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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL FACULDADE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO SOCIAL - JORNALISMO Artigo apresentado na disciplina de Assessoria de Imprensa, ministrada pelos professores Almir Freitas e Ivone Cassol Porto Alegre, junho de 2011

Leitores eletrônicos e a produção jornalística: o conteúdo como método de diferenciação Mariana Amaro O mercado de leitores digitais está crescendo com rapidez. Em 2008, o segmento vendeu 1.1 milhão de eReaders e a expansão deve chegar a 18 milhões de unidades em 20121. O grande boom das vendas dos aparelhos é consequência dos investimentos das editoras de livros, que veem na nova tecnologia o renascimento do mercado. Entretanto, outro setor vem ensaiando passos tímidos, porém milionários, para se inserir nesse seleto mercado: a imprensa de notícias. O nicho é empolgante, porém, o custo elevado e a necessidade da criação de uma fórmula eficiente para o lançamento e a manutenção de algo inovador retardam as ações das empresas de comunicação. Até o momento, os veículos tradicionais têm optado por reproduções em pixels idênticas às revistas de papel, disponibilizando-as somente para os dispositivos mais populares. O jornal americano The Daily, lançado no dia 1º de fevereiro de 2011, é o primeiro jornal criado exclusivamente para um leitor eletrônico. Nesse caso, o dispositivo escolhido foi o iPad da Apple. Após o primeiro mês de degustação gratuita, a assinatura do The Daily passou a custar 99 centavos de dólar por semana na loja virtual de aplicativos da Apple, e sofre até duas atualizações por dia durante os sete dias da semana. A publicação pertence ao grupo News Corporation, responsável por impressos como The Sun e The Wall Street Journal.

                                                                                                                1  Dados  retirados  da  publicação  de  3  de  novembro  de  2009  do  site  de  notícias  americano  Digital  Trends      

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O valor cobrado para ter acesso ao The Daily é quase nove vezes mais baixo que a quantia cobrada pelo jornal New York Times (NYT), que oferece sua cópia eletrônica pelo valor de U$8.75 por semana. O NYT conquistou 100 mil assinantes on-line no primeiro mês após a implementação da nova estrutura (idêntica à versão impressa)2. O The Daily, entretanto, se recusa a divulgar quantos assinantes conquistou até agora, o que causa desconfiança na mídia especializada. O excesso de problemas técnicos e a falta de conteúdo original de qualidade para o jornal exclusivamente eletrônico são apontados como as maiores decepções do público, que abandonaram o The Daily após o mês de cortesia, mesmo que este tenha mantido a promessa de atualização mais de uma vez ao dia e conteúdo multimídia. Falhas como carregamento lento, que atrapalha a usabilidade e a velocidade de transmissão de informação, e conteúdo integralmente comprado de agências de notícias afastaram futuros leitores, assim como anunciantes. O número de assinantes do NYT, ao contrário, não para de aumentar, mesmo com o valor mais alto e sem oferecer um período de teste para seus futuros leitores. Nesse caso, a qualidade do conteúdo, mesmo este sendo replicado, foi decisiva em razão da economia da “gratuidade” teorizada por Chris Anderson. O autor explica como os conceitos de distribuição de informação na rede criados por Stewart Brand foram distorcidos pela comunidade cibernética: Dois tópicos continuamente inseridos nas discussões: como caracterizar a ética hacker e que tipos de negócios estão emergindo com a indústria computacional. Foi quando que Brand instaurou a terceira regra de uma forma que iria vir a definir o surgimento da era digital. Ele disse: "Por um lado informação quer ser cara, porque é valiosa. A informação certa no lugar certo simplesmente muda a sua vida. Por outro lado, informação quer ser grátis, porque o custo de produzi-la é está ficando cada vez mais baixo. Então você tem essas duas situações lutando uma contra a outra." Esta é provavelmente a mais importante – e mal compreendida – sentença da economia da Internet. (...) Talvez informação se torne mais barata, porque os bits pode ser reproduzidos facilmente. Ou talvez ela se torne mais cara, porque o processamento perfeito pelos computadores pode produzir informação de maior qualidade. (ANDERSON, 2009, p.72)

                                                                                                                2  Dados  retirados  da  publicação  de  22  de  abril  de  2011  no  site  Folha.com    

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As empresas de comunicação não têm uma redação ágil o suficiente e que domine todas as linguagens do jornalismo para produzir com qualidade para um jornal de fato multimídia, atualizado 24 horas. Diferente de um site normal, não são necessários apenas repórteres, editores, revisores e produtores e programadores, mas também diagramadores que tenham conhecimento do jornal para conseguir adaptar e colocar novas notícias na capa e nas páginas internas, sem desmontar o conteúdo anterior e sem criar uma préforma definitiva para todas as edições. Ou seja, esse periódico eletrônico é o que mais se aproxima da utopia jornalística de estar sempre atualizado e relevante ao mesmo tempo, pois combina todos os elementos das mídias para transmitir notícias. O preço de manter tal estrutura perfeita é absurdamente caro, muito superior ao gasto de um portal na Internet, em função tanto das estruturas físicas limitadoras das páginas e da programação do aplicativo em si, como dos gastos com profissionais de qualidade para priorizar o conteúdo. Os principais sites de noticias do Brasil são gratuitos. Folha.com, Estadão On-line, Clic RBS e G1 são todos pertencentes aos maiores grupos de comunicação do país, portanto, têm os rendimentos de outros veículos para sustentar os gastos, cobertos ou não, pelos portais on-line. A reutilização de matérias do impresso nos sites é visível, mas as atualizações e as chamadas hotnews são dadas com muito mais agilidade na rede. Nessa nova economia, as redes digitais e o conhecimento humano estão transformando quase tudo o que produzimos e fazemos. Na velha economia, a informação, as comunicações e as transações eram físicas, representadas por dinheiro em espécie, cheques, faturas, conhecimentos de embarque, relatórios, reuniões frente a frente, telefonemas analógicos ou transmissões de rádio ou televisão, recibos, desenhos, projetos, mapas, fotografias, discos, livros, jornais, revistas (…). Na nova economia, de maneira crescente, a informação sob todas as suas formas, as transações e as comunicações humanas estão se tornando digitais, reduzidas a bytes armazenados em computadores que se movem à velocidade da luz por meio de redes

(…). As grandes companhias estão

deixando de ser organizações hierarquizadas para se converter em organizações interconectadas. (CEBRIÁN, 1999, p.15)

O jornal impresso possui assinantes e anunciantes; a tv e o rádio retiram seu lucro das propagandas veiculadas, apesar de serem concessões públicas, e todos aceitam essa realidade. A Web, por outro lado, tem um caráter livre e etéreo. Os usuários resistem em

 

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assinar um produto que não podem guardar ou adquirir fisicamente e os anunciantes sofrem com a navegação não linear e com o descaso dos internautas, que repudiam a ideia da predominância financeira na rede. “A filosofia cyberpunk em geral significa uma postura vanguardista incisiva em relação à tecnologia e à cultura, ávida de abraçar o novo e disposta a rebelar-se contra as estruturas e as autoridades estabelecidas, a fim de ganhar mais experiência e pôr em funcionamento novas tecnologias (...) ,rebelando-se contra o estado centralizador e as grandes estruturas econômico-financeiras , a favor de um uso subcultural mais descentralizado da ciência e da tecnologia a serviço dos indivíduos. (KELLNER, 2001 p383)

O NYT contrariou o fundamento da cultura cyberpunk e adotou nova postura online. A partir deste ano, é necessário pagar uma assinatura mensal para ter acesso às notícias do portal. A publicidade sozinha não foi suficiente para gerar lucro com o empreendimento mantendo a mesma qualidade do impresso, portanto, foi tomada a nova medida. A medida, realizada para manter os mesmos padrões de excelência do impresso no ambiente digital, provou que a ideia de que o usuário só consome o que é grátis na Internet não deve ser a regra, pois não existem fórmulas prontas ou sólidas no ambiente digital. O feedback positivo dos assinantes novos e antigos do New York Times On-line nas redes sociais prova, tanto quanto os dados divulgados, que o site continua sendo uma das fontes de notícia mais acessadas no mundo. A qualidade do conteúdo é significativa. Os internautas pagam, sim, por serviços, mas somente aqueles que têm algum diferencial. Como exemplifica o fracasso do The Daily, é importante publicar material exclusivo nos portais de notícia. Depender só de agências para atualizar o portal pode cortar os custos, mas afasta os leitores. Nesse contexto, voltamos aos leitores eletrônicos. Os gastos com papel e distribuição são enormes, assim como as consequências ecológicas. No entanto, a manutenção de um jornal que se diz ágil e atualizado como um portal de Internet, com sons e imagens com a qualidade da televisão e do rádio e graficamente estruturado como um impresso de alta qualidade pode ser tão caro quanto. Ainda assim, seis fatores podem tornar esse cenário possível:

 

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1. Dispositivos móveis mais potentes que permitam a edição de vídeos, imagens e áudios pelo repórter no local, para enviar esse material com agilidade para o servidor do jornal. 2. Jornalistas com domínio da técnica de edição das três principais áreas, assim como as formas de conteúdo. 3. Redes de transmissão de dados mais potentes e aparelhos que consigam usufruir da capacidade máxima dessa velocidade. 4. Conteúdo exclusivo, apurado e de qualidade para os leitores. 5. Anunciantes que se adaptem à velocidade de informação e atualização dos jornais eletrônicos, criando e veiculando peças rápidas e mutáveis. 6. Cobrar pelo serviço prestado, assim como é feito com as edições de papel, se for necessário, para manter a estrutura de produção. O conteúdo exclusivo é produto dos profissionais qualificados para produzir em todas as linguagens de reprodução existentes - texto, áudio e imagem. É característica fundamental para o sucesso desse novo modelo. As empresas devem compreender que o grande diferencial não é a técnica, mas usá-la para ressaltar as informações no jornal, tornando a matéria ainda mais completa e densa. O potencial de convergência deve ser utilizado como meio de qualificar a mensagem. É importante ter em mente que não deve haver desconto no preço do jornal apenas pelo fato de este ser eletrônico, afinal, a energia despendida para produzi-lo e mantê-lo atualizado é maior do que nos modelos convencionais. Inovações no jornalismo são caras, porém, se feitas com foco na qualidade, sempre haverá consumidores dispostos a pagar o valor justo.

 

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Referências bibliográficas:

ANDERSON, Chris. Free: O Futuro dos Preços. São Paulo: Campus, 2009. CEBRIÁN, Juan Luis. A Rede: Como Vidas Serão Transformadas Pelos Novos Meios de Comunicação. São Paulo: Sumus, 1999. DUNCAN, Geoff. Marvell and E Ink Team Up on Next-Generation eReaders. Digital Trends. 03/11/2009. Disponível em:< http://www.digitaltrends.com/gadgets/marvell-ande-ink-team-up-on-next-generation-ereaders/>. Acesso em: 6 jun. 2011. FAGUNDES, Álvaro. NYT obtém 100 mil assinantes on-line. Folha.com. 22/04/2011. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me2204201116.htm>. Acesso em: 6 jun. 2011. KELLNER, Douglas. A Cultura da mídia: Estudos culturais identidade e política entre o moderno e o pós-moderno. Bauru: EDUSC, 2001. Press Release: Introducing The Daily. The Daily.com. 02/02/2011. Disponível em: <http://www.thedaily.com/press-release/>. Acesso em: 6 jun. 2011. The Daily, o jornal para iPad, mostra sinais de fracasso. Olhar Digital Uol. 6/04/2011. Disponível em: <http://olhardigital.uol.com.br/produtos/digital_news/noticias/the_daily_o_jornal_para_ip ad_mostra_sinais_de_insucesso>. Acesso em: 6 jun. 2011.

 

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Leitores eletrônicos e a produção jornalística: o conteúdo como método de diferenciação  

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