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Vestígios Memoriais: Projeções entre a mágoa e o desejo Marília Carreiro Fernandes1

“Chegará até a superfície de minha clara consciência essa recordação, esse instante antigo que a atração de um instante identico veio de tão longe solicitar, remover, levantar no mais profundo de mim mesmo?” (Marcel Proust, Em busca do tempo perdido)

Casé Lontra Marques é autor de Mares Inacabados (Flor&Cultura, 2008); Campo de Ampliação (Lumme Editor, 2009); A densidade do céu sobre a demolição (Confraria do Vento, 2009), Saber o sol do esquecimento (Aves de Água, 2010); Movo as mãos queimadas sob a água (Aves de Água, 2012); e Indícios do Dia (Aves de Água, 2012). No último livro publicado, encontram-se O Calendário dos Peixes, Memória Reticular e Acolhida dos Porcos, base desta análise. Nota-se, no decorrer dos versos estruturalmente modernistas, o rompimento com os preceitos da gramática e da retórica através dos versos assimétricos; do emprego do discurso poético de forma livre e imprevisível, de pausas e de palavras consideradas tradicionalmente não poéticas; da pontuação e ritmo livre e ausência de refrão. Johnson (1982: 5) apud Reis (1995: 319), a respeito dos fatores constituintes da poética, detalha da seguinte forma: “esta configuração pronominal retórica, esta dialética do eu e do tu, este discurso lírico permaneceu a forma típica de uma poesia que recriou emoções comuns mas complexas, em ficções particulares; que tornou visíveis as formas e os ritmos invisíveis da personalidade; que incarnou e afirmou a miséria e beleza da existência do indivíduo, num mundo que o deleitava e aterrorizava; que confessou a grandeza da transformação da alma sob o signo do ser [...]”

e sobre a criação da poesia, Berardinelli (2007: 22) diz: a poesia pode prescindir do mundo ou dominá-lo com a magia da sua linguagem de “conotações” sugestivas e “desvio da norma”. É poesia órfica e ontológica. [...]. A violação da norma constitui o fundamento de uma nova norma. A recusa da tradição funda uma nova tradição.

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Marília Carreiro Fernandes é formada em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo.


Com uma consciente linguagem poética – sem fórmulas, o autor não se empenha em traduzir fatos, mas em criar uma nova realidade (Rosa, 1989: 32, apud Alves, 2002: 4); realidade esta que suscita o questionamento do existente, do sujeito e da própria poesia. A motivação poética advém da carência, pressuposta pelo desejo (in)consciente, que pratica a busca pelo abstrato, pelo incerto, pelo imaterial através das projeções (de pensamentos) do ser, marcadas pela isotopia, característica comum na obra do poeta. O sujeito poético em constante mudança traz à tona a falta, experiência traumática, porém necessária. Essa motivação é redundante e, segundo Reis (1995: 323), “deve, pois, ser interpretada como processo de evocação de sentidos”.

Sujeito poético: (A)temporalidade da dor e da carência

Cabe ressaltar, a princípio, a particularidade do parentesco construtivo no poema. Sintaticamente, a pontuação liga os versos, formando uma continuação das ideias. No decorrer dos versos, o sujeito poético mantém-se numa linha finita e transita no tempo em seu sentido etimológico; a atemporalidade da poesia propõe uma saída do tempo cronológico e a experimentação de um tempo próprio, entrando num estado contemplativo. Goldstein (1995: 74), ao analisar o poema Canção, de Cecília Meireles, aborda uma característica que também aparece no poema de Casé Lontra Marques. A autora define a atemporalidade como “uma viagem paradoxal, sem começo nem fim (eliminouse o tempo), sem ponto de partida nem chegada (eliminou-se o espaço), é a libertação”. Ainda sobre as questões relativas ao tempo da poesia, a reminiscência é recorrente nos poemas em estudo. Bosi, em seu livro O ser e o tempo da poesia (1977: 13), afirma que “a imagem pode ser retida e depois suscitada pela reminiscência ou pelo sonho. Com a retentiva começa a correr aquele processo de coexistência de tempos que marca a ação da memória: o agora refaz o passado e convive com ele”. Essa particularidade pode ser observada logo nos primeiros versos: Apenas retenho, num vão de voz, o calor — invertebrado — que nos rememora: sem


deter seus resíduos; retenho — porque repelir seria uma forma de reduplicar — (p. 3)

No exercício através do silêncio (verso 1), o sujeito poético relembra delicadamente um passado doloroso, que transita entre o que foi bom e o que é ruim; a dor está arraigada no (bom) calor da memória que ele não se permite reviver. E, não conseguindo evitar o (re)lembrar, a dor causada pelo trauma psicológico se intensifica e desequilibra-o, atenuando o sofrimento, afetando seu comportamento e pensamento. Fulgêncio (2004: 261), baseando-se na teoria de Freud e Winnicott a respeito do trauma, afirma que a noção de trauma exige que, desde o início, exista um indivíduo amadurecido, ou seja, exige que exista uma unidade que reconhece em seu interior uma excitação, uma excitação que é vivida como algo a ser eliminado; uma excitação que é, inclusive, vivida como um conflito entre desejos de uma mesma unidade, desejos irreconciliáveis.

O processo da (re)memória justifica a atmosfera do poema. O dia dá indícios pela madrugada, período em que o sujeito poético desloca sua alma através do relembrar, num processo contínuo, repetido durante toda a primeira projeção. Willemart (1997: 22), a respeito das experiências vividas pelo eu, teoriza: as sensações de prazer e de desprazer são frutos de quantidades endo ou exógenas que deixaram uma lembrança na memória. Portanto, a aproximação de um objeto externo provocador de prazer ou de desprazer lembra o que já aconteceu e superdetermina o fato anterior. Todo estado de desejo cria uma atração em direção do objeto desejado e também em direção da imagem desse último.

O motor do desejo é a falta (ausência) do Outro. Os processos desejosos mostrados no início do poema são processos instáveis, gerados por meio das carências vividas nas experiências do sujeito poético e o moverão até a morte. “É a carência que representa o eixo que faz com que esta insatisfação seja vivida no limite do suportável e que o desejo se preserve ativo” (Silva, 2007: 9).


Do eu ao(s) nós: reflexos do inconsciente

A partir da Segunda Projeção, a presença do Outro e a interação amorosa com o sujeito poético são evidenciadas pelo uso da primeira pessoa do plural. A mudança de pessoa verbal é instigante, pois no início, há a narração do mal que o corpo do Outro causa; por ora, na segunda projeção, o sujeito poético inclui o Outro nesse processo de relembrar, como se ninguém escapasse às “irradiações do miasma” (p.3) e fala da precariedade, tomando como base o processo traumático e de memória estabelecido na primeira projeção: pretendemos nos apropriar da precariedade dos anos ofertados à fome mesmo que as palavras há pouco supridas continuem subjugadas ao receio de se restabelecer (p. 7)

O sujeito poético e o Outro se apossam do que foi muito faltoso, dos anos ofertados à fome, ao desejo; Apropriando-se do (bom) que ficou, mesmo que seja precário, mesmo que as palavras tenham sido bastantes, no intuito de se relacionar às relações de desejo, nega-se a usá-las novamente. jamais as entregaremos contudo ao catre da ineficácia (embora capazes de destruir o extremo prazer do confinamento) frente à pulsação — insidiosa — em que se perde toda a provisoriedade da linguagem (p. 8)

A linguagem é parte fundamental para existência do desejo. E é através da fala – lugar da linguagem – endereçada ao Outro, que o desejo se modula: “nos intervalos, nas pausas, nas exclamações e reticências” (Dias, 2006: 403). A fala traz os estigmas através do conhecimento, manipulando a memória e os pequenos lugares rememorados pelo inconsciente:


Na fala intacta, a água — pulmonarmente — reinscrita: interrogação — mais próxima da sintaxe — extenuada — dos líquidos: (marcas ruidosas?): estigmas: (aves arcaicas?):

(...) — premente voltagem — propagada: manuseando rumores, manipulando resíduos: pacto — de propulsão — no tempo (p. 8-9)

O sol, o desejo

Bosi (1977: 39-40) teoriza que o signo é um fenômeno histórico e social e pode se manter igual a si mesmo durante um logo tempo, mas também lhe é possível a modificação, ficando irreconhecível, cedendo lugar a outro. Aproveitando a teoria supracitada, observa-se que, assim como João Cabral de Melo Neto em seu poema Psicologia da Composição traz o signo Sol associado à aspereza, negatividade, como princípio e razão de todas as coisas, Casé Lontra Marques utiliza o símbolo Sol como algo racional, que irradia clareza: Já enumerou — noutro momento — As desintegrações do sol Vascular De que não se desfaz (p. 11)

Na filosofia, o signo sol exerce um papel valoroso. Anaxágoras de Clazómenas (500 a.C. - 428 a.C.) acreditava que o sol era maior que o Peloponeso; Heráclito (535 a.C. - 475 a.C.) achou no fogo o elemento Sol e interpretou-o como revelador da


inteligibilidade das coisas; Platão (348 a.C. - 347 a.C.) utilizou o sol como metáfora em seu Mito da Caverna, trazendo a associação do sol à beleza e à perfeição. Em sequência ao pensamento objetivo, o sujeito poético rememora e (re)pensa sobre o tempo, concluindo que, mesmo em boas circunstâncias, a relação com o Outro padeceria. O tempo bom (sem tumores, sem doenças) não traria o desejo, pois ele está além do significante e só pode haver interferência do sujeito poético se existir demanda: também pereceríamos num tempo sem tumores, sem estremecimentos; num tempo que derramasse a sombra de sua impaciência junto aos muros onde se julgam antigas asfixias? (p. 12)

Metáforas: som, silêncio, isotopias

As primeiras projeções de Indícios do dia trazem elementos do universo sonoro que nos levam a enxergar as situações oralizadas, exibindo uma paisagem sonora, como: ruído (ruídos / do nosso rejuvenescimento, p. 4), silêncio e som (Apenas retenho, num vão de voz, p. 3; potência / (hoje inaudível) / do / estupor, p. 4), timbre e amplitude (Sinuoso / – talvez sísmico – / organismo, p.5). Sergl (2005: 555), acerca do caráter sonoro da linguagem, teoriza: A voz, para ser produzida, toma de empréstimo alguns órgãos do corpo, cuja função primordial é diversa do ato de falar. Nosso instrumento vocal se divide em três partes bem definidas: a) aparelho respiratório, onde se armazena e circula o ar; b) aparelho fonador, onde o ar se transforma em som ao passar entre as pregas vocais; c) aparelho ressonador, onde o ar transformado em som se expande, adquirindo qualidade e amplitude.

No decorrer do poema, Casé utiliza esses elementos sonoros, os quais revelam conter um brado como confissão da dor do sujeito poético. Cada formação de voz e silêncio concebe sua expressão para que as informações de qualidade demonstrem o grau de força com que o som se produz, o clamor. Os órgãos da voz, por si sós, não


exibem o som sem que todos os sentidos desprendam a energia necessária; uma atuação que tem a intensidade baseada em alguém - foco da ação. O poema é marcado por dois significantes relativos ao aparelho respiratório: Diafragma (Miasmas / de outro diafragma:, p.3), responsável pela oxigenação do corpo e Pulmão (Na fala intacta, a água — pulmonarmente — / reinscrita:, p. 8), receptáculo de ar. As metáforas ainda são vistas além do universo sonoro. São apresentados no decorrer do texto elementos semânticos que possibilitam uma leitura monoisotópica e uma sintaxe que permite novos significados (não literais) às palavras: o calor — invertebrado — que nos rememora: (página 3) (...) apesar de ter devolvido à dor os sedimentos de uma minuciosa anemia, (página 4) (...) (marcas ruidosas?): estigmas: (aves arcaicas?) (página 8) (...) mastigando os estilhaços de um vidro insípido, com a garganta (página 11) (...) também pereceríamos num tempo sem tumores, sem estremecimentos; (página 12)

Considerações finais

O autor de Indícios do Dia suscitou, através do sujeito poético, um estado moral complexo e, pela abstração, particularidades intensas. A cada projeção de pensamento fica claro que a motivação é comunicada pela carência; que a volubilidade é inspirada pelo trauma.


O tempo da poesia em análise é posto em contato ao tempo no poema Canção, de Cecília Meireles, e justificado mediante as noções de transtorno do sujeito poético. A atemporalidade dos processos traumáticos – por meio da recordação e estimulados pela falta – atualizam e revigoram o sofrimento. Ao reexperimentar essa dor é que emerge uma disposição instintiva para o desabafo, o se esvaziar. Porém, a mágoa que o choca anula o impulso do grito, uma vez que o trauma vivido conduz mais energia que a própria memória. Casé, ao representar as pistas da memória em relação à magoa, não direciona a lembrança a uma reprodução imóvel do pensamento, mas impossa uma fluidez de linguagem na subjetividade que se condensa nas paisagens sonoras e na semântica. Os signos são trabalhados para pontuar a reminiscência do sujeito poético no decorrer ou na dissolução do tempo; usados para suprir um significado sob certo aspecto e em certa medida. Destacamos as associações do Sol no poema Psicologia da Composição de João Cabral de Melo Neto e nas interpretações filosóficas, observando a irradiação da clareza quando, objetivamente, é percebido o fatídico padecer em relação ao Outro, independendo das circunstâncias. Os signos da memória e a memória do trauma paradoxalmente motivam tanto o desejo quanto a dor.


Referências:

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Vestígios memoriais projeções entre a mágoa e o desejo