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Capítulo 2

He's got pretty persuasion She's got pretty persuasion God damn, pure confusion She's got pretty persuasion Pretty Persuasion - REM

N

o dia seguinte, eu imaginei que o pessoal que colabora comigo no jornal tivesse publicado uma matéria que escrevi com um conteúdo polêmico sobre o rumo que a política do país vem tomando, mas ao chegar à

faculdade percebi que o clima geral era de revolta, e só descobri o porquê quando esbarrei em Mauricio Tavares nos corredores. ─ Olá, Mauricio. Que alvoroço é esse nesta Instituição hoje pode me dizer? – perguntei curiosa. ─ Você nem sequer imagina, Audi? – começou esboçando um sorriso maroto para mim. ─ O jornal veiculou hoje de manhã uma matéria de capa bombástica sobre a mãe de Lorena que deixou a todos aqui de queixo caído. Por que ficou tão surpresa se foi você mesma quem assinou o texto? – completou me encarando aturdido. ─ Você só pode estar brincando, não é? O texto que eu entreguei para o pessoal ontem foi outro com um conteúdo de crítica social e não tem nada a ver com fofoca... Espere, a não ser que alguém da nossa equipe tenha sabotado a minha matéria. Provavelmente escutaram a minha conversa com Lorena ontem de manhã... – completei num fio de voz que só demonstrou o meu desespero diante do ocorrido. ─ Não sei o que realmente aconteceu, mas o clima aqui no campus não é dos melhores e temo que o nosso jornal perca a credibilidade que conquistamos com tanto sacrifício.


─ Eu garanto que isso não vai acontecer, Mau. Vou passar essa história a limpo ainda hoje e quero que você me faça o favor de convocar agora todos para uma reunião de emergência na sala. – retruquei com firmeza. Mauricio assentiu e saiu correndo para chamar a equipe conforme eu havia solicitado, e achei melhor sair um pouco do campo de visão dos estudantes revoltados buscando um abrigo nos fundos da quadra de esportes, que naquela manhã estava completamente vazia e acolhedora. Abri instintivamente a minha mochila para retirar um cigarro do maço com as mãos um pouco trêmulas, mas o meu nervosismo só aumentava à medida que pensava em qual teria sido a reação de Lorena ao ver o jornal da faculdade. Entretanto, após fumar por alguns instantes analisando a situação toda nos mais variados ângulos, eu não conseguia sequer imaginar quem estaria por trás da armação e só haveria um jeito de descobrir, por isso a reunião de emergência era necessária diante das circunstâncias. Finalmente tomei a coragem necessária para me encontrar com o pessoal na sala de reuniões, mas antes mesmo de alcançar o prédio, eu esbarrei em Lorena que tinha o semblante transtornado pela raiva, e parecia ter chorado muito a julgar pelos olhos injetados e vermelhos ao me encarar com surpresa. ─ Até que enfim eu te encontrei Audrey. Você me deu a sua palavra de que manteria sigilo sobre a minha vida particular, mas decidiu transformar o Conexão Jovem em um tablóide qualquer desses que denigrem a imagem das pessoas. Vamos ver como se sairá quando ouvir a opinião pública e o corpo diretivo desta Instituição que mostraram repúdio ao ler a matéria de capa. – declarou sarcástica colocando as mãos na cintura numa postura ofensiva. ─ Eu mantive a minha palavra quer você acredite em mim ou não, Lorena. Alguém escutou a nossa conversa ontem no jardim e se aproveitou da situação para me prejudicar. Também me sinto péssima e farei até o impossível para descobrir quem está por trás disso e limpar o meu nome de uma vez por todas. – retruquei sincera. ─ Eu vou tomar as providências cabíveis para que você seja punida e nada do que me disser vai me convencer a acreditar que não foi capaz de um ato tão sórdido e infeliz ao expor a vida da minha família desta forma. – disse determinada ao se


aproximar mais de mim tão desafiadora, que eu imaginei que fosse levar uma sonora bofetada no rosto. Não foi o que aconteceu, mas cheguei a suspirar lentamente de alívio quando ela apenas me empurrou em seguida deixando o caminho livre para que eu pudesse ir embora. Decidi que não adiantaria nada correr atrás dela e fazê-la entender que não fui a culpada, por isso me dirigi até a sala de reuniões onde o pessoal provavelmente já me esperava com ansiedade e apreensão para um ajuste de contas. Realmente o clima lá dentro não era nada animador e a minha presença só aumentou a tensão que pairava no ambiente quando todos os membros da equipe me viram entrar. Chegou a hora de confrontar meus colegas e entre eles estava o meu namorado, Fred, que parecia tão aliviado ao me ver que até esboçou um sorriso animador capaz de me confortar naquele momento crucial, pois significava que ele estaria do meu lado e me defenderia até o fim. Era por esse motivo que o amava tanto, talvez mais do que a mim mesma, até cheguei a ponto de cerrar os punhos com força o que fez meus dedos ficarem vermelhos. Cogitei a possibilidade de correr para abraçá-lo, mas acabei desistindo da ideia, e preferi me posicionar diante de todos ainda de pé para começar a reunião imediatamente. O momento de cumplicidade entre nós dois teria que esperar mais um pouco. Infelizmente. ─ Pessoal, eu convoquei esta reunião em caráter de urgência para falar a respeito da última edição do jornal Conexão Jovem. Ontem eu entreguei um disquete que continha a matéria verdadeira que escrevi sobre política e injustiça social. Alguém da nossa equipe apagou o texto original e incluiu outro que levianamente falava sobre a vida pessoal de Lorena e de sua família. A questão agora é saber quem faria uma coisa tão sórdida como esta e por quê? – expliquei sem rodeios e esperei a reação dos presentes. Todos começaram a se mexer em suas cadeiras com certo nervosismo e me encaravam com descrença e decepção no olhar, e fiquei me perguntando se havia escolhido as palavras certas para começar a reunião. Mauricio levantou a mão e assenti com a cabeça deixando que ele tivesse a palavra e opinasse a respeito.


─ Audrey, parece que você era a única pessoa desta Instituição que sabia o segredo de Lorena e vai ser difícil provar que mais alguém descobriu e se aproveitou da situação. Como pretende desfazer essa confusão toda envolvendo o nosso jornal? – indagou sagaz. ─ Eu tenho o rascunho do texto que escrevi e tenho uma cópia do arquivo no meu Apple 2 lá em casa que não me deixam mentir, mas a questão não é essa e enquanto eu não descobrir quem sabotou a minha matéria, todos continuarão achando que eu quis expor a vida de Lorena dessa forma. – expliquei sincera. ─ Acontece que não é justo que comece agora a apontar um culpado entre nós, Audrey. – Sofia interveio na discussão ficando de pé e cruzando os braços diante de todos. Sofia era a minha melhor amiga e começou a namorar Mauricio há poucos meses, por isso a opinião dela contava, pois significava muito para mim saber o que ela pensava a respeito. A última coisa que eu queria era que a equipe do Conexão Jovem me tirasse da liderança, e precisaria de muito jogo de cintura para convencêlos de que não me responsabilizassem pelo ocorrido. ─ Eu não vou apontar culpados, Sofia. Mas, eu precisarei da ajuda de todos vocês agora mais do que nunca... – retruquei sensata encarando-a intensamente. ─ Vamos começar repassando os fatos de ontem a limpo e quero saber primeiramente se o meu disquete caiu em mãos erradas depois que eu entreguei pra Felipe. – e dizendo isso, voltei meus olhos para Felipe que estava sentado nos fundos da sala, completando logo em seguida com hesitação. ─ Felipe, em algum momento você percebeu que o disquete não estava mais com você? ─ Sim, eu deixei o disquete na sala de edição por alguns minutos quando me ausentei e pode ter sido nesse momento que modificaram o conteúdo do arquivo. Eu não falei nada a respeito porque não consegui ler seu texto antes e nem sabia do que se tratava, mas acabei editando o jornal normalmente antes de enviar para a gráfica. Sinto muito, Audi. – explicou sincero. ─ Você poderia ter me consultado antes para saber se eu seria capaz de expor a vida de algum estudante desta Instituição no nosso jornal, Felipe. De qualquer forma, não adianta mais corrigir e a solução será incluir uma nota de esclarecimento


na próxima edição mostrando também a verdadeira matéria assinada por mim. – comecei sarcástica sem deixar de encará-lo. ─ Então pessoal, agora é preciso voltar ao trabalho e preparar a nova edição que sairá amanhã de manhã. – completei encerrando a reunião. Quando todos estavam se levantando e se aproximaram para me abraçar em um gesto de carinho e apoio, eu percebi que a funcionária da Reitoria entrou na sala com o semblante triste e logo passou pela minha cabeça que a ameaça de Lorena era mesmo séria e concreta. Realmente ela levaria o caso para todas as instâncias possíveis e imagináveis, e eu já pressentia que as chances de levar uma suspensão pareciam quase palpáveis. Fred também deve ter pensando a mesma coisa porque colocou seu braço em volta dos meus ombros e em seguida me puxou para junto de si, e foi inevitável impedir que as lágrimas brotassem em meus olhos. Ele aproximou seus lábios para sussurrar no meu ouvido, o que fez meu corpo estremecer no mesmo instante. ─ Audi, aconteça o que acontecer eu estarei sempre do seu lado e farei um verdadeiro motim nesta Instituição se eles a expulsarem. Estarei te esperando no carro e a levarei para casa, pois não acho que esteja em condições de assistir às aulas de hoje depois do que aconteceu. – declarou afetuoso. ─ Você tem razão, Fred. Eu te amo demais e o seu apoio significa muito para mim. – disse sincera segurando em seguida o seu rosto com as duas mãos e selando nossos lábios em um beijo curto, porém intenso. Segui a secretária após pegar a minha mochila e colocá-la nas costas, mas me preocupava com o fato de permanecermos em silêncio durante o trajeto até a reitoria. As pessoas que passavam por nós ficavam encarando fixamente já imaginando o desfecho da conversa, e provavelmente torcendo para que eu fosse punida. O fato era que o jornal sempre tinha um conteúdo polêmico e revelador da realidade enfrentada todos os dias na própria Instituição e mais além sobre a injustiça social no país. Eu era conhecida por colocar mesmo o dedo na ferida, capaz de incomodar muita gente a ponto de provocar uma atitude negativa de alguém que quisesse me tirar de cena ao sabotar a minha matéria do jornal. Acredito que o reitor, um conservador pretensioso e arrogante pudesse querer se aproveitar do fato para me ver distante do


campus pelo menos temporariamente. Mesmo que o Conexão Jovem acabasse saindo de circulação com a minha ausência, a minha equipe jamais permitiria que isso acontecesse e as nossas vozes não seriam caladas pela censura. Entretanto, a minha mente insistia em projetar uma situação nada animadora para o que estava por vir, assim que eu entrei na sala e vi o semblante impassível do reitor. ─ Sente-se senhorita Mantovani. Vou direto ao assunto porque tenho uma reunião com o corpo docente daqui a dez minutos. – começou secamente. ─ Chamei você até aqui para conversarmos a respeito da matéria que saiu no jornal Conexão Jovem, e como eu sei que o texto foi escrito por você e que o conteúdo atingiu diretamente a família de uma estudante daqui, eu pretendo afastá-la da nossa Instituição. – completou sagaz. ─ Como assim me afastar da Universidade? – indaguei em um fio de voz. ─ Está querendo dizer que pretende me tirar do corpo discente permanentemente? – continuei encarando-o estupefata. ─ Eu não vejo outra opção mais razoável para o caso, Audrey. A pressão vem de todos os lados e a sua matéria repercutiu muito no meio acadêmico, como já deve ter notado... – explicou de forma sensata. Eu não poderia permitir ser responsabilizada por algo que eu não fiz, e o meu subconsciente mais uma vez estava atuando freneticamente na tentativa de buscar uma solução rápida e efetiva. Era assim que acontecia nos momentos de tensão extrema. Simplesmente, era como se eu pudesse abrir uma porta e encontrasse atrás dela todas as informações necessárias sobre a vida de uma determinada pessoa, como se um filme inteiro passasse rapidamente na minha cabeça. Eu desenvolvi uma forma de percepção extrassensorial, juntamente com os sonhos premonitórios praticamente ao mesmo tempo durante a infância, mas era assustador quando o dom telepático se manifestava em mim quando eu menos esperava. Quando finalmente houve um vislumbre do passado vergonhoso do reitor nos confins da minha mente, achei que seria a hora ideal para destilar o meu veneno antes que fosse tarde demais. Eu comecei a rir alto e tive que tapar a minha boca com as mãos, assim que voltei a encará-lo do outro lado da mesa de carvalho. Impressionante como a imagem de


homem honesto e íntegro não combinava mais com ele diante da incrível constatação que eu cheguei há poucos segundos atrás. ─ Senhor, no seu lugar eu iria rever a minha decisão e pensar bem na minha proposta, porque não haverá opções depois do que eu revelar o que descobri a seu respeito. – expliquei mordaz. ─ O que está insinuando, srta. Mantovani? – indagou hesitante. ─ Qual seria a reação da sua esposa e de seus filhos quando soubessem que vem mantendo uma relação extraconjugal há muito tempo e sustentando essa outra família sem quem ambas as partes percebessem a vida dupla que tem levado, reitor? Tsc, tsc. – respondi friamente. ─ Está pensando em levar isso a público? Que tipo de pessoa você é? Como sabe tanto sobre a minha vida se mal me conhece? ─ Os seus dez minutos já estão acabando e não há mais tempo para explicações desnecessárias, portanto eu sugiro que me só suspenda por uns dez dias apenas para acalmar os ânimos aqui. Aposto que o corpo docente vai concordar em aplicar uma punição leve já que eu posso provar que alguém tentou me prejudicar. – retruquei perspicaz. O reitor só conseguiu assentir com a cabeça, visivelmente derrotado e suspirando pesadamente em sua confortável poltrona de couro. Eu tinha que admitir que me tornei expert em desvendar os segredos mais obscuros das pessoas nos momentos de tensão extrema, mas esse aparente dom ainda era um mistério para mim. Poucos minutos após me retirar da sala da Reitoria, fui me encontrar com Fred que estava me esperando no carro com expectativas de ter livrado a minha própria barra após o ocorrido. Eu tinha mesmo que admitir que saber o segredo dos outros poderia até ser bem divertido... No dia seguinte, o jornal Conexão Jovem entrou em circulação pelo campus com a matéria verdadeira que escrevi, e acho que logo os estudantes voltariam a me ver com respeito e admiração como sempre tinha sido até então. Era só uma questão de tempo. Este seria o meu último dia de aula antes de cumprir a suspensão, mas concluí que seria um dia inesquecível quando eu fui para a lanchonete com a minha


equipe. Felipe chegou poucos minutos depois em nossa mesa após uma corrida, e estava totalmente sem fôlego quando gritou para que todos pudessem ouvir ao mesmo tempo. ─ Pessoal, a polícia invadiu o campus e parece que a matéria chegou ao conhecimento das autoridades de alguma forma. Ninguém entra e ninguém sai da Universidade enquanto eles estiverem aqui. – explicou rapidamente. Eu imaginava que estavam presentes os integrantes do Setor de Operações, uma mancha presente no decadente Regime Militar que agia para coibir qualquer manifestação contra a política vigente. Eu não conseguia vislumbrar uma saída fácil do campus e sabia que os estudantes acabariam usando a força para se impor, independentemente das consequências que enfrentariam em poucos instantes. Assim que eles chegassem até ali e instalassem o caos completamente no local.

Menina Veneno -2º Capítulo  

2º Capítulo de Menina Veneno. Se ainda não conferiu o primeiro capítulo, veja no link: http://issuu.com/marianabarbosa7/docs/menina_veneno_c...

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