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Trabalho desenvolvido no âmbito do projecto final de mestrado em Comunicação de Ciência Fotografias e outros conteúdos disponíveis em: xploredesign4scicomm.wordpress.com

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Um olhar antigo para o futuro Maria João Horta Parreira (texto e fotografias)

“Isto vai de mal a pior” – Inês não suporta esta frase. Parece que a maioria dos portugueses engoliu um disco riscado, sempre a mesma música, que até pode dar jeito. Hoje está de mau humor, mas não é por isso que embirra com a senhora da frente, que acabou de dizer essa frase e outra também conhecida “A juventude já não é o que era”. Tinha-se esquecido dos auriculares e essa é a principal razão do mau humor. Podia ouvir música mais interessante. Finalmente o 18 chega à paragem e a Inês sai. Na cidade anda quase sempre de metro ou a pé, mas hoje optou pelo eléctrico. Parece até que está fora de Lisboa, agora percebe porque é que os residentes da Ajuda dizem frequentemente: “Vou até Lisboa”. É uma expressão que já vem de há muito. Nos últimos 2 anos tem sido voluntária num jardim – o seu quintal como chama – o Jardim Botânico da Ajuda (JBA).

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Sempre que entra ali parece que o tempo pára ou melhor, que pode viajar no tempo e no espaço. Tem aprendido muito no seu quintal. Falar com as pessoas também tem ajudado. Outros voluntários, estudantes, investigadores, funcionários do jardim e até com os visitantes. Nunca imaginou que um jardim, aliás um jardim botânico, fosse assim tão importante e tão ligado à história da cidade e à universidade. Gostava que o JBA fosse mais reconhecido. O tempo tem passado e em 2018 o seu quintal completa 250 anos, de muitos outros que virão. Antigamente não havia o hábito de passear num jardim, as senhoras saíam de casa apenas para ir à missa e pouco mais. Esta ideia reforça o mau humor de Inês que não consegue imaginar-se nesse tempo. De qualquer modo, agora que está enraizado o hábito de passear em jardins, o JBA não é assim tão conhecido. O dia está bonito, apesar do frio, e a Primavera está a chegar. Os colegas ainda não chegaram. Aproveita e dá uma volta. Inês é jovem, 23 anos, decidida e temperamental. Namorou durante 3 anos com Duarte, um arquitecto paisagista, 4 anos mais velho, que lhe apresentou o “quintal”. Ele foi estudante no Instituto Superior de Agronomia (ISA). “É o ISA que tutela o jardim Página 3 de 14


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botânico da Ajuda desde a implantação da República em 1910. Antes, era da realeza e de acesso restrito” - Inês adorava ouvir o Duarte. Mas a relação terminou há 3 meses e as saudades vão marcando presença. Aprendeu imenso com ele. Especialmente sobre a ligação da história da cidade de Lisboa ao JBA. Nunca ligou às aulas de história e de botânica no secundário, considerava-as uma seca. Gostava era das aulas de educação física e foi essa a área profissional que seguiu. Mas, agora que vem com frequência ao seu quintal, percebeu que as plantas têm muitas histórias para contar e que se relacionam a várias áreas como a geologia, a sociologia, ciências farmacêuticas, e muitas outras. Sentir essas histórias foi o gatilho para um novo olhar. A botânica e a história podem ser reveladoras. A memória é vital. É mais fácil proteger o que conhecemos e amamos. Antes do terramoto de 1755, o espaço onde foi fundado o JBA era a “Quinta de Frutta e de Hortalize”, como alguns chamavam na época. Aliás, da encosta sul da Serra de Monsanto até ao rio, nessa altura, eram várias as quintas – a quinta de cima, a quinta Página 4 de 14


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do meio, a quinta de baixo. Eram utilizadas pela família real e os seus convidados como um espaço de recreio e lazer, já que a sua residência oficial ficava no centro de Lisboa. Inês gosta de imaginar esse espaço nessa altura. O que mais a impressiona é que, apesar da tragédia do terramoto, a força e a motivação humanas - além das influências políticas e interesses reais – possibilitaram a fundação do primeiro jardim botânico português, em 1768, na Ajuda. De notar que essa zona registou maior imunidade aos estragos provocados durante o sismo de 1755 e esse foi um facto importante para a sua fundação. No século 18, era a primeira e a mais importante instituição dedicada ao estudo da história natural do país. Inês olha para os dois bustos que são a referência da entrada do antigo museu de história natural e da casa do risco, construídos em conjunto com o JBA. Hoje podem passar despercebidos. Já a fonte das 40 bicas é o ex libris do JBA. Hoje, os visitantes são poucos, a maioria estrangeiros. Parece que os portugueses valorizam pouco o seu património, talvez não. Já nas invasões francesas, muito do património deste jardim botânico foi resgatado, tal era a preciosidade. Fica triste quando ouve críticas pouco construtivas de alguns visitantes. Página 5 de 14


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O sol aquece as costas de Inês, que se esticou num dos bancos de pedra lá em baixo. Os seus colegas já chegaram, está a ouvi-los ao longe no tabuleiro superior. Segue pela escadaria central. Hoje vão mondar as ervas daninhas nos vários canteiros da colecção botânica. A Inês está quente e energética e pronta para começar a trabalhar. A colecção tem 8 regiões e são 16 voluntários, nada mal. Assim 2 pessoas por cada região já é alguma coisa. Começaram do lado Oeste, do portão da Calçada do Galvão, onde está o restaurante Estufa Real – há quem diga que serve o melhor brunch de Lisboa. Os canteiros da América do Sul são mondados e por aí sucessivamente até África, do lado Este, do portão da Calçada da Ajuda. Desta vez ficam só pelo tabuleiro superior, o da colecção botânica, o local de estudo. Lá em baixo o lazer é rei e, no passado, a cabra-cega era um jogo muito praticado. Os labirintos de buxo eram o local ideal para a brincadeira, especialmente à noite. Inês vai olhando para as placas de identificação, com os nomes científicos das plantas. “São mesmo esquisitos os nomes!”, pensa. Mas reconhece algumas palavras. Fixou o nome de uma das plantas, na zona da Macaronésia – Euphorbia piscatoria. Parece que Página 6 de 14


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esta planta produz uma toxina que foi utilizada antigamente na pesca, para atordoar os peixes. Interessante. Observa as pessoas que estão no jardim. Uns contemplam, outros tiram fotografias. Alguns não resistem e cheiram as flores. Os funcionários do JBA cuidam deste espaço diariamente. Um jardim é como uma orquestra em que todos os instrumentos se interligam. E a música acontece. Uma das funcionárias vai agora para a estufa das avencas. Hoje vai dedicar-se às plantas aquáticas. Inês vê o Sr. Joaquim lá em baixo, sentado num dos bancos de pedra. Já vai conhecendo os “habitués” do seu quintal. O Sr. Joaquim adora este espaço. Sente-se feliz por poder usar este jardim de um modo íntimo, no fundo considera-o uma segunda casa. Vive ali ao lado há tantos anos que já lhes perdeu a conta. Está perto dos 70 anos, mas mantém a jovialidade e o sentido de humor de quando era um rapazola e alinhava nas corridas pela Calçada da Ajuda abaixo, com os miúdos da vizinhança, e que terminavam em belos mergulhos no Tejo. Recorda-se do seu pai falar do ciclone de 1941 e dos estragos que provocou. Muitas das árvores foram arrancadas, especialmente as do terraço inferior, o

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que até foi considerado positivo, mais tarde. Agora é possível, do terraço superior, ter uma vista desafogada para o rio. Antigamente mal se via. Imagina a sequência de gerações que por ali passaram e admiraram esta referência nacional. O esforço, o suor, a dedicação, a perícia e o génio dos que esculpiram, mentalmente e fisicamente, este oásis. Um espaço de contemplação, lazer, de educação, investigação, de ciência, com um forte compromisso social. Um espaço vivo, onde água, pedra e plantas se interligam, à moda dos grandes clássicos. Inês vai mondando e espreitando os visitantes que passam, de vez em quando. Há pouco viu uma senhora, com os seus 60 anos, a fotografar o dragoeiro, o símbolo do JBA. Dizem que tem cerca de 400 anos e que já cá estava quando o JBA foi fundado. Ficou emocionada com a expressão de alegria dessa senhora a fotografar. Como pode uma planta suscitar emoções de alegria e compaixão no ser humano? Há tempos, um casal australiano disse que veio de propósito a Lisboa para conhecer o JBA. Conheciam a história deste museu científico e, como apaixonados por jardins históricos, fizeram questão de o conhecer pessoalmente. A crítica foi positiva. Escreveram uma nota no livro de visitas, esperando voltar noutra oportunidade. Página 8 de 14


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Inês não gosta de usar luvas. Prefere mexer na terra directamente e sentir o seu cheiro, especialmente da terra molhada. Não se importa de tocar nalgum bicho que apareça, uma aranha, uma minhoca. Os pavões são os guardiões, melhor dizendo, os comilões do JBA. “Deviam era comer as ervas infestantes, assim ajudavam a equipa de jardinagem e os voluntários” – pensa Inês enquanto arranca uma das infestantes. Mas não, são selectivos. Parece que a rúcula e as violetas são as predilectas, se bem que devoram quase tudo e por isso algumas plantas da colecção têm de ter uma rede de protecção. Dizem que os humanos sofrem de cegueira botânica. Bem os pavões não devem sofrer. Inês vai sorrindo à medida que os pensamentos fluem. O conceito de cegueira botânica é interessante. É como se os seres humanos precisassem de uns óculos para (re)conhecer ou valorizar as plantas, não só quanto ao lado estético. Ver mais além. Articular as suas funcionalidades na teia complexa da biodiversidade. Para quê conhecer as plantas que existem nas cidades? Ou nas dunas nas praias? Ou na floresta? Qual o interesse e utilidade? Também já assistiu a algumas visitas com grupos escolares. O JBA pode ser um objecto de estudo interessante para as turmas dos vários níveis de ensino. Estudar a forma dos Página 9 de 14


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diferentes tipos de plantas pode ser muito mais fácil se as plantas forem visualizadas ao vivo, de um modo inovador, e não só em livros. Está a pensar realizar o curso de Guia do JBA. Assim, aprenderá ainda mais e pode espalhar o que aprendeu, lançar sementes para o futuro. Imagina o nome da sua marca: Treat Plant Blindness. Hoje esteve muito pensativa com os seus botões. O colega que a acompanhou também esteve introspectivo. O trabalho foi produtivo. São já 17h e o jardim está para encerrar. A sensação de entreajuda é uma constante. Muitas pessoas não fazem ideia dos recursos necessários para manter um espaço como o JBA. E os recursos não são abundantes, os cortes têm sido transversais. Mesmo assim, é possível sentir a beleza, a magia a acontecer. A cidadania é uma prática muitas vezes incompleta. Já na saída ouve-se um dos visitantes a reclamar quanto ao estado do JBA: “Isto vai de mal a pior”. Inês tenta conterse, mas explode e questiona: “E o que é que tem feito para ajudar a mudar a situação? É mais fácil criticar do que arranjar soluções!” – o silêncio fica no ar.

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Irritada, vai para a paragem do 18. Está com vontade de se enfiar na banheira, água quente com muita espuma e música para relaxar. Ouve um carro a aproximar-se. O vidro abre-se, a música invade a paragem e o rosto do Duarte surpreende Inês. Sem saber o que dizer, ouve o Duarte a perguntar: “Queres entrar e conversar um pouco?”. A música é envolvente e Inês responde: “Sim, pode ser”, entrando no carro. Não trouxe os auriculares e até calha bem. Pode conversar com o Duarte e explorar mais e melhor o cuidar do seu quintal. Lá no fundo sente-se protegida e amada. FIM Fotografias: notas breves, explicativas da narrativa visual em que o fio condutor foram as pessoas no JBA, incluindo a Inês, mesmo que de modo indirecto, no dia que lá passou como voluntária (fotos tiradas nos dias 20 e 21 de Fevereiro de 2018) 1. Os bustos e a porta de entrada do antigo museu de história natural e da sala do risco (tabuleiro inferior) 2. A fonte das 40 bicas e uma visitante a apreciar a beleza e o jogo de água (tabuleiro inferior) 3. A escadaria central e um visitante a descansar 4. Visitantes no JBA (tabuleiro superior) Página 11 de 14


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5. Pormenor de um canteiro da colecção botânica durante os trabalhos de manutenção 6. Elsa Breia, secretária da directora do JBA, a professora Dalila Espírito Santo, e responsável pelo banco de sementes. Elsa está a cheirar uma planta em flor da colecção botânica, uma planta medicinal da região mediterrânica, cujo nome comum é retama-branca (Lygos monosperma) 7. Um senhor sentado no banco do jardim, lá em baixo 8. Um visitante do jardim a olhar com curiosidade, no tabuleiro superior 9. O dragoeiro, o símbolo do JBA, com os pavões nos seus ramos, um dos seus locais favoritos 10. Vera Ferreira, da equipa de jardinagem do JBA. Pormenor da manutenção das plantas aquáticas na estufa das avencas 11. Vista do tabuleiro superior, o rio ao longe e uma perspectiva do tabuleiro inferior. Um visitante, em cima do tronco de uma árvore que foi cortada, na posição do Cristo Rei 12. Pormenor do eléctrico 18 na paragem em frente à porta principal do JBA (Calçada da Ajuda) Página 12 de 14


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As imagens da primeira e última páginas foram experiências realizadas numa sessão de heliografia que desenvolvi em panos de algodão com folhas de algumas plantas do JBA, no dia 17 de Setembro de 2013. Na primeira, em destaque a folha de Ginkgo biloba e, a adornar, folhas da Schotia afra. Na última, folhas da Schotia afra e do lado esquerdo uma folha de vinhático, Persea indica. A heliografia foi uma técnica precursora da fotografia e com ela podem desenvolver-se diversos materiais e composições artísticas.

Maria João Horta Parreira Março de 2018 www.xploredesign4scicomm.wordpress.com Página 13 de 14


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Um olhar antigo para o futuro  

Uma história desenvolvida no âmbito do meu projecto de mestrado em Comunicação de Ciência, na FCSH-Nova

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