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anorama P

ELISSA BRITO/DIVULGAÇÃO/JC

Porto Alegre, quarta-feira, 11 de abril de 2012 - Nº 177

TEATRO

Noite dos

mortos

Mariana Amaro, especial JC

Em uma sexta-feira 13 de 1963, um grupo de mortos, indignados por não terem sidos sepultados, resolve buscar seus direitos com os vivos, usando como barganha todas as verdades que guardaram durante suas vidas. A trama criada pelo escritor Erico Verissimo no romance Incidente em Antares ganha contornos reais na produção do grupo Cerco. Dirigido por Inês Marocco, o espetáculo estreia amanhã, às 20h, no prédio da antiga Faculdade de Engenharia da Ufrgs (Praça Argentina, s/nº, esquina com av. João Pessoa). Responsáveis pela premiada montagem O sobrado, o grupo Cerco mergulha novamente em uma obra do autor gaúcho neste novo espetáculo. A proposta de recriar a obra de realismo fantástico sempre esteve nos planos da diretora Inês Marocco, que considera o autor um ótimo contador de histórias e por isso sempre teve vontade de colocar, nem que fosse um fragmento, da obra dele em cena. “O Incidente foi a ideia que tivemos antes

de fazer O sobrado. A gente começou (o trabalho) pensando nele. E no processo de leitura, na época, trocamos tudo e fizemos O sobrado. Agora estávamos trabalhando com outro autor, e daí decidimos mudar e encenar Incidente em Antares”, explica um dos “mortos” do elenco Philipe Philippsen. A montagem, de duas horas, foca na segunda parte do livro, a que descreve o misterioso incidente na cidadezinha de Antares, vizinha (nas páginas da literatura) de SãoBorja. A sociedade coronelista e patriarcal se vê em apuros após a greve dos industriários da cidade, que pressionaram os coveiros a fecharem as portas do cemitério da província. Largados em seus esquifes ao relento, os sete defuntos levantam e armam um plano para que os “viventes” da cidade cumpram seus deveres: vão ao centro aterrorizar, com suas formas decrépitas e segredos escondidos, as autoridades e famílias antarianas. O estranho caso se passa durante o governo de João Goulart, um ano antes de o Exército instituir a ditadura.

Montagem do grupo Cerco adapta Incidente em Antares, de Erico Verissimo

Formado por atores jovens recém-graduados e outros ainda em processo de formação na Faculdade de Artes Cênicas ênicas da Ufrgs, o processo de construção do grupo é democrático. “Como a gente adapta da literatura, fazemos a leitura prévia de todo o livro. Depois a dramaturgia o divide em blocos, grandes, por situação em contexto. Destes blocos a assistente de direção faz pequenos núcleos. Os atores improvisam e disto volta-se para a dramaturgia, quando informações repetidas são analisadas”, relata a atriz Isandria Fermiano. O grupo também destaca que a dramaturgia é produzida coletivamente, com uma equipe fixa filtrando e selecionando os temas discutidos pelo resto do elenco para o material final. “Pesquisamos música, atuação, dramaturgia, adaptação da literatura para a cena. Eu acho que eles nem se dão conta do horror de coisas que fazem”, brinca a diretora. Com a utilização de dança, música, luzes e figurino caprichados, O sobrado foi sucesso de público e crítica, mas

uma parte dos integrantes do grupo chegou a pensar em atrasar a estreia do espetáculo. Quando surgiram críticas positivas, o grupo se espantou. “Não tínhamos ideia do que a gente tinha feito, da força da densidade do trabalho. Depois, assistindo diversas vezes, comecei a me dar conta da dimensão da peça”, diz Inês. Mais ágil e dinâmica, a linguagem de Incidente é diferente do trabalho anterior. Até por não apresentar personagens míticos de Erico como Bibiana Terra e Licurgo Cambará, a apresentação dos papéis é rápida. “Esperamos que o público veja a peça com outros olhos, não é o mesmo trabalho do Sobrado”, completa Philippsen que, como o resto do grupo, espera ansiosamente a apresentação de um trabalho completamente novo, um universo único para ser apresentado ao público. Incidente em Antares fica em cartaz até 22 de abril, com apresentações de quinta a sábado, às 20h, e domingo às 19h. A entrada é franca, mas é preciso a retirada de senhas até uma hora antes no local do espetáculo.


Noite dos mortos