mundo veja

uma

olhada

franquia

nas

princesas

Disney

Princess:

a Moana como a “nova princesa da É super irritante isso, não vou mentir,

Disney”, por mais anti-princesa que ela

mas recentemente acho que consegui

seja. E isso é totalmente compreensível

organizar

porque,

meus

pensamentos

embora

ela

faça

muito

enquanto assistia aquele que foi

bem em rejeitar o estereótipo, num

um dos filmes mais esperados da

sentido geral ela preenche todos os

Disney nos últimos anos: Moana.

Em uma determinada cena do filme, o semideus Maui chama Moana de ‘princesa’, ao que ela rapidamente responde: ‘não sou uma princesa, sou a filha do chefe’. Maui então diz que isso não faz diferença nenhuma, e que se ela usa um vestido e tem um então

animalzinho ela

é

engraçadinho, uma

princesa.

As princesas da franquia

36

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Bela e Tiana se tornam princesas ao

casar

com

príncipe.

fluidos e não têm necessariamente a

Jasmin é filha de um sultão. Já

ver com o estereótipos clássicos de

Pocahontas…é filha de um

princesa. Re-afirmação, veja bem,

chefe indígena, como Moana.

porque a presença da Mulan na foto

E por último, mas não menos

acima e a natureza das princesas que

importante,

um

definem princesas para a Disney são

Mulan,

foram criadas nas últimas décadas

que não tem, nunca teve e nem

já afirmam há anos que para fazer

nunca terá um título de princesa.

parte desse grupo basta que uma

Ora, o que isso mostra é que há mais

personagem seja humana e uma

N e v e ,

na fala de Maui do que uma autocrítica

heroína (e que seu filme tenha sido

Aurora, Ariel, Rapunzel e Merida

engraçadinha do estúdio. Há ali uma

um sucesso de bilheteria, claro).

são todas filhas de reis. Cinderela,

reafirmação de que os critérios que

Maui

Ok,

Branca

de

temos

Isso tudo me fez ficar pensando no meu desconforto em ser apaixonada por várias princesas da cultura pop, inclusive algumas da Disney. Porque, na verdade, desde o chamado Renascimento da Disney (que começou com A Pequena Sereia),parece clara a intenção do estúdio de criar personagens femininas que se distanciam do estereótipo clássico de princesa. Sim, é verdade que de uma forma ou de outra todas elas trazem fatores problemáticos, como a adesão obrigatória a padrões de beleza

Moana

e o fato de muito de suas histórias girar em torno de um cara. Mas além dessas chateações elas trazem também muita personalidade, coragem, independência e quebra de estereótipos.

As princesas do Renascimento da Disney

novembro // 2018

37


Pensando além dos estúdios Disney, a quebra de estereótipos trazida por personagens princesas parece ser uma tendência geral na cultura pop nas últimas décadas. Como ignorar, por exemplo, a natureza fodástica de personagens como…

Mulher-Maravilha, alter ego da Xena, a Princesa Guerreira.

princesa Diana de Themyscira, filha de Hipólita, rainha das amazonas.

She-Ra, alter ego da princesa Adora.

Princesa Zelda, principalmente em The Legend of Zelda: Ocarina of Time. Princesa Fiona, de

E ninguém menos que ela, que só se

Shrek.

tornou General Organa depois de ser a fodástica Princesa Leia.

38

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Mesmo em filmes como Uma Garota Encantada, Programa

ao longo das últimas décadas, num longo e demorado

de Proteção para Princesas e Diário de uma Princesa, as

processo de ressignificação do conceito de princesa. Um

princesas subvertem de alguma forma o molde clássico.

processo que parece ter chegado ao seu estágio mais

E embora a maioria das princesas acima sofra da mesma

revolucionário atualmente, com Moana.

síndrome machista que acomete as princesas da Disney em termos de padrão de beleza e amor romântico, não dá para negar que o termo ‘princesa’ vem lentamente se tornando indissociável de ‘heroína’.

O que parece que tem acontecido é que a mesma definição fluida que a Disney usa na sua franquia de protagonistas femininas vem sendo aplicada em toda a cultura pop Moana, ainda criança

Se você ainda não viu Moana, eu sugiro

(uma fofourinha, não?)

que o faça o mais rápido possível, porque este é o primeiro grande

1. Uma protagonista não-branca que;

filme de princesa da Disney que tem

2. apesar de ser magra, tem um corpo com proporções normais;

simultaneamente:

3. não possui nenhum interesse romântico e; 4. cuja trajetória não envolve nenhum obstáculo ou dificuldade pelo simples fato de ela ser mulher.

muito embora, devido a todos os marcadores do estúdio, ela seja uma princesa A questão é: isso é um problema?

Disney o são. Só que como a maioria

por

Bom, do modo que vejo, sim e não.

delas ficou presa de alguma forma

machistas em seus filmes de princesa.

Não, porque como vimos o conceito

ao ideal de beleza e amor romântico

Acho que isso vale para a indústria

de princesa vem sendo ressignificado,

do

do

e Moana é parte importante desse

problemático.Serão necessárias muitas

que

processo. E sim, porque me faz

outras Moanas para que o conceito

femininas. Por isso é importante que

pensar se a mensagem que fica para

de princesa perca a carga machista

Moana se torne um exemplo a ser

a meninada é que é preciso ser uma

que possui. Se é que um dia perderá.

seguido. Princesa ou não, precisamos

estereótipo

clássico,

isso

é

princesa para ser uma heroína. Não

de

é à toa, aliás, que as meninas querem

Recentemente, escrevi um texto em

tanto ser princesas: a maioria das

que concluí que a Disney é tipo um

personagens femininas fodásticas da

machista de esquerda do cinema

novembro // 2018

revezar

ideais

entretenimento concerne

muitas

feministas

em

suas

outras

e

geral, no

personagens

como

ela.

am

39


agradecimentos Às mulheres da minha vida: obrigada. Pos uta sum dolenis ditatur, ut pe nes a vollestorio. Natisciaspe conestibus molorum nonsequaspit esti ni ipsum ea sitibus dolo volupie nderiti ossequa spicime dolupic ipsusdam nistibus. Em earchiliquis aut lique offici corion net vidella dis et volupicitat magniet libus ipiet lia sunt la velest occusae. Itaquate porrovidem recturerum ipiet laut ese erae vid ullupta dolupta illani ut ut dolendel mi, odi di con ent antia aut as il ium cum sedio delendus di cor sam, et lam sollanis ad ma commo voluptatis que soles aditatia volupta tustion sequam, imagnis magnam qui totatum lantur re elita sint fugit laborem lis cuptaquia volupta tusdam, as et aut odit, consequam, venime inulpa conserumque conseque volorion plaut apiscit ommodio. Nequat fugia sunt. Aquam, inctiumque volorerovidi alicit elesto corehendit volorem odignitia nis ea quunt vel mi, sin es plitio totatumque et plandipsum qui consequis am, sitatur, si sunt am explisim nonsequ Continuem lutando. Temos um longo caminho pela frente.

agradecimentos

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Gastrite Nervosa, por LoveLove6 // 2017


am

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Profile for Marília Freitas

Revista Artemísia  

Publicação feita para disciplina de Planejamento Gráfico, ministrada pelo professor Luís Sérgio Santos, do curso de Comunicação Social - Jor...

Revista Artemísia  

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