Issuu on Google+

ENTREVISTA A verdade por trás da morte de Jango O neto do ex-presidente acredita que a verdade possa mudar a história de sua família e, principalmente, a história do Brasil Júlia do Canto Pulvirenti e Mariana Fritsch No dia 20 de maio, em torno das dez horas da manhã, alunos do primeiro semestre de jornalismo aguardavam o neto mais velho do ex-presidente João Goulart. Vestido de forma formal e com uma tranquilidade aparente, Christopher Goulart entra na sala 306 da FAMECOS para conceder uma entrevista com foco na exumação do corpo de seu avô. “Na minha família, só eu fui pro lado do Direito”, conta o vereador de 36 anos, ao explicar porque não seguiu no ramo da comunicação social, como a maioria dos membros da sua família. Christopher nasceu na Inglaterra, no exílio. Isso porque durante o golpe militar, João Goulart pediu para que seu filho, João Vicente Goulart, fosse com a família para a Inglaterra, por considerar Londres uma cidade segura. “Eu não sei se 'tá' no sangue, mas eu tenho um envolvimento muito grande com a política”, afirma Christopher, quando explica sobre o fato de ter optado pela política, já que este é um assunto de grande importância para a sua história. “Eu acho que vale a pena eu viver por uma causa nobre.” Afirma também, que, apesar de ser formado em Direito, ele não se vê como uma pessoa que tenha perfil de advogado. Segundo ele, "causas públicas" é uma temática mais interessante. Christopher dedica-se também ao trabalho com assistência social. E, ao ser interrogado sobre a sua campanha em 2010, ele confirma que muitas de suas metas foram inspiradas na campanha de seu avô, Jango. “Tratar das reformas do estado brasileiro continua sendo extremamente atual”, diz Christopher, já que esses objetivos mostravam e mostram até os dias atuais, uma visão de estado, contextualizando o presente momento. A Ditadura Militar, que teve início no ano de 1964, durou 21 anos. Segundo o neto de João Goulart, foram 21 anos de forte repressão, de cassação de liberdade, restrição à imprensa e aos direitos de garantias individuais. Todos os acontecimentos


desse regime fizeram com que a memória de João Goulart fosse muito atingida. E sobre a morte de seu avô, Christopher traz para a entrevista a história que ele e sua família acreditam ser verdadeira: a de que Jango teria sido envenenado propositalmente. “A busca de todo esse processo é levar a verdade para a população”, conta Christopher, sobre um dos maiores objetivos da exumação do corpo de seu avô. Sobre a hipótese de seu avô ter sido envenenado por um agente argentino com ordens de um delegado, ele acredita fielmente que Jango foi vítima da Operação Condor. Havia desconfianças, mas o auge deu-se na entrevista que o ex-agente da repressão uruguaia Mario Neira Barreto, concedeu à EBC (Empresa Brasil de Comunicação). Neira fornece detalhes, dizendo que Jango era considerado uma ameaça pelos militares brasileiros, pois almejava planos para a democratização brasileira. Segundo sua versão, o delegado Sérgio Paranhos teria ido ao Uruguai para apressar o mandato de assassinato do ex-presidente, que ocorreu pelo consumo de um remédio que teria causado um ataque cardíaco. Christopher afirma que seu avô era, de fato, cardíaco, e o remédio agravou a situação. Jango morreu na Argentina, próximo à fronteira oeste do Rio Grande do Sul. “É muito gratificante, é muito representativo na minha vida, com certeza”, alega sobre a exumação do corpo. Questionado quanto à Lei da Anistia, Christopher diz não ter uma opinião ainda completamente formada. Ele diz que teria que medir bem as consequências de punir os torturadores da época. Fato ligeiramente estranho, visto que uma primeira reação “normal” de qualquer pessoa seria a favor da punição, ainda mais por ser alguém da família. Por outro lado, o entrevistado tem opiniões bem formadas sobre outros assuntos. Diz que é a favor de manifestos ocupando ruas, reivindicando causas justas, mas que não vê isso na juventude atual, diferentemente de décadas atrás. Fala também que é contra a invasão de propriedade privada. Apenas concorda com a tese da produtividade de terras, que visa “tirar” as terras de uma pessoa se não for usada corretamente, não dando frutos para o país. Uma dúvida paira no ar: “Será que teremos mais um Goulart no poder?”, humildemente explica que não tem pretensão de ser presidente do Brasil, relata que isso é destino.


A verdade por trás da morte de Jango