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Grupo Tração

Exposição coletiva realizada no Centro Cultural da Justiça Federal - RJ (2010).

Mariana Katona Leal usa o seu corpo como ativador de uma ação que ocorre sobre a imagem dele, sem ser sobre ele. Auto-retrato é a captura feita por uma câmera fixada pela artista em um enquadramento que revela o seu colo nu, posicionado em frente ao dispositivo e intermediado por um vidro. Ela pinta no vidro em tinta preta intervenções que acompanham a forma do seu corpo, a partir do reflexo que o vidro faz dela (e que somente ela vê). À filmadora e ao espectador cabem a visão da artista pintando sua imagem sobre o vidro. É a expressão do corpo sobre a sua imagem sobreposta. O vidro funciona como uma membrana, uma película na qual a gestualidade fica marcada. Tem um certo sentido de interceder mesmo, de constituir um meiotermo entre a imagem mostrada para a câmera e o corpo da artista. Como se delegasse a esta imagem autoconstruída a função de ser no mundo, ela funciona como uma máscara contemporânea. Uma máscara que, mesmo num primeiro momento, aquele em que a artista traça seu “rosto” no vidro não corresponde exatamente à realidade do corpo que é sua origem. E mais adiante, quando Mariana borra com a mão aquilo que pintou no vidro, esta interface se torna uma deformação do próprio corpo em ação, um resíduo que não corresponde nem à abstração do corpo pintado nem à forma original. Ao embaralhar a tinta, a artista encurta esta distância propositalmente criada pela transparência.


Diferentes momentos ficam registrados. O contato do pincel com o vidro, os traços progressivos, e depois o esboroamento da construção; a ausência do corpo momentos depois, a limpeza do vidro; cada um é um marco no tempo. Na recusa de tratar a temporalidade de maneira estática, manipula a cadeia de acontecimentos usa o vídeo e os seus recursos para avançar e retroceder. Mariana Katona Leal fala o tempo todo de pintura, e usa o verso de um quadro como cenário para a filmagem da outra obra exposta aqui exatamente por isso. A outra obra de vídeo aqui apresentada é dividida, se é que pode-se assim dizer, em duas projeções: pintura e pintura-reversa. Por isso a opção de exibi-las em contraposição uma à outra. De um lado, a artista pinta com a sua mão no vidro. De outro, o mesmo vídeo em loop apaga o desenho. Ao contrário da pintura de cavalete, que não tem volta, a liberdade dada pela edição permite que o gesto feito com a tinta preta exista e segundos depois, tenha desaparecido. Numa ironia com os suportes, Mariana escolhe três frames deste vídeo e os faz voltar à pintura, como se desejasse aprisiona-los, mostrando que ao menos no vídeo, podemos controlar o tempo.

Carla Hermann


Mariana Katona Leal - Texto Carla Hermann  

Mariana Katona Leal - Texto Carla Hermann

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