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CULTURA

Teatro Gaúcho: Porto Alegre e a busca do reconhecimento artístico em suas mais diversas formas Em meio a tantas possibilidades que o teatro proporciona, para quem é do meio artístico a arte muitas vezes é a de conseguir ser alguém num mercado ainda em desenvolvimento Ana Carolina Lopes, Bruna Zanatta, Júlia Pulvirenti, Mariana Fritsch e Mariana Ribeiro

As artes cênicas tiveram origem na Grécia Antiga. Desde então, as suas mais diversas expressões estiveram presentes em todas as civilizações ao longo da história da humanidade. O teatro faz parte deste conjunto de expressões, e hoje é uma arte que enriquece culturalmente atores e públicos. Na cidade de Porto Alegre, o teatro é uma arte que ainda passa por certas dificuldades em sua valorização e remuneração, embora a perspectiva seja de um futuro mais próspero. Apesar do pouco interesse de algumas pessoas em relação ao assunto, o teatro já é responsável por levar cultura e conhecimento a quem, antes, desconhecia esse mundo artístico.

ATÉ QUE A CORTINA SE ABRA A bela arte do teatro pode ser confundida muitas vezes com a simplicidade. Mas atingir a perfeição não é algo fácil de se fazer. Em Porto Alegre, é muito difícil manterse apenas com a dramaturgia. Fernando Piccoli, 25 anos, por exemplo, tem duas paixões: o Direito e o Teatro. Diz que é quase possível escolher um, mas que até hoje não conseguiu. “Cada um carrega uma parte muito grande de mim”, conta. Fernando Piccoli (foto: acervo TEPA)


Fazendo mestrado em Ciências Criminais, diz que, se pudesse escolher, viveria de arte. Entretanto, na realidade de ator, não há segurança de abrir mão da advocacia. O advogado iniciou sua carreira dramatúrgica com o intuito de usá-la para o Direito e como futuro professor. Por influência de um colega, depois de formar-se, começou um curso de iniciação teatral no Teatro Escola de Porto Alegre (TEPA), em abril de 2010. Mas segundo Fernando, o que era para ser apenas um curso de um semestre, acabou virando uma paixão que dura até hoje. O que mais o surpreende no teatro, é a complexidade deste tipo de arte. Cada detalhe de voz, expressão corporal, a capacidade criativa, pode fazer muita diferença no palco. “A primeira dificuldade, portanto, é superar os limites do corpo e da mente”, alerta Fernando. A conquista de espaço e oportunidades também está na lista das dificuldades do meio teatral, que geralmente depende de editais públicos de financiamento ou patrocínio. O ator diz que Porto Alegre tem uma cena teatral muito rica, mas que este tipo de profissional enfrenta empecilhos para conseguir espaço e reconhecimento. O público é muito restrito, e o baixo preço de bilheteria dificulta a realização da profissão. A solução é conciliar com outros trabalhos. “A arte de encenar pode provocar os mais diversos sentimentos e reações no público. Isso é muito atraente”, são os argumentos que Fernando usa para defender sua escolha pelo teatro. Argumenta também, que é a reflexão da vida, uma experiência de autoconhecimento. Atualmente, faz parte de um grupo recém-formado com ex-colegas de TEPA. Gratifica-se por ainda conseguir estar no meio dramatúrgico, e ver outros colegas vivendo nesta área. Piccoli conta que, se pudesse, gostaria de manter-se como ator como segunda profissão, sem abrir mão do Direito. “Quero fazer teatro paralelamente sempre. Mas a vida de ator é uma incógnita. Não sei onde estarei amanhã no Teatro”, conclui. O gosto pela criação de novas coisas, a fuga dos limites impostos pela sociedade e também de um possível mundo, foram alguns dos motivos que levaram Matheus Wathier, 18 anos, a seguir a carreira dramatúrgica. Aluno de Teatro da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Matheus conta que antes de entrar na faculdade, já obteve o primeiro contato com a área. “Desde os nove anos fiz teatro como atividade extraclasse na escola. Gostava muito porque me fazia perder o medo de falar na frente das pessoas.” Para o aluno, as dificuldades já começaram com a falta de recursos e a investimentos na própria faculdade. A sala de estudo e apresentações Alziro de Azevedo foi fechada, sem condições de uso, em outubro de 2012, e somente foi


reaberta em abril deste ano. Inconformado, relata que o campus central da UFRGS conta com um belo teatro que está fechado há cerca de quatro anos, e sem previsão de reformas. Os problemas continuam no mercado de trabalho, pois no Brasil, o teatro não é muito valorizado. “As pessoas veem o teatro como entretenimento. E só. Mas esquecem de que há muito aprendizado por trás dele” conta o estudante.

Em

contraponto, o ator diz que teatro é um curso que trabalha muito com o ser humano em si, que é o próprio instrumento de trabalho. Matheus ainda é aluno, mas pretende entrar em um grupo de teatro, e em seguida, realizar seu grande objetivo: trabalhar com cinema. Ana Carolina Lopes

“O TEATRO É ATIVIDADE VOCACIONAL DE TODOS OS SERES HUMANOS” Augusto Boal, grande dramaturgo, diretor de teatro e ensaísta brasileiro, dizia que o teatro é uma atividade vocacional de todos os seres humanos, pois todos nós atuamos e observamos. Somos espectadores. Espectadores da própria vida. As artes cênicas ainda sofrem um certo preconceito no Brasil. Muitos artistas são vistos como meros vagabundos perante a sociedade. Para viver da atuação é preciso ter muita paixão pelo palco, pelas câmeras, pelo público e pelas luzes.

Renata Stein (foto: arquivo pessoal)

Renata Stein Dias, de 21 anos, contou com exclusividade as maiores dificuldades de trabalhar no

meio artístico e alguns tipos de preconceitos sofridos. A jovem iniciou seu primeiro contato com o teatro em uma oficina extracurricular na escola onde estudava no ensino médio. Desde seus 12 anos de idade havia pressão por escolher o que ela faria na faculdade. Então, abriu um jornal para analisar os cursos que cada universidade gaúcha oferecia. Nesse instante, percebeu que iria cursar Artes Cênicas. Atualmente, faz o curso de Teatro Licenciatura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e se formará no final de 2013. Ela afirma que o curso de teatro capacita para dar aulas de teatro, e não ser ator. Relatou, também, uma decepção com o curso: “No final do curso os alunos que


se formarem em interpretação e direção ganham por direito uma carteirinha que os identifica como atores e o registro na sua carteira de trabalho. É necessário na maioria de editais e trabalhos no meio artístico o registro na Delegacia Regional do Trabalho – DRT. Os únicos que não ganham por direito este registro são os formandos da Licenciatura. Por quê? Pelas diversas dificuldades no meio artístico, muitos atores também começam a dar aulas em teatro e pouquíssimos voltam a Universidade para se especializarem. Se o fato de eles serem formados em interpretação teatral não dificulta e nem impossibilita eles de darem aulas, porque o fato de ser formada em licenciatura dificulta e impossibilita de eu receber por direito o meu registro como atriz, sem pagar por isso e precisar reunir diversos documentos comprovando que trabalho na área artística? Quando decidi pedir o meu registro do DRT, que é solicitado no Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos e Diversões do RS, apenas consegui um registro provisório, de duração de um ano, mesmo com vários materiais comprovando que trabalho e estudo na área teatral. Para conseguir depois deste um ano o meu registro definitivo precisaria durante esse ano fazer três temporadas. Uma temporada significa fazer 12 apresentações em um teatro. Isso significa que em um ano precisaria ensaiar e ter lugar para ensaiar, e conseguir um espaço no teatro para apresentar 12 vezes e depois ensaiar e conseguir um espaço para mais 12 vezes e depois ensaiar. Isso é inviável em Porto Alegre.” Ela conta que o ator precisa se desdobrar em sua formação, fazendo oficinas extras, testes para comerciais, curtas universitários, curtas ou longas metragens profissionais ou amadores, figuração, e ainda conseguir um espaço para ensaiar. Pelo visto, nada é fácil. “Felizmente alguns grupos em Porto Alegre já são reconhecidos e conseguem se manter em cartaz em uma frequência razoável, isso nos mostra que é possível, mas não que seja fácil. Tanto participar de um grupo destes quanto criar um grupo que seja bem sucedido é difícil”, explica Stein. Entre risadas e brincadeiras contou que sofre alguns preconceitos, que algumas pessoas acham que ela morrerá de fome. Alegou algumas perguntas que sempre escuta: “-O que você faz? -Sou ator. (o sujeito te olha com um olhar desconfiado) -Hum, legal. Mas com o que você trabalha? (já imaginando onde tudo isso vai parar) Com teatro. - (o sujeito fica parado e vence uma certa timidez e pergunta) Tu quer ir para a Globo?” Dificilmente um estudante de teatro ou um ator de teatro nunca foi questionado sobre isso. Ainda muitas vezes as pessoas não reconhecem o teatro como uma profissão ou como um curso legítimo na Universidade. “Mas tu estuda o que na faculdade? Aprende a mentir? (risos).”.


Cássia Aguiar de Carvalho começou em uma oficina de teatro com o ator e diretor Luis Carlos Pretto, aos 12 anos de idade. Naquele tempo despertou sua vontade de continuar outros cursos e expandir seus conhecimentos. Logo começou com cursos no TEPA (Teatro Escola de Porto Alegre), no Teatro Nilton Filho, onde faz curso até hoje e participa da Cia Teatral Construção. Atualmente também participa da Cia Levem-nos para casa e Cia Hariboll de teatro. É atriz há 11 anos e diz que o teatro a ajudou a superar problemas como depressão. E que indicaria como uma forma de desinibição, ou até mesmo para seguir carreira de ator. Isso tudo dependendo do que a pessoa procura. Cássia exalta alegria quando questionada sobre sua paixão pela dramaturgia: “O teatro só acrescentou coisas boas em minha vida, me proporcionou um autoconhecimento incrível, passei a superar meus próprios limites, a gente passa a dar vida a uma outra vidam, a cada personagem criado, e isso é mágico e lindo. Porém, a família reclama muito pela falta de tempo disponível por conta dos ensaios, mas fora isso todos estão na primeira fila a nos aplaudir.” Como nem tudo é alegria, contou também de suas dificuldades: “A principal dificuldade na vida de todo o ator, sem dúvidas, é o dinheiro. Principalmente aqui no RS o teatro é pouco valorizado, e o que sustenta os grupos e companhias teatrais é o amor que temos pelo que fazemos.”. As duas concordam que o governo deveria investir mais em casas de teatro e apoio aos atores. Como citado todos os dias na faculdade “Faça o que gosta e não trabalhará nenhum dia de sua vida”, fica o recado de duas atrizes experientes.

Júlia Pulvirenti

DA FORMAÇÃO À AÇÃO Um dos principais centros de educação de Artes Cênicas da região sul, o DAD – Departamento de Arte Dramática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul é ícone na formação de atores no estado. Ao longo da faculdade, há dois lados

envolvidos

no

processo

de

desenvolvimento da expressão artística e

Rita Spier (foto: Mariana Ribeiro)


na preparação para o mercado de trabalho, o de quem ensina, e o de quem aprende. Rita Spier começou sua trajetória no teatro ainda quando criança, a fim de vencer a timidez. Cativada pela arte de encenar, resolveu investir na carreira de atriz depois de tentar trabalhar com outras áreas, sem sentir-se plenamente realizada. Aluna do 3o semestre do curso de Artes Cênicas, Rita afirma que fazer teatro é trabalhar com o sensível, com o entendimento do ser humano, o que, por via de consequência, proporciona o autoconhecimento. Camila Bauer, aos 29 anos já é professora. Lecionando há 3 anos no DAD duas disciplinas de Poéticas Teatrais, Camila vê o mercado do teatro em Porto Alegre em uma fase melhor do que a da última década, embora ainda fechado e deficiente. Formada na mesma instituição em Direção Teatral, dentro da sala de aula, busca abrir o horizonte dos alunos quando entram na faculdade para outros olhares sobre o teatro, para que possam expandir suas capacidades e desafiar-se ao longo do curso. Inseridas no universo ainda árduo de sobreviver da arte, professora e aluna concordam que há muitas vertentes teatrais na capital, mas ainda falta a consciência coletiva do público como um todo. Há quem frequente o teatro e prime por peças de qualidade, mas segundo Camila o público ainda é precário. Para Rita “a parte da população que é receptiva com o teatro, e vai ao teatro, quer assistir teatro, é muito importante para nós, porque sem o público o teatro não existe”. Sabendo o quão difícil é estabilizar-se no mercado artístico, ambas reconhecem que ter uma formação na área e estar em constante pesquisa acerca das linguagens teatrais não garante sucesso imediato. Em Porto Alegre ainda é muito complicado educar as pessoas a assistir a espetáculos por gosto, por hábito. Camila salienta que existe uma cultura de se apreciar festivais importantes como o Porto Alegre Em Cena, por trazer espetáculos internacionais, mas que isso é tratado como uma espécie de cota pelo público, pois após o evento ele descarta a possibilidade de contemplar o teatro local. Nesse sentido, muitas vezes há um monopólio de mercado que prejudica quem se especializa na área. “Existem artistas super competentes em Porto Alegre, grupos muito bons, mas eu acho que eles ficam muito de lado às vezes, dentro do mercado, por causa dessas outras peças que acabam vindo para cá”, confirma a professora. Rita acredita que o período é de transição, embora muitas vezes uma parte significativa da sociedade vá ao teatro para ver um ator famoso, e não em busca de um texto bem trabalhado e de qualidade. Se a sociedade instituísse a ida ao teatro como uma rotina, certamente


haveria maior aceitação, de acordo com a aluna. Ambas também concordam que os investimentos feitos pelo governo, em nível municipal, estadual e federal, existem e ajudam, mas ainda não são suficientes, pois agregam uma pequena parte da classe artística que necessita dos incentivos financeiros. Sobre o futuro do teatro, a esperança está nos que hoje ainda são estudantes. Para Camila Bauer e Rita Spier, a união e a força de vontade devem guiar os futuros atores para mostrar para a sociedade que os alunos de teatro acreditam na sua arte e clamam por respeito. “Não adianta eu olhar para mim, é preciso olhar para a classe como um todo”, declara Rita. Um exemplo dessa manifestação ocorreu no ano passado, quando a sala de teatro Alziro Azevedo, do DAD, quase pegou fogo e foi interditada, “Se não nos mobilizássemos, talvez hoje não estivéssemos com ela”, declara a estudante, que participou dos protestos. A ideia de mudar o cenário é o que orienta a carreira das duas mulheres. Camila acredita que falta um pouco de ousadia dos atores atualmente, pois, segundo ela, devese ir atrás dos seus objetivos, ainda que seja difícil. No seu entendimento, quem faz teatro não pode acomodar-se no senso comum, e sim buscar o desconhecido, ampliar-se para conquistar novos públicos. “Eu acho que se todo mundo começar a insistir, e o mercado se fechar de pessoas que insistem naquilo que elas acreditam, o público vai ter que começar a ver aquilo”, enfatiza. Mariana Ribeiro

POR TRÁS DA REALIDADE TEATRAL

Para quem está no palco, uma paixão. Para uma parcela do público que assiste, apenas mais um programa de final de semana. O teatro é uma cultura onipresente em todo o estado do Rio Grande do Sul, em especial, na capital,

Porto

Alegre.

O

que

diferencia essa nossa cultura dos teatros de outros estados brasileiros, é a forma como a população local Foto: arquivo Teatro Nilton Filho


investe nessa arte. “Se tu vai a um teatro no Rio de Janeiro, por exemplo, tem muita gente na plateia, principalmente jovens. E até mesmo teatros pequenos, que não têm atores conhecidos, tão sempre lotados! Então eu acho que o teatro aqui no Rio Grande do Sul não é muito valorizado.”, lamenta Laura Gabardo, jovem de 17 anos que estuda teatro desde os 12, no Teatro Nilton Filho, localizado no bairro Menino Deus, em Porto Alegre. O fato de o teatro ser pouco visto como uma forma de lazer que enriquece positivamente o público preocupa principalmente atores e companhias que sobrevivem desse trabalho. Júlio Estevan, ator de

apenas 16 anos, que também atua no Teatro

Nilton Filho, faz suas considerações: “Acho que aqui em Porto Alegre o teatro não é uma coisa cotidiana, e às vezes, não é nem mesmo no Brasil. Lá na Europa, por exemplo, o teatro deles é como o nosso cinema.”. Júlio atua há sete anos, e acredita que a presença pouco significante do público gaúcho em espetáculos teatrais, é um dos motivos aparentes em relação à desvantagem financeira de quem vive de teatro. Além do pouco reconhecimento das pessoas, outra dificuldade encontrada nesse ramo da arte, tanto por atores iniciantes, quanto por atores mais experientes, é a questão do baixo salário. Porém, existem grandes companhias com mais reconhecimento no mercado, que por terem um constante apoio da mídia, já conseguiram alcançar uma fama e um bom padrão financeiro. Diferentemente, os teatros mais independentes e as pequenas companhias locais, passam por meras dificuldades em diversos pontos. A divulgação de suas peças, por exemplo, é feita de uma maneira totalmente autônoma. Panfletos são criados pela própria equipe do teatro, e são os próprios alunos, professores e diretores, que fazem a distribuição destes. Para Laura, a rede social Facebook, também tem um papel importante na hora de fazer a propaganda de um espetáculo, mas o famoso “boca-a-boca”, ainda é a forma de divulgação que mais dá certo. Em Porto Alegre, existe um relevante número de escolas e companhias teatrais que, além de qualificarem jovens para esse ramo, também buscam dar incentivo cultural para que os gaúchos frequentem os teatros com outro ponto de vista. Segundo Laura, “quando um ator famoso, um ator global, está em cartaz com alguma peça, todo mundo vai assistir. Mas vão para ver o ator, e não pra assistir à peça.”. Desde os seis anos de idade em palco, Júlia Pilotti, jovem de apenas 14 anos, atua junto com Júlio e Laura no Teatro Nilton Filho e, de acordo com ela, as pessoas se


interessam pouco pelo vasto conhecimento que um espetáculo pode passar para o público. “Uma peça teatral tem toda uma história: por que cai o pano? Por que acontece isso? Por que acontece aquilo? Tem tanta história por trás...”. Durante a preparação de uma equipe para um espetáculo, existe muita conversa, estudo e planejamento. Por mais que muitas vezes passe despercebido pelo público, um pequeno detalhe conta muito para os atores que estão em cena, e para a história a ser contada. Sobre isso, Júlia conclui: “As pessoas quando vão ao teatro, vão porque um amigo indicou, ou porque viram na TV, ou porque leram no jornal. Eu acho que seria legal se as pessoas procurassem mais informações sobre todo o trabalho que envolve uma apresentação.”. Júlia, Júlio e Laura, são três jovens que nunca tiveram muita pretensão de entrarem para uma escola de teatro. Com histórias parecidas, contam que quando decidiram entrar (primeiramente, por curiosidade), quiseram ficar para sempre! Júlio afirma que teatro é pra quem realmente gosta e pra quem adora estar em cena. É normal os jovens terem o desejo e curiosidade de conhecer o mundo de teatro. Alguns, logo desistem por uma série de motivos, e entre eles, a timidez. Laura acredita que o teatro ajuda a trabalhar a personalidade, e faz com que uma pessoa que antes era tímida, consiga superar isso facilmente. E sobre a sua paixão por essa arte, ela não esconde a empolgação e o brilho no olhar ao afirmar: “É muito bom subir no palco e ver as pessoas te aplaudirem... A sensação é maravilhosa!”. Mariana Fritsch

PORTO ALEGRE, UM CENÁRIO PERFEITO PARA TEATRO

O teatro de Porto Alegre está em festa neste mês de junho, quando dois de seus maiores patrimônios, material e imaterial, comemoram aniversário. O patrimônio material, o Theatro São Pedro, completa 155 anos no próximo dia 27. Uma programação que inclui oficinas artísticas, realizadas em parceria com a Funarte – Fundação Nacional de Artes, e um seminário sobre dança teatral – tudo gratuito – marcam o aniversário daquele que é o mais tradicional palco da capital gaúcha. Referência nacional e internacional, o São Pedro é de importância imensurável para as artes cênicas de Porto Alegre, que usufrui de poucos espaços destinados ao teatro. Junto do Multipalco, em construção desde março de 2003, forma um dos maiores


complexos culturais da América Latina, ocupando um espaço de 20 mil m² na Praça da Matriz, no coração da cidade. Nada disso, entretanto, teria sido idealizado e concretizado, sem que, um dia, Eva Sopher tivesse comprometido sua história de vida a do Theatro. E é ela, Eva Sopher, o patrimônio imaterial do teatro e – porque não? – da cultura do Rio Grande do Sul, que também faz aniversário nesse mês. Nomeada em 1972 pelo então governador Synval Guazzelli diretora do Theatro São Pedro, Sopher foi responsável pela reforma que transformou o palco que se encontrava em situação precária de segurança e conservação, em uma mescla de recursos modernos, equipamentos cênicos, moderno sistema de iluminação, e toda a tradição e história de um teatro do século XIX. Às vésperas de completar 90 anos de idade preside a Fundação Theatro São Pedro e em entrevista ao caderno dominical do jornal Zero Hora, Donna, Dona Eva, como é conhecida, lamenta por acreditar que não viverá a tempo de ver a inauguração do Multipalco, que, uma vez concluído, contará com teatro italiano, teatro oficina, sala para corpo de baile, sala para orquestra, espaço para entrevistas coletivas e três andares de estacionamento, e que foi idealizado por ela, um dia depois de concluídas as reformas em 1984. Em 2006, Dona Eva foi patronesse da 13ª edição do Porto Alegre Em Cena, um dos mais importantes eventos no calendário cultural da capital. O festival realizará sua 20ª edição esse ano e consolida-se como um dos maiores eventos das áreas de dança e teatro da América Latina trazendo em torno de 50 espetáculos do Brasil e de outros países para se apresentarem na cidade, além de prestar inestimável contribuição às artes cênicas gaúchas. Realizado pela prefeitura, através da Secretaria Municipal de Cultura, em praças públicas, teatros e espaços alternativos espalhados pela cidade, o Em Cena tem uma média de 100 mil espectadores a cada edição e é referência cultural e artística de Porto Alegre. Acontece esse ano de 3 a 23 de setembro. Além dos meses de junho e setembro, janeiro agora também é mês de destaque para o teatro porto-alegrense graças ao festival Porto Verão Alegre. Quando surgiu, em 2000, era apenas um modo dos profissionais do meio garantirem sua sobrevivência em um período em que a população de Porto Alegre aproveita para desfrutar das vantagens de morar a apenas 2 horas do litoral, evacuando a cidade. Em 2013 chegou à sua 14ª edição, consolidando-se como a principal agenda cultural do período. A palavra de ordem do festival é democracia. A maioria dos espetáculos inscritos é agendada, e há de tudo para todos, de espetáculos infantis a humorísticos, passando por Shakespeare, sem


deixar de lado os longevos, caso do espetáculo Homens de Perto, há 10 anos em cartaz estrelando Osmar Simch, Rogério Beretta e Zé Victor Castiel, e sempre garantia de grande público. Zé Victor Castiel, aliás, é um dos criadores do projeto, que em janeiro desse ano contou com 63 espetáculos e movimentou a cidade em um mês em que muitos já não acreditavam ser possível. O teatro em Porto Alegre tem seu espaço garantido, como em poucas capitais do país. Mas também, não poderia ser diferente na capital de um estado tão marcado por sua cultura singular.

Um dos espetáculos do 19° Porto Alegre em Cena, ao ar livre.

Foto: Luciano Lanes

Bruna Zanatta


Teatro Gaúcho: Porto Alegre e a busca do reconhecimento artístico em suas mais diversas formas  

Reportagem sobre o "Drama do Teatro Brasileiro"

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