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mĂ­nimoImenso

hamilton faria


mĂ­nimoImenso hamilton faria

instituto cultural casa dos omaguĂĄs

| 2013


mínimoImenso 2013 Coleção Potlatch Pelo reencantamento do mundo organização

Rita Joly

design visual e fotos

Marilda Donatelli agradecimentos

Paulo de Albuquerque Sá Brito, Tânia Maria Masselli, Wanda Martins, Pedro Garcia, Francisco Coelho, Valmir de Souza, Sari Mani, Frederico Barbosa, Casa das Rosas secretária literária e cultural

Maria Ju

Catalogação na fonte – Instituto Cultural Casa dos Omaguás FARIA, Hamilton mínimoImenso / Hamilton Faria. - São Paulo: Instituto Cultural Casa dos Omaguás, 2013. 96 p. ISBN 978-85-67639-00-0 1. Literatura brasileira. 2. Poesia. I. Faria, Hamilton. II. Título

CDDB 869.1

Este trabalho está licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Não Comercial-Sem Derivados 3.0 Não Adaptada. Para ver uma cópia desta licença, visite http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/

Instituto Cultural Casa dos Omaguás Rua Simão Álvares 527 ap. 83, Pinheiros São Paulo-SP, CEP05417-030 omaguas@uol.com.br www.poetahamiltonfaria.org


Para o mĂ­nimo e o Imenso

Mattina M’illumino d’immenso giuseppe ungaretti


Potlatch: mínimoImenso Andarilho procurante do encantamento das coisas – chego ao Potlatch, de mãos generosas. Pronuncio com língua espantada: Potlatch! E ancestrais emergem de sonhos longínquos pronunciando, quase música: Potlatch! E abençoam-me com a dádiva do dar. Não o que me excede, o que menos preciso, mas, patrimônio maior, o que me faz falta, o que não tem preço – a poesia. Assim, guardiães do reencantamento os poetas se engrandecem. Potlatch – doação: celebração da vida. E que a palavra sobreviva, mínima, plena de Imenso. hamilton faria

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Mais que a vida Esvai-se o encantamento Por isso morremos Encantar-se Para n達o morrer

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Deus me deu a loucura De brotar da palavra Ă gua pura

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Ignor창ncia suprema: O que n찾o tem letramento Ou o que n찾o sabe da Fonte?

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Atrรกs dos muros Hรก uma fonte de metรกforas Bebo nela

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Ao despir o manto Dรก-Me mais metรกforas Que รกgua

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Mortal servil! Para onde ides Se n達o O viu?

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Alegria triste Tudo morre E ainda existe

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Pacto com Deus Este queremos sempre Eu e os meus eus

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Chorei ontem N達o vi no horizonte O sol e a ponte

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Ainda mais bela A Via Lรกctea projetada Sobre o muro

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No entardecer A mem贸ria e a culpa Para onde crescer?

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Apanhei a flor no jardim Pensei – por um momento – Que era minha

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Por trรกs dos panos O teatro real O que me faz humano

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Converso com a rã Há na loucura Alguma coisa sã

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As TrĂŞs Marias O passeio na estrada A felicidade ĂŠ quase nada

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Jardim intangĂ­vel Brotar de trĂŞs linhas A flor do que digo

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Todos os outros No coração de mim Sou Homo Poeticus

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Ora, vê se não insiste! O futuro é agora O amanhã nem existe

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A mais bela hora Ontem nem amanh達 O hoje agora

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O mistĂŠrio do ovo: Quem nasceu antes O muro ou o grafite?

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Pergunta ao tempo: Para envelhecer Hรก um momento?

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O medo de estar Quase louco na alma A soma e o pouco

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Conheço a tristeza? Pai mãe irmãos o sol rindo-se Em torno da mesa

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O longo dia pedrada Logo – porta entreaberta O riso da amada

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Batalha suada Nascer para o verbo N達o para a espada

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Sobre tua face Ser t達o humano Que eu passe

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Aqui o meio do caminho Nessa viagem vou comigo Quero nunca andar sozinho

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Acordei à noite para escreviver O coração segurava a pena Conheço o cristal das palavras?

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Quando o tempo tenta me deter Com fogo e facas Exilo-me na cozinha: entre A mem贸ria e tomates

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Um zás de beleza Um oi inaudível A ausente presença

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Tempo nรฃo esqueรงa O sonho do homem A dor do poeta

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Eu nunca morro O que vive sou eu Ao nascer de novo

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O tempo inspira O cuidado do ermitĂŁo Seu silĂŞncio de ouro

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Nada do que sei Vale mais que a รกgua Seu saber redondo

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Palavra e canto Inauguram o mundo Sou o verbo andante

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Ao pisar a pedra Deixa-me ser delicado Como quem pertence

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Do pรกssaro o sonho alado Pousar em terra firme E viver Imenso

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Mudar o mundo? Muda o mundo em ti E ti serรก o mundo

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Estar em ti É tirar de dentro O que nunca vi

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A minha fome de mim Não se baste à frugal palavra Sacie-me o mistério

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Fujo de ti Real-simulacro Sou o que vivi

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Eu nasci do sopro Que se esvai no sopro Do eterno cĂ­rculo

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Vou te dar ainda O eterno jรก Que se nasce onde

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Antes que tarde A metรกfora transformar-se Em รกrvore

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Ă“ par! Nesta pĂĄtria A minha cidadania O compartilhar

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Ao cair de mim Morrerei vivendo Transit贸rio o fim

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Pela manh茫 no espelho Humilham-me A noite e a mem贸ria

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Estou envergonhado Desta vez n達o me contive O espelho quebrado

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Carrego comigo A dor dos aflitos Seu 贸dio bandido

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Inventรกrio da alegria Bebo o encanto De novo dia

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Hare Krishna! Hare Krishna! Canto o nome de Deus E sou mais que eu

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Grato, Senhor, – a dádiva No coração a palavra Mutação da pedra em água

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Ah este inseto em minha página Ouço o sopro do irmão menor Minha vida também é frágil!

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Errei! Troquei outro por ouro Um t faz a diferenรงa Esse desejo escondido!

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As mĂŁos dadas sob as cobertas Dos anos a soma o sumo O que sobrarĂĄ do amor?

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O meu lado oculto Logo me completo Cresรงo e exulto

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Mais um poema Imenso Dรกdiva do tempo Teimo em ser inteiro

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Chegarei pelo mar No Imenso de mim Quando a manh達

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E quanto mais me Imenso Cresce o sentimento Que nรฃo me pertenรงo

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Sei que me sigo Estou a cada dia Parecido comigo

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Para onde segue Este velho estranho Sem casulo ou mar?

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Cinco anos em um O que envelheci No Ăşltimo inverno

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Imenso universo Da minha vida pequena Eu sou apenas

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Olho-me ao espelho Espectro cĂşmplice A ĂĄgua revelada

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Olhou-se ao espelho O ser multiplicado Nenhum ĂŠ real

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Formigas: (a manh達 estrelada) Desejo de carregar Folhas e flores

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Limpo o pó do espelho O que me diz esta água fria Severa fonte de Mallarmé? Verdade ou ironia?

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Dรก-me uma mรกscara, Pai, Para suportar a dor do humano E ainda rir atrรกs dos panos

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No espelho da รกgua A lua inteira luz O poeta sem mรกgoa

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Pálidas estrelas não sabem A constelação maior Dentro da casa

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Tarda e a hora me encanta Tudo vale a pena A Imensa vida e a pequena

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A angustiosa argila Minha irmรฃ de espera Sou รกgua e pรณ

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No extremo de mim Outro ciclo recomeça O princípio sem fim

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HAMILTON (José Barreto de) FARIA nasceu em Curitiba e reside em São Paulo. Desde 1976, publicou oito livros de poesia e participou de 20 antologias. É também autor de livros, textos e artigos sobre cultura e poesia, no Brasil e no exterior. Hamilton Faria realiza recitais e escutas poéticas e leva poemas aos mais diversos lugares, como centros culturais, feiras de livros, bibliotecas, espaços públicos, teatros e por diferentes mídias, como rádio, televisão, imprensa, sites na internet e redes sociais. Em 2013, a Orquestra Camerata Antiqua de Curitiba traduziu poemas de sua autoria em música do compositor Ronaldo Miranda, apresentada em janeiro de 2014, na abertura da 32ª Oficina de Música de Curitiba. Em 2006, recebeu na França, com outros artistas brasileiros, prêmio da Societé Académique des Arts, Sciences et Lettres. Em 2013, foi condecorado pela Divine Académie Française des Arts, Lettres et Culture por relevantes trabalhos em poesia e cultura.

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Sobre o autor O autor criou situações de uso de linguagem inteiramente surpreendentes: substantivos derivando verbos, ou usado no lugar de verbos. Esta irreverência poética traz um dinamismo e um vigor novos aos poemas e expressa um trabalho cuidadoso, de artesão experiente. (Maria Antonieta Pereira, Suplemento Literário de Minas Gerais, 1989) Com talento de poeta e de mestre, Hamilton Faria realiza uma sutil alquimia literária em seus magistrais Haikuazes: cria palavras originais, faz associações inesperadas, inventa conotações inéditas. (Helena Kolody, poetisa) Sua poesia não se reduz a espantos…Traz sentimentos positivos, lirismo e sensibilidade. (Fernando Jacques de Magalhães Pimenta, diplomata brasileiro, sobre o livro Súbitos Encantos para São Pedra e Espanto, 2000)

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Cidades do Ser é uma viagem pelas formas, palavras, inquietações, silêncios, apelos. Um livro de poesia. De bela poesia. (Álvaro Alves de Faria, poeta) Cumprimento-o pelo alto nível lírico do livro Haikuazes – nele há toda uma série de poemas inesquecíveis. Teus sonhos / Iluminam / O coração / Dos homens (Milton de Godoy Campos) ...textos que buscam o reencantamento do mundo, mas que também procuram a linguagem que esqueceu de nomear o maravilhamento das coisas. (Valmir de Souza, doutor em literatura USP, sobre o livro Haikuazes, 2007) ... em verso preciso desabrocha na plástica natureza das palavras, na fronteira tênue entre o divino e o profano... (Silvio Oricolli, jornalista, sobre o livro Súbitos Encantos para São Pedra e Espanto, 2000)

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Cidades do Ser é plural em todos os sentidos. Do verso lírico ao concreto, do verso branco à métrica rígida, do soneto ao haicai. (Massao Ohno, editor, 1988) É envolvente a poesia de Hamilton Faria. O conjunto coloca o leitor diante de algo grande, que excede o humano, que quer explodir os limites, que antevê e antegoza o eterno. (Marleine Paula Marcondes e Ferreira de Toledo, professora de literatura USP, sobre o livro Encântaros, 1996) Haikuazes, – minúsculas bolhas poéticas que eternizam a visão fugaz de um momento especial, de um pensamento ou de um olhar de sabedoria que, num relance, capta o essencial do visto ou pensado. (Nelly Novaes Coelho) Não tenho dúvida, pois, em afirmar que muito em breve, “par droit de conquête”, Hamilton Faria ocupará relevante posição no quadro de nossa literatura contemporânea. (Ênio Silveira, 1984)

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Potlatch em poesia: poética da dádiva Há muitos anos realizo os lançamentos de meus livros em espaços públicos, para um grande número de pessoas, além de no tradicional circuito de livrarias. Atualmente, passei também a divulgar a poesia pela internet, criando um site próprio (www. poetahamiltonfaria.org), publicando em redes sociais e outros sites especializados. Com a coleção Potlatch pretendo construir circuitos de pessoas com leituras múltiplas; circuitos poéticos, além da formalidade própria das livrarias. O Potlatch é uma das mais importantes cerimônias da tradição nativa americana. Nesse ritual havia doação de bens materiais, sem retribuição imediata ou futura.

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Os bens distribuídos ainda eram caros para os seus donos; os pertences eram ainda úteis. Pelo próprio nome – Potlatch é doação. Trata-se de um processo simbólico e não econômico; age na esfera dos afetos e dos encontros. Deve celebrar a vida e não acumular bens. Se alguma economia for gerada, será uma economia da dádiva. Os livros desta coleção são em formato de bolso, para serem carregados com leveza a qualquer lugar. Após a leitura, o destino deste livro é ser doado para outro leitor: amigo, desconhecido, deixado em algum lugar para ser encontrado como um pequeno presente, no ônibus, no metrô, na casa de alguma pessoa, ou em qualquer lugar público. Potlatch estará sempre aberta a ser financiada ou apoiada por aqueles que acreditam na doação poética. Este primeiro livro, mínimoImenso, teve a doação de várias pessoas, das quais destaco a designer Marilda Donatelli, que participou da concepção e

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da realização do livro. O fato importante é que a circulação não envolve dinheiro para compra ou venda. O livro será sempre ofertado pelo autor. No lançamento dos livros, haverá sempre uma conversa poética sobre criação literária e processos de reencantamento do mundo. E leituras. Sempre com a presença do autor. Ações simbólicas desta natureza, cultivadas pela palavra poética – que transforma língua em linguagem – são fundamentais em todos os tempos, especialmente em momentos de mercantilização da vida. Há que se repor poesia no mundo, estimulando as poéticas da existência – reserva cultural imaterial em fase de extinção. E aí, a doação é essencial. Aprendi a doação de símbolos e poemas com algumas pessoas, entre elas, a minha mãe, Julíbia Jupyra Barreto de Faria, que distribuía doces e pedras e meu pai, Rômulo da Costa Faria, que distribuía palavras em casa; com o poeta Heitor Stockler

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de França, que distribuía poemas nas ruas e casas, guardando sempre alguns pequenos livros no bolso; com a poetisa Helena Kolody, que também distribuía diretamente seus livros, na medida em que circulava; e, finalmente, aprendi com a Cooperativa de Escritores, que eu e outros poetas fundamos, e que marcou presença no país em meados dos anos 70. A todos a minha homenagem. O destino da poesia é ser de graça. Dádiva. Potlatch! A ideia é criar correntes de reencantamento, construídas a partir do poema, na relação direta com as pessoas, não necessariamente leitoras. hamilton faria

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coleção potlaTch pelo reencantamento do mundo


mínimo Imenso