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Planos para senhoras em visita à Casa do Sol 28 de março de 2011

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anhã de um domingo ensolarado, perfeito para fugir do almoço que sua nora e seu filho esperam que você faça. Não se deram conta que você, amiga leitora, não está nem aí para dividir o tempo que te resta com eles, que até hoje vivem às suas custas. Uma visita do SESC à casa daquela Hilda Hilst, lembra? Já leu? Sim, aquela que escrevia no Correio Popular, aqui de Campinas, umas coisas que diziam ser um pouco pesadas? “Vamo vê a véia escrevê? Vamo vê a véia pitá? Vamo vê a véia bebê? Vamo vê a véia morrê de tanto se espantá?” Água, banana e vamos lá para a tal Casa do Sol, onde se recolheu a poeta depois de uma iluminação. Você, amiga leitora, com mais quinze senhoras, as usual. Uma ou outra mocinha com pinta de artista. Apenas um senhor com sua mulher. Não, não era mais novo: não queria só a pensão da funcionária pública. Também não parecia ser o enfadonho namorado da viúva. Tinha uma intimidade sem guerra dos casais maduros de matérias de telejornal – esses, vivos? Difíceis de achar. Enfim. A guia do passeio, tão falante, entrega livros aleatoriamente no microônibus. Te vem na mão “Cascos e Carícias”. Crônicas. Numa página aberta ao acaso, você começa a ver que para vocês, mulheres visivelmente vividas, a maioria ali, Hilda tinha planos. “Um bordel geriátrico, que tal?... Contrataríamos velhinhas magníficas, risonhas, letradas, umas quituteiras (que fazem quitutes), outras pacienciosas, adorando ouvir relatos chatérrimos como este “ah, como eu quis tanto dormir com mamãe, ela era linda gostosa etc., como não consegui, sou assim agora””. Isso, um prostíbulo de terceira idade para ganhar dinheiro: “E depois será que não tem alguém curioso que até pague para ver uma velhinha pelada? Até só para rir um pouco?” Ao avançar, você vê que ela tinha também a proposta, esta sutil, perfeita para acalmar da fúria: “Arregimentaríamos várias senhoras da terceira idade, eu inclusive, lógico, e com nossas bengalinhas em ponta, uma ponta-estilete besuntada de curare (alguns jovens recrutas amigos viajariam até os Txucarramãe ou os Kranhacarore para consegui-lo) nos comícios, nos palanques, nas Câmaras, no Senado, espetaríamos as perniciosas nádegas ou o distinto buraco malcheiroso desses vilões, nós, velhinhas misturadas às massas, e assim ninguém nos notaria, como ninguém nunca nota a velhice. Nossas vidas ficariam dilatadas de significado, ó que beleza espetar bundões assassinos, nós faceiras matadoras de monstros!” Muito proveitoso começa esse passeio do SESC à Casa do Sol, no caminho para Mogi Mirim. Quem sabe, nos próximos, você poderá instituir a primeira célula do EGE – Esquadrão Geriátrico de Extermínio, como batizou a fundadora Hilst, que tal? De repente, você separa um tanto do curare – que “provoca rapidinho a paralisia completa de todos os músculos transversais (bunda é transversal?)” e a morte por parada respiratória – para quando bem lhe aprouver. Quem sabe, amiga leitora, num domingo de sol, pela manhã. Mariana Garcia de Castro Alves, jornalista e mestranda em Divulgação Científica e Cultural - Labjor - UNICAMP.


Planos para senhoras em visita à Casa do Sol