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Lugares de M emória aressi gni ficaçãodosespaços carcerári oscomoespaçosdecul t ura


SUMÁRIO

I.Introdução………………………………………………………………………………….……………………………………………..………..………2 II. Embasamento teórico……………………………………………………………………..………..………………………...………………...3 III. Análise dos projetos…………………………………………………………………………………..………....……………………………..6 IV.Conclusão individual…...………………………………………………………………..………..……………………………….………...18 V.Bibliografia………………………………………….………………………………………..………..………………………………………...……20

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I. Introdução Este trabalho tem o objetivo de abordar o tema lugares de memória, focando, a partir do

estudo comparativo entre o Parque da Juventude e o Centro de las Artes de San Luis Potosí,

tanto a memória do cárcere quanto a ressignificação desses locais como espaços de cultura. Tal proposição foi escolhida tendo em vista a perspectiva de construção de cidadania, uma vez que a

transformação de espaços carcerários em espaço de memória não é algo fácil, sobretudo com a

ideia de locais onde ocorreram violações dos direitos humanos. Esses lugares, portanto, adquirem uma dimensão política e possuem assim fortes potencialidades pedagógicas, tornando-se indispensável a participação de um poder público que reconheça e entenda a

importância histórica, arquitetônica e patrimonial deste tipo de edifício, nos quais as intervenções para transformar a obsolescência e ressignificá-los com destinação cultural deve preocupar-se com as referências vividas anteriormente.

A escolha, portanto, de dois casos extremamente semelhantes, e que, no entanto,

apresentam soluções distintas - em um caso a estrutura física do cárcere foi conservada e

adaptada ao novo uso, no outro partiu-se de uma tabula rasa - mostra a possibilidade complexa e

múltipla de nuances que um tema pode apresentar. E não só é possível perceber contrastes pelo modo que se lidou com as preexistências e suas memórias, mas com a própria natureza destas: enquanto que a penitenciária de San Luís Potosí foi construída ainda nos moldes do século 19, a

de Carandiru, em São Paulo, construída no século 20, marcou-se por um terrível massacre e as condições absurdamente insalubres de suas instalações. Procurar-se-á então estudar com

minúcia as relações complexas entre as duas obras e seus contextos, sempre se atentando às nuances que um tema complexo como este pode abarcar.

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II. Embasamento Teórico "Se habitássemos ainda nossa memória, não teríamos necessidade de lhe consagrar lugares. Não haveria lugares porque não haveria memória transportada pela história. (...) Desde que haja rastro, distância mediação, não estamos mais dentro da verdadeira

memória, mas dentro da história. Pensemos nos judeus, confinados na fidelidade

cotidiana ao ritual da tradição. Sua constituição em "povo da memória" excluía uma preocupação com a história, até que sua abertura para o mundo moderno lhes impôs a necessidade de historiadores." (NORA, Pierre. p.8-9)

Os lugares de memória são, primeiramente, espaços residuais - segundo o autor Pierre Nora. O seu tempo seria o momento preciso onde desaparece um imenso capital vivido na

intimidade da memória, para aparecer sob o olhar de uma história reconstituída. A memória é um tópico tão recorrente porque ela, segundo o mesmo, não existe mais; e a existência de locais

de memória se dá porque não há mais meios de memória. O sentimento de continuidade da

memória que já não é mais vívida torna-se residual aos locais; gerando a curiosidade histórica pelos espaço onde a mesma se cristaliza e refugia.

A memória é um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente, enquanto a

história é uma representação do passado. Os lugares de memória aparecem exatamente na transição entre os dois conceitos. A história, porque operação intelectual e laicizante, demanda

análise e discurso crítico; desta maneira a escolha dos lugares representativos de memória, bem como qual parcela da memória será representada, é fruto da ideologia do tempo presente.

Assim, o processo de ressignificação de espaços - que ficaram profundamente marcados

pelas histórias às quais foram palco -, em lugares de memória, implica na realização de escolhas, em um movimento de lembrar e esquecer, preservar e destruir. Tendo em vista as tensões

intrínsecas ao tema, se pressupõe, portanto, renúncias que caracterizam o que deve ser lembrado ou não, como um símbolo que subjetivamente indica também aquilo que deve ser esquecido.

Nesse sentido, é possível inferir que a memória, fragmentada e pluralizada, se aproxima

da história pela sua pretensão, em partes, em retratar a veracidade, mas a memória não é

história, e vice-versa (RICOEUR, 2004). A memória é objeto da história, e só o é porque está passível de manipulações de ordem política e ideológica, tal qual a ressignificação dos espaços

que, enquanto materialização de uma memória, é igualmente um campo de disputas e tensões, se situando, assim, entre os dois conceitos. (LE GOFF, 1992).

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Os locais entendidos como lugares de memória são como indicadores da lembrança coletiva de um grupo, fundamentando e reforçando os sentimentos de pertencimento, coesão

social pela adesão afetiva de um grupo a um local ou uma causa (POLLAK, 1989). Dessa forma, a eleição de determinado espaço representa determinado momento e classe social, ou seja, é a

instrumentalização do passado com a criação de símbolos através da qual se cria uma imagem do passado.

No entanto, nesse processo de ressignificação e construção de símbolos do passado, a

prática do exercício do esquecimento é constante, pois não é uma ação culturalmente neutra que

possa ser reabsorvida homogeneamente por toda a sociedade. A preservação de um espaço e sua e históra é, antes, prática social que acrescenta novos bens, valores e processos culturais à

experiência da comunidade envolvida (ARANTES, 1987). Ela é sempre uma forma de intervenção. Muitas vezes, acontecimentos traumáticos do passado tendem a ser rejeitados pela

sociedade ou pelo poder público na construção da memória oficial. Esse movimento é realizado em nome da construção apaziguadora, ou mais aceitável, da história coletiva sob a alegação de

cicatrizar feridas; é o que pode ser chamado de “esquecimento-negação”, ou a anti-memória causada pelos efeitos de uma política, muito mais do que pela intenção desta (JOHANN MICHEL, 2010).

Nesse aspecto, faz-se essencial uma clarificação em relação ao tipo de lugar de memória

ao qual tratamos nesse trabalho: ambos os sítios foram, por diversos anos, prisões, sedes de diversas situações atrozes, violentas e desumanizantes. Vê-se, portanto, que o tratamento em relação a esses locais deve levar em conta que, por um lado, diversas forças pressionam a

sociedade a apagar a memória lá inscrita; e, por outro lado, diversas outras forças querem a propagação, ainda que escondida, dos valores cruéis do passado para o presente.

O conceito de violência ressonante (WHIGHAM, 2014), parece, assim, ser fundamental

para o tratamento da memória de sítios que foram palco de atrocidades. Trata-se de uma

violência de larga escala, que perdura muito depois da agressão física ter acabado, estendendose para além de sua localidade de origem e se perpetuando na sociedade por meio de ideias e

preconceitos, que carregam em si a violência. É o caso de pensamentos desumanizadoras que são repetidos e se consolidam na mentalidade social - as célebres frases “bandido bom é bandido

morto”, “direitos humanos para humanos direitos”, entre outras, servem para dar continuidade ao ideário de brutalidade que recai sobre os cidadãos em situação carcerária até hoje, mesmo tendo se passado anos desde o massacre do Carandiru, em 1992, por exemplo.

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É papel desses locais de memória lidar com a violência ressonante, para além da física. Assim, tão ou mais importante do que preservar o passado do local de violência, é criar maneiras

de transformar essa força negativa que paira a sociedade em uma força social, construtiva, que impacte no presente e no futuro. Com isso em mente, é possível refletir, em relação aos projetos estudados, de que maneira cada um consegue propor essa força de mudança social.

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III. Análise dos Projetos Centro de las Artes de San Luis Potosí - Carlos Suarez Fiallo (1884); Alejandro Sánchez García (2004) - San Luis Potosí, México

O projeto do Centro das Artes de San Luis Potosí foi escolhido como comparativo por

apresentar um passado semelhante ao do Parque da Juventude. Em seu terreno antes se

encontrava a Penitenciária de San Luis Potosi, projetada pelo arquiteto Carlos Suárez Fiallo no final do século XIX, que dispunha na época de um moderno sistema penitenciário, apresentando uma planta panóptica, com uma torre de vigilância no seu centro e oito seções concêntricas

espalhadas radialmente ao seu redor. Esse tipo de disposição permitia uma melhor visão e controle dos guardas sobre os presos dentro da instituição.1

Fotografia da fachada original do presídio. Fonte: website Taller 6A.

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"Centro de las Artes San Luis Potosí | Alejandro Sanchez - Archilovers." 19 Aug. 2012, http://www.archilovers.com/projects/63642/centro-de-las-artes-san-luis-potosi.html. Accessed 17 Jul. 2018.

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A prisão, que funcionou por 105 anos, fechou em 1999 devido ao grande número de presos que excedia seu limite de capacidade e também devido ao crescimento urbano da cidade de San Luis Potosi, passando ao longo dos anos a fazer parte do centro da cidade que se expandia, e não mais da periferia, gerando repreensão por parte da população.2

Em 2004, Alejandro Sánchez García, arquiteto sócio do escritório Taller 6A, foi nomeado

ganhador do concurso organizado pelo Departamento de Cultura do Estado de San Luis Potosí,

que buscava um projeto para um centro de artes como intervenção e ressignificação da antiga penitenciária do estado.

De acordo com o próprio site do Centro de Artes, os objetivos da instituição são oferecer educação, formação e atualização artística com enfoque multidisciplinar, buscando também promover artistas locais e internacionais.3

O terreno da instituição possuí 40,177m2 e 33,755m2 de área construída. A arquitetura da

penitenciária foi completamente restaurada, com um projeto de intervenção baseado no plano

original do presídio. A fachada e seus muros foram mantidos, assim como a torre central e suas oito seções concêntricas, a primeira fazendo parte da Praça Centenário e as últimas se tornando

espaços que abrigam as áreas acadêmicas, uma biblioteca, a Galeria Principal, o Museu de Sítio, um pátio ao ar livre, uma livraria e um passeio perimetral de 1,5km.

Seguindo recomendações do INAH (Instituto Nacional de Antropología e Historia),

instituição que busca cuidar do patrimônio nacional, buscou-se aproveitar os espaços construídos e promover a simetria. Os edifícios que não pertenciam a estrutura original foram removidos:

a

ala

feminina,

a

enfermaria

e

a

área

psiquiátrica.

2

"Una Cárcel convertida en el Centro de las Artes en SLP - El Souvenir." https://elsouvenir.com/carcelconvertida-centro-de-las-artes-slp/. Accessed 17 Jul. 2018. 3 "Espacios Arquitectónicos - Centro de las Artes de San Luis Potosí." http://centrodelasartesslp.gob.mx/ceart/CEARTSLP/Conocenos/EspaciosArq/. Accessed 17 Jul. 2018.

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Plantas térreo e 1° andar. Fonte: website Taller 6A. O estigma associado a um sistema penitenciário, impactante sobretudo dentro de um

país com grandes conflitos sociais, requer mais do que uma intervenção estética e funcional para ser superado. Assim a intervenção se iniciou simbolicamente com a remoção dos blocos de

pedra calcária que formavam as celas das prisões, buscando uma transformação mais profunda que pudesse tanto fisicamente quanto metaforicamente dar um novo significado para aquele espaço.4

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"Centro de las Artes San Luis Potosí | Alejandro Sanchez - Archilovers." 19 Aug. 2012, http://www.archilovers.com/projects/63642/centro-de-las-artes-san-luis-potosi.html. Accessed 17 Jul. 2018.

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Através do relato de um visitante ao centro, e de sua visita guiada, podemos ter uma imagem de como se reconhece esse espaço hoje após sua reforma em contraste com seus usos

prévios. A fachada, mantida em forma de fortaleza anuncia logo de início a existência de uma outra história do edifício.

Logo na entrada encontra-se uma esplanada onde havia uma fonte ao redor da qual se

reuniam os visitantes, e onde os internos eram registrados ao chegarem na penitenciária.

Esplanada na entrada do CEART. Fonte: website Taller 6A. Onde antigamente era o refeitório, construiu-se o Teatro Polivalente, que hoje possui

diversos usos e cenários diferentes, tendo capacidade para até 700 pessoas. O mesmo acesso que

antes levava ao refeitório também levava ao centro de recreação onde, em dias de visitas, os reclusos podiam vender os pães ou os artesanatos que produziam, criando uma sensação de mercado naquele espaço. Esse espaço se tornaria o Jardim de Pirules.

O que era antes a área esportiva da penitenciária, se tornou uma praça pública tendo um

espaço que consegue receber até 5 mil pessoas, recebendo rotineiramente eventos culturais e sociais, como casamentos ou graduações, e principalmente concertos e festivais.

Na parte traseira do edifício construiu-se um palco ao ar livre, no mesmo espaço onde

antes existia uma serralheria, onde hoje acontecem os concertos de música. Esse palco destacase por ser uma plataforma sobre um espelho d'água, assim o som viaja através da água e

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reverbera nos muros originais de pedra, gerando assim um fenômeno de “acústica quase perfeita” em que se dispensa o uso de microfones ou de qualquer outro tipo de áudio especial.

Palco ao ar livre aos fundos do edifício. Fonte: website Taller 6A. A nova livraria, com capacidade para até 400 pessoas, é destinada ao encontro,

promoção, difusão e veiculação das artes cênicas em seus diferentes formatos, propostas e estilos, através de um programa difuso.5

Ao entrar no edifício uma das primeiras coisas que se encontra é uma pequena sala com

fotografias de sua época como penitenciária, onde é possível escutar uma breve explicação de

como se distribuía seu espaço e quais eram suas principais funções. O edifício onde fica o acesso principal, que corresponde a uma das 8 antigas seções, hoje é dedicado a exposições temporárias, e suas celas são espaços de expressão artística para exibições itinerantes, enquanto o segundo piso ficou dedicado à área administrativa.

Uma das células foi mantida em sua forma original para que os visitantes pudessem

entender como se mantinham os presos. A cela possui 4x2,5m, espaço onde chegava a conviver

12 pessoas ao mesmo tempo. A cela fica exposta mantendo-se seu piso e sua porta de metal

5

"Espacios Arquitectónicos - Centro de las Artes de San Luis Potosí." http://centrodelasartesslp.gob.mx/ceart/CEARTSLP/Conocenos/EspaciosArq/. Accessed 17 Jul. 2018.

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original. As outras antigas celas são hoje salas para os alunos de prática de instrumentos e criação de obras. O espaço do CEART transformou-se de um lugar de memórias infelizes em um espaço

de ensino e arte. Praticamente toda sua planta original foi mantida, salvo a construção de

anexos, assim como diversos aspectos arquitetônicos do edifício. No entanto sua arquitetura e a própria instituição evidenciam a todo momento esse passado em uma tentativa de não apagá-lo, e sim exaltar a possibilidade de ressignificação de um espaço e sua história.

Antiga cela, agora sala de exposição de fotografias da época do presídio. Fonte: website Taller 6A.

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Corredor das salas de aula, antigas celas. Fonte: website Taller 6A..

Sala de danรงa e ensaios. Fonte: website Taller 6A. 12


Parque da Juventude e Biblioteca de São Paulo - Aflalo/Gasperini arquitetos - 2010 São Paulo, Brasil O caso do Parque da Juventude, por sua vez, construído onde antigamente se localizava a

Casa de Detenção de São Paulo - popularmente conhecido como Carandiru - apresenta uma forma distinta de lidar com a memória do lugar em comparação com o Centro de Las artes de São Luis Potosí.

Em outubro de 1992 ocorreu o maior massacre da história carcerária brasileira, dentro do

pavilhão 9 da Casa de Detenção. Com 111 mortes, segundo os dados da Polícia Militar, ou mais

de 200 de acordo com movimentos sociais6; o Carandiru se tornou além de um lugar significativo para as famílias das vítimas, um registro da história brasileira, que evidenciou as trágicas condições dos presídios no país; um espaço de luto e luta.

Após o ocorrido, estudou-se a possível desativação do complexo e a implementação de

outro equipamento urbano no local. Foram apresentados diferentes propostas de uso para a

área, como a construção de conjuntos habitacionais ou espaços comerciais, mas o vencedor do concurso realizado foi o escritório Aflalo e Gasperini Arquitetos, com o projeto de um parque urbano. Assim, em 1998 foi decretado a desativação do presídio.

No entanto, vale ressaltar que além do massacre existiram outros motivos para a desativação. Como apontado por Formick e Namur, a existência da Casa de Detenção fez com

que o entorno da região se tornasse degradado, e assim, com que os imóveis fossem

gradativamente sendo abandonados. E também, com o crescimento da cidade de São Paulo, a

prisão que, inicialmente construída em XX por Ramos de Azevedo, localizava-se nas bordas da cidade, passou a estar na região mais central da Zona Norte, no distrito de Santana. Surge assim

uma pressão tanto imobiliária quanto dos moradores da região para a desativação do Carandiru. A implementação do parque, como colocado por Formick e Namur, vem numa tentativa de

justamente recuperar essa área degradada da cidade, e valorizá-la, o que, segundo os dados de sua pesquisa7, foi concretizado.

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BORGES, A. C. “ Há 25 anos, massacre do Carandiru resultou na morte de 111 detentos”. Folha de

São Paulo [São Paulo, SP]. 2 out 2017. In: https://www1.folha.uol.com.br/banco-de-dados/2017/10/1923603ha-25-anos-massacre-do-carandiru-resultou-na-morte-de-111-detentos.shtml Acessed 31 Jul 2018 FORMICKI, Guilherme Rocha e NAMUR, Marly. A transformação em áreas de lazer de espaços

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anteriormente degradados - análise do Parque da Juventude como estudo de caso. 2014

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Ademais, o parque exerce um papel importante na Zona Norte da cidade, uma vez que contempla uma região carente de espaços de lazer, tendo em vista o elevado número de residentes e sua distância em relação ao centro da cidade, onde se concentram tais

equipamentos. O grupo visitou o local e de fato comprovou uma intensa movimentação existente, impulsionada também pela estação de metrô nas proximidades, e pela localização de

uma ETEC no interior do parque. Conversando com as pessoas que passavam por lá, foi possível verificar uma satisfação elevada acerca do espaço. Porém, tendo em vista os objetivos da pesquisa, cabe analisar o projeto do ponto de vista da memória do local, o quanto foi preservada e respeitada com a implementação do parque.

Dos edifícios originais do complexo de detenção apenas remanescem dois, os pavilhões 4 e 7, que foram convertidos em edifícios institucionais, a ETEC, enquanto que todos os outros

foram demolidos. No entanto, dos pavilhões demolidos apenas os 2 e 5 tiveram suas áreas ocupadas por um novo edifício, dando origem a uma biblioteca, os 6, 8 e 9 não deram lugar a nenhuma construção.

No geral, todo o espaço onde situava-se o complexo (área laranja do mapa 2) evidencia-se

mais como uma praça do que um parque, servindo de área de transição da avenida onde passa o

metrô até a área mais arborizada - característica destacada pelo desenho forte da via de caminho

que por ela atravessa. Já avançando em direção ao parque, vê-se do lado esquerdo uma escultura de porte médio, que faz menção do massacre - porém, em sua inscrição vista na imagem abaixo, fica claro o papel mais de marco político do que de monumento à memória do local.

Inscrição do monumento no Parque da Juventude. (Foto tiradas pelo grupo na visita ao parque).

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Entrando no local, através de uma ponte sobre um canal, tem-se à esquerda, uma área mais arborizada onde é possível distinguir um muro e algumas ruínas ao fundo. Ao lado daquele

encontra-se uma escada de metal, implementada após a construção do parque para que a população tivesse acesso, e de material propositalmente contrastante com o concreto do muro.

Avançando mais, chega-se à ruína do que parece ser a antiga penitenciária - local que transmite sensação de forte carga histórica, podendo-se nele distinguir até a área das celas e o pátio central, num modelo panóptico. Mas tal percepção de um lugar de memória se revela errônea numa análise mais cuidadosa. Aquilo que parece ser a ruína do local onde houvera o massacre é antes o resto inacabado de um conjunto penitenciário jamais concluído.

Estrutura de acesso aos muros do Carandiru II.

Ruínas da construção do Carandiru II

(Fotos tiradas pelo grupo na visita ao parque)

Mas o visitante que por lá passa fortuitamente não tem como ter consciência disso,

sobretudo porque a área onde realmente se situava o pavilhão número 9 (retângulo vermelho no

mapa 1a não possui qualquer demarcação espacial no projeto atual do parque. Isto é, ela está

situada parte num estacionamento, parte num playground infantil e ainda parte no caminho que

fazemos para chegar ao parque (conferir mapa 1a e 1b). Tem-se portanto uma situação complexa:

a ruptura da memória de seu receptáculo espacial, não só porque ele fora demolido, mas também porque onde ele se colocava foram erigidas estruturas que não parecem ter qualquer relação com

um local com carga tão pesada. Mais ainda, um espaço que não recebeu qualquer peso histórico, nunca tendo sido usado para seu propósito inicial foi elegido como local de memória.

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Mapa 1a. Foto aérea do parque demarcando os edifícios do Carandiru demolidos. Fonte: Google Earth.

Mapa 1b. Foto aérea do Casa de Detenção antes da sua desativação. Fonte: Google Earth. Um dos pontos mais essenciais para a experiência de transformação da violência ressonante (WHIGHAM, 2014) é a presença física e ativa do visitante no sítio. Os frequentadores são potenciais fontes de informação objetiva e subjetiva, que podem ajudar a criar o espaço de

memória, se as práticas propostas pelo projeto póstumo assim permitirem. Vê-se, nesse aspecto, uma grande diferença entre o Centro de Artes San Luis Potosí e o Parque da Juventude, uma vez

que, como mencionado, um visitante ao Parque possa circular pela extensão inteira do sítio sem se deparar com qualquer situação ativa de rememoração ou reflexão acerca do passado. A

simples presença de um monumento, ou de ruínas, não traz um real significado para quem

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passeia pelo Parque da Juventude, como afirma Robert Musil em sua frase “There is nothing as invisible as a monument”. Faz-se necessário, ainda, ressaltar que existe, além da presença singela do monumento,

um pequeno museu penitenciário do Governo Estadual que se localiza fora do parque, ao leste.

Porém, essa instituição é mais um desserviço à memória das atrocidades cometidas no

Complexo Carandiru: sua exposição é de cunho técnico-histórico, tratando principalmente dos diferentes sistemas penitenciários, sua evolução e o modo como sua implantação se deu em São Paulo, não sendo feita menção alguma ao massacre ocorrido, uma vez que se referem a ele

apenas como um motim, não parecendo haver nele um foco de interesse nem a motivação principal para a existência do museu.

Em suma, percebe-se que o projeto do parque não tem como eixo principal um diálogo

com a memória - ainda que esta seja abordada tangencialmente por meio do monumento e pelas falsas ruínas. Diferente do exemplo de San Luis Potosí o uso recreacional não é uma forma de

dar vida à um local com um passado marcante, mas esquecê-lo e superá-lo. Isso se faz evidente principalmente pela ausência de uma demarcação espacial que permita relacionar o espaço presente com o espaço anterior.

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IV. Conclusão individual A partir da análise dos projetos escolhidos, e tendo como base a bibliografia levantada, é

possível depreender pontos essenciais na compreensão de lugares de memória sob a perspectiva da memória do cárcere e da ressignificação desses locais.

A discussão em questão está, primeiramente, ligada à ideia de se conseguir alcançar ou

não uma construção de cidadania em relação ao tema. Transformar espaços carcerários em

locais voltados à outros usos, respeitando as histórias anteriormente vividas, e desenvolvendo uma força social construtiva, de fato não é uma tarefa simples, e geralmente é realizada sem êxito. Tendo em vista a carga negativa que trazem, profundamente marcados pelas histórias as

quais foram palco - sobretudo devido a violação dos direitos humanos, como foi colocado anteriormente-, o processo de ressignificação desses lugares muitas vezes é encarado justamente como uma oportunidade de se esquecer e apagar o que fora vivido.

Nesse sentido, é perceptível como as ações ligadas à reconstrução da história, a partir da

memória, não é algo neutro e parcial. Está submetido a manipulações de ordem política e ideológica, e no caso dos espaços carcerários, é evidente como as renúncias nos processos de

ressignificação dos locais definem não apenas aquilo que não deve ser lembrado, mas caracterizam a forma como a lembrança é construída.

Sendo assim, quando observamos os pensamentos desumanizadores que se consolidaram

como mentalidade social, anteriormente explicitados na monografia - “bandido bom é bandido morto”, “direitos humanos para humanos direitos” -, é possível concluir que, no que tange a esse assunto, a construção de cidadania não fora alcançada. E tal fato está intimamente ligado à

forma como encaramos e lidamos com o tema, isto é, o modo como os acontecimentos são interpretados, e mais precisamente, como é feito a reconstrução dessas histórias a partir da memória

O Parque da Juventude de São Paulo, construído onde se localizava a Casa de Detenção

Carandiru, é um exemplo preciso disso. Como analisado anteriormente, tanto a partir do estudo do projeto realizado, como a partir da visita a campo, foi possível verificar que há uma ruptura

da memória de seu receptáculo espacial, não apenas porque grande parte do complexo

carcerário que existia fora demolido, mas também por não haver demarcações espaciais e informativas, apenas um monumento que passava despercebido, por se localizar numa pequena porção isolada de um parque extenso, além de ter um papel muito mais de marco político do que

de consideração à memória do local. Assim, a maioria dos visitantes não tinham consciência do

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que era o espaço antigamente ou do que ocorrera lá - fato que foi comprovado a partir das entrevistas realizadas pelo grupo com as pessoas que passeavam pelo local. Ademais, a presença do museu penitenciário do Governo Estadual, localizado próximo

ao parque, retrata nitidamente o intuito de se construir uma lembrança bastante alterada em relação aos fatos ocorridos, uma vez que não aborda realmente as atrocidades que foram

cometidas no complexo, e se refere ao massacre apenas como um motim, quase que justificando de certo modo a tragédia e ausentando a responsabilidade do Estado sobre o que ocorrera.

Construções ideológicas como essas são responsáveis por uma consolidação ainda maior dessa mentalidade social desumanizadora.

Em contrapartida, o projeto do Centro de Artes de San Luis de Potosí, representa o

reconhecimento e o entendimento da importância das referências vividas anteriormente no

local, não apenas por ter tido quase a totalidade de sua planta original mantida, como também devido à presença, desde a entrada do edifício, de fotos e relatos que consideram a história e retratam a antiga penitenciária ali existente. Assim, o processo de ressignificação nesse caso, ao

oferecer atividades de educação e artes à população, pôde explorar as potencialidades

pedagógicas do espaço, mas sem abandonar a dimensão política que o local também compreendia.

Portanto, em oposição ao modo como fora realizado o projeto do Parque da Juventude em São Paulo, casos como o do projeto em San Luis de Potosí contribuem positivamente para a

construção dessa cidadania, devido não apenas às inovações dos usos pedagógicos propostos,

mas sobretudo à construção de uma verdadeira consciência acerca dos conflitos sociais ligados ao sistema carcerário. Sem haver a intenção de apagar da memória da população ou de reforçar o estigma sobre o tema, mas de exaltar a possibilidade de ressignificação de um espaço a partir do respeito e consideração com as histórias anteriormente vivenciadas.

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V. Bibliografia ANTONINI, Anaclara Volpi. Lugares de memória da ditadura militar em São Paulo e as

homenagens ao operário Santo Dias da Silva. São Paulo, Universidade de São Paulo, 2017. CALLIARI, Mauro. O Parque da Juventude: O poder da ressignificação. Disponível em:

<http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/14.162/5213>. Acesso em: 02 maio 2018. BORGES, A. C. “ Há 25 anos, massacre do Carandiru resultou na morte de 111 detentos”. Folha de São Paulo [São Paulo, SP]. 2 out 2017. In: https://www1.folha.uol.com.br/banco-dedados/2017/10/1923603-ha-25-anos-massacre-do-carandiru-resultou-na-morte-de-111detentos.shtml Acesso em 31 Jul 2018. FORMICKI, Guilherme Rocha e NAMUR, Marly. A transformação em áreas de lazer de

espaços anteriormente degradados - análise do Parque da Juventude como estudo de caso.

Disponível em Anais do II ENANPARQ - Arquitetura, cidade e projeto uma construção coletiva. São Paulo; Campinas. Universidade Presbiteriana Mackenzie, Pontifícia Universidade Católica de Campinas, 2014.

GARCÍA, Alejandro Sánchez. San Luis Potosí Arts Center. 2016. Disponível em:

<http://hicarquitectura.com/2016/03/alejandro-sanchez-san-luis-potosi-arts-center/>. Acesso em: 02 maio 2018. GASPERINI, Gian Carlo. Biblioteca Parque da Juventude. São Paulo, J. J. Carol, 2010. NEVES, Deborah Regina L. O símbolo de uma história escolhida: o patrimônio cultural e a

difícil tarefa de construir a memória da ditadura. Revista Memória em Rede vol. 2 n. 6 (2012). NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História 10. São Paulo: PUC-SP, 1993, pp. 7-29

PEREIRA, Matheus. Parque da Juventude: Paisagismo como ressignificador espacial. 2017. Disponível em:

<https://www.archdaily.com.br/br/880975/parque-da-juventude-paisagismo-comoressignificador-espacial>. Acesso em: 02 maio 2018.

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SEGAWA, Hugo Massaki. Memórias do Cárcere: Penitenciária de San Luís Potosí e Eastern State Penitentiary. São Paulo, Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, 2014.

WHIGHAM, Kerry. Filling the Absence: the re-embodiment of sites of mass atrocity and the practices they generate. Leicester, Museum Studies at Leicester University, 2014

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Profile for Mariana Assef Lavez

Lugares de memória: a ressignificação dos espaços carcerários como espaços de cultura  

Esta pesquisa aborda o tema lugares de memória, focando, a partir do estudo comparativo entre o Parque da Juventude e o Centro de las Artes...

Lugares de memória: a ressignificação dos espaços carcerários como espaços de cultura  

Esta pesquisa aborda o tema lugares de memória, focando, a partir do estudo comparativo entre o Parque da Juventude e o Centro de las Artes...

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