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PRIMEIRO TEXTO

Dezembro 2010

Primeiro Texto / Especial ARS

Jornal Laboratório do 4º semestre de Jornalismo (FaAC) - Manhã - Ano XIII-Especial - Dezembro 2010

ARS

Construindo uma nova realidade

Criada em 1994, a ARS - Ação de Recuperação Social desenvolve um trabalho comunitário aos moradores do Saboó e imediações, nas áreas pedagógicas, de apoio social e de geração de renda, construindo uma nova realidade para centenas de crianças, jovens e adultos. Confira nesta edição especial as atividades desenvolvidas pela entidade.




Primeiro Texto / Especial ARS



Dezembro 2010

Editorial Fazer pessoas melhores MARIA

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Mal começara o semestre e nossos professores já falavam desse trabalho. A verdade é que a classe não deu muito valor. Veio a escolha da instituição: Ação de Recuperação Social - ARS. E então chegou o dia de conhecer mais sobre ela. Recebemos a diretora financeira Eva no início de outubro. Saber mais sobre a instituição animou os alunos que no mesmo dia já pensaram em pautas. Na semana seguinte, decidimos os textos e, divididos entre carros e ônibus, fomos ao Saboó, onde fica o prédio da entidade, para conhecer o local. Além das instalações, histórias e das atividades, conhecemos a presidente Myrian de Domênico Rodrigues. Nesse dia também tivemos o primeiro contato com nossos entrevistados e também futuros leitores. Saímos de lá com a sensação de termos feito a melhor escolha. A partir desse dia os alunos foram, em grupos ou sozinhos, fazer suas reportagens. Conheceram personagens e a Vila Pantanal, um núcleo popular no Saboó. Também vivenciaram os projetos e o almoço organizado pela ARS. O trabalho com a instituição encantou tanto aos alunos que alguns pensam em voltar para dar aulas ou simplesmente ajudar com doações. Buscamos na realização desse trabalho dar o melhor de nós para uma instituição que procura melhorar não só a vida de seus atendidos, mas também fazer deles pessoas melhores.

Making Off

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Etapas de um jornal

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Diretor da FaAC: Humberto Iafullo Challoub. Coordenador de Jornalismo: Robson Bastos. Professores Responsáveis: Fernando Claudio Peel (diagramação), Fernando De Maria (textos) Editora: Bruna Corralo. Sub-editores: Mariana Serra, Simone Menegussi, Cauê Goldberg Editores gráficos: Mariana Terra, Vanessa Teixeira, Caio Augusto, Karina Carneiro, Ivan Baeta. Foto Capa: Karina Carneiro O teor das matérias e artigos são de responsabilidade de seus autores não representando, portanto, a opinião da instituição mantenedora.

IANA

IVAN BAETA

PRIMEIRO TEXTO é o Jornal laboratório do Curso de Jornalismo. Redação, edição e diagramação dos alunos do 2º ano de Jornalismo do período diurno da Universidade Santa Cecília - UNISANTA.

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A elaboração deste jornal foi um processo detalhado, que durou 60 dias. Algumas imagens retratam como foi o trabalho. Acima a classe reunida na primeira visita à entidade. A seguir, da esquerda para direita: um de nossos reporteres, Cauê Goldberg, trabalhando no almoço realizado dia no dia 24 de outubro. Crianças da ARS são entrevistadas por nossos repórteres. As crianças na aula de coral; repórter Karina Carneiro entrevista a professora de reforço escolar Rosangela. Aldo Jr, voluntário conversa e dá instruções sobre o almoço. Entrega do ventilador sorteado em rifa durante o almoço. O prêmio foi doado pela Arno. Crianças posando para foto, durante a aula.Hora do lanche na ARS. Voluntários ajudam a preparar o almoço especial da ARS. Voluntárias posam para foto durante o evento. O professor Fernando De Maria conversa com a tesoureira Evangelina de Andrade e a presidente Myriam Rodrigues, que mostram as atividades da entidade.

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Dezembro 2010

Primeiro Texto / Especial ARS

História construída ‘tijolo a tijolo’

KARINA CARNEIRO

Vanessa Teixeira

A

ideia de criação da Ação de Recuperação Social – ARS decorreu de um trabalho voluntário em Educação TVE, desenvolvido pela professora, atualmente presidente da entidade, Myrian de Domênico Rodrigues, em 1988. O projeto era constituído de cursos e aulas direcionado às pessoas que desejassem atuar como voluntáEm sede própria, a entidade atende a moradores do Saboó e das imediações rios em instituições beneficentes de Santos. A ARS foi fundada em ção da Ação de Recupera- tribuintes, o bazar e bre30 de junho de 1994 por ção Social – ARS, dando chó permanentes. A instium grupo de amigos. A então a forma jurídica e tuição teve por um tempo assembleia-geral de fun- institucional às atividades convênio com a Prefeitudação ocorreu no Sindica- existentes e aprimorando ra de Santos, porém por to dos Petroleiros na Ave- os novos projetos. exigências burocráticas nida Conselheiro Nébias Por oito meses, a sede abriram mão. “Estava se – Santos, com a presença da instituição era na Casa tornando muito difícil para de voluntários e pessoas das ONG’s, situada na nós, nem sempre conseespecialmente convida- Avenida Almirante Cochra- guíamos cumprir as exidas. ne. E em 1995, graças a gências. Como, por exemO conceito de criação da uma doação, foi possível plo, o número de famílias ARS provém da aproxima- a conquista de um imóvel, cadastradas”, conta a preção da professora Myrian onde hoje funciona a sede, sidente Myrian. de Domênico Rodrigues à Rua Manoel Barbosa da Atualmente, a instituicom o Conselho Tutelar, no Silveira, 239, Saboó, em ção tem cadastradas dez início dos anos 90. Houve Santos. famílias, totalizando cerum interesse pelo desenEm 1998, a área foi re- ca de 154 pessoas. Convolvimento de projetos de construída com mais 71m² ta também com 35 volunvisitas às famílias de risco com uma obra que durou tários, seis conselheiros, social. Os conselheiros da quatro meses. Depois de três funcionários, dois esZona Noroeste inventaram oito anos, foi inaugurada tagiários e seis diretores. o Projeto Famílias Madri- a nova sede no mesmo loDos cursos oferecidos, nhas, designado a atender cal. No entanto, com maior os de artesanato têm 43 as crianças de famílias si- espaço, contando agora alunos, os de informática tuadas abaixo da linha da com três andares consti- 15; aulas de reforço escopobreza, oferecendo re- tuídos de salas, refeitório, lar, 18; manicure cinco, e cursos necessários para biblioteca, laboratório de de alfabetização, quatro crescerem com saúde, informática e banheiros. alunos. Porém, quando educação e dignidade. A ARS atualmente tem sobram vagas são aceitas A importância desse como fonte de renda, as alunos que não são de faprojeto resultou na cria- doações de amigos e con- mílias cadastradas.

De volta ao comando Bruna Corralo

M

yrian de Domênico Rodrigues ocupa o cargo de presidente da ONG Ação de Recuperação Social (ARS) desde o falecimento de seu marido, em fevereiro de 2010. Ela já havia sido presidente quando a instituição foi fundada, em 1994, porém abdicou do cargo por não gostar de questões burocráticas, passando a ser vice-presidente. “Quando eu vi que estava grande demais pedi para criarem um cargo de vice-presidente para mim”, conta, aos risos. Antes da fundação da ONG, Myrian trabalhava

como professora primária. Com a aposentadoria surgiu uma necessidade de ocupação. Então ela decidiu fazer trabalhos voluntários. “Por volta de 1992 eu comecei a prestar serviço voluntário na área de educação. Criei um trabalho pequeno onde as pessoas faziam um cursinho para voluntário na educação e depois procurávamos instituições interessadas nestas pessoas”, conta Myrian. Como presidente, Myrian é responsável por dar continuidade aos programas iniciados por seu marido, que atendem a 154 pessoas e tem dez famílias cadastradas. Além disso, ela se

preocupa em manter uma boa relação com as famílias cadastradas e voluntários, exercendo uma função mais social. “Eu prefiro a parte funcional e lidar com o público, com as famílias”, diz. Para ela, é essencial uma boa relação com as famílias. “Acaba surgindo um envolvimento, uma amizade. Cabe a mim o envolvimento social porque eles me conhecem e me respeitam”, explica “Esse trabalho é para satisfação, mas é difícil”, continua a presidente, que comparece diariamente à entidade. Myrian ocupará o cargo até 2012.

Um profissional admirado Vanessa Teixeira



REPRODUÇÃO

J

ornalista, economista, espírita e muito respeitado por todos, José Rodrigues era o presidente da Ação de Recuperação Social – ARS. Falecido em fevereiro passado aos 72 anos, Rodrigues deixou sua esposa Myrian de Domênico Rodrigues e cinco filhos. No início de sua vida, tudo foi muito sofrido, porém nada o abalou ou o fez desistir de lutar pelos seus sonhos e seguir sua trajetória. “Do jeito em que viveu na infância e na adolescência, estudaria até a quarta série e iria trabalhar, como era comum naquela época”, descreve sua viúva Myrian. “Porém, ele gostava de crescer e abrir novos caminhos”, conta. José Rodrigues conheceu sua então esposa, Myrian de Domênico Rodrigues, no movimento jovem espírita, e atuou como jornalista no jornal do centro espírita. Jovem e solteiro, trabalhou no serviço social da Santa Casa. Em busca de melhorias e situação mais segura antes de seu casamento, passou a trabalhar na Codesp (Companhia Docas de São Paulo). Interessado em literatura, se apresentou em A Tribuna como jornalista, e passou a fazer, por muitos anos, uma coluna de economia no jornal, já que era formado em Economia na Unisantos (Universidade Católica de Santos). Foi quando projetou seu nome e se lançou como jornalista. Sua outra especialidade era o café. Em diversas ocasiões, participou das reuniões da Organização Internacional do Café em Londres e também foi convidado a trabalhar na

José Rodrigues

Associação Comercial de Santos após um acordo com o jornal A Tribuna. Já com outra especialidade, José Rodrigues se aprofundou e estudou Porto. “Ele dizia que deveria conhecer a fundo as informações, sobretudo do café, e também sobre porto. Era o mister Porto”, brinca Myrian. Trabalhou para o governo da então prefeita de Santos, Telma de Souza (1989 a 1992), e criou a Assessoria de Assuntos Portuários, sendo o primeiro a assumi-la. “Com essa experiência, abriu mais uma vez outro leque de conhecimento para ele”, lembra. Depois de aposentado, foi correspondente do Jornal Valor Econômico em Santos e escrevia sobre assuntos gerais na área de economia. Mensalmente, escrevia uma coluna, chamada Coluna do Zé, no Jornal da Orla, sobre Porto. Na criação da ARS, esteve presente desde o começo e presidia com muita competência e segurança. “Hoje temos o desafio moral de continuar e diante de tudo que fizemos juntos, agora nós gostaríamos de manter a entidade no mesmo nível ético e também continuar dentro dos padrões que ele tinha”, conclui a viúva e agora presidente da ARS, Myrian de Domênico Rodrigues. Cauê Golderg

A presidente Myrian Rodrigues foi uma das fundadoras da ARS




Primeiro Texto / Especial ARS

Dezembro 2010

Comunidade com muitas promessas e cheia de esperanças SIMONE MENEGUSSI

Simone Menegussi

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Porto de Santos, maior da América Latina, prevê fechar o ano de 2010 movimentando 90 milhões de toneladas de carga, recorde histórico. Contrastando com este cenário, encontra-se a Vila Pantanal, localizada nas proximidades deste gigante portuário. A Vila Pantanal surgiu nos anos 90. No início, era uma pequena favela, com barracos construídos em um terreno baldio, atrás do Cemitério da Filosofia no Bairro do Saboó. Em poucos anos, devido ao grande número de invasões, a área extensa de mangue se transformou na Vila Pantanal, em homenagem à novela de sucesso na extinta TV Manchete. Em 2004, foi criado um projeto de reurbanização da área. Usando terrenos próximos, foi construída pela CDHU e a Cohab-Santista a primeira fase do Conjunto Habitacional da Vila

Resultado de invasão em 1991, a Vila Pantanal se tornou um núcleo popular que necessita de melhorias

Pantanal, batizado com o nome do falecido governador de São Paulo, Mário Covas. O projeto prevê a construção de 970 unidades no total. Até o momento, foram construídos 260

Convivendo com o esgoto

apartamentos. Devido a problemas de legalização do terreno, as obras estão paralisadas há seis anos. A líder comunitária da Vila Pantanal, Ana Bernarda dos Santos, 50 anos,

ARS, uma grande parceira

Caio Augusto Moura

na Bernarda diz que frequenta a ARS desde o começo. Ela e muitas famílias são ajudadas constantemente. Seus cinco filhos frequentaram todos os cursos da entidade quando eram pequenos. Tiveram atendimento com psicólogas e foram encaminhados para tratamento dentário. Hoje, todos trabalham e estudam. Para Ana, a ARS é a ponte entre os excluídos e a sociedade.

ONG ARS (Ação de Recuperação Social), para se comunicar com representantes da instituição e o público externo, utiliza meios de comunicação como a internet e um jornal interno, além de existir um muro onde se tem um painel com várias informações sobre a instituição. A ideia de colocar informações no muro da entidade foi uma necessidade, já que eles tinham um painel de informações, mas ficava dentro da instituição onde as pessoas não tinham acesso. A exsecretária Layza Juliana da Silva explica: “Depois que começamos a colocar as informações fora da ARS, as pessoas começaram a notar mais a ONG, a se interessar mais por ela e sobre o que fazia”, diz O mural externo existe desde setembro. As informações contidas nele são sobre a ARS e outras que possam interessar a população do bairro. Outro meio de comuni-

A

Simone Menegussi

A

presidente relata que a Vila Pantanal melhorou muito depois das obras de asfaltamento, de minidrenagem feitas pela prefeitura, por meio do Departamento da Administração Regional da Zona Noroeste, no mês de agosto de 2010. Mas alguns problemas ainda persistem, como o esgoto a céu aberto com um metro de largura, que margeia um muro na divisa do terreno do Centro de Treinamento do Santos Futebol Clube, com algumas casas da vila. Em época

de chuvas, o canal de lodo fétido e cheio de lixo transborda, alagando as casas vizinhas. Outro problema é a dengue. Segundo Ana Bernarda,ocorreram três casos de óbito não registrados pela Secretaria de Saúde do Município. A sede da Associação também tem problema. Construída com madeirite, está prestes a cair. Ana aguarda ajuda prometida pela prefeitura para construção de uma nova sede de alvenaria, onde possa prestar serviços à comunidade.

Comunicação muito além do muro

Simone Menegussi

JULIANA KUCHARUK

Esgoto localizado entre a Vila Pantanal e o CT do Santos

mãe de cinco filhos, conta que mora na comunidade há 19 anos. Em 1991, cansada de pagar aluguel, resolveu comprar um terreno demarcado na invasão. Mudou-se com o marido,

Se não fosse a ARS, muitas crianças da comunidade teriam sido desviadas para o submundo. Devemos muito a estas pessoas. Aqui ninguém é discriminado, todos são iguais”. Ana Bernarda

Presidente da Associação de Moradores da Vila Pantanal

uma irmã especial, um filho pequeno e grávida do segundo. Construiu um barraco de madeira e “Caiu pra dentro”, como costuma dizer. “O começo foi difícil, mas com o tempo conseguimos construir uma confortável casa de alvenaria”, diz ela. Atualmente, Ana Bernarda é presidente da Associação de Moradores e Amigos da Vila Pantanal,que conta com 13 membros. Segundo ela, a comunidade tem três mil moradores. Ana é uma pessoa politizada, conhece seus direitos, adora sua comunidade e tem como objetivo acabar com a favela da Vila Pantanal e que todos possam ter um endereço. Munida de documentos e muitas promessas, acredita que o reinício das obras da segunda fase das habitações, comece em março de 2011, e o novo cadastramento dos moradores no projeto Minha Casa Minha Vida do Governo Federal, inicie ainda este ano.

A

cação usado é um jornal interno, o INFORMAÇÃO. E este jornal circula entre a ONG e as pessoas que vêm visitá-la, além de ser distribuído para os órgãos públicos. O jornal conta com matérias sobre a própria entidade, fazendo uma avaliação das ações desenvolvidas. Sem periodicidade definida, o boletim iniciou em 1999 e até hoje teve 25 edições, uma média de duas a três por ano. O terceiro meio de comunicação utilizado pela entidade é a internet. O site www.viasantos.com/ars/ é voltado totalmente para as atividades que a instituição desenvolve ao longo do ano. Nele estão postados relatórios, históricos, fotos de passeio, atas e documentos oficiais da entidade pública. Outro ponto é que o site ajuda na divulgação da própria ARS, fazendo com que as pessoas possam saber qual é o trabalho desenvolvido.


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Primeiro Texto / Especial ARS



Oficinas garantem renda extra e diversão

KARINA CARNEIRO

Mariana Terra

mãe quando pequena, jul- nia de Amorim Pitta, há 20 gam que o melhor das aulas anos atua como voluntária entre as diversas é a troca de experiência. e há sete trabalha com aratividades oferetesanato em geral. cidas pela entida“A intenção é gerar renPintura em Tecido de, o apoio aos da, mas algumas delas cursos profissionalizantes A oficina de pintura em preferem não vender e leé fundamental. Tem como tecido é realizada toda ter- var para casa”, revela Euidéia principal gerar renda ça- feira a partir 14h30, gênia. O material utilizado às mulheres cadastradas. assim como a de bordado é doado pela ARS e caso Oficinas de manicure, arte- com 12 alunas, as quais as alunas queiram vensanato em retalhos, pintura possuem um aprendizado der seu tapete, elas “comem tecidos, bordado e cro- um pouco livre. “Ensino o pram” os materiais da aschê são ministradas por vo- que elas quiserem: pintura sociação por cinco reais e luntárias. em pano de prato, cami- podem vender pelo valor A oficina de bordado nho de mesa, fralda, almo- que quiserem. ocorre toda segunda-feira, fadas, em tecido no geral, Gisela Aparecida Amaral das 14h30 às 16h30.São porém o mais comum é optou pela oficina de reta12 alunas que aprendem pano de prato”, afirma a lhos para distrair e ter um ponto richelieu, ponto cruz, professora voluntária, Sir- pouco mais de tranqüilidaponto russo, vagonite, ca- léia Chioro dos Reis. de. Já Leila Nascimento seado, ponto paris, entre Sirléia, que começou a dos Santos é aluna de pinoutros, com a professora trabalhar na ARS há 15 tura em tecido e pretende voluntária Helena Ferreira anos, relata que a finalida- fazer retalhos no próximo Pinto Gaban. Ela já trabalha de da oficina é fazer com ano. na associação há dez anos. que as cadastradas obVirou voluntária na ARS de- tenham uma renda extra Crochê pois que ficou viúva. Antes para ajudar nas despesas. de conhecer a entidade, ela A última das oficinas na A aluna Célia Maria Loalfabetizava em igrejas e pes Neves já pintava qua- semana é feita na quintacomunidades carentes. dros quando resolveu en- feira às 15 horas e é miNos dez anos de volun- trar na aula de pintura em nistrada pela voluntária tariado, “dona” Helena tra- tecido e decidiu fazê-la, Lucia Ventura, que enbalhou durante nove ensi- pois queria passar o tem- sina as suas 16 alunas nando pintura às crianças, po com um pouco mais de como fazer tapete, pano só que após uma cirurgia lazer. “O que mais gosto é de mesa e biquinho em de coração foi proibida de dessa fraternidade, união pano de prato. “A oficina lecionar para elas já que das alunas e o prazer de tem como intenção gerar com os pequenos ela tem pintar. O bom é que dá até renda para elas poderem um desgaste maior. “Meu para ter uma renda”, diz. ganhar um dinheirinho, trabalho com as crianças mas nem todas vendem”, foi demais!”, diz a professolamenta a professora. Retalhos ra de bordado. “Eu gosto das aulas, “Minha intenção era junA oficina de retalhos amizades e dos papos. tar as mulheres, trazê-las acontece juntamente com Isso distrai bastante”, para aprender e conversar a de pintura em tecido, conta Marina Correia Peum pouco e quem sabe onde as alunas aprendem ralta que resolveu entrar montar uma cooperativa. Já a fazer tapete com reta- na oficina para se divertir vi projetos como esse em lhos. A professora Eugê- um pouco. cidades de interior que deKARINA CARNEIRO ram certo”, conta a voluntá- 1 ria, ressaltando que o trabalho ajuda a aumentar a auto-estima dela e de suas alunas. O que prevalece na oficina de bordado é a união e a companhia entre elas. Auderi Germano da Silva, que entrou na aula para aprender, e Vera Lúcia Andrade de Freitas, que aprendeu a bordar com a

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As aulas de reforço ajudam as crianças a melhorar o rendimento escolar...

O que você quer ser quando crescer Mariana Serra

E

ssa é uma pergunta que ronda a vida de todos, desde a infância até a hora de decidir qual caminho seguir. Mas quando se vive uma realidade com dificuldades, os sonhos ficam para trás e dão lugar a um dia-adia sofrido e sem a alegria de fazer o que se gosta. São em horas como estas, que a ARS ajuda as crianças a construírem um novo futuro. Quase todas as crianças chegaram à instituição com dificuldades em alguma disciplina da escola regular e por meio do reforço escolar oferecido passaram a desenvolver mais rapidamente o aprendizado. Gabriel Scarpa tem dez anos e está na instituição há três, quando a mãe percebeu que as notas do filho precisavam ser melhoradas. Desde então, ele participa das aulas de reforço que fizeram com que a dificuldade que tinha na aula de Ciências fosse amenizada. “A professora ensina muito bem, agora eu até tiro nota dez na escola, coisa que não acontecia antes. Também melhorei na leitura”, comenta Gabriel. Ele ainda não sabe o que quer ser quando crescer, mas com as aulas que recebe na ARS e o apoio das professoras logo as aptidões aparecerão para clarear o futuro do jovem. Já Lucas

?

Mateus de Brito Ferreira, de dez anos, imagina onde estará trabalhando no futuro. ”Eu quero ser gerente do Pão de Açúcar daqui a uns anos”, revela. Apesar da pouca idade, Lucas já nota o que mudou na sua vida desde que começou a ter as aulas de reforço há dez meses. “Estudando aqui eu vou melhorar na escola. As professoras me dão parabéns e falam que eu estou indo muito bem”, afirma o aluno. Antes das aulas, ele tinha dificuldades em Português, Ciências e História e hoje vê o quanto a ARS o ajudou no aprendizado. “Aprendo a matéria primeiro aqui e depois na escola. Isso me ajuda a já entender o que a professora vai explicar e acompanhar meus amigos”, afirma Lucas. Com as aulas de canto, informática e reforço, Thiago Matias da Silva Carvalho, de nove anos, também viu a vida mudar. Ele tinha dificuldade em aprender Matemática na escola e a partir da tabuada e contas, auxiliado pela professora, viu que a disciplina não é um bicho de sete cabeças. Aliás, para quem não gostava de Matemática, escolheu uma profissão que exige muito cálculo. “Eu quero ser engenheiro, trabalhar com construção, com pedreiros... pegar no pesado também”, revela Thiago. KARINA CARNEIRO

MARIANA TERRA

2 1. As aulas de artesanato com retalhos atraem as mulheres da comunidade e se transformam em fonte de renda para a família. 2. Doze alunas fazem parte da turma da aula de pintura e se dedicam a pintar panos de prato com muito amor e carinho

... e sonhar com um futuro melhor


Primeiro Texto / Especial ARS



Guloseimas e atendimentos feitos com carinho

A

Mariana Serra

O que não é útil para uns, é importante para a ARS KARINA CARNEIRO

A

No brechó, o público encontra produtos de qualidade a preço bens acessíveis, atraindo compradores

Julia Brancovan

ssim como a grande maioria das ONGs do Brasil, a ARS (Ação de Recuperação Social) também carece de dinheiro e recursos para manter seu trabalho em prol da comunidade. Deste modo, a Instituição conseguiu arrecadar por meio da ajuda de voluntários, uma boa quantidade de doações de roupas, calçados, bolsas, brinquedos e acessórios, criando o “Lojão” e o “Brechó”, duas formas improvisadas, mas bem organizadas para atrair compradores, que funcionam há mais de dez anos na entidade. “Tudo o que é arrecadado é separado por seu estado de conservação. O brechó abriga as peças mais conservadas e o lojão, as peças e acessórios mais usados”, afirma a presidente da ARS, Myrian Rodrigues. Além da venda proveniente da doação das roupas, o brechó também vende os

quadros e o artesanato dos alunos de diversos cursos, como pinturas em tela, tapetes e almofadas. Também são aceitas doações de livros. Os infantis são separados para a biblioteca da entidade que os utiliza durante as atividades da “hora do conto” com os alunos de 2ª a 5ª ano do Ensino Fundamental, matriculados no reforço escolar. Os outros livros são separados para a “biblioteca de rua”, uma ação que a ONG realiza todos os sábados das 9 às 11h, aberta aos moradores que quiserem retirar os livros gratuitamente. Os interessados em ajudar e colaborar com doações podem comparecer à sede da ARS: Rua Manoel Barbosa da Silveira, 239, no Bairro do Saboó. Funciona de segunda a sexta feira, das 8 às 18 horas. Sábados, das 8 ao meiodia. Funcionamento do Brechó e lojão: De 2ª a 6ª das 14h30 às 17 horas.

MARIANA TERRA

comida. “Não sou cozinheira profissional, mas gosto de preparar receitas para eles. Vou inventando e vendo o que eles gostam”, comenta Carina. Enquanto ela fica no final do corredor, Adriana Gomes dos Ramos é a responsável por dar as boas vindas a quem chega nà ARS. Ela é a secretaria do local e cuida não só da parte administrativa, mas também ajuda no que for preciso. Secretária da entidade, ela teve que se afastar em março, pois estava com dengue e logo em seguida entrou em licença-maternidade. Em seu lugar, esteve Laysa Juliana da Silva, que atuou com carinho e atenção até outubro passado. Mesmo com pouco tempo de casa, o laço criado entre ela e a ARS foi grande. “Eu já tinha passado por alguns lugares antes, mas aqui é um ambiente tranqüilo. Você não vê ninguém brigando, gritando ou se estressando. Todo mundo se ajuda”, explica Laysa. O começo foi um pouco difícil, pois as crianças estranharam o novo “Boa Tarde” que recebiam logo que chegavam e criaram uma barreira. Mas logo o jeito brincalhão começou a conquistar as crianças devagarinho, uma a uma. “Eu decorei os nomes e tentei conhecer um pouco da história de cada uma para me aproximar. Acho que deu certo”. Em 26 de outubro foi o último dia de trabalho de Laysa na associação, mas a despedida teve cara de “até logo”. Sempre com o jeito alegre característico de uma criança, ela pretende não se afastar do local. “Já avisei às crianças que virei na hora da merenda, aproveitar e comer o lanche delas. Espero que no próximo emprego tenha pelo menos um pouco do carinho que recebo aqui, Adriana Gomes, responsável pela parte administrativa mas com certeza

MARIANA TERRA

MARIANA TERRA

rotina começa cedo, antes mesmo das crianças chegarem. Às oito horas, Carina Michelle de Oliveira começa o dia na ARS. Ela é uma das três funcionárias da entidade, mas não é por causa do cargo que possui que ela faz o serviço por obrigação. A história dela no lugar começou quando era aluna de informática e de retalhos (tapetes), na antiga sede. Hoje, é ela quem prepara os deliciosos lanches servidos, além de organizar a limpeza do lugar. Carina deixa os três filhos com a mãe no período da manhã, mas o horário de trabalho possibilita que ela consiga acompanhar o diaa-dia deles. “Trabalho das 8h às 14 horas. Esse horário me permite levar e buscar meus filhos na escola, tarefa que não conseguiria fazer trabalhando em outro lugar”, explica. O carinho que Carina tem com as crianças e adultos que frequentam a ARS é o mesmo que pode ser encontrado nos outros funcionários e voluntários. Com o tempo criou-se uma relação de família entre ela e as crianças, fazendo com que a ONG se transformasse em sua segunda casa. “Encontro as crianças na rua, elas vão na minha casa e freqüentam a mesma escola que meus filhos. Faço por eles tudo o que faria pelos meus filhos”, explica. O bolo de chocolate, a torta salgada e o arroz doce são os pratos preparados por Carina que as crianças mais gostam. Na hora do lanche, é comum ver uma criança falando o quanto a comida estava gostosa, deixando evidente que o amor é Carina Michelle cuida das merendas feitas na ARS o segredo especial da

Dezembro 2010


Dezembro 2010

Primeiro Texto / Especial ARS

Com amor e persistência, educar se torna uma tarefa mais fácil

Mariana Terra

A

ARS tem um grande papel na educação, seja das crianças cadastradas ou dos adultos. Hoje, ela oferece reforço escolar para crianças do 2º ao 5º ano do Ensino Fundamental e Alfabetização de Adultos, mas já teve aulas de Matemática e plantão de dúvidas. Estes não são mais aplicados por falta de voluntários aptos a realizá-los.

Alfabetização para Adultos – Conta com quatro alunos e é ministrada pela professora voluntária Guacira dos Santos Jardim. Ela trabalha na entidade há aproximadamente cinco anos e nesse tempo já ministrou aulas de reforço escolar, plantões de dúvidas e até foi coordenadora na área da educação, mas se afastou por algum tempo para trabalhar em outro lugar. Como não resistiu aos pedidos d o s

alunos, acabou voltando. Guacira explica que em suas aulas utiliza a cartilha e o caderno, e que muitos dos seus alunos são alfabetizados, mas possuem alguma dificuldade. “Eles não são só meus alunos, mas meus alunos e amigos. Temos um carinho muito grande uns pelos outros”, conta a professora que diz não saber mais viver sem os estudantes. Laudinete Oliveira Araújo, 41 anos, relata que resolveu fazer as aulas para melhorar a leitura. Reforço Escolar – Ao todo estão cadastradas 19 crianças, nove no reforço de alunos dos 2º e 3º ano do Ensino

MARIANA TERRA

Rosangela e Elaine, professoras de reforço que amam muito o que fazem

Descobrindo novos horizontes

Gabriel Soares

L

er, escrever, fazer ligações telefônicas. Parecem atividades simples para a maioria das pessoas, porém, ainda hoje, muita gente não sabe como lidar com estas ações básicas. A ARS ajuda os adultos com dificuldades no aprendizado e dá para eles uma nova esperança de uma vida melhor. Sem a ajuda da ARS, muitos adultos continuariam sem saber escrever seu próprio nome. Além dos problemas básicos decorrentes do analfabetismo para os adul-

tos, outro ponto fundamental é a falta de auto-estima e complexo de inferioridade sobre quem não sabe ler nem escrever. A professora Guacira dos Santos Jardim afirma que após as aulas os alunos passam a ser outras pessoas. “Ela se sente valorizada e se torna mais independente. É um novo horizonte”, afirma Guacira também cita a dificuldade em dar aulas para adultos. “Precisa ter muito jogo de cintura para não magoar ninguém para eles não se sentirem inferiorizados”, explica.

Fundamental e dez no de 4º e 5º anos. Todas as crianças passam duas horas e meia na ARS e durante esse período elas têm aula de informática às terças e quintas, coral às terçasfeiras, leitura dirigida às sextas-feiras, hora do conto às quartas-feiras, reforço escolar e lanche diariamente. “Como a ARS não é uma escola, os alunos trazem a lição de casa para fazer aqui, daí eu vejo qual é a dificuldade e trabalho reforçando o que eles aprendem na escola”, descreve a professora estagiária Elaine de Santos de Jesus, que trabalha há sete meses com os alunos de 2º e 3º anos. Ana Clara Pereira, aluna de Elaine, diz que gosta muito das aulas e de todas as atividades realizadas. “Eu vejo onde eles têm mais dificuldades e trabalho isso durante um mês, sempre respeitando o limite de cada um e quando eles



são avaliados temos um retorno”, diz a professora estagiária Rosangela Santos Joaquim, que, desde 2009, ministra aulas para as crianças do 4º e 5º anos. Além de reforçar o que as crianças aprendem na escola, são trabalhadas questões como cidadania e higiene pessoal, continuando o trabalho que é realizado na escola e em casa. Tia Rô, como é chamada carinhosamente pelos seus alunos, conta que para dar certo o trabalho tem que ser realizado com persistência e muito amor. ”É um trabalho de formiguinhas”, explica. Jhonattan Accioly da Silva e Mikarakner da Silva contam que gostam muito de freqüentar a ARS pelos jogos, brincadeiras, pelo que aprendem e principalmente por algumas vezes conhecerem na Associação novidades que ainda não foram ensinadas na escola.

Trabalhar na ARS é... (opinião de quem ajuda a fazer a entidade)

Maria de Lourdes Menezes, umas das alunas do curso, faz aula há quatro anos. Já aprendeu a ler e escrever e afirma que isso mudou muito sua vida. “Melhorou muito. Fez bem para minha auto-estima”, comenta. Uma nova fonte de renda também é a esperança dos adultos que praticam as aulas na ARS. Essa é a expectativa de Rosa Maria, que participa das aulas de informática há quatro meses. “Antes de começar as aulas eu não sabia nada, agora já sei algo. Um dia, quem sabe, posso abrir uma lan house” , finaliza.

SIMONE MENEGUSSI

... tremendo, é gostoso, não tem como explicar só com palavras. Aqui as pessoas estão preocupadas em ajudar e fazer com que os outros melhorem de vida.”

Eu gosto muito de trabalhar na ARS. Isto aqui é minha vida!” Lucia Ventura

“ Alunos e professora Guacira: aprendizado constante e de aperfeiçoarmento diário e contínuo

Guacira dos Santos Jardim

... uma realização. Aqui você é mãe, tia, madrinha e professora. É uma delícia!” Elaine dos Santos de

Jesus

Eu faço com muito amor por isso está dando certo. Estou muito feliz de estar com as mulheres. Elas são demais!” Helena Ferreira Pinto Gaban


Primeiro Texto / Especial ARS



Dezembro 2010

Almoço da Solidariedade MARIANA TERRA

Cauê Goldberg

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almoço da ARS acontece duas vezes por ano. Normalmente uma vez por semestre. O almoço conta com a participação de todos os voluntários e convidados. O último aconteceu no clube dos Conferentes, na Rua Xavier Pinheiro. O preço foi de R$15 por pessoa. O evento reuniu por volta de 150 pessoas. A preparação começou às 9h e às 12h40 já estava quase tudo pronto. Mesmo o evento sendo marcado para as 13 horas, 30 minutos antes já era possível ver uma pequena fila do lado de fora do clube Parte da comida foi comprada pelos amigos da entidade, outra parte foi doada por quem participou como ajudante, ou até mesmo quem veio apenas para almoçar. O cozinheiro do almoço, Aldo Jr, doou uma parte da comida que foi utilizada para o almoço “Doei um pouco de carne seca, azeite, cebola, todos os temperos e o arroz”, diz. Era um total de 17 mesas, com nove cadeiras cada e a disposição criava um ambiente na qual não parecia um salão para um evento, mas um almoço familiar.

muitas vezes, até dançava, arrancando gargalhadas de quem estava presente. O brinde mais esperado foi um ventilador, que foi doado pela Arno. O salão foi cedido pelo Clube dos Conferentes de Santos. De acordo com a tesoureira da ARS Evangelina de Andrade, o clube oferece gratuitamente o salão para o almoço. “Eles sempre estão

dispostos a nos emprestar o espaço”, agradece. O almoço ajuda na renda da entidade, de acordo com Evangelina. “O almoço gera um lucro de 15% em nosso orçamento, então ele é muito importante para nós”, conta. O almoço rendeu entre R$ 1.500 e R$ 2 mil, recursos que servirão para pagamento de contas da entidade.

MARIANA TERRA

Voluntários participam do almoço que reuniu cerca de 150 pessoas

O cardápio, sempre variado, cria certa expectativa de quem participa. Desta vez foram apresentadas mesas com diversos tipos de saladas como entrada, doces de sobremesa e o prato principal, escondidinho de carne seca, preparado pelo chef Aldo, que vinha com uma leve camada de queijo gratinado, cujo cheiro se espalhava pelo salão. Logo que ia para a mesa central onde era servido, criava uma fila de mais de dez pessoas. Era um vai e vem de pessoas voltando do salão externo para as mesas no salão interno, sempre que o escondidinho chegava para ser servido. Ao retornarem às mesas, era possível ver um leve sorriso de satisfação, observando os pedacinhos de carne seca, meticulosamente cortados,

escondidos em queijo gratinado e mandioca amassada. Foram servidas sete bandejas de escondidinho de carne seca ao todo. Doces

Já os doces viraram uma atração à parte. Antes mesmo de o almoço ser servido já havia fila. Entre os doces mais populares do almoço, venceu o mousse de maracujá, que acabou antes mesmo de o prato principal ser servido. Mas a atração central não ficou apenas com os doces e salgados, mas com o sorteio que aconteceu ao final. Cerca de 15 brindes foram sorteados pelo animado neto da dona Myriam, o qual sacolejava uma pequena sacola verde. Cada vez que tirava um número sorteado fazia uma festa e,

Escondidinho de carne seca fez sucesso entre o público

Nem em casa eu faço comida... E

MARIANA TERRA

m casa, nunca havia preparado comida. No início, a tarefa voluntária me assustou, pois nem sabia como ligar o fogão. Com o tempo, percebi que preparar um almoço não é um bicho de sete cabeças. Todos já sabiam o que fazer. A preparação começa cedo, às 9h. Quem chegava era recepcionado calorosamente por todos os presentes. A primeira tarefa a ser feita é arrumar as mesas e cadeiras. Eu e a também voluntária Mariana Terra arrumamos todas as cadeiras em volta de cada mesa. Não demorou muito até que eu fosse convocado para a cozinha. Assim que cheguei fui recepcionado calorosamente por todos e alertado sobre a responsabilidade de preparar um almoço para 150 pessoas. As instruções foram dadas por nada menos que uma das estrelas do almoço, o cozinheiro Aldo Jr, voluntário nos almoços da entidade. O repórter-ajudante Cauê Goldberg colocou a mão na massa A primeira tarefa a ser feita foi cortar 15 quilos de próprios dedos. A carne de montar o escondidinho. carne seca. A maior dificul- deve ser cortada bem fini- Então, na hora de cortar é dade era de não cortar os nha, para facilitar na hora necessário ter muito cuida-

do e precisão. A segunda tarefa parecia mais fácil. Só parecia. Desta vez, foi preciso amassar 30 quilos de mandioca em mais ou menos duas horas. Éramos seis pessoas. Pensamos: Não vai dar tempo de cortar tudo isso. É então que chega a cavalaria: mais sete pessoas se juntaram à batalha contra a pilha de mandioca. Depois de uma hora e quarenta minutos, vencemos a guerra: a mandioca estava amassada, a cebola cortada, o arroz quase pronto e já havia pessoas chegando, faltando míseros 30 minutos para o início do almoço. O mais interessante de se observar é que todos são voluntários e se prontificam a sair cedo de casa em pleno domingo para carregar mesas ou limpar o chão, cortar carne seca ou amassar mandioca, arrumar os talheres nas mesas, preparar a salada. Enfim, trabalhar de graça, sem esperar nada em troca, simplesmente para ajudar. O chef Aldo, ou melhor, o “Edu Guedes” como ele mesmo se denominou, fa-

zendo referência ao apresentador do programa Hoje em Dia, da TV Record, é empresário e ajuda a ARS em todos os almoços sem cobrar nada. Aliás, ele ajuda a várias entidades. “A gente sempre dá um jeito de ajudar. Às vezes, falta alguma coisa ou outra e nós apoiamos. Eu adoro tudo isso aqui. Se vocês tiverem alguma entidade para me levar, estou à disposição”, brinca. No final, deu tudo certo, com todos exaustos. Era de se esperar, pois foram sete horas de trabalho ininterrupto. Outro ponto a ser lembrado é uma frase que foi repetida constantemente na cozinha e fora dela “Todos fazemos a comida com muito amor”. O amor no caso não é aquele tempero artificial, regado a música sertaneja que aparece em comerciais no intervalo das novelas. O amor em questão é o carinho e dedicação que cada um doa na hora de trabalhar. E o trabalho continua, pois em quatro meses haverá um novo almoço e uma nova história para se contar. (C.G.)


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Primeiro Texto / Especial ARS

Luta diária por recursos JULIA BRANCOVAN

Ivan Baeta



IVAN BAETA

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om a difícil arte de equilibrar as contas, as despesas da entidade chegam a R$ 7 mil/mês. A sua manutenção só ocorre graças ao apoio e trabalho de um forte grupo de voluntários, responsáveis em administrar suas contas e ainda devolver a dignidade da vida à sociedade. Atendendo em sua maior parte à comunidade da favela Vila Pantanal, no Saboó, sendo a causa socioeconômica o seu gerador, hoje a entidade tem exemplos de superação e reencontro com a vida. A tesoureira da instituição Evangelina de Andrade relata que não é fácil, mas o resultado final é o motivo do esforço deste trabalho. “Resgatar a satisfação e a alegria de poder viver com dignidade é uma de nossas metas”, enfatiza. As dificuldades para equilibrar o orçamento são muitas. Para atingir a cota mensal e pagar as contas, ela cita que existem pessoas que não conseguem tempo para atuar diretamente na instituição, mas ajudam de maneira curiosa e desconhecida para muitos, por meio de doação da nota fiscal paulista que não possuam CPF. Com essas notas, as pessoas que não que-

Roseli atende aos moradores carentes do bairro e imediações

rem o benefício, direcionam o valor à ONG contribuindo na ajuda dessas famílias. O custo de cada pessoa atendida na ARS está em torno de R$ 46,00 por mês. “Os voluntários são o nosso alicerce”, diz. A ARS mantém sua documentação junto ao MDS, MJ, Conselhos e Secretarias, rigorosamente em dia, que lhe dá isenção da cota patronal do INSS. Se tivesse que pagar cada uma destas pessoas, num total de 35 voluntários, o gasto mensal superaria os R$ 100 mil. A entidade mantem sua documentação em dia junto ao Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), VJ, conselhos e secretarias, garantindo isen-

ção da cota patronal do INSS. E não para por aí. O orçamento é complementado com doações de roupas e mantimentos, além de almoços promovidos pela ONG, e participação junto aos eventos promovidos pelo Fundo Social de Solidariedade de Santos e o Bazar de Natal. Para ser atendida pela ARS, a pessoa é encaminhada a uma assistente social, passando por um elaborado processo de triagem e como não é possível atender a todos devido aos altos custos, somente os casos aprovados por esta seleção, são aten-

Relatórios e documentos ficam arquivados para consultas e controle

didos. Hoje são 110 atendidos famílias cadastradas. Na base da superação, a entidade sabe que o número é pequeno. “Atendemos 10 fa-

mílias e diversas pessoas cadastradas que se beneficiam dos cursos e atividades oferecidas pela entidade”, cita a assistente social Roseli Falcão.

Histórias de sucesso

DIVULGAÇÃO/ARS

Adotar, um ato de amor Mariana Terra

ma de adotar à distância, podendo ajudar periodicas colaboradores da mente. A ARS informa a ARS são chamados esses colaboradores, mosde adotantes desde que trando tudo que é feito, a proa entidade foi fundada. “A gressão da família adotada, princípio o colaborador po- seja na escola ou no meio deria adotar uma criança. familiar. Não esquecendo Mas com o tempo vimos que a entidade está aberta que não adianta adotar só para quem quiser conhecer. a criança, já que ela geral“É uma coisa que me mente tem uma família que satisfaz muito. Ali você também possui necessi- acompanha o empenho dades”, explica a tesourei- de todo o grupo, de tora Evangelina de Andrade. das as pessoas e isso Ao lado de funcionários da ARS, moradores se unem e trabalham em equipe para o bem comum Desta forma, o colabora- dá gosto de ver”, conta a s exemplos dessa é conhecida, vê seu sonho as para atender a demandor adota não só a criança, jornalista e escritora Taís luta são comprova- realizado. “Comecei trazen- da de pedidos de clientes. mas a família. Qualquer con- Curi Pereira, que além tribuição é aplicada em ações de adotante da instituição dos por histórias como do minha filha para aulas de Adriana Gomes dos desenvolvidas pela ARS em também é uma das sócias as de Jocilene dos San- reforço. Interessei-me pelos Ramos, 29 anos, hoje beneficio da família assistida. fundadoras, orgulhosa em tos e Adriana dos Ramos. cursos oferecidos e fui fazê- secretária da Instituição, Foi por meio de ami- los. Primeiro, o de Informá- começou sua trajetória Ser adotante é uma for- participar do ato solidário. gos que Jocilene Lima dos tica. Depois, o de costura. profissional graças aos O custo da manutenção Santos, 36 anos, conheceu Durante as aulas presencia- cursos oferecidos. Sua a ARS. Desempregada e va os alunos desistindo do família, que também com dificuldades financei- curso. Ao final de cada eta- atravessou momentos - Custo mensal por pessoa em reais ras, teve de volta o prazer pa, só ficava ela. Valeu o es- de dificuldades, tinha o R$ 46,00 de viver e a recolocação forço e a emoção ao ver seu amparo da ONG. “Participei no mercado de trabalho. trabalho continuado”, revela. de quase tudo que podia - Total de 10 famílias cadastradas, mais as Sua trajetória dentro da Hoje, empresária, mon- e fui aproveitando as pessoas da comunidade perfazendo um total de Instituição passa por cursos tou sua microempresa com oportunidades: sempre que 154 atendidos e trabalhos voluntários. Hoje, sacrifício. Precisou fazer tinha um tempo prestava R$ 7.000,00 por mês ajuda sempre que pode, e empréstimo, mas tudo de trabalhos voluntários”. sempre tem uma frase que forma programada. Gra- Há mais de uma década sintetiza seu sentimento ças aos cursos de Infor- funcionária da ARS, - 35 Voluntários trabalham na ARS “um simples motivo... torna- mática e Cidadania cons- ela percebeu que as se grande”. De aprendiz dos truiu seu aprendizado. oportunidades existem. E - Alimentação para merenda e cesta básica cursos de informática, cida- Atua como costureira e, avisa: “As pessoas precisam R$ 17,00 por pessoa (R$ 450,00 p/mês) dania e costura, Jô como às vezes, contrata pesso- apenas ter mais interesse”.

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Boa filha à casa torna Juliana Kucharuk

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om 420 mil habitantes, Santos é uma pequena metrópole. Entre a multidão, poucos se destacam. Às vezes, são desconhecidos para a população em geral, porém contam com brilho próprio para sua comunidade, família ou para si mesmos. Cristiane Araújo Silveira Muniz poderia ser uma pessoa grande aos olhos do mundo, se destacando por feitos em prol da humanidade, mas seu mérito é sua personalidade. Com ensino básico completo, vive com o marido em um apartamento, na CDHU, no Saboó, deixando para trás o barraco onde morava na Vila Pantanal. Trabalha como manicure quando pode e ajuda como voluntária na ARS, localizada perto de sua casa. Quando o ditado diz “o bom filho à casa torna”, é verdade. Cristiane é um exemplo. Fruto da ARS, hoje, ela ajuda outros a terem a mesma experiência boa que teve. Em uma sala de aproximadamente 8m², com sete computadores, Cristiane trabalha ao lado do professor Élcio nas aulas de informática básica, professor em quem se espelha não só profissionalmente como no caráter e vivên-

cia. Cristiane conta que o professor já passou por más situações e chegou a ficar em coma, mas se restabeleceu e voltou a trabalhar na ONG. Segundo a auxiliar, mesmo com idade para se aposentar, ele continua a fazer o que gosta, e isso serve de incentivo a Cristiane. Com um sorriso contagiante e uma simpatia implacável, a professora, como é chamada por uma colega de trabalho, contribui para o lugar que lhe deu complemento e profissão na vida. Durante seis anos, a então voluntária atuou dentro da instituição fazendo aulas de informática, como mãe cadastrada, e aulas de manicure, sua profissão. Depois disso, saiu da ARS, mas não teve jeito. Há cerca de um ano, ela voltou, agora para ajudar. “Fui convidada pela ‘dona’ Myrian a ser voluntária na ARS. Voltei para ajudar, dar um reforço, porque também o professor viaja, né? E eu gosto dessa área, por isso voltei”, explica. Em sua vida, Cristiane conta que passou por várias situações, algumas das quais considera ruins e erradas, mas que encontrou o caminho quando conheceu Jesus. Há cerca de cinco meses, já trabalhando como

JULIANA KUCHARUK

Ex-aluna, hoje Cristiane auxilia no laboratório de informática e tambêm nas aulas de manicure, sua profissão

voluntária, Cristiane passou por uma fatalidade, que nenhuma mãe sonha viver: enterrou sua única filha, de sete anos. Nascida com necessidades especiais, sem falar ou andar, a pequena Carol foi ao médico para fazer uma cirurgia no pé. A mãe conta que no hospital a menina pegou uma infecção e veio a falecer. Diante da situação, a manicure contou com a ajuda da ARS, mas teve de se apegar a sua fé e tenta superar mais um obstáculo em sua jornada. “A dor é grande, mas o que

consola é saber que em breve nos encontraremos no céu, onde ela vai falar, andar...”, diz a voluntária, com um olhar pensativo. Com linguajar simples, Cristiane, de 32 anos, esbanja esperteza, humildade e paixão pelo que faz. E completa: “Eu tenho muita coisa para aprender ainda”. É na simplicidade das pessoas que se encontram os grandes tesouros. Poucos se destacam por suas grandes obras, mas muitos têm grandes histórias destacadas para contar, simplesmente sobre a for-

ma de viver. A história de Cristiane é uma das que deram certo. Moradora por mais de uma década da favela do Pantanal, hoje Cristiane vive com água encanada e luz em seu apartamento na CDHU, tem uma profissão e méritos no trabalho voluntário, além de prosseguir em uma fé que ajuda a superar as dificuldades e avançar. Certamente ela é alguém na multidão.É como diz a Bíblia Sagrada: “O temor do Senhor é a instrução da sabedoria e precedendo a honra vai a humildade”, Provérbios 15.33.

JULIANA KICHARUK

voluntária. A pedagoga diz que o trabalho realizado na entidade não tem preço. Cada aluno e aluna são grandes amigos. Para ensinar pessoas adultas o processo é diferenciado. Não basta usar apenas cartilhas, lousa e cadernos. “Temos que respeitar o ritmo de cada um. Desenvolvo técnicas específicas para o aprendizado individual”, explica. A professora comenta que todo começo de ano é informado, no muro da entidade, o curso de alfabetização de adultos. As aulas geralmente começam, em média, com 15 alunos. Com o passar do ano este número cai drasticamente. “Ler e escrever não é do dia para a noite, leva um tempo e muitos desistem”. Guacira, como professora, ensina português, matemática e cidadania, mas como voluntária, é amiga, irmã, filha, psicóloga, ensina e aprende muito. “O amor

que sinto e recebo aqui não tem dimensão. Minhas fofinhas e meus queridos são tudo para mim”, diz emocionada, Atualmente, a ARS conta com quatro alunos, com idade acima de 40 anos. A moradora do bairro Chico de Paula, Maria Cristina da Silva, de 63 anos, é a mais vivida, mas é a mais nova na entidade, pois está matriculada há dois meses. Maria comenta que trabalhou por mais de 20 anos como empregada doméstica e sempre teve um sonho. “Assim que parasse de trabalhar voltaria a estudar”, diz. Para cuidar do marido, que ficou doente, teve que se aposentar. Agora que ele está com a saúde recuperada, Maria recebe o apoio do marido e do filho para realizar seu sonho.

Guacira: professora, amiga... e aluna Simone Menegussi

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pesar da globalização, da evolução tecnológica e da criação da Internet, o número de iletrados é inacreditável. Em pleno século 21, um em cada 16 habitantes acima de 15 anos da Baixada Santista é considerado analfabeto, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A Ação de Recuperação Social contribui para diminuir este resultado tão negativo para a sociedade. A entidade, além de outros cursos, não abre mão da alfabetização de adultos. Por apenas cinco reais por mês de contribuição, qualquer pessoa pode aprender a ler e escrever. Porém, o pagamento é facultativo. A pedagoga Guacira dos Santos Jardim, 46 anos formada em 1996, é a responsável por esta missão. Entrou para ARS como prestadora de serviços.

Guacira retornou à ARS em razão do amor que nutre pela entidade

Após alguns anos ensinando seus “amigos”, termo que usa para falar dos alunos, foi convidada a trabalhar em outra instituição para ganhar mais. Ficando muito dividida, conversou com os superiores da ARS e seguiu seu caminho. A entidade

continuou com o curso com outras professoras. Guacira não conseguiu ficar longe por muito tempo. A falta que sentia de seus amigos, da sala de aula, do cheiro dos livros... enfim da ARS, era muito grande. E ela resolveu voltar, agora como


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Alunos ‘viajam’ pelo mundo das letras e da cultura KARINA CARNEIRO

Karina Carneiro

po”, declara Neuza. Para os alunos Fabrício dos Santos Souza e Letícia Borges, ambos de 9 anos, a leitura faz parte da vida deles. “Quando eu acabo as lições cedo, a professora deixa ir à biblioteca e pegar um livro para ler. O meu favorito é a Branca de Neve conta Fabrício. Já para Letícia, a biblioteca e as aulas de leitura são suas preferidas.

A

biblioteca costuma ser um dos lugares mais importantes em todos os lugares, e com a ARS não poderia ser diferente. É ali que crianças, jovens e adultos podem buscar qualquer tipo de informação quando necessário. A biblioteca da ARS foi construída graças às doações dos livros que compõem o acervo do local. Atualmente, a entidade conta com mais de 900 livros em seu acervo, variando entre os gêneros infantil, infanto-juvenil, adulto e enciclopédias. Na disposição dos livros, a entidade conta com duas grandes estantes doadas por verba parlamentar estadual. A entidade costuma receber livros por meio de doação, que passam por análise entre os responsáveis para verificar quais podem ser reaproveitados ou não. Os de maior interesse são os livros infantis, muito utilizados pelos alunos do reforço. Porém, a responsável pela organização de todos esses livros é a voluntária Neuza Barroso de Araújo. Bibliotecária da ARS há cerca de quatro anos, ela

Biblioteca de Rua

Com 900 livros em seu acervo, a biblioteca é um dos espaços mais frequentados pelo público

tem a lista de livros organizada por ordem alfabética e sempre atualizada a cada seis meses. Além de bibliotecária, Neuza é professora de leitura dos alunos de reforço. Todas as sextas feiras depois do horário do lanche, ela direciona crianças e jovens à biblioteca, onde eles lêem trechos do livro que está sendo trabalhado naquela determinada semana. “Esse trabalho é feito para que as crianças possam aprender a ler cor-

retamente, principalmente a respeitar a acentuação na hora da leitura em voz alta e a entender o que o texto tem a dizer”, conta. A bibliotecária explica que antigamente os alunos podiam levar os livros para casa, porém não havia tanto sucesso quanto ler o livro dentro da associação durante as aulas de reforço. “Muitos deles levavam o livro para casa e nem traziam ou não liam. Na aula é diferente, pois todos têm a oportunidade de ler um

Sons que encantam

Curso de informática qualifica para o mercado de trabalho

KARINA CARNEIRO

Karina Carneiro

T

oda semana, os alunos da ARS aguardam ansiosamente a chegada da terça-feira. Isso acontece porque é apenas nesse dia da semana que eles podem ter aula de canto, uma das favoritas entre as crianças do reforço. Divididos em duas classes, os alunos entre 8 e 11 anos vibram com as aulas, com as canções e se aplicam à técnica na hora de soltar a voz. A professora de canto, Maria Cecília Gozzoli, está sempre acompanhada de um teclado para ensinar o ritmo das músicas aos alunos. Maria Cecília conta que a idéia de implantar o coral à grade de atividades da ARS foi da atual presidente Myrian Rodrigues. “Anteriormente já existia um coral aqui, mas a responsável precisou nos deixar. Fui chamada e reiniciei as aulas em maio deste ano”, conta.

trecho do texto que está sendo trabalhado”, diz. A procura de livros pelas crianças durante as aulas também é grande e entre os gêneros favoritos estão as histórias em quadrinhos, contos de fadas e histórias relacionadas à Bíblia. “É curioso ver as crianças procurando histórias relacionadas à Bíblia ou religião na biblioteca, principalmente nos dias de hoje. Mas isso é muito bom, pois influencia o lado da religião e da leitura ao mesmo tem-

Isabella Paschoal

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Aula de canto com a professora Maria Cecília Gozzoli

Antes, porém, dos alunos soltarem a voz, eles aprenderam a teoria. Começaram a entender principalmente como o coral é formado, o ritmo das músicas, melodias, e até mesmo a respiração para, nos dias de hoje, os alunos poderem cantar juntos as músicas, durante a meia hora de aula semanal. Entre os estudantes, a aula de coral é uma das favoritas. “Eu adoro cantar. É uma das coisas que

eu mais gosto, e sempre gostei de música”, conta o estudante Ítalo da Silva Alves, de 9 anos. Quando a aula está para terminar, a euforia dos alunos é exclusivamente por uma música: Vagalume tem-tem. As crianças contam que essa música é a favorita deles, porque todos da classe sabem cantar. A professora ainda comenta sorrindo: “Se eu não tocá-la, parece que eu não entrei para dar aula”.

Além da biblioteca para os alunos, a ARS implantou há cerca de sete meses a biblioteca de rua para os moradores da comunidade. Esse setor fica sob responsabilidade da presidente Myrian Rodrigues, que durante todos os sábados, das 9 às 11 horas, coloca os livros à disposição da comunidade. O projeto funciona de forma simples, onde os moradores podem preencher um formulário de cadastro, retirar o livro e devolvê-lo em um prazo de 15 dias, com direito a renovação. Caso o livro não seja devolvido na data certa, Mirian conta que não é cobrado qualquer tipo de multa por enquanto, pelo fato do projeto ainda estar em fase experimental.

clima é aconchegante e de paz. Do laboratório é possível escutar as crianças do coral cantando e a música contagia todo o ambiente do prédio. A sala é pequena e possui seis computadores, mas isso não é problema para quem quer ensinar e para quem quer aprender. Assim são as aulas de informática às terças-feiras, quando se encontram pessoas de todas as idades. Porém, são os jovens que mais procuram o curso, que tem como objetivo prepará-los e qualificá-los para o mercado de trabalho. De acordo com o professor, Paulo César Gama, a procura só tem diminuído por conta da grande oferta do curso em outras instituições e escolas. Gama afirma que a maior dificuldade que os alunos enfrentam é a falta de equipamento em casa. “Os alunos que não possuem computador em casa têm mais

dificuldades ao aprender. Mas isso tem melhorado por conta dos preços mais acessíveis e das lojas que parcelam em várias vezes”. O estudante Erik Medeiros, de 14 anos, mora no bairro da Alemoa. Ele diz que procurou o curso para garantir seu futuro profissional. Além das aulas de informática, Erik faz técnico de turismo e hotelaria na Universidade Corporativa, que se encontra no Centro de Santos. “Procurei o curso porque é importante para o meu futuro”, afirma. Ele conta que encontra dificuldades em digitar por não ter computador em casa nem praticar. “Tento ir rápido e me atrapalho com as palavras”, explica, rindo. “Mas se eu passar de ano, vou ganhar um de Natal”. Gama, voluntário há 10 anos, afirma que quando se ensina, temos a possibilidade de aprender duas vezes. “Tudo o que a gente recebe de conhecimento, tem que passar para frente”, conta o professor de informática.


Primeiro Texto / Especial ARS

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Mulheres deixam idade e aposentadoria para trás

KARINA CARNEIRO

Nas aulas de artesanato, as participantes passam as tardes aprendendo a produzir peças

Guilherme Uchoa

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ARS - Ação de Recuperação Social oferece d i v e r s a s atividades para os moradores do Bairro do Saboó e imediações. Desde os mais novos aos idosos, todos comparecem à instituição buscando frequentar as aulas e aprender novas habilidades que lhe serão úteis no cotidiano. Entre as pessoas da terceira idade, várias frequentam as aulas de bordado ministradas por Helena Ferreira Pinto, de 72 anos. “Eu acho interessante esse projeto. Muitas delas são filhas de bordadeiras e estão indo muito bem, aprendem com facilidade. Elas vêm com prazer e os trabalhos feitos vão para o bazar”, explica. Além disso, Helena Ferreira enumerou os benefícios obtidos nas aulas. “Aumenta a autoestima dos idosos. É uma oportunidade que elas têm para se encontrar e conversar e, além de aprender, elas podem

ganhar um dinheiro com os minhas peças para vender”, trabalhos”, diz. destaca. São os casos de Auderi Outro caso é o de Maria Germano da Silva, de 57 Cristina da Silva, de 63 anos. anos, e Iraci Josefa. A Há três meses assistindo primeira assiste as aulas as aulas de alfabetização, de bordado e freqüenta ela conta como a entidade a entidade há dois anos. ajudou a melhorar sua vida. “Para mim é muito bom “Eu não sabia, agora já [assistir as aulas], pois estou aprendendo a ler e conheço pessoas, saio de fazer contas. É ótimo porque casa e aprendo algo. Sinto- eu não fico em casa sem ter me bem aprendendo algo o que fazer. Aqui eu estou novo”, afirma. estudando e aprendendo”, Iraci vê melhoras em destaca. seu cotidiano MARIANA TERRA com os aprendizados o b t i d o s na ARS. Chegando com sua bicicleta carregada de tecidos, ela garante que utiliza tudo que aprendeu nas salas de aula para lucrar. “ M u d o u muita coisa na minha vida, aprendi artesanato aqui e agora faço as Helena, 72 anos: dedicação e empenho nas atividades

Serviços que a ARS oferece à comunidade Assistências • Assistência Social – 2ª feira, 4ª e 6 ª, das 13 às 18h/ 3ª e 5ª, das 8 às 11h • Assistência Jurídica – 3ª feira das 15 às 17h • Assistência Psicológica – 5ª f, das 14 às 18h • Assistência Fonoaudiológica – Sábados, das 9 às 11h • Reforço Escolar (Ensino Fundamental I) – 2ª a 6ª, das 14h30 às 17h Oficinas / Cursos • Crochê – 5ª feira às 14h30 • Pintura em tecido – 3ª f às 14h • Tapetes – 3ºf às 14h30 • Manicure – 2ª f às 8h30 • Informática – 2ª e 6ª às 14h e sábados às 8h30 e 10h30 • Alfabetização de Adultos – 2ª, 3ª, 5ª e 6ª, das 15h às 17h • Coral Infantil – 4ª f às 14h • Biblioteca – 5ª f às 15h • Contos de histórias – 4ª f às 16h • Ginástica para a terceira idade – 2ª f às 9h Atendimento esporádico – Saúde • Exames de olhos para alunos do reforço e encaminhamentos • Exames eventuais de audição

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Usando a voz corretamente Richard Durante

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arte da boa comunicação. Essa é a função do fonoaudiólogo, um profissional que atua nas áreas da voz, escrita, audição e musculatura facial. Visando uma melhor comunicação de sua comunidade, a ARS (Ação de Recuperação Social) dispõe de uma fonoaudióloga semanalmente para atender à população. Cabe à profissional, Silvia Marrach, a tarefa de atender a comunidade do Bairro do Saboó. Há nove anos como voluntária, Silvia dispõe de um dia da semana para atender os pacientes em sua pequena sala no andar térreo da entidade. As crianças têm na fala suas maiores dificuldades. Silvia chega a atender cerca de seis pacientes nas manhãs de sábado entre adultos e crianças. Ao todo, são cerca de 20 cadastrados. As crianças são maioria, mas cada vez mais os adultos começam a procurar um tratamento de fonoaudiologia. Infelizmente, nem todos os pacientes que começam o tratamento conseguem

concluir com sucesso. Muitos acabam desistindo e o trabalho da ARS é observar o que aconteceu com o paciente e procurar fazer com que ele retorne às consultas. Não são descartadas visitas às residências e nas escolas quando o paciente é uma criança. Um bom acompanhamento também ajuda na recuperação das pessoas. “Conheci a entidade por uma amiga e me inscrevi para ser voluntária. Pouco tempo depois me ligaram e já estou há nove anos atendendo”, disse. Duas vezes por ano as inscrições são abertas para novas pessoas e a fila de espera é bem concorrida. A ARS prioriza os moradores do Bairro do Saboó, mas não descarta o atendimento aos moradores de outras regiões em caso de vagas em aberto. Além do serviço de fonoaudiologia, todas as quintas-feiras a casa possui atendimento de psicologia à população. O telefone da ARS é 3296-2073. O horário de funcionamento é de segunda a sábado das 8 às 18 horas. A sede localiza-se à Rua Manoel Barbosa da Silveira, 239.

Muito além das cestas básicas Julia Brancovan

A

assistente social Roseli Luna Falcão é a responsável pelas ações da ONG ARS. Na casa há 13 anos, ela conta que seu trabalho à frente da entidade já atendeu a mais de 1.500 pessoas. Esse cenário se deve primeiro ao crescimento que a ARS teve nos últimos anos. Depois de tantos desafios, hoje a ONG tem sede própria, e oferece cursos de geração de renda (manicure, artesanato e crochê), reforço escolar para alunos do 2º ao 5º ano (Novo Fundamental), prestação de serviços, como atendimento jurídico, registros, doações de cestas básicas para famílias necessitadas, alfabetização de adultos e intermediação de empréstimos do Banco do Povo para fins empreendedores. Rosely conta que os novatos que chegam à ARS passam por uma entrevista, seguida por cadastramento e encaminhamento

para a área de maior carência. Recebem então visita domiciliar para acompanhamento da família ou membro matriculado e uma avaliação final para que a família ou cadastrado tenha um perfil acompanhado quanto aos seus progressos. Rosely conta que seu dia-a-dia não é fácil, pois, infelizmente, muitas pessoas buscam a entidade apenas para usufruir benefícios, sem que estejam interessadas em se dedicar para sua própria melhoria e a de sua família. “Muitos chegam aqui apenas com o interesse na cesta básica. Isso é triste porque nosso trabalho é dar apoio e ajuda aos que buscam melhorar de vida, não apenas com distribuição de cestas”, afirma. Como assistente social, ela diz enxergar isso como o maior desafio de sua carreira, pois muitos entram e não prosseguem nos cursos. “Poucos são os que realmente cresceram na vida, arrumaram um emprego e voltaram para

Ajude a ARS em seu trabalho social

A ARS necessita de doações e você pode ajudar. Quer saber como? Ligue: (13) 3296-2073


PT Especial ARS