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Quinta-feira, 29 de março de 2012

Jornal do Comércio - Porto  Alegre

OPINIÃO

MÚSICA

Muito mais do que música Ricardo Gruner

Mariana Amaro, especial JC, e Caroline da Silva Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, então é melhor não se preocupar com o bicho. Esta frase é de Elis Regina, mas serve muito bem ao momento que Maria Rita vive em sua carreira. A filha, que sempre relutou em cantar a mãe, expia seus dramas e inseguranças em Viva Elis, projeto que reúne uma exposição, um livro, um documentário e uma turnê de Maria Rita em homenagem à eterna voz da MPB. Maria Rita notoriamente, até este momento, evitou interpretar obras do repertório de sua mãe, fato sempre explorado pela crítica e até pelos fãs. “Para mim é uma questão ética, emocional, profissional, não fazer nada que fosse dela. Dentre todas as escolhas difíceis que eu fiz, sendo uma delas cantar, eu tinha que mostrar a que vim, ou melhor, que vim”, diz a cantora de 34 anos. Ela explica que os arranjos de Elis são complexos, não só pelo aspecto emocional, mas pelo qualitativo também e, quando viu a repercussão inicial do projeto, se apavorou e pensou em cancelar tudo. “Virou uma confusão, saiu na capa de jornais, vieram perguntas nas redes sociais. Eu não tinha gravado nada! Diante daquela comoção eu falei: não vou fazer, não estou pronta”. Mas após se acalmar, ela resolveu tocar o projeto adiante. “Tinha um ponto dentro de mim que precisava fazer isso”, desabafou, aliviada. O Anfiteatro Pôr-do-Sol recebeu no sábado passado o primeiro show da turnê, no qual Maria Rita, ao lado dos músicos Thiago Costa (piano e teclado), Sylvinho Mazzucca (baixo acústico e elétrico), Davi Moraes (guitarra) e Cuca Teixeira (bateria) interpretou

28 músicas selecionadas a dedo para os shows. “O repertório é imenso e eu podia ter partido de vários pontos. Busquei então, as músicas com que me identificava. Ao final da primeira triagem, fiquei com 63 canções, daria umas 3h30min de show, tá bom, né?”, brinca ela. Assim, o roteiro do concerto contemplou os principais compositores do cancioneiro nacional, de Edu Lobo a Milton Nascimento. A primeira música a arrebatar os mais de 60 mil espectadores foi Como nossos pais, de Belchior. Outro momento marcante foi a chuva de bolinhas de sabão durante Águas de março, de Tom Jobim. O patrocinador entregou ao público um kit para o público contribuir com o espetáculo visual. Na sequência, durante a linda versão de Saudosa maloca, de Adoniran Barbosa, outra chuva: uma quantidade infinita de balões azuis provocou um contraste com o horizonte já laranja do tradicional pôr do sol do Guaíba. No bis, Romaria, de Renato Teixeira (que não estava no set list original) foi um presente emocionante para a Capital. A escolha de Porto Alegre para dar o pontapé inicial não foi coincidência. Por ser a cidade natal de sua mãe, o evento foi parte das comemorações do aniversário da Capital. Maria Rita disse que a emoção de estar aqui era diferenciada e contou como foi a primeira vez que subiu em um palco na cidade: “Estava grávida, mas ninguém sabia e minha cabeça entrou em parafuso, estava na cidade de minha mãe, grávida do primeiro neto dela. Então, na terceira música do show, um cara levantou com o punho fechado e gritou ‘sangue gaúcho’, e eu comecei a chorar. O público aplaudiu e chorei mais ainda. Senti-me bem-vinda.” Agora, o show segue para

Recife (1 de abril), Belo Horizonte (08 de abril), São Paulo (22 de abril) e Rio de Janeiro (29 de abril). Segundo Tatiana Ponce, diretora de Marketing da Nivea - patrocinadora do projeto -, quem perdeu o espetáculo na Capital poderá acompanhar online a apresentação em Pernambuco. A turnê é apenas uma das partes da homenagem, que assume um caráter transmidiático e gratuito, caminhando em consonância com a proposta de renovar a imagem de Elis Regina e atrair novos fãs. Uma exposição itinerante (com mais de 500 fotos da cantora, além de ingressos, pôsteres de shows, vídeos de apresentações ao vivo, objetos pessoais, jornais e até uma sala onde o público poderá ouvir Elis cantando sem acompanhamento instrumental) rodará o País inteiro. A rota começa no dia 14 de abril no Centro Cultural São Paulo. Um documentário com depoimentos, cenas de arquivo da artista e performances ao vivo será lançado neste ano, junto com o livro biografia Viva Elis, de Allen Guimarães, que será distribuído gratuitamente em escolas e bibliotecas públicas. Ações na web, como uma linha do tempo de sua carreira e promoções nas redes sociais também fazem parte desta revitalização da obra de uma das grandes vozes da MPB. Trazer Elis Regina de volta é o norte de Maria Rita, que ao lado do irmão e mentor do projeto João Marcello Bôscoli, declara: “Não pretendo lançar nem CD nem DVD destes shows. Tem muita gente pedindo pra ter. Mas não entendo porque fazer se tem o original. Quero despertar a curiosidade sobre o trabalho dela”. Com um sorriso, a filha completa: “Não dá pra fazer um remix da Mona Lisa”.

GILMAR LUÍS/JC

Na parede da memória

JOÃO MATTOS/JC

Maria Rita diz que não pretende lançar a turnê Viva Elis em DVD

O que os presentes no Estádio Beira-Rio no último domingo viram não foi um show, foi um espetáculo. The Wall, o concerto em que Roger Waters apresenta o disco homônimo de sua ex-banda, extrapola os limites da música e flerta com o cinema e o teatro. O resultado é, no mínimo, inesquecível: o ex-baixista do Pink Floyd divide o centro das atenções com o muro de 137 metros de largura que se estende pelo palco e ilustra, através de projeções, os temas presentes no disco. Se o início das atividades é literalmente incendiário, com In the flesh?, no decorrer das outras 27 faixas interpretadas o público só teve a se surpreender. Na parte musical, a fidelidade ao álbum, de 1979, espanta. Efeitos quadrifônicos reproduzem sons de disparos de armas, helicópteros e bombas, levando os espectadores a olhar para os lados para entender o que está acontecendo; já os pedais de guitarra revivem com maestria o efeito de delay característico nas faixas originais. Waters, para o delírio geral, ainda parece contar com a exata voz de 30 anos atrás, e seus músicos de apoio não desapontam ao simular os vocais (e guitarra) de David Gilmour, o teclado de Richard Wright ou a bateria de Nick Mason. Mas é quando o público (quase) esquece que há uma banda tocando que o espetáculo ganha tons épicos. Em Another brick in the wall pt.2, um boneco inflável rouba a cena para atormentar o astro e o coro de crianças que cantarola o mais célebre refrão do álbum; em Mother, uma câmera gigante aparece no telão para demonstrar a vigilância do governo, e Waters, em um raro momento de diálogo, confessa: “Em 1978, eu achava que o muro era sobre mim. Estava errado, é sobre Jean Charles e sobre tantos outros”, em uma das inúmeras mensagens contra o terrorismo de Estado. A crítica política também está presente através de imagens de falecidos em combate e de vídeos de crianças reencontrando os pais que voltaram da guerra. Tudo isso reproduzido em um muro que, durante a primeira parte do show é construído e, na segunda, já cobrindo todo o palco, transforma o estádio em um cinema a céu aberto. Na metade final, fica claro que Roger Waters não é apenas um músico, e sim um artista. Sem o baixo que empunhava em boa parte inicial, o frontman esmurra a parede (que parece se abrir, em Confortably Numb) e aparece sentado em uma sala dentro dela (para interpretar Nobody home), entre outras encenações com as imagens projetadas, o porco voador ou novos infláveis. Nos finalmentes, a provocação “tem algum paranoico aí?” precede a endiabrada Run like hell o muro rói, e logo os músicos se despedem com Outside the wall. Ao término, é possível brincar de escolher o melhor adjetivo para descrever Roger Waters: talentoso, engajado, megalomaníaco, genial. Tarefa difícil. Um show de mais de duas horas, mas que parece durar apenas alguns minutos, tamanho o envolvimento criado.

Roger Waters realizou apresentação épica em Porto Alegre

Na parede da memória  

Matéria sobre o show Viva Elis de Maria Rita para o Jornal do Comércio. Redigida em conjunto com a sub-editora Caroline da Silva.

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