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Maria da Serra Verde... as imagens e as palavras de 2010

por Ana Souto de Matos Lous達, 12.2010


Maria da Serra Verde...

as imagens e as palavras de 2010


fazer-de-conta deixou de ser válido abro as janelas... escancaro-as... e fico por aqui, apenas a encher os pulmões do ar puro da serra ou vou por aí, percorrendo continentes à procura das verdadeiras raízes. corro por ali, àvida da vida que não sei viver ainda ou finco os pés neste solo que é meu, por vezes. fazer-de-conta deixou de fazer sentido não quero fazer-de-conta. quero ser! vou mais além... talvez!


com Moçambique no coração...

o cheiro... quando cheguei, o que me impressionou foi o cheiro... depois de 10 horas a respirar o ar pressurizado do grande pássaro, a intensidade da terra molhada de chuva a entrar-me pelo nariz, pelos poros... o cheiro mais profundo das minhas raízes, presas naquele chão molhado... o cheiro de África... um odor quente a envolver-me sem me sufocar a fazer-me sentir que trinta e alguns anos depois aquela ainda era minha terra, para além de uma mera e quase etérea evocação no meu bilhete de identidade... da varanda do meu quarto debruçada sobre a Sé, por longos e eternos minutos contemplei a minha cidade... tantas décadas à procura do que sou, de quem sou... e ali, naquele momento, a certeza de pertença ao espaço e ao tempo.


com Moçambique no coração...

a luz... (...) A vida começa cedo em África... Aos primeiros raios de luz, os pássaros despertam, as gentes despertam, eu desperto... começa a vida! (…) Permanece a sensação de pertença. Flutuo por ali, por sobre o casario que ainda reconheço-quase-de-cor... (…) A vida começa cedo em África... aos poucos, a cidade desperta num alvoroço incontrolável... começa o corropio do trânsito, as buzinas, o burburinho das gentes, os sons do porto mais ao fundo e da estação dos caminhos-de-ferro… Também eu desperto cedo com a luz a jorros e parto cedo à redescoberta da minha cidade... pouco passa das sete, sozinha pelas ruas, mas tão cheia de luz e de sentido que não tenho capacidade para ser mais feliz nesse momento.


a gente...

o cheiro… a luz… a gente… a gente! o terceiro elemento nesta viagem de sentidos com sentido…


com Moçambique no coração...

o sorriso de Bega


com Moçambique no coração…

detalhes que marcam!


meninas na praia...


casernas na marĂŠ vaza...


Ă  boca do peixe...


Mamana no bazar...


piri-piri sacaninha e outros condimentos...


capulanas em festa...


a quinze meticais o cacho...


entre o sonho e os camar천es...


amanhecer em Ă frica...


entardecer em África… à foz do rio


todos os haveres...


aparentemente calmo...


ganhando o pão do dia à sombra da Sé...


ângulos de Sé...


olhares dentro do Ver達o...


etéreo...


a flor mais linda do mundo...


sintonia...


enleados...


o lado oculto...


0 afago...


filigrana...


alfazema...


devoçþes pela Senhora das Neves...


n達o s達o p辿talas, s達o cardos...


devoção excessiva, provoca queda de cabelo...


uma espécie de Fé...


a ver a banda passar...


Senhora do Ă“...


alcovitando a contraluz...


o toucador da Av贸...


novo parรกgrafo


Há muitos pontos finais na nossa vida... Pelo meio, vírgulas e reticências... tantas... tantas... Algumas exclamações! E interrogações sem conta (?????) E, porque há novos dias, novos amanheceres, com novos sóis que brilham apenas para nós... tantos outros recomeços. Parágrafos com novos sentidos e sentires... O mesmo espaço... um novo espaço! Já não há janelas, nem portas, nem paredes... Há o Mundo e Eu!


medida certa...

Mudemos de vida. Nem que seja todos os dias... at茅 que ela (a vida) se ajuste a n贸s!


Equívocos

A vida é tão escassa, não é?

Há medo de entregas, mesmo das entregas menores e quase casuais. Daquelas que são essenciais para transformar o banal em qualquer coisa que seja. Há medo palpável dos outros. E em caso de dúvida, permanece-se no mesmo ponto. Qualquer dia prefiro a natureza às pessoas. Essa, nunca me defrauda quando me entrego. O pássaro canta sempre, o sol nasce sempre, a folha cresce sempre, o rio corre sempre no seu leito. E eu, sinto! que é só para mim.


alvorada...


É o mar que me chama...


ao nĂ­vel do mar...


a forma mais doce do amor...


olho em redor e, Ă s vezes, piscas-me o olho...


O Abraço... Há dias que tenho palavras dentro de mim a brotar com ligeireza... outros... são assim... não saem as palavras de dentro na mesma proporção do sentimento... Pela manhã, vindimaste as uvas ávidas de serem colhidas e olhando em redor pressentiste amizade e abraços nas curvas das árvores, que partilhaste... o abraço surgiu então, saltou ágil da natureza e transformou-se em dádiva de mundos virtuais, mas tão mais reais que tanta realidade tão física e palpável em nosso redor. Há dias assim, que nos prezam com um som intemporal, que nos acalentam com conversas em torno de coisa nenhuma, que nos acarinham com verdes amplexos em elos que cada vez mais se tornam mais consistentes...


de regresso...


as pedras tambĂŠm tĂŞm borbulhas adolescentes...


linhas de vida‌


1


2


3


4


5


6


7


8


9


o dia do caรงador...


contra ventos...


venham mais cinco...


por alminha de quem?


a imbecilidade das mĂŁos abertas ou uma filosofia de vida caĂ­da em desuso?


Há dias que nos sentimos uns perfeitos imbecis. Levantamo-nos acreditando que o sol lá fora tem energia suficiente para perpassar a epiderme e nos aquecer o coração, quem sabe até a alma… (essa coisa, a alma, mais ou menos etérea, vaga, subtil, difusa, indefinida que existe, simultaneamente, dentro e fora de nós mas que quase incompreensivelmente nos é intrínseca).


Exageros (que pontuação escolher ! ou ? ou ...)

É um exagero o olhar (Um excesso de imagem que nos confunde a visão) É um exagero o querer (Um excesso de sonhos, de desejos, de vontades) É um exagero o sentir (Um excesso de sensações, de compreensões, de sentimentos) É um exagero o viver (Um excesso de partilhas, de ligações, de existência) Qual a dose certa de acepção? Dão-me solução… por aproximação e erro… Acrescento, por afastamento? Não sei medir intensidades reguladas por códigos A dose certa contraria-me o olhar, o querer, o sentir, o viver Qual a medida certa? Deveremos amputar a nossa medida para não sermos apelidados de desajustados, desfocados quiçá, para nos padronizarmos, para nos inserirmos na linha de montagem, para simplesmente fazermos parte de um todo? Não o quero. Assumo pois o exagero. Do olhar, do querer, do sentir, do viver Mesmo que entristecida porque contrariada. Não consigo dominar o meu rio interior. É selvagem e solto. Sou eu.


escolho a pontuação (...) algumas vezes, falamos das coisas sem palavras (estas, tímidas ou discretas, deixam-se estar por ali espreitando subtis) o sentido surge, porém fica, permanece, basta! (serão precisas tantas palavras? porque preciso das palavras?) falamos sem palavras o sentido do que não se diz basta o sentido do que não se diz por vezes, às vezes, basta-me o que não se diz


pele


Outono...


Fios muito ténues

Fios muito ténues nos ligam à vida, à sanidade, ao que é certo ou errado nos ligam às situações, às pessoas, criando ou desfazendo tudo aquilo que importa ou não importa Fios muito ténues quase diáfanos de transparentes que na sua fragilidade representam um quase nada que pode ser tudo um tudo que nada é, um nada que avoluma em essencial Fios subtis, delicados, quase débeis que na sua honestidade identificam resistência e certeza. Fios ténues que nos suportam no equilíbrio dos dias entre o não sentir, o desejar sentir, o não poder sentir e o simplesmente sentir É este o mote… 'sente-se porque se sente…' assim mo afirmaram, assim o reconheço, assim o sinto. (fios muito ténues no dia em que uma história se emancipa e outra história nasce)


ainda me impressiono...


É impressionante como vivemos e revivemos e voltamos a viver os dias, uns após os outros, tão absolutamente diferentes, tão absolutamente iguais e como a nossa apreensão sobre esses mesmos dias é também ela tão absolutamente diferente e absolutamente tão igual. É impressionante como sentimos num determinado momento o mais profundo e telúrico sentimento por algo ou alguém e esse sentimento se assumir como o mais fundamental aos dias e ser profunda verdade, incontestada perante nós e incontestável perante os outros e como em noutro momento voltamos a sentir algo parecido, mas tão-outra-coisa, tão mais verdade ainda. É impressionante como perante a natureza cíclica, nos encantamos sempre do mesmo modo, com uns oh e uns ah de profunda fascinação perante o adejar das folhas ou das borboletas, o saltitar da água translúcida e gélida sobre as pedras do seu leito, as gotas da chuva pousada nas folhas amarelecidas e ao mesmo tempo esse encantamento tanto diferir de tantos outros que já se tiveram antes, em outras Primaveras, em outros Outonos e como esse olhar se transmuta a cada estação e é sempre mais real e autêntico. É impressionante como aprimoramos a nossa forma de ser e de estar, com o exercício de todos os dias, com a repetição de ideias e actos, pensamentos e atitudes, uns sempre iguais aos anteriores e apesar de tudo cada qual único e irrepetível, desigual dos demais por sua própria natureza. E como esse aperfeiçoamento é sempre incompleto e imperfeito e com espaço em si para mais esmero. É impressionante que no meio de tudo, dessa nossa vida igual em si própria e tão diversa simultaneamente, ainda haja espaço para a surpresa com que esta nos contempla de vez em quando. Sobretudo quando menos esperamos e quando pensamos que nada mais irá acontecer. De diferente! É impressionante como no meio de tanta ocasião idêntica, haja ocasiões que ainda nos marquem. Como ainda persista a inquietação, o desassossego. E como ainda no meio de tanta coisa, facto, momento, acto, circunstância e instante igual, parecido ou idêntico, subsista ainda o alvoroço, se sinta a vibração no sangue ou no pensamento e o nervoso da novidade. É impressionante como apesar do peso da rotina do quotidiano somos sempre surpreendidos pela Vida, essa mesma tão igual a si própria. E ainda por fim, é impressionante como apesar de tudo somos sempre uns absolutos iniciados, uns verdadeiros principiantes na forma como a compreendemos! E é sempre a primeira vez! E é sempre o primeiro olhar! E é sempre um novo dia! E é sempre boa nova!


combust천es internas...


atrevimentos...

fogos inventados com ou sem o sentido dos arrepios de compreensão de toda uma vida porventura ideias apenas de chamas, e de outros fogos e de outras combustões ou de ousadias, ainda de provocações ou de audácias, de lampejos de arrojo, de insensatez ou talvez apenas de sonhos ou de atrevimentos.


os meus cogumelos tĂŞm Poesia...


Anselm Kiefer - Die Frauen


O enigma... desvendo-me e oculto-me atrav茅s das palavras de t茫o absurdamente simples O C贸digo deixa de ser 贸bvio aos outros


A Tempestade (I) uma tela deMatos


A vida é, na verdade, esmagadora na sua beleza e crueldade. Contudo, não consigo deixar de a contemplar com admiração. A tempestade perfeita… em si própria uma grandiosidade... a conjugação de todos os elementos da natureza numa obra de arte... única! o significado em si e por si e, na qual, apenas somos idealizados como peças da composição. Perante tal, qual a importância dos seus efeitos e danos colaterais? E é tudo um movimento dissonante, anacrónico, duro, muitas vezes de mágoa. E nada é certo, mesmo aquilo que desde o início se sabia errado, desde logo e por si. Puro surrealismo da vida que compõe telas de permanente desencontro. Dramazinhos, nestes nossos quotidianos insípidos.

a tempestade perfeita...


há momentos que olhamos para dentro de nós e não vemos nada. não vemos passado(s), nem presente(s) ou futuro(s) não vemos claridade, mas também não vemos escuridão não vemos cores, nem branco, nem preto, nem qualquer tom entre ambas não vemos princípio... nem fim ou será o contrário? não vemos fim... nem princípio não vemos nem alfas, nem omegas, nem qualquer letra do alfabeto há momentos que não há nada. apenas as lufadas de inspiração e expiração que cumprem a função mínima de vida. há momentos que olhamos para dentro de nós e não há nada não há nada. nem pensamentos, nem ideias, nem sonhos, e... já nem sequer palavras.

Respiro, apenas


as pérolas já não se usam...


pĂŠrolas


que haja... amor! ou talvez e apenas um coração que não deixe de bater e sentir.

...


Maria da Serra Verde 2010