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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL FACULDADE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL JORNALISMO

ARTIGO DE PROJETO EXPERIMENTAL - ONLINE

CAMILA FREITAS, CAROLINA TEIXEIRA E MARIANA AMARO

Porto Alegre 2012


Pornografia na web: reflexo social da mecanização diária dos nossos atos

Palavras-chave: Geração digital, pornografia, consumo na web

Resumo: Na Era Digital as fronteiras entre o real e o virtual tornaram-se cada vez mais permeáveis. A popularização da internet não só mudou a relação do homem com a tecnologia, mas até mesmo entre as relações humanas e de consumo. Neste contexto, constatamos a mudança na forma de consumo de pornografia pela internet, que tornou o acesso deste conteúdo livre e sem restrições.

Logo que a internet se popularizou nos lares do mundo todo, ela era vista como um mundo de possibilidades, uma porta para o fantástico e para o anonimato, uma fuga da realidade e a possibilidade de se desligar da sua verdadeira identidade. Ao menos era assim como os Imigrantes Digitais – nascidos e criados em um mundo analógico – viam o ambiente ainda desbravado da Web, um recomeço sem nome e sem conexão com a realidade, que só existia off-line. Comparar a ocupação da Web com o descobrimento de novos continentes, como a América, é uma analogia necessária para entender como os Nativos Digitais, também chamados de Geração Internet ou Y, constroem a sua identidade em uma realidade hipertextual, onde mundo físico não é sinônimo de mundo real. Assim que os computadores usados para processamento de dados e cálculos científicos foram substituídos por PCs (personal computers), a interação entre máquina e homem começou a se alterar, mais que um artefato com possibilidades mecânicas, o computador era uma porta para informações antes inacessíveis e uma revolução na área da comunicação. A possibilidade de transmitir dados em longa distância com uma velocidade muito acima do comum, assim como a possibilidade de ser incógnito em um ambiente não físico era tão atrativo quanto assustador.

“Comentários anônimos em blogs, insípidas videopegadinhas e mashups sem importância podem parecer triviais e inocentes, mas, como um todo, essa prática disseminada de comunicação impessoal tem rebaixado a interação interpessoal. A comunicação agora é muitas vezes vivenciada como um fenômeno super-humano que se eleva acima das pessoas. Uma nova geração cresceu com uma expectativa reduzida do que uma pessoa pode ser


e do que cada pessoa pode se tornar.” ( LANIER, 2010, p.18) Os Colonizadores Digitais são aqueles que apesar de terem nascido em um mundo analógico, exploram as possibilidades e formatos que a web permite, se adaptando com rapidez aos meios digitais. Os Imigrantes Digitais também cresceram em um mundo sem Internet, porém diferente dos Colonizadores, não dominam a linguagem e a técnica da Web e por isso muitas vezes não conseguem acompanham o fluxo não-linear de navegação. A falta da presença física no momento da interação prejudica a compreensão dos Imigrantes Digitais perante relacionamentos na Web, por isso não concebem a ideia de uma Identidade que possa transitar entre os meios on-line e off-line.

“Ao contrário de muitos Imigrantes Digitais, os Nativos Digitais passam grande parte da vida online, sem distinguir entre o on-line e o off-line. Em vez de pensarem na sua identidade digital e sua identidade no espaço real como coisas separadas, eles têm apenas uma identidade (com representações em dois, três ou mais espaço diferentes).” (GASSER e PALFREY, 2008 p.14)

Ao eliminar as barreiras entre as identidades off-line e on-line, os jovens estabelecem que a realidade não é necessariamente física, tendo em vista que grande parte de sua vida social acontece na Web. A energia gasta dentro do ambiente virtual é tão grande quanto a empregada em sua vida off-line, muitas vezes estando esses ambientes tão integrados que não consegue definir suas fronteiras. Amizades e relacionamentos nascem, amadurecem e morrem, na maior parte do tempo, nos dois meios, que se complementam.

“Acho que se comete um erro grave ao falar-se em vida real e em vida virtual, como se uma fosse real e a outra não. Na medida em que as pessoas passam tempo em lugares virtuais, acontece uma pressão, uma espécie de expressão do desejo humano de tornar mais permeáveis as fronteiras do real e do virtual. Em outros termos, creio que enquanto os especialistas continuam a falar do real e do virtual, as pessoas constróem uma vida na qual as fronteiras são cada vez mais permeáveis. Assim, não gosto de falar do real e do virtual, mas antes do virtual e do resto da vida. Não V-R, Vida Real, mas RV, Resto da Vida, pois se as pessoas gastam tanto tempo e energia emocional no virtual por que falar do material como se fosse o único real?” (TURKLE, 1999, pg.123)

A privacidade e a identidade dos usuários na web nunca foram tão correspondentes às suas versões off-lines. A unidade desta representação encontra no papel do nativo


digital o seu ápice. Da mesma forma as falhas de segurança e descontrole da imagem no ambiente digital encontra nesses usuários, que desconhecem uma vida desconectada, um terreno fértil. Não são poucos os casos relatados na grande mídia de jovens e adolescentes que compartilharam vídeos ou fotos de conteúdo pornográfico seus ou de amigos próximos na internet, causando grande constrangimento para os envolvidos.

“A Geração Internet está se expondo tanto que deixa seus pais atônitos. Muitos entusiastas do Facebook postam no site qualquer fragmento de informação sobre si próprios e sobre outras pessoas para que todos os seus amigos vejam – desde demonstração virtuais de afeto até fotos reveladoras. A maioria não tem más intenções; simplesmente quer compartilhar com os outros eventos considerados alegres e divertidos. É óbvio que a Geração Internet não entende porque a privacidade é importante.” (TAPSCOTT, 2010, p. 84) Sites como o reddit (uma comunidade virtual em teoria anônima) tem um espaço reservado para que meninos e meninas enviem imagens com conteúdo sexual para publicação na página. Entitulado como “gonewild” esta sessão é abastecida por usuários da rede, que normalmente evitam mostrar seus rostos nas imagens, registro de órgãos sexuais e atividades relacionadas. Um dos responsáveis pelo ato de expor sua própria imagem em uma rede aberta (não é necessário efetuar cadastro para ter acesso ao conteúdo do Reddit) a qualquer um que tenha conexão a web é a segurança que a pressuposta anonimato da web oferece aos seus usuários.

“Os Nativos Digitais estão vivendo grande partes de suas vidas em sites de relacionamentos públicos. O efeito é que as versões de identidade de um Nativo Digital, destinadas as serem compartilhadas em um contexto – talvez imaginado como sendo um contexto semiprivado, como um grupo fechado em um site de contato social ou um ilha no Second Life – são possivelmente combinadas com outras versões de suas identidades. (..) eles sabem muito bem que os espaços são públicos e mesmo assim revelam informações pessoais, por uma série de razões. Mas raramente têm a visão do pleno impacto de suas ações.“ (GASSER e PALFREY, 2008, p.45)

A circulação de conteúdos pornográficos desponta nas mãos da pós-modernidade. O pornô subterrâneo, que corria por debaixo das amarras do controle remoto e do fazer caseiro, encontra um alicerce comercial, popular e massificador – a internet. O consumo, que antes era restrito e ligado somente à sexualidade, passa a inserir os aspectos sócio-culturais da rotina e do sexo do espectador/consumidor. Assim, a sociedade congelada, anteriormente, pelos medos e tabus vai usar da tecnologia para expor as


vontades, desfazer medos e registrar a promiscuidade que não pode ser vista ou e proferida. Nesse cenário, a pornografia é a nova carnavalização – é um meio para o gozo, mas também para enriquecer.

O que significa que o viajante hodierno [...] chega no momento onde deveria chegar. É este o elemento de novidade da carnavalização. Prazeres anteriormente reservados a poucos eleitos, e precisamente escondidos aos olhos dos profanos, tornam-se privilégio das massas cada vez mais numerosas. (DA EMPOLI, 2007, p.31).

A internet muda e complementa tudo o que sabemos sobre pornô. Se antes era preciso pagar para adquirir tais produtos e, até mesmo, passar por situações constrangedoras, com a web os tímidos encontraram um local para o consumo sem restrições e, de certo modo, gratuito. E, assim, na distância de alguns cliques, qualquer usuário consegue acessar vídeos que vão desde uma relação entre um homem e uma mulher até quadrinhos japoneses, simulando sexo entre seres mágicos, como dragões e mulheres com orelhinhas de guaxinim. A pornografia achou seu reino e ali o controle moral não consegue impor suas verdades. Apesar da liberdade, alguns ainda não se sentem confortáveis com as imagens, mas mesmo assim não deixam de conferir as cenas. As imagens se resumem em atos – pela frente, por trás, pelo lado – registrados por uma câmera nos mínimos detalhes. Com ou sem roteiro, o objetivo final é excitar o espectador e, mesmo que o sexo seja artificial, instigar as reações mais perversas do público.

Do idílio entre a pornografia e outra pequena tela, aquela do computador, já se sabe tudo. O sexo, como é conhecido, gera um quarto de todo o tráfego na internet e representa o business numero um. Seria possível ir mais longe desvendando dados que sustentem a evidência. (DA EMPOLI, 2007, p.33). A pornografia é um reflexo social da mecanização diária dos nossos atos – queremos tudo e queremos logo. Portanto, o uso de conteúdos libertinos e a multiplicação de sites e dos filmes pornôs, leva à conclusão de que o mercado pornô não teria se tornado tão movimentado se não fosse pelo advento da tecnologia, que reflete e se aproxima, cada dia mais, da tentativa de reproduzir o real. Assim, em toda a trajetória – dos primórdios até hoje –, o sexo é visto como um segredo do qual se deve falar, e não silenciar. O sexo emana curiosidade e a pornografia exterioriza o silêncio do corpo de cada um.


[...] necessita-se dele para a exploração, a aventura, para apaixonarse, para romper com o primeiro amor, para apaixonar-se, tanto por idéias quanto por pessoas, e para romper com idéias tanto quanto com as pessoas. Na medida em que as coisas se fecham e o espaço se reduz, o ciberespaço propõe alguma coisa da ordem do espaçojogo: uma chance de experimentação inexistente no resto da vida, no R-V. (TURKLE, 1999, p.120)

Por isso, sexo na cabeça e com a cabeça. Aos adultos é permitido e livre, mas às crianças é proibido e escondido. Tudo reflexo da sociedade paradoxal, que ora produz e assiste ora censura e condena. E o tabu não vive na web, pois o erotismo é padronizado, não está ligado à reprodução da espécie, sequer ao amor eternizado, e, assim, dá voz a própria e radical independência.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

TAPSCOTT, Dan. A hora da geração digital. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2010 PALFREY, John; GASSER, Urs. Nascidos na Era Digital – Entendendo a primeira geração de nativos digitais. Porto Alegre: Artmed, 2011. LANIER, Jaron. Gadget – você não é um aplicativo. São Paulo: Editora Saraiva, 2010. DA EMPOLI, Giulliano. Hedonismo e medo. Porto Alegre: Sulina, 2007. CASALEGNO, Federico; TURKLE. Fronteiras do real e do virtual. Revista FAMECOS, n. 11. Porto Alegre: PUCRS, 1999.

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Artigos para a disciplina de Projeto On-line ministrada pelas professoras Andréia Mallmann e Karen Sica.

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