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título Numa Casa Cor-de-Rosa realizador Francisco de Moura Relvas produtor José Quinta Ferreira som Tomás Gamboa género documental suporte vídeo digital formato 1920 Full HD tempo de rodagem 6 meses duração 90 min. aprox.

o autor do texto escreve segundo o antigo acordo ortográfico.


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José Manuel de Oliveira Quinta Ferreira, 53 anos, nasceu em Cantanhede, Portugal. Em

1986 concluiu o Curso de Cine-Vídeo da Escola Superior Artística do Porto - Classificação: 14 Valores. Em 1991 realizou o Curso de Estudos Superiores Especializados - Especialidade de Comunicação Educacional Multimédia da Escola Superior de Educação de Santarém - Classificação: 16 Valores. E, em 1996, concluiu o Mestrado em Comunicação Social pelo Departamento de Comunicação Social (actual Departamento de Ciências da Comunicação) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Dissertação: “A Comunicação Multimédia Interactiva” - Classificação: Muito Bom. Entre 1986 e 2005 leccionou na Escola Superior Artística do Porto (ESAP) no Curso Bietápico de Licenciatura em Arte e Comunicação e no Curso Superior de Cine-Vídeo, Fotografia, Desenho, Pintura, Animação Cultural e Manualidade Educativa. Entre 2005 e 2008 leccionou na Escola Superior de Estudos Industriais e de Gestão (ESEIG) e Escola Superior de Educação (ESE) / Instituto Politécnico do Porto (IPP) na Licenciatura em Tecnologia da Comunicação Audiovisual (TCAV) e no Curso Bietápico de Licenciatura em Tecnologia da Comunicação Audiovisual (CTCAV), 2º ciclo – Ramo Técnico de Vídeo. E, desde 2008 até à actualidade leccionou e lecciona na Escola Superior de Música, Artes e Espetáculo (ESMAE) / Instituto Politécnico do Porto (IPP) no Mestrado em Comunicação Audiovisual (MCA) e na Licenciatura em Tecnologia da Comunicação Audiovisual (TCAV). Além disso, realizou inúmeras actividades de apoio à gestão no Ensino Superior, nomeadamente, a de Diretor do Departamento de Artes da Imagem da ESMAE.

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Entre 1987 e 2013 teve uma intensa actividade de produção: produziu inúmeros even-

tos, dos quais se destaca a produção da 10ª edição do “Utopia”, Imagens do Real Imaginado, Ciclo de Fotografia e Cinema Documental, organizado pelo Departamento de Artes da Imagem da Escola Superior de Música, Artes e Espetáculo em co-produção com a Alliance Française, Goethe-Institut e o Curtas Vila do Conde, Porto, Biblioteca Municipal Almeida Garrett de 4 a 9 de Novembro de 2013 e a produção da 9ª edição do “A Crise: Narrativa da Crise/Crise da Narrativa”, Imagens do Real Imaginado, Ciclo de Fotografia e Cinema Documental, organizado pelo Departamento de Artes da Imagem da Escola Superior de Música, Artes e Espetáculo em co-produção com a Alliance Française, Goethe-Institut e o Curtas Vila do Conde, Porto, Biblioteca Municipal Almeida Garrett de 5 a 10 de Novembro de 2013. Além disso, em 2012, produziu o documentário “Martins Sarmento - O tempo passado é já tempo futuro“ (55’ HD), realizador Jorge Campos, Co-produção Vigília Filmes/ESMAE para a Guimarães 2012 - Capital Europeia da Cultura. Salienta-se ainda a sua selecção para a lista de potenciais peritos da Education, Audiovisual and Culture Executive Agency.

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Francisco de Paula Leite de Moura Relvas, 28 anos, nasceu em Coimbra, Portugal. É

licenciado em Som e Imagem, na vertente de produção de vídeo, pela Universidade Católica do Porto, Escola das Artes, com a classificação de 12 valores, em 2008, e concluiu o mestrado em Som e Imagem, especialização em Televisão e Argumento na Universidade Católica do Porto, Escola das Artes, em 2010, com a classificação de 14 valores.

Depois de várias experiências profissionais como montador na TVI, produtor e director

de fotografia na Periferia Filmes, e realizador e produtor de anúncios publicitários na Belmondo Filmes, Francisco interessou-se pela autenticidade da imagem no cinema contemporâneo, teórica e praticamente, o que o levou a aprofundar, de um modo mais sólido, o seu conhecimento de obras cinematográficas que abordam a junção dos géneros cinematográficos, ficção e documentário, como nos filmes de Abbas Kiarostami, Jafar Panahi, Jean-Luc Godard, e Jean Rouch, bem como a construção de narrativas exploradas pelo desenrolar dos acontecimentos na rodagem de obras de carácter documental e/ou ficcional.

Este interesse motivou-o a continuar a fazer filmes, fora do cômputo académico, onde

a preparação e a investigação o tem levado a descobrir novos caminhos a explorar e novas linguagens cinematográficas.

O contexto escolhido como pretexto de reflexão sobre o cinema verdade, a esquizofre-

nia e o hospital psiquiátrico, serve de propósito de exploração da ambiguidade entre a realidade e a ficção e das fronteiras entre verdade e não verdade.

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Adrián Gramary (Vigo, 1967). Licenciado em Medicina e Cirurgia pela Universidade de

Santiago de Compostela (Espanha). Fez o Internato Complementar de Psiquiatria no Hospital Magalhães Lemos, no Porto. Liderou em 2010 a criação do primeiro centro de dia para doentes de Alzheimer da cidade do Porto. Trabalhou durante vários anos como perito psiquiatra forense e participou como investigador em diversos ensaios clínicos. É membro do Conselho Regional para a Saúde Mental da Região Norte de Portugal, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Psicologia e Psiquiatria da Justiça e sócio fundador da Associação Portuguesa de Arte Outsider. É membro de diversas associações, entre outras, a Associação Portuguesa de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares, onde da regularmente sessões psicoeducativas sobre diversos temas dirigidos a doentes e familiares. Escreveu artigos médicos, participou como orador em eventos científicos, prefaciou dois livros e organizou diversos congressos. Desde 2010 ocupa o cargo de director clínico do Centro Hospitalar Conde de Ferreira de Porto. Tem um blogue dedicado a temas de psiquiatria e cultura. (www.adriangramary.com)

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Grierson foi o primeiro a utilizar o termo documentário (documentary). A palavra surgiu

na resenha “Flaherty´s Poetic Moana” sobre o filme “Moana” (1926) de Robert Flaherty publicada no The New York Sun em 1926. Grierson traduziu a palavra francesa “documentaire” - que se referia aos filmes de viagem - para qualificar a maestria com que Flaherty conjugava o aspecto documental ou realístico do filme com a qualidade técnico-estética das suas imagens (Ellis, 2000).

Este filme tem como objectivo principal retratar a dualidade de realidades existentes

em doenças mentais como a esquizofrenia, através das vivências de seis pacientes inseridos em regime ambulatório no Hospital de Dia, do Centro Hospitalar Conde Ferreira, no Porto, Portugal.

Paralelamente, o filme tem como finalidade explorar a autenticidade da imagem

enquanto obra ficcionada no documentário, sendo que a proximidade estética entre os dois géneros cinematográficos - ficção e documentário - é extremamente ténue no cinema contemporâneo: algo que se deve a uma insaciável procura do real na imagem e no som, independentemente do género de cinema que é realizado, apoiado num cinema que explora a ambiguidade entre a realidade e a ficção e as fronteiras entre verdade e não verdade, como nos filmes de Abbas Kiarostami, Jafar Panahi, Jean-Luc Godard, e Jean Rouch, este último precursor de um cinema verdade.

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Dois filmes de Rouch discutem a relação entre documentário e ficção: Os Mestres Lou-

cos (1955) e Eu, Um Negro (1958). Tal relação, para Rouch, está longe de ser dicotómica, pois é na ficção que encontrará o real (Oliveira, 2011). A verdade da encenação não é a que se opõe à encenação ficcional, denunciada como mentira pela tradição documental; a verdade procurada é a que se dá através do filtro da ficção (ten Brink, 2007).

Robert Drew utiliza a palavra verité para definir os seus filmes (O’Connell, 1992). Bill

Nichols (1991) estabelece uma diferença entre a proposta do cinema directo norte-americano da Drew Associates e o cinema verdade francês; ao cinema directo chama observacional e ao cinema verdade chama participativo. Para Nichols (2005), o cinema participativo é o correspondente cinematográfico dos métodos de observação participante da etnografia. Contudo, certas imagens poderão ser ficcionadas, conservando um carácter verdadeiro mas não absolutamente autêntico, e sempre dependendo da sua relevância em relação aos objectivos propostos pelo filme, mas não descurando a prévia investigação do que realmente aconteceu ou acontece naquele determinado espaço-tempo.

Para o efeito, esta duplicidade entre a ficção e a não-ficção é apresentada através das

vivências e acções terapêuticas de cada paciente, intercaladas com os seus depoimentos.

Esta obra de carácter documental tem a possibilidade e a responsabilidade de mostrar

as coisas como elas são - coloca-se a câmara e dirigimo-la para os pacientes, e depois deixamos apenas correr: o movimento surge e a câmara observa e conserva esses movimentos para uma posterior sugestão do que possa acontecer a seguir - é mais um olhar analítico e curioso o que me fascina na realização: de alguma forma, o enredo transforma-se à medida que o filme é rodado e montado, existe portanto uma constante exploração na narrativa, conferindo-lhe cada vez mais autenticidade e continuidade.

A imagem assentará numa linguagem contemplativa e analítica, como fotografias hi-

per-realistas em movimento que vão fluindo através das acções dos pacientes, privilegiando um ritmo lento e autêntico através de planos gerais e longos, sejam eles executados de câmara ao ombro ou de tripé, onde o som será captado directamente (diegético) e montado como tal –

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porém, em alguns casos, o som poderá ser uma sugestão do que aconteceu, criando uma alusão na imagem que visualizamos no ecrã.

O estilo de filmagem e montagem será muito idêntico ao de Wiseman como em Titicut

Follies (1967): uma câmara observacional, uma montagem que respeita o princípio da continuidade espaço-temporal e uma narrativa montada em pequenos blocos (Brian, 2000). O que aparece em Titicut Follies é a própria instituição, as suas práticas e os seus valores. Wiseman filma Hospital (1970), tal como nos seus outros filmes, tendo subjacente a noção de dois mundos paralelos dentro da instituição. A função do close, explorada por Wiseman, é a de revelar algo entranhado na realidade filmada.

Assim, as imagens irão estar mais focadas nas acções e nas actividades que os pa-

cientes e todos os responsáveis do hospital vão executando durante o dia, nomeadamente, ao nível dos movimentos que cada paciente realiza através do seu corpo, como as mãos, os pés, as pernas, os braços, ou seja, a sua musculatura, a sua orientação no espaço, bem como a postura perante as actividades a que são sujeitos nas rotinas diárias do hospital.

As principais actividades que irão ser gravadas correspondem ao serviço de Terapia

Ocupacional: Musicoterapia, Oficina de Lavores, Oficina de Expressão Plástica, Oficina de Cartonagem, Ginástica, Teatro, e Natação Terapêutica; bem como a consultas individuais e ao seu ajustamento no espaço de cada ala do hospital.

O filme incidirá ainda na relação que os pacientes têm entre eles, com a equipa do hos-

pital, com os objectos que utilizam para finalizar os seus propósitos, e com o espaço no qual circulam, onde a câmara intervirá o mínimo possível no real, para que as acções sejam as mais autênticas e as mais fluidas possíveis nesta grande encenação à qual chamamos documentário. Desde Vertov (1984), o cinema documental tem como finalidade, entre outras, captar a “vida de improviso”, captar o desenrolar dos acontecimentos de forma natural sem a intervenção da câmara ou da equipa de filmagem. Para Bresson (1975), o olho é demasiado irrequieto e pensativo para alguma vez produzir cópias neutras ou transparentes do real. Há mais ligações do cérebro ao olho do que em sentido contrário e, face à mesma imagem, diferentes foco e

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atenção produzem sentidos completamente diferentes. Ao colocar em crise a distinção e a identificação entre o objectivo e o subjectivo, o documentário inaugura uma nova forma de narrativa, que se diferencia da veracidade em que se fundamentava a ficção. O documentário liberta-se da procura da verdade para tornar-se um criador das suas próprias realidades (Deleuze, 1990). Os novos cinemas que emergiram romperam com o modelo de narrativa verídica, fundando o que Deleuze denomina de “narrativa falsificante”.

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Cinco homens e uma mulher, todos eles esquizofrénicos, inseridos em regime ambula-

tório, são seguidos por uma equipa de filmagem no seu dia-a-dia, durante as suas actividades terapêuticas e as suas vivências com outros pacientes e funcionários no Centro Hospitalar Conde Ferreira.

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Um homem de preto ouve rádio, é madrugada e está escuro, na rua os carros começam

a circular e um carro termina o seu circuito na entrada de um hospital psiquiátrico: a identificação é pedida e depois verificada – pode entrar, diz o homem de preto, e a cancela sobe e o carro passa, lá dentro uma mulher e é enfermeira.

Algumas alas do hospital apagam as luzes, já é dia e o pequeno-almoço servido: uma

enfermeira distribui a respectiva medicação pelos pacientes.

Um papel de cartão em cima da mesa, uma régua e um lápis, um homem organiza

várias linhas com um lápis e a régua é o seu auxílio - a precisão é pouca e a professora ajuda - agora é só cortar com o x-acto, diz a professora: um robot de cartão é feito. Um homem que nunca tira o chapéu da cabeça coloca-o na cadeira, alguém disse a esse homem para tirar o chapéu da cabeça – estamos dentro de uma sala e em locais cobertos os homens não precisam de usar chapéu, diz a terapeuta a esse homem, e o homem ri-se, e depois pára, é preciso escrever um artigo para o jornal do hospital e foi por isso que esse homem que usa sempre chapéu parou de se rir, não porque não saiba escrever, porque sabe, mas porque hoje não lhe apetece escrever -

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não me apetece, diz, não me apetece nadinha.

Um tapete é bordado pelas mãos de

um paciente, a inclinação da cabeça para baixo, para a agulha, e só depois para o fio, e ao mesmo tempo uma conversa: fala-se de futebol e de trabalho – tens que trabalhar, diz alguém enquanto borda um pequeno pano de mesa, e agora uma canção: uma mulher canta e os pacientes riem-se, os bordados parados, mas por pouco tempo, a mulher parou de cantar e os bordados continuaram.

O almoço é servido e os pacientes comem, uns confraternizam, outros não, isolam-se e

fazem cara feia, mesmo quando acabam de almoçar.

Um homem olha para uma câmara de filmar enquanto explica o processo de cartona-

gem e de encadernação das embalagens utilizadas para transportar os comprimidos dos pacientes do hospital, ao lado desse homem uma guilhotina: um corte, e a seguir outro, agora o molde em cima do cartão - dá para 12 embalagens, diz o homem satisfeito.

Uma equipa de filmagens está perdida no hospital psiquiátrico e aponta a câmara para

o chão – sabe onde é a biblioteca? não, tens um cigarro? não, sabe onde é a biblioteca? ao fundo à direita, diz alguém, e a equipa de filmagens avança mas sempre com a câmara apontada para o chão.

Um homem tira fotografias e não é fotógrafo, já foi pintor, sofreu uma clivagem e agora

não pinta, tira fotografias, sobretudo a árvores que pareçam homens ou que gozem de formas humanas: um forcado, um pénis, ou mesmo uma vagina.

Um cortador de relva faz muito barulho:

os jardins do hospital são cortados, primeiro, os jardins exteriores e depois os interiores, os que estão inseridos nas alas, não são os pacientes

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que aparam a relva mas sim jardineiros contrata dos: o hospital é um organismo auto-suficiente.Na biblioteca, um homem diz para a câmara que está naquele hospital há 30 anos, e tem mulher e uma filha – foi-me diagnosticado esquizofrenia paranoide, diz esse homem, e só tinha 17 anos, conclui, e depois continuou a falar sobre a sua saúde mental.

Uma carta em cima da mesa, alguns olhares trocados: quatro pacientes jogam às car-

tas – joga, diz um deles, e o outro, o que não joga, está parado e depois ri-se, e joga a cartada final – ganhamos, diz esse homem com os olhos esbugalhados, ganhamos, e o jogo está ganho e para os outros perdido.

O homem que usa sempre chapéu, hoje não usa, está calor e o chapéu guardado: é pre-

ciso fazer a barba e na barbearia não é preciso chapéu, apenas espuma e uma lâmina, a espuma na cara pelas mãos do auxiliar e a barba feita pelas mãos do paciente.

Um homem com ar de criança tira o boné e olha para uma máquina fotográfica: o ho-

mem que já foi pintor tira fotografias, agora retratos aos pacientes, e ele, também paciente, não se fotografa a si próprio.

Uma pergunta e depois uma resposta – o que é a esquizofrenia? (uma pergunta retó-

rica) diz o director clínico do hospital psiquiátrico, uma explicação organizada: os sintomas, as alucinações, as vozes, a dissociação entre o pensamento e o real, e o físico na boca do homem que fala de saúde mental.

Um cartão a ganhar forma é um robot, mas ainda não está pronto, falta cortar e depois

pintar: as tintas do outro lado, que cores usar? garridas, diz a professora, vermelho e amarelo, o homem é comunista.


5 ramos são uma mão, uma árvore com uma mão é fotografada, o homem que já foi

pintor tira fotografias a uma árvore que tem 5 ramos e uma mão, o homem deitado num banco de pedra e a máquina à frente dos olhos – uma árvore com uma mão é maneta, diz o homem que era pintor, mas não se ri, cara carrancuda e os olhos para baixo: o homem está triste, a árvore maneta, e a fotografia tirada.

Um panfleto e uma série de eventos: 2 pacientes decidem os acontecimentos culturais

da cidade para colocar no cartaz cultural do hospital, mas com o auxílio da terapeuta, a escolha depois de feita é computorizada: é preciso escrever e o homem que usa sempre chapéu, mesmo em locais fechados, tem dificuldades em escrever no teclado do computador – a introdução de dados é lenta e a cabeça do homem cansada: mais tarde, 3 folhas impressas são colocadas no refeitório e a informação divulgada.

Uma mulher cuspida do vidro da frente de um carro, em slow-motion, é um filme ame-

ricano: 5 pacientes comem pipocas ou chocolates enquanto assistem a um filme no auditório do hospital, um drama é contado e os pacientes agitados - quando na verdade o maior drama está nas suas cabeças.

Vários alimentos em cima da mesa e uma cozinha, duas mulheres na cozinha de um

hospital psiquiátrico é uma aula de culinária: uma paciente e outra terapeuta, a faca na mão da terapeuta e os alimentos cortados, o fogão ligado e 3 ovos cozem na panela, a paciente assiste e a água ferve.

Uma missa e os seus fiéis, um padre e a nossa senhora atrás, os pacientes ouvem e ob-

servam o cristianismo, na igreja do hospital a voz de deus é colocada, no final da cerimónia uns dizem ser irmãos de cristo enquanto outros formulam rebuscadas teorias sobre a saúde mental do homem que deus enviou à terra - cristo era esquizofrénico, dizem os pacientes mais cépticos e depois riem-se.

No café do hospital 2 homens revoltados, ambos doentes que padecem de esquizofre-

nia: um café servido e uma janela, os 2 esquizofrénicos na janela e uma indignação – a saúde mental é descriminada em locais públicos e eu sou doente, diz um desses homens com o dedo

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indicador lá em cima, e o outro, revoltado mas mais contido, concorda enquanto bebe o seu café. Muitas capas de revistas e jornais são remexidos pelas mãos dos pacientes, as notícias são lidas bem alto e depois opinadas: as opiniões lentas e pouco precisas, a memória suspende alguns raciocínios e o pensamento estagnado.

Uma ala do hospital e várias janelas são filmadas do exterior, a equipa de filmagem

calada e lá dentro alguns homens pedem cigarros enquanto batem na janela: o cinema verdade incomoda o real, um robot construído em cartão é algo real, uma professora e um paciente entusiasmados é uma realidade agradável dentro de um hospital psiquiátrico: o robot exposto no meio da sala é o motivo.

Uma tarefa simples: o homem que usa sempre chapéu distribui o jornal pelas várias

alas e serviços do hospital com o auxílio da terapeuta – o que dizer? bom dia, venho entregar o jornal do hospital, mas primeiro bata à porta e não espreite: a impaciência são vários murros numa porta que não abre – às vezes temos que esperar, diz a terapeuta, mas o homem que usa sempre chapéu não gosta de esperar e dá mais outro murro – não gosto nadinha de esperar, diz o homem do chapéu, nadinha.

Uma consulta são duas pessoas divididas por uma mesa num gabinete de 20m2: ela

psicóloga e ele doente da cabeça, do pescoço e dos membros, o homem tem tiques, já coçou a cara mais de 11 vezes no espaço de 2 minutos, os dedos cansados de coçar a cara e os olhos piscam mais que o habitual quando as palavras tropeçam da boca para fora do contexto: uma certa tendência para desorganizar frases e colocá-las fora do sítio.

No museu do hospital uma exposição: o homem que já foi pintor exibe as suas foto-

grafias, ele sisudo mas saciado, tem elogios na cabeça e a esquizofrenia adormecida por uns tempos, a gratificação é filmada pelos olhos de quem cuida dos pacientes.

Um movimento fora do cômputo hospitalar: 29 psicóticos dentro de uma camioneta, a

praia é o seu destino: os pacientes excitados mas sentados, lá fora o tempo nublado e lá dentro 3 dentes e uma gargalhada – vamos à praia, diz um paciente exaltado, outros olham pela janela, e a janela diz-nos que está trânsito e a camioneta parada, a loucura enclausurada numa

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estrada, o alcatrão começou a andar afirma a alucinação, e do segundo andar da camioneta já se avista o mar, a água azul, a bandeira verde, e o tempo nublado, uns escondem-se no café da praia mas outros não, calcam a areia com o devido entusiasmo que merece uma ida ao exterior, os ares diferentes e o homem que já foi pintor tira fotografias, a paixão permanece como a loucura, o homem do chapéu no interior do café da praia e o chapéu em cima da cabeça, na praia várias pessoas de chapéu, sobretudo crianças, e o homem dos 3 dentes é uma criança presa num corpo de 47 anos, o riso descontrolado, a razão nenhuma, e a saúde mental na água, os pacientes mergulham no mar e os monitores observam, os olhos pacíficos e o horizonte no sítio, ao lado várias crianças mergulham e a analogia simples: a verdade nos olhos de um esquizofrénico triste e pesado, a maré vaza e a água nos pés.


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Existe uma certa tendência para o não academismo em obras de carácter documental,

preservando assim uma possível verdade: o homem e a câmara, a câmara nos olhos do homem e o homem um não-actor - alguns conservam os seus gestos na presença da câmara quando próxima, outros não, exibem-se de uma forma mais ordeira: uma câmara de filmar perturba o real - o homem pensa antes do movimento, tem medo, é a dinâmica das coisas, a câmara está lá, não fugiu, mas agora está escondida, ninguém a vê, e o não-actor vive e desloca a sua verdade para a imagem: filmar em segredo é encontrar a verdade nos homens - o homem promíscuo quando sozinho, sóbrio e espontâneo, um não-actor que se conhece e que se dá a conhecer é um actor-social, e o profissionalismo redundante, algures no chão, os gestos únicos e a privacidade invadida: a câmara são os olhos de um homem que se esconde, a incursão facilitada, desde que não desvirtue o real do homem filmado.

Um exemplo, uma câmara desligada para uns e ligada para outros é uma mentira que

enaltece a verdade – a câmara filma e os não-actores desprendidos da câmara, o filme é rodado e o autêntico na imagem: esta é a ideia.

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O senhor José Pedro nasceu em Junho de 1966, no Porto, cidade onde actualmente vive

com a sua mulher e filha.

Foi-lhe diagnosticada esquizofrenia paranoide quanto tinha 17 anos, esteve internado

vários anos no Centro Hospitalar Conde Ferreira, e foi inserido em regime ambulatório do serviço Hospital de Dia em 1993, onde permanece até aos dias de hoje.

Militante do Partido Comunista Português desde os 20 anos e fã incondicional de Ál-

varo Cunhal, o senhor José Pedro é conhecido por promover os seus ideais comunistas independentemente do assunto em questão.

O senhor José Pedro só trabalhou dentro do cômputo hospitalar, onde exerceu inúmeras

profissões inseridas nos serviços de Terapia Ocupacional. Neste momento, o seu plano de intervenção é formado por várias actividades terapêuticas, onde se destacam as oficinas de expressão plástica - local onde o utente está a desenvolver um robot em cartão – natação e cinema.

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O senhor Bessa nasceu em Fevereiro de 1956, no Porto, cidade onde actualmente vive

sozinho.

Foi-lhe diagnosticada esquizofrenia residual, razão pela qual foi internado no Centro

Hospitalar Conde Ferreira, no ano 2000. Contudo, cinco anos mais tarde foi inserido no regime ambulatório do serviço Hospital de Dia até aos dias de hoje.

O senhor Bessa licenciou-se em Pintura na Faculdade de Belas Artes, no Porto, e traba-

lhou até aos 40 anos numa gráfica, local onde desempenhava múltiplas funções como pintor, escultor e fotógrafo, até sofrer uma clivagem e nunca mais conseguir pintar nem esculpir. Neste momento, o seu plano de intervenção é formado por duas actividades terapêuticas: musicoterapia e um projecto a solo de fotografia dentro do hospital.

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O senhor Abreu nasceu em Dezembro de 1959, no Porto, cidade onde actualmente vive

com o seu pai.

Foi-lhe diagnosticada esquizofrenia desorganizada em 1994 e foi internado durante

quatro anos no Centro Hospitalar Conde Ferreira. Apesar de estar inserido em regime ambulatório há mais de 15 anos no serviço do Hospital de Dia, o paciente já sofreu inúmeras recaídas, tendo a mais recente dado origem a um internamento de dez dias.

O senhor Abreu trabalhou numa farmácia até aos 17 anos, altura em que surgiu o seu

primeiro surto psicótico, após a morte de um amigo. Amante de filmes e livros de psiquiatria, o senhor Abreu desenvolveu um certo fascínio pela doença que o acompanha, apesar de não conseguir formular um raciocínio lógico e coerente sobre a sua saúde mental; o senhor Abreu é considerado pelos seus colegas um intelectual da psiquiatria e de outros temas de carácter cultural superior.

Neste momento, o plano de intervenção do senhor Abreu é formado por uma actividade

terapêutica: encadernação e cartonagem.

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O senhor Domingos nasceu em Setembro de 1946, no Porto, cidade onde actualmente

vive só.

Foi-lhe diagnosticada esquizofrenia indiferenciada, por volta dos anos 70, e apenas em

2001 foi inserido em regime ambulatório no serviço Hospital de Dia, do Centro Hospitalar Conde Ferreira.

O senhor Domingos esteve na guerra colonial entre os 18 e os 25 anos e nunca traba-

lhou, vivendo até à data de um subsídio das Forças Armadas por ter defendido a sua pátria. O senhor Domingos é conhecido por ser um homem de baixas aptidões sociais e que não gosta de ser incomodado; a sua irritabilidade e o seu isolamento afastam-no de qualquer possível relação.

Neste momento, o plano de intervenção do senhor Domingos é formado por três activi-

dades terapêuticas: o jornal, o cartaz cultural e o cinema.

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O senhor Alberto nasceu em Julho de 1946, no Porto; reside em São Pedro da Cova jun-

tamente com a sua mãe e com o seu irmão mais velho.

Foi-lhe diagnosticada esquizofrenia desorganizada, no início dos anos 80, e esteve in-

ternado durante 5 anos, tendo sido inserido em regime ambulatório no serviço Hospital de Dia, do Centro Hospitalar Conde Ferreira, no final dos anos 80.

O senhor Alberto nunca trabalhou e não consegue entender a natureza do seu problema

mental nem os efeitos colaterais subjacentes.

Apesar disso, o senhor Alberto é um homem feliz e com muitos amigos; todas as pes-

soas do hospital, incluindo médicos, enfermeiros e auxiliares, o respeitam e sorriem perante a presença do senhor Alberto.

Neste momento, o plano de intervenção do senhor Alberto é formado por duas activi-

dades terapêuticas: oficina de lavores e cinema.

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A dona Madalena nasceu em Agosto de 1949, no Porto, cidade onde actualmente vive

com a sua família.

Foi-lhe diagnosticada esquizofrenia catatónica, no início dos anos 70, e esteve inter-

nada durante 9 anos, tendo sido inserida em regime ambulatório no serviço Hospital de Dia, do Centro Hospitalar Conde Ferreira, no início dos anos 80.

A dona Madalena é uma senhora extremamente tímida e reservada e não gosta de ser

filmada; contudo, o trabalho que desempenha no Hospital de Dia é essencial para o funcionamento do mesmo: coloca a mesa para o pequeno-almoço, almoço e lanche, e ainda ajuda na cozinha.

Neste momento, o plano de intervenção da dona Madalena é formado por três activida-

des terapêuticas: oficina de lavores, cinema e culinária.

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A esquizofrenia é considerada pela psicopatologia um tipo de sofrimento psíquico gra-

ve, caracterizado principalmente pela alteração no contacto com a realidade (psicose). Segundo o DSM-IV, é um transtorno psíquico severo caracterizado por dois ou mais dos seguintes sintomas por, pelo menos, um mês: alucinações visuais, sinestésicas ou auditivas, delírios, fala desorganizada (incompreensível), catatonia ou/e sintomas depressivos. Juntamente com a paranoia (transtorno delirante persistente, na CID-10), o transtorno esquizofreniforme e o transtorno esquizoafectivo, as esquizofrenias compõem o grupo das psicoses.

É hoje encarada não como doença, no sentido clássico do termo, mas sim como um

transtorno mental, podendo atingir pessoas de qualquer idade, género, raça, classe social e país. Segundo estudos da OMS, atinge cerca de 1% da população mundial.

Até recentemente, segundo o DSM IV, existiam cinco tipos: paranoide - os doentes de

esquizofrenia paranoide são desconfiados, reservados, podendo ter comportamentos agressivos; desorganizado - as ideias delirantes não são organizadas. Existe um contacto muito pobre com a realidade; catatónico - caracterizado pelo predomínio de sintomas motores e por alterações da actividade, que podem variar desde um estado de cansaço e acinesia até à excitação; indiferenciado - que apresenta habitualmente um desenvolvimento insidioso com um isolamento social marcado e uma diminuição no desempenho laboral e intelectual; e residual - em que existe um predomínio de sintomas negativos: os doentes apresentam um isolamento social

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marcado por um embotamento afectivo e uma pobreza ao nível do conteúdo do pensamento. Existe também a esquizofrenia hebefrénica, com início na adolescência, com o pior dos prognósticos em relação às demais variações da doença e com grandes probabilidades de prejuízos cognitivos e socio-comportamentais.

A esquizofrenia, talvez o transtorno mental de maior comprometimento ao longo da

vida, caracteriza-se essencialmente por uma fragmentação da estrutura básica dos processos de pensamento, acompanhada pela dificuldade em estabelecer a distinção entre experiências internas e externas. Os sintomas da esquizofrenia podem variar de pessoa para pessoa, podendo aparecer de forma insidiosa e gradual ou, pelo contrário, manifestar-se de forma explosiva e instantânea. Podem ser divididos em duas grandes categorias: sintomas positivos (delírios, alucinações, percepções irreais de audição, visão, paladar, olfacto ou tacto, sendo mais frequentes as alucinações auditivas e visuais; pensamento e discurso desorganizado (confusão mental), elaboração de frases sem qualquer sentido ou invenção de palavras; alterações visíveis do comportamento, ansiedade excessiva, impulsos ou agressividade constante na fase de crise) e negativos (resultado da perda ou diminuição das capacidades mentais, como a falta de vontade ou de iniciativa; isolamento social; apatia; indiferença emocional total e não transitória; pobreza do pensamento).

Uma crise psicótica pode ser precipitada por vários factores, como, por exemplo, mu-

dança de casa, perda de um familiar, rompimento com um(a) namorado(a), ingresso na universidade. É raro o indivíduo ter consciência de que está realmente doente, o que torna difícil a adesão ao tratamento.

A proposta do DSM-V para descrever a esquizofrenia defende a eliminação dos subti-

pos da esquizofrenia do DSM-IV-R, porque estes subtipos têm uma estabilidade de diagnóstico limitada, baixa confiabilidade, e uma validade pobre. Além disso, excepto para o subtipo paranoide e indiferenciado, os outros subtipos são raramente usados em sistemas de cuidados de saúde mais mentais.

As alterações propostas pelo Grupo de Trabalho dos Distúrbios Psicóticos destinam-se

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a aumentar a utilidade clínica (menos diagnósticos, melhor demarcação entre os transtornos, maior relevância do tratamento [dimensões]) e melhorar a validade (mais consistente com informações actuais sobre a natureza de várias perturbações psicóticas), ao mesmo tempo que retém a fiabilidade no diagnóstico de várias perturbações psicóticas.

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Hospitais psiquiátricos (também denominados hospícios ou manicómios são hospitais

especializados no tratamento de doenças mentais e/ou de “transtornos mentais” (termo médico-especializado).

Os termos transtorno, distúrbio e doença combinam-se com os termos mental, psí-

quico e psiquiátrico para descrever qualquer anormalidade, sofrimento ou comprometimento de ordem psicológica e/ou mental. Os transtornos mentais são um campo de investigação interdisciplinar que envolve áreas como a psicologia, a filosofia, a psiquiatria e a neurologia. As classificações diagnósticas mais utilizadas como referências no serviço de saúde e na pesquisa, hoje em dia, são o Manual Diagnóstico e Estatístico de Desordens Mentais - DSM IV-R, e a Classificação Internacional de Doenças - CID-10.

O conceito de anormalidade só é compreensível em relação a uma norma; mas nem

toda a variação em relação a uma norma adquire carácter patológico. Assim, uma pessoa sobredotada ou um criminoso estão ambos “fora da norma”, sem que no entanto o seu estado tenha um carácter patológico. Assim, para se compreender o termo transtorno é necessário ter-se presente quais as normas relevantes para essa definição: norma subjectiva: a própria pessoa sente-se doente; norma estatística: a norma é dada pela frequência do fenómeno na população; norma funcionalista: aqui a norma é ditada pelo prejuízo das funções relevantes; norma social: aqui o transtorno é definido a partir de normas e valores definidos socialmente; e

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norma dos especialistas: esta é uma forma especial de norma social, definida por uma categoria especial de pessoas - os especialistas (médicos, psicólogos, etc.).

Com a reforma psiquiátrica (esta pretende modificar o sistema de tratamento clínico da

doença mental, eliminando gradualmente o internamento como forma de exclusão social; este modelo seria substituído por uma rede de serviços territoriais de atenção psicossocial, visando a integração da pessoa que sofre de transtornos mentais na comunidade), em termos mundiais, os hospitais psiquiátricos têm vindo a ser substituídos por pequenos hospitais e/ou enfermarias especializados no tratamento de doenças psiquiátricas, seja em hospitais gerais, no caso de doentes graves ou em crise, ou em pequenos hospitais, autorizados por lei específica. Os doentes com quadros leves a moderados são acompanhados em ambulatórios hospitalares e de acordo com a actual política de saúde, devidamente regulamentada por lei, devem viver em e na própria sociedade, para promover a reinserção social.

A história dos hospitais psiquiátricos como instituição de tratamento está ligada ao

pensamento social e científico acerca dos doentes mentais em cada época.

De 1848 até ao início do século XX, instrumentos como camisas-de-força e quartos-

fortes ou “prisões-acolchoadas”, choques eléctricos, operações ao cérebro, e outras verdadeiras torturas eram utilizados para controlar os pacientes, no que se dizia ser a psiquiatria dita científica, principalmente, os mais agressivos. Actualmente, há tratamentos farmacológicos e psicológicos que reduzem significativamente a necessidade da contenção física e o internamento por longos períodos, daí o aparecimento de serviços ambulatórios.

Philippe Pinel é referido como sendo o primeiro na área da medicina psiquiátrica a uti-

lizar métodos humanizados no tratamento dos doentes mentais; na mesma época, William Tuke introduzia uma nova forma de tratar os doentes mentais: através de métodos terapêuticos, pela conversa e troca de informações e experiências existenciais, como “novo método, terapêutico psiquiátrico, semelhante ao trabalho que os padres da igreja católica apostólica romana já faziam; nos confessionários, à quase já dois mil anos”.

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PRÉ-PRODUÇÃO

RODAGEM

PÓS-PRODUÇÃO

Investigação 2.500€

Realização 2.000€

Montagem de Imagem 2.000€

Reperáge 2.500€

Fotografia 4.500€

Montagem de Som 1.000€

Captação de Som 4.500€

Mistura de Som 1.250€

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Correcção de Cor 1.250€ Grafismo e Tipografia 2.000€ Tradução e Legendagem 1.500€

Total 5.000€

Total 25.000€

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Total 11.000€

Total 9.000€


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2013

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2014

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OBJECTIVOS

Jan obj. 1

Jan obj. 7

1 · Apresentação do Projecto Cinematográfico ao Director Clíni-

Fev obj. 2

Fev obj. 7

co Dr. Adrian Gramary do Centro Hospitalar Conde Ferreira.

Mar obj. 3

Mar obj. 7

2 · Autorização aceite pela Administração do Centro Hospitalar

Abr obj. 3

Abr obj. 7·8

Conde Ferreira e pela Santa Casa da Misericórdia do Porto.

Mai obj. 4

Mai obj. 7·8

3 · Investigação sobre a esquizofrenia, tendo como consultor

Jun obj. 5

Jun obj. 8

científico o Dr. Adrian Gramary.

Jul obj. 6

Jul obj. 8·9

4 · Investigação sobre possíveis pacientes que padeçam de es-

Ago obj. 6

Ago obj. 9·10

quizofrenia e que tenham capacidade de decisão para entrar e

Set obj. 6

Set obj. 11

contribuir no projecto.

Out obj. 6

Out

5 · Apresentação do projecto aos pacientes seleccionados pelo

Nov obj. 6

Nov

Dr. Adrian Gramary e pelo realizador Francisco Moura Relvas.

Dez obj. 7

Dez

6 · Investigação e reperáge das rotinas e locais de cada paciente. 7 · Rodagem 8 · Montagem 9 · Mistura de Som 10 · Correcção de Cor 11 · Concorrer a Festivais Nacionais e Internacionais de Cinema

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apoios santa casa da miseric贸rdia do porto mariana baldaia 路 design路gr谩fico

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ficha técnica 2

sinopse 16

os hospitais psiquiátricos 42 · 43

produtor 5·6

tratamento 17 · 23

autorizações 45

realizador 7

uma ideia sobre os não-actores e a câmara 25

orçamento 46

consultor científico 8·9 nota de intenções 10 · 15

os não-actores 26 · 37 a esquizofrenia 38 · 41

cronograma 47 apoios 48


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