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Quinta-Feira, 29 de Março de 2012

Jornal

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VILACONDENSE

Sociedade Local conhecido por ser cem por cento masculino, a barbearia é mais do que um cabeleireiro para homens. Navalhas, pincel e cremes de barbear, tesouras e escovas fazem parte do hábito de um barbeiro. Num salão de cabeleireiro masculino também se seguem tendências e modas ditadas por figuras públicas. Corte a corte, navalhada a navalhada, o barbeiro satisfaz os clientes mais exigentes. Não se pode dizer que é uma profissão em vias de extinção porque, em matérias de beleza, há sempre um cabelo para cortar ou uma barba para fazer. No Salão Robim moldam-se cabelos e aparam-se barbas desde 1988 pelas mãos de José Robim e alguns dos aprendizes que por lá passaram. Localizada na Rua da Senra, em pleno centro de Vila do Conde, a barbearia é mais do que um local de tratamento de beleza, é a rotina dos homens que frequentam a casa há já várias décadas. O proprietário, o senhor José, não teve outra profissão senão a de barbeiro. Aprendeu vendo, sempre com base na prática e pequenas dicas teóricas do seu mestre Manuel Macedo. Foi em 1966 que iniciou o seu trabalho como aprendiz no Salão S. João, “comecei à volta da cadeira a ver o mestre trabalhar”, relembra. Escovava os clientes, varria o chão e era também o rapaz dos recados. Só em 1970, após quatro anos de aprendizagem, fez o primeiro corte. Era o tempo do trabalho duro, relembra. “Abríamos às 9 da manhã e trabalhávamos até às 8 da noite durante a semana e ao sábado às vezes trabalhava até às 3 da manhã”, afirma, acrescentando que “os jovens frequentavam a barbearia aos sábados à uma ou duas

“Profissões da nossa terra”

“Barbeiros, barbeiros, já há poucos” José Robim, barbeiro há mais de 40 anos, já exerceu este ofício em vários países. Tem precisão, minúcia, exigência e faz um trabalho de qualidade, porque cada cabelo é diferente e Robim sabe o que fica bem em cada cabeça.

casa, o barbeiro não teme pela perda de clientes. “As pessoas que apreciam um trabalho exigente e de qualidade continuam a vir cá”, frisa. “Barbeiros, barbeiros já há poucos”, afirma. Apesar dos actuais cursos profissionais já abarcarem este ofício, o barbeiro com mais de 40 anos de profissão censura a falta de componente prática. Já deu formação em Portugal, no Zaire e em Inglaterra onde também trabalhou e muitas vezes depara-se com diplomados “que nunca fizeram um corte com a tesoura”. Neste país o que funciona são os canudos, a prática não interessa”.

“Somos barbeiros, psicólogos, um pouco de tudo”

da manhã, depois de irem ao cinema”. Entre 1984 e 1988 emigrou para o Zaire, actual República Democrática do Congo, onde tinha o seu próprio salão e foi mestre de muitos habitantes locais. No regresso, já com uns anos na arte de cortar cabelos a homens, abriu o Salão Robim; ainda hoje o seu local de trabalho.

Perdura o tradicional, mas complementa-se com a tecnologia

Nos tempos de rapaz novo aprendeu sempre com as navalhas, as tesouras e todo o material antigo. Apenas nos anos 70 começou a utilizar as máquinas de cortar cabelo eléctricas, mais rápidas e que tornavam o processo menos moroso. “Mas a máquina não faz

o trabalho todo”, sustenta o barbeiro Robim. Ainda hoje utiliza algumas navalhas antigas porque alguns cortes assim o exigem. “Os materiais de hoje são melhores, são criados para aquele fim específico. Antigamente uma escova servia praticamente para tudo e hoje tenho várias, cada uma com uma função”, acrescenta. Apesar da evolução da tecnologia facilitar o corte de cabelo em

José tem afeição pelo que faz e dentro da barbearia gosta “de tudo”: dos clientes, dos utensílios, das mudanças e da frequente necessidade de seguir as tendências. “O barbeiro tem que ser um bom observador, tem que ter atenção ao que está em voga”, sobretudo no que toca aos pedidos dos jovens. Quando trabalhou em Inglaterra a juventude pedia-lhe cortes de cabelo inspirados em figuras públicas do momento. Também já cortou o cabelo a mulheres que lhe pediam um visual mais masculinizado. “Nesta profissão somos barbeiros, psicólogos, um pouco de tudo. Conhecemos bem os nossos clientes e vemos os seus filhos a crescer, casar e constituir vida”, aspectos que tanto orgulham o barbeiro Robim. Recorda com saudade os anos que passou fora no Zaire e em Inglaterra e, apesar de já não ser jovem, “não quer dizer que se aparecer uma oportunidade não vá para África”. Mariana Catarino PUB

Profissões da Nossa Terra: Barbeiro  

Rúbrica "Profissões da Nossa Terra", no Jornal Vilacondense Autoria: Mariana Catarino

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