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“TODOS POR ABRIL” COLETÂNEA DE CRÓNICAS E POEMAS

Carlos Seabra- Um Haikai por Abril Cláudia Sofia Alves Moreira- A minha primeira Primavera foi em Abril Jorge Rui Machado da Ponte Morais- Ao receberes esta missiva José Eugênio Borges de Almeida- Verdades obstruídas/ Caminhos Tortuosos

José Manuel dos Santos Manangão- Estava… Maria João Basílio Brito de Sousa- UM SONETO POR ABRIL Maria João Lopes Gaspar de Oliveira- Claridade de Abril Mário Francisco Rodrigues Silva- Eu mal sabia/ Esperança Nelson Bertini- Uma casa na Revolução Pedro Azinheira Santos- Um ex-sonhador Rosa Maria Pratas Balhau Pereira Coelho- TODOS POR ABRIL Rui Huet Viana Jorge- O MEU 25 DE ABRIL

PARTIDO COMUNISTA PORTUGUÊS Organização do Bonfim PORTO

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ÍNDICE

A minha primeira Primavera foi em Abril…………………………………………….7 Ao receberes esta missiva………………………………………………………………….11 Caminhos tortuosos……………………………………………………………………………13 Claridade de Abril……………………………………………………………………………….17 Esperança…………………………………………………………………………………………..21 Estava…………………………………………………………………………………………………23 Eu mal sabia………………………………………………………………………………………..25 O meu 25 de Abril……………………………………………………………………………….27 Todos por Abril……………………………………………………………………………………31 Um haicai por Abril……………………………………………………………………………..37 Um soneto por Abril……………………………………………………………………………39 Um sonho não concretizado………………………………………………………………..41 Uma casa na Revolução……………………………………………………………………...43 Verdades obstruídas……………………………………………………………………………47

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A todos os escritores, cronistas e poetas, de “Todos por Abril!”

À caixa de correio do PCP-Bonfim chegavam paulatinamente as palavras artisticamente trabalhadas por aqueles que, também desta forma, pretendem manter acesa a chama dos valores de Abril. Crónicas e poemas, expressivos das sensações ainda latentes daquilo que já foi chamado de “A última revolução Popular da Europa”, revelam no seu conjunto o impacto desse acontecimento histórico no quotidiano de cada um.

Nesse universo de heróis quase anónimos, está latente a alegria pela liberdade conquistada, a euforia pela certeza dum futuro mais justo que estava ali tão próximo, mas também, em alguns, o desânimo de quem sucumbe aos retrocessos a que toda e qualquer revolução está sujeita, antes que as futuras gerações façam germinar as sementes adormecidas e impulsionem a Humanidade outra vez no sentido da transformação contínua.

O júri constituído optou por excluir apenas os textos que não se adequaram ao tema proposto ou não respeitaram o sigilo requerido pelo uso do pseudónimo. Por não terem atingido o número de 20, considerou-se procedente a publicação de dois textos do mesmo autor, o que aconteceu em dois casos. O conjunto selecionado constitui amplo e rico painel, não só para análise do que foi e é o 25 de Abril, mas sobretudo para nos deixarmos transportar pelas palavras e sensações que elas evocam para o epicentro da revolução interna que estrutura a essência do ser humano.

Bem hajam! Com vocês, a luta continua! Por Abril. Todos! Pela Comissão Organizadora do 1º Concurso Literário Organização do Bonfim do Partido Comunista Português

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A minha primeira Primavera foi em Abril Cláudia Sofia Alves Moreira

Na casa onde eu nasci havia um pequeno quintal vedado por muros altos, onde cresciam algumas árvores de fruto. A mais bonita de todas era uma laranjeira frondosa, que deixava cair a sua sombra na erva fresca, que crescia indomável por ali. Eu tinha seis meses quando Abril trouxe a Primavera e os dias mais quentes. Aos Domingos, dia de descanso, a minha mãe punha uma manta de trapos no chão, perto da laranjeira e sentava-me em equilíbrio temerário no seu centro. Eu mantinha-me então sentada, muito direita e segura de mim mesma, rodeada de brinquedos improvisados, geralmente uma tigela e uma colher que me servia de instrumento musical. Usava um vestido bordado, de cor clara, muito curto, dentro da moda infantil dos idos anos setenta. A minha mãe era uma mulher bem disposta, serenamente bonita e que se sentava comigo na manta a bordar. Desses bordados ela faria os vestidos com que me enfeitava como se eu fosse uma boneca. O céu, muito azul, dava-nos conta que não haveria de chover tão cedo. Um pequeno aparelho de rádio a pilhas passava música, as noticias e depois ao final do dia haveria também de passar o terço. Deus, Pátria e Família. Eu brincava a bater com a colher na tigela, bem nutrida e feliz sem saber que morava num país que não era livre e que por isso mesmo, também eu não era livre. Também não sabia o que o meu futuro e felicidade estavam já hipotecados pelo regime imposto. Não sabia que os meus pais trabalhavam muito e mesmo assim passavam necessidades. Não sabia que os vestidos bordados nas longas horas de vigília eram pela necessidade e não pela vaidade. E eu crescia mais um dia.

A minha mãe lavava a minha roupa, ainda antes de ir para a fábrica, no tanque, em água gelada pela madrugada, porque não havia máquina nem ajuda de ninguém nas tarefas domésticas. Ela sabia que à noite quando chegasse da fábrica haveria pouco tempo e que esse pouco tempo era para fazer o jantar e tratar da casa. O meu pai estaria sentado a fumar o seu cigarro e a ouvir as notícias na rádio, saturado de um longo dia a soldar. As mulheres não tinham o direito ao descanso. E eu crescia mais um bocadinho.

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E depois à noite, ao chegar da fábrica, a minha mãe fazia a minha sopa com a metade da metade de um bife de vitela que eu comia feliz, sem saber que a sopa só tinha metade da metade de um bife de vitela. No final o meu pai saia para a rua todas as noites e a minha mãe ficava em casa a olhar pela janela, atenta a tudo. Sabia que ele regressaria tarde, esquecido dela, da vida e dele mesmo. E eu crescia mais um dia.

A minha mãe trabalhava na fábrica e fazia casacos em série. Não havia ordenado mínimo nem sindicato, as trabalhadoras não tinham férias nem subsídio de desemprego mas os donos da fábrica passeavam-se em carros de topo e faziam férias no estrangeiro. Elas, as costureiras, comiam os restos do jantar em marmitas de metal aquecidas. A minha mãe e as outras mulheres aproveitavam o resto da hora que lhe era concedida para o almoço e costuravam as roupas dos filhos e riam enquanto isso, mas no fundo havia tristeza e revolta porque trabalhavam tanto e mais que os maridos e ganhavam menos. Ali mesmo na fábrica ganhavam menos que os homens que faziam trabalho igual. Às vezes, até trabalhavam no mesmo lugar marido e mulher. O meu pai lutava para superar os dias na fábrica, longos, mal pagos, tremendamente difíceis. Não havia como barafustar sem retaliação. Em surdina, ele diria palavras menos bonitas para mitigar a revolta. Era preciso pagar as contas. Pagar a metade da metade do bife e um copo para o jantar. E palavras de revolta não pagavam as contas e à noite quando chegava a casa a minha mãe não falava porque cabia à mulher esquecer-se de si para tratar da família. Eu crescia, indiferente a estas desigualdades. Por vezes, enquanto de avental imaculadamente branco, a minha mãe lavava a louça do jantar, eu ficava na cadeira alta de bebé e o meu pai ficava a fumar à mesa, a olhar o infinito. Se eu tivesse idade suficiente saberia que havia medo no olhar da minha mãe pela revolta que sentia na alma do meu pai, por não poder ser livre e reclamar a vida que perdera em anos de ultramar. A minha mãe não sabia o que fazer pelo meu pai quando ele esfregava os braços como se tivesse dores e sofria. Debaixo das unhas dos pés do meu pai cresciam fungos que tinha trazido de África e ela sofria. Eu não sabia que aceitavam meninos na guerra, mas aceitavam. O meu pai foi combater aos dezassete anos lutando por algo que não tinha qualquer sentido. Vã glória de lutar por algo absurdamente errado. Eu crescia mais um dia, tenra idade alheia aos problemas daquela vida agreste. 8


A minha mãe continuava a bordar vestidos e a tricotar casacos de malha para me vestir e lembrava-se da própria mãe que a ensinara a cortar, a cozer, a bordar, a fazer das mãos instrumentos de trabalho. A minha avó teve muitos filhos porque era proibido fazer algo para não os ter e não havia o que dar de comer a tantos filhos. Ganhava as jornas que podia e algum dinheiro nos arranjos da costura mas não podia ter negócio, nem um emprego porque lhe era vedado, a ela e a todas mulheres daquele tempo. Era coisa para os homens. Sempre tinha sido. A minha avó dividia batatas e broa por todos e saciava assim a fome por mais um dia.

As mulheres cuidavam dos filhos, da casa, do quintal mas não lhes era reconhecida a valentia. A minha mãe era uma mulher inteligente, mas não podia votar. Eu nessa altura não sabia que eu um dia também não poderia votar. Isso era para os homens, os chefes de família e os que iam à faculdade. O meu pai pensava e votava, a minha mãe também pensava mas não a deixavam mostrar que pensava na hora de votar. Eu crescia e se soubesse tudo isto talvez já não quisesse crescer.

A minha mãe dava-me banho e olhava a minha cara a mudar de dia para dia, a crescer, a tornar-me menina e sonhava que um dia pudesse ser algo na vida. Se eu tivesse estado atenta teria visto a tristeza no seu rosto porque as mulheres não podiam ser juízas, nem empresárias, nem ter nenhum cargo administrativo ou público. A minha mãe suspirava, a tentar resignar-se a que o meu futuro fosse ser o mesmo que o dela, mãe de família, a ter que obedecer ao marido. Quando muito, ser uma austera professora da primária e ter que ficar solteira.

Depois, houve um momento em que algo mudou e eu nem me apercebi. Eu cresci a poder falar, a votar, a estudar, a trabalhar fora, a ser juíza, diplomata, professora ou hospedeira. A poder tomar a pílula, escolher com quem casar, a divorciar, a ser livre das grilhetas e das imposições ridículas e obsoletas de um regime ultrapassado.

Numa noite aparentemente como as outras, eu dormia sossegada na minha cama de grades. Tinha cinco meses e vinte dias quando soou a Grândola Vila 9


Morena no rádio. Eu não sabia o que isso queria dizer e os escassos meses de vida não me permitiram reter na memória o momento. Infelizmente. Foi um momento verdadeiramente importante e único na vida do país e das pessoas. Eu sei que a minha mãe sentiu uma alegria profunda pela libertação da sua pátria, do seu povo e sobretudo das mulheres. A minha mãe olhou-me a dormir no berço e chorou. Ela sabia que a partir dali eu teria a oportunidade de viver num país melhor, livre, democrático e mais justo. Suspirou de alívio e as lágrimas não eram de tristeza como de costume, mas de alegria.

A voz do Zeca tinha trazido a notícia que todos mais desejavam. A liberdade tinha chegado em Abril num fim de noite auspicioso. Um grupo de valentes tinha feito o que parecia a muitos impossível. Tinham deitado abaixo um regime de opressão, de inclemência, de injustiça e de intolerância. A ditadura caíra por terra. Finalmente.

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Ao receberes esta missiva Jorge Rui Machado da Ponte Morais

ao receberes esta missiva espero que entendas este meu grito de liberdade de igualdade de fraternidade o sentimento que suas entrelinhas escondem a vergonha que sinto ao ver os demais na rua mendigando e dormindo este nĂŁo foi o futuro sonhado apregoado num abril distante com que me fizeram fantasiar pela qual lutei ou talvez nĂŁo seja este o paĂ­s com que sonhei

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CAMINHOS TORTUOSOS José Eugênio Borges de Almeida

Eu acabava sempre por percorrer os caminhos mais tortuosos de Coimbra, enveredando por ruas pouco conhecidas, entrando em cafés pelo caminho, onde me demorava o tempo suficiente para me sentir confortável e ter a certeza que ninguém me seguia. No café perscrutava o ambiente, avaliava os olhares dos clientes, alguém suspeito, assim com ar estúpido de PIDE indisfarçável, sempre com vestimentas ultrapassadas, fora do contexto. Avaliava o empregado de mesa, se o seu comportamento era normal. Aquilo já estava se tornando uma paranóia. Todos eram suspeitos até provarem o contrário dentro da minha cabeça. Depois eu abria um mapa e localizava o meu objetivo. Quase sempre era uma parede ou muro suficientemente grande para pichar as mensagens. Trazia comigo três daqueles tubos com esponja na ponta, aqueles de engraxar os sapatos, que eu esvaziava, lavava e preenchia com uma infusão de nitrato de prata dissolvida em água. Ao fazer as pichações com aquele preparado durante a noite, nada aparecia, de modo que se alguém passasse e me visse escrever com água na parede, o máximo que poderia pensar é que tinha visto um louco a borrar uma parede com água. A escrita só se tornava visível com a ação da luz do sol, e surgia num negro forte, difícil de apagar, onde gritavam bem alto os dizeres: ”Abaixo a guerra colonial”, “Nem mais um soldado para as colônias”, “Independência já”, “Abaixo o fascismo”. Geralmente eu escolhia as horas mortas das noites escuras, sem lua e sem chuva e aproveitava para espalhar pela calçada os panfletos que havia imprimido no sótão da minha casa, numa caseira impressora que borrava as bordas dos comunicados e que era preciso deixar a secar por horas, assim presos em molas de roupa, antes de serem manuseadas. Entupia todas as caixas de correio com os comunicados e deixava-os estrategicamente colocados nas entradas dos liceus e na entrada das diversas faculdades da universidade. Evidentemente que esse trabalho era feito com muito cuidado. A perspectiva de ser preso e 13


torturado até que eu vomitasse alguma informação, não era nada agradável. O medo vivia agarrado nas pessoas e nos ouvidos das paredes nada fiéis ao que ouviam, vivia entranhado nas nossas cabeças, provocando ansiedades e noites mal dormidas. A porteira do meu prédio, uma baixinha anafada, comprimida num avental que de certeza serviu outra mais magra, andava desconfiada da minha solidão e das escorregadias respostas que eu lhe dava nas suas investidas coscuvilheiras, “Ó Dr. João, ontem chegou muito tarde, foi a alguma festa”? “Esteve a estudar na casa de alguma amiga”? Eu contornava aquelas perguntas com respostas que não traziam informação concreta que ela pudesse disseminar por todo o prédio e espalhar aos quatro ventos, “O Dr. João anda a namorar a Belinha aquela lourinha que estuda letras e acho que estão de casamento marcado”, ou assim... Não era má pessoa, mas na sua pouca inteligência, não negava informações a quem lhe perguntasse, inclusive aos PIDES. Aquelas minhas magras contribuições de combate à guerra colonial, ao fascismo e ao governo de Marcelo Caetano, em nada se comparavam com outras formas de luta doutros camaradas, que sofriam na pele as torturas e prisões políticas quando eram apanhados pela PIDE. Lembro-me do caso da Anabela, que foi presa e sofreu tortura do sono. Cada vez que a inquiriam, ela respondia com a canção: “Venho dizer-vos que não tenho medo, a verdade é mais forte que as algemas, Venho dizer-lhes que não há degredo, Quando se traz a alma cheia de poemas”. Quando soltaram a Anabela, estava esquálida e não dizia coisa com coisa. A tortura acabou por desencadear uma esquizofrenia desorganizada, cheia de trejeitos faciais, maneirismos e coisas estranhas no seu comportamento. Ficou internada durante muito tempo na psiquiatria e nunca mais foi a mesma. Os crápulas da PIDE acabaram anular a sua vida. 14


O Rui entrou para a clandestinidade para fugir da prisão certa e poder agir melhor, minando os podres alicerces do poder fascista. Nunca cheguei a saber qual seria o seu nome correto. Ele ia adotando nomes fictícios conforme o lugar aonde ia despejando a voz dos oprimidos pelo regime e apontando saídas para a liberdade política. O Manuel Leitão foi forçado a ir para a guerra do Ultramar, depois de ter sido detido na faculdade de medicina por suspeita de envolvimento com os comunistas. Nada conseguiram provar, mas interromperam os seus estudos, mandando-o para o ultramar. Nas terras de Moçambique, realizou muitos trabalhos de sapa junto aos seus camaradas de tropa, e conseguiu boicotar várias investidas de ataque à Frelimo, sabotando as armas e jogando as munições ao rio. As suas acções foram descobertas, apanharam-no com a mão na massa e foi mandado para a colônia penal do Tarrafal na Ilha de Santiago em Cabo Verde. Só viria a ser libertado muitos anos depois e nunca mais conseguiu voltar para a universidade. Quando na manhã do 25 de abril, ouvi as comunicações na rádio, pedindo à população que se mantivesse em casa, contrariei o aviso e parti para Lisboa para ver de perto a consagração da revolução dos cravos e os festejos pela liberdade finalmente conseguida. Foi impressionante ver o riso estampado em todas as faces, todos falavam com todos, era a liberdade aproximando os corações oprimidos por 48 anos de terror fascista. Toda uma enxurrada de gente a tomar as ruas da capital, a segurar a revolução entre os dentes, a impedir qualquer retrocesso, fazendo sua a revolução dos capitães. Em uníssono gritavam com toda a força dos seus pulmões: “O povo unido jamais será vencido”, bradavam os anônimos da liberdade. Lisboa amanheceu internacional. O mundo inteiro em regozijo pela verdade reposta e pela liberdade conquistada.

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CLARIDADE DE ABRIL Maria João Lopes Gaspar de Oliveira

Naquela manhã, ao acordar, senti que aquele dia não ia ser igual aos outros. Em sobressalto, vesti o roupão, e abri a janela do quarto. O dia estava enevoado, mas, de súbito, o sol despontou, e avançou na minha direcção, como se quisesse tomar conta de mim. Havia, no ar, qualquer coisa de estranho que eu não conseguia decifrar. Os pássaros cantavam Abril nas árvores, e as gaivotas chapinhavam nas águas do rio, ébrias de alegria. Tudo parecia “inicial, inteiro e limpo”, como disse Sophia, num poema. Porque estaria aquela manhã a dar-me o seu melhor? Era como se eu tivesse a Liberdade ali à mão. Era como se tivesse chegado a Hora de nos abraçarmos uns aos outros. - Estou a sonhar o Impossível - pensei eu, com um sorriso amargo. A realidade era outra, e essa tinha invadido tudo, excepto os meus pensamentos que sempre foram “ovelhas negras” avessas a rebanhos. A realidade também estava ali, escondida num caderno de capas pretas que eu ia levar, ao fim da tarde, para o Emissor Regional de Coimbra, onde lia os meus poemas e contos, bem abastecidos de metáforas, para a Pide não descobrir que aqueles textos não eram tão inócuos como pensavam. Na semana anterior, eu tinha lido um conto meu, intitulado “Palha que foi Pão”, sobre um velho pastor alentejano, tolhido pelo reumático e pela indiferença do patrão. Lembrome ainda de o ver, na minha adolescência, silencioso e triste, num banco do adro da igreja, com uma tosca bengala, a olhar sem ver as crianças que brincavam à sua volta. Um dia, pôs o boné na mesa sem pão da sua cozinha, e enforcou-se na chaminé. A branca aldeia ficou em estado de choque. Senti necessidade de lutar contra a sua segunda morte: o esquecimento. E, mais tarde, escrevi aquele texto, que me ia levando para os calabouços da PIDE, que já andava a espreitar-me, por detrás de uns óculos escuros e de um enorme jornal, numa das

mesas do café-restaurante, onde eu

almoçava. De súbito, senti o coração a bater nos ouvidos, ao olhar o relógio. Ia chegar atrasada à repartição. Fechei a janela, despi-me num ápice, e corri para a banheira, onde o sabonete, mais do que nunca, se escapava das mãos. Em seguida, abri as portas do roupeiro. E senti-me impelida para o meu vestido vermelho, de reflexos 17


prateados como as águas do rio. Sem saber porquê, naquele dia, eu queria a cor das papoilas do meu saudoso Alentejo. Sem pequeno-almoço, saí de casa a correr e apanhei um eléctrico. Pouco depois, eu estava na repartição pública, perante o chefe, que olhava o relógio, para me fazer sentir aqueles malfadados dez minutos de atraso. Eu bem sabia que não passava de uma máquina, ou peça de uma macabra engrenagem que engolia a minha liberdade, que me proibia de sonhar, ou de contestar fosse o que fosse. Porém, eu sentia que o meu “destino” não estava naquele matraquear constante e cinzento das teclas da máquina de escrever, nem debaixo da batuta de qualquer chefe, também cinzento, que nunca gostava de poemas que dissessem “não”. - Menina (eu era a funcionária mais jovem daquela repartição…), tem aqui um telefonema do Alentejo. É a sua Mãe - informou a telefonista, à porta da “minha” sala, que cheirava a borracha, a papel químico, a cascas de laranja da minha colega, e que estava repleta de pastas e de montanhas de papéis. Montanhas que não eram azuis, nem estavam perto do céu, obviamente. Mais uma vez, em sobressalto, voei para o balcão do guichet. - Filha, o governo está a cair nas ruas de Lisboa! É uma revolução! E a minha Mãe chorava de felicidade. Ao ouvir tal notícia, estremeci como se tivesse recebido um choque eléctrico, e uma chuva de lágrimas desabou sobre o meu vestido vermelho. - Ah, Mãe, que eu devo estar a sonhar! A Liberdade vem aí?! Tenho medo de acordar, Mãe! Aqui não se sabe de nada! Conte-me tudo! Mas sabe que vestido escolhi p´ra hoje? O vermelho! A certa altura, olhei à minha volta e vi os meus colegas a aproximarem-se de mim, com os olhos arregalados de espanto. - O que se passa? O que é isso? Porque estás a chorar?! - perguntavam, em uníssono. – Para os vossos sítios, já! – berrou o chefe, à porta da sala, com o dedo em riste. Um dedo gordo, bem tratado, que nunca estava sujo de papel químico. – Desligue o telefone, já! - Ele estava visivelmente nervoso, a andar de um lado para o outro, e eu estava demasiado feliz, para falar com a minha própria Mãe, na sua presença. Despedi-me e desliguei a chamada. Ele já sabia … - pensei. E pressentia que estava a chegar a hora de se calar. Ele que, durante toda a sua vida, mandara 18


calar. O chefe era, naquele momento, a personificação do Capital, a tentar silenciar a jovem Revolução. A tesoura que ainda tinha, no bolso, estivera sempre pronta a destruir direitos e a degolar sonhos de mexilhão. Olhei-o nos olhos, com firmeza, como se já me tivesse libertado daquela opressão, num voo idêntico ao das gaivotas do Mondego, que eu tinha visto, perto de casa, naquela misteriosa manhã de Abril. Momentos depois, apercebi-me de que o meu colega Armando, cuja alma “dançava com os números”, permanecia junto dele, como se a ordem de regresso às salas de trabalho, não lhe dissesse respeito. Mais tarde, percebi porquê. Ele era informador da Pide. Entretanto, a Emissora Nacional transmitia poemas censurados, canções proibidas de Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira. Um lenço branco, nas mãos de Salgueiro Maia, evitava um banho de sangue. Os tanques percorriam

as ruas da

capital, acompanhados de uma multidão, em festa, que colocava flores nos canos das espingardas A ditadura caía nas ruas, mas a minha cidade continuava mergulhada na longa noite do fascismo, que estendia os seus tentáculos, numa desesperada tentativa de contra-golpe que, para nós, era um “aviso” no sentido de percebermos que estava tudo por fazer. E o noticiário estava subjugado à programação regional, visto que os retransmissores da Emissora Nacional e da RTP, na serra da Lousã, tinham sido desligados da rede nacional. A população tinha de enfrentar os chifres do Poder, que já caíra nas ruas de Lisboa, mas que, na minha cidade, ainda murada, vomitava ódio, desespero, ranger de dentes. O governador civil, presidentes de câmaras municipais e outras entidades, juravam fidelidade a um governo fascista que já estava deposto, e apelavam à resistência contra o Movimento dos Capitães de Abril. Destruíram o comunicado da Junta de Salvação Nacional e afixaram o seu juramento de fidelidade a um “governo” que já tinha soltado o último suspiro. Pouco depois daquele telefonema redentor, fui ao encontro dos meus colegas, de sala em sala. Apercebi-me de que eles estavam intrigados e a viver um contido alvoroço. Em silêncio, olhei-os, um a um, durante alguns segundos. Com os olhos ainda rasos de lágrimas, e como se já estivesse a sentir, nos meus cabelos compridos e soltos, o sopro mágico da Liberdade, aquele sopro que acende o pensamento e a acção, eu disse: - Amigos, o governo caiu, nas ruas de Lisboa!! Aqui, desconfio que não querem que ele caia, mas a Liberdade está aí!

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Ao ouvirem estas palavras, eles ergueram-se das secretárias, perplexos, espantados, felizes, mas o chefe apareceu à porta e, mais uma vez, com o seu dedo gordo, bem tratado e nunca sujo de papel químico, os mandou sentar. E calar. A Pata da Besta que agonizava já, em todo o país, ainda não se tinha rendido, na bela cidade do Mondego. Inconformados, no dia 26 de Abril, gritámos “NÃO” à noite escura da opressão e da fome. E, pelas 18 horas, arrancámos da Praça da República, numa manifestação de apoio ao 25 de Abril. Quando chegámos à Baixa, já éramos vários milhares, de todas as classes sociais, com inúmeros estudantes universitários, que iriam ser meus colegas, algum tempo depois. Ao regressar ao ponto de partida, seguimos para as instalações da PIDE, com algum receio de um banho de sangue, porque, na minha cidade, o fascismo continuava, raivosamente, agarrado ao poder. Ficámos cercados por forças da PSP, e com a PIDE armada, dentro da sede. E este cerco só terminou no dia 30, com a intervenção dos militares de Abril, que neutralizaram a PIDE e a PSP do regime fascista. A longa noite tinha chegado ao fim. Em cada rosto, havia um sorriso, por vezes, molhado de lágrimas, num clima fraterno que me ficou na memória. A claridade de Abril tinha chegado à minha cidade! Gritámos, bem alto, que “o povo unido, jamais será vencido”. Cantámos a Grândola, Vila Morena, e outras canções do Zeca e do Adriano. E abraçámo-nos uns aos outros, com cravos vermelhos nas mãos. Tinha, finalmente, chegado a Hora!

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ESPERANÇA Mário Francisco Rodrigues Silva

Vivia eu, a Esperança, num país tão sombrio, cheio de medo, que um dia, triste e cansada de tantos desenganos, carreguei aos ombros o fardo de quase 40 anos e arrebatei-os, duma vez, de lá de cima dum penedo.

Era um fardo imundo feito de morte e tortura, lágrimas, fomes, misérias, vozes caladas, em mantos de revolta e dor acumuladas nas mãos assassinas e cruéis duma ditadura.

Do abismo em que se desfez, abriu-se a fenda de onde saíam punhos cerrados em direção a mim, a dizerem-me confiantes: Somos muitos, somos mil!

E dum golpe certeiro destruiu-se maldição e lenda. À beira mar plantado, Portugal era mais que um jardim, Era um canteiro imenso, cheio de cravos, numa manhã de Abril!

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ESTAVA… José Manuel dos Santos Manangão

Tentando libertar meu pensamento Das amarras tenebrosas da ditadura Numa luta ardilosa contra o tempo E contra o lápis azul da censura

Pela calada da noite – começava A evoluir algo há muito esperado A besta adormecida nem sonhava Que Portugal começava a ser libertado

Os rumores chegavam de todo o lado Era uma alegria timidamente contida Mais de um sonho – já fora desfeiteado Temia lamentar outra causa perdida

Nunca uma espera me foi tão dolorosa De ouvido á escuta – como cão de caça Esperando a notícia desejada e honrosa Cresce a ansiedade no tempo que passa

Boas notícias…era a hora de avançar Consolidar as posições conquistadas 23


Pelos obreiros a quem fomos incentivar Era a aliança - povo e forças armadas

Fui ao “Carmo” e fiquei lá de atalaia Para ver chegar a hora da verdade Ver a coragem do capitão Salgueiro Maia Expulsar – quem nos negava a liberdade

Andei pelas ruas, pelas praças – lotadas Quais formigas, limpando o formigueiro Entre amigos companheiros e camaradas Caminhava eu sem destino o dia inteiro

Nunca vira tanta alegria – qual “loucura” Tantos abraços e acenos, com emoção Tantas vozes que condenando a ditadura Cantavam canções, e vivas á Revolução

A mais bela ceara de cravos vermelhos Deambulando e passando de mão em mão Ouviam-se, palavras de ordem, conselhos Gritando – Abril sempre, e viva a Revolução

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Eu mal sabia Mário Francisco Rodrigues Silva

Em cuecas e depois nu, na inspeção militar para bem servir pátria, eu mal sabia… o que acontecia. 25 de abril, primavera a começar ambiente estranho no almoço daquele dia e na rua, povo a falar... Alguém disse: golpe de estado! Que acontecia? Povo agitado! Havia gente que afirmava: a guerra em angola tem que acabar! amigo mais velho sabia, informava. Todos os dias… novidade, pessoas a gritarem “ LIBERDADE”! Venda livre do avante? Isso é verdade? És comunista? Não, sou democrata! Repetia o que ouvia sem saber o que dizia. O que era democracia?…não sabia. Vasco Gonçalves, homem puro. Fala sentida e verdadeira

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e eu preso ao chão e à cadeira: Discurso escrito esquecido, tão fácil de entender?? Pouco a pouco, dia a dia, comecei e percebia… o que acontecia. De todos ouvia um pouco, separei joio do trigo até que um dia veio ter comigo a sigla que não mais larguei: PCP! passado histórico que qualquer vê na luta concreta do idealismo. Ao povo do meu país, valente e leal, nas palavras de cunhal as propostas do verdadeiro socialismo.

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O meu 25 de Abril Rui Huet Viana Jorge

A 24 de Abril era eu Director da Fiat em Luanda. Costumava frequentar a cervejaria Baleizão, onde paravam jornalistas e gente do teatro. Fora desta tertúlia amiga todos os dias ouvia falar de hipotéticos golpes de Estado, tal era o mal-estar em que viviam (os colonos/brancos) com a chamada “Primavera Marcelista”, pois entendiam ser necessário a mão de ferro exercida por Salazar durante mais de 40 anos. Diziam permanentemente, que Angola era Portuguesa, e só dali sairiam mortos. Lamentavam insistentemente que Marcelo Caetano não tivesse o pulso e a força de Salazar. Por causa destes extremismos é que eu procurava conversas com pessoas que me serviam como um banho de sanidade mental. Todos os dias pelas 20horas telefonava á família e á 1hora da manhã ouvia o noticiário do Rádio-Clube-Português num excelente aparelho que comprei para o efeito com 5 bandas de onda curta. Assim me mantinha informado como corriam as coisas no meu País. Nunca considerei qualquer uma das colónias mais que a usurpação e um roubo da liberdade daqueles povos. A confusão que me fez quando lá cheguei e verifiquei que o dinheiro circulante, embora se chamasse escudo, não era emitido pelo Banco de Portugal, mas sim pelo Banco Nacional Ultramarino, e tinha um valor aleatório na hora do câmbio pelo escudo verdadeiro. Aleatório no mercado negro, e em paridade de um para um na instituição de crédito do Estado, que permitia esse câmbio segundo regras muito limitadas. Este fenómeno pouco divulgado, viria a ser o principal prejuízo dos ditos “retornados”, que se viram impossibilitados de trocar o dinheiro que possuíam no dia do retorno das colónias. Pois bem no dia 25 de Abril estava no meu gabinete quando me entra um dos jornalistas meu amigo, deveriam ser uma 11horas da manhã, com ar preocupado e me diz: -Os jornalistas foram todos chamados ao Palácio do Governador para uma reunião hoje às 12horas. Segundo consta, houve algo de muito grave em Portugal. 27


Sorrindo respondi-lhe: -Também tu já estás “cacimbado”? Este termo significava em calão pouco mais ou menos : estás apanhado do clima. Vou já ver isso, respondi. Liguei á funcionária do telex ( tecnologia de ponta à época), e pedi-lhe que me requisitasse uma peça qualquer á sede em Lisboa. Um quarto de hora volvido, a resposta foi: -Não é possível comunicar. O telex está desligado. O meu sorriso desapareceu, ao mesmo tempo que pedi uma chamada telefónica para casa. Do outro lado do telefone foi-me dito educadamente que as linhas estavam de tal modo saturadas que não iria ser possível ligar naquele dia. Preocupado combinei com o meu amigo jornalista ficar á espera dele perto do Palácio para saber novidades. Assim aconteceu. Quando entrou no meu carro, vinha com semblante carregado: -Foi-nos dito que houve uma remodelação governamental em Portugal e quem agora era Presidente era o General Spínola. Estamos proibidos de dar tal noticia para não alarmar

a população. Nada batia certo, mesmo com a

Constituição vigente. Teria que ser algo bem mais grave, que uma simples remodelação governamental para se mudar o Presidente da República. De imediato pensei em golpe de Estado. De seguida começaram os contactos entre todos nós, marcando como ponto de encontro a minha casa para depois de jantar ouvirmos o noticiário no rádio dado ser o único com potência suficiente para apanhar a emissora Portuguesa.. Durante toda a tarde, evitei tomar grandes decisões laborais para não cometer asneiras tal era o nervoso com que estava. Jantei a correr, preparei a sala de estar, improvisei com um arame uma antena suplementar, e comecei a sintonizar todas as estações que conseguia. Mais valia estar quieto. A BBC. France 1, e não sei quantas mais transmitiam uma nota da agência ANI

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(Agência Noticiosa Portuguesa afecta ao regime), que dizia rigorosamente o mesmo em todas as estações: -Golpe de Estado chefiado pelo velho general Spínola, com a população dando vivas á liberdade, encabeçados pelas bandeiras do Partido comunista. Se estava apreensivo comecei a ficar inquieto. Nada disto fazia sentido. Não era credível que o PCP apoiasse um golpe militar. Á medida que os meus amigos iam chegando, ia-os esclarecendo, dando origem de imediato a discussões e conjecturas variadas. Á 1hora fez-se silêncio na sala enquanto tentava ligar para o Rádio-ClubePortuguês. Nada. A emissora tinha sido silenciada em Angola. Discutíamos como seria possível o PCP dar vivas a alguém como o General Spínola. As dúvidas ficaram com cada um conforme a consciência e opção política . Assim fomos todos dormir. Eu e todos os outros dormimos com as dúvidas, e as angústias de quem nunca viveu bem com a falta de liberdade. Durante o resto da semana vinham-me á memória as vezes que fui multado por ir esperar as namoradas á porta do liceu, e que revoltado tinha que pagar. Aquela vez que fui multado com a violência de oitenta escudos por ofensas á moral pública, por ser apanhado a beijar a minha namorada no meio da rua, o que já me tinha provocado uma bengalada com respectivo insulto por parte de um velhote. Ou ainda mais grave, quando fui considerado culpado num processo político/ disciplinar por criticar a qualidade do ensino, com suspensão de todas as escolas do País durante dois anos a somar a perda da época de Outubro desse ano, o que representava no total um atraso de três anos na minha formatura. Lembrei-me ainda da vez que pintei com nitrato de prata algumas paredes, ficando com os dedos todos pretos durante cerca de quinze dias, que me fizeram tremer de medo que a famosa PIDE desse por ela. As correrias a fugir da polícia de choque, nos dias 8 de Março, dia internacional da mulher, ou no 1º de Maio dia do trabalhador, já que não era permitido manifestar-se. Tudo isto me passava pela mente perturbando o sono, fazendo-me desejar o fim deste estado de coisas e de vez, trouxesse a todos a Liberdade. Chegados a sábado dia 28 de Maio, foi finalmente sabido em Angola o que se passava em Portugal. O Governador Eng. Santos e Castro demite-se 29


declarando pela rádio que sendo grande admirador de Salazar e Marcelo Caetano, não se sentia mobilizado para continuar como Governador, dado o afastamento deste último. Os boatos postos a correr de que o sangue corria pelas ruas de Portugal, foram sendo desmontados pelos telefonemas de muitos de nós, criando um espírito de alegria e liberdade. Como de costume nesse fim de semana, fui á praia. A única diferença é que ia eufórico e feliz. Dirigi-me como sempre fiz ao grupo de amigos, gente que eu sabia não lhes agradar a liberdade. Imbuído desse espírito sorridente e feliz disse: -Daqui a 4 dias está previsto um grande 1º de Maio para celebrar a Democracia. Alguém do grupo com ar bem arreliado disse: -Os vigaristas do Mário Soares e o soviético do Álvaro Cunhal também lá vão estar. Traidores. Foi o maior murro que dei na minha vida. Nem as dores na mão que senti durante dias perturbaram a alegria que senti por muito tempo.

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TODOS POR ABRIL Rosa Maria Pratas Balhau Pereira Coelho

Vivia-se a meados da década 70 do século passado, numa época em que na sociedade a mulher tinha um papel meramente subalterno, sem direitos, sujeita ao facto da Constituição não garantir quaisquer direitos aos cidadãos, e muito menos a ela, que na altura tinha como obrigação: parir, criar os filhos e cuidar da casa. O direito ao trabalho fora de casa, continuação dos estudos depois da quarta classe (o limite do ensino obrigatório), e um determinado número de carreiras eram direitos condicionados à vontade do homem (pai, marido…), fonte primeira de influência e poder familiar. Já adolescente, sem me envolver, ia sabendo que no meu país tudo era censurado. Teatro, livros, cinema, televisão, imprensa, discos, todas as artes estavam condicionadas pela censura. Tudo era censurado pelo Estado, incluindo a única revista que via entrar em casa, a “Crónica Feminina”, que a minha mãe comprava todas as semanas. Não havia liberdade ou democracia. Não existiam eleições livres, e o país vivia politicamente condicionado. Os oposicionistas eram presos em cadeias e centros especiais, alegando a polícia política (PIDE) os motivos políticos mais improváveis para essas prisões, pois essas pessoas não tinham morto ou roubado nada, nem ninguém, simplesmente lutavam, com palavras ditas ou escritas, contra o que se passava no seu, meu país. Para muitos deles a solução era: a vida na clandestinidade ou o refúgio no exílio. Enquanto outros países progrediam e avançavam em democracia, em Portugal vivia-se uma ditadura há mais de quarenta anos, instalada gradualmente após a Segunda Grande Guerra Mundial. Portugal não era nada bem visto a nível internacional, mantendo-se atrasado e fechado a novas ideias. Eu ouvia falar destas coisas, em segredo, na universidade, não percebendo muitas delas, tendo o cuidado de nunca repetir nada do que via ou ouvia em lugar algum, pois sabia que as paredes tinham ouvidos, como me avisavam em casa. Na minha casa, humilde e pobre, o meu pai comentava que se vivia muito bem assim, e que o governo salazarista era o melhor para o povo. Mas eu ia sabendo que pessoas iam presas só por falar, escrever coisas indevidas (era o que se dizia) sobre o regime político vigente e às mais variadas horas do dia ou 31


noite, eram arrancadas das suas casas, invadidas indevidamente. A polícia, sem explicação alguma, levava-as como criminosos. Porque seria que as pessoas não se podiam reunir a discutir política trocando opiniões? Porque fugiam pessoas e jovens, que deviam ir para a tropa, pelas fronteiras montanhosas em segredo para o estrangeiro? Porque tinham que ir para a guerra do Ultramar todos os jovens, muitos deles sem perceber porquê, e os que fugiam a essa guerra não podiam voltar ao seu país? Porque levou o colonialismo à guerra colonial, que fazia o país gastar tanto dinheiro? Sempre ouvira dizer que as colónias portuguesas eram o orgulho nacional, eram um prolongamento da nação que era preciso defender. Mas a luta para manter essas terras estava a destruir os jovens e as famílias portuguesas. E eu, tinha muitas dúvidas, e não tinha quem me esclarecesse. E vivia assustada na minha aldeia. Afinal “aquela policia” estava em todo o lado, ainda que a minha mãe não o sonhasse. Não sabia ao certo porque andava sempre tanta polícia na zona da universidade, e porque apareciam tantos panfletos, com informações políticas, nas casas de banho. Havia muitos estudantes viviam revoltados, mas será que teriam razão? Na altura, nem imaginava que muitas pessoas davam a sua existência pela luta dos direitos humanos, pelo direito à liberdade, à democracia, à livre expressão de pensamento, aos direitos entre homens e mulheres, aos direitos das crianças, ao acesso ao ensino, ao direito à saúde, à paz e ao amor livres, e que por todo o mundo tinham lugar manifestações estudantis, de exilados, trabalhadores e opositores à continuação da guerra colonial. Não sabia que a partir de uma certa visita do Presidente da República a vários estabelecimentos de ensino em Coimbra, os estudantes universitários contestatários, fizeram ouvir a sua voz contra a ditadura, enquanto aquele discursava, fartos de se envolverem em manifestações, revoltados com o regime totalitarista repressivo, fartos de sofrerem sobre eles a repressão da polícia política. Os estudantes viviam em permanente agitação, e tudo junto criava no país uma vertigem de ruptura, o momento crítico de um ponto de viragem, mas eu não via nada disso. Quanta cegueira!

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Sentia que à minha volta algo estava em mudança, mas apenas isso, sem saber o quê. Com medo e meio atordoada com tudo o que via e ouvia, prosseguia os meus estudos, pensando, ingénua, que os jovens estudantes revoltados deviam era estudar, para ajudarem futuramente a construir um Portugal melhor, como dizia o meu pai. A 14 de Janeiro de 1974, o General Spínola toma posse da vice-presidência do cargo de General do Estado-maior das Forças Armadas, mas depressa é demitido aquando do lançamento do livro “Portugal e o Futuro”. Marcelo Caetano demite-o, pois não concorda com as suas opiniões acerca da política colonial. Demitido, Spínola rapidamente se torna herói nacional. No dia 25 de Abril de 1974, eu tinha aulas de manhã na universidade. Levanteime cedo, como de costume, pois vivia na aldeia e tinha que me deslocar de comboio até Coimbra. Ao pequeno-almoço, a minha mãe comentou comigo algo que ouviu na rua, quando foi ao padeiro, algo que se estava a passar na capital que parecia ter posto todos em alvoroço. Dizia ela: -“Parece que os soldados estão em pé de guerra, e levaram já muita gente presa, mas é lá tão longe que não há-de chegar nada aqui …Vai para as aulas, vai filha e vai descansada”. Coitada, era o que sabia… Se eu não percebia muito dos tempos conturbados que se viviam no país, a minha mãe muito menos, e sendo assim resolvi que deveria ir para as aulas, sim, como fazia normalmente. Cheguei à faculdade e nada de aulas. O alvoroço imperava. Falavam, cada uma para seu lado - “Abaixo este, aquele e o outro, todos para a rua, o povo agora é quem manda..., Havias de ter ouvido a rádio de madrugada...?Ouviste o Paulo de Carvalho…? Era a senha…!E eu, sem entender nada… E continuavam: “…na capital, os soldados estão nas ruas armados com tanques de guerra e…” , e por aí adiante sendo tanta informação junta, que eu não sabia se havia de sentir medo e fugir dali para casa, ou ficar e escutar tudo. Resolvi ficar. A partir das 3 da madrugada de 25 Abril, a música de José Afonso “Grândola Vila Morena” moveu as tropas colocadas em sítios estratégicos para um autêntico assalto ao país, aos locais considerados estratégicos, para o governo cair. A canção “E depois do Adeus” cantada por Paulo de Carvalho, confirmou a dado momento que tudo estava a correr bem. Uma Revolução estava em 33


curso. Nunca nada mais seria como antes. As rádios, televisão, aeroporto, banco de Portugal, a rádio Marconi, foram os primeiros alvos das tropas que não encontraram resistência por parte de ninguém. Cada vez mais informada pelo que ia ouvindo, estava estupefacta com a minha ignorância e tanta coisa a acontecer que decerto iriam mudar a minha vida. Pensava que devia haver pessoas que naquele momento não estariam bem e o que a minha mãe dissera era falso. Em mim tudo tomava outra dimensão. Estávamos todos envolvidos e perto, juntos na mesma luta. Parecia-me muita coisa para se conseguir boa aceitação dos antigos políticos e tive receio, medo até, mas também satisfação. Foi um misto único de sentimentos, que vivi naqueles momentos, difícil de explicar. A revolução organizada por um grupo de militares movimentou as tropas, e mais tarde na rua, o povo juntou-se aos militares, apoiando-os incondicionalmente: soube-o à tarde, por quem estava atento às notícias da rádio. Tudo parecia decorrer numa normalidade invulgar, encontrando os soldados junto do povo muito apoio e conforto. Nas ruas da capital, por uma vendedeira de cravos ter colocado um cravo no cano de uma espingarda de um soldado, encontrou-se o mote para que centenas de cravos transformassem as espingardas num símbolo de revolução pacífica. E os comentários iam sendo cada vez mais precisos, a rádio agora tomada, contava livremente a cada segundo o que se ia passando, e rapidamente as notícias circulavam nas ruas, de boca em boca, que já não estavam amordaçadas. Tinha já a certeza, que o que a minha mãe me afirmara cedo era mentira. Portugal inteiro estava envolvido numa luta única para a sua vida futura. Ali, na minha universidade, vivi intensamente todos aqueles momentos, e ali ouvi dizer que estudantes e políticos presos iam ser postos em liberdade. E sorri! O jardim da Associação Académica ia ser finalmente aberto. Os estudantes punham fim ao luto académico. Todos deviam dirigir-se para lá para acolher alguns dos estudantes presos, finalmente postos em liberdade. E eu participei deste momento. Atordoada, não entendendo bem o que se passava, tinha contudo a certeza que aquele era um momento grandioso. Atenta, olhava tudo e um pouco receosa ainda, vivi ali momentos inesquecíveis. Admirava a envolvência e energia de muitos estudantes, meus colegas, incapaz de comentar os seus procedimentos, mas absorvendo-os com admiração. 34


De regresso a casa, notei as ruas um pouco vazias e o comboio sem a agitação habitual. Nesse dia, os rapazes não se passeavam para trás e para diante, como era seu costume. Algo tinha mudado. Estavam todos empenhados demais naquele dia. Nos dias seguintes, não haveria aulas e depois logo se veria. Muitos professores e funcionários, considerados fascistas, iam ser demitidos, e muita coisa ia mudar. Portugal estava livre, e todos gritavam: “O povo unido jamais será vencido.” Fui repartindo os seus dias pela aldeia, e umas idas breves à faculdade para me inteirar das novidades e participar gradualmente nas aulas repostas. O retorno pleno às aulas implicava a substituição de professores, e esse processo levou algum tempo a ficar resolvido. Houve um período em que os alunos se achavam no direito de poder e saber fazer tudo. Era preciso tempo para encontrar a estabilidade necessária e continuar a trabalhar….Mas será que tudo foi feito como deveria ser? Talvez não e como lamento!

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Um haicai por Abril Carlos Seabra

esperanรงas encarnadas em rubros cravos libertam sorrisos amordaรงados

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UM SONETO POR ABRIL Maria João Basílio Brito de Sousa

Já nesse Abril distante o sol nascia Sobre a cidade triste, amargurada, Consolidando a clara madrugada Que havia de pôr termo à tirania;

Às ruas!!! Já Lisboa o povo enchia Contra a ordem geral, nunca acatada, E, nelas, se abraçava à malta armada Que, nesse mesmo abraço, florescia

Qual cravo que, vermelho, emergiria De cada carabina engalanada Pela mão duma jovem que sabia

Que a ditadura fora derrubada E que, findo o sistema que oprimia, Nunca mais mão detida ou voz calada!

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UM SONHO NÃO CONCRETIZADO Pedro Azinheira Santos

Era um fugitivo da guerra colonial quando soube que em Portugal tinha havido um golpe de estado. Encontrava-me em Moscovo num dia frio de finais de Abril de 1974. Foi uma grande alegria e a esperança de, finalmente, a liberdade e a democracia imperarem no meu País após 48 anos de uma ditadura castradora e obsoleta. Só pude regressar em Maio mas ainda vivi grande parte da euforia e felicidade desses dias pós-libertação ditatorial. Foram ainda uns meses em que pensei ou sonhei que a democracia, a liberdade e o bem estar seriam uma realidade para todo o povo português. Mas, como bem diz este mesmo povo, "foi sol de pouca dura". Corria o ano de 1977 e já se notavam sinais que o pretenso socialismo que tantos apregoavam estava a ser metido na gaveta. Depois, pouco a pouco, foram-se perdendo conquistas relevantes da Revolução de Abril. Chegados ao presente, o sonho desfez-se, temos uma nova ditadura que, embora sendo económica, está bem camuflada e, como sempre, afecta os mais desfavorecidos, exactamente os mesmos que a sofreram no tempo do salazarismo de triste memória. Será que a luta continua? Já duvido de tudo e até de mim próprio.

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UMA CASA NA REVOLUÇÃO RUA DA TELHEIRA, 440 - PARANHOS – PORTO Nelson Bertini

A casa onde eu morava com os meus pais e irmãos, estava ali na rua da Telheira fazendo esquina com a rua do Tronco, na freguesia de Paranhos. Era uma casa adaptada de uma Subestação dos Serviços de Transportes Colectivos do Porto, que coube ao meu pai, funcionário da empresa desde os nove anos de idade, por bons serviços prestados. Foi projectada em 1909 para fornecer corrente contínua a veículos de tracção eléctrica a várias “linhas” de eléctricos. Era um exemplar notável da “arquitectura industrial” copiada da Casa Mãe, a Central de Massarelos, ao que sei, com o dedo do arquitecto Marques da Silva. A minha casa era assim uma casa austera e grave, quase um ser com vida própria, muito por força dos mecanismos e engenhos humanos que albergava e que geravam forças misteriosas e incomensuráveis para a nossa compreensão da época. De uma escala fora do comum com espaços e dimensões extraordinárias, a começar pelo “hall” onde caberiam folgadamente dois carros eléctricos e a acabar em doze pára-raios no telhado. Um grande quintal onde floriam canteiros geometricamente traçados e acarinhados pelo meu pai e onde os vizinhos e passeantes se embasbacavam e, amiúde, pediam “cinco tostões de flores”. Foi nessa casa, feita do resfolgar e gritos de máquinas, de mistérios, de ruídos sobrenaturais, de espaços imensos, que vivemos, durante mais de vinte anos. Anos de aprendizagens, de trabalho, de amores e desamores adolescentes e mais tardios, de cultura, de sentimentos de liberdade. E foi, também, um dos lugares de encontro e de acção política de uma geração de jovens que, nos anos idos de 1968 a 1974, perante os dramas da história, decidiram não ficar indiferentes e agir. Foi nesta casa, da “Telheira”, que passavam de mão-em-mão os livros proibidos, como A Mãe de Gorki, o Manual de Economia Política de Nikitin, O Ciclo do Caranguejo de Josué de Castro, o Crimes de Guerra no Vietname Bertrand Russel, o Princípios Elementares de Filosofia Política de Georges Politzer, e muitos outros. Éramos quase todos trabalhadores ou 43


trabalhadores estudantes, eram leituras difíceis, mas a vontade de saber e de aprender era grande. Não nos contentávamos com a espuma das coisas, com o preto e branco das explicações mais simples. Foi nesta casa, da “Telheira”, que se realizaram as primeiras reuniões da célula do Partido (o PCP) para a organização do Movimento da Juventude Trabalhadora (MJT): eu e o Henrique, dirigida pela funcionária clandestina Ivone Dias Lourenço. O MJT foi um movimento muito importante no despertar e na mobilização para a luta política, principalmente contra a guerra colonial, de jovens operários e empregados urbanos, com origem no Porto e mais tarde implantado em todo o país. Era nesta casa da “Telheira” que nos juntávamos a ouvir, no velho “Schaub-Lorenz” da minha avó, as ondas curtas que nos traziam as vozes da “Rádio Portugal Livre” e de “A Voz da Liberdade”, num sempre difícil exercício de decifração entre as mensagens e as interferências radioelétricas com que o regime as procurava vencer. Foi nesta casa da “Telheira”, que se fizeram várias sessões de projecção do filme “O Couraçado Potemkin” de Sergei Eisenstein, seguidas de debate. O filme chegou-nos de França em bobinas de 8mm e o projector foi emprestado por mão amiga. A assistência, naturalmente selecionada, ainda assim era numerosa e atenta, mau grado os sobressaltos técnicos com saltos de imagem, do mecanismo ruidoso, da delicada operação de substituir bobinas. A arte do cinema ao serviço dos ideais nas mãos de projecionistas amadores. Foi na “Telheira”, que eu, com a colaboração do Caetano, “fabricamos” um duplicador manual para “stencil” onde imprimimos milhares de panfletos e boletins: de denúncia do fascismo, da Guerra Colonial, de apelo a greves por melhores condições de trabalho e contra a carestia da vida (1970), de solidariedade para com as greves dos pescadores de Matosinhos e das Caxinas, de evocação do 24 de Março como “Dia Mundial da Juventude”, da solidariedade para com o Vietname; a boletins como o dos estudantes da Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis e o boletim do MJT do Porto o “Tempo Novo”. Foi no chão do hall da casa da “Telheira”, que pintamos as faixas de pano com as palavras de ordem que quisemos levar para o célebre comício do 31 de Janeiro no Cinema Nun’Álvares. E foi nesse chão de cimento que, sem nos darmos conta, ficaram escritas, a tinta de esmalte vivo, as palavras de ordem que furaram a trama do tecido e nos afligiram o resto da noite em esfregas difíceis e inglórias. Foi ainda, na “Telheira”, que, com as mãos artísticas do Hermínio, trabalhamos o linóleo e fizemos um cartaz comemorativo do centenário do nascimento de “Lenine” (1970), e 44


duplicamos uma brochura com um texto seu. Da mesma forma, talhamos o cartaz comemorativo do cinquentenário do PCP (1971). A PIDE desesperava-se por encontrar o “aparelho técnico”. Quando prendia alguém, as buscas e os interrogatórios incidiam sobre o “aparelho técnico”. Onde está? Quem tem? Quem são os responsáveis. Na verdade, a diversidade de formas e de locais onde eram dactilografados ou gravados os materiais de informação e propaganda e as técnicas utilizadas, permitiam dizer que cada um de nós era o “aparelho técnico”. Mesmo depois de presos, os panfletos e cartazes continuaram a aparecer um pouco por todo o lado. Foi dessa casa, que saíram duas caixas com petardo para a distribuição dos panfletos a convocar a manifestação de 15 de Abril (1971) contra a carestia: uma para a escola do Infante D. Henrique que o meu irmão Cirilo levou, outra para a EFACEC que a mim me coube e me trouxe sobressaltos inesperados. Não imaginei que, na hora de colocar o mecanismo com os panfletos, a saída da fábrica, estivesse tanta gente na portaria à espera dos que saíam. Assim, vi-me no meio de uma pequena multidão, a activar o dispositivo, pregar-lhes um involuntário mas valente susto, enquanto me punha a milhas montado na motorizada. Nesta manifestação, eu e a minha companheira da época, a Luísa, fomos presos. Por isso, a casa da “Telheira”, onde morávamos, teve “direito” a um guarda-portão da polícia política (PIDE), perfeitamente às claras, as vinte e quatro horas do dia, e durante mais de um mês. Mas, para mim, e como momento mais marcante, foi quando num tranquilo início de serão de Domingo (Fevereiro de 1972), me despedi dos meus pais com um “até amanhã”, partindo assim para a clandestinidade, da qual não conhecia nem os caminhos nem o fim. Embarquei em Campanhã, no comboio com destino a Lisboa chamado “correio” por parar em todas as estações e apeadeiros. Saía por volta de meia-noite e chegava a Lisboa depois das sete. O problema é que esse comboio era um transporte de militares mobilizados para as várias frentes da guerra colonial. Em cada paragem, o embarque era pontuado por gritos aflitivos dos familiares dos soldados, principalmente os gritos desesperados das mães, que ainda hoje retenho nos ouvidos. E foi assim em todas as estações e apeadeiros. Uma viagem longa e aflitiva, para mim que ia para outra guerra, com a desvantagem de estar completamente só e por minha conta. Nas carruagens, os soldados, bebiam e cantavam, como só os soldados são capazes de fazer. Os gritos de uns não eram os gritos de outros, que já ficaram para trás. Eles arrancavam os laços de afecto da família e as raízes da terra e construíam a solidariedade da guerra, para vencer o medo e sobreviver. Como acontece com todos os soldados, em todas as guerras. 45


Sempre associei esta memória ao livro de Zola, “A Besta Humana”, quando relata a viagem de um comboio desgovernado, cheio de soldados que cantam, a caminho do desastre e da morte. Em Lisboa, eu teria de cortar o cabelo, tirar fotografias tipo passe, comprar uns óculos de sol, e embarcar para o Barreiro, como se fosse o princípio de uma nova vida. E a casa da “Telheira” lá ficou a albergar temores de uns pais que se agarravam à informação da carta que receberam em meu nome que me punha em Moscovo, carta que eu não escrevi e Rússia onde nunca estive… Veio, enfim, o 25 de Abril. A casa da “Telheira” não durou muito mais. Como acontece a quem faz revoluções, os novos poderes encarregam-se de os liquidar ou afastar exigindo que se portem bem e, principalmente, que não falem. Assim, a Casa foi demolida. Também já não faria sentido, nem era rentável, ter todo aquele espaço desaproveitado, com um quintal que já não brilhava de flores e de frutos, que umas mãos fizeram e outras novas se queriam. Deu lugar a um condomínio. Quem lá vive, ganhou conforto e qualidade, que a Revolução também foi isso. Quem lá vive, certamente não conhece a modesta história daquele sítio e até talvez haja quem tenha raiva a quem sabe e a quem a fez. Mas é assim mesmo a vida. O meu propósito de hoje, quarenta anos após o 25 de Abril, é apenas o de prestar uma homenagem a esta Casa, uma das muitas que contribuíram serena e silenciosamente para a Revolução. Ah, e já agora, aos que a habitavam, que aguentaram a defesa do bastião e a todos dos seus ilustres convidados, camaradas de uma geração que fez o que entendeu ser o seu dever, sem obedecer a ordens de ninguém, e deu o seu melhor, sempre desinteressadamente, com coragem e sem traições, coerentes até hoje, apesar das tramas políticas e das curvas do tempo: Porto, 25 de Abril de 2014 25 de Abril de 1974

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Verdades obstruídas José Eugênio Borges de Almeida

No vociferar constante, introduziu o medo, sonegou a verdade. À ansiedade do pavor, colmatou com juízos preconcebidos. Nos grilhões da ignomínia, calou a discórdia, obstruiu os pensares. Semeou aviltantes leis, obrigou a cumpri-las, impôs a guerra penalizou o resistente. Em seus calabouços, ensaiou técnicas sangrantes, com sucesso matou opositores, apagou suas existências. Distorceu suas imagens, em imprensa cor de rosa, em nome da lei reinventou o fascismo. O opressor mastigando processos indigeríveis, passados obsoletos, esquecidos, macerou, temperou, almiscarou,

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em fogo voraz da violência os coseu. Desenformou-os e serviu-os, não houve quem os ingerisse, tamanha amálgama apodrecida. Resistente, o povo escolheu novos caminhos, impolutos, desobstruídos, sulcou suas bermas, enveredou por suas curvas, mitigou seus erros, pediu um pouco de amor, de conforto estável, assim, que sobejasse para todos. Depois distribuiu-os pelos cantos, nos desníveis sociais, no lúpem esquecido, na miséria relegada. Serviu-os com vinho doce. Então o dia amanheceu fulguroso Surgiu abril repondo a justeza dos dias ansiados A paz conquistada, trazendo esperança nos olhos, trouxe a dignidade estampada num cravo vermelho. Saindo dum mundo esquecido, da metalurgia de Lisboa, bradei bem alto: Fascismo nunca mais

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Todos por abril!