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TCC // design gráfico Mariana Provenzi

Maria maldita Design gráfico no combate à violência doméstica contra a mulher

UFPR // 2018 CURITIBA


ninguém solta a mão de ninguém


Maria maldita Design gráfico no combate à violência doméstica contra a mulher


TCC // design gráfico Mariana Provenzi

Maria maldita Design gráfico no combate à violência doméstica contra a mulher

Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação em Design - Habilitação em Design Gráfico, da Universidade Federal do Paraná. Orientador: Marcos Beccari

UFPR // 2018 CURITIBA


Termo de aprovação MARIANA RODRIGUES PROVENZI MARIA MALDITA: DESIGN GRÁFICO NO COMBATE À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA A MULHER Trabalho de Conclusão de Curso aprovado como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Design Gráfico, do Setor de Artes, Comunicação e Design da Universidade Federal do Paraná, pela banca composta pelos seguintes professores:

Prof. Dr. Marcos Beccari | Departamento de Design Professor orientador

Prof. Dra. Juliana Bueno | Departamento de Design Professora avaliadora

Prof. Me. Marcel Pauluk | Departamento de Design Professor relator e avaliador

Curitiba, 03 de dezembro de 2018.


Agradecimentos Agradeço, primeiramente, à minha mãe. Pelo apoio incondicional, constante e afetuoso. Pela disposição, pela comida quentinha e pelos puxões de orelha. Pelo amor e pelo companheirismo, muito obrigada. Agradeço ao meu amor, Eric Quirino, por segurar a minha mão sempre, especialmente nesse ano tão caótico. Agradeço ao meu professor orientador, Marcos Beccari, pela atenção, companheirismo e orientação brilhante. Por me desafiar a ir mais longe e aguentar meus e-mails em momentos inoportunos, muito obrigada. Agradeço à minha chefa, Rita Solieri, que me deu tempo quando eu tive prazos apertados, além orientação e carinho. Agradeço à ela, à Adriana Salmazo, à Raquel Dzierva, à Maria Helena Adonis e à Eliana Lica, pelo apoio, amizade, lanchinhos e pelas opiniões e olhares atenciosos para o meu trabalho. Agradeço à minha amiga e parceira de graduação, Aline Mugnon, pela caminhada e pelo título do trabalho: maria maldita. Agradeço à minha amiga Ana Júlia Raldi, parceira de longa data, pelos chororôs, reclamações e muito apoio sobre fazer um TCC de design. Agradeço à minha amiga Sara Zan, pelo ombro sempre disponível e pelas palavras animadoras. Agradeço à minha amiga Raquel Sales pela disposição em me ajudar e à Rebecca Sales, que até se animou a fazer um cartazete de umas das minhas alternativas. Agradeço ao meu amigo Lucas Takeuchi pela edição do meu vídeo de TCC e por ser um amor de pessoa, me aguentando esse ano inteiro. À todas vocês, muito obrigada. Agradeço à Carolina do Nascimento, minha co-orientadora, e à Bianca Rati, que me socorreram quando estava em desespero acadêmico, e que são exemplos pra mim. Agradeço à minha família materna, que sempre me incentivou e acreditou em mim, e peço desculpas pelos inúmeros cafés dos quais não participei durante a graduação por estar terminando algum trabalho. Agradeço, por fim, à minha avó, que passou por tanta dor, mas nunca faltou com amor para dar. Que ensinou à minha família e, portanto, a mim, a ser resistente. Muito obrigada. Sinto saudades. Do seu doce,

M.


Resumo Mesmo após anos de combate e conquista de poder feminino, o serviço Ligue 180 ainda recebe milhares de denúncias de violência doméstica contra a mulher a cada ano. Considerando a significativa subnotificação desse tipo de crime, violência doméstica é um grave problema que assola mulheres brasileiras em larga escala – ninguém está imune. Grande parte disso, deve-se à tolerância social que uma sociedade patriarcal cria em torno do problema: violência doméstica é vista como briga de casal, não como um crime. Assim, Maria Maldita é um projeto gráfico que têm como objetivo transportar esse assunto “íntimo” para a esfera pública, através do espaço urbano. Para isso, lançou-se mão do design centrado no humano, do design social e ativista e da filosofia pós-estruturalista. O resultado é uma série de materiais gráficos de rua, cada um deles dirigidos aos diferentes atores do problema – mulheres, agressores e testemunhas – com objetivo de denunciar a falsa naturalidade por trás da ideia de que, em briga de marido e mulher, não se mete a colher.

Palavras-chave: violência doméstica contra a mulher, design social, design ativista, pós-estruturalismo.

Abstract Even after years of battling and advances in feminine power, the Ligue 180 service still receives thousands of domestic violence reports against women each year. Considering that this type of crime counts with significant underreporting, domestic violence is a serious problem that threats Brazilian women at large-scale - no one is safe. Much of this is due to the social tolerance that a patriarchal society creates around the problem: domestic violence is perceived as couple quarrels, not as a crime. Thus, Maria Maldita is a graphic project with the purpose to transport this “intimate” subject to the public sphere, through the urban space. In order to do so, the project was set on human-centered design, social/activist design, and post-structuralist philosophy. The result is a series of street graphic materials, each directed at the different actors in the problem - women, aggressors and witnesses - in order to denounce the false naturalness of such type of violence.

Keywords: domestic violence against women, social design, activist design, post-structuralism.


Lista de figuras Figura 1. Cartilha violência contra a Mulher, 2009.

Figura 17. Intervenção do projeto. Fonte: Instagram/

Fonte: OAB-SP.

seascasasfalassem.

Figura 2. Cartilha Maria da Penha em ação, 2012.

Figura 18. E-mail marketing apropriador. Fonte:

Fonte: Ministério Público.

Arezzo.

Figura 3. Viver sem violência é direito de toda

Figura 19. Mulheres tem que estar nuas para entrar

mulher, 2015. Fonte: SPM-PR.

no metropolitan museum of art? Guerrila Girls, 1989.

Figura 4. Distribuição dos materiais gráficos, formando uma da série. Fonte: A autora. Figura 5. Adesivo do projeto colado sobre ícone convencional. Fonte: Acessible Icon Project. Figura 6. Cartaz inimigo público com frase de Michel

Fonte: tate.org.uk Figura 20. Poster do Atelier Populaire, 1968. Fonte: The Red list. Figura 21. Cartaz confeccionado pelo regime militar, sem data definida.

Temer em relação à suborno de Eduardo Cunha.

Figura 22. Cartaz confeccionado pelo movimento pela

Fonte: be.net/johnnybrito.

anistia. Sem data definida.

Figura 8. Processo Double Diamond.

Figura 23. Cartaz confeccionado pelo movimento

Fonte: Autora.

feminino pela anistia, 1975.

Figura 7. Método. Fonte: Autora.

Figura 24. Pessoa usando o adesivo mencionado.

Figura 9. Pigmalião e Galatéia, de Jean-Léon Gerome. Fonte: pixels.com Figura 10. Funcionamento do mito. Fonte: Autora. Figura 11. Anúncio da Volskwagen, aproximadamente de 1970. Figura 12. French Currents of the Letter, 1978. Fonte:

Fonte: ShootTheShit Figura 25. Cartaz ‘racism’, de James Victore, 1993. Fonte: MoMa. Figura 26. Ciclo da violência. Fonte: Autora. Figura 27. Lambe-lambes freeboi. Fonte: Oscar Fortunato

Aiga Design Archives.

Figura 28. Amostra 01. Fonte: MP-BH.

Figura 13. After Monet, de Meltdown. Sherrie Levine,

Figura 29. Amostra 02. Fonte: SPM

1989. Fonte: MoMA. Figura 14. Opened by Customs. Kurt Schiwitters, 1937. Fonte: tate.org.uk. Figura 15. Seja marginal, seja herói. Rico LIns. Fonte: Universidade Positivo. Figura 16. Sem título, Barbara Kruger. Fonte: WikiArt. org.

Figura 30. Amostra 03. Fonte: APAV-PT Figura 31. Amostra 04. Fonte: Instagram/ seascasasfalassem Figura 32. Amostra 05. Fonte: APAV-PT Figura 33. Amostra 06. Fonte: MP-AL/Ligue 180. Figura 34. Amostra 07. Fonte: SPM/Ligue 180


Figura 35. Amostra 08. Fonte: Lush Cosméticos/ Artemis Figura 36. Amostra 09. Fonte: Instituto Patrícia Galvão Figura 37. Amostra 10. Fonte: M-Indicator Figura 38. Amostra 01. Fonte: Estúdio Sinestesia Figura 39. Amostra 02. Fonte: Anistia Internacional

Figura 61. Alternativa “pare” 1/2. Figura 62. Alternativa “pare” 2/2. Figura 63. Alternativa “causa da morte”. Figura 64. Alternativa “causa da morte”, outras peças. Figura 65. Alternativa “manchete”. Figura 66. Pontuação das alternativas segundo

Figura 40. Amostra 03. Foto: Adriana Milano

checklist de diretrizes.

Figura 41. Amostra 04. Fonte: Rage

Figura 67. Cartazes de base ajustados após banca.

Figura 42. Amostra 05. Fonte: Skol

Figura 68. Exemplo de folheto.

Figura 43. Miniaturas das amostras para referência e

Figura 69. Simulação de lambe-lambes em um muro.

melhor leitura. Fonte: Autora. Figura 44. Tipografias apresentadas aos entrevistados. Fonte: Autora. Figura 45. Miniaturas das amostras para referência e melhor leitura. Figura 46. Alternativas 1. Fonte: Autora.

Figura 70. Adesivo de placa de pare com fundo ajustado para consoar com o restante dos materiais. Figura 71. Simulação de intervenção em uma empena cega. Figura 72. Testes direcionados à mulheres Figura 73. Teste direcionados à homens/potenciais

Figura 47. Alternativas 2. Fonte: Autora.

agressores.

Figura 48. Alternativas 3. Fonte: Autora.

Figura 74. Teste direcionados à testemunhas.

Figura 49. Alternativas 4. Fonte: Autora.

Figura 75. Folder A4 de três dobras, direcionado à

Figura 50. Alternativas 5. Fonte: Autora. Figura 51. Alternativas 6. Fonte: Autora. Figura 52. Alternativas 7. Fonte: Autora. Figura 53. Alternativas 8. Fonte: Autora.

testemunhas. Figura 76. Tríade de cartazes 1, direcionada à mulheres. Figura 77. Experimentos. Figura 78. Tríade de cartazes 2, direcionada aos

Figura 54. Alternativas 9. Fonte: Autora.

agressores.

Figura 55. Alternativa “quem fez o quê”, 1/3.

Figura 79. Tríade de cartazes 3, direcionada à

Figura 56. Alternativa “quem fez o quê”, 2/3.

testemunhas.

Figura 57. Alternativa “quem fez o quê”, 3/3.

Figura 80. Cartazetes com trechos da Lei Maria da

Figura 58. Alternativa “muros danificados”, 1/3. Figura 59. Alternativa “muros danificados”, 2/3. Figura 60. Alternativa “muros danificados”, 3/3.

Penha. Figura 81. Cartazete com trechos da Lei Maria da Penha que classifica violência doméstica como violação dos direitos humanos.


Figura 82. Simulação de aplicação em porta de banheiro.

testemunhas. Figura 95. Simulação de lambe-lambes colados em

Figura 83. Definições de dicionário.

um muro.

Figura 84. Layout do site.

Figura 96. Imagem dos três lambe-lambes.

Figura 85. Site na plataforma Wordpress.

Figura 97. Imagem de todas as unidades de adesivos,

Figura 86. Cartaz de apoio. Figura 87. Cartaz de apoio 2 (à direita). Figura 88. Perguntas do formulário de validação. Figura 89. Cartaz 1, direcionado à mulheres.

com o fundo vermelho. Figura 98. Cartaz-teste 1. Direcionado à mulheres. Figura 99. Cartaz-teste 3. Direcionado à homens ou potenciais agressores. Figura 100. Cartaz-teste 4. Direcionado à

Figura 90. Cartaz 2, direcionado à agressores.

testemunhas.

Figura 91. Cartaz 3, direcionado à testemunhas.

Figura 101. Certificado de óbito 1.

Figura 92. Folheto 1, frente e verso. Direcionado à

Figura 102. Certificado de óbito 2.

mulheres. Figura 93. Folheto 2, frente e verso. Direcionado à agressores. Figura 94. Folheto 3, frente e verso. Direcionado à

Figura 103. Certificado de óbito 3. Figura 104. Certificado de óbito 4.


Lista de tabelas Tabela 1. Análise direta descritiva. Fonte: Autora. Tabela 2. Análise direta avaliativa. Fonte: Autora. Tabela 3. Análise indireta descritiva. Fonte: Autora. Tabela 4. Análise indireta avaliativa. Fonte: Autora. Tabela 5. Maiorias de cada grupo. Fonte: Autora.

Lista de gráficos Gráfico 1. Amostra que gera mais empatia. Fonte: Autora. Gráfico 2. É melhor falar com a mulher ou com o agressor? Fonte: Autora. Gráfico 3. Melhor amostra para pessoas ‘de fora’. Fonte: Autora. Gráfico 4. Melhor amostra em geral. Fonte: Autora. Gráfico 5. Mais votados como melhor amostra em determinada categoria. Fonte: Autora. Gráfico 6. Cor mais adequada. Fonte: Autora. Gráfico 7. Impacto aferido aos cartazes. Gráfico 8. Atitude percebida nos cartazes. Gráfico 9. Impacto aferido aos folhetos. Gráfico 10. Atitude percebida nos folhetos. Gráfico 11. Impacto aferido aos lambes-lambes. Gráfico 12. Atitude percebida nos lambes-lambes. Gráfico 13. Impacto aferido aos adesivos. Gráfico 14. Atitude percebida nos adesivos. Gráfico 15. Impacto aferido aos testes. Gráfico 16. Atitude percebida nos testes. Gráfico 17. Impacto aferido à intervenção. Gráfico 18. Atitude percebida na intervenção.


Maria maldita “Aquela lá gosta de apanhá” Maria mal-falada “Por que não sai de casa?” Maria mal-amada Pelo próprio coração Pelo ouvido do vizinho Amaldiçoada


SUMÁRIO 0 1. Introdução

01

Apresentação

01

Justificativa da modalidade

03

Caracterização do problema

04

Relevância

07

Objeto

12

Objetivos

14

Método

15

0 2. PESQUISA

18

03. Síntese

57

Relatos de Campo

21

Análise de similares

59

Conceito

23

Similares diretos

60

Desconstrução e discurso

24

Similares Indiretos

71

Design para mudança social

34

Entrevista com público

79

Design centrado no humano

39

Compilação de dados

81

45

Diretrizes

92

Contexto Violência doméstica contra a mulher

46

Espaço Público Urbano

52

04. Ideação

97

Conceituação

99

Geração de Alternativas pt. 1

100

Geração de Alternativas pt. 2

111

05. Teste e entrega

123

Seleção

125

Desenvolvimento

127

Pesquisa de percepção

142

Iteração

153

06. cONCLUSÃO

178

Referências Bibliográficas

182

Anexo

186


01 Introdução Traduzir & Enquadrar


maria maldita // design gráfico no combate à violência doméstica contra a mulher

01

1.1 Apresentação

TCC 2018

O presente trabalho de conclusão de curso é uma tentativa de ação. Como último trabalho da faculdade de design gráfico, eu queria fazer um projeto do tal de design social. Listei diversos problemas sociais com os quais eu podia trabalhar, mas, honestamente, em muitos não via como o design gráfico poderia ajudar. Violência doméstica contra a mulher estava na lista, mas eu tinha medo do tema, por que é doloroso. É doloroso ler relatos, é doloroso ver estatísticas altas, é doloroso ouvir piadas sobre isso. Mas, por fim, eu decidi que não havia tema melhor, pois assim eu estaria trabalhando por outras mulheres, e por aquela por quem não pude fazer nada, minha avó. Durante os meses antes do começo do projeto, todos os dias no ônibus eu olhava os muros, imaginando a comunicação que poderia ter lugar ali. Parece que, nos dias de hoje, não há outro meio de ser ouvida que não pela rua. Na internet, a competição é muito grande e os algoritmos muito fortes. Foi aí que eu vi que o design podia entrar. Então esse trabalho se propõe a começar uma conversa, colocando o discurso de combate à violência doméstica contra a mulher no espaço público da cidade - em cartazes lambe-lambe, panfletos e adesivos - por meio de um projeto gráfico independente fictício.


02

introdução

Capítulos O trabalho divide-se nas etapas do método projetual escolhido – método criativo do Centro de Design Social do MICA – sendo elas:

TCC 2018

Traduzir e enquadrar, fase onde se faz o recorte específico do problema a ser tratado, passando por sua caracterização, justificativas e objetivos do projeto, detalhamento do objeto a ser desenvolvido e do método; Pesquisa, onde constam relatos das pesquisas de campo realizadas, bem como fundamentação teórica conceitual e contextual a respeito do projeto. Nela detalham-se a desconstrução e o discurso, o design social, o design centrado no humano, a violência contra a mulher e o espaço urbano público; Síntese, onde ocorre a análise de similares e a entrevista com as pessoas envolvidas, bem como a síntese desses dados; Ideação e prototipagem, onde se encontram relatórios da geração de alternativas, consulta com o público e refinamento de alternativa; Teste e Entrega, onde realiza-se seleção de alternativas, refinamento, pesquisa de percepção e apresentação final das peças a serem entregues. Em alguns trechos do trabalho existem comentários sobre o texto, em cor rosa. São ideias ou informações paralelas ao que está sendo discutido centralmente. Existem também páginas pretas, que são referentes à exemplos/aplicações do que se discute.


maria maldita // design gráfico no combate à violência doméstica contra a mulher

03

1.2 Justificativa de modalidade

Espera-se transportar a discussão sobre violência doméstica contra a mulher para o espaço público, contribuindo, assim, para uma mudança de paradigma no trato de tal problema, ainda amplamente encarado como um assunto de âmbito privado, sobre o qual não se deve intervir (ou, a senso comum, “meter a colher”). Existe uma grande tolerância social englobando o problema, a qual impede avanços e iniciativas para a mudança. Para quebrá-la, é necessário desnaturalizar a violência doméstica contra a mulher.

A esses motivos soma-se ainda a oportunidade para a autora deste trabalho de colocar seu trabalho em contato direto com o mundo real e a cidade de Curitiba; trabalhar com um design de caráter social e ainda valer-se de sua profissão para ajudar mulheres, minoria política da qual faz parte. Sendo assim, a modalidade teórica-projetual apresenta-se como a mais adequada por permitir pesquisa, experiência e aprofundamento nos campos de conhecimento pertinentes ao trabalho, uso das oportunidades descritas e possibilidade de aplicação desses esforços em materiais reais.

TCC 2018

Este TCC tem por objetivo utilizar o design gráfico e suas funções em prol da luta contra a violência doméstica direcionada à mulher no Brasil. Literatura e mídias frequentemente apontam que esse tipo de violência origina-se de construções a respeito de identidade e papéis de gênero profundamente enraizadas na sociedade brasileira — bem como em qualquer outra sociedade patriarcal — e, portanto, não esperase com este trabalho “salvar o mundo”.


04

introdução

1.3 Caracterização do problema

TCC 2018

A lei nº 11.340/2006, mais conhecida como Lei Maria da Penha (BRASIL, 2006, s. p.), em seu 5º artigo define violência doméstica como: Violência doméstica e familiar contra a mulher é qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial: I - no âmbito da unidade doméstica, compreendida como o espaço de convívio permanente de pessoas, com ou sem vínculo familiar, inclusive as esporadicamente agregadas; II - no âmbito da família, compreendida como a comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa; III - em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação A Lei Maria da Penha é um mecanismo específico para o também específico crime de violência contra a mulher que toma lugar em contexto íntimo - quem agride não é um estranho, mas sim alguém no círculo social da mulher. Essa lei traz também definições

dos tipos de violência que tomam forma nesse contexto, são elas: violência física, psicológica, sexual, moral e patrimonial. Reconhece, ainda, outro dado notório: na maior parte dos casos, essas violências ocorrem de forma combinada. Dados fornecidos por balanços anuais do serviço telefônico Ligue 180 - Central de Atendimento à Mulher confirmam algumas percepções de senso comum a respeito de violência doméstica contra a mulher: a maioria das denúncias dizem respeito a casos de agressão física, mas isso pode se dever, em grande parte, à dificuldade de reconhecer e de provar os outros tipos de violência. Confirma-se também que, na maioria dos casos denunciados, o autor da agressão era homem, e, mais que isso, homens com quem a vítima já teve ou tem um relacionamento. Está representada nos dados também a noção que é violência doméstica é violência familiar: em mais de metade dos casos, filhos da mulher agredida presenciaram a agressão e, em parte deles, a criança sofreu agressão junto com a mãe. Ou seja, lidamos ainda com um cenário inaceitavelmente violento para mulheres em suas relações domiciliares. E os motivos podem ser variados. Ora, a violência doméstica é um crime que passou a ser levado a sério muito recentemente. Mais


maria maldita // design gráfico no combate à violência doméstica contra a mulher

precisamente, até 2006, o crime era julgado como sendo de “menor potencial ofensivo”. Como relata a psicóloga Isabela P. M. Martins, em matéria para o Portal Educação (2014):

Foi em 2006 que passou a vigorar a Lei Maria da Penha, trazendo consigo aparatos de apoio à mulher agredida e estrutura para que esta fosse levada à justiça. No entanto, mesmo 12 anos depois da criação desta Lei, a violência doméstica contra a mulher permanece muito presente na vida das brasileiras, como observado a partir dos dados anteriormente citados. Pode-se afirmar que pesa no quadro da violência doméstica contra a mulher a implantação incompleta e ineficiente de uma lei muito bem elaborada, mas que sempre sofreu e ainda sofre resistência, tanto por parte da tripartição dos poderes do Estado quanto da população. E isto se deve, sobretudo, ao fato de tal tipo violência

ser originada, reforçada e mantida por questões culturais e históricas. Sendo a sociedade brasileira essencialmente patriarcal, estabeleceram-se costumes e crenças de que o papel da mulher é o de servidão e submissão perante o marido ou parceiro de gênero masculino. À mulher são atribuídos cuidados com o lar, com os filhos e disposição para a vida sexual do casal, entre outros. Pode-se especular que é com base nesses papéis atribuídos ao gênero feminino e às expectativas assim geradas - recatamento, extrema fidelidade, passividade, ser objeto de propriedade etc. - que justifica-se na mente de um agressor a violência doméstica. Quando a mulher não cumpre ou se recusa a cumprir um desses papéis e expectativas, fica claro para quem agride que ela deve ser castigada, punida por não corresponder ao que espera-se dela. E, dado o caráter sócio-histórico do problema, não só o agressor pensa assim, mas também o círculo social da mulher em situação de violência: sua família, vizinhos, amigos, colegas de trabalho. Soma-se ao quadro de violência, então, um enorme obstáculo no combate à este tipo de crime: a tolerância social. O tema “violência contra a mulher” contempla mais um sórdido ingrediente e que talvez seja o que motivou a persistente resistência à Lei Maria da Penha: a tolerância social. É muito importante compreender o quanto a sociedade é indulgente com esse tipo de violência, diferentemente do que acontece, por exemplo, com a violência contra criança ou idoso, alvo de intensa reprovação social (BIANCHINI, 2016). Em decorrência disso, além de agredida, a mulher torna-se alvo de intensa reprovação social; o que a induz ao silêncio, faz com que se culpe pela

TCC 2018

Antes de 2006, a violência doméstica era julgada como qualquer outro crime pela justiça comum. Quando procurava a delegacia para registrar a ocorrência, muitas vezes a mulher era desacreditada ou tinha seu sofrimento minimizado pelos policiais que quase sempre ainda lhe infligiam um atendimento sem o mínimo de sensibilidade. Ainda na delegacia ficava sabendo que era ela mesma quem deveria entregar a intimação ao agressor e quando o fazia geralmente era novamente espancada por ter dado a queixa. Quando o caso prosseguia e se chegava ao julgamento, a pena seria de no máximo um ano em caso de lesões graves e mesmo nestes casos o agressor poderia responder com penas pecuniárias,[...] o pagamento da “dívida com a justiça” através de multas e entregas de cestas básicas (MARTINS, 2014, s. p.).

05


TCC 2018

06

introdução

violência que sofre e nunca saia dessa situação. É também por conta da tolerância social que o agressor não se sente constrangido ou reprovado em agir dessa forma, mas, pelo contrário, pode até ser apoiado por outros que pensam e agem igual a ele. Essa complacência faz ainda com que testemunhas da violência (vizinhos, amigos) não se sintam responsáveis por intervir na situação, o que reforça a ideia de que também o Estado não deve se responsabilizar. Vale notar que, de acordo com o balanço 2016 do Ligue 180, a pessoa que fez a denúncia foi em primeiro lugar a própria vítima (67%), em segundo, outros (7,81%) e em terceiro, vizinhos (5%). É curioso notar que pessoas supostamente mais próximas da vítima, como mãe, amigos, parentes e conhecidos, aparecem mais atrás na lista. Assim, a violência doméstica contra a mulher acaba por se tornar um problema social e de saúde, que coloca em risco metade da população do país (103,8 milhões de brasileiras) e impede o desenvolvimento pleno dessas mulheres; impedindo, portanto, o desenvolvimento da sociedade. Mulheres merecem estar seguras em seus próprios lares.

O design gráfico pode, então, entrar na discussão atuando como meio e ferramenta de exposição de conceitos e dados que, desta forma, forneçam substância para começar a desconstruir noções comuns a respeito da violência doméstica, transportando este discurso para um dos centros da vida urbana: o espaço público da cidade.

Sendo assim, o problema caracteriza-se: Como o design gráfico pode contribuir com o combate e prevenção à violência doméstica contra a mulher tendo o espaço público de Curitiba como contexto?


maria maldita // design gráfico no combate à violência doméstica contra a mulher

07

1.4 Relevância A relevância deste trabalho pode ser justificada de duas maneiras:

1. Quanto ao combate à violência doméstica

Como revela a pesquisa Percepção da sociedade sobre violência e assassinatos de mulheres, para 70% dos entrevistados a mulher sofre mais violência dentro de casa do que em espaços públicos no Brasil. A pesquisa expõe ainda que 54% dos entrevistados conhecem uma mulher que já foi agredida e 56%, um homem que já agrediu uma mulher. Já segundo a pesquisa Visível e Invisível, realizada pelo Datafolha para o Fórum Brasileiro de Segurança em 2016, pelo menos 66% dos entrevistados afirmou ter presenciado algum dos tipos de violência contra a mulher em sua vizinhança. Tendo em mente os dados sobre violência doméstica contra a mulher expostos na caracterização do problema deste TCC, dados como estes agora apresentados tornam possível concluir que, apesar do muito que se tem feito na luta contra tal violência, esta têm se mantido presente no cenário brasileiro em muito por conta da tolerância social para com esse tipo de crime. Tendemos a naturalizar essa violência por ocorrer em âmbito privado e íntimo, e não sentimos que haja responsabilidade da sociedade para com sua resolução: como diz o ditado popular, “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”. Em análise da pesquisa Visível e Invisível, Viegas e Silva, Gregoli e Ribeiro (2016, p. 25 - 28), membros do Observatório da Mulher Contra a Violência, aprofundam e ampliam a noção de que

TCC 2018

Neste trabalho, considera-se como violência doméstica qualquer ação ou omissão baseada no gênero que cause à mulher: morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial, que tome lugar no ambiente da unidade doméstica, sendo o agressor família ou não; que parta de um familiar; ou em qualquer relação íntima de afeto em que o agressor conviva ou tenha convivido com a vítima.


08

introdução

a tolerância social pode ser grande influenciadora na falta de sinais de melhora no cenário de violência doméstica: A tolerância social à violência contra as mulheres é manifestada pela culpabilização da vítima, pela desconfiança com relação ao seu relato de violência e pela eufemização e naturalização do comportamento do agressor. [...]. A naturalização da violência em seu cotidiano impede que as mulheres se percebam vítima da agressão, fazendo com que o resultado de mulheres que se reconhecem vítimas seja subdimensionado [nas pesquisas] (VISÍVEL E INVISÍVEL, 2016, p. 26).

TCC 2018

Os autores apontam ainda que justamente devido à tolerância social, o agressor não se preocupa que seu comportamento possa ser objeto de constrangimento social e, assim, não se sente desestimulado a fazê-lo. Além disso, muitas mulheres vítimas não encontram respaldo social após a violência vivida, ou sequer se percebem vítimas de qualquer tipo de violência, vivenciando a agressão como algo naturalizado. Concluem por fim que: O quadro da violência contra as mulheres só começará a se reverter quando ela for considerada intolerável em qualquer circunstância (em espaços públicos e privados), quando agressores sejam interpelados e constrangidos e as mulheres lesadas sejam ouvidas e acolhidas – ou seja, quando a sociedade tomar para si, coletivamente, a responsabilidade pelo bem-estar de suas mulheres (VISÍVEL E INVISÍVEL, Atingindo a tolerância social à violência doméstica 2016, p. 28). E é neste sentido que este TCC adquire relevância social. Por visar agir em prol do combate à violência doméstica contra a mulher, age-se para a melhora social visto que este mal coloca em risco metade da população brasileira, que é mulher; e traz custosos danos ao desenvolvimento da mulheres e, consequentemente, da sociedade: Evidências esmagadoras mostram que investir na igualdade de gênero e no empoderamento de mulheres e meninas atua como força multiplicadora em todos os outros objetivos de desenvolvimento. [...] A eliminação de barreiras legais, sociais e de segurança pessoal baseadas em gênero leva as mulheres a ter maior acesso ao capital, a criar empresas, a criar ou garantir empregos decentes e a investir em suas famílias e comunidades (VISÍVEL E INVISÍVEL, 2016, p. 5).

contra a mulher, é possível inclusive facilitar outras abordagens e iniciativas de resolução do problema. Atualmente, a tolerância e naturalidade que envolvem o assunto impedem que políticas públicas de enfrentamento e prevenção de violência doméstica sejam levadas a cabo, por exemplo.


maria maldita // design gráfico no combate à violência doméstica contra a mulher

Uma das abordagens possíveis para o design gráfico neste cenário seria se utilizar do design da informação para compor materiais informacionais sobre a Lei Maria da Penha, ou que divulgassem os direitos da mulher em situação de violência em geral. No entanto, é notável que já existe uma profusão de materiais gráficos a respeito do tema. Variam de cartazes de campanhas à livretos, e a maioria tem sua origem na iniciativa pública, embora a parcela de material produzido por fontes independentes, jornais e blogs, seja significativa. Observa-se particularmente um grande número de cartilhas sobre a Lei Maria da Penha, várias delas em já segunda ou terceira edição. Infelizmente, observa-se também que tais materiais causam pouco impacto. Tenhamos como referência as seguintes cartilhas:

Cartilha violência contra a Mulher, 2009. (OAB-SP) Sendo publicada apenas 3 anos após a implementação da Lei Maria da Penha (BRASIL, 2006), esta cartilha traz vários textos de mulheres participantes ou relacionadas à Comissão da Mulher Advogada, trazendo ainda um “histórico” da violência, noções sobre gênero e esclarecimentos sobre a Lei. (fig. 1)

Figura 1. Cartilha violência contra a Mulher, 2009. (OAB-SP)

Maria Da Penha Em Ação: Prevenção da Violência Doméstica nas Instituições de Ensino, 2012. (Ministério Público) Traz orientações para a mulher em situação de violência, bem ligadas ao funcionamento da Lei, definições e também explicações que desmistificam conceitos errôneos sobre violência doméstica, como: “Por que muitas mulheres sofrem caladas?” e “10 mitos sobre a violência doméstica”. Foi notável um maior volume de materiais deste tipo no período de 2011 a 2013. (fig. 2)

Figura 2. Cartilha Maria da Penha em ação, 2012. (MP)

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introdução

Viver sem violência é direito de toda mulher: entenda a Lei Maria da Penha, 2015 (SPM-PR)

TCC 2018

Vindo diretamente da Secretaria de Nacional de Políticas para as Mulheres, essa cartilha é muito completa e até um pouco extensa em comparação com outros exemplares. Traz também desmistificações e explicações da situação da mulher vítima e motivos que normalmente levam à violência, conta sobre Lei Maria da Penha e traz uma sessão de perguntas e respostas. (fig. 3) Figura 3. Viver sem violência é direito de toda mulher, 2015. (SPM-PR)

Todas as cartilhas trazem conteúdos relevantes para o cenário e seus atores. Entretanto, de acordo com o Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres (FLACSO, 2015), houve uma expressiva diminuição das taxas de homicídios de mulheres em 2007, ano seguinte à criação da Lei Maria da Penha; mas de 2008 em frente, observou-se e retomada do crescimento da taxa, que em 2009 representou 0,2% ao ano e continuou nesse ritmo até 2013. Já segundo a pesquisa DataSenado: Violência doméstica e familiar contra a mulher, de 2017, realizada a cada dois anos desde 2005, indica que o percentual de mulheres que se declararam vítimas de violência doméstica se manteve entre 18 e 19% no período de 2009 a 2015, mas saltou para 29% em 2017. Pode ser que o aumento das taxas indique, na verdade, que mais mulheres têm denunciado o que acontece com elas, e não que a violência tenha aumentado. Então estes materiais suprem, sim, uma necessidade informacional, mas de qualquer forma, não observa-se diminuição nos índices de violência contra a mulher. Portanto, opta-se por buscar nesta lacuna uma outra abordagem ao problema, uma que arraste a discussão e conceitos sobre violência doméstica para o espaço público da cidade, visando assim desconstruir ao menos um pouco a tolerância social sobre o assunto.


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2. Quanto ao design social Já neste segundo aspecto, é possível considerar que além de relevância social o projeto pode adquirir relevância acadêmica, por tratar do desenvolvimento teóricoprojetual de um trabalho em design social. Design social pode ser identificado quando o propósito primeiro de um projeto é a melhoria de um problema social. Não é exclusivo da UFPR e nem do Brasil que designers não tenham muito engajamento em questões sociais ou políticas. Até faz sentido, sendo que o maior número de demandas por design encontra-se em propostas mercadológicas, e que uma profissão pouco estabelecida ou conhecida na sociedade aproveite-se desta forma “garantida” de existir. Mas não é justificativa para que o designer não sintase responsável por exercer seu direito de voz ou usar-se da sua profissão como ampliadora de outras vozes.

TCC 2018


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introdução

1.5 Objeto Tendo em mente a problemática delimitada anteriormente, detalha-se a seguir por meio de qual objeto pretende-se abordá-la.

TCC 2018

Primeiramente, é necessário delinear as pessoas à quem se direciona. Sendo o fenômeno da violência doméstica um problema sistêmico, verifica-se que os vários atores envolvidos no cenário - a vítima, o agressor, e a sociedade tolerante - têm influência um sobre o outro, estão profundamente interligados e, por isso, é necessário trabalhar com todos eles para abordar o problema de forma adequada. Essa noção tem fundamento no que profissionais do Centro de Referência de Atendimento à Mulher em Situação de Violência afirmaram em entrevista. Quando perguntadas se uma campanha de combate deve se direcionar à mulher ou à pessoa que a agride, as 5 entrevistadas responderam que é necessário tratar do problema com os dois. Como objetiva-se atacar a tolerância social à violência doméstica, o presente projeto acaba por ser direcionado à: mulher em situação de violência, ao agressor, e à testemunha (a sociedade tolerante). Para atingir o maior impacto possível, engloba-se: mulheres de 16 a 34 anos de idade, e homens de 20 a 49 anos, idades em que se encontram maior parte das vítimas e agressores em pesquisas de perfil. Somando-se esses dois públicos para supor o grupo de ‘testemunhas’, temos homens e mulheres, dos 16 aos 49 anos. A delimitação do público é ampla porque a violência doméstica não se restringe à uma raça, um nível de escolaridade ou a determinada renda (Visível e Invisível; Datafolha, 2014). Tal delimitação exige que o objeto deste trabalho apresente-se como uma série de materiais gráficos a serem integrados ao espaço público, sendo eles: cartazes, lambe-lambes, panfletos e adesivos. Cada público terá uma série completa de materiais direcionada a si, mas juntos formarão um único conjunto:

MULHER

Figura 4. Distribuição dos materiais gráficos, formando uma da série. Fonte: A autora.

AGRESSOR

TESTEMUNHA


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Farão parte do mesmo projeto, a ser desenvolvido para o grupo independente Maria Maldita, coletivo gráfico curitibano dedicado ao combate a violência doméstica (fictício). Como grupos similares ao projeto Maria Maldita, listam-se:

Figura 5. Adesivo do projeto colado sobre ícone convencional. Fonte: Acessible Icon Project

Projeto Inimigos Públicos: Em abril de 2018, apareceu pelas ruas de São Paulo a série inimigos públicos, produzida pelo Vertentes Coletivo (grupo que se dedica à fotografia, design, ilustração e artes) que é composta por colagens do rosto de quatro políticos brasileiros com frases ditas por eles que atestam seu perigo à nação. Segundo os autores, é um projeto de protesto e memória, elementos cruciais para estarem em debate neste ano eleitoral, que age de forma a lembrar bem quem falou o quê e “quem já se posicionou claramente contra o povo”. Configuram-se como cartazes lambe-lambe, que foram colados pela cidade em conjunto. Figura 6. Cartaz inimigo público de Michel Temer com frase que disse em relação à suborno de Eduardo Cunha. Fonte: be.net/johnnybrito

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The Acessible Icon Project: Sara Hendren e Brian Glenney, em 2011, propuseram uma adaptação ao ícone internacional de acessibilidade, que representa uma cadeira de rodas. Eles perceberam que haviam ícones melhores que o internacional, que representavam movimento, agilidade e, mais importante, uma pessoa, e não apenas uma cadeira de rodas. Então, desenvolveram adesivos transparentes para colar em cima do original, de forma que o mais importante não era o novo ícone, mas a sobreposição dele ao original, de forma a intervir na cidade.


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introdução

Nota: Como trabalho semelhante e grande inspiração, cita-se o trabalho de conclusão de curso de Kaio Fialho, de 2017: Tá tudo bem ser: materiais gráficos de empoderamento LGBTI para pessoas em processo de aceitação. Disponível em: https://issuu.com/kaiofialho/docs/ta-tudo-bemser-kaio-fialho-tcc

1.6 Objetivos

TCC 2018

Havendo delimitado problemática e objeto, o objetivo geral deste trabalho configura-se da seguinte maneira: Desenvolver uma série de materiais gráficos - pôsteres, panfletos e adesivos - a serem inseridos no espaço público urbano para auxiliar no combate e desnaturalização da violência doméstica contra a mulher. Para alcançá-lo, listam-se os seguintes objetivos específicos: 1. Fundamentar conceitos sobre desconstrução e discursos, design para mudança social, bem como sobre o contexto da violência doméstica e do espaço público; 2. Coletar materiais gráficos similares ao que se intenta desenvolver, para analisá-los e colher opiniões do público sobre eles, assim gerando diretrizes para o desenvolvimento; 3. Desenvolver alternativas de solução gráfica para o problema com base na fundamentação teórica, análise de similares e entrevistas; 4. Validar o material em conjunto com as pessoas envolvidas no problema para gerar iteração.


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1.7 Método

definir

desenvolver

entregar

Figura 8. Processo Double Diamond. O Double Diamond (Fig. 8) foi concepção do Design British Council em 2005: através de um estudo com departamentos de design de 11 empresas bem-sucedidas, encontram grandes semelhanças entre os processos que cada time usava e sintetizaram essas práticas comuns no processo Double Diamond. Ele mapeia as fases de divergência e convergência no processo de design, dividindo-se nas fases descobrir, definir, desenvolver e entregar. O Centro de design social do MICA adaptou o processo de forma a torná-lo mais longo.

solução

descobrir

problema

O que o Centro de Design Social do MICA fez foi adicionar dois meios-diamantes a cada extremidade do processo, e especificar uma abordagem para cada fase do processo (fig. 7). Ele começa com um problema social e termina em mudança social (o que é um tanto pretensioso, já que mudanças sociais não se verificam tão rapidamente, como por exemplo, após a entrega de um projeto de design). Começa o processo sob o design centrado no humano, passa então para a abordagem colaborativa e termina com a abordagem de design propriamente dita. O processo todo, no entanto, está sob princípios do DCH, como centralização das pessoas afetadas e iteração. Divide-se nas fases:

TCC 2018

Para realizar os objetivos propostos, o projeto se pautará pela abordagem metodológica do design centrado no humano (DCH). O DCH consiste, basicamente, em ter as pessoas envolvidas no problema como centro do projeto, bem como visa sua participação ativa. Se pautará também pela abordagem conceitual de design social. Tanto o DCH quanto o design social são detalhados mais adiante no capítulo 2. Para atender a esses requisitos, o método escolhido foi o do Centro de Design Social do MICA (Maryland Institute College of Art), que desde 2007 se dedica às iniciativas da universidade para mudança social. Este método consiste na imbuição da abordagem DCH no processo do Double Diamond, situando-o entre problemas sociais e mudança social.


introdução 16MÉTODO

MICA center for social design

P RO B L E MAS S OCIAS

Traduzir & Enquadrar

Traduzir e enquadrar: é o primeiro meio-diamante adicionado pelo MICA. É uma fase de convergência, consiste em realizar o recorte exato sob o qual se trabalhará dentro de determinada situação social problemática; entendê-la e a partir daí, definir o problema específico que será abordado. Neste caso, é a tolerância social dentro do contexto da violência doméstica contra a mulher.

DCU

• Pesquisa bibliográfica para compreender o problema; • Observação; • Pesquisa midiática.

abordagemTCC colaborativa 2018

Pesquisa

Síntese

Ideação

Pesquisar/Descobrir: momento de pesquisa intensa sobre o problema social que se tem em mãos. É uma fase de expansão, em que se coletam dados, informações e perspectivas para assim entender com profundidade o problema, o contexto que o gera, encontrar oportunidades de ação e, principalmente, descobrir a perspectiva das pessoas que o experienciam, suas necessidades e entendimentos. Nesta fase, começa o contato com as pessoas envolvidas. Para um projeto que funcione para elas, é necessário estabelecer algum contato. Lança-se mão das seguintes ferramentas:

• Pesquisa bibliográfica para compreender o problema e formas de abordá-lo;

• Pesquisa de campo (casa da mulher, centro de Prototipagem

referência...) para adquirir contexto e contato com agentes familiarizados com violência doméstica;

• Entrevistas com pessoas-público para perceber como

abordagem de design

materiais gráficos sobre o assunto dialogam com seus repertórios.

Teste & Implementação

M U DA N ÇA S OCIA L

Sintetizar/Definir: tendo angariado conhecimento sobre o problema, converge-se novamente, desta vez para sintetizar o que foi descoberto e direcionar esta informação para possíveis soluções, através de análises e insights. Opções de caminhos são traçados nesta fase. São procedimentos pertinentes à fase:

• Análise de similares; • Síntese das entrevistas realizadas. Figura 7. Método. Fonte: Autora.


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Ideação/Desenvolvimento: momento de gerar. Novamente é uma fase de expansão porque geram-se alternativas de soluções, e a liberdade de criação deve ser grande. Experimenta-se com as linguagens, estratégias e abordagens analisadas e definidas anteriormente. São procedimentos da fase:

• Geração de alternativas; • Experimentação; • Chuva de ideias. Protótipo: uma opção passa por análise - o quanto se encaixa na proposta, qual caminho seguiu, feedback das pessoas - e é escolhida para refinamento e desenvolvimento, para tornar-se um protótipo sólido para testagem mais intensa.

• Entrevista com as pessoas-público: colher julgamento sobre as alternativas;

• Prototipagem (modelo finalizado para teste).

• Teste com as pessoas-público (dar nota ao material); • Nova prototipagem; • Implementação.

No Double Diamond original, algumas ideias já teriam sido geradas na fase anterior, e nesta fase seriam filtradas. Mas tratando-se de HDC, o aprofundamento no contexto toma maior parte do projeto, porque o processamento da situação pesa mais do que o “normal” na adequação do projeto ao problema.

TCC 2018

Teste e entrega: fase final, em que testa-se o protótipo desenvolvido com as pessoas que vão interagir com ele, quais são suas reações e suas opiniões a respeito do que foi criado. Esses dados são então usados para iteração, chegando a um resultado melhor e que será mais aceito pelas pessoas, pois seus pensamentos foram relevantes para a formatação final. Por fim, o material refinado é produzido e implementado, chegando ao objetivo: mudança social. No entanto, essa fase do processo não será contemplada no âmbito do TCC.


c a


p í t u l o

pesquisa De forma a conhecer e compreender o problema da violência doméstica e formas de abordá-lo, neste capítulo reúnem-se as pesquisas realizadas para fundamentar o trabalho aqui proposto. Além de relatos a respeito de visitas de campo relacionadas ao projeto, este tópico busca situar em quais eixos teóricos se fundamentará este projeto. Realiza-se revisão dos tópicos com os quais se relaciona. Divide-se a fundamentação teórica em dois eixos: conceitual e contextual. No eixo conceitual, de forma a fundamentar a metodologia a ser seguida, revisam-se: a desconstrução, o discurso, o design social como abordagem teórica e o design centrado no humano como abordagem metodológica. No eixo contextual, de forma a situar os contextos que permeiam este projeto, se discorre sobre a violência doméstica contra a mulher no Brasil e o espaço público e suas significações.


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2.1 Relatos de campo Como relatos de campo, realizaram-se algumas visitas a órgãos públicos do sistema de combate e atendimento à situações de violência doméstica. Não haviam objetivos ou intenções definidas nas visitas, apenas reconhecimento, experiência e busca por informações de profissionais da área. Encontram-se, entre eles:

Compareci à uma palestra para estudantes, que acontece mensalmente na Casa. Haviam muitos estudantes de direito presentes, então a palestra foi mais direcionada à questões legais, um pouco à Lei Maria da Penha e ao funcionamento da casa. Foi valioso para mim ver de perto um órgão do sistema de enfrentamento à violência doméstica. Sua existência está prevista na Lei Maria da Penha desde sua criação em 2006, mas uma CMB só foi construída em Curitiba em 2015. Considerando que a cidade é a capital de um estado com relativa vantagem em infraestrutura comparado a maioria dos demais da federação, é possível perceber o quanto ainda não foi feito para apoio das vítimas, combate e prevenção à violência doméstica. É um local que reúne todos os dispositivos previstos em lei que podem ser acionados pela mulher no momento da denúncia. A CMB possui acolhimento e triagem; apoio psicossocial; delegacia da

A Casa [...] facilita o acesso aos serviços especializados para garantir condições de enfrentamento da violência, o empoderamento da mulher e sua autonomia econômica. É um passo definitivo do Estado para o reconhecimento do direito de as mulheres viverem sem violência. (SPM, s. p.) É importante notar, no entanto, que a Casa não atende à mulheres da região metropolitana da cidade, somente residentes em Curitiba. Isso gera um problema grande porque a razão de ser da CMB é facilitar que a mulher denuncie a agressão que sofreu e continue o processo com todo apoio que pode ter em um só local, já que para muitas mulheres é penoso o deslocamento entre um órgão e outro, ou ainda dependem do agressor para se locomover. Um local como a CMB se faz muito necessário por conta do atendimento humanizado, pois é comum que – mesmo hoje em dia, passados 12 anos da implantação da Lei Maria da Penha – nas delegacias haja atendimento inadequado às vitimas, onde policiais homens

TCC 2018

Casa da Mulher Brasileira (CMB) // 29/09/2017 Av. Paraná, 870 - Cabral, Curitiba

mulher; Juizado; Ministério Público, Defensoria Pública; promoção de autonomia econômica; cuidado das crianças – brinquedoteca; alojamento de passagem e central de transportes. A SPM (Secretaria de Políticas para as Mulheres) em seu site oficial descreve a casa como inovação no atendimento humanizado à mulher:


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pesquisa

agem com agressividade, tomam depoimento sem privacidade alguma, ou ainda funcionários despreparados desencorajem a mulher a abrir uma denúncia contra o agressor.

TCC 2018

Centro de Referência de Atendimento à Mulher em Situação de Violência (CRAM) // 30/05/2018 Rua do Rosário, 144 - Centro, Curitiba Já no Centro de Referência de Atendimento à Mulher em Situação de Violência, em sigla, CRAM, minha visita foi mais informal. Solicitei por telefone visitar o centro para colher entrevistas sobre a amostra de similares coletadas, mas a oportunidade me rendeu opiniões e informações valiosas das profissionais. Conversei com duas psicólogas, duas assistentes sociais e uma advogada. Pelo que pude perceber, o CRAM trata do apoio e atendimento à longo prazo para a mulher em situação de violência. Enquanto na CMB o apoio é mais episódico ou pontual, até mesmo emergencial, o trabalho no CRAM é contínuo. Uma psicóloga me explicou que só com ela tratavamAliás, pude se pelo menos 5 mulheres, notar entre as algumas há bastante tempo, profissionais o não uso da e que recebiam no Centro palavra “vítima”. encaminhamentos da CMB. Entre minhas perguntas estava, “em uma campanha, é melhor dirigir-se à mulher agredida ou ao agressor?”. Todas elas, sem exceção, me disseram que era necessário trabalhar com os dois, ressaltando para a importância de tratar o homem que agride mulheres de seu círculo íntimo. Em entrevista, lembro de ter lido que Maria da Penha Fernandes afirma que a lei batizada em sua homenagem prevê também a recuperação do agressor, porque punir sem

reeducar é podar folhas sem cortar o mau pela raiz. As psicólogas foram recorrentes em apontar que alguns agressores agem assim por ter tido exemplos de figuras masculinas agressivas na infância, entre outros elementos complexos que podem levar à violência doméstica. Uma delas chegou a me informar que o CRAM atende atualmente dois homens, mesmo porque algumas mulheres não desejam se separar da pessoa que as agrediu, mas sim que essa pessoa mude de verdade e não faça mais isso. Uma das psicólogas conta ter retirado das paredes cartazes sobre violência doméstica que retratavam mulheres machucadas ou tristes. Segundo ela, fazia muito mal para a mulher que chegava ao lugar pela primeira vez, embora surpreendesse outras pessoas. Relata ter ouvido “mas esse tipo de coisa acontece mesmo?”, se referindo aos machucados. Hoje em dia, por falta de melhores recursos, as profissionais cobriram a parede de entrada com folhas de papel, e por cima delas fixaram flores amarelas. Tentam ao máximo oferecer um ambiente confiável e aconchegante. Possuem também uma área com mesinhas e brinquedos para crianças que acompanham as mulheres nos atendimentos. Os materiais gráficos do CRAM retratam mulheres serenas, reflexivas, mas não machucadas ou tristes. Quando perguntei abertamente à uma psicóloga como eu poderia abordar o problema em materiais gráficos de rua, ela me sugeriu que trabalhasse o empoderamento da mulher, fortalecendo sua autoestima e incentivando sua independência através de mensagens que as atinjam inesperadamente. Desta forma, percebi que é possível e necessário englobar não só as pessoas “de fora” do problema que toleram sua existência, mas sim abordar a mulher em situação de violência e os agressores.


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Dessas visitas, foi possível confirmar que, como conceituação, incentivar a denúncia de violência doméstica não é o suficiente se a própria lei enfrenta obstáculos por conta da problemática não ser levada a sério. É preciso agir de forma a desnaturalizar a violência doméstica. Foi possível confirmar através das opiniões das profissionais que essa desnaturalização deve ser trabalhada com vários lados do problema, e de formas diferentes: com a mulher, através de sua valorização e empoderamento, com a pessoa que agride, mostrando que o que ele faz é errado, e com a testemunha que tolera, mostrando que ela deve “meter a colher”.

2.2 Conceito

• Análise de similares: serão coletados materiais que se configurem similares à intenção deste trabalho de mudança de paradigma, que tangenciem assuntos como mulheres, conjugalidade, violência e intimidade. Na análise da amostra, se buscará identificar qual discurso a peça ataca ou reforça e qual estratégia utiliza para isso;

• Geração: na geração de alternativas para o material, serão elencados fatores e enunciados que naturalizam a violência contra a mulher, e serão geradas opções de materiais para cada fatos/ enunciado. Por exemplo, a opção 1 atacaria a masculinidade, já a opção 2, a culpabilização da vítima. Caso se consiga denunciar ou subverter vários fatores em uma alternativa só, essa terá mais chances de ser escolhida. Já o design para mudança social guiará de forma similar as escolhas a serem tomadas no processo criativo. Uma vez que o projeto caracteriza-se social por ter como propósito primeiro a melhora do cenário de alta tolerância social quanto à violência doméstica contra a mulher, este será sempre o fator que definirá decisões:

• Guiará escolhas de alternativas; • Abordagens de desenvolvimento participativo; • Testes com usuários.

TCC 2018

Neste eixo da fundamentação teórica, serão expostas as abordagens que guiarão o desenvolvimento do projeto. Um ponto central é a adoção da postura de desconstrução na conceituação do trabalho. O tópico 1, Desconstrução e discurso, detalha pressupostos e definições para a compreensão da abordagem. Para fins metodológicos, detalha-se que esta postura estará presente no processo criativo do seguinte modo:


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pesquisa

2.2.1. Da [falsa] naturalidade: Desconstrução e discurso

TCC 2018

Com o objetivo de desnaturalizar a violência doméstica contra a mulher, assim enfraquecendo a tolerância social que a circunda e impede avanços em seu combate, pressupõe-se na conceituação deste trabalho que nada é natural. Esta é uma noção importante no cenário da violência doméstica porque as raízes da tolerância social são associações, costumes e ideias tidas como verdadeiras por serem naturais ou até divinas. Todas essas associações são, na verdade, convenções estabelecidas ao longo da história de forma a criar verdades e, portanto, não têm a suposta legitimidade “natural” que aparentam ter, porque foram construídas. E para alcançar-se algum grau de desnaturalização, é preciso desconstruir essas convenções, procurando perceber o que as fundamenta. O pressuposto de que de que tudo é fabricado tem origem no pensamento de teóricos do chamado pós-estruturalismo, que embora não seja uma escola da filosofia ou movimento propriamente dito, agrupa autores como Jacques Derrida, Michel Foucault e Roland Barthes. O que eles propõem, de forma geral, é que as verdades são fabricadas, isto é, os significados das coisas são arbitrários e construídos, e estão em constante ressignificação; para que entendamos tal fenômeno, devem ser reconhecidas as formas como são construídos significados, verdades e discursos (dominantes) na sociedade. No cenário da violência doméstica contra a mulher, podemos enxergar esse fenômeno claramente através da teoria dos discursos, elaborada por Foucault (1969), a ser retomada mais adiante. Ele considera que um discurso é formado de diversos enunciados, que podem ser percebidos como conceitos, sensos comuns com base em costumes, ditados, conhecimentos populares. Elenquemos então, aleatoriamente, alguns enunciados advindos do senso comum, que constituem o discurso da violência doméstica como natural, buscando perceber como foram construídos: 1. A mulher está subordinada ao homem No âmbito do matrimônio, este enunciado tem raízes religiosas, visto que na religião cristã acredita-se, em teoria, que a mulher deve ser obediente a seu marido. Mais do que isso, a história contada na Bíblia pode ser utilizada para construir a ideia de mulher como produto secundário da criação, já que teria sido criada da costela do primeiro homem para lhe fazer companhia. Não bastasse isso, a primeira mulher citada na Bíblia, Eva, acaba por ser culpada pela expulsão de si mesma e Adão do paraíso, começando assim a fundamentar a culpa e suscetibilidade femininas. Considerando que 86,6%1 da população brasileira é cristã, mesmo que dividida em diferentes vertentes, valores como estes


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influenciam parcela significativa da população. Outra noção popular comum que funciona bem como exemplo da fabricação de verdade é o dito popular de que homem que bate em mulher é covarde. Mesmo um enunciado como este, que em primeira leitura parece fazer oposição à naturalização da violência contra a mulher, atentemos para o fato de que o homem que agride uma mulher é um covarde não porque ele agride, mas por ser homem. E bater em uma mulher. Não questionando, portanto, a corrupção de um relacionamento amoroso, mas reforçando o conceito de que o homem, um ser superior, não deve agredir alguém que não é “de seu tamanho”, que não é seu igual, em outras palavras, alguém inferior.

3. A mulher é culpada pela agressão Esse enunciado é diariamente reforçado quando, ao saber de um caso de violência doméstica, (principalmente de violência física, que é mais episódica) alguém pergunta “o que ela fez?”, supondo assim que não existem motivos para uma agressão ter ocorrido senão alguma ação da agredida. Se constrói também a culpa da mulher quando, por motivos financeiros, emocionais ou de qualquer outra ordem ela não se separa do agressor, e supõe-se então que “gosta de apanhar”. Esta noção em especial contradiz o enorme “zelo” que a sociedade brasileira tem demonstrado pela família: reivindicase a manutenção da família acima de tudo, mas ainda assim, espera-se de uma mulher agredida que ela dissolva seu núcleo familiar sem hesitar quando agredida. A família deixa de ter importância perto da chance de julgar a mulher em situação de violência. Além da culpa, ela acaba tendo sobre si a responsabilidade de resolver o conflito, movendo a denúncia. Se não o faz, aumenta sua suposta “cumplicidade” na agressão. Estes enunciados contribuem na falta de questionamento sobre noções comuns a respeito da violência doméstica; fazem parecer que as relações abusivas e diferenças de poder entre homens e mulheres são naturais e, consequentemente, legítimas. Somados ao caráter capcioso e naturalizante do discurso, apresentam-se ainda, como fatores para o estabelecimento de verdades via dissimulação, o mito e a mistificação. O conceito de mistificação é discutido na análise que John Berger (1972) faz da tradição da pintura europeia. Tomemos como objeto

TCC 2018

2. A masculinidade e os instintos masculinos O status do agressor como homem covarde acima citado também reforça a fabricação do modelo do que é masculino ou não. O ditado do homem covarde pressupõe que o homem é sempre forte, física ou moralmente. Podemos considerar também os conhecidos estereótipos de virilidade, insensibilidade, provedor, pilar da família. Um ditado comumente dito de pais de meninos para pais de meninas sobre seus filhos, “segurem as suas cabritas porque o meu bode está solto”, exemplifica esse conceito de homem muito viril, e acima de tudo, incontrolável, que age apenas por instinto, seguindo sua “natureza”. São enunciados como este, de instintos e características ditas masculinas, que são utilizados para naturalizar a agressividade excessiva de alguns homens e, ainda, afirmar que as mulheres são simples e inevitavelmente passíveis de seu ataque.


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pesquisa

Figura 9. Pigmalião e Galatéia,

TCC 2018

de Jean-Léon Gerome.

a obra Pigmalião e Galatéia (fig. 9), de Jean-Léon Gerome, para ilustrar o que Berger sustenta. Analisando pinturas de nus femininos, John Berger constatou que essas obras moldaram o modo de ver mulheres ainda hoje, como algo a ser visto. Partindo da noção de que a nudez é constatada nos olhos de quem vê, o espectador tem grande papel na pintura de um nu. Segundo Berger, o modo como as mulheres eram retratadas em nus — lânguidas, em poses que expunham seus corpos e olhando para fora da pintura — indicam que o espectador esperado era homem e heterossexual. Criou-se então um cenário em que o pintor/ dono/espectador era homem enquanto a retratada como objeto era mulher, gerando papéis de observador e vista a ser observada (BERGER, 1972). Na pintura do aclamado pintor academicista europeu, a cena representada é a transformação de Galatéia, de estátua em mulher. Esculpida por Pigmalião para ser a mulher perfeita, ele se apaixona pela própria criação, que é transformada pelos deuses em ser vivo sob pedido do escultor. Na pintura, esse papel divino é representado por Cupido prestes a atirar sua flecha em um deles. Essa pintura sintetiza o que Berger propõe no sentido em que não só a atenção da mulher nua está dirigida para o homem como ele é sua razão de existir: ele é seu criador e ela, seu objeto. A mistificação ocorre quando a relação detentor/ objeto = homem/mulher é naturalizada pelo elemento do amor, representada pelo cupido.

Para Berger, a mistificação é a ocultação de explicações sobre determinada configuração presente que se fundamentou no passado. Ele argumenta que a arte tem sido em geral mistificada porque ao se observar algo sob o rótulo ‘obra de arte’, não se interpreta aquela imagem como passado que explica o presente, como registro histórico que as imagens em geral são (BERGER, 1972). No caso de Pigmalião e Galatéia, é uma obra de arte que contribui para o modo, anteriormente citado, de tratar mulheres como vistas; porque sob um olhar mistificado a nudez feminina nesse quadro apresentase como mera representação do corpo de uma bela mulher que desperta uma paixão. Mas em maior detalhe, documenta e reforça relações desiguais entre homens e mulheres. [...] O medo do presente conduz à mistificação do passado. O passado não é para se viver nele; mas um poço de onde tirar conclusões que fundamentam ações. Mistificação cultural do passado implica em uma dupla perda. Obras de arte são desnecessariamente feitas remotas. E o passado nos oferece menos conclusões a serem completadas pela ação (BERGER, 1972, p. 11).


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Já o mito, conceito introduzido por Barthes em Mitologias (1957), aborda também, de certa forma, o mesmo fenômeno de ocultação de explicações para fabricação de verdade. Barthes define o mito como um “sistema de comunicação”, uma mensagem que funciona através de um “sistema semiológico segundo”. Isto é, em uma cadeia semiológica preexistente (significante + significado = signo), ocorre a apropriação do signo desta para transformálo em um novo significante, assim começando uma nova cadeia e distorcendo a imagem da original por trás dela.

Figura 10. Funcionamento do mito. Fonte: Autora.

Consideremos como exemplo um anúncio da fabricante de carros Volkswagen, (fig. 11) de data desconhecida, que se apropria da distribuição desigual de tarefas no dia-a-dia de um homem e uma mulher que aparentam formar um casal. O homem tem um carro (significante primário) porque se presume que ele seja mais ocupado que a mulher (significado primário), e a propaganda argumenta que a mulher vai a muitos mais lugares em um dia do que ele (significado novo), por isso merece ter um carro só para ela. Neste caso, o mito ocorre Figura 11. Anúncio da Volskwagen, aproximadamente de 1970.

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Embora Barthes afirme que o mito nada esconde, apenas distorce (p. 120), a distorção causada pode acabar por omitir ou ocultar explicações no processo, configurando-se similar à mistificação. Mas, diferentemente desta, o mito fala abertamente daquilo de que se apropria, aponta o assunto com clareza, mas efetuando antes uma “lavagem” que acaba por tornar o discurso inocente, natural (BARTHES, 1957). Consoante Barthes, o princípio do mito é transformar história em natureza (p.128).


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quando o anúncio apresenta mais tarefas no dia da mulher, tanto de ordem do lar quanto de ordem “feminina”, insinuando desigualdade (signo que sofrerá apropriação), mas transforma o signo de desigualdade em signo de necessidade (portanto, novo signo) que a mulher tenha um carro só para si, passando assim por cima de construções históricas para apresentar um dilema inocente (mítico) que pode ser facilmente resolvido através do consumo. O mito é caracterizado então pela perda de qualidade histórica, por distorcer a dependência de contextos históricos e sociais (BARTHES, 1957). Nesse sentido, o mito é uma fala despolitizada, mas, obviamente, usada para fins políticos por “organizar o mundo”, assim fabricando verdade:

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Na passagem da história para a natureza, o mito age economicamente: abole a complexidade dos atos humanos, deixando-lhes a simplicidade da essência, dando fim à dialética, [...] organiza um mundo desprovido de contradições porque é desprovido de profundidade, um mundo aberto a chafurdar no evidente, estabelece uma claridade feliz: as coisas aparentam significar por si mesmas. (BARTHES, 1957, p. 143) Já quanto ao entendimento de Foucault (1969) de fabricação de verdade, para ele, o discurso é simultaneamente meio e produto desta fabricação. E, para esse fim, tanto exerce quanto sofre uma função de controle, de limitação e de validação de regras de poder (FOUCAULT, 1970). Foucault (1969) encara o conhecimento em geral como construção histórica, que possui por trás de si um discurso que justifica sua existência. Isto é, o que se investiga está sendo construído pela própria investigação, porque se todo conhecimento é um discurso, e os discursos aceitos (isto é, dominantes) fabricam a verdade que lhes convém, assim legitimam ou não uma série de conceitos acerca de si mesmos, incluindo motivos para sua própria existência (FOUCAULT, 1969). [...] Essas formas prévias de continuidade, todas essas sínteses que não problematizamos e que deixamos valer de pleno direito, é preciso, pois, mantê-las em suspenso. Não se trata, é claro, de recusá-las definitivamente, mas sacudir a quietude cora a qual as aceitamos; mostrar que elas não se justificam por si mesmas, que são sempre o efeito de uma construção cujas regras devem ser conhecidas e cujas justificativas devem ser controladas; definir em que condições e em vista de que análises algumas são legítimas; indicar as que, de qualquer forma, não podem mais ser admitidas. (FOUCAULT, 1969, p. 28) Portanto, o que Foucault propõe ao analisar o discurso é que estejamos atentos a esta fabricação, procurando sempre enxergar o que há por trás das verdades que constroem, e que tenhamos consciência do discurso - ou melhor, discursos, alguns dos quais se contrapõem aos dominantes, de forma a substituir uma verdade por várias. Por fim, o conceito de desconstrução, de Derrida, apresenta-se aqui como teoria mais afinada aos objetivos do trabalho. Partindo do pressuposto de que o pensamento e sociedade


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ocidentais são construídas em cima de oposições, como original/cópia, natureza/cultura, Derrida (1973) introduz a desconstrução como modo de investigação para que notemos que estas oposições não existem de fato. Para que o conceito de algo “natural” exista, é necessária a existência do seu oposto “cultural” para que, em teoria, entendamos o que o primeiro não é. Entretanto, os termos na verdade habitam um no outro se considerarmos que é natural na humanidade a formação de cultura, e a cultura é o que define, propriamente, “natureza humana”. O que Derrida (1973) propõe, grosso modo, é um olhar de complexidade: desconstruir não é o mesmo que destruir, mas sim enxergar a construção. Costuma-se dizer que a atitude desconstrutiva é negativa. Algo foi construído, um sistema filosófico, uma tradição, uma cultura e lá vem um desconstrutor e destrói a construção, pedra por pedra, analisa a sua estrutura e a desfaz. Muitas vezes é isso o que acontece. Observa-se um sistema – platônico/hegeliano –, examina-se como foi construído, as suas pedras fundamentais, o ângulo de visão que lhe dá sustentação e, então, o modificamos e nos libertamos da autoridade do sistema. Creio, porém, que não é esta a essência da desconstrução. (DERRIDA, 2006, p. 168)

No caso deste trabalho, escolheu-se abordar o anestesiamento dentro do relacionamento violento como fator naturalizante para a violência doméstica. De acordo com Fabrício Guimarães (2015), estudando homens que praticaram violência doméstica, foi possível perceber que tanto agressores como vítimas encontravam-se anestesiados em seus relacionamentos abusivos, não sendo capazes de reconhecer a violência que exerciam ou sofriam como violência, ou como algo errado, para começar. Por isso, escolheu-se, ao final do trabalho, desnaturalizar por meio de peças que tenham como principal objetivo caracterizar a violência doméstica acontecendo, para que todos os atores envolvidos na situação sejam auxiliados a identificar e reconhecer o que se passa com eles.

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Enxergando a construção dos significados culturais seria possível constatar relações, subordinações e contradições (DERRIDA, 2006) que se manifestam em discursos, mitos e mistificações. Sob esse prisma, para desconstruir um problema como a violência doméstica contra a mulher, é necessário aplicar essa postura investigativa, abordando o problema de forma a buscar dentro dele quais são os elementos que mais naturalizam este tipo de fenômeno e, a partir disso, procurar quais são as relações que podem ser denunciadas ou subvertidas para que a fabricação desta naturalidade seja exposta.


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Aplicações

Figura 12. French Currents of the Letter, 1978. Fonte: Aiga Design Archives.

As ideias do pós-estruturalismo, surgidas no campo da filosofia e dos estudos linguísticos, começaram a se espalhar para áreas como arquitetura, arte e design. No caso do design gráfico, a Cranbrook Academy of Art foi expoente dessa adoção por volta dos anos 1980, sob coordenação de Katherine McCoy. De acordo com Abbott Miller e Ellen Lupton (1999, p. 7), alunos da Cranbrook na época, “a teoria [da desconstrução] era tanto formação intelectual para a expressão abstrata quanto objeto de pesquisa”. Em entrevista que Katherine McCoy concedeu para os alunos, ela define o pósestruturalismo no design como uma postura, e não um estilo (LUPTON; MILLER, 1999, p. 8). O primeiro contato da Cranbrook com a desconstrução teria sido, segundo Lupton e Miller (1999), a edição French Currents of the Letter do periódico Visual Language, de 1978, dos designers Richard Kerr, Alice Hecht, Jane Kosstrin, e Herbert Thompson (fig. 12). O material foi concebido em decorrência de um seminário sobre teoria literária. O periódico era sobre a estética literária francesa contemporânea, e incluía ensaios sobre tipografia e desconstrução. O que os designers fizeram ali foi “desintegrar” os ensaios, aumentando gradualmente os espaços entre as linhas de texto e as letras das palavras, com isso trazendo as notas de rodapé para o espaço do texto principal. O que o design desse periódico fez, portanto, foi rejeitar e subverter relações convencionais do design moderno (LUPTON; MILLER, 1999).


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É possível reconhecer influências e manifestações visuais da desconstrução no trabalho de vários artistas e designers, como Sherrie Levine, Kurt Schwitters, e Rico Lins, por exemplo. Sherrie Levine é uma artista e feminista que ficou conhecida, por volta dos 1980, por trabalhar com a apropriação de trabalhos artísticos de renomados autores homens, questionando a noção de autoria e de originalidade da obra de arte, bem como criticando o status de “artista gênio”, historicamente reservado a homens no mundo da arte. Na figura 13, nomeada After Monet, da coleção Meltdown, Levine fotografou uma obra do artista Monet, digitalizou, reduziu sua resolução para 12 pixels e imprimiu, eliminando qualquer característica ou detalhe da pintura original. (MoMA, s. p.) Figura 13. After Monet, de Meltdown. Sherrie Levine, 1989. Fonte: MoMA

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Kurt Schwitters, artista que explorou diversas formas de arte e também o design gráfico ficou conhecido pelas colagens que fazia, apropriando-se de imagens comuns mas também de materiais gráficos do dia-a-dia comumente descartados, destituindo-os de sua função e deslocando o significado que suas matérias primas um dia tiveram. Como objetos um dia usados, se relacionam fortemente com a época que os gerou. (TATE, s. p.)

Figura 14.Opened by Customs. Kurt Schiwitters, 1937. Fonte: tate.org.uk.


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Rico Lins também desenvolveu trabalhos que jogam com ressignificação e deslocamento de conceitos, tanto é que reconhece Kurt Schwitters como forte referência para si (RESING, 2012). O trabalho de Lins é famoso pela aparência transgressora, que de certa forma se assemelha ao estilo de David Carson mas, como já apontado por McCoy, não é o que representa desconstrução. Segundo Daniela Resign (2012), Lins se utiliza de imagens dissociadas de forma anacrônica, misturando-as para construir ou desconstruir novos conceitos. Um de seus trabalhos mais icônico são os cartazes ‘seja marginal, seja herói’, assemelhados a cartazes lambe-lambe, que se apropria da frase de Hélio Oiticica. O primeiro exemplar da série foi um cartaz para a exposição sobre a cartazes brasileiros “Brasil em Cartaz” em 2005, que deu origem, anos mais tarde, à exposição “Marginais Heróis”, em que Rico criou diversos cartazes sobrepondo a frase à fotos de pessoas que teriam sido marginalmente heroínas (figura 15). Figura 15. Seja marginal, seja herói. Rico LIns. Fonte: Universidade Positivo

Barbara Kruger, designer gráfica, explorou e ainda explora artisticamente as ideias do pós-estruturalismo de construção social da verdade através da denúncia dessa fabricação, relacionando e expondo problemas como o sexismo e o consumismo. Para isso, ela se apropria de enunciados e lugares comuns publicitários, juntando palavras com imagens fora de seu contexto primeiro. Ou seja, a postura pósestruturalista vai além da atuação de elementos formais no processo criativo do design, e age mais de forma mais a re-situar conceitos, para assim questionar o lugar da peça desenvolvida dentro de um determinado contexto. O contexto que gerou a peça é exposto e dele se utiliza para a criação de algo novo. Figura 16. Sem título, Barbara Kruger. Fonte: WikiArt.org


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Considere-se a peça de Kruger (fig. 16) em que lê-se “not stupid enough” (não burra o suficiente), que data aproximadamente de meados dos anos 1980. Kruger utiliza a imagem de Marilyn Monroe, símbolo de sensualidade feminina nos anos 1960 nos Estados Unidos, rodeada de enunciados que formam o discurso de expectativas que oprimem mulheres, ditando como devem ser. Ao redor de Monroe lê se: “Não irônica o suficiente”, “Não boa o suficiente”, “Não magra o suficiente”, e “Não nada suficiente”. Esta postura reconhece o design, além de questionador ou crítico, como detentor de significação cultural. Lupton e Miller argumentam que este reconhecimento é algo que tem sido deixado de fora em abordagens modernistas de análise que, baseadas na teoria da Gestalt, favorecem um “foco na percepção em detrimento da interpretação” (1999, p. 62) na peça de design. Uma teoria do design que isola a percepção visual da interpretação linguística encoraja a indiferença da significação cultural. Embora o estudo da composição abstrata seja impassível de objeção em si, os aspectos linguísticos e sociais do design são trivializados ou ignorados quando a abstração é colocada como foco primário ao se pensar o design. (LUPTON; MILLER, 1999, p. 62)

Um caso muito condizente com os pressupostos aqui tratados é o projeto “Se as casas falassem”, desenvolvido pelos estudantes Catharina Mendonça, Bernardo Sande e Gabriel Azevedo, da Miami AdSchool em São Paulo. O projeto consiste em disponibilizar dados sobre a violência doméstica contra a mulher no Brasil em fachadas de casas da cidade, utilizando como parte da intervenção os números das casas. A descrição do projeto manifesta, em sua página do Instagram: “Da porta para dentro, o silêncio das vítimas esconde a violência doméstica. Da porta para fora, os números gritam por socorro. Denuncie. Ligue 180”. Se diferencia dos exemplos prévios fornecidos porque claramente não adota uma “estética” desconstrutora ou subversiva. A intervenção desconstrói as noções de privacidade doméstica quando subverte a imagem da casa como âmbito privado e neutro em cúmplice e cenário da violência, que denuncia em seus muros o que os atores desejam esconder. Figura 17. Intervenção do projeto. Fonte: Instagram/seascasasfalassem

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Por isso, a abordagem da desconstrução e do discurso são fundamentais neste trabalho: para expor as fabricações sociais que naturalizam a violência doméstica. Objetiva-se desenvolver peças que desestabilizem, denunciem ou ao menos evidenciem criticamente esse processo.


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2.2.2. Design para mudança social Existem profissões mais prejudiciais do que o design industrial, mas apenas poucas

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delas. E, possivelmente, só há uma profissão mais impostora: o design publicitário, ao persuadir pessoas a comprarem coisas de que não precisam, com o dinheiro que não têm, para impressionar pessoas que não ligam. [...] O design industrial, tornando realidade as idiotices inventadas pelos publicitários, vem logo atrás. (PAPANEK, 1971, p. 4, tradução nossa.) Victor Papanek, em 1971, causou grande impacto na comunidade do design com a publicação do livro Design for the Real World: Human Ecology And Social Change. A citação acima encontra-se no prefácio do livro, e exemplifica bem o teor da crítica de Papanek à prática do design. Ao seu ver, o design industrial está no cerne do consumismo e outros problemas consequentes, como altos níveis de poluição, produtos mal feitos e rapidamente descartados; que culminam na destruição do meio ambiente. Sendo o design promotor e produtor do consumo desenfreado, Papanek propôs um design socialmente e ecologicamente responsável, e isso foi uma grande novidade na época. Era necessário reconhecer o impacto negativo do design no mundo, projetar produtos bem feitos e que atendessem a necessidades reais; para tanto, propôs diferenciar o tipo de trabalho em que um designer deveria empenhar seus esforços ou não: trabalhos em setores como educação, saúde pública, promoção de cultura e tudo mais que não tivesse

como motivação principal o lucro financeiro (PAPANEK, 1971). O ponto de vista de Papanek neste livro é do design de produto, mas ideias muito semelhantes às dele podiam ser encontradas em meio a designers gráficos da época. O primeiro e mais notável foi o manifesto First Things First, de Ken Garland. Publicado em 1964, é praticamente equivalente à crítica de Papanek, conclama os designers gráficos a uma mudança de prioridades: deixar de lado trabalhos de venda de produtos inúteis para desempenhar atividades mais importantes - como sinalização, trabalho editorial, manuais de instrução, anúncios educativos, etc -, coisas que, para Garland, promoveriam “o comércio, a educação e a cultura e uma consciência maior do mundo” (GARLAND apud BIERUT et al., 2010, p. 163). O manifesto não defendia, portanto, o fim da publicidade e trabalhos de design comerciais, não considerava que isso fosse possível, e nem o queria. O ponto era dar prioridade para trabalhos mais “úteis e duradouros”, primeiro o mais importante.


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É notável, em falas como as de Garland (1964), Herbert Spencer (1964) e Gui Bonsiepe (1965)1, a mesma negação e saturação da cultura de venda e de publicidade maciça, que acabara por surgir na europa pós-guerra em decorrência da passagem de uma economia de escassez para uma de prosperidade. O que todos criticam, acima de tudo, é a frivolidade dos produtos promovidos, sua falsa novidade, e o incessante estímulo ao consumo. Herbert Spencer critica os “designer de designers”, profissionais que produziam belos layouts para agradar seus pares, sem preocupação alguma com a adequação a um propósito ou a qualidade do serviço que seu trabalho prestava a seus usuários. Fora este tipo de profissional, reconhece que o design gráfico vinha amadurecendo como atividade, e com isso acarretando responsabilidades. Argumenta que grande parte dos conhecimentos e avanços da área provém de trabalhos corporativos, financiados por interesses comerciais “legítimos”, mas afirma que o design gráfico pode contribuir de maneira mais direta para a “saúde e felicidade da sociedade” e por isso não deve se limitar à atuação puramente comercial, estando atentos a suas oportunidades e deveres de ação (SPENCER apud BIERUT et al., 2010, p. 169). Gui Bonsiepe vai um pouco além, diferenciando comunicação persuasiva e não persuasiva. No âmbito persuasivo se encontraria a publicidade, tentando convencer e influenciar escolhas dos consumidores. Do outro, a comunicação

não persuasiva: sinalizações, mensagens e materiais educativos, avisos e advertências, representação visual de fatos científicos. Segundo o autor, “A questão não é persuadir ou não persuadir [...] e sim as intenções que estão por trás disso.”. Ele reconhece que os interesses comerciais nem sempre coincidem com os da sociedade, e assim invoca designers a reconhecerem sua responsabilidade social, não sendo ingênuos ao acreditar que a produção e distribuição de bens diz respeito apenas ao mundo dos negócios, mas tem impacto direto na sociedade porque, para Bonsiepe, “a indústria da comunicação molda a mente dos membros da sociedade” (BONSIEPE apud BIERUT et al., 2010, p. 176). Por fim, apresenta as atividades da comunicação não persuasiva como oportunidades e desafios para o designer visual, casos em que a motivação principal não é a econômica (BONSIEPE apud BIERUT et al., 2010, p. 176). Embora não tocassem no termo “design social”, é o conceito que esses autores insinuam de responsabilidade social do designer que é comumente invocado ao se pensar uma prática social de design. Mas além disso, o elemento de propósito, intenção e dignidade dos fins está fortemente presente no tipo de design que queriam elevar. Citando projetos de fins educativos e informacionais, acabam por reforçar o conceito de design social criado pelas ideias de Papanek: se existe um design social, presume-se que existe também um design que não é social,

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Imagino como eles sofreriam nos dias de hoje, já que 50 anos depois de suas manifestações a publicidade ficou ainda mais forte e mais insistente com as novas possibilidades que os meios digitais trouxeram: pulam na frente do conteúdo que o indivíduo quer ler, lotam caixas de e-mails, aparecem a cada 10 minutos no meio de vídeos. E há quem tente escapar, com aplicativos que bloqueiam anúncios. Como represália à nossa fuga da publicidade, alguns sites não permitem acesso a seus conteúdos a menos que o bloqueador seja desligado. Ora, o modelo de funcionamento da internet hoje está fundamentado em anúncios publicitários: podemos usar e abusar do conteúdo e serviços online, contanto que visualizemos anúncios de publicidade. O único consolo que vejo é que a publicidade tentou ao menos ficar mais interessante: é engraçada, ou lida com movimentos sociais, faz alguma coisa útil pra alguém. Mas não deixou de ser irritante.

1 // Todos os quatro textos estão disponíveis em BIERUT et. al, 2010.


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comumente identificado como design voltado para o mercado. Essa oposição, embora um tanto polêmica, é comum na comunidade do design. Em contrapartida, surge uma outra forma de encarar o design e sua instância social. De acordo com Joaquim Redig, o termo “design social” é pleonasmo (REDIG apud BRAGA, 2011, p. 92). Para ele, todo design é social, no sentido de ser para a sociedade; e argumenta ainda que, se um projeto não é para a sociedade, não é design. Parte do mesmo pressuposto Marcos Braga (2011), em seu livro O Papel Social do Design Gráfico: “o design foi e é essencialmente social na medida em que sua finalidade é o projeto para outrem e que foi e é fruto dessas aspirações” (BRAGA, 2011, p. 21). Essas concepções definem o design como prática social em si, não importa o tipo de projeto. Esse posicionamento vai, aparentemente, de encontro com a oposição ferrenha de Papanek entre social/comercial. Tal definição é consoante com o que supõe Braga (2011) no mesmo livro: tendo toda profissão o seu papel social, o exercício dessa função levaria ao desenvolvimento harmônico da sociedade; mas para que assim aconteça, é necessário que haja por parte do profissional a consciência “sobre o lugar que a sua profissão e a sua categoria profissional ocupam (ou deveriam ocupar) nessa sociedade e de que modo suas competências específicas podem ser usadas para tal finalidade” (BRAGA, 2011, p. 11). É bem similar ao que propunha Bonsiepe (1964), mas não diferencia demandas em interesses comerciais e nãocomerciais. Portanto, surge aí a concepção de que para exercer o seu papel social o designer precisa apenas compreender a conexão que existe entre sua profissão e os problemas que afetam a

sociedade, assim reconhecendo o impacto social de seu trabalho. O que se deve fazer é tentar direcionar esse impacto para a mudança ou melhora social. Contudo, essa abordagem acaba por ser quase inocente, na medida em que supõe que o designer detém poder sobre os rumos do trabalho que desenvolve, o que nem sempre acontece. De fato, é o que questiona Maud Lavin (2002) no livro Clean New World: o designer nem sempre tem voz no discurso que ele mesmo torna possível existir. Produz impressos, banners digitais, capas de livros, que servem de suporte para o discurso de outrem. O que a abordagem do reconhecimento de impacto social possibilita então é uma esperança para designers que precisam aceitar as propostas de trabalho que lhe surgem, sejam quais forem suas motivações e fins. E não é a intenção, de forma alguma, desvalorizar esses esforços. Atualmente, o designer há de ser estratégico, e inserir seus posicionamentos em seu trabalho sempre que puder; isso é possível. Mas considero que não é o suficiente para identificar um design social, no sentido que queria Papanek. A distinção que orienta este trabalho está presente na pesquisa de Stepháne Vial (2014): ele reconhece que o design é social em sua essência, mas que, assim sendo, seu esforço pelo bem social acaba sendo involuntário ou, ao menos, não é seu principal objetivo. Este cenário acaba por ser comum no design de mercado: o design é social, mas o objetivo primeiro é do cliente, e normalmente supõe lucros, engajamento, sucesso comercial. O design para mudança social, seria então o projeto que tem com objetivo primeiro, voluntária e abertamente, a melhoria social; pesando mais o fator da intenção, motivação e fins do projeto (VIAL, 2014).


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No fim, as visões de Papanek, Braga e Vial não se excluem completamente; o design para mudança social está, sim, distanciado da prática de mercado se considerarmos que existem sempre outros objetivos mais importantes que o efeito social, portanto este acaba sendo “colateral”. E quando o designer reconhece seu papel social, precisa do fator da intencionalidade para agir quando pode. O design para mudança social age, portanto, reconhecendo a essência social da prática, seu potencial de impacto na sociedade e assumindo como objetivo central, se não único, a melhoria da sociedade.

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No caso deste trabalho, objetivase a melhoria social no cenário da violência doméstica contra a mulher: situa-se no ataque da tolerância social que engloba o problema. Se a tolerância social ao assunto diminui, fica mais fácil para todas as outras tentativas de mudança acontecerem. Projetos na educação serão mais bem recebidos, políticas públicas terão mais espaço e mais demanda da sociedade para se realizarem e quem sabe a denúncia e processo penal não sejam mais tão dificultosos para vítima.

Design Ativismo

• Promoção de mudança social; • Aumento de conscientização sobre valores e crenças (mudança climática, sustentabilidade, etc.);

• Questionamento das limitações causadas pela produção em massa e pelo consumismo na vida cotidiana das pessoas. (Markussen, 2011, p. 1, tradução nossa). O design ativismo é normalmente encontrado em contextos urbanos, especialmente em espaços públicos. Consiste da introdução de objetos materiais heterogêneos no campo urbano de percepção. Neste sentido, conduzem uma

intervenção direta no espaço urbano, e convidam ao engajamento, a interação, ou simplesmente, à experiência urbana em si (Markussen, 2011, p. 04). Para o autor, o que define o design ativismo é o efeito que é capaz de evocar nas pessoas: Por um lado, o design ativismo tem um potencial político de romper ou subverter sistemas existentes de poder e autoridade, assim aumentando consciência com relação a modos de viver, trabalhar e consumir. Por outro lado, o design ativismo compartilha de um potencial estético com a arte ativista: o de abrir a relação entre o comportamento e as emoções das pessoas, entre o que elas fazem e como se sentem sobre isso. Ao criar essa abertura, o design ativismo faz a relações entre as ações e sentimentos das pessoas serem maleáveis. (MARKUSSEN, 2011, p. 02) O autor afirma que não existem técnicas específicas que alcancem estes efeitos. Para ele, a disrupção é uma noção central para entendêlos, citando Fuad-Luke (2009), Markussen classifica o design ativismo como uma intenção

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Chen et al., em 2016, realizaram um pequeno panorama a respeito de design social no artigo Social Design: An Introduction. Revisando os trabalhos submetidos para sua avaliação, puderam observar diferentes formas de interpretar design social, uma delas sendo o Design Ativismo. Essa classificação foi explorada por Thomas Markussen, para ele, design ativismo é a prática que coloca o design no centro de:


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de rompimento com paradigmas existentes, significados comuns, valores e propósitos, para trocá-los por novos. Ainda segundo FuadLuke, a estética é central na mudança social que o design ativismo consegue promover, pois afeta os sentidos, percepções, emoções e interpretação das pessoas (Fuad-Luke apud Markussen, 2011, p. 03). Mas além de atuar pela estética, o design ativismo atua também através do que é político. Não no sentido de servir à política - organização da sociedade em leis, instâncias - mas agir no que é político, que refere à sociedade. É possível constatar o político no design ativismo quando é usado para criar espaços de contestação, através de interrupções, distúrbio e resistência no espaço urbano público, que confrontam

relações de poder e sistemas de autoridade. Esse confronto resulta em revelação, contestação e dissenso (DiSalvo apud Markussen, 2011, p. 04). Em outras palavras, desconstrói. E por isso se adequa ao trabalho aqui desenvolvido, como classificação e como norte do que se deve buscar como resultado: Inserir uma peça de design no espaço urbano público, em determinado contexto social e político, com o objetivo de rompimento de paradigmas e sensos comuns que naturalizam a violência doméstica - isto é, mudança social. Essa abertura causada pela interferência na vivência do espaço público será explorada para dar ao discurso de desnaturalizar a violência doméstica espaço dentro do comportamento das pessoas. Se seu efeito é tão grande assim nas emoções e interpretações humanas, terá potencial de causar alguma mudança ou rompimento, por menor que seja.


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2.2.3. Design Centrado no Humano

Várias abordagens projetuais e metodologias podem dialogar bem com o design social: design sustentável, design centrado no usuário, até mesmo o design thinking. Mas cada um deles tem um foco específico, que não se aplica muito bem à violência doméstica. A abordagem escolhida então é a do Design Centrado no Humano. A primeira vista, parece bem similar ao Design Centrado no Usuário, mas diferencia-se dele porque o DCU, embora tenha o usuário em grande importância, está focado apenas no uso do produto de design e na iteração da

usabilidade, enquanto o DCH está focado nas pessoas que vão usar ou interagir com esse produto, abarcando também projetos que não pressupõe uso. Conforme Joseph Giacomin, professor no Human Centred Design Institute da Brunel University, o conceito de Design Centrado no Humano veio da ergonomia e engenharia, tanto é que figura como padrão internacional no ISO 9241-210:2010: Ergonomia de sistemas de interação centrados no humano. A norma recomenda que se adoptem algumas características, como:

• Adoção de habilidades e perspectivas multidisciplinares;

• Entendimento explícito dos usuários, tarefas e ambientes;

• Testagem e refinamento centrados no usuário;

• Consideração da experiência do usuário como um todo;

• Envolvimento de usuários no design e desenvolvimento;

• Processo iterativo. Mas com o passar dos anos, a abordagem foi saindo desse espaço para adentrar outras instâncias do design. Consoante Giacomin, o DCH atual consiste em colocar no centro do projeto a pessoa para quem o serviço ou produto é destinado. O foco das questões,

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Com tudo que se discutiu e classificou até agora, é possível afirmar que o design social não é uma abordagem de projeto, mas sim, uma abordagem conceitual, que classificará o projeto e tem peso na escolha da abordagem metodológica seguida. Não existem métodos necessariamente sociais, mas conforme verificado por Chen et al. (2016) no artigo Social Design: An introduction, é comum que neste tipo de projeto apresentem-se abordagens criativas colaborativas ou participativas, envolvendo atores do cenário em decisões de design; porque o design para mudança social implica um cenário pré-existente à atuação do designer e, portanto, atores profundamente envolvidos no problema e que têm vivência significativa dentro do contexto em que pretende-se inserir a peça de design.


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insights e considerações está na pessoa, e não mais no processo criativo do designer, nem nos materiais e tecnologias pertinentes ao projeto (GIACOMIN, 2014). Para ele, o DCH consiste no “uso de técnicas que comunicam, interagem, empatizam e estimulam as pessoas envolvidas, obtendo entendimento de suas necessidades, vontades e experiências” (Giacomin, 2014, p. 610). Por tanto, a abordagem do DCH resultaria em produtos, serviços e sistemas que são física, perceptual, cognitiva e emocionalmente intuitivos. Mas há um pressuposto muito presente nas concepções de DCH de empresas atuantes no design que não consta na definição de Giacomin. Empresas como a IDEO e o Greater Good Studio, que utilizam da abordagem de Design Centrado no Humano para promover projetos socialmente impactantes, pressupõem que a resposta para o problema se encontra na pessoa que o vive, elas são as experts do assunto tratado, e os designers envolvidos provêm ferramentas para que a experiências das pessoas se transforme em soluções. Por isso, é comum que abordagens de DCH utilizem técnicas de co-criação, como Giacomin (2014) mesmo apontou. Quando as pessoas fazem parte da solução, desenvolvem um senso de propriedade sobre o projeto e assim existe maior chance de que se engajem em seu uso e que ele lhe sirva adequadamente. Consoante a essas considerações, Chen et al. (2016) verificaram também em sua pesquisa um modo similar de funcionamento, o da pesquisaação. De acordo com Gil (2002), pesquisa-ação é “um tipo de pesquisa com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e participantes representativos da situação ou do

problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo” (THIOLLENT apud GIL, 2002). Existe, porém, uma ressalva no caso do presente trabalho: o problemática da violência doméstica contra a mulher é grande, e embora o DCH se aplique ao projeto por ter pessoas como centro e prioridade, a noção de “pessoas envolvidas”, ou público, fica um pouco mais complicada. A intenção do projeto é desnaturalizar a violência doméstica, para assim enfraquecer a tolerância social ao assunto. Então, quem se beneficiaria neste caso são as mulheres que passaram, passam ou virão a passar por isso. Mesmo que se considere apenas a população da cidade de Curitiba, ainda são muitas pessoas. Mas o material gerado não é direcionado apenas para elas, mas também para quem agride e quem reforça a tolerância social e a violência doméstica. Essas pessoas não têm expertise em desnaturalizar a violência, nem mesmo as mulheres em situação de violência têm, necessariamente. Por isso, o fator de colaboração e participatividade não será abordado de forma “positiva” no trabalho, pois não pressupõe-se que as pessoas envolvidas guardam em si a solução do problema, mas sim caminhos e linguagens, vocabulários e repertórios que devem ser respeitados. Neste sentido, o trabalho seguirá a abordagem do Design Centrado no Humano, solicitando das pessoas envolvidas respostas sobre quais caminhos funcionam melhor para elas, mas sem pedir delas que criem essas caminhos. Mesmo assim, serão sempre ouvidas e suas opiniões guiarão as escolhas a serem feitas durante o processo de criação.


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Aplicações Corroborando a definição adotada acima, é raro encontrar exemplos que abordem a mudança social em projetos comerciais. Podem existir, mas num cenário capitalista em que as companhias apropriam-se de movimentos sociais para vender, as quais não serão considerados como aplicações aqui. Esta posição pode ser um tanto purista, visto que não há exatamente um consenso sobre o quão válidas ou efetivas são essas apropriações. Mesmo orientadas pelo consumo, essas companhias acabam por divulgar ideias benéficas para os movimentos sociais. TCC 2018

Tomemos como exemplo então a atuação das Guerilla Girls, um grupo nova iorquino de artistas gráficas anônimas nascido em 1985. Seu foco consiste em denunciar o sexismo e o racismo no mundo da arte. Através de pôsteres, livros, outdoors e aparições públicas, elas queriam combater o machismo e mostrar o lado das mulheres na história. Como forma de manter o foco em sua denúncia e não em suas identidades, as integrantes usavam máscaras de gorilas. Elas são um grupo ainda atuante na crítica ao sexismo no mundo da arte, mas agora atuam também do lado de dentro - são

Figura 18. E-mail marketing apropriador. Fonte: Arezzo. Em 2018, a marca de calçados Arezzo promoveu uma nova coleção sobre a descrição de 'neo feminismo', elencando como característica da coleção coisas contra as quais os feminismos lutam há muito tempo (estereótipos femininos, silhueta sedutora)

Figura 19. Mulheres tem que estar nuas para entrar no metropolitan museum of art?. Guerrila Girls, 1989.


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exibidas em museus e exposições. A peça “Do women have to be naked to get into de Met. Museum?” (fig. 19) alinha-se muito com a teoria de John Berger (1972), anteriormente citada (p. 26). Ela questiona o desequilíbrio exposto pelo Museu: apenas 5% das autoras expostas na seção de arte moderna eram mulheres, mas 85% dos nus apresentavam corpos femininos. As mulheres só têm espaço na arte enquanto objeto?

Um forte exemplo de design para mudança social e que sempre que o assunto vem à tona acaba por ser citado, é o Atelier Populaire. Existiu em Paris, na França, durante o mês de maio de 1968 (que aliás, comemora 50 anos neste 2018). Em meio a greves e manifestações do povo parisiense contra diversos problemas sociais na França, em meio a maio de 1968 estudantes da Escola de Belas Artes de Paris e operários ocuparam o ateliê de impressão da universidade e passaram a operar como gráfica da revolução, provendo material gráfico – em sua maioria cartazes, para serem usados em manifestações ou serem colados pela cidade. Eram feitos colaborativamente, discutidos em assembleias diárias, assim ficando marcados por demonstrar o poder político que a mensagem visual e o povo têm. Figura 20. Poster do Atelier Populaire, 1968. Fonte: The Red list.

Figura 21. Cartaz confecionado pelo regime militar, sem data definida.

Outro exemplo relevante e muito importante de ser relembrado na conjuntura política e social de 2018, são os cartazes de resistência contra a ditadura militar brasileira. Segundo Chico Homem de Melo, no livro Cartazes desta História (2012), a herança desses cartazes vem de longe, desde a revolução russa no começo do século XX, onde a gráfica teve importância estratégica na disseminação de informações e ideais (assim como o atelier populaire). Diante do golpe militar de 1964, cartazes, pichações e faixas começaram a aparecer prontamente em oposição ao regime de exceção imposto pelos militares. No início, faziam resistência ao novo regime e demandavam a volta da democracia, mas conforme a situação


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foi ficando mais sombria, também ficaram os cartazes. Com a inauguração do DOI-CODI e a promulgação do AI-5, pessoas começaram e desaparecer e/ou serem assassinadas pelo regime militar, sob acusação de subversão ou crime político. Os cartazes passaram então a denunciar essas violações dos direitos humanos e cobrar por respostas sobre as pessoas que haviam desaparecido. Um dos cartazes notórios da época era o de procurados pela anistia (fig, 22), que faziam sátira dos cartazes de ‘bandidos terroristas’ criados pelo regime ditatorial (fig. 21). Até hoje, 2018, muitas famílias permanecem sem informações a respeito de seus familiares. Vale lembrar que é também nesse ano de que se completam 50 anos da promulgação do AI-5.

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Figura 22. Cartaz confeccionado pelo movimento pela anistia. Sem data definida.

Simultaneamente, eram produzidos cartazes a respeito da anistia, que consistia na queda das acusações às pessoas tidas como criminosas e terroristas pelo regime da época. Considere-se como ilustração a figura 23, cartaz produzido pelo Movimento Feminista Pela Anistia No Brasil. Figura 23. Cartaz confeccionado pelo movimento feminino pela anistia, 1975.


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Já um exemplo mais recente, é a atuação do grupo ShootTheShit, em Porto Alegre, no Brasil. O estúdio de comunicação se descreve como ‘comunicação para impacto social positivo’, normalmente atuando junto a causas de interesse público (mesmo que por meio de uma empresa como cliente). Mostra dessa atuação é o projeto ‘que ônibus passa aqui?’, em que o estúdio desenvolveu o layout de uma placa (fig. 24) para fixar em pontos de ônibus onde a sinalização pública é ineficiente (ou inexistente), para que as pessoas que usam o local escrevam na placa quais ônibus podem ser tomados ali. Houve embate com a prefeitura da cidade, já que a existência do adesivo deixava claro que o órgão havia sido negligente com a sinalização. Depois de muita conversa com o estúdio, a prefeitura de Porto Alegre desenvolveu um novo modelo de placa e aplicou a pelo menos 300 pontos de ônibus na cidade. Como a intenção do projeto era puramente a melhoria social, o estúdio disponibiliza o adesivo em seu site, de forma que qualquer pessoa possa imprimi-lo e aplicar nos pontos de ônibus sem sinalização em sua cidade.

Figura 25. Cartaz ‘racism’. James Victore, 1993. Fonte: MoMA.

Figura 24. Pessoa usando o adesivo. Fonte: ShootTheShit

Fora do Brasil, vale citar o trabalho de James Victore, elencando como exemplo seu poster Racism, de 1993. Por conta de confrontos entre judeus hassídicos e afro-americanos em Nova York, Victore sentiu que questão estava sendo feita de espetáculo nos noticiários; a população se satisfazia em assistir confrontos físicos, e palavra ‘racismo’ era dita a todo tempo, desenvolvendo um conceito aguado e distorcido da palavra. Victore concluiu que as pessoas não entendiam o que o racismo realmente era, então criou este cartaz (fig. 25), onde a letra C da palavra ‘racism’ tenta engolir o resto de si mesma, demonstrando o tamanho da violência e agressividade que o termo realmente invoca. Colou os cartazes nas ruas da cidade. Steven Heller (2004) chega a afirmar que, mesmo que Victore não se meta em nenhuma outra polêmica em sua vida profissional, já terá feito sua contribuição para a iconografia visual contemporânea (p. 60).


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2.3 Contexto Neste eixo da pesquisa, fundamenta-se o contexto em que o trabalho se insere, trazendo dados, definições e implicações da violência doméstica contra a mulher, bem como definições e relações que pessoas e materiais gráficos estabelecem com o espaço público. Serão utilizados para:

• Compor requisitos da análise de similares, como fenótipo da mulher representada e como é representada, e qual amostra chama atenção no espaço público;

as fontes ao final do tópico do espaço público.

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• Compor requisitos próprios da implantação do projeto, como indicam


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2.3.1. Violência doméstica contra a mul her

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Definições e Lei Maria da Penha A lei nº 11.340, também conhecida como Lei Maria da Penha, foi implementada em 2006 no Brasil em decorrência da forte pressão de movimentos feministas, órgãos defensores dos direitos humanos e, principalmente, da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), que condenou o Estado brasileiro em 2001 por negligência, omissão e tolerância em relação à violência doméstica contra a mulher. Isso aconteceu por conta de um caso de violência que se tornou um marco da negligência brasileira, quando em 1983 a biofarmacêutica Maria da Penha Maia Fernandes sobreviveu a duas tentativas de assassinato perpetradas por seu companheiro, dentro de apenas 4 meses. No primeiro ataque, ela ficou paraplégica, e ao buscar justiça, encontrou morosidade e descaso. Foi somente depois de duas condenações anuladas, um livro de autoria de Maria, sua denúncia à Comissão da OEA e o passar de muitos anos, que o agressor de Maria da Penha foi condenado pelo estado brasileiro, em 2002. Então, por recomendação nacional, o Brasil começou a investir em políticas públicas para enfrentar o problema, e desta investida nasceu a Lei Maria da Penha, nomeada em homenagem à sobrevivente. Esta lei foi criada como dispositivo legal específico para o problema sistemático da violência doméstica contra a mulher. Em seu artigo 5o, define: Violência doméstica e familiar contra a mulher é qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial: I - no âmbito da unidade doméstica, compreendida como o espaço de convívio permanente de pessoas, com ou sem vínculo familiar, inclusive as esporadicamente agregadas; II - no âmbito da família, compreendida como a comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa; III - em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação. (BRASIL, 2006, s. p.)


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É a partir destas definições que este trabalho se pauta. A lei reconhece, ainda que no contexto brasileiro, os papéis atribuídos ao gênero feminino e que o lugar privilegiado do gênero masculino nas relações geram vulnerabilidades para as mulheres e por isso elas são vítimas mais frequentes deste tipo de violência, justificando assim porque uma lei específica para o gênero feminino se faz necessária. Define também os tipos de violência doméstica, que, embora represente maior incidência, não se resumem à violência física. São eles, segundo o Dossiê violência contra as mulheres, de 2015: Violência física: bater e espancar; empurrar, atirar objetos, sacudir, morder ou puxar os cabelos; mutilar e torturar; usar arma branca, como faca ou ferramentas de trabalho, ou de fogo; Violência psicológica: xingar, humilhar, ameaçar, intimidar e amedrontar; criticar continuamente, desvalorizar os atos e desconsiderar a opinião ou decisão da mulher; debochar publicamente, diminuir a autoestima; tentar fazer a mulher ficar confusa ou achar que está louca; controlar tudo o que ela faz, quando sai, com quem e aonde vai; usar os filhos para fazer chantagem

Violência patrimonial: controlar, reter ou tirar dinheiro dela; causar danos de propósito a objetos de que ela gosta; destruir, reter objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais e outros bens e direitos; Violência moral: fazer comentários ofensivos na frente de estranhos e/ou conhecidos; humilhar a mulher publicamente; expor a vida íntima do casal para outras pessoas, inclusive nas redes sociais; acusar publicamente a mulher de cometer crimes; inventar histórias e/ou falar mal da mulher para os outros com o intuito de diminuí-la perante amigos e parentes. Também de acordo com o dossiê, analisando pesquisa realizada pela OMS em 2002, pode-se observar que os tipos de violências costumam ocorrer combinados, visto que cerca de 30% das entrevistadas que sofreram violência física sofreram também violência sexual. Indica também a ocorrência da combinação dos tipos de violência no ciclo da violência doméstica. Este ciclo é muito comum em casos de violência conjugal, e funciona assim: há a fase de tensão, em que xingamentos e ameaças aparecem e se acumulam. Em seguida, o agressor explode com a tensão acumulada e ocorre a fase da agressão. Mas, depois de cometida a violência, o agressor se arrepende, pede perdão e promete não repetir o ato, caracterizando

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Violência sexual: forçar relações sexuais quando a mulher não quer ou quando estiver dormindo ou sem condições de consentir; fazer a mulher olhar imagens pornográficas quando ela não quer; obrigar a mulher a fazer sexo com outra(s) pessoa(s); impedir a mulher de prevenir a gravidez, forçá-la a engravidar ou ainda forçar o aborto quando ela não quiser;


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a fase da lua de mel (fig. 26). Já que ele muda de comportamento por um tempo e fica até mais carinhoso, atencioso e calmo com a mulher, ela acredita. Mas logo o ciclo se repete, intensificando-se cada vez mais nos níveis e tipos de violência e levando cada vez menos tempo para acontecer. O agravamento pode culminar, enfim, na morte da mulher.

Perfis e dados

o agressor 02 Agressão: maltrata física e psicológicamente a vítima; estes maustratos tendem a escalar na sua frequência e intensidade.

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Aumento de tensão: as tensões acumuladas no quotidiano, as injúrias e as ameaças tecidas pelo agressor, criam, na vítima, uma sensação de perigo eminente.

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03 Figura 26. Ciclo da violência. Fonte: Autora.

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Lua-de-mel: o agressor envolve agora a vítima de carinho e atenções, desculpando-se pelas agressões e prometendo mudar (nunca mais voltará a ser violento).

Segundo o balanço de 2016 do serviço Ligue 180 - Central de Atendimento à Mulher, das 140.350 denúncias de violência contra a mulher recebidas no ano, metade delas (50,70%) correspondiam à denúncias de violência física. Em segundo lugar veio a violência psicológica (31,8%), e em terceiro, a moral (6%), entre outras. Pelo menos 112.524 casos foram relacionados à violência doméstica e familiar. De acordo com esse mesmo balanço, em 68% dos casos o agressor foi um homem com o qual a mulher vítima já teve ou tem um relacionamento. Em 67% dos casos, a violência sofrida era diária ou semanal; e ainda em 60%, filhos da mulher agredida presenciaram a agressão, contando com 22% de casos em que a criança sofreu violência juntamente com a mulher. Vale notar ainda que a pessoa que fez a denúncia foi em primeiro lugar a própria vítima (67%), em segundo, outros (7,81%) e em terceiro, vizinhos (5%). É curioso notar que pessoas


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supostamente mais próximas da vítima, como mãe, amigos e conhecidos, aparecem mais atrás na lista. Destes denunciantes, 80% eram mulheres. O estudo é de 2016, 10 anos depois da criação da Lei que tornou possível a proteção de mulheres através de mecanismos como o Ligue 180. Ou seja, ainda têm-se um quadro de alarmante persistência da violência doméstica. A respeito das vítimas, não se pode afirmar que exista um padrão ou perfil bem delimitado. De acordo com o Dossiê violência contra a mulher, a vítima pode ser: Rica ou pobre, branca ou negra, jovem ou idosa, com deficiência, lésbica, indígena, vivendo no campo ou na cidade, não importa a religião ou escolaridade. Toda mulher pode sofrer violência, uma vez que, no Brasil (e em outros países do mundo), o processo social, histórico e cultural naturalizou definições das identidades do masculino e do feminino que, carregadas de desigualdades, contribuem para que as mulheres estejam mais expostas a certos tipos de violência, como a doméstica e a sexual. (Dossiê violência contra as mulheres, 2015, s. p.)

Também segundo o mapa foi possível concluir que, para todas a idades, a residência da mulher apresentou maior incidência como local de agressões físicas atendidas pelo SUS. Mais precisamente, 71,8%, caracterizando tais incidentes como violência doméstica (CEBELA/FLACSO, 2012). Observou-se ainda uma identificação dos agressores dos casos estudados. Segundo a pesquisa, é possível observar que: Os pais aparecem como os agressores quase exclusivos até os 9 anos de idade das mulheres, e na faixa dos 10 aos 14 anos, como os principais responsáveis pelas agressões. Nas idades até os 4 anos, destaca-se sensivelmente a mãe. A partir dos 10 anos, prepondera a figura paterna como responsável pela agressão. Esse papel paterno vai sendo substituído progressivamente pelo cônjuge e/ou namorado (ou os respectivos ex), que preponderam sensivelmente a partir dos 20 anos da mulher, até os 59. A partir dos 60 anos, são os filhos que assumem o lugar de destaque nessa violência contra a mulher. (CEBELA/FLACSO, 2012, p. 21)

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Entretanto, existem diferenças de incidência que podem ser observadas na pesquisa Visível e Invisível, realizada pelo Datafolha para o Fórum Brasileiro de Segurança em 2016. Segundo o estudo, 30% das brasileiras sofreram algum tipo de violência (como agressão física, ofensas sexuais e ameaças) naquele ano. E dessa porcentagem, observou-se que a incidência foi maior entre o grupo mais jovem - 45% das mulheres de 16 a 24 anos entrevistadas afirmaram ter sofrido algum tipo de agressão. Isto pode indicar um padrão de vítima mais visada ou mostrar que mulheres mais jovens estão mais familiarizadas com a não-naturalização das violências e têm maior capacidade de se reconhecerem vítimas. Mas é uma tendência que se confirma segundo o Mapa da Violência 2012: Homicídios de mulheres no Brasil (Cebela/Flacso, 2012), em que ao observarem-se as taxas de homicídios de mulheres por idade, identificou-se na faixa dos 15 aos 29 anos, com destaque para a faixa dos 20 aos 29, aumento de casos no período de 2000 a 2010.


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Pode-se concluir então que, apesar dos padrões de incidência nenhuma mulher está imune à violência, não importa sua idade ou com quem se relaciona - embora parceiros e ex-parceiros representem 62% dos casos na faixa mais afetada, dos 20 aos 49 anos. Algumas mulheres podem, no entanto, estar mais suscetíveis a sofrer violência do que outras. Ainda segundo a pesquisa Visível e Invisível, mulheres negras apresentaram incidência de vitimização 5% maior do que mulheres brancas em 2016, bem como mulheres de renda alta sofreram maior vitimização do que as de baixa renda. Como pode-se observar, é um problema demasiado abrangente.

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Causas e implicações Referenciando-se nas melhores leis de combate à violência doméstica que existiam, a Lei Maria da Penha foi muito bem elaborada e criou mecanismos eficientes para coibir e punir casos de violência doméstica. Atualmente é inclusive reconhecida como uma das melhores do mundo (UNIFEM). Entretanto, nunca foi de fato aplicada em totalidade: desde a elaboração havia resistência tanto por parte da população quanto de agentes do Estado e da justiça. Infelizmente, em muitos lugares essa resistência ainda não se dissipou, e a aplicação do que prevê a lei é dificultada por indivíduos com o poder para tanto. A isso somam-se a precariedade de ação do Estado brasileiro e o sucateamento dos serviços públicos, entre eles a polícia, agente importante para o funcionamento da Lei. Mas no que se refere à resistência, é muito provável que a sua origem esteja na estruturação do problema da violência doméstica. Segundo o Dossiê violência contra as mulheres, o que gera tal tipo de violência são: Papéis rígidos e discriminatórios criam desigualdades nas relações. [...] Esse desequilíbrio está lastreado em concepções desiguais de gênero que determinam os comportamentos femininos e masculinos tidos como socialmente adequados. Essas concepções são resultado de um complexo aprendizado social, e não se baseiam em determinações estritamente biológicas, embora muitas vezes sejam apresentadas como se fossem ‘naturais’. (INSTITUTO PATRICIA GALVÃO, 2015, s. p.) E são estes papéis de gênero e seus esteriótipos que “justificam” grande parte das agressões. De acordo com Schraiber, d’Oliveira e Couto (2009), em pesquisa denominada violência contra a mulher e saúde, interpreta-se a violência contra a mulher da seguinte forma: Ao tomarmos a violência contra a mulher como questão de gênero, temos por hipótese que as relações entre homens e mulheres encontram-se sob conflito


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[...], isto é, sob ameaça de ruptura da dominação tradicional. A violência surge como comportamento de reconquista do poder ou para prevenir sua perda. (SCHRAIBER; D’ OLIVEIRA; COUTO, 2009, p. 209) Ainda segundo as autoras, para o agressor a violência pode se configurar também como prática educativa. Quando a mulher não cumpre seu papel na ótica do agressor ou se recusa a seguir paradigmas a ela impostos pela estruturação patriarcal da sociedade, justifica-se na mente do agressor que ela deve ser punida - por meio da agressão - para que se corrija. Outros ainda reconhecem a agressão apenas como forma de afirmar o próprio poder perante a mulher. As autoras concluem que a isso se deve o fato de que homens agressores não se sentem constrangidos ou julgados por o serem.

A tolerância social, além de fundamentar a persistência dessa violência em nossa sociedade, é um dos principais fatores que leva a mulher a ter medo de denunciar seu agressor e sair da situação de violência. Ela sabe que vai ser responsabilizada pela agressão que sofreu, teme não encontrar apoio de família e amigos, e não consegue confiar no Estado como capaz de resolver sua situação. Ainda de acordo com Schraiber, d’Oliveira e Couto (2009), em sua pesquisa, As mulheres relatam sentir: vergonha ou humilhação; culpa ou medo de serem culpadas pela violência; temor pela sua segurança e a de seus filhos; falta de controle sobre suas vidas; esperança de que o agressor mude, dado que ele promete; medo de perder os filhos; vontade de proteger o parceiro por razões econômicas ou afetivas. (SCHRAIBER; D’ OLIVEIRA; COUTO, 2009, p. 209) Assim caracteriza-se a violência doméstica contra a mulher como um problema sistemático e estrutural, que advém de relações desiguais de poder e da profunda infiltração de valores que mantém essas relações na sociedade.

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Mas um novo fator soma-se ao quadro: a tolerância social. Mesmo não sendo agressor ou vítima da violência doméstica, todo indivíduo que cresceu na mesma sociedade terá também internalizadas profundamente as noções de papel de gênero e diferenças de poder. E, portanto, acaba pensando de forma similar ao agressor, o que significa culpar a vítima pela agressão que sofreu e naturalizar o ocorrido. Por ser a violência doméstica um fenômeno que toma lugar no âmbito privado ou íntimo, existe a tendência de que a sociedade interprete o problema como sendo também íntimo, e que não há responsabilidade externa aos envolvidos por intervir, incluindo o Estado. Entretanto, é também com isso que a Lei Maria da Penha intenciona romper quando qualifica também a omissão como violência doméstica contra a mulher.


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Se a violência doméstica é tão abrangente, atingindo os mais variados grupos de idade e socioeconômicos dentro de um mesmo gênero, – de certa forma, democrática – como mostram os dados sobre a violência doméstica contra a mulher no Brasil, torna-se adequado que o meio de exposição dos materiais gráficos seja igualmente democrático. Deve ser acessível a um público igualmente abrangente, e o espaço público da cidade se encaixa perfeitamente nessa demanda.

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2.3.2. Espaço público urbano Para compreender então as dinâmicas e significações do espaço público urbano, bem como por que se encaixa como meio ideal para inserção do material a ser criado, realiza-se agora uma pequena revisão de definições e perspectivas sobre o espaço público, a fim de encontrar a definição mais adequada a ser adotada para este trabalho. Investiga-se também como funciona a comunicação visual projetada para esse tipo de espaço. Segundo estudo do IBGE de 2010, 85% da população paranaense vivia em áreas urbanas. Deste percentual, mais de metade eram do sexo feminino (51%). Já na mesorregião metropolitana de Curitiba, este índice se eleva ainda mais: 91,6% da população vive em área urbana e, deste percentual, 52,3% eram do sexo feminino. Ou seja, o espaço público urbano é vivenciado por parcela significativa da população do estado do Paraná e de Curitiba e, o que é significativo para este trabalho, mais de metade desta população é mulher. O conceito de espaço público, entretanto, é de difícil definição; normalmente

dependendo da perspectiva sob a qual se quer analisá-lo. Iniciemos com uma definição um tanto neutra e de certa forma mais “esperada”. É provável que por espaço público entenda-se o espaço que destina-se a todos. A definição de Caitlin Dixon (2014) transita por este sentido: para ela, espaços públicos são espaços livres, planejados para uso público e onde não existe necessidade de justificar o ato de ir, vir e estar no local, nem distinção de classe ou raça. Ainda segundo a autora, espaços públicos podem ser formais — pré-determinados, como praças ou parques — ou informais, que ocorrem por trocas de relações dentro da esfera pública, como ruas ou calçadas. A definição de Dixon, então, supõe que certos espaços estão destinados a serem públicos, enquanto reconhece que outros, que não foram construídos com as mesmas finalidades, acabam por ser apropriados da mesma maneira. Supõe também uma liberdade de existir e estar no espaço urbano que é um tanto contrariada por outras definições. Janaína Furtado e Andréa Zanella (2007), por exemplo, ao investigarem a intersecção da arte com a cidade na


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arte urbana, interpretam o espaço público urbano como resultado do desenvolvimento capitalista do espaço. Para as autoras,

Essa visão de cidade coloca em perspectiva a liberdade de ir e vir implicada por Dixon (2014); para elas, a cidade permite o movimento contanto que este tenha um fim prático-utilitário. De forma similar, Hertha Silva (2015), partindo de uma investigação a respeito do cartaz lambe-lambe na cidade, afirma que a cidade, atualmente, insere o indivíduo numa lógica de movimento constante. Os conceitos de Dixon (2014) e Furtado e Zanella (2007) parecem um pouco conflitantes, mas é possível conectá-los dentro de visões mais amplas do espaço público. Ana Carlos (2007) analisa a questão do ponto de vista da geografia, e tem como resultado uma concepção mais abrangente e ao mesmo tempo mais profunda. A autora estabelece o espaço público como “[...] um produto do trabalho humano, logo, histórico

e social, e por isso mesmo é uma vertente analítica a partir da qual se pode fazer a leitura do conjunto da sociedade” (CARLOS, 2007, p. 27). Assim, o espaço público é caracterizado como poço do qual podem se tirar conclusões a respeito da sociedade. Isso é possível graças ao espaço público urbano atuar não somente como espaço físico, mas como uma amálgama criada pela sociedade que vive aquele espaço, unindo-a e tornando-se representativa. É o que pode ser constatado em definições como as de Certeau (2000) e Narciso (2009). Para Certeau, “a cidade é discurso humano, é uma construção social e histórica que comunica, modifica-se, extrapola qualquer tentativa racional de planejar as etapas, de compreendê-la como a uma máquina” (apud. FURTADO; ZANELLA, 2007, p. 319). Para Narciso, O espaço público constitui ou deveria constituir uma fonte de forte representação pessoal, cultural e social, pois trata-se de um espaço simbólico onde se opõem e se respondem aos discursos, na sua maioria contraditórios, dos agentes políticos, sociais, religiosos, culturais e intelectuais que constituem uma sociedade. (NARCISO, 2009, p. 268) É nessa troca de relações e embate de discursos que Hertha Silva (2015) determina haver comunicação. Ela aborda a comunicação na cidade como uma constante disputa, fruto da configuração em prol do trânsito e da publicidade. Para ela, a cidade está imersa em fluxos humanos, comerciais e simbólicos de diferentes origens e formas,

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As cidades [...] foram concebidas de modo a viabilizar o progresso e todas as demais exigências desenvolvimentistas do projeto capitalista. Progresso só se alcança com ordem, assim a ordenação, a padronização e a racionalização dos espaços passaram a caracterizar os contextos citadinos, permitindo o pleno funcionamento da estrutura industrial e agilidade no comércio de produtos e serviços. [...] [Desta forma] priorizou-se a construção de espaços que servissem mais como entre-lugares, rumo às funções práticas do dia-a-dia, em detrimento das vivências coletivas e/ou comunitárias. (FURTADO; ZANELLA, 2007, p. 310)

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que acabam por gerar inúmeros signos comunicacionais. Nas palavras da autora, “reconhecemos a cidade como lugar de comunicação, onde diferentes grupos sociais constituem-na e são constituídos” (SILVA, 2015, p. 11). A partir desta concepção Silva passa a caracterizar a comunicação visual nos espaços urbanos, de forma mais específica, pôsteres e cartazes. Mas sua investigação acaba por ser válida para vários outros meios de intervenção visual na cidade. Priscila Farias (2015) atribui grande importância aos elementos gráficos do espaço urbano e, por extensão, às intervenções visuais nele. Para ela, [os elementos gráficos] funcionam tanto como indicadores de fluxos urbanos quanto como marcos que identificam e nomeiam pontos da cidade, auxiliando na definição de sua estrutura informacional. As letras, números e sinais que encontramos no ambiente urbano podem ser entendidos, assim, como parte do discurso identitário e comunicativo da cidade, concepção que encontra respaldo nas reflexões de Kevin Lynch [1960] sobre a imagem da cidade (FARIAS, 2016, p. 143). O que torna as intervenções urbanas visuais tão adequadas aos objetivos deste trabalho é a leitura de Silva (2015) de que esses materiais inserem-se na cidade como desvio do discurso dominante. Para a autora, o mesmo de discurso foucaultiano visto anteriormente – arbitrário e que fabrica verdade – permeia a cidade e o espaço público, e pode ser percebido através do tipo de comunicação visual instalado nesses lugares. Silva detalha que, vivendo numa

lógica de movimento constante, os locais de trânsito urbano são boas oportunidades para comunicar, e por isso os melhores espaços da cidade estão estrategicamente reservados para a publicidade. Como corroboram Furtado e Zanella (2007), a duração do olhar na cidade é a mesma que a duração de ir ou vir, contando com raros momentos ou motivos para contemplação (p. 317). Dispondo de tão pouco tempo, a imagem é a forma mais estratégica de comunicar determinada mensagem, pois é muito mais penetrante e assimilável que o texto, e mesmo para informações textuais, elas podem se destacar mais se fizerem uso expressivo da tipografia. Farias (2016), em estudo sobre tipografia, chega a definir o termo paisagem gráfica como o ‘quadro formado por um subconjunto dos elementos gráficos presentes no ambiente público: os caracteres que formam palavras, datas, e outras mensagens compostas por letras e números’ (FARIAS, 2016, p.143). A contribuição de Farias é importante porque destaca a paisagem tipográfica como componente da identidade visual, estética e cultural das cidades. Igualmente, Silva afirma que na comunicação urbana predomina a comunicação visual (SILVA, 2015). Ora, se os pontos mais estratégicos do espaço urbano público estão ocupados com imagens que promovem marcas, produtos ou serviços mediante pagamento, fica claro qual é o discurso que domina na cidade. O cartaz lambe-lambe e outras intervenções se tornam então desvios ou contrapontos ao discurso dominante ao se apropriarem do espaço público ilegalmente ou de modo informal, e o fazem não só por escolha


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Figura 27. Lambe-lambes freeboi. Fonte: Oscar Fortunato

Além de caracterizarem-se como desvio, os cartazes e intervenções urbanas visuais têm mais um grande trunfo, que

é o alto alcance. Como já era observado em cartazes famosos desde o final do século XIII, por se inserir de forma estratégica em espaços públicos de alta circulação, o cartaz tem o poder de alcançar todas as classes e grupos de pessoas e, mais importante ainda, sem depender da vontade de interação desse público (SILVA, 2015). É importante ressaltar que nem sempre as cidades foram assim. Marcos Beccari e Rogério de Almeida (2016, p. 14), em estudo sobre estética e consumo em espaços urbanos, ressaltam que foi apenas a partir da metade do século XIX que as cidades européias começaram a se tornar “espaços de circulação, interação e consumo”. Antes disso, o espaço urbano constituía-se apenas de entre-lugares. Soa similar à descrição de Furtado e Zanella (2007) do espaço urbano atual, mas àquela época o que existia era um entre-lugar ainda menos habitável. Foi com a aparição das vitrines de lojas e cartazes publicitários que a cidade começou a se tornar visualmente deleitável para o transeunte, imbuindo-se de uma dimensão estética a ser considerada (BECCARI; ALMEIDA, 2016). Para os autores, essa mudança teve grande peso não só em democratizar o consumo em si, mas em democratizar o consumo estetizado, antes reservado à aristocracia. Retirou-se o consumo de âmbitos privados e exclusivos e inserindo-o no espaço urbano público, desta forma, estetizando e imagicizando as cidades. Desde então, elas têm se

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Na figura 27, imagem do lambe-lambe Free Boi colado em uma caixa de luz, ou seja, apropriandose de forma desviante do espaço. Ironiza o nome da processadora de carnes Friboi, trocando ‘fri’ por ‘free’, no inglês, livre, alinhando-se com o discurso de veganismo: não se alimentar de animais nem explorálos. No Brasil, a carne está profundamente enraizada na cultura não só alimentar, já que o país é um dos maiores exportadores de carnes do mundo.

própria, mas também porque seus discursos não encontram respaldo das estruturas oficiais de comunicação visual urbana. Na verdade, é comum que sejam discursos subversivos. Silva (2015) aprofunda-se nesse papel de desvio do cartaz lambe-lambe através do conceito de heterotopia, também de Foucault (2005). Heterotopias são espaços ou lugares que funcionam em condições não hegemônicas, como realidade e ilusão, sanidade e insanidade, diferentes tempos da história. A heterotopia de desvio se realiza nas instituições destinadas àqueles que têm comportamentos indesejados, como hospícios, asilos e presídios. Mas Silva (2015) estende esse conceito, de forma a liberá-lo do caráter espacial/físico original. Se uma heterotopia é essencialmente a relação de subversão com um referencial, Silva propõe deslocar a noção heterotópica da ‘delimitação espacial’ para a ‘forma de apropriação’. Então, se as intervenções urbanas visuais se apropriam do espaço público de forma diferenciada, inesperada ou até indesejada, se caracterizam como “heterotopias inscritas no espaço urbano. Um desvio no fluxo comunicacional, e não um desvio do fluxo” (SILVA, 2015, p. 68).

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pesquisa

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relacionado com seus habitantes através da dimensão imagética, caracterizando as cidades-mídia, onde imagens imperam através de letreiros, fachadas, publicidade, estilos, etc. (BECCARI; ALMEIDA, 2016). São por todos esses fatores que o espaço urbano público torna-se tão frutífero para a inserção de mensagens em prol da denúncia da violência doméstica contra a mulher através de intervenções visuais. Além do caráter subversivo, heterotópico e do alto alcance, o que é dito no espaço público tem influência no todo se, como definiu Narciso (2009), ele é fonte de forte representação pessoal; e se como atesta Farias (2016), elementos gráficos urbanos constituem a identidade da cidade. Essa noção é fortalecida por Furtado e Zanella (2007): as autoras consideram que a arte urbana transforma a relação do indivíduo com o espaço público, e que pode engendrar, através de relações estéticas, reflexões políticas e éticas. O ser humano que [na cidade] habita não é somente um ser da razão, mas ser criativo, que estabelece relações afetivas, imaginárias e estéticas com o entorno urbano, construindo-o e constituindose nele, relacionando-se com as pessoas tendo esse entorno como contexto. (FURTADO; ZANELLA, 2007, p. 319)

Quanto a quesitos mais formais ou técnicos, tanto Silva (2015) como Furtado e Zanella (2007) elencam algumas características das intervenções urbanas visuais que estudaram:

• A linguagem visual utilizada, em grande parte, busca chamar a atenção através de estratégias visuais e semânticas que intencionam tirar o espectador do lugar comum. (SILVA, 2015, p. 70)

• Pode haver, em alguns casos, alguma espécie de signos ou assinaturas que possam identificar um grupo de pessoas, mas, raramente, uma pessoa isolada. (SILVA, 2015, p. 23)

• O tipo de material a ser utilizado, o local para a exposição, [...] e o tamanho adequado das obras devem ser bem estudados previamente. (FURTADO; ZANELLA, 2007, p. 320) Desta forma, o espaço público urbano e as intervenções visuais desviantes dentro deles se fazem ideais como meios para o cumprimento dos objetivos deste trabalho. Utilizar-se de um meio de comunicação que subverte o discurso dominante, e isso com sua própria maneira de existir para desnaturalizar a tolerância social em relação à violência doméstica, soma significativa força e atitude ao material a ser desenvolvido.

0


03 Síntese Momento de convergir: neste tópico, começa a pesquisa com similares e com as pessoas-público. Os similares diretos serão analisados de forma descritiva e avaliativa pela autora, e serão analisados pelo público em regime de votação, que elegerá amostras conforme for solicitado. A amostra de similares contém também similares indiretos, que por serem secundários, constam em menor número e serão analisados de forma avaliativa e descritiva apenas pela autora. Ao final das análises, consta a compilação dos dados obtidos e discussão sobre eles, para, ao final do capítulo, gerar as diretrizes que guiarão o desenvolvimento da geração de alternativas, bem como serão critérios para a escolha da alternativa a ser refinada.


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3.1 Análise de similares A amostra coletada para análise compõe-se de 10 similares diretos e 5 similares indiretos. O que se designa “similares diretos” são peças gráficas que tratam diretamente do tema aqui explorado; ao passo que “similares indiretos” não tratam desse tema, por isso constam em menor número, mas dialogam com o contexto de aplicação do presente projeto: o espaço urbano público.

Para analisar esses similares, são necessárias duas diferentes aproximações: conceitual e formal. Para compreender como esses materiais atuam e retirar da amostra requisitos para o

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Os similares diretos são cartazes ou flyers digitais que tratam do tema de violência doméstica contra a mulher, em sua maioria campanhas de órgãos públicos sociais ou de saúde. Os indiretos são materiais gráficos cujo espaço de exposição é na rua, são em sua maioria intervenções urbanas que tratam de alguma denúncia, crítica ou questionamento, como desmatamento, direitos humanos etc.

desenvolvimento deste trabalho, é preciso que seja considerada a dimensão de significação cultural do design e seu caráter crítico e questionador, como anteriormente discutido. Esse eixo de análise se pauta no contexto e no conceito estabelecidos anteriormente (capítulo 02), elencando itens relevantes do contexto que podem ser vistos na peças e a leitura delas de um ponto de vista pós-estruturalista, que busque identificar a que discursos se referem, se o subvertem ou o reforçam e como fazem isso. De forma complementar, é necessário analisar os componentes formais da amostra, para assimilar quais foram suas escolhas visuais e como se posicionam visualmente no espaço em que são expostos. Busca-se observar alguma tendência, para decidir em seguida se deve ser seguida ou contrariada. Os critérios para análise são descritos em detalhe a seguir:


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síntese

Análise de similares diretos Serão analisados critérios que dizem respeito a representação visual da mulher com base nos dados coletados a respeito do perfil das mulheres vítimas de violência doméstica (tópico 2.3.1). Serão analisados fenótipos (raça) e caracterizações das mulheres representadas já que, como anteriormente exposto, a violência doméstica é democrática no quesito racial, e é necessário representar uma mulher com alguma margem de representatividade para a população. Se analisará também qual a atitude da mulher representada baseando-se na análise de John Berger (1972), traduzindo seus papéis de observadora/observada de passiva a ativa em níveis de gradação. Como todas as peças coletadas são críticas ou questionadoras em algum sentido, também se identificará a qual discurso a amostra se refere e se há reforço (mitificação) ou desconstrução do discurso presente. Por fim, a análise formal será realizada de maneira descritiva por conferir-se, neste estudo, maior prioridade ao conceito da peça do que a forma. Com base nos princípios que Cristian Borges e Ellen Lupton (2008) elencam como fundamentos do design, alguns critérios mais relevantes ou mais presentes na amostra foram selecionados, a saber: cor, textura, relação figura/fundo, e hierarquia. Em suma:

CONCEITUAL

Critérios descritivos

• Qual é o fenótipo usado na representação da mulher? Variáveis: Branca, Negra, Amarelos, Parda2.

• A mulher está representada com machucados e hematomas? Variáveis: sim/não. • A que discurso se refere? Variáveis: saúde pública, criminalidade, etc.

FORMAL

• Cor. Descrição: paleta de 3 cores principais. • Textura. Descrição: tipo de textura aplicada (ou ausência de textura). • Figura/fundo. Descrição: o que se destaca em primeiro plano e o que há em segundo plano.

• Hierarquia. Descrição: ordem de importância das informações apresentadas. CONCEITUAL

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Critérios de análise

Critérios Avaliativos

• Qual a atitude da mulher representada? (1 - passiva e 5 - ativa) • Ocorrência de mitificação ou desconstrução? (1 – mitifica e 5 – desconstrói)

2 // Classificações de cores de pele do IBGE


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A seguir, realizam-se as análises.

Amostra 01 Aspectos conceituais A amostra é proveniente do Ministério Público do Estado da Bahia. Com relação à representação da mulher, tem-se uma mulher que, ao menos no referencial brasileiro, pode ser identificada como branca. Apresenta machucados e hematomas, com a adição de um sangrento ‘medo’ escrito em seu rosto no lugar de sua boca. Seu discurso textual se fundamenta no fato de a violência doméstica ser um crime, mas a imagem que compõe parece referir-se mais ao medo da vítima de denunciar, resultando no silêncio e em uma imagem de refém. Aspectos formais

Critérios

Resultado

Fenótipo

Branca

Machucados

Sim

Discurso

Violência doméstica é crime

Cor Textura

padronagem (papel de parede)

Figura/Fundo

1º plano: texto 2º plano: mulher

Hierarquia

Rosto da mulher Dizeres “violência doméstica é crime” “Denuncie. Disque 180” Demais informações

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Figura 28. Amostra 01. Fonte: MP-BH.

As cores predominantes são tons de roxo. A textura é do fundo é uma padronagem que remete à um papel de parede, enquanto os boxes do texto parecem ser papéis amassados. A relação figura/fundo é clara, primeiro vêm os textos, depois o rosto da mulher. Entretanto, na ordem hierárquica é o rosto dela que tem maior destaque. Critérios avaliativos Por estar com a boca ocultada, com o palavra ‘medo’ escrita em arranhões por cima, caracterizase a representação da mulher nessa amostra como passiva (nota 1). Sobre o quanto mitifica ou desconstrói, julga-se que ela mitifica em certa medida por mostrar uma mulher tão machucada e sem ação, dominada pelo medo (nota 2). Qual a atitude da mulher representada? passiva ativa 1 2 3 4 5 Há ocorrência de mitificação ou desconstrução? mitifica desconstrói 1 2 3 4 5

Pode funcionar para pessoas que não acreditam que violência doméstica cause esse tipo de ferimento. Mas não ajuda uma mulher que já tenha passado por isso.


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síntese

Amostra 02

Figura 29. Amostra 02. Fonte: SPM

Aspectos conceituais Sua origem é a SPM (Secretaria de Políticas para as Mulheres). Como constam na imagem 5 pessoas, a amostra traz representações diversas. Temos quatro mulheres, uma negra, três brancas. Uma delas é idosa e duas delas são atrizes famosas, Sheron Menezes (centro-esquerda) e Luana Piovani (centro-direita). Nenhuma delas está machucada. Referese ao discurso de ‘não ligar’ para a violência contra a mulher no sentido de não dar importância, então faz campanha para que nos importemos como violência doméstica ligando para o disque-denúncia Ligue 180.

Critérios

Resultado

Fenótipo

Negra e branca

Machucados

Não

Discurso

Falta de denúncia

Cor Textura Figura/Fundo

Aspectos formais As cores predominantes são o rosa, o roxo e o preto. A textura é um pouco granulosa, mas não parece ser intencional, representa um fundo abstrato. A relação figura/fundo é clara, embora contenha algumas sobreposições bem artificiais (o homem é maior que a idosa, mas está mais para trás dela). As relações hierárquicas dão destaque aos rostos de Menezes e Piovani, embora o celular com a mensagem “Eu ligo 180” esteja mais à frente que elas. O texto também recebe grande destaque. Critérios avaliativos Quanto a representação da mulher, as expressões faciais e corporais das personagens da imagem indicam uma atitude ativa (nota 5), enfrentam o problema. Em muito por este fator, e por estimular a denúncia através do discurso de ‘não ligar’ para a violência contra a mulher, considera-se que a amostra desconstrói em certa medida (nota 4).

Hierarquia

Granulada 1º plano: celular com número de denúncia/ logos 2º plano: pessoas/textos Rostos de Sharon Menezes e Luana Piovani e celular Texto Outros personagens Logotipos

Qual a atitude da mulher representada? passiva ativa 1 2 3 4 5 Há ocorrência de mitificação ou desconstrução? mitifica desconstrói 1 2 3 4 5


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Amostra 03 Aspectos conceituais Esta amostra foi veiculada pela APAV (apoio à vítima) de Portugal. Quanto à representação da mulher, tem-se uma mulher branca, com a ponte do nariz machucada e alguns hematomas ao redor. Refere-se à situações em que mulheres agredidas fisicamente mentem ter se machucado de outra forma, normalmente inventando um acidente – como ‘bater em cheio na maçaneta da porta’ para justificar as marcas da agressão. O discurso presente é o de que mais de 31 mil mulheres em Portugal teriam sofrido o mesmo acidente da personagem do cartaz. Aspectos formais Predominam os tons cinzentos e escuros mesmo que hajam machucados e um pouco de sangue no rosto da mulher. As texturas são sutis e constantes na figura toda a não ser no rosto, o fundo é granulado, abstrato. A relação figura/fundo é bem clara, e embora o texto se apresente em primeiro plano, o rosto da mulher é o que tem maior peso na hierarquia gráfica. Critérios avaliativos Figura 30. Amostra 03. Fonte: APAV-PT

Critérios

Resultado

Fenótipo

Branca

Machucados

Sim

Discurso

Esconder machucados

Cor Textura

granulado

Figura/Fundo

1º plano: textos 2º plano: rosto da mulher

Hierarquia

Rosto da mulher Texto chamativo Texto de explicação Logo

Quanto à atitude da mulher representada, considera-se ativa em certa medida (nota 4) pois, mesmo que seja uma imagem estática, parece sustentar o olhar de quem a vê, e sua expressão não é exatamente de medo ou impotência . Quanto à mitificar ou desconstruir, julga-se que desconstrói em certa medida (nota 4) por carregar um conceito forte e relatável, mas usa a tática quase banal de mostrar uma mulher machucada. Qual a atitude da mulher representada? passiva ativa 1 2 3 4 5 Há ocorrência de mitificação ou desconstrução? mitifica desconstrói 1 2 3 4 5


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síntese

Amostra 04 Aspectos conceituais Não representa mulheres visualmente, então está isento de critérios relacionados a isso. O projeto do qual essa amostra é proveniente já foi citado anteriormente, na página 31. Traz dados a respeito de violência doméstica colados ao redor de números de casas, com o discurso de que os muros gritam a realidade que tenta se esconder dentro das casas.

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Aspectos formais

Figura 31. Amostra 04. Fonte: Instagram/seascasasfalassem

Critérios

Resultado

Fenótipo

-

Machucados

-

Discurso

Denúncia pública

Cor

Critérios avaliativos

Textura

lisa (papel)

Figura/Fundo

1º plano: Texto 2º plano: Parede

Hierarquia

Não deve-se considerar a foto presente como aspecto formal geral, visto que cada intervenção do projeto acontece em um muro diferente. Considere-se que as cores fixas são o preto e o branco, que a textura do papel colado é lisa, embora possa vir a sofrer interferências do meio, e que a relação figura/fundo é clara. Não há muitos níveis hierárquicos, o texto ressalta mais que o número em alguns casos, como na foto presente.

-

Como não representa mulheres visualmente, está isento do primeiro critério. Quanto a mitificar ou desconstruir, considera-se que desconstrói (nota 5), por ter um conceito muito pertinente ao assunto, muito forte e que se serve de dados reais tanto para impactar quanto informar. Há ocorrência de mitificação ou desconstrução? mitifica desconstrói 1 2 3 4 5


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Amostra 05 Aspectos conceituais Não representa mulheres visualmente, então está isento de critérios relacionados a isso. Referindo-se à tradição de fazer um minuto de silêncio quando eventos trágicos ocorrem, o cartaz clama para que não haja mais nem um minuto de silêncio pelas mulheres vítimas de qualquer forma de violência. Utiliza-se também de uma hashtag, de forma a lembrar um movimento/ assunto em redes sociais. Aspectos formais Quanto aos aspectos formais, as cores predominantes são roxo, rosa e branco. Não há textura aparente, há apenas um suave gradiente roxo-rosa. A relação figura/fundo é boa, e a hierarquia é puramente tipográfica, tendo ‘#NemMais1MinutoDeSilêncio’ como maior destaque. TCC 2018

Critérios avaliativos Como não representa mulheres visualmente, também está isento do primeiro critério. Quanto a mitificar ou desconstruir, julga-se neutro (nota 3) pois não chega a mitificar o problema ou causar algum prejuízo, mas não causa grande desconstrução. Embora o conceito seja interessante, fica perdido, dependendo da leitura do texto menor abaixo da hashtag. Também por conta do formato hashtag, o conceito perde um pouco de força por parecer só mais uma campanha inútil de redes sociais, não deixando claro também de quê se trata. Critérios

Resultado

Fenótipo

-

Machucados

-

Discurso

Falta da denúncia

Cor Textura

ausente

Figura/Fundo

1º plano: Texto principal 2º plano: fundo

Hierarquia

Hashtag Texto de explicação Logos

Figura 32. Amostra 05. Fonte: APAV-PT

Há ocorrência de mitificação ou desconstrução? mitifica desconstrói 1 2 3 4 5


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síntese

Amostra 06

Aspectos conceituais A amostra tem origem do Ministério Público do Estado de Alagoas. Não representa mulheres visualmente, então está isento de critérios relacionados a isso. Quanto ao discurso, utiliza-se da imagem de um desembargador para enfatizar o caráter criminal que a violência doméstica adquire por conta da Lei Maria da Penha. Figura 33. Amostra 06. Fonte: MP-AL/Ligue 180. Critérios

Resultado

Fenótipo

-

Machucados

-

Discurso

Violência doméstica é crime

Cor Textura

ausente

Figura/Fundo

1º plano: Cartaz 2º plano: Homem e textos

Hierarquia

Figura do homem Cartaz Logo Ligue 180 Texto explicativo Logos

Há ocorrência de mitificação ou desconstrução? mitifica desconstrói 1 2 3 4 5

Aspectos formais As cores predominantes são tons de cinza e roxo. A textura é ambígua, mas predominantemente lisa. A relação figura/fundo é visível, mas um tanto fraca, destaca-se em primeiro plano o cartaz que o desembargador segura, mas fica claro que a mensagem é uma montagem nas mãos dele. Critérios avaliativos Como não representa mulheres visualmente, está novamente isento do primeiro critério. Quanto a mitificar ou desconstruir, também é neutra, pois não carrega um conceito inédito, impactante ou muito pertinente, mas também não mitifica ou causa algum prejuízo à causa.


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Amostra 07 Aspectos conceituais Amostra também proveniente da SPM (Secretaria de Políticas para as Mulheres). Representa uma mulher branca, que não está visivelmente machucada, embora

Figura 34. Amostra 07. Fonte: SPM/Ligue 180. Resultado

Fenótipo

Branca

Machucados

Não

Discurso

Desconstrução de abuso no relacionamento

Cor Textura

ausente

Figura/Fundo

1º plano: Tudo 2º plano: Fundo

Hierarquia

Ilustração da mulher chorando Hashtag Texto Logo

Qual a atitude da mulher representada? passiva ativa 1 2 3 4 5 Há ocorrência de mitificação ou desconstrução? mitifica desconstrói 1 2 3 4 5

Aspectos formais As cores predominantes são o azul, o laranja e o branco. A textura é lisa ou inexistente, e homogênea em toda a peça. A relação figura/fundo é pequena, existem apenas dois planos. A hierarquia privilegia o rosto da personagem e o título #NãoÉAmorQuando. Critérios avaliativos Quanto à representação da mulher, classifica-se como passiva em certa medida (nota 2), pois a mulher apenas chora de frente para quem a vê. Quanto à mitificar ou desconstruir, constata-se que desconstrói (nota 5) por trazer informações valiosas para quem se encontra em um relacionamento abusivo de forma acessível, pois seu formato indica circulação digital, não impressa. Diferentemente da amostra 05, o uso da hashtag não prejudica o material, pois é possível saber do que se trata assim que é lida.

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Critérios

esteja chorando e com corações quebrados saindo de si. Quanto ao discurso, informa através de exemplos que tipos de práticas não são normais ou amorosas em um relacionamento. Refere-se mais à relacionamentos abusivos do que necessariamente à violência doméstica, embora um possa levar ao outro. O título também se apresenta em forma de hashtag, dando a entender que o material faz parte de uma série de similares.


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síntese

Amostra 08 Aspectos conceituais Esta amostra é parte de uma campanha realizada por uma marca de cosméticos sustentáveis. A mulher representada é branca, a atriz Maria Casadevall. Não está visivelmente machucada ou com hematomas, mas é este justamente o propósito da campanha, seu discurso é de mostrar as feridas que não aparecem - isto é, todos os outros tipos de violência elencadas pela Lei Maria da Penha que não a física - através de rótulos colados nas mulheres. Aspectos formais

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As cores predominantes são branco, bege rosado, e preto. A textura, fora pele, cabelo e papel, é do fundo, é abstrata, mas parece uma parede descascada. A relação figura/fundo não é de tanto contraste, mas nada que atrapalhe a leitura da imagem. A hierarquia privilegia o rosto da atriz, e por conseguinte os rótulos que ela carrega, embora a hashtag “#tambéméviolência” cause alguma competição. Critérios avaliativos

Figura 35. Amostra 08. Fonte: Lush Cosméticos/Artemis Critérios

Resultado

Fenótipo

Branca

Machucados

Não

Discurso

Nem toda violência deixa marcas visíveis

Quanto à representação da mulher e sua atitude, a de Maria é classificada como ativa (nota 5), por conta de sua expressão questionadora e o modo como segura o rótulo no meio da boca, desafiadora porém não menos afetada por esse tipo de violência. Por lidar com o conceito forte de violência invisível e aplicá-lo em uma solução visual pertinente, considera-se que a amostra desconstrói (nota 5).

Cor Textura

Abstrata

Figura/Fundo

1º plano: Tarja e hashtag 2º plano: figura da mulher

Hierarquia

Rosto da mulher e etiquetas Hashtag Tarja

Qual a atitude da mulher representada? passiva ativa 1 2 3 4 5 Há ocorrência de mitificação ou desconstrução? mitifica desconstrói 1 2 3 4 5


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Amostra 09 Aspectos conceituais A amostra provém do Instituto Patrícia Galvão. Representa uma mulher branca, embora seja pouco visível. Ela não apresenta machucados ou hematomas, mas está chorando, assim como na amostra 7. Porém, o discurso difere muito da amostra anterior e por isso o choro da mulher também adquire outra conotação. Ambas amostras representam a mulher em desenhos, mas a amostra em questão trata de um desenho de criança. Intitulada ‘quem bate na mulher machuca a família inteira’, a peça argumenta que o homem que bate em sua mulher prejudica sua família toda, sendo a prova disso um desenho de criança, que representa todos os familiares chorando e o pai como um monstro. Aspectos formais

Critérios avaliativos Figura 36. Amostra 09. Fonte: Instituto Patrícia Galvão Critérios

Resultado

Fenótipo

Branca

Machucados

Não

Discurso

A violência não para só na mulher, afeta a família toda

Cor Textura

lápis de cor

Figura/Fundo

1º plano: Tudo 2º plano: Fundo

Hierarquia

Título Pai monstro Desenho da família Logos

Quanto à atitude da mulher representada, classifica-se passiva em certa medida (nota 2), por conta do choro e da proximidade do agressor, impotente. Quanto à mitificação ou desconstrução, considera-se que a amostra desconstrói (nota 5) por meio da emotividade que um desenho de criança carrega, mostrando o impacto da violência doméstica numa família, abalando essa instituição tão tradicional. Como crimes contra a criança têm tolerância bem menor do que crimes contra a mulher, é uma boa estratégia de comunicação. Qual a atitude da mulher representada? passiva ativa 1 2 3 4 5 Há ocorrência de mitificação ou desconstrução? mitifica desconstrói 1 2 3 4 5

TCC 2018

As cores predominantes são o cinza, o preto e o vermelho. A textura é de giz de cera ou lápis de cor, com fundo liso. A relação figura/fundo é clara, mas compõe apenas dois níveis, imagem e fundo. A hierarquia divide o destaque entre o título e o desenho, embora o rosto do pai-monstro chame muita atenção


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síntese

Amostra 10 Aspectos conceituais Esta amostra é proveniente do m-indicator, um app de transporte público indiano. A mulher representada é, portanto, parda. Está machucada e apresenta mais marcas no rosto. O discurso é de que, por tolerar a violência em silêncio, a mulher abusa de si mesma, por isso na imagem ela está agredindo a si própria. Aspectos formais As cores predominantes são cinza escuro, azul e preto. A textura é lisa, sem grandes destaques. A relação figura/ fundo e bem delimitada, com poucas camadas, só o fundo e figura da mulher se misturando um pouco ao texto. A hierarquia coloca em primeiro lugar o rosto da mulher, já que o resto das informações são tão pequenas que não chegam a competir com a figura.

Figura 37. Amostra 10. Fonte: M-Indicator

Critérios

Resultado

Fenótipo

Parda

Machucados

Não

Discurso

Por não denunciar, a mulher abusa de si mesma

Cor

Critérios avaliativos

Textura

ausente

Quanto à atitude da mulher representada, julga-se que é passiva (nota 1). Embora ela esteja desempenhando uma ação na imagem, a ação é silenciadora. Com relação à desconstruir ou mitificar, considera-se que mitifica (nota 1), porque seu conceito incorre na culpabilização da vítima ao dizer que ela faz isso consigo mesma. Se o agressor não agredir, não há violência. Talvez o contexto sociopolítico da Índia a torne mais adequada, mas no contexto brasileiro, culpabiliza demais.

Figura/Fundo

1º plano: Mulher 2º plano: Textos e fundo

Hierarquia

Figura da mulher Machucados Texto Logos

Qual a atitude da mulher representada? passiva ativa 1 2 3 4 5 Há ocorrência de mitificação ou desconstrução? mitifica desconstrói 1 2 3 4 5


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Análise de similares indiretos Critérios de análise

CONCEITUAL

A análise dos similares indiretos poderá se utilizar dos mesmos critérios da análise direta, com exceção no que diz respeito à representação visual de mulheres, já que eles não têm, necessariamente, ligação com pautas femininas. Se buscará avaliar se ocorre mitificação ou desconstrução de discursos presentes e, de forma complementar, será realizada análise formal também segundo Borges e Lupton (2008). Critérios descritivos

• A que discurso se refere? Variáveis: saúde pública, criminalidade, etc.

FORMAL

• Textura. Descrição: tipo de textura aplicada (ou ausência de textura). • Figura/fundo. Descrição: o que se destaca em primeiro plano e o que há em segundo plano.

CONCEITUAL

• Hierarquia. Descrição: ordem de importância das informações apresentadas. Critérios Avaliativos

• Ocorrência de mitificação ou desconstrução? (1 – mitifica e 5 – desconstrói)

A seguir, realizam-se as análises para ao fim do tópico constarem as tabelas de síntese dos dados obtidos.

TCC 2018

• Cor. Descrição: paleta de 3 cores principais.


72

síntese

Amostra 01 Aspectos conceituais São lambe-lambes do Estúdio Sinestesia, da série Frida Feminista. Fazem referência à artista Frida Kahlo, usando uma pequena imagem estilizada da pintora com frases feministas ao lado, na imagem: frases de auto aceitação corporal, incentivo à independência e autonomia, à militância. Aspectos formais

TCC 2018

Cada cartaz possui apenas uma cor, provavelmente impressos em tinta preta sobre papel colorido. Textura de lápis ou utensílio de desenho tradicional, relação figura/fundo pequena mas adequada, não existem sobreposições além de imagem e fundo. Relações hierárquicas dão destaque à ilustração, depois às frases e por último à assinatura. Ocorrência de mitificação ou desconstrução

Figura 38. Amostra 01. Fonte: Estúdio Sinestesia Critérios

Resultado

Discurso

Empoderamento feminino + Frida Khalo

Cor

Considera-se que a amostra desconstrói em certa medida (nota 4), porque não é um conceito forte ou inovador, mas cumpre seu papel em oferecer frases de empoderamento que podem impactar mulheres que o vejam pela rua.

?

Textura

lisa (papel)

Figura/Fundo

1º plano: Tudo 2º plano: fundo

Hierarquia

Rosto da personagem Frase principal Assinatura

Há ocorrência de mitificação ou desconstrução? mitifica desconstrói 1 2 3 4 5


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73

Amostra 02 Aspectos conceituais Amostra proveniente da Anistia Internacional. Através do desenho de uma forca que se une à uma placa de trânsito de parada, advoga o fim da pena de morte. Aspectos formais

Ocorrência de mitificação ou desconstrução Julga-se que a amostra desconstrói (nota 5), porque embora a junção da corda com a placa não seja tão impactante no eixo conceitual, é muito robusta visualmente. Há ocorrência de mitificação ou desconstrução? mitifica desconstrói 1 2 3 4 5

Figura 39. Amostra 02. Fonte: Anistia Internacional

Critérios

Resultado

Discurso

Oposição à pena de morte

Cor Textura

ausente

Figura/Fundo

1º plano: Forca e placa de pare 2º plano: Texto pequeno/assinatura

Hierarquia

Placa de pare Nó de forca Texto/assinatura

TCC 2018

As únicas cores são o vermelho e o branco. A textura é lisa, e a relação figura/fundo é de alto contraste, não havendo camadas. A hierarquia privilegia o sinal de pare (stop), depois levando os olhos em direção à corda de forca, e por último a assinatura.


74

síntese

Amostra 03 Aspectos conceituais Não pôde-se determinar exatamente a origem do material, embora contenha algumas assinaturas. É um cartaz lambelambe que faz referência às águas do cerrado e o cerrado em si, em defesa da manutenção do bioma, pelo que se pode perceber na frase ‘nem tudo que é torto é errado, veja as pernas do Garrincha e as árvores do cerrado’. Aspectos formais As cores predominantes são verde, vermelho e preto. A textura é de papel amassado, mas isso se deve à aplicação do material. A relação figura/fundo também é pequena, há pouca sobreposição senão pelas palavras ‘proteja’ e ‘salve’ sobre as imagens da vegetação. A hierarquia dá destaque aos textos que estão sobre fundos brancos, para depois apresentar as fotos e o texto em cima delas. Ocorrência de mitificação ou desconstrução Considera-se que a amostra desconstrói (nota 5), por abordar o tema da proteção ambiental de forma poética (o que é raro), simpática e no espaço público, gerando grande alcance.

Figura 40. Amostra 03. Foto: Adriana Milanoal

Critérios

Resultado

Discurso

Defesa do cerrado

Cor Textura

Papel

Figura/Fundo

1º plano: todos os textos 2º plano: fotos da vegetação

Hierarquia

Textos sobre fundo branco Fotos Textos sobrepostos às fotos

Há ocorrência de mitificação ou desconstrução? mitifica desconstrói 1 2 3 4 5


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75

Amostra 04 Aspectos conceituais Intervenção urbana do artista Rage. É uma caixa de luz que o artista pintou para se assemelhar à uma caixa de remédio, mas o nome do medicamento é bomsenso, tem distribuição gratuita e não necessita de prescrição médica. Dá a entender que falta bom-senso na vida. Aspectos formais

Critérios

Resultado

Ocorrência de mitificação ou desconstrução

Discurso

Ausência de bom-senso na humanidade

Julga-se que a amostra desconstrói em certa medida (nota 4), pois o discurso é um pouco menos claro que outras amostras e não tem um alvo muito específico. Mesmo assim, cumpre seu papel em questionar, tentando descobrir se através do hipocondrismo a humanidade consegue suprir que está faltando.

Cor Textura

Tinta

Figura/Fundo

1º plano: Textos 2º plano: Área de cor e fundo

Hierarquia

Nome do medicamento Tarja Demais textos

Há ocorrência de mitificação ou desconstrução? mitifica desconstrói 1 2 3 4 5

TCC 2018

Figura 41. Amostra 04. Fonte: Rage

Cores predominantes são branco, vermelho e preto. A textura é de tinta, mas devido à aplicação. Relação figura/ fundo clara, há bom contraste. A hierarquia manifesta-se no maior destaque no nome do remédio, mas deve se apontar que segue a hierarquia de uma caixa de medicamento.


76

síntese

Amostra 05 Aspectos conceituais Amostra proveniente de uma campanha publicitária da marca de cerveja Skol. Tendo um passado conhecido de fazer publicidade através da hipersensualização da figura feminina, a marca passou por mudanças depois de algumas campanhas ganharem forte reprovação. Na peça, assina “redondo é sair do seu passado”, e apresenta uma frase empoderadora para mulheres, contrariando sua tradição de anúncios objetificadores e machistas. Aspectos formais

TCC 2018

As cores predominantes são o rosa, roxo e amarelo. A textura é lisa ou ausente. A relação figura/fundo é de diversos planos, vindo em primeiro o texto e atrás grafismos diversos. As relações hierárquicas privilegiam o texto principal também, depois alguns grafismos como a garrafa da cerveja e o símbolo do feminino, depois a assinatura e os grafismos restantes. Ocorrência de mitificação ou desconstrução

Figura 42. Amostra 05. Fonte: Skol Critérios

Resultado

Discurso

Empoderamento da mulher + cerveja

Cor Textura

Ausente

Figura/Fundo

1º plano: Texto principal 2º plano: Garrafa de cerveja e grafismos

Hierarquia

Texto principal Garrafa de cerveja e símbolo de feminino Grafismos Assinatura e logo

Considera-se a amostra neutra (nota 3), porque apesar de trazer uma mensagem de empoderamento feminino, vêm de uma marca que historicamente se utilizou da figura feminina para venda e excluiu suas próprias consumidoras mulheres. Incorre na questão citada nos exemplos de design social (página 39): não fica claro se a Skol realmente acredita que mulheres podem estar onde quiserem e se promove isso em seu dia-a-dia como empresa, ou se está apenas se apropriando de um mote da militância feminista para, mais uma vez, vender. Há ocorrência de mitificação ou desconstrução? mitifica desconstrói 1 2 3 4 5


77

maria maldita // design gráfico no combate à violência doméstica contra a mulher

Resultados em tabela:

Critérios

amostra 1

amostra 2

amostra 3

amostra 4

amostra 5

amostra 6

amostra 7

amostra 8

amostra 9

amostra 10

Fenótipo

Branca

Negra e branca

Branca

-

-

-

Branca

Branca

Branca

Parda

Machucados e hematomas

Sim

Não

Sim

-

-

-

Não

Não

Não

Não

Discurso

Violência doméstica é crime

Falta de denúncia

Esconder machucados

Falta da denúncia

Violência doméstica é crime

Desconstrução de abuso no relacionamento

A violência não para Nem toda violência deixa só na mulher, afeta a marcas visíveis família

Por não denunciar, a mulher abusa de si mesma

Cor

roxo claro, roxo escuro, preto

Rosa, roxo, preto

Cinza, preto, cinza escuro Branco e preto

Roxo, rosa, branco

Cinza claro, roxo, cinza

Azul, laranja, branco

Branco, bege, preto

Cinza, preto, vermelho

Cinza, azul, preto azulado

Textura

padronagem (papel de parede)

granulado

granulado

ausente

ausente

ausente

abstrato

lápis de cor

ausente

Figura/fundo

1º plano: texto 2º plano: mulher

1º plano: celular com número 1º plano: textos 1º plano: Texto de denúncia/logos 2º plano: rosto da mulher 2º plano: Parede 2º plano: pessoas/textos

1º plano: Texto principal 2º plano: fundo

1º plano: Cartaz 1º plano: Tudo 2º plano: Homem e textos 2º plano: Fundo

1º plano: Tarja e hashtag 2º plano: figura da mulher

1º plano: Tudo 2º plano: Fundo

1º plano: Mulher 2º plano: Textos e fundo

Rosto da mulher

Hierarquia

Rostos de Sharon Menezes e Luana Piovani e celular

Dizeres "violência doméstica é crime"

Texto

"Denuncie. Disque 180"

Outros personagens

Demais informações

Denúncia pública

lisa (papel colado)

Figura do homem Rosto da mulher Hashtag

Cartaz

Texto chamativo -

Texto de explicação

Logo Ligue 180

Texto de explicação Logos

Texto explicativo

Logo

Logos

Ilustração da mulher chorando Hashtag

Título Rosto da mulher e etiquetas

Pai monstro

Figura da mulher

Hashtag

Desenho da família

Tarja

Logos

Machucados Texto

Texto

Logos

Logo

Logos

Tabela 1. Análise direta descritiva. TCC 2018

Qual a atitude da mulher representada? (1 - passiva e 5 - ativa) 1

2

3

Amostra 01 Amostra 02 Amostra 03 Amostra 04

-

Amostra 05

-

Amostra 06

-

Amostra 07 Amostra 08 Amostra 09 Amostra 10

Tabela 2. Análise direta avaliativa.

4

Há ocorrência de mitificação ou desconstrução? (1 – mitifica e 5 – desconstrói) 5

1

2

3

4

5


78

síntese

Critérios

amostra 1

amostra 2

amostra 3

amostra 4

amostra 5

Discurso

Empoderamento feminino + Frida Khalo

Oposição à pena de morte

Defesa do cerrado

Ausência de bom-senso na humanidade

Empoderamento da mulher + cerveja

Cor

Preto e colorido

Vermelho e branco

Verde, vermelho e preto

Branco, vermelho e preto

Rosa, amarelo e roxo

Textura

Papel

Ausente

Papel

Tinta

Ausente

Figura/fundo

1º plano: Tudo 2º plano: fundo

1º plano: Forca e placa de pare 2º plano: Texto pequeno/assinatura

1º plano: todos os textos 1º plano: Textos 1º plano: Texto principal 2º plano: fotos da vegetação 2º plano: Área de cor e fundo 2º plano: Garrafa de cerveja e grafismos

Rosto da personagem

Placa de pare

Textos sobre fundo branco

Nome do medicamento

Frase principal

Nó de forca

Fotos

Tarja

Assinatura

Texto/assinatura

Textos sobrepostos às fotos

Demais textos

Texto principal Garrafa de cerveja e símbolo de feminino Hierarquia

Grafismos Assinatura e logo

TCC 2018

Tabela 3. Análise indireta descritiva.

Há ocorrência de mitificação ou desconstrução? (1 – mitifica e 5 – desconstrói) 1 Amostra 01 Amostra 02 Amostra 03 Amostra 04 Amostra 05

Tabela 4. Análise indireta avaliativa.

2

3

4

5


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79

3.2 Entrevista com público Adicionalmente, é necessário como forma de análise buscar visualizar o repertório do público envolvido. Com a mesma amostra de similares, uma entrevista semi-estruturada com pessoas envolvidas no problema foi conduzida, de forma a saber suas opiniões e percepções sobre materiais similares ao que virá a ser desenvolvido, bem como procurar nessas inclinações as linguagens que melhor dialogam com essas pessoas. Três grupos diferentes foram abordados presencialmente com imagens dos similares diretos e o seguinte questionário guia, que era lido para eles, e precisavam apenas eleger um similar como resposta. Pesquisa conceitual

• Qual tipo de representação de mulher gera mais empatia? (machucada ou ativa) • É melhor falar com a mulher ou com o agressor? pensam sobre isso?

• Qual amostra você acha que funciona melhor para o problema em geral? Pesquisa formal

• Qual chama mais atenção? (verificar se foi o mesmo da pergunta anterior) • Qual cor você acha mais adequada para o assunto? • Qual letra você acha mais adequada para o assunto? (tipografia) Pesquisa retórica3

• Qual é o mais “golpe baixo”? Isto é, que mais emociona (pathos) • Qual é o mais sério? Isto é, que você “obedeceria” (ethos) • Qual é que mais faz sentido? Isto é, que carrega um argumento (logos)

3 // Retórica é a arte de falar bem, ou seja, se utilizar da linguagem para comunicar de forma eficaz e persuasiva. Na entrevista foram utilizadas as provas retóricas artísticas, isto é, artificiais, de Aristóteles, a saber: ethos, pathos e logos. Consistem em estratégias para se dizer algo. Ethos é a que se utiliza da moral/credibilidade do orador ou de quem é citado para fortalecer seu argumento. Pathos se utiliza de argumentos emocionais e que buscam o convencimento através da comoção. E logos, por fim, se utiliza de argumentos lógicos (como dedução, causa-consequência), ou que pareçam lógicos, para construir um argumento. (RATI, 2017)

TCC 2018

• Qual amostra você acha que funciona melhor para mudar o que as pessoas ‘de fora’


80

síntese

TCC 2018

Os grupos entrevistados foram: um grupo de jovens de uma igreja católica; os servidores terceirizados de segurança e manutenção de um órgão público; e as funcionárias do Centro de Referência de Atendimento à Mulher em Situação de Violência (CRAM). Em cada um desses grupos buscava-se obter perspectivas diferentes sobre o problema. No grupo da igreja, buscava-se saber quais eram as opiniões e percepções de indivíduos inseridos ativamente no cristianismo, que surge com frequência como construtor e mantenedor de alguns papéis de gênero, principalmente com relação ao casamento. No grupo dos funcionários de segurança, buscava-se coletar as opiniões e percepções de homens de meia-idade, que são possivelmente menos atingidos por discursos de desconstrução. No CRAM, buscava-se observar se as percepções de pessoas com vivência e conhecimento na problemática de violência doméstica contra a mulher seriam muito diferentes do restante dos entrevistados, bem como quais eram as opiniões e visões de profissionais que lidam com a problemática no dia a dia. A entrevista totalizou 15 participantes, 5 de cada grupo. O mesmo formulário (anexo 1) foi aplicado à todos os grupos.

No tópico a seguir, encontra-se a compilação dos dados obtidos na análise de similares e nas entrevistas. Estes serão discutidos, com o objetivo de extrair diretrizes e parâmetros para a geração de alternativas gráficas enfim.


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81

3.3 Compilação de dados 3.3.1 An á l is e direta e e n t rev i st as 01

02

TCC 2018

03

04

05

06 07

08 10 09

Figura 43. Miniaturas das amostras para referência e melhor leitura


82

síntese

TCC 2018

Discussão Conclui-se em análise descritiva que quanto a representação imagética da mulher, a maioria das mulheres representadas eram brancas, com somente duas mulheres fora da tendência, uma negra e uma que, embora seja indiana e assim asiática, pode ser lida no Brasil como parda. A maioria da população do país é negra4, e embora a maioria da população curitibana seja branca (IBGE, 2010), é muito importante que haja diversidade de fenótipos e biotipos na imagem da mulher, para gerar representatividade e, assim, identificação. Uma mulher pode sentir que uma mensagem de auto-estima, por exemplo, não é pra ela caso não se sinta em alguma forma representada, e por isso essa maioria é um pouco desconcertante. Já na questão dos machucados, a maioria das mulheres representadas não está machucada visivelmente, embora algumas estejam chorando. A representação de machucados pode não ser muito boa para que vítimas vejam, assim como, opino, banaliza a imagem da violência. Todo mundo sabe ao que se refere uma mulher com um olho roxo, mas isso não parece afetar a cultura de não “meter a colher”. Não houve maioria muito significativa quanto ao discurso de cada amostra, mas vale citar que os discursos de que violência doméstica é crime e de que falta denúncia se repetiram, duas vezes cada. Argumentar que a violência doméstica é um crime parece ser uma tentativa de imbuir o assunto de moral e credibilidade. Se não se age em prol de mulheres, talvez se haja por medo da lei. Quanto a análise formal, as cores predominantes foram tons de cinza escuro ao preto e de roxo, do rosado ao azulado. A textura não se apresentou como fator muito notável, a maioria foi lisa ou ausente. Já quanto às relações de figura/fundo e hierarquia, foi comum que em primeiro plano viessem textos e informações, mas o elemento de maior peso foi com maior frequência o rosto ou a figura da mulher. 4 // Classificação do IBGE, que soma pretos e pardos para formar a população negra, censo 2010


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Qual a atitude da mulher representada? (1 - passiva e 5 - ativa) 1

2

3

4

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Há ocorrência de mitificação ou desconstrução? (1 – mitifica e 5 – desconstrói) 5

1

2

3

4

5

Amostra 01 Amostra 02 Amostra 03 Amostra 04

-

Amostra 05

-

Amostra 06

-

Amostra 07 Amostra 08 Amostra 09 Amostra 10

Tabela 2. Análise direta avaliativa.

A amostra 10 acaba por ser a amostra mais negativa, por representar atitude passiva e usar dela para mitificar a questão da culpa em casos de violência doméstica. Ao mostrar uma mulher agredindo a si mesma, em conjunto com o texto “por tolerar em silêncio, você abusa de si mesma”, a amostra coloca a culpa inteira de um problema sócio-histórico estrutural na mulher que é agredida em casa. Pode ser que em seu país de origem, a Índia, o cartaz faça mais sentido, mas nessa análise considera-se que não é um bom exemplo de ação gráfica. Diferentemente, a amostra 8 seria a amostra mais positiva, tendo obtido maior nota. Representa uma mulher de atitude não só ativa como questionadora, o que é um pouco incomum no cenário de ações gráficas contra violência doméstica. Se difere da outra amostra (02) que também foi classificada como atitude ativa porque representa uma vítima ativa, enquanto a amostra 02 representa testemunhas ou pessoas de fora ativas. É mais valioso que seja a vítima a demonstrar força. Considerou-se também que a essa amostra desconstrói por trazer a tona as agressões invisíveis, que não se traduzem em hematomas e machucados, mas

TCC 2018

Quanto aos critérios avaliativos, na avaliação da atitude da mulher representada a curva tende mais para o lado da passividade. Especula-se que para cada tipo de público é melhor um tipo de atitude, pois, por um lado uma representação passiva pode desestimular ou assustar uma vítima, mas pode gerar maior empatia para testemunhas ou agressores. Isso poderá ser discutido mais abaixo com o resultado das entrevistas, mas para esta análise, considera-se a atitude passiva negativa. Já na ocorrência de mitificação ou desconstrução, a curva tende para a desconstrução, o que é muito bom como reflexo das iniciativas de combate à violência doméstica que essas amostras representam.


84

síntese

sim em xingamentos e manipulação. É importante porque algumas mulheres e agressores podem nem se dar conta de que esse tipo de comportamento é violento e abusivo. Entretanto, destaco a amostra 09, que embora represente uma mulher passiva, considero que pode levar à desconstrução, por se apresentar no formato de um desenho infantil e por desconstruir a aura inatingível da família. É uma mistura de uso de pathos e ethos, embora seja muito emocional por tratar da situação vista dos olhos da criança, mostra que a violência também a atinge e apela para a destruição a família, instituição cara ao brasileiro médio.

TCC 2018

Trata-se agora dos dados obtidos nas entrevistas, já que trataram apenas dos similares diretos.

Gráfico 1. Amostra que gera mais empatia

A primeira pergunta buscava determinar qual representação imagética da mulher gerava mais empatia no entrevistado, com a intenção de relacionar a resposta com a atitude da mulher representada. A amostra que mais gerou empatia foi a amostra 3, tanto no geral quanto individualmente em cada grupo. Isso é bom pois considerou-se que a atitude da mulher da amostra é ativa em certa medida, pois ela parece encarar quem a vê. Mas problemático no sentido de ser um cartaz clássico, com o rosto de uma mulher machucado. Essa também foi a amostra indicada como a que mais chama atenção, o que imagino que se deva um pouco à boa relação figura/fundo. Foi ainda a apontada como mais emocional, isto é, que se utilizava do pathos.


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Gráfico 2. É melhor falar com a mulher ou com o agressor?

TCC 2018

Já a segunda pergunta, ‘é melhor falar com a mulher ou com o agressor’, tinha como respostas previstas “mulher” e “agressor”, mas o grupo de entrevistadas adicionou a reposta “ambos”, e foi perceptível que outros entrevistados pensaram a mesma coisa, mas não tiveram a confiança de responder dessa maneira. Essa resposta justifica e confirma que é necessário trabalhar em mais de uma frente no combate a violência doméstica. É curioso notar, no entanto, que todas as respostas ‘agressor’ partiram de mulheres, da mesma forma que as respostas ‘mulher’, partiram dos homens. Talvez signifique que mulheres, mesmo que não estando em situação de violência doméstica ou nunca tendo passado por isso, compreendam um pouco melhor de onde a violência vêm. É necessário trabalhar para que a mulher tenha autonomia e para que denuncie, bem como é necessário estimular as testemunhas a não tolerar. Mas quanto ao agressor, é preciso que pare de agredir. A raiz do problema pode não ser o indivíduo, mas é nele que a violência se manifesta. Ou talvez signifique apenas que um gênero joga o problema para o outro.


86

síntese

TCC 2018

Gráfico 3. Melhor amostra para pessoas ‘de fora’.

Gráfico 4. Melhor amostra em geral.

Quanto aos votos de melhores amostras, note-se que as caracterizações de ‘melhores’ não são iguais. A amostra 4 foi considerada a melhor para pessoas de fora do problema por apenas um ponto de diferença da amostra 3. É curioso visto que são materiais bem diferentes um do outro, mas pode-se dever ao conceito da amostra 3, e não à seus aspectos imagéticos. Não chega a haver um consenso quanto a qual é a melhor amostra de todas, resultando em 4 amostras empatadas. Note-se que mesmo no empate, surgem duas amostras - 7 e 8, que não são consideradas boas para as pessoas de fora, já que não apareceram significativamente nas respostas dessa pergunta.


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Gráfico 5. Melhor amostra para pessoas ‘de fora’.

Se observarmos que as amostras 1, 3 e 10 eram as únicas que continham mulheres machucadas, podemos traçar um paralelo com seu bom desempenho em chamar a atenção, talvez o fator não seja a relação figura/fundo, mas os machucados e hematomas em si. É importante apontar, também, que com exceção das amostras 1 e 3, a classificação parece ter sido excludente: ou a amostra era boa, ou chamava a atenção. Isso pode se dever ao fato de algumas amostras terem um aspecto mais publicitário que outras, principalmente quanto ao tratamento de imagem. Além de serem chamativas, são mais familiares ao público. Já as questões sobre retórica pretendiam observar qual dos apelos estava mais presente nas melhores amostras. Intencionalmente, foram escolhidas amostras que representassem ethos - amostra 6, pathos - amostra 9, e logos - amostra 4. Somente a amostra 4 teve sucesso nas votações, então talvez a estratégia retórica de logos funcione melhor para o público em geral. A amostra 5, eleita a melhor em geral, também foi apontada como lógica, corroborando com a possibilidade de este ser um apelo adequado para tratar da problemática.

TCC 2018

Embora tenha aparecido mais vezes, a amostra 3 não foi a considerada a melhor. Como pode-se perceber no gráfico acima (gráfico 5), somando a qualidade de ser melhor para as pessoas de fora do problema e melhor para o problema em geral, a amostra mais votada foi a 5. A amostra 3 e a 1 merecem menção, por chamarem atenção e terem recebido votos consideráveis como melhores.


88

síntese

TCC 2018

Quanto aos aspectos formais, as cores mais votadas foram o roxo, o vermelho e o preto, respectivamente. O roxo foi particularmente mais popular entre as funcionárias do CRAM, especulo que isso se deve ao fato de estarem imersas num contexto que produz os próprios materiais gráficos, e eles usam dessa cor. De fato, o roxo tem sido um cor bem comum para tratar de assuntos femininos em políticas públicas. É a cor do Ligue 180 e do logo da SPM.

Gráfico 6. Cor mais adequada

Entre as pessoas sem a mesma vivência das funcionárias, predominou o vermelho. Quanto aos estilos de fonte oferecidos, o mais votado foi o da fonte Muro, um fonte pesada, all-caps sem serifa condensada. A fonte katahdin também recebeu votos, e é similar a mais votada: allcaps, sem serifa e pesada, mas é quase estendida e tem cantos arredondados. Foi o fator que mais concentrou unanimidade.

Violência doméstica

Adobe Caslon Pro

Violencia domestica Shorelines Script

Violência doméstica Katahdin Round

Violência doméstica Alfa Slab One

Violência doméstica Muro

Source Sans Pro

Figura 44. Tipografias apresentadas aos entrevistados


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Entre grupos, as diferenças mais expressivas foram as respostas no grupo do CRAM em relação ao restante. Na primeira pergunta, sobre a mulher que gerava mais empatia, a amostra mais votada nos três grupos foi a número 3. Um participante de 59 anos chegou a dizer que a atitude da mulher da amostra 8 (considerada ativa) era muito arrogante, e por não isso não votaria nela como causadora de empatia, reforçando a noção de que é preciso um tipo de atitude para cada público. Tanto o grupo da igreja como o grupo dos seguranças julgou ser melhor dirigir uma campanha às mulheres, e somente o CRAM a resposta ‘ambos’ prevaleceu. O CRAM reuniu também a maioria dos votos na cor roxa, já que trabalham com ela, enquanto o grupo da igreja teve a cor vermelha como mais votada e o grupos dos seguranças e funcionários elegeu a cor preta. Todos os grupos tiveram a fonte Muro como mais votada. Observa-se também que as mesmas amostras mais votadas como melhores para pessoas “de fora”, se repetiram na pergunta pela amostra mais lógica, podendo indicar que o público acredita que a lógica seja o melhor jeito de abordar o problema. Não se observou nenhuma outra diferença significativa ou que tenha uma causa explícita. Sendo o grupo 01 o grupo de jovens, o 02 os funcionários de segurança e o 03 as funcionárias do CRAM, abaixo apresentam-se os totais de cada grupo. grupo 02

grupo 03

3

3

3

Mulher

Mulher

Ambos

Melhor amostra para pessoas de fora

4

5

2

Melhor amostra em geral

3

5

5

Qual chama mais atenção?

3 e 10

3

3

Qual é o mais emocional?

3

-

-

Qual é de autoridade?

2

1

1

Qual é a mais lógica?

4e8

5

2

Vermelho

Preto

Roxo

Muro

Muro

Muro

Qual representação gera mais empatia É melhor falar com a mulher ou com o agressor?

Qual a cor mais adequada? Qual a tipografia mais adequada?

TCC 2018

grupo 01

Tabela 5. Maiorias de cada grupo


90

síntese

3 .3.2 Anál is e in direta 01

05

03 02

04

Figura 45. Miniaturas das amostras para referência e melhor leitura

Critérios

amostra 1

amostra 2

amostra 3

amostra 4

amostra 5

Discurso

Empoderamento feminino + Frida Khalo

Oposição à pena de morte

Defesa do cerrado

Ausência de bom-senso na humanidade

Empoderamento da mulher + cerveja

Cor

Preto e colorido

Vermelho e branco

Verde, vermelho e preto

Branco, vermelho e preto

Rosa, amarelo e roxo

Textura

Papel

Ausente

Papel

Tinta

Ausente

Figura/fundo

1º plano: Tudo 2º plano: fundo

1º plano: Forca e placa de pare 2º plano: Texto pequeno/assinatura

1º plano: todos os textos 1º plano: Textos 1º plano: Texto principal 2º plano: fotos da vegetação 2º plano: Área de cor e fundo 2º plano: Garrafa de cerveja e grafismos

Rosto da personagem

Placa de pare

Textos sobre fundo branco

Nome do medicamento

Frase principal

Nó de forca

Fotos

Tarja

Assinatura

Texto/assinatura

Textos sobrepostos às fotos

Demais textos

Texto principal Garrafa de cerveja e símbolo de feminino Hierarquia

Grafismos Assinatura e logo

Tabela 3. Análise indireta descritiva.

Da análise descritiva indireta, pode-se perceber que eram bem diferentes entre si, não havendo assim grandes tendências formadas. A maior diferença que apresenta em relação à amostra direta são as cores, muito mais vivas e com tons de vermelho presentes. Pode-se perceber, também, que são em sua maioria textuais. Quanto à textura, é do papel ou ausente, não são muito relevantes no todo da peça. A relação figura/fundo trás em primeiro plano os textos dos cartazes, em alguns casos, é muito rasa: o conteúdo todo acima de um fundo, sem maiores sobreposições. A relação hierárquica não se diferencia muito, destacando o que já está em primeiro plano.


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91

Há ocorrência de mitificação ou desconstrução? (1 – mitifica e 5 – desconstrói) 1

2

3

4

5

Amostra 01 Amostra 02 Amostra 03 Amostra 04 Amostra 05

Tabela 4. Análise indireta avaliativa.

Por fim, tendo compilado e discutido os dados provenientes da amostra de similares, parte-se agora para geração de diretrizes a partir deles.

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Quanto à análise avaliativa, que consistia apenas na colocação entre mitificar e desconstruir, é possível perceber que curva tende para a desconstrução. As amostras 1 e 4 não receberam nota 05 (desconstrói), por não apresentarem conceitos muito fortes ou claros. A amostra 5 ficou neutra porque, embora traga uma mensagem de empoderamento feminino, é proveniente de uma famosa marca de cerveja que ano após ano usou da hipersexualização da imagem feminina para se promover, e depois de alguns problemas com suas consumidoras, resolveu mudar de lado. Pode não ser uma mensagem legítima, diga-se. E, por fim, as melhores amostras seriam números 2 e 3, já que esse é o único critério presente para julgamento. Considerou-se que ambas abordam seus respectivos problemas de formas impactantes e bem pensadas, e que através de seus conceitos, desconstroem as questões que atacam.


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síntese

3.4 Diretrizes

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Com base nas análises e entrevistas, formam-se agora as diretrizes para geração de alternativas. Listam-se as amostras mais relevantes, recomendações e parâmetros. As recomendações são, basicamente, a síntese dos resultados da análise. Já os parâmetros, são a filtragem dessas recomendações à partir da fundamentação teórica e dos objetivos do trabalho, formando um checklist a ser aplicado, mais tarde, às alternativas geradas, a fim de indicar qual delas é a melhor solução.


Melhor amostra / Análise Indireta

Melhor amostra / Público

Amostra mais citada / Público

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Melhor amostra / Análise Indireta

Melhor amostra / Autora

Melhor amostra / Análise

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Similares relevantes


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síntese

Como recomendações, listam-se: • Conceito desconstrutivo; • Texturas são lisas ou pouco notáveis; • Se há mulher representada, o foco está em seu rosto; • Cores frias e sóbrias relacionadas à violência doméstica; • Cores vibrantes relacionadas à materiais de rua/sociais; • A imagem da mulher machucada gera empatia e comoção; • Representação da mulher vulnerável é impactante; • É necessário falar tanto com a mulher quanto com o agressor; • A estratégia retórica de lógica é bem avaliada e bem recebida; • Material puramente textual é bem avaliado; • Pessoas são mais afetadas se forem comovidas ou impactadas; • São desejáveis as cores: roxo, vermelho e preto; • São desejáveis tipografias similares à fonte Muro.

Com base nas recomendações, as mais relevantes foram elencadas para tornarem-se parâmetros, que serão usados para atribuir valor para cada alternativa e assim definir qual é a mais adequada. Retomando a fundamentação teórica, a essência do material deve ser a desconstrução, portanto sem criar mitos ou mistificar conceitos. Se houver mulher representada, a atitude deve variar conforme o público - ativa para mulheres vítima, ativa em alguma medida para o agressor, passiva em alguma medida para as testemunhas. Se houver representação feminina, deve haver representação de diversidade racial. Quanto à estratégia retórica, logos deve receber destaque, já que foi bem avaliada pelo público. Como comentado anteriormente, algumas amostras possuem caráter mais publicitário que outras e, embora por isso sejam mais familiares e chamem mais atenção, não foram bem avaliadas pelo público. Por isso, inclui-se como parâmetro a “abordagem de design” como vantagem em relação à abordagens publicitárias. Elenca-se também o parâmetro de impacto, que diz respeito ao potencial da alternativa de comover e afetar as pessoas. Quanto à aspectos formais, como o material tem aplicações no espaço público, opta-se por contrariar a tendência de cor dos similares diretos e basear-se nas cores dos similares indiretos, condizentes também com o que


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as pessoas-público apontaram ser o mais adequado. Por fim, quanto à tipografia, deve ser similar à fonte Muro: all-caps condensada e pesada. Assim sendo, configuram-se como parâmetros: [ [ e [ [ [ [ [

] Conceito que leve à desconstrução ] Mulher representada, com atitude variante, adequada ao público diversidade racial ] Retórica de lógica ] Abordagem de design ] Impacto ] Cores vibrantes ou vermelho/roxo/preto ] Fonte all-caps, condensada, peso black

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0


04 Ideação


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4.1 Conceituação

Dentro disso, uma série de materiais gráficos diferentes será desenvolvida - cartaz, lambelambe, panfleto, adesivo - para cada eixo do público. Além da desnaturalização, para as mulheres, o foco deverá ser de valorização, o incentivo à autonomia, à auto-estima. Para o agressor, foco na responsabilização e em mostrar que o que faz não é certo, nem tolerável. Para as testemunhas, mostrar sua parcela de responsabilidade nos casos e que não se deve tolerar a violência doméstica. A seguir, consta a geração de alternativas.

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Tendo em mente os parâmetros definidos; as informações reunidas sobre violência doméstica contra a mulher e sua tolerância social; a teoria sobre desconstrução e discurso; bem como a abordagem conceitual do design para mudança social, o conceito do material a ser desenvolvido configura-se como desnaturalização da violência doméstica. Sendo a violência doméstica um problema tão complexo, não é suficiente fazer peças gráficas que incentivem a denúncia somente ou que mostrem mulheres machucadas ao acaso. É necessário que se desconstrua a normalidade que paira sobre o assunto. É necessário que os atores envolvidos percebam que a violência doméstica não é normal, não é natural, não é legítima e, por tanto, não deve continuar acontecendo. É preciso primeiro o reconhecimento da situação como um problema para que o passo a da denúncia possa ser dado. Então, as peças terão o conceito máximo de desnaturalizar, e dentro dele outros recortes serão feitos.


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ideação

4.2 Geração de Alternativas:

parte 1

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A seguir, encontram-as as alternativas desenvolvidas até a pré-qualificação. O conteúdo textual ainda não foi finalizado, alguns derivam de amostras analisadas, alguns de pesquisas realizadas. Se solicitará o auxílio de uma graduanda em jornalismo (Maria Mileski) para definir os textos corretamente. Para melhor organização, estão divididas em alternativas imagéticas, tipográficas e de intervenção urbana. Abaixo de cada uma, segue-se o checklist de parâmetros definidos anteriormente, marcando o que a alternativa contém ou não.


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1. I m agéti c a s /fi g urat iva s Alternativa 1: Palavras/marcas Figura 46. Alternativas 1

Nessa alternativa, o conceito é mostrar a violência ou o apoio à vítima através de palavras. Utiliza-se da representação da mulher em ilustrações. Os machucados nas faces delas são formados por enunciados e julgamentos de testemunhas; ou xingamentos do agressor. De forma um pouco diferente, na peça direcionada à mulher as palavras são de apoio e valorização e estão em seu peito, mesmo que uma ou outra represente uma cicatriz, são sobre se recuperar da situação de violência.

[ ] Conceito que leve à desconstrução [ x ] Mulher representada, atitude variante, e diversidade racial [ x ] Retórica de lógica [ ] Abordagem de design [ ] Impacto [ x ] Cores vibrantes ou vermelho/roxo/preto [ x ] Fonte all-caps, condensada, peso black


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Alternativa 2: Mete a colher

Figura 47. Alternativas 2

Uso de uma colher como símbolo de empoderamento e combate, fazendo referência ao ditado “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”. Para a mulher, uma mulher com uma colher em riste, como instrumento de força, sozinha no cartaz. Para testemunhas, uma colher em meio a um casal, separando uma agressão. Para o agressor, seu ponto de vista e uma colher interrompendo ou sendo obstáculo entre ele e a mulher. Essa alternativa pode ser um pouco menos didática, contendo só as ilustrações e a chamada “mete a colher”, deixando o resto a cargo da interpretação das pessoas que vêem o material.

[ ] Conceito que leve à desconstrução [ x ] Mulher representada, atitude variante, e diversidade racial [ x ] Retórica de lógica [ x ] Abordagem de design [ ] Impacto [ x ] Cores vibrantes ou vermelho/roxo/preto [ x ] Fonte all-caps, condensada, peso black


103

Alternativa 3: Quem bate é você

Tem objetivo de desmistificar a justificativa de que o álcool, as drogas, ou a religião fazem com que o agressor seja violento. Mostra que essas coisas não agridem uma mulher sozinhas, mas sim a pessoa de sua convivência/domicílio. É mais direcionada ao agressor. Para se direcionar à mulher, pode-se trocar “você” por “ele”. Nessa alternativa as cenas são desenhadas em silhuetas, como se estivessem sido assistidas por alguém, assim criando uma sensação de ‘outro’ mesmo que comunique-se bem diretamente com o agressor. Esse mesmo conceito aparece novamente na alternativa 6, mas sob apresentação textual, e não imagética.

Figura 48. Alternativas 3

[ x ] Conceito que leve à desconstrução [ x ] Mulher representada, atitude variante, e diversidade racial [ x ] Retórica de lógica [ ] Abordagem de design [ ] Impacto [ x ] Cores vibrantes ou vermelho/roxo/preto [ x ] Fonte all-caps, condensada, peso black


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2 . Ti po g ráfi c a s Alternativa 4: Quem fez o quê

Figura 49. Alternativas 4

Tem intuito de falar claramente o que acontece. Se em alguns casais a violência não parece real ou é algo sobre o que eles preferem não pensar, essa alternativa coloca em termos diretos e de forma impactante, bem como distribui responsabilidades para o agressor e para a testemunha tolerante. Ao fundo constam alguns padrões abstratos, e em primeiro plano o texto. [ x ] Conceito que leve à desconstrução [ ] Mulher representada, atitude variante, e diversidade racial [ x ] Retórica de lógica [v] Abordagem de design [ x ] Impacto [ x ] Cores vibrantes ou vermelho/roxo/preto [ x ] Fonte all-caps, condensada, peso black


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Alternativa 5: Não é normal

Alternativa textual em que o argumento principal é que violência doméstica não normal, e sim um crime. Frisa que a violência doméstica ou atos violentos não são uma discussão qualquer. Abre caminho para várias frases diferentes, pode-se, por exemplo, ter uma peça sobre cada tipo de violência doméstica coberto pela Lei Maria da Penha. A fonte não é condensada, mas atende aos outros requisitos. [ ] Conceito que leve à desconstrução [ ] Mulher representada, atitude variante, e diversidade racial [ x ] Retórica de lógica [ ] Abordagem de design [ ] Impacto [ x ] Cores vibrantes ou vermelho/roxo/preto [ x ] Fonte all-caps, condensada, peso black

Figura 50. Alternativas 5


106

Alternativa 6: Quem bate é você (2)

O conteúdo é o mesmo da alternativa 3, mas somente com texto. Como há mais espaço e maior protagonismo, a frase pode ficar um pouco maior, e de destacar sozinha contra um fundo colorido. Usar da abordagem textual para esse conceito é bom pois permite melhores representações de fatores mais abstratos como raiva, desemprego, drogas. [ x ] Conceito que leve à desconstrução [ ] Mulher representada, atitude variante, e diversidade racial [ x ] Retórica de lógica [ x ] Abordagem de design [ x ] Impacto [ x ] Cores vibrantes ou vermelho/roxo/preto [ x ] Fonte all-caps, condensada, peso black

Figura 51. Alternativas 6


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3 . I n ter ve n ç ã o/ i n tera ç ã o u r b a na Alternativa 7: Muros danificados Utilizar-se de danos em muros da cidade, como rachaduras, quebras e buracos, coisas normais, para representar as marcas da violência doméstica. Na peça direcionada ao agressor, uma mulher desenhada ao redor de um buraco na parede, como se esse fosse um hematoma. Para a mulher, uma mulher “tocando no assunto”, mas com marcas apenas em seu braço, para mostrar que a superação é possível. Para a testemunha em geral, um olhar vindo de dentro da uma rachadura ou uma cena de violência ocorrendo, com as palavras “não finja que não viu” ao lado.

Figura 52. Alternativas 7

[ ] Conceito que leve à desconstrução [ x ] Mulher representada, atitude variante, e diversidade racial [ x ] Retórica de lógica [ ] Abordagem de design [ x ] Impacto [ x ] Cores vibrantes ou vermelho/roxo/preto [ x ] Fonte all-caps, condensada, peso black


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Alternativa 8: Árvores

Figura 53. Alternativas 8

Partindo do conceito de desnaturalização, utilizarse de árvores em meio à cidade; pendurar nelas enunciados, dados, xingamentos, lugares-comuns sobre violência doméstica, com uma placa maior que afirma que violência doméstica não é natural, assim como os penduricalhos na árvore. A fonte novamente não seria condensada, mas atende aos demais requisitos.

[ ] Conceito que leve à desconstrução [ ] Mulher representada, atitude variante, e diversidade racial [ ] Retórica de lógica [ ] Abordagem de design [ x ] Impacto [ x ] Cores vibrantes ou vermelho/roxo/preto [ x ] Fonte all-caps, condensada, peso black


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Alternativa 9: Intempéries

Figura 54. Alternativa 9.

Ainda explorando o conceito de desnaturalização, usar-se de elementos naturais das cidades menos óbvios que as árvores: os sinais das intempéries. Selecionar localidades onde existam paredes com tinta desbotada, musgo ou manchas de chuva para afixar enunciados como “Chuva é natural. Violência em casa não”. A luz do sol, musgo e cercas vivas seriam as naturais, e coisas como controlar a vida da parceira, diminuir a auto-estima, ameaças de morte, etc, não. [ x ] Conceito que leve à desconstrução [ ] Mulher representada, atitude variante, e diversidade racial [ x ] Retórica de lógica [ x ] Abordagem de design [ ] Impacto [ ] Cores vibrantes ou vermelho/roxo/preto [ x ] Fonte all-caps, condensada, peso black


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4.3 Geração de Alternativas:

parte 2

A seguir, encontram-as as alternativas desenvolvidas após pré-qualificação, a partir do feedback da relatoria. Duas delas são refinamentos de alternativas propostas na parte 1, enquanto três delas são novas, tendo surgido na busca por mais impacto e em meios de propagação diferentes, ao mesmo tempo que menos específicos.

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ideação

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Alternativa 1: Quem fez o quê

Figura 55. Alternativa “quem fez o quê”, 1/3.

Tem intuito de falar claramente o que acontece. Se em alguns casais a violência não parece real ou é algo sobre o que eles preferem não pensar, essa alternativa coloca em termos diretos e de forma impactante, bem como distribui responsabilidades para o agressor e para a testemunha tolerante. Ao fundo constam alguns padrões abstratos, e em primeiro plano o texto. Podem ser aplicados sozinhos ou em dupla/trio, com um cartaz exibindo maior a mensagem secundária dos outros.

[ x ] Conceito que leve à desconstrução [ ] Mulher representada, atitude variante, e diversidade racial [ x ] Retórica de lógica [ x ] Abordagem de design [ x ] Impacto [ x ] Cores vibrantes ou vermelho/roxo/preto [ x ] Fonte all-caps, condensada, peso black


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Figura 56. Alternativa “quem fez o quê”, 2/3.

Figura 57. Alternativa “quem fez o quê”, 3/3.

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Alternativa 2: Muros danificados

Figura 46. Alternativa

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Utilizar-se de danos em muros da cidade, como rachaduras, quebras e buracos, coisas normais, para representar as marcas da violência doméstica. Na peça direcionada ao agressor, uma mulher desenhada ao redor de um buraco na parede, como se esse fosse um hematoma. Para a mulher, uma mulher com rachaduras leves sobre o peito, para mostrar que a superação é possível. Para a testemunha em geral, um olhar vindo de dentro da uma rachadura ou uma cena de violência ocorrendo, com as palavras “não finja que não viu” ao lado.

Figura 58. Alternativa “muros danificados”, 1/3.

[ ] Conceito que leve à desconstrução [ x ] Mulher representada, atitude variante, e diversidade racial [ x ] Retórica de lógica [ ] Abordagem de design [ x ] Impacto [ x ] Cores vibrantes ou vermelho/roxo/preto [ x ] Fonte all-caps, condensada, peso black

Figura 59. Alternativa “muros danificados”, 2/3.


as 1

A peça para a mulher pode compor um mural grande, para ser mais encorajadora e forte. Figura 60. Alternativa “muros danificadosâ€?, 3/3.


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Alternativa 3: Pare

Figura 61. Alternativa “pare” 1/2.

Para se utilizar de um elemento comum e de alta visibilidade no espaço público, essa alternativa se apropriaria da palavra ‘pare’ das placas de trânsito como partes de frases sobre violência doméstica. Chamadas mais enérgicas para agressores, diretas para testemunhas e de apoio para as vítimas. Não é uma intervenção inédita, mas também não é normalmente usada para tratar de problemas sociais. Atrás da placa, a assinatura do projeto.


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[ x ] Conceito que leve à desconstrução [ ] Mulher representada, atitude variante, e diversidade racial [ ] Retórica de lógica [ x ] Abordagem de design [ x ] Impacto [ x ] Cores vibrantes ou vermelho/roxo/preto [ x ] Fonte all-caps, condensada, peso black

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Figura 62. Alternativa “pare” 2/2.


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Alternativa 4: Causa da morte

Quando um feminicídio muito brutal acontece, é comum que seja interpretado como assassinato na consciência popular. Essa alternativa tem como objetivo caracterizar esses crimes como violência doméstica, para que fique claro até que ponto esse tipo de violência pode chegar, bem como para levantar desconforto e desconfiança em pessoas que já experienciaram violências em relações íntimas. Para isso, se apropria de alguns nomes de mulheres cujos assassinatos repercutiram no país, detalha como elas morreram; na data, constam dias em que seus parceiros assumiram que tinham poder sobre suas vidas. No campo ‘assassino’, consta “cônjuge’ ou “ex-cônjuge”. Pode ser expandida para casos com agressores de outros vinculos que não amorosos.


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Figura 64. Alternativa “causa da morte”, outras peças.

[ x ] Conceito que leve à desconstrução [ x ] Mulher representada, atitude variante, e diversidade racial [ ] Retórica de lógica [ x ] Abordagem de design [ x ] Impacto [ x ] Cores vibrantes ou vermelho/roxo/preto [ x ] Fonte all-caps, condensada, peso black


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Alternativa 4: manchete

Figura 62. Alternativa “causa da morte”.

Quando um feminicídio muito brutal acontece, é comum que seja interpretado como assassinato na consciência popular. Essa alternativa tem como objetivo caracterizar esses crimes como violência doméstica, para que fique claro até que ponto esse tipo de violência pode chegar, bem como para levantar desconforto e desconfiança em pessoas que já experienciaram violências em relações íntimas. Para isso, se apropria de alguns nomes de mulheres cujos assassinatos repercutiram no país, detalha como elas morreram; na data, constam dias em que seus parceiros assumiram que tinham poder sobre suas vidas. No campo ‘assassino’, consta “cônjuge’ ou “ex-cônjuge”. Pode ser Figura 65.para Alternativa expandida casos “manchete”. com agressores de outros vinculos que não amorosos.


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Como algumas manchetes de notícias sobre casos de violência doméstica conseguem ser surpreendentes ou trazer falas de agressores, essa alternativa reúne algumas e comenta sobre elas. Na imagem, peça em que se coletaram notícias mais focadas nos agressores, perguntando até quando manchetes assim vão existir. Como desdobramento para as mulheres, mas que pode funcionar para agressores também, manchetes sobre condenações, prisões e punições de agressores domésticos, acompanhados dos dizeres “mete a colher, mete a polícia’. Para testemunhas, manchetes de casos em que a vítima pediu ajuda numa situação de violência doméstica.

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[ ] Conceito que leve à desconstrução [ ] Mulher representada, atitude variante, e diversidade racial [ ] Retórica de lógica [ x ] Abordagem de design [ ] Impacto [ x ] Cores vibrantes ou vermelho/roxo/preto [ x ] Fonte all-caps, condensada, peso black


0


05 teste & entrega


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5.1 Seleção

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A partir do checklist de parâmetros definido, selecionou-se a melhor alternativa para refinamento. Pôde-se observar que as alternativas acabaram, afinal, gerando “efeitos” diferentes, e que não se excluem como propostas gráficas a serem seguidas. Por exemplo, enquanto algumas alternativas são mais introdutórias - apresentam o problema e sugerem orientações, como “ligue 180” e “busque ajuda”; outras atuam mais pelo impacto emocional, ataque a valores tradicionais e pela referência a casos reais de violência doméstica, sem fornecer em seguida qualquer orientação ou “consolo” informacional a quem interagir com peça. Sendo assim, já que cada alternativa tem seu efeito específico e aplicações muito diferentes entre si, concluiu-se que elas se complementam e podem ser utilizadas compondo um conjunto de peças a serem entregues como produto final deste trabalho. A isso se soma o fato de que as peças seriam implementadas por um coletivo gráfico independente, então é valioso e coerente que disponham de mais de uma linha de material gráfico, dentro do mesmo conceito de desnaturalização.


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Quem fez o quê Conceito de desconstrução

x

Mulher representada/ atitude/diversidade

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Muros danificados

Pare

Causa da morte

x

x

x

Retórica de lógica

x

Abordagem de design

x

Impacto

x

Cores vibrantes Fontes all-caps e black

Manchete

x

x x

x

x

x

x

x

x

x

x

x

x

x

x

x

x

Portanto, tendo em vista a pontuação de cada alternativa no checklist, selecionam-se para refinamento as alternativas: 1 | quem fez o quê, 3 | pare e 4 | causa da morte. Todas as alternativas selecionadas receberam avaliação positiva quanto aos conceitos que levem à desconstrução, e esse potencial aumenta se forem entendidas como um conjunto, muito embora não contenham representação visual da mulher; não contam, portanto, com oportunidades para mostrar diferentes atitudes femininas e diversidade racial. Isso pode ser compensado, por assim dizer, pela escolha feita nessas alternativas de seguir uma abordagem de design em oposição a uma abordagem publicitária que, por ser mais familiar e tradicional para o público, pode ter enfraquecido a imagem da mulher machucada: como visto na entrevista com o público sobre os materiais similares, é uma imagem comovente, mas tornou-se banal. A escolha pela abordagem de design uniu-se com a percepção do bom recebimento da estratégia retórica de logos e da boa avaliação de peças puramente textuais; assim, as alternativas selecionadas possuem argumentos ou críticas apresentados de forma textual. As alternativas escolhidas também se sobressaem às preteridas no quesito do impacto: a alternativa 4 | causa da morte acaba por fazer o que as alternativas 2 e 5 fazem, mas com impacto e vigor muito maior. Ela exibe de forma explícita casos de violência doméstica, assim como a alternativa 2 | muros danificados; e, por outro lado, trabalha a cultura de memória, lembrar para não repetir, recordando nomes e circunstâncias da morte de vítimas fatais de casos de violência doméstica, de forma diferente da alternativa 5 | manchete mas ao mesmo tempo de forma mais pessoal e impactante.

x

Figura 66. Pontuação das alternativas segundo checklist de diretrizes.


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Para além desses critérios anteriormente estabelecidos, a junção dessas três alternativas permite a variedade de materiais gráficos desejada (cartaz, flyer, adesivo), sem que haja necessidade de readequar um material à determinada aplicação, perdendo assim sua força. Assim configura-se a seleção de alternativas. Tendo essas peças em mente, delimita-se, a seguir, como cada uma delas será categorizada, entendida e aplicada dentro do Maria Maldita.

5.2 Desenvolvimento

1. Materiais de base: A alternativa 1 - quem fez o quê, será convertida no material gráfico de base e permanente do coletivo gráfico. Por ser bem segmentado entre os três públicos, funciona de modo a manifestar como o Maria Maldita encara a violência doméstica - como uma situação sócio-cultural de conflito em que existem três atores: uma mulher, um agressor, e uma sociedade conivente; sendo que cada um deve ter plena noção do papel que desempenha, por isso o texto das peças distribui responsabilidades. Além disso, incorpora o design ativismo de Markussen (2011) ao usar uma estética de impacto e tensão, causada por espaços vazios e repetições, para “afetar os sentidos, percepções, emoções e interpretações das pessoas” (Fuad-Luke apud Markussen, 2011, p. 03). Essa escolha se deu porque considerou-se que a alternativa 1 tinha um efeito mais introdutório e informativo em relação às outras duas escolhidas, servindo bem ao propósito acima descrito. 2. Material de intervenção urbana: A alternativa 3 - causa da morte, será aplicada nessa categoria. Tendo em mente o funcionamento de um coletivo gráfico, essa peça funcionaria como uma ação gráfica temporária, sendo desenvolvida por um semestre, por exemplo, em contraste aos materiais de base, que estariam sempre sendo reproduzidos e prontos para aplicação. Como dito anteriormente,

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Retomando o conceito de design ativista - um design que tem intenção de rompimento com paradigmas existentes, significados comuns, valores e propósitos, para trocá-los por novos -, além da filosofia pós-estruturalista da desconstrução através da subversão e exposição de arbitrariedades, as peças selecionadas no tópico anterior atuam da seguinte maneira:


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entrega

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essas peças agem por meio do impacto, da implantação da desconfiança, do malestar e da memória cultural; sendo assim, estão isentas da necessidade de fornecer informações ou orientações a quem interagir com a peça, uma vez que os materiais de base cumprem essa função. Além disso, se isentam também de serem segmentadas em públicos diferentes: têm potencial de impactar os três, mesmo que de formas distintas. 3. Materiais interativos: Tendo materiais com as funções explicadas acima, percebeuse a falta de um material que tivesse conteúdo um pouco mais profundo e que fosse um pouco mais interativo para as pessoas, mas sem sair dos limites das aplicações gráficas - pertinentes a um coletivo gráfico. Para isso, foi concebido um material que alude a um teste: “será que você está sofrendo violência doméstica? Você é um parceiro abusivo? Sua vizinha está sofrendo violência doméstica?”. São cartazes A4, contendo uma chamada a um público específico e em seguida o ‘teste’, procedido pelo diagnóstico, fornecido no estilo divulgação de contato: o cartaz têm em si um porção destacável de tickets com informações. Novamente aqui é possível ter materiais direcionados especialmente para cada público, bem como é possível ter uma profundidade maior de informação. Esses materiais agem na desconstrução por fazerem paródia de cartazes de serviços e similares ou, ainda, de quizzes românticos de sites adolescentes, porém tratando de violência; e também ao apontar, em seu conteúdo, comportamentos que não devem ser considerados normais. A seguir, descrevem-se os materiais gráficos em maior detalhe, bem como seus contextos de aplicação. Após a banca de qualificação, algumas alterações foram feitas nos materiais.


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5.2.1 Materiais de base Como anteriormente referido, faz parte da entrega uma linha de materiais de base do coletivo gráfico. Essa linha gráfica será desdobrada em todas as categorias propostas na delimitação do objeto: cartazes, lambe-lambes, folhetos e adesivos. Esses materiais seriam os “porta-vozes” do coletivo - por exemplo, em uma situação em que uma membro tivesse a oportunidade de estar em outra cidade, levaria esses materiais para intervir nesse outro lugar, deixando uma marca e uma ação. É por isso que

esses materiais não têm aplicações em contextos específicos: são variáveis. A identidade visual da alternativa 1 será estendida às novas peças, apoiando-se principalmente na tipografia e nos fundos coloridos, sobrepostos com um padrão de retículas pretas. As cores utilizadas nas peças se mantiveram as mesmas, pois elas questionam estereótipos: por que não utilizar rosa para falar com mulheres, mesmo que sobre violência, e negar ao agressor a masculinidade da cor azul? A seguir, detalha-se a aplicação de cada peça.

Figura 67. Cartazes de base ajustados após banca.

A aplicação dos cartazes pode ser feita em duplas - dois de cada público - ou isoladamente. Seu contexto de aplicação não é muito específico, basta que constem em um lugar de alta circulação, como arredores de pontos/terminais de ônibus e transporte público.

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Cartazes


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entrega

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Figura 68. Exemplo de folheto.

Folhetos Os folhetos vêm para desempenhar função informativa um pouco mais aprofundada, mas sem ser tão formal ou institucional como um folder grande. Carregam os dizeres repetidos, como os cartazes, em uma face, para chamar o público específico, e no verso apenas informações e orientações de emergência, como números de linhas oficiais, endereços da rede de apoio à vítima de violência doméstica e um informe acerca de direitos e definições aceitas na Lei Maria da Penha. Devem ser distribuídos em prédios públicos, lojas e similares que aceitem hospedá-los, bem como deixados nas tubotecas existentes em alguns tubos de ônibus. Funcionariam de forma similar a “santinhos”.

Lambe-lambe

Figura 69. Simulação de lambe-lambes em um muro.

Os lambe-lambes devem se aplicados como um conjunto, porque sozinhos ficariam sem contexto. Colados lado a lado, representam como o Maria Maldita encara a violência doméstica, como dito anteriormente. Como não é exatamente simples (e seria invasivo) buscar por localidades onde ocorreram casos de violência doméstica contra mulheres, esses lambe-lambes serão colados em áreas altamente residenciais, afastadas do movimento do centro da cidade. A intenção é criar uma conversa direta com pessoas nas situações de vítima, agressor ou testemunha, que vejam os lambe-lambes em um contexto mais solitário, mas que sintam, em alguma medida, que alguém os estivesse vendo, sabendo do que aconteceu, e dizendo as palavras no muro.


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Adesivos Nesse desdobramento, a alternativa 3 | pare, será incorporada aos materiais de base: assume a identidade visual da linha, colocando-se como desdobramento no formato de adesivo. Não carregam o mesmo conteúdo textual das outras peças, pois têm aplicação específica em placas de pare, e utilizam a palavra já impressa nas placas para criar frases referentes à violência doméstica. Não é a intenção que motoristas leiam as frases, já que são um pouco extensas; não é o desejo atrapalhar o trânsito. Esses adesivos são direcionados a pedestres, que mesmo não sendo o alvo deste tipo de sinalização, contam com ela para saber onde atravessar uma rua ou saber de qual sentido vêm os carros.

e meta a colher. violência doméstica não é normal, é crime. ligue 180.

Figura 70. Adesivo de placa de pare com fundo ajustado para consoar com o restante dos materiais.

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5.2.2 Mate ri al de Inter venção Ur bana O material de intervenção gráfica a ser aplicado já é conhecido; consiste na alternativa 4 | causa da morte, com pequenas alterações: adicionouse a data de alguns eventos, e a adição de uma peça referente a mais uma vítima real. O contexto de aplicação dessas peças são empenas cegas de prédios do centro da cidade que tenham bastante visibilidade, para que constem na paisagem urbana, de certa forma, como monumentos às vítimas a quem se referem. Para esse propósito e para boa leitura, seriam aplicados em grandes tamanhos, de 10 metros por 7 metros. Figura 71. Simulação de intervenção em uma empena cega.


132

entrega

5.2.2 M ate ri al Interativo Como anteriormente descrito, serão fornecidos também alguns materiais que supõem alguma interação. São cartazes A4 contendo uma chamada a um público específico e em seguida o ‘teste’ para saber se a pessoa em questão pode estar vivendo ou presenciando situações de violência doméstica. Na parte inferior do cartaz, consta um “diagnóstico”, e abaixo dele uma área destacável de tickets com informações. São materiais destinados a murais de informações, utilidade pública e divulgação, em lugares como igrejas e universidades. Fazem paródia deste tipo de cartaz, então têm uma linguagem gráfica simplificada: poucas cores, sem as sobreposições e profundidades dos materiais de base, impressas sobre papel sulfite colorido. Todas as peças direcionam quem pegar o ticket ao perfil do instagram do coletivo, onde poderão encontrar informações mais aprofundadas sobre os assuntos e situações apresentadas no cartaz.

TCC 2018

Figura 72. Testes direcionados à mulheres


maria maldita // design gráfico no combate à violência doméstica contra a mulher

133

No cartaz destinado a mulheres, abrem-se duas opções: um cartaz que fale abertamente em termos de violência doméstica, e cujas ‘perguntas’ elencam formas de violência doméstica reconhecidas pela Lei Maria da Penha; e um cartaz de tom mais sutil, que fala de relacionamento abusivo, elencando situações um pouco menos caracterizáveis como violência doméstica sob a ótica de uma pessoa “desavisada”, por assim dizer. É azul, invertendo estereótipos de cores e gênero de forma clássica.

TCC 2018

Figura 73. Teste direcionados à homens/potenciais agressores.

Figura 74. Teste direcionados à testemunhas.

O cartaz direcionado a homens e potenciais agressores é rosa, novamente invertendo estereótipo de cores e gênero. As situações foram retiradas do site Universa Uol, bem como do conhecimento da autora.

Por fim, o cartaz direcionado a testemunhas elenca situações de potencial abuso e violência doméstica, de casos considerados leves até ocorrências graves. Apresenta situações que podem ser sinais de que uma mulher vive em situação de violência, indicando em seguida números de emergência e direcionando a testemunha ao perfil do instagram do coletivo.


134

entrega

Peças e materiais deixados para trás Aqui constam materiais visuais que foram desenvolvidos ao longo do trabalho, mas que, por razões e motivos delineados abaixo, não foram escolhidos para constarem na entrega final.

Folder

TCC 2018

Como parte dos materiais de base, foi criado um folder. Ele continha informações sobre como proceder em casos de violência doméstica, bem como informações sobre a Lei Maria da Penha. Mas, além de ser um material um pouco tradicional e que exige uma distribuição também tradicional e menos relacionada ao espaço urbano público, já existem vários materiais similares e melhores em conteúdo e distribuição. Por isso essa peça foi descartada e substituída pelo folheto, que traz apenas telefones de emergência e o que é violência doméstica segundo a lei.

O caso vai ser analisado e, partir daí, se tomarão as providências adequadas, como o encaminhamento para a equipe psicossocial, entre outros.

Se ouço ou presencio uma briga e a mulher é ameaçada ou agredida, o que devo fazer?

Tanto no 180 como em outros serviços de atendimento à mulher, a iniciativa não precisa partir de quem sofre violência. Amigos e família podem contatar e pedir ajuda.

Quando devo ligar para o 180 e para o 190?

Se o caso de agressão for uma emergência, deve-se ligar 190. Em caso de flagrante, a polícia pode entrar e intervir imediatamente. Na cidade de Curitiba, pode-se discar também o número 153, que mobiliza a guarda municipal. A Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180) não faz o acionamento imediato da polícia para ir até o local. Deve-se ligar 180 se, por exemplo, você sabe que a mulher é vítima de violência constante e não toma a iniciativa de denunciar. Nesse caso, liga-se 180, fornece-se dados e o endereço dessa mulher. As informações precisas são muito importantes, e quem está denunciando não precisa se identificar. Ao ligar para o 180, o chamado vai chegar na Delegacia de Polícia, mas não em caráter de emergência.

190 Polícia Militar

180 Ligue180

153 Guarda Municipal

Entenda O que é reconhecido pela lei Maria da Penha como violência doméstica contra a mulher: •

Violência que ocorra no âmbito da unidade doméstica, spaço de convívio permanente de pessoas, com ou sem vínculo familiar;

Violência no âmbito da família: comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados (por laços naturais ou não);

Violência em qualquer relação íntima, com convivência atual ou finda, independente de coabitação.

São tipos de violência doméstica contra a mulher: Violência física: bater e espancar; empurrar, atirar objetos, sacudir, morder ou puxar os cabelos; mutilar e torturar; Violência psicológica: xingar, humilhar, ameaçar, intimidar e amedrontar; desvalorizar os atos e desconsiderar a opinião ou decisão da mulher; debochar publicamente, diminuir a autoestima; tentar fazer a mulher ficar confusa ou achar que está louca; controlar tudo o que ela faz, quando sai, com quem e aonde vai; usar os filhos para fazer chantagem Violência sexual: forçar relações sexuais quando a mulher não quer ou quando estiver dormindo ou sem condições de consentir; obrigar a mulher a fazer sexo com outra(s) pessoa(s); impedir a mulher de prevenir a gravidez, forçá-la a engravidar ou ainda forçar o aborto quando ela não quiser; Violência patrimonial: controlar, reter ou tirar dinheiro dela; causar danos de propósito a objetos de que ela gosta; destruir, reter objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais e outros bens e direitos;

O amor não é violento. Violência moral: fazer comentários ofensivos na frente de estranhos e/ou conheViolência doméstica cidos; humilhar a mulher publicamente; expor a vida íntima do casal para outras não é assunto particular, pessoas, inclusive nas redes sociais; acusar é crime. publicamente a mulher de cometer crimes; inventar histórias e/ou falar mal da mulher para os outros com o intuito de diminuí-la Se você testemunhou perante amigos e parentes.

Figura 75. Folder A4 de três dobras, direcionado à testemunhas.

violência doméstica, saiba como denunciar:

maria maldita @mariamaldita_co


135

maria maldita // design gráfico no combate à violência doméstica contra a mulher

Cartazes tipográficos Cartazes triádicos com ênfase em uma composição tipográfica. De forma a explorar um pouco a herança “tipófila” dos designers desconstrucionistas dos anos 1970, as mesmas frases dos cartazes de base foram usadas para formar uma composição tipográfica. Optou-se por criar uma trilogia onde gradualmente apareciam mais palavras e frases, de modo a formar a situação de violência doméstica. Primeiro a frase sozinha, depois com algum contexto, algo como afirmações e respostas escondidas nas retículas, e por fim um cartaz com todos esses elementos. No entanto, o resultado não foi satisfatório. Mas constam abaixo os cartazes e os experimentos que levaram a eles. Figura 76. Tríade de cartazes 1, direcionada à mulheres.

em defesa da família

ele te bateu eu vou mudar

eu vou mudar

eu vou mudar

você não vale nada em defesa da família vadia

você é minha

me perdoa

ligue

ele te bateu

ele te bateu família família família 180 família

m defesa da família

em defesa da família

ele te bateu

você é minha

eu vou mudar

eu vou mudar eu vou mudar eu vou mudar

Figura 77. Experimentos.

você é minha eu vou mudar

ele te bateu ??????? ??????? ??????? ligue ligue

180

você é minha

eu vou mudar

ninguém vai te querer

te te matar matar te te matar matar te te matar matar te te matar matar te te matar matar te te matar matar

ele te bateu

você vocêé éminha minha eu euvou voumudar mudar vocêé éminha minha você eu vou mudar

ligue

você viu e não fez nada você viu e não fez nada você viu e não fez nada você viu e não fez nada você viu e não fez nada você viu e não fez nada você viu e não fez nada você viu e não fez nada você viu e não fez nada você viu e não fez nada você viu e não fez nada você viu e não fez nada você viu e não fez nada você viu e não fez nada você viu e não fez nada você viu e não fez nada você viu e não fez nada você viu e não fez nada você viu e não fez nada você viu e não fez nada você viu e não fez nada como caso você nada vocêsaiba viu e agir não fez seja testemunha de violência você viu e não fez nada mulher nada vocêdoméstica viu econtra nãoa fez você viu e não fez nada você viu e não fez nada você viu e não fez nada você viu e não fez nada você viu e não fez nada você viu e não fez nada

TCC 2018

ele te bateu

eu vou mudar

180 ligue


136

entrega

eu vou mudar

você bateu nela

ela provocou

você bateu nela eu vou mudar

você bateu nela

você bateu nela

você bateu nela

você bateu nela

você bateu nela

eu vou mudar

ela mereceu eu vou mudar eu vou mudar eu vou mudar

maria da penha ligue

180

TCC 2018

Figura 78. Tríade de cartazes 2, direcionada aos agressores.

não meto a colher

você viu e não fez nada

você viu e não fez nada

não meto a colher

ela gosta de apanhar

você viu e não fez nada

você viu e não fez nada ela gosta de apanhar o que ela fez? deve ter merecido

por que ela não sai de casa?

deve ter merecido

por que ela não sai de casa?

você não fez nada não meto a colher ligue

cúmplice cúmplica Figura 79. Tríade de cartazes 3, direcionada à testemunhas.

180


maria maldita // design gráfico no combate à violência doméstica contra a mulher

137

Lei Maria da Penha Antes da configuração atual da entrega, contemplava-se a entrega de três tipos de material para intervenção. Um deles era uma série de cartazetes que carregam trechos da Lei Maria da Penha, e tinham como intuito divulgar partes importantes da lei e fazê-la presente em lugares distantes dela, por assim dizer. Por exemplo, em portas de banheiros públicos, de baladas, ou em muros de bairros residenciais de classes médias e baixas. Por não ter recortes específicos de público, e também contextos de aplicação um pouco menos acessíveis que outras opções, essa versão foi deixada para trás. Isso não quer dizer que ela não pode, depois, ser melhor elaborada e vir a figurar entre as ações do Maria Maldita, mas foi excluída da entrega atual. TCC 2018

Figura 80. Cartazetes com trechos da Lei Maria da Penha.


138

entrega

TCC 2018

Figura 81. Cartazete com trechos da Lei Maria da Penha que classifica violência doméstica como violação dos direitos humanos.

Figura 82. Simulação de aplicação em porta de banheiro.


maria maldita // design gráfico no combate à violência doméstica contra a mulher

139

Definições de dicionário

Figura 83. Definições de dicionário.

TCC 2018

Era a terceira peça de intervenção a ser entregue, juntamente com a peça acima e os certificados de óbitos. Consistia da decomposição de palavras, termos e frases relacionados à violência doméstica citando significados de dicionário. Teria como contexto de aplicação a proximidade de faculdades e grandes empresas, instituições formais da sociedade. Tinha como objetivo desconstruir e condenar essas frases e termos. Considerou-se o contexto de aplicação fraco. É um material que pode funcionar mais em meios digitais, então saiu um pouco da proposta do trabalho. Mas também pode ser aproveitado.


140

entrega

Site Tendo criado alguns materiais que flertavam um pouco com o meio digital e peças que não encerravam em si todas as explicações ou informações necessárias, contemplou-se desenvolver um site. Faz todo o sentido que um coletivo como o Maria Maldita tenha seu site, com materiais e informações básicas, perguntas frequentes etc. Havia ainda a ideia de fazer nesse site um teste/quiz para determinar se a pessoa estava sendo abusada ou sendo abusivo, como nos materiais interativos. Mas tendo um site que a tudo reunia, todos os materiais gráficos acabaram por parecer secundários, meramente introdutórios para levar à peça principal - o site. Pode até fazer sentido, mas saiu também da proposta deste trabalho e do Maria Maldita como coletivo gráfico. É uma plataforma importante e deve ser desenvolvida, mas não constar como entrega neste trabalho. Abaixo um estudo de layout desenvolvido para o site e a tentativa de desenvolvê-lo na plataforma Wordpress.

TCC 2018

Figura 84. Layout do site.

Figura 85. Site na plataforma Wordpress.


maria maldita // design gráfico no combate à violência doméstica contra a mulher

141

Cartazes de apoio Por fim, estes são cartazes secundários, que serviam de apoio a cartazes primeiros. Um deles servia de apoio aos cartazes de base, replicando o texto que é secundário e pequeno no primeiro cartaz, como na imagem ao lado (figura 86).

Figura 86. Cartaz de apoio.

TCC 2018

O outro servia de apoio ao cartaz do teste, explicando cada item da lista. Constariam um cartaz de explicação por cartaz de teste, sendo aleatório qual o item explicado. Essa ideia foi substituída por posts no perfil no Instagram, onde a pessoa pode ter acesso a todas as explicações e mais um pouco. Figura 87. Cartaz de apoio 2 (à direita).


142

entrega

5.3 Pesquisa de percepção

TCC 2018

Tendo selecionado e ajustado as peças a serem desenvolvidas, chegou o momento de submeter os materiais a alguma pesquisa de percepção, para perceber como as pessoas interagiriam com elas e se há algo que pode ser mudado para melhorar essa relação. Então, para agregar ao trabalho alguma forma de validação, foram utilizados formulários online. Como este projeto trata de desconstrução e desnaturalização de valores e conceitos, não é claro ou simplificado qual seria o objetivo a ser alcançado pelo ‘usuário’ na validação, bem como não pode-se pressupor um uso ou percurso de ação para a leitura e absorção de materiais gráficos inseridos em contexto urbano. Por esses motivos, a validação realizada não pautou-se em modelos já existentes, mas foi desenvolvida a partir dos parâmetros e requisitos anteriormente definidos, sintetizados em um checklist que filtrou a geração de alternativas. O formulário de validação (anexo 3) contém perguntas que sondam aspectos formais, como legibilidade; perguntas sobre interpretação, para averiguar se a pessoa entendeu o material e como o interpretou, como o percebeu, e qual sua opinião sobre ele; e perguntas que aferem o quanto a pessoa considera os materiais impactantes, e se a atitude é passiva

ou ativa. Considera-se positivo um impacto grande, e mede-se a atitude dos materiais de forma a saber como são percebidos e entender qual é o nível de incômodo que causam nos participantes. A validação via internet foi escolhida por representar maior alcance em relação à pesquisa anteriormente feita na análise de similares (pág. 79), e também porque, tratandose de um assunto historicamente naturalizado, temeu-se que entrevistas ao vivo poderiam inibir as pessoas de expressarem reações e opiniões verdadeiras a respeito das peças. Um questionário online fornece, desta forma, um anonimato muito mais sólido e confortável para o entrevistado, que pode até ser grosseiro e preconceituoso em suas respostas se for seu desejo, sem sofrer consequências ou ser identificado. O formulário foi dividido nas mesmas categorias das peças gráficas: material de base corresponde à parte 1, material interativo, à parte 2, e intervenção urbana, à parte 3. As perguntas eram similares: sobre legibilidade, encontrar uma informação, interpretação, julgamento de impacto e atitude. Solicitavase também que o participante indicasse qual cartaz dizia respeito a qual ator (entre vítimas, agressores e testemunhas).


maria maldita // design gráfico no combate à violência doméstica contra a mulher

143

Formulário de validação Perfil Idade_____

Gênero___

Perguntas (gerais) 1. Você consegue enxergar e ler o que está escrito nos cartazes? 2. Você consegue encontrar, no cartaz, a informação x?

4. Vendo estes três cartazes, você consegue entender a quem cada um deles se direciona? 5. Classifique o quanto você acredita que este material pode causar impacto em alguém: pouco impacto

1

2

3

4

5

muito impacto

6. Você diria que a atitude que os cartazes passam é: passiva

1

2

3

4

5

ativa

7. Você tem algum comentário ou sugestão sobre essa peça?

Figura 88. Perguntas do formulário de validação.

Por ser muito extenso, o formulário completo encontra-se no anexo (nº 3), enquanto aqui elencam-se as perguntas feitas em termos gerais. No formulário, elas foram aplicadas individualmente a cada tipo de material.

TCC 2018

3. O que pode-se entender que a peça critica?


144

entrega

Com o objetivo de buscar perceber diferenças entre públicos, o questionário foi divulgado para públicos distintos: um grupo de mulheres unidas por motivos políticos e um grupo de homens conservadores. Cada público recebeu as mesmas questões, mas em questionários separados para fácil discriminação de dados relevantes.

TCC 2018

Entretanto, a recepção de respostas no formulário não foi como esperada. Não houveram respostas, então optou-se por divulgar o questionário entre amigos e conhecidos, o que gerou um público um tanto homogêneo. A maioria dos participantes estava entre a faixa etária de 18 a 25 anos. Houve maior concentração nas idades de 21 e 22 anos. Houveram apenas 4 participantes acima dos 40 anos, que eram os que mais interessavam à pesquisa por terem vivido ou convivido mais tempo com a violência doméstica como fenômeno naturalizado. O formulário aceitou respostas por 4 dias e totalizou 33 respostas. Mesmo assim, tendo em mente que a violência doméstica é um fenômeno abrangente e democrático, toda contribuição é válida. Desta forma, relata-se abaixo os dados obtidos para, em seguida, sintetizar respostas relevantes em um pequena lista de requisitos extraídos da validação.

5.3.1 Descrição e Análise A análise dos dados obtidos será dividida em três partes, de acordo com as três categorias de materiais anteriormente delimitadas.

Parte 01 | Materiais de base Cartaz As primeiras perguntas eram sobre legibilidade e entendimento formal dos materiais. Foi apontado que o texto secundário dos cartazes está pequeno e difícil de ler. 18% dos participantes não encontraram o número de emergência no cartaz. Não chega a ser preocupante, mas medidas podem ser tomadas para melhorar a legibilidade. As perguntas seguintes diziam respeito ao checklist anteriormente formulado no trabalho, e através delas buscava-se obter opiniões e percepções do público a respeito das peças. Com uma


maria maldita // design gráfico no combate à violência doméstica contra a mulher

145

exceção ou outra, todos acertaram a quem cada cartaz se direcionava. Sobre os julgamentos de impacto e atitude, foram compatíveis: Atitude percebida | Cartaz Impacto | Cartaz

20 15

15

10

participantes

participantes

15

10 8

5

16

12

10 5 4 1

0 1

2

pouco impacto

3

4

5 muito impacto

Gráfico 7. Impacto aferido aos cartazes.

0

1

2

3

4

passiva

5 ativa

Gráfico 8. Atitude percebida nos cartazes.

O que pode-se entender que a peça critica?

“Que há a possibilidade de denúncia de caso de agressão e há um amparo legal às vítimas. Também há um mensagem de desnaturalização da violência doméstica” Como respostas interessantes, destacam-se também: “Critica violência doméstica contra mulher e envolve cada um dos atores nesse problemão”

“A violência é muito maior do que a forma e os recursos para cessá-la.”

(foi possível que a pessoa percebesse a interpretação do problema através de atores)

(curioso, visto que a crítica não é exatamente a respeito de recursos para cessar violência doméstica)

E, por fim, valiosos e contrastantes comentários: “Causa desconforto mas não gera culpa no agressor. Não é educativo e nem explicativo sobre como a vítima deve proceder”

“Fantástica a forma de explicitar algo que a pessoa quer esquecer ou ignorar, causa muito impacto e vontade de ‘corrigir’ a situação.”

TCC 2018

A contribuição mais relevante veio das perguntas abertas. Quando perguntados sobre o que pode-se entender que a peça criticava - pergunta inicialmente apresentada como não obrigatória, mas que foi necessário requisitar, senão não haveria resposta alguma - muitos participantes citaram violência doméstica ou violência contra a mulher. Na descrição do formulário já havia a informação de que o trabalho tratava de violência doméstica contra a mulher, por isso considera-se que essas respostas seriam diferentes no contexto real da aplicação, isto é, sem introdução alguma ao assunto. Foi interessante notar que um dos participantes foi capaz de citar a palavra ‘desnaturalização’ em sua resposta, mas esse foco não foi revelado na introdução do formulário.


146

entrega

Folheto No folheto, também houveram problemas com legibilidade, mas isso pode ser atribuído ao fato de que é um material gráfico de dimensões pequenas sendo avaliado em telas digitais. A informação considerada pelos participantes mais importante no folheto foram os telefones de emergência. O potencial de impacto atribuído aos folhetos foi um pouco menor do que aos cartazes, dividindo-se entre 3 e 5 pontos (gráf. 9). A atitude, por outro lado, se manteve entre ativa em certa medida e ativa (gráf. 10). Impacto | Folheto

Atitude percebida | Folheto

20

20 15 participantes

participantes

18

18

15 10 9

5

6

12

10 5

TCC 2018

1

0

1

2

3

4

pouco impacto

5 muito impacto

Gráfico 9. Impacto aferido aos folhetos.

0

1

2

2

3

4

passiva

5 ativa

Gráfico 10. Atitude percebida nos folhetos.

Como o folheto é muito similar ao cartaz, não houve questão sobre interpretação. Entretanto, nos comentários e sugestões, foram comentários pertinentes:

“Ao invés de colocar “é lei”, sugiro usar “É ilegal:” ou outra construção. Da forma que está ficou um pouco confuso, pois ao colocar “é lei:” pode parecer inicialmente que “bater, xingar, etc” é lei.”

“Acho que esse folheto seria mais difícil de ser utilizado. Primeiro pela atitude ativa que possui que causa desconforto e segundo, porque talvez a mulher fique com vergonha em pegar em locais mais cheios (infelizmente)”


maria maldita // design gráfico no combate à violência doméstica contra a mulher

147

Lambe-lambe Nos lambe-lambes, 15% dos participantes relataram conseguir ler o material apenas parcialmente. Isso pode se dever também à simulação e apresentação digitais da peça gráfica, mas medidas podem ser tomadas para melhorar a legibilidade. Quanto ao impacto e à atitude, foram um pouco mais dispersos do que nas peças anteriores (gráficos 11 e 12), embora o impacto ainda seja alto. Impacto | Lambe-lambe

Atitude percebida | Lambe-lambe 15

10

12

5 0 1

3

3

2

3

15

participantes

participantes

15

10

6 2

4

pouco impacto

5

1

muito impacto

passiva

Gráfico 11. Impacto aferido aos lambes-lambes.

2

3

4

5 ativa

Gráfico 12. Atitude percebida nos lambes-lambes.

“não dá pra entender bem desta forma”

“violência doméstica, mas não fica claro.”

Houveram também participantes que relacionaram a peça à negligência e falta de ações no trato da violência doméstica: “A negligência acerca da violência doméstica”

“A sociedade não ter ações suficientes para esse tipo de violência. Também vejo como um chamado a lembrar que isso é algo que existe e fica escondido.”

Novamente, essa crítica é indireta nas peças, que buscam quebrar com a banalização da violência por parte dos atores envolvidos nestes cenários, mas mostra que o objetivo de mobilizar ações no futuro está sendo abordado. Houve também comentário a respeito do formato das peças, sugeriuse algo geométrico ou papel rasgado.

TCC 2018

Sobre interpretações, a maioria dos participantes citou violência doméstica ou contra a mulher. Houve também nova percepção da distribuição de papéis dentro do cenário de uma agressão. Entretanto, alguns expressaram que o lambe-lambe é menos claro do que as outras peças:


148

entrega

Adesivos Já os adesivos em placas de pare foram os que levantaram opiniões mais divergentes. Contaram com algum nível de prejuízo de legibilidade, o que pode ser remediado com a mudança do fundo dos adesivos. As atribuições de impacto e atitude foram bem mais dispersas que nas peças anteriores, contando com uma diminuição expressiva no impacto (gráficos 13 e 14).

Impacto | Adesivos

Atitude percebida | Adesivos 15 12

10

10 8

5 0

1

1 pouco impacto

3

5 2

5

1

2

muito impacto

passiva

4

Gráfico 13. Impacto aferido aos adesivos. TCC 2018

10

2

2

2

14

participantes

participantes

15

3

4

5 ativa

Gráfico 14. Atitude percebida nos adesivos.

A interpretação relacionada à violência doméstica e violência contra a mulher se manteve, mas para essa peça específica, provavelmente por conta dos textos, houveram maiores referências às testemunhas e elementos externos à situação de violência doméstica: “Testemunhas que se silenciam por achar que não devem “se meter” na vida de casais e agressores que acham que não estão fazendo nada de errado”

“Situações de violência que são justificadas por amor e situações de testemunho em que a pessoa prefere não interferir.” “Omissão de ajuda às vítimas e

“A normalização da violência-doméstica como algo comum e natural em relacionamentos”

desnaturalização da violência em relacionamentos afetivos”

Portanto, parece que essa abordagem foi mais eficiente para conscientização do papel do terceiro como alguém que se omite. Foi positivo também que termos como normalização e desnaturalização apareceram novamente. Porém, a peça levantou também bastante oposição: “Inadequado, quase uma pichação” “Não execute, sinalização de trânsito é para o trânsito.” “Parece vandalismo, eu não tentaria ler”

“Não acredito que seja legal o uso de placas de trânsito reais, mas é uma boa ideia para ser usada na confecção de material para a campanha.”


maria maldita // design gráfico no combate à violência doméstica contra a mulher

“Achei excelente”

149

“Adorei esse! <3 <3 <3”

Pode-se considerar essa divergência muito positiva, significando que a peça vai ser notada e vai incomodar. Embora essa intervenção seja, sim, ilegal (e não é a intenção atrapalhar o trânsito), é isso que faz dela uma intervenção com um bom potencial de impacto e com forte vínculo com a linguagem visual urbana.

Parte 02 | Material Interativo

Houve alguma confusão por parte dos participantes (6%) quanto a qual cartaz referia a qual dos atores. Os cartazes de agressor e vítima foram trocados por algumas pessoas. Talvez pela ‘troca’ entre rosa e azul. O potencial de impacto atribuído foi um pouco variado, mas teve expressiva concentração na pontuação 5 (gráfico 15), bem como a atitude ativa da peça (gráfico 16). Neste caso, como a principal via de ação da peça não é o impacto, não se consideraria ruim uma atitude passiva. Mas uma atitude avaliada ativa pode representar certa aprovação do material.

Impacto | Testes

Atitude percebida | Testes

20

20 19 17

10 9

5 0

5 1

1

1

2

3

4

pouco impacto

Gráfico 15. Impacto aferido aos testes.

15 participantes

participantes

15

5 muito impacto

10

10

5 0

1

1

1

2

2

3

4

passiva

Gráfico 16. Atitude percebida nos testes.

5 ativa

TCC 2018

Na parte dois, fizeram-se perguntas a respeito dos testes de relacionamento abusivo/violência doméstica. 91% dos participantes conseguiram ler sem problemas o conteúdo do cartaz, então supõese que problemas de legibilidade aqui são referentes à pequena dimensão da imagem disponibilizada no formulário.


150

entrega

Quando à interpretações, surgiram termos como autocrítica e autodiagnóstico da pessoa abusiva ou abusada. Em geral, houveram interpretações condizentes com o objetivo da peça e comentários que serão úteis, como as duas últimas citações. “Instrui as pessoas para identificarem situações de abuso.”

“Os tickets devem ser mais discretos, evitando falar em violência doméstica, para caso o agressor encontre-o. Os cartazes estão claros.” “Acho que no lugar de “más notícias” no cartaz rosa, seria interessante optar por “procure ajuda”, ou algo semelhante. Acredito que quando a pessoa se sente criticada logo de cara é mais difícil ainda aceitar que tem um problema e que a conduta é errada e violenta. :/”

Parte 03 | Intervenção urbana

No material gráfico para intervenção, houveram também problemas com a legibilidade. Como um participante apontou, os textos vermelhos estão em bom tamanho para leitura à distância, mas não os pequenos rótulos dos campos a serem preenchidos da certidão de óbito. Todos os participantes reconheceram do que se tratava o documento. O potencial de impacto chegou a registrar pontuações como 1 e 2, mas teve sua maioria (63,6%) na pontuação 5 (gráfico 17). Já a atitude se dividiu quase que igualmente entre passiva, neutra e ativa. Não fica claro ao que se deve esse resultado, visto que é completamente diferente dos resultados anteriores (gráfico 18).

20

21

15 10 7

5 0

participantes

participantes

TCC 2018

“A peça tenta mostrar por meio de um teste se a pessoa faz parte de um círculo que possui violência doméstica. Critica diretamente as pessoas, caso elas se deparem com o seu próprio panfleto. Acho difícil, porém, um agressor conseguir se “diagnosticar””

1

1

3

1

2

3

pouco impacto

5

1 passiva

Gráfico 17. Impacto aferido à intervenção.

3

2

muito impacto

4

10

9

9

2

3

4

5 ativa

Gráfico 18. Atitude percebida na intervenção.


maria maldita // design gráfico no combate à violência doméstica contra a mulher

151

Quanto à interpretação, nesta peça surgiram termos específicos como feminicídio e assassinato de mulheres, que é do a peça trata, inicialmente. Algumas vão mais além, relacionando as mortes com violência doméstica: “Homicídios causados pela violência doméstica”

“Violência doméstica/de parceiros como causa de morte feminina”

“Sobre mortes decorrentes de violência doméstica”

Mas há quem tenha interpretado papel central nos atores dos crimes: “Aqueles que mataram mulheres.” E nos comentários surgiram importantes considerações: “Impactante, porém tarde demais” “Será que dá pra ler no prédio?”

(banimento da propaganda na rua já)

Tais comentários levam a concluir que a peça tem algum prejuízo na legibilidade, mas que é bastante impactante, visto que o incômodo com a natureza subversiva do material voltou a importar aqui, sendo que todo o resto do trabalho tem partido do mesmo pressuposto de informalidade.

TCC 2018

“adesivos em placas ou em prédios desviam a atenção de motoristas e pode os levar a cometer acidentes de carro por terem se distraído com os anúncios.”


152

entrega

5.3.2 Síntese Tendo em mente os dados e informações acima descritos, sintetiza-se em lista os ajustes e requisitos que foram possíveis de serem coletados durante a validação. Considerou-se que uma totalização dos dados não teria nada a revelar, já que muitas questões eram abertas e as proporções quantitativas já foram expostas acima. Desta forma, lista-se:

• Melhorar legibilidade do texto secundário dos cartazes de base;

TCC 2018

• Rever palavreado dos folhetos; • Melhorar legibilidade dos lambe-lambes; • Alterar forma dos lambe-lambes; • Mudar fundo dos adesivos; • Rever palavreado do teste de abusividade; • Aumentar tamanho dos rótulos na certidão de óbito.

Foi possível absorver da validação o contato com o mundo externo, que revelou, ao mesmo tempo, apoio e oposição à maneira que as peças foram propostas. A frequência de notas 5 no potencial de impacto foi muito valiosa, já que é por essa via que as peças parecem agir mais. Da mesma forma, os estranhamentos, oposições e questionamentos foram positivos para localizar a peça num contexto social e dar uma amostra de como seriam recebidas nas ruas. Tendo em vista que a implementação do projeto não se dará ainda no âmbito deste TCC, a validação garantiu que no mínimo 33 pessoas ouviram e pensaram sobre o que as peças aqui geradas tinham a dizer.


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5.4 Iteração De acordo com a lista de ajustes anteriormente geradas, os materiais agora apresentam-se desta forma:

TCC 2018


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entrega

Cartaz

TCC 2018

Os textos secundários tiveram sua dimensão aumentada, e todos agora são brancos. Optou-se por voltar ao uso do fundo preto, para melhor contraste e porque dava mais singularidade à série de peças. Já o texto principal, as frases repetidas, foi o que teve maior alteração: foi um feliz acaso, enquanto se editavam as peças, diminuí o bloco de textos, e o resultado pareceu bom tanto no que dizia respeito à leitura das frases quanto a criar um diálogo entre os blocos de texto dentro do cartaz. Por algum motivo que não sei explicar, os cartazes têm agora uma aparência menos comercial. Descartou-se o cartaz de apoio, pois agora parecia repetitivo.


155

Figura 89. Cartaz 1, direcionado Ă mulheres.


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Figura 90. Cartaz 2, direcionado Ă agressores.


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Figura 91. Cartaz 3, direcionado Ă testemunhas.


158

entrega

Folhetos Nos folhetos, considerou-se mudar o texto da frente para a identidade e tom do material interativo, visto que algumas pessoas comentaram que as frases “ele te agrediu”, “você bateu nela” e “você viu e não fez nada” eram muito duras, e inibiriam a pessoa que lesse o folheto. No entanto, ao trocar as frases, o material perdia a força. A diferença está entre perguntar “você está sofrendo de violência doméstica?” e afirmar que “ele te agrediu”. O propósito do material é inspirar curiosidade em quem está de fora ou falar claramente para quem está vivendo uma situação de violência doméstica. Por isso, a identidade relacionada aos cartazes de base foi mantida. No verso, foi mantida apenas uma área de destaque colorida, com uma frase introdutória para o resto do texto. A diagramação foi repensada, com algumas alterações na hierarquia das informações.

VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHA Lei Maria da Penha TCC 2018

Bater, xingar, forçar a ter relações sexuais, ameaçar, difamar, humilhar, manter documentos e dinheiro são formas de violência reconhecidas pela Lei Maria da Penha.

Ligue 180

Para orientação, informações e denúncia.

Ligue 190

Em caso de emergêcia. Endereços úteis: Casa da Mulher Brasileira | Av. Paraná, 870 Delegacia da Mulher | R. Padre Antônio, 33 @MARIAMALDITA_CO

Figura 92. Folheto 1, frente e verso. Direcionado à mulheres.


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bateu bateu bateu bateu bateu bateu bateu bateu bateu bateu bateu bateu bateu bateu bateu bateu bateu

nela? nela? nela? nela? nela? nela? nela? nela? nela? nela? nela? nela? nela? nela? nela? nela? nela?

ISSO NÃO É NORMAL Responder à sentimentos como raiva e insegurança com violência não é só briga de casal. Procure tratamento. Violência doméstica é crime.

Lei Maria da Penha Bater, xingar, forçar a ter relações sexuais, ameaçar, difamar, humilhar, manter documentos e dinheiro são formas de violência reconhecidas pela Lei Maria da Penha.

Ligue 180

Para orientação, informações e denúncia. @MARIAMALDITA_CO

TCC 2018

vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ

Figura 93. Folheto 2, frente e verso. Direcionado à agressores.

vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ vocÊ

viu viu viu viu viu viu viu viu viu viu viu viu viu viu viu viu viu viu viu

e e e e e e e e e e e e e e e e e e e

não não não não não não não não não não não não não não não não não não não

fez fez fez fez fez fez fez fez fez fez fez fez fez fez fez fez fez fez fez

nada? nada? nada? nada? nada? nada? nada? nada? nada? nada? nada? nada? nada? nada? nada? nada? nada? nada? nada?

Figura 94. Folheto 3, frente e verso. Direcionado à testemunhas.

159

EM BRIGA DE MARIDO E MULHER METE-SE A POLÍCIA

Responder à sentimentos como raiva e insegurança com violência não é só briga de casal. Violência doméstica é crime. Meta a polícia. Se você presenciar casos de violência doméstica, ligue:

Ligue 190

Em caso de emergência.

Ligue 180

Para denúncia, orientação e informações.

@MARIAMALDITA_CO


160

entrega

Lambe-lambe

TCC 2018

Na pesquisa de percepção houve mais de uma sugestão para alterar o formato e o fundo do lambelambe. Pensando nisso, para melhorar o contraste figura/fundo e adicionar propósito ao formato irregular anteriormente proposto, as peças receberam um fundo preto rabiscado e textos brancos.

Considerou-se até que um stencil talvez fosse melhor do que um papel impresso. Mas, por ora, será mantido o material gráfico.

Figura 95. Simulação de lambe-lambes colados em um muro.


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TCC 2018

Figura 96. Imagem dos três lambe-lambes.

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162

entrega

Adesivos Os adesivos de placa de pare foram alterados para terem todos fundo vermelho, similar à cor das placas. Isso é para melhorar a legibilidade e fazer com que a frase seja mais percebida como continuação de “pare” do que uma intervenção separada e independente da placa.

TCC 2018

Figura 97. Imagem de todas as unidades de adesivos, com o fundo vermelho.


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Material interativo Nesse material o único ajuste foi retirar dos tickets direcionados à mulher o termo “violência doméstica”, para que não ficasse claro, aos desavisados, do que se trata.

SE UMA PESSOA DE SEU CONVÍVIO INTIMO, SEJA AMOROSO OU FAMILIAR:

@mariamaldita_co

SAIBA SE VOCÊ ESTÁ SOFRENDO DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA:

TCC 2018

Retém seus documentos ou dinheiro, impedindo seu acesso a eles; Ridiculariza e subestima aquilo que você diz, fazendo você se sentir inferior ou incapaz; Desquali�ica ou te humilha em meio a familiares e amigos;

Te causa medo de como ela possa reagir, sobretudo em situação de discórdia;

Te obrigada a fazer coisas que você não quer, como ir a lugares indesejados ou até manter relações íntimas indesejadas; Te xinga, humilha, fere com palavras;

Te agride �isicamente, seja de empurrões à chutes e socos.

Ligue 180. Saiba mais: @mariamaldita_co

isso também passa. você não está sozinha

Ligue 180. Saiba mais: @mariamaldita_co

isso também passa. você não está sozinha

Ligue 180. Saiba mais: @mariamaldita_co

isso também passa. você não está sozinha

Ligue 180. Saiba mais: @mariamaldita_co

isso também passa. você não está sozinha

Ligue 180. Saiba mais: @mariamaldita_co

isso também passa. você não está sozinha

Ligue 180. Saiba mais: @mariamaldita_co

isso também passa. você não está sozinha

Ligue 180. Saiba mais: @mariamaldita_co

isso também passa. você não está sozinha

Ligue 180. Saiba mais: @mariamaldita_co

isso também passa. você não está sozinha

Se marcou alguma das alternativas, você está em situacão de violência doméstica. Não é sua culpa. você não está sozinha. Ligue 180. Saiba mais em @mariamaldita_co

Figura 98. Cartaz-teste 1, direcionado à mulheres, e posts de instagram.

Considerou-se que o processo de desenvolvimento dos posts de instagram não era vital ou coerente com a proposta do TCC, por isso manteve-se esse processo fora do trabalho. Posts na íntegra em: instagram.com/mariamalditaco_


164

entrega

@mariamaldita_co

VOCÊ ESTÁ EM UM RELACIONAMENTO ABUSIVO? SE A PESSOA COM QUEM VOCÊ SE RELACIONA:

Controla suas roupas, fazendo você sentir mal quando escolhe algo que ela julga vulgar ou inapropriado;

Ridiculariza e subestima aquilo que você diz, fazendo você se sentir inferior ou incapaz;

TCC 2018

Não respeita sua privacidade e indivualidade;

Trata você como sua propriedade, agindo agressivamente e com ciúmes excessivo;

Te obrigada a fazer coisas que você não quer, como ir a lugares indesejados ou até manter relações íntimas indesejadas; Te afasta de seus amigos e familiares; Te xinga, humilha, fere com palavras.

Figura 98. Cartaz-teste 2. Direcionado à mulheres.

Ligue 180. Saiba mais: @mariamaldita_co

relacionamento abusivo tem saída. você não está sozinha.

Ligue 180. Saiba mais: @mariamaldita_co

relacionamento abusivo tem saída. você não está sozinha.

Ligue 180. Saiba mais: @mariamaldita_co

relacionamento abusivo tem saída. você não está sozinha.

Ligue 180. Saiba mais: @mariamaldita_co

relacionamento abusivo tem saída. você não está sozinha.

Ligue 180. Saiba mais: @mariamaldita_co

relacionamento abusivo tem saída. você não está sozinha.

Ligue 180. Saiba mais: @mariamaldita_co

relacionamento abusivo tem saída. você não está sozinha.

Ligue 180. Saiba mais: @mariamaldita_co

relacionamento abusivo tem saída. você não está sozinha.

Ligue 180. Saiba mais: @mariamaldita_co

relacionamento abusivo tem saída. você não está sozinha.

Se marcou alguma das alternativas, você está em uma relacão abusiva, e quem sabe até sofrendo de violência doméstica. Ligue 180. Saiba mais em @mariamaldita_co


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@mariamaldita_co

VOCÊ É UM PARCEIRO ABUSIVO?

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SE VOCÊ FAZ ALGUMAS DESSAS COISAS:

Controla as roupas da sua parceira;

TCC 2018

Fica inseguro com as conquistas dela, e por isso as diminui ou �inge não se importar;

Fez com que sua parceira se afastasse de amigos e família: ela é só sua; Não permite que ela saia com amigos sem a sua companhia;

Você diz que ela está louca ou inventando coisas quando brigam e ela tem razão;

Com medo de perdê-la , você diz que nenhum outro homem vai querê-la além de você.

Figura 99. Cartaz-teste 3. Direcionado à homens ou potenciais agressores.

Repense seus atos. Saiba mais: @mariamaldita_co

você está sendo abusivo.

Repense seus atos. Saiba mais: @mariamaldita_co

você está sendo abusivo.

Repense seus atos. Saiba mais: @mariamaldita_co

você está sendo abusivo.

Repense seus atos. Saiba mais: @mariamaldita_co

você está sendo abusivo.

Repense seus atos. Saiba mais: @mariamaldita_co

você está sendo abusivo.

Repense seus atos. Saiba mais: @mariamaldita_co

você está sendo abusivo.

Repense seus atos. Saiba mais: @mariamaldita_co

você está sendo abusivo.

Repense seus atos. Saiba mais: @mariamaldita_co

você está sendo abusivo.

Se você marcou mais de 3 respostas:


166

entrega

Figura 100. Cartaz-teste 4. Direcionado à testemunhas.

@mariamaldita_co

SERÁ QUE SUA AMIGA OU VIZINHA SOFRE DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA? FIQUE ATENTA AOS SINAIS: Se sua amiga ou vizinha se distanciou de todo seu círculo social e íntimo depois que começou um relacionamento; Se você ouve barulhos estranhos, gritos e discussões frequentes na casa de seus vizinhos;

TCC 2018

Se ela te pediu ajuda ou contou de alguma violência que sofreu, mas depois mudou de ideia;

Se você percebeu marcas de agressões no corpo da mulher em questão; Se você presenciou uma briga em que ela foi humilhada e verbalmente agredida;

Se você testemunhou alguém agredindo-a �isicamente, seja com empurrões ou tapas e socos.

Ligue 180. Saiba mais: @mariamaldita_co

isso também passa. você não está sozinha

Ligue 180. Saiba mais: @mariamaldita_co

isso também passa. você não está sozinha

Ligue 180. Saiba mais: @mariamaldita_co

isso também passa. você não está sozinha

Ligue 180. Saiba mais: @mariamaldita_co

isso também passa. você não está sozinha

Ligue 180. Saiba mais: @mariamaldita_co

isso também passa. você não está sozinha

Ligue 180. Saiba mais: @mariamaldita_co

isso também passa. você não está sozinha

Ligue 180. Saiba mais: @mariamaldita_co

isso também passa. você não está sozinha

Ligue 180. Saiba mais: @mariamaldita_co

isso também passa. você não está sozinha

Se marcou 2 ou mais sinais, existe chance de que sua amiga ou vizinha esteja sofrendo de violência doméstica. se ela não quiser conversar, entregue a ela este ticket. em caso de emergência, não hesite. Ligue 190. Saiba mais em @mariamaldita_co


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Intervenção urbana Nestas peças, o tamanho da fonte dos rótulos foi aumentado, por exemplo, “dia do falecimento”, “causa da morte”. Eram muito pequenos em comparação aos textos em vermelho. Como a legibilidade dos rótulos ainda é frágil, decidiu-se por mudar o contexto da aplicação da peça: em vez de empenas cegas, que são muito altas, paredes comuns, mas mantendo grandes proporções. Em vez de 7 metros de base, 2 metros é o suficiente para ainda ser imponente se colado à altura dos olhos.

Certificado de óbito 1.

TCC 2018

Figura 101.


entrega

TCC 2018

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Figura 102. Certificado de รณbito 2.


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TCC 2018

Figura 103. Certificado de óbito 3.


entrega

TCC 2018

170

Figura 104. Certificado de รณbito 4.


171

Desta forma, conclui-se o design dos materiais gráficos, ao menos no âmbito do TCC. Tendo completado a fase da entrega, o trabalho para por aqui. Por motivos de tempo e recursos, não haverá implementação por parte da autora ainda no TCC mas, quem sabe, no futuro.


TCC 2018

172

conclusĂŁo


maria maldita // design gráfico no combate à violência doméstica contra a mulher

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TCC 2018


TCC 2018

174

conclusĂŁo


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06 ConclusĂŁo


178

conclusão

TCC 2018

6. Conclusão Os objetivos do trabalho, bem como a problemática, foram devidamente abordados. Todos os objetivos específicos foram atendidos, eram eles: fundamentar conceitos sobre desconstrução e discursos, design para mudança social, bem como sobre violência doméstica e espaço público; coletar materiais gráficos similares ao que se intenta desenvolver, para analisá-los e colher opiniões do público sobre eles; desenvolver alternativas de solução gráfica para o problema com base no que se havia coletado; e por fim validar o material em conjunto com as pessoas envolvidas no problema para gerar iteração. Quanto ao objetivo geral, que consistia em desenvolver uma série de materiais gráficos - pôsteres, panfletos e adesivos - a serem inseridos no espaço público urbano para auxiliar no combate e desnaturalização da violência doméstica contra a mulher, pode-se dizer que foi parcialmente atendido, uma vez que a série de materiais gráficos foi desenvolvida de fato, mas não inserida no espaço público. Além disso, mesmo que houvessem sido colocados nas ruas, não é fácil determinar se os materiais auxiliam de fato no combate e desnaturalização da violência doméstica. O que pôde-se observar nesse sentido foram as participações na pesquisa de percepção, em que as peças foram julgadas como causadoras de grande impacto, mas não

se pode a partir daí determinar se violência doméstica passou a ser mais intolerável ou menos natural para os participantes que viram os materiais. Penso agora que poderia até ter incluído essa pergunta na pesquisa. Mas não acredito que teria respostas válidas, por falta de sinceridade ou por ter parte dos participantes potencialmente já intolerantes à violência doméstica. O método selecionado é bem abrangente, bem como orgânico quanto ao fluxo de trabalho, e por isso se mostrou adequado para a realização de um trabalho de conclusão de curso. O que ele trouxe de mais valioso e específico para este trabalho foi a abordagem do design centrado no humano (DCH), que orientou o trabalho, embora de uma maneira um pouco diferente do ideal. É importante lembrar que, como as pessoas-público não possuíam a expertise para lidar com violência doméstica, não se pôde pressupor que saberiam a forma de resolvê-la, como normalmente se pressupõe no DCH. Além disso, foi desafiador trabalhar com pessoas de fora do âmbito da faculdade, já que violência doméstica é um tema que, além de estar envolvido em alta tolerância social, está envolvido também em tabus e contradições. Na internet ou em conversas entre terceiros, ao se falar de um caso de violência doméstica


maria maldita // design gráfico no combate à violência doméstica contra a mulher

é comum encontrarmos comentários raivosos, que culpabilizam a mulher, ou ao menos uma atitude que duvida da qualidade de crime do caso. Nem uma sombra dessa postura apareceu entre as pessoas entrevistadas pessoalmente ou na validação, mesmo que esta fosse anônima. Não creio, no entanto, que isso indique que não toleram a violência ou que não julgam mulheres envolvidas nisso, mas sim que tiveram receio de manifestar algo assim para mim.

Podem haver várias abordagens no diálogo sobre violência doméstica. Podem-se usar vários tons. O tom do meu trabalho foi um de impacto e criação de intolerância, visando atingir a tolerância social que envolve o problema. Alguns participantes da pesquisa opinaram que

faltou na série um material de acolhimento, entendimento e valorização da mulher vítima. Eu concordo, mas considero que esse é um outro tom, uma outra natureza de material; também possível dentro do que estipulava esse trabalho, mas sem que isso invalide os materiais criados. Só não foi desenvolvido agora, e dentro do objetivo de desnaturalização. Vejo que eu abordei a desnaturalização muito por meio do impacto dos materiais. Poderia ter sido diferente, mas creio que foi também adequado às efêmeras peças como lambes e cartazes. Que outro modo de trazer desnaturalização em peças lidas em segundos, no meio da cidade e na correria? Fica para pesquisas futuras. Ou ainda, se não cartazes e materiais de rua, como falar com alguém sobre um assunto que não se quer discutir? Considero que as partes mais valiosas do trabalho foram a fundamentação teórica e os resultados finais. Embora tenha sido difícil reunir a fundamentação, pois não tinha experiência em escrita acadêmica, foi um processo proveitoso. Pesquisar sobre violência doméstica obviamente me fez entender melhor o problema, mas também desejar mais que eu conseguisse produzir cartazes interessantes para falar disso no espaço público. Mostrou-me, porém, que muito pouco é dito a respeito de como lidar com o agressor, na maioria dos casos homem. Existem poucas e deficientes políticas de tratamento, e eu não cheguei a descobrir como orientá-los, por isso os materiais a eles direcionados incentivam apenas a ligação para o 180. Já a pesquisa quanto ao espaço público urbano o definiu neste trabalho como uma amálgama criada pela sociedade que vive aquele espaço, unindo-a e tornando-o representativo. Isso

TCC 2018

Como descobertas e conclusões que eu tiro deste trabalho inteiro, é que muito mais do que eu fiz poderia ter sido feito. Muito mais e muito diferente. Eu creio que combinei um problema e uma aplicação extremamente férteis. Muito pode ser feito e dito a respeito de violência doméstica, assim como intervenções gráficas no espaço urbano público podem tomar variadas formas. Então, muitos materiais gráficos sobre violência doméstica podem ser gerados, e é o que eu penso em continuar fazendo, caso consiga implementar os primeiros materiais de alguma forma. Foi assustador lidar com um problema tão grande e antigo como violência doméstica. O receio de estar criando artefatos que pioram a situação ou que trazem algum discurso prejudicial foi constante. Considero que ainda sei pouco sobre esse problema, e maior convivência com mulheres que passaram por isso, ou com redes de apoio, teria beneficiado muito o resultado do trabalho, que não julgo insatisfatório, mas incipiente.

179


180

conclusão

TCC 2018

me fez experienciar a cidade de uma forma diferente durante o decorrer do trabalho. Concordo com a definição de Hertha Silva (2015) do espaço público como espaço de comunicação, onde o lambe-lambe e materiais gráficos independentes se apresentam como desvio de discurso. No entanto, não foi fácil realizar esse desvio na prática, nunca havia feito intervenções gráficas antes. Colei dois adesivos (apenas para tirar foto) em placas de pare ao longo da fase de iteração, e sendo eu muito leiga e medrosa, tive medo de que alguém me repreendesse ou brigasse comigo, embora nada disso tenha acontecido. Mesmo assim, achei complicado, por isso, pedi ajuda à amigos mais experientes para tentar aplicar outros materiais. Quanto ao design social e ativista, me questionei ao longo do ano de 2018 se ele realmente poderia existir, visto que o design tem em seu cerne um propósito capitalista de produção acima de qualquer outra coisa. Depois de passar por um intenso processo eleitoral com produção gráfica e visual ativista abundante, não consigo pensar que isso não é possível. Considerar que design social ou ativista não existe é considerar que ativismo através do design não é design. Vivendo em uma situação política em que as cores da bandeira brasileira se tornaram partidárias, representativas de determinado posicionamento, percebo que o design não está vedado de ser ativista e político, seja para agendas progressistas ou conservadoras nos costumes e liberais na economia. Portanto, mesmo com

algum receio, ainda classificaria este trabalho como design social/ativismo. Por fim, considerei complicado transpor a filosofia pós-estruturalista da desconstrução para resultados visuais. De fato, como disse Katherine McCoy (apud LUPTON; MILLER, 1999), desconstrução no design não é um estilo, mas uma postura. Não sei, no entanto, se eu consegui imbuir meu trabalho dessa postura, ou a mim mesma enquanto o produzia. Talvez deva-se ao fato de que muito pouco numa peça com objetivos de desconstrução tenha a ver com aspectos formais. Ficou claro, na pesquisa de percepções, que o que mais importava para os participantes era o conteúdo das peças e onde elas estavam. Pouco parece ter lhes afetado as cores ou a tipografia. Tive auxílio para escrever os textos das peças, mas ainda assim fui eu quem pensou neles, e sinto que eles foram bem mais importantes do que o esperado. A concepção que eu tinha, até então, de design, não englobava textos de um material. Na maioria dos trabalhos que fiz no mercado de trabalho, não me cabia nem decidir onde as peças que eu fiz seriam expostas ou usadas. Lembro que, enquanto pensava nas primeiras alternativas, senti-me errada pensando em frases, e achei difícil conectar conceitos com contextos de aplicação. Mas, tendo em vista todo o trabalho que eu fiz, percebo que um papel amplo do designer na criação de artefatos é não só possível como coerente. Finalizo meu trabalho de conclusão de curso com isso em mente. Não me senti prejudicada


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181

em desenvolvê-lo individualmente; pelo contrário, foi um respiro dos trabalhos em grupo tão frequentes ao longo da graduação. Trabalhos individuais são importantes para desenvolver autonomia, algo que considero que foi desenvolvido em mim durante o TCC. Como maiores desafios, cito o gerenciamento de um trabalho tão longo e o fato de que a experiência com trabalhos de cunho acadêmico é rasa antes do quarto ano de curso. No entanto, tive sorte, apoio e boa orientação, de forma que concluo esse trabalho com satisfação e inspirada para continuar a desenvolvê-lo nas inúmeras pesquisas futuras que ele possibilita, mesmo depois de seu fim como trabalho acadêmico.

TCC 2018


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185

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186

Anexo Protocolo de entrevista // MARIA MALDITA Participante nº Gênero

Idade

Ocupação

Pesquisa conceitual / formal / retórica Qual tipo de representação de mulher gera mais empatia? 1

2

3

4

5

6

É melhor falar com a mulher ou com quem agride? mulher

7

1

2

3

4

agressor (a)

5

6

7

8

9

10

Qual amostra você acha que funciona melhor para mudar o que as pessoas ‘de fora’ pensam sobre isso?

Anexo 1. Formulário de entrevista com pessoas público.

Qual amostra você acha que funciona melhor para o problema em geral?

Qual chama mais atenção?

Qual chama mais atenção?

Qual é o mais “golpe baixo”?

Qual é o mais sério?

Qual é que mais faz sentido? Que carrega um argumento?

Qual cor você acha mais adequada para o assunto?

1

2

3

4

5

6

Qual letra você acha mais adequada para o assunto?

Violência doméstica

Violência doméstica

Violência doméstica

Violencia domestica

Violência doméstica

Violência doméstica


pergunta 10

pergunta 09

pergunta 08

pergunta 07

pergunta 06

pergunta 05

pergunta 04

pergunta 03

pergunta 02

pergunta 01

3 Mulher 4 3 10 3 2 4 Vermelho Muro

3

Agressor

9

3

3

3

2

4

Vermelho

Muro

M 21

F

19

Muro

Preto

6

6

9

3

7

3

Agressor

4

22

F

3

grupo 01 . igreja

Muro

Vermelho

8

7

3

6

8

5

Mulher

5

21

M

4

Muro

Roxo

8

10

3

10

1

4

Mulher

1

30

M

5

League

Preto

3

1

3

10

9

3

Agressor

2

59

M

1

Muro

Rosa

5

1

2

3

7

5

Muro

Preto

5

1

1

2

1

5

Mulher

5

47

M

3

4

36

M

4

Katahdin

Roxo

2

3

10

1

7

1

Mulher

grupo 02 . seguranças

Mulher

3

50

M

2

League

Verde

4

7

9

3

1

7

Agressor

4

65

F

5

Muro

Roxo

5

1

9

3

5

2

Ambos

3

59

F

1

Muro

Vermelho

2

1

7

3

5

2

Ambos

3

40

F

2

Katahdin

Roxo

1

1

1

3

8

3

Ambos

3

59

F

3

grupo 03 . CRAM

Katahdin

Roxo

2

2

8

2

8

5

Ambos

2

57

F

4

Muro

Roxo

8

9

6

1

5

1

Agressor

3

52

F

5

Anexo 2. Todas as

Idade

GĂŞnero

2

1

respostas da entrevista.

Pessoa

Muro

Roxo

-

1

3

3

-

5

Agressor/Ambos

3

TOTAL

187


188 10/11/2018

Pesquisa de percepção // TCC

Pesquisa de percepção // TCC As peças gráficas apresentadas a seguir fazem parte de um Trabalho de Conclusão de Curso de Design Gráfico. São cartazes que abordam a violência doméstica contra a mulher no Brasil. Este formulário tem como objetivo colher percepções e avaliações a respeito do trabalho. As respostas são totalmente anônimas, e serão publicadas no documento do TCC apenas relacionadas à idade e gênero de quem respondeu a pesquisa, não gerando, assim, qualquer tipo de identificação pessoal. As imagens são apenas SIMULAÇÕES, não se pretende incorrer em vandalismo.

Anexo 3. Formulário de validação.

São três séries de materiais; as respostas serão a respeito de cada uma delas. Responder ao formulário leva um média 15 minutos. * Required

Perfil 1. Idade *

2. Gênero * Mark only one oval. Feminino Masculino Other:

Parte 01

Contém cartazes, folhetos, adesivos e lambe-lambes.

Cartazes Cartazes para serem afixados em locais de fluxo de pessoas intenso, como arredores de terminais e pontos de ônibus, em regiões centrais da cidade.

https://docs.google.com/forms/d/1AxMg4L5qZK8iM8aj5pFBQS5RjO8cKlcG5zq7nT6T1sE/edit

1/22


189

10/11/2018

3. Você consegue enxergar e ler o que está escrito nos cartazes? * Mark only one oval. Pesquisa de percepção // TCC 5. O que pode-se entender que a peça critica? * Sim Não Parcialmente

10/11/2018

4. Você consegue encontrar, no cartaz, informações sobre como proceder em caso de violência doméstica? * Pesquisa de percepção // TCC Mark one oval. 5. O queonly pode-se entender que a peça critica? * Sim

10/11/2018

Não Vendo estes três cartazes, você consegue entender a quem cada um deles se direciona? (Considerando que existem, em Parcialmente uma situação de violência doméstica, vítimas, agressores e Other: testemunhas) Pesquisa de percepção // TCC 5. O que pode-se entender que a peça critica? *

https://docs.google.com/forms/d/1AxMg4L5qZK8iM8aj5pFBQS5RjO8cKlcG5zq7nT6T1sE/edit 6. Cartaz rosa: *

Vendo estes três cartazes, você consegue entender a quem cada um deles se direciona? (Considerando que existem, em uma situação de violência doméstica, vítimas, agressores e 7. Cartaz roxo: * testemunhas)

4/22

6. Cartaz rosa: * 8. Cartaz azul: *

Vendo estes três cartazes, você consegue entender a quem cada um deles se direciona? (Considerando que existem, em 7. Cartaz roxo: * uma situação de esse violência doméstica, 9. Classifique o quanto material gráfico lhe parecevítimas, ser lógico: *agressores e testemunhas) Mark only one oval. 1 2 8. 6. Cartaz Cartaz azul: rosa: **

3

4

5

9. Cartaz Classifique lhe parecepode ser lógico: 10. você material acredita gráfico que este material causar* impacto em alguém: * 7. roxo:o*quanto esse Mark only one oval. 1 2 8. Cartaz azul: * pouco impacto

13

24

35

4

5 muito impacto

10. o quanto você acredita que este material 11. Classifique Você diria que a atitude que os cartazes passam é: * pode causar impacto em alguém: * 9. Classifique o quanto esse material gráfico lhe parece ser lógico: * Mark only one oval. Mark only one oval. 1

1 2

12 3

23 4

34 5

45

pouco passivaimpacto 10/11/2018

5 ativa muito impacto

Pesquisa de percepção // TCC

11. Você diria que a atitude que os cartazes passam é: * 12. Classifique Você tem algum comentário ou sugestão sobre essa peça? 10. o quanto você acredita que este material pode causar impacto em alguém: * Mark only one oval. Mark only one oval. 1 passiva pouco impacto

2 1

3 2

4 3

5 4

5 ativa

muito impacto

https://docs.google.com/forms/d/1AxMg4L5qZK8iM8aj5pFBQS5RjO8cKlcG5zq7nT6T1sE/edit

11. Você diria que a atitude que os cartazes passam é: * Mark only one oval.

5/22


190

Folheto Pequeno folheto e papel, destinado a estar em lugares como salas de espera de prédios públicos e tubotecas, com informações relevantes e rápidas sobre violência doméstica.

13. Você consegue enxergar e ler o que está escrito no folheto? * Mark only one oval. Sim Não Parcialmente 14. Você identifica, no folheto, qual é o texto mais importante? * Mark only one oval. "Ele te agrediu" Telefones de emergência O que é violência doméstica segundo a Lei Maria da Penha 15. Imagine que esta peça esteja nas ruas, salas de espera ou tubotecas. Classifique o quanto você acredita que este material pode causar impacto em alguém: * Mark only one oval. 1

2

3

4

5

pouco impacto

muito impacto

10/11/2018

Pesquisa de percepção // TCC

16. Você diria que a atitude que o folheto passa é: * Mark only one oval. https://docs.google.com/forms/d/1AxMg4L5qZK8iM8aj5pFBQS5RjO8cKlcG5zq7nT6T1sE/edit 1 passiva

2

3

4

5 ativa

17. Você tem algum comentário ou sugestão sobre essa peça?

6/22


191

Lambe-lambe Frases a serem coladas em bairros residenciais, onde a maioria dos casos acontece.

10/11/2018

// TCC * 18. Você consegue enxergar e ler o que estáPesquisa escritode nopercepção lambe-lambe? 19. Mark O queonly pode-se entender que a peça critica? * one oval.

Sim Não 10/11/2018

Parcialmente

Pesquisa de percepção // TCC

19. O que pode-se entender que a peça critica? *

20. Imagine que esta peça esteja nas ruas de um bairro residencial. Classifique o quanto você acredita que este material pode causar impacto em alguém: * Mark only one oval. https://docs.google.com/forms/d/1AxMg4L5qZK8iM8aj5pFBQS5RjO8cKlcG5zq7nT6T1sE/edit

1

2

3

4

5

pouco impacto muito impacto 20. Imagine que esta peça esteja nas ruas de um bairro residencial. Classifique o quanto você acredita que este material pode causar impacto em alguém: * Mark only 21. Você diriaone queoval. a atitude que os lambe-lambes passam é: * Mark only one oval. 1 pouco impacto

1 2

2 3

3 4

4

5

5

passiva

muito impacto ativa

21. Você diria que a atitude que os lambe-lambes passam é: * Mark only oval. 22. Você tem one algum comentário ou sugestão sobre essa peça? 1 passiva

2

3

4

5 ativa

22. Você tem algum comentário ou sugestão sobre essa peça?

7/22


192

Adesivos

10/11/2018

Adesivos a serem colados em placas de trânsito de "pare", usando a palavra para formar frases sobre violência doméstica. Pesquisa de percepção // TCC

23. Você consegue enxergar e ler o que está escrito no adesivo? * Mark only one oval. Sim Não Parcialmente 24. O que pode-se entender que a peça critica? *

https://docs.google.com/forms/d/1AxMg4L5qZK8iM8aj5pFBQS5RjO8cKlcG5zq7nT6T1sE/edit

8/22

23. Você consegue enxergar e ler o que está escrito no adesivo? * Mark only one oval. 25. Classifique Sim o quanto esse material gráfico lhe parece ser lógico: * Mark only Nãoone oval. 1

Parcialmente 2 3

4

5

24. O que pode-se entender que a peça critica? * 26. Classifique o quanto você acredita que este material pode causar impacto em alguém: * Mark only one oval. 1

2

3

4

5

pouco impacto 10/11/2018

muito impacto

Pesquisa de percepção // TCC * 25. Classifique o quanto esse material gráfico lhe parece ser lógico: 27. Mark Você only diriaone queoval. a atitude que os adesivos passam é: *

Mark only one oval. 1 2 3

4

5

1 2 3 4 5 https://docs.google.com/forms/d/1AxMg4L5qZK8iM8aj5pFBQS5RjO8cKlcG5zq7nT6T1sE/edit passiva

ativa

26. Classifique o quanto você acredita que este material pode causar impacto em alguém: * Mark only oval. 28. Você tem one algum comentário ou sugestão sobre essa peça? 1 pouco impacto

2

3

4

5 muito impacto

9/22


193 Parte 02

Contém material gráfico interativo.

10/11/2018

Pesquisa de percepção // TCC

31. Sobre o que essa peça está falando? O que pode-se dizer que ela critica? * 29. Você consegue enxergar e ler as informações na parte superior do cartaz? * Mark only one oval. Sim 10/11/2018

Não

Pesquisa de percepção // TCC

Parcialmente 31. Sobre o que essa peça está falando? O que pode-se dizer que ela critica? * 30. Você consegue localizar o resultadovocê do ‘teste’ que é feito noentender cartaz? * Vendo estes três cartazes, consegue a quem Mark only one oval. cada um deles se direciona? (considerando vítima, agressor e Sim testemunha) Não

10/11/2018

Pesquisa de percepção // TCC

32. Cartaz rosa: * 31. Sobre o que essa peça está falando? O que pode-se dizer que ela critica? *

Vendo estes três cartazes, você consegue entender a quem 33. Cartaz azul: * cada um deles se direciona? (considerando vítima, agressor e testemunha) https://docs.google.com/forms/d/1AxMg4L5qZK8iM8aj5pFBQS5RjO8cKlcG5zq7nT6T1sE/edit

13/22

https://docs.google.com/forms/d/1AxMg4L5qZK8iM8aj5pFBQS5RjO8cKlcG5zq7nT6T1sE/edit

10/22

34. Cartaz amarelo: * 32. Cartaz rosa: *

Vendo estes três cartazes, você consegue entender a quem 35. Classifique o quanto esse material gráfico lhe parece ser lógico: * 33. Cartaz azul: * cada um deles se direciona? (considerando vítima, agressor e Mark only one oval. testemunha) 1

2

3

4

5

34. 32. Cartaz amarelo: rosa: * *

36. Imagine que esta peça esteja em murais públicos, como de universidades e igrejas. 35. esse material parecepode ser lógico: acredita gráfico que estelhe material causar* impacto em alguém: * 33. Classifique Cartaz azul:o* quanto você Mark only one oval. 1 2 13 34. Cartaz amarelo: * pouco impacto

24

35

4

5 muito impacto

36. que esta peça esteja em murais públicos, 37. Imagine Você diria que a atitude que as peças passam é: * como de universidades e igrejas. 35. Classifique o quanto esse material gráfico lhe parece ser lógico: * Classifique o quanto Mark only one oval. você acredita que este material pode causar impacto em alguém: *


194

36. Imagine que esta peça esteja em murais públicos, como de universidades e igrejas. Classifique o quanto você acredita que este material pode causar impacto em alguém: * Mark only one oval. 10/11/2018 Pesquisa de percepção // TCC 1

2

3

4

5

pouco impacto

muito impacto

10/11/2018

Pesquisa de percepção // TCC

38. ou peças sugestão sobreé:essa peça? 37. Você Você tem diriaalgum que a comentário atitude que as passam * Mark only one oval. 1

2

3

passiva

4

5 ativa

Parte 03

Intervenções urbanas.

Causa da morte https://docs.google.com/forms/d/1AxMg4L5qZK8iM8aj5pFBQS5RjO8cKlcG5zq7nT6T1sE/edit

14/22

39. Você consegue enxergar e ler as informações nos cartazes? * Mark only one oval. Sim Não Parcialmente 40. Você consegue identificar do que se trata o documento? * Mark only one oval. Certidão de casamento Boletim de Ocorrência Certidão de óbito Certidão de nascimento 10/11/2018

Pesquisa de percepção // TCC

41. Sobre o que essa peça está falando? O que pode-se dizer que ela critica? * https://docs.google.com/forms/d/1AxMg4L5qZK8iM8aj5pFBQS5RjO8cKlcG5zq7nT6T1sE/edit

18/22

https://docs.google.com/forms/d/1AxMg4L5qZK8iM8aj5pFBQS5RjO8cKlcG5zq7nT6T1sE/edit

15/22

42. Classifique o quanto esse material gráfico lhe parece ser lógico: *


42. Classifique o quanto esse material gráfico lhe parece ser lógico: * Mark only one oval. 1

2

3

4

195

5

43. Imagine que esta peça esteja em muros grandes no centro da cidade. Classifique o quanto você acredita que este material pode causar impacto em alguém: * Mark only one oval. 1

2

3

4

5

pouco impacto

muito impacto

44. Você diria que a atitude que as peças passam é: Mark only one oval. 1

2

3

ativa

4

5 passiva

45. Você tem algum comentário ou sugestão sobre essa peça?

Anexo 4. Respostas de validação.

Invisível Cartazes a serem colados em murais já poluídos. A intenção é surpreender quem conseguir enxergar o que está escrito.

https://docs.google.com/forms/d/1AxMg4L5qZK8iM8aj5pFBQS5RjO8cKlcG5zq7nT6T1sE/edit

19/22


196

A quem cada cartaz se direciona:


197

Folheto


198

Lambe-lambe

Adesivos


199

Testes/Material interativo


200

A quem cada cartaz se direciona:


201 Intervenção Urbana


TCC 2018

Profile for Mariana Provenzi

MARIA MALDITA | Design gráfico no combate à violência doméstica contra a mulher [TCC]  

Trabalho de Conclusão de Curso produzido para o curso de design gráfico na UFPR. Através do recorte da tolerância social como grande empecil...

MARIA MALDITA | Design gráfico no combate à violência doméstica contra a mulher [TCC]  

Trabalho de Conclusão de Curso produzido para o curso de design gráfico na UFPR. Através do recorte da tolerância social como grande empecil...

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