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POEMAS DESCONCERTANTES seguidos de

SENHOR BRANCO OU O INDESEJADO DAS GENTES


SÉRIE ESTAÇÃO CAPIXABA Volume 5 ______________________________________


POEMAS DESCONCERTANTES seguidos de SENHOR BRANCO OU O INDESEJADO DAS GENTES Paulo Roberto Sodré

Edição digital

Estação Capixaba Cândida Editora Vitória – 2017


Copyright © Paulo Roberto Sodré PROJETO E CAPA Paulo Roberto Sodré FINALIZAÇÃO DA CAPA Mário Silva EDITORES Maria Clara Medeiros Santos Neves Alfredo Andrade REVISÃO Lucas dos Passos CATALOGAÇÃO IMAGEM DA CAPA Fotografia de Paulo Roberto Sodré FOTOGRAFIA DA CONTRACAPA Fernando Maués de Faria Junior

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) S679p

Sodré, Paulo Roberto Poemas desconcertantes [recurso eletrônico]: seguidos de Senhor Blanco ou o indesejado das gentes / Paulo Roberto Sodré.— Vitória: Estação Capixaba: Cândida, 2017. 1 recurso online (160p.): digital, PDF arquivos (Estação Capixaba; v.5). ISBN 978-85-7531-684-9 ( impresso) ISBN 978-85-64258-11-2 ( digital) 1. Literatura brasileira – Poesia. I. Título. CDD B869.1

|2017| Estação Capixaba / Cândida Editora Vitória | ES www.estacaocapixaba.com.br


SUMÁRIO

Prólogo. 1. Poemas do desconcerto. 2. De Ulisses a Telêmacos e outras epístolas. 3. Poemas ridículos (ele passeia em beleza). 4. Anotações de viagem. 5. Senhor Branco ou o indesejado das gentes.


PRÓLOGO

Renato Pacheco, sorridente e fernão-ferreiro poeta, disse-me uma vez com seus olhos todo azul que não se devem alterar poemas produzidos muito tempo atrás. Justificava-se ele: cada poema tem sua história, sua escritura singular, seus limites, seu alcance. Alterá-los implicaria uma atualização que apagaria os traços de seu percurso, inclusive sua imaturidade natural. Inevitavelmente, pensava eu, em contraponto, nas lições dos antigos clássicos: reescreva, poeta, e aguarde o contentamento da lima. Como escolher um conselho entre a sabedoria dos olhos azuis e a vetusta arte de buscadores do exegi monumentum aere perenius? Sem menosprezar a plêiade de Horácio e horacianos, e descolado já do desejo juvenil de monumento – isto é para poetas maiores, decerto –, acolho as razões de Pacheco e, ao juntar livros antigos e novos, deixo os poemas tal como estiveram no período em que foram produzidos, resistindo a sua reescritura. Cinco livros, três inéditos e dois publicados e esgotados, farão parte desta reunião de poemas: Poemas do desconcerto, de 1993; De Ulisses a Telêmacos e outras epístolas, publicado em 1998; Poemas ridículos (ele passeia em beleza), de 2003; Anotações de viagem, de 2010; e Senhor Branco ou o indesejado das gentes, publicado em 2006. Dezessete anos atravessam, portanto, os versos aqui juntados. Preferi não incluir os mais antigos, Interiores, de 1984, e Dos olhos, das mãos, dos dentes, de 1992, nem o mais novo, Poemas de pó, poalha e poeira, de 2009, por achar que isso resultaria em uma espécie de “toda poesia”, que evito. O propósito é o de esvaziar as gavetas na véspera de completar cinquenta anos. O motivo, claro, é mesquinho, como pequeno é o alcance de um livro como este, onde quer que ele repouse. Mas capricho é um animal curioso, pretensioso como águia, sutil como coral, afável como cordeiro, convincente como labrador. Quase senil, inclino-me ao caprichoso desejo e cedo à imprudência de publicar mais um livro de poemas. Pois é.

Paulo Roberto Sodré Vitória, novembro de 2011.


1.

POEMAS DO DESCONCERTO (1993)

Comigo me desavim. Sรก de Miranda


SUMÁRIO

Prefácio. 1. Poemas aéreos. 2. Poemas travestidos. 3. Poemas germânicos.


PREFÁCIO

Quando a poesia desperta o seu objeto, a realidade se desvela. Ou se oculta. A poesia sonda as regiões onde a voz tende a calar-se para que apenas o olhar rebrilhe ou a escuta se aguce. As palavras retinem, tão mais incandescente quanto mais breves, como se na sua condensação se realizasse o mistério do ícone. Ou como se adquirissem a posse da linguagem cifrada, que no esconder deixa à mostra o ser capturado nas suas malhas. Vê por nós, escancara-nos as pupilas, ouve por nós, eliminando os ruídos que impedem escutar os sons da realidade latejante à espera do sopro vital. Põe à nossa frente, disponível como um achado arqueológico, a beleza que falta. A beleza que Pessoa achava necessária para preencher o vazio cósmico, já que a vida não é o bastante. Aquela que aponta um sentido existencial, para além da insatisfação perante o cotidiano bruto e voraz. Aquela que é alimento e destino. Falam dela há milênios os filósofos e estetas, leem-na desde sempre, conhece ela os infernos da queda de valores literários. Não seduz como as narrativas de “proveito e exemplo”, nem as que tecem enredos para o desfastio das horas ou para a edificação de consciências distraídas. Parece exigir senha para se ingressar no seu recinto de sombras e luzes, para se ter acesso aos mitos que ali se desenrolam. Mas, apesar de tudo, continua ela a desafiar-nos com o seu rosto de esfinge, como se fosse própria de sua mais íntima condição ser uma conquista para poucos, os sedentos da “beleza que não morre”, como diria o Antero santo e iluminado. Estas reflexões vêm a propósito dos poemas que um professor de literatura se dispõe a publicar agora. Paulo Roberto Sodré é daqueles que aceitaram o desafio lançado num tempo imemorial, decerto convicto de que somente assim poderia exorcizar os demônios interiores. Ou aplacar o seu desejo de aceder à morada do ser. À sua maneira, evidentemente, já que os confrades que o antecederam apenas lhe sinalizaram o caminho, percorrendo-o com os seus próprios instrumentos de bordo. É sozinho que o poeta navega, ainda que a sua mente esteja povoada dos outros convivas do banquete das palavras, ou da multidão de seres sem voz que almejam representar-se por seu intermédio. O autor destes Poemas do desconcerto, onde se diria ecoar o longínquo paradigma camoniano, veste reveste trasveste o seu objeto: a poesia quer-se oblíqua, como o Sol que não pode ser contemplado diretamente sem cegar, quer-se metafórica alusiva simbólica, como se a realidade do seu motivo, não importa se concreto ou abstrato, não pudesse ser encarada sem comprometer a beleza. Oculta, ou submersa na roupagem com que se apresenta, a beleza transparece, brilha dum brilho que mais se adivinha do que se presencia. O discurso que a torna visível invisível tende ao vago, onde esvoaçam penumbras surrealistas, num hermetismo sem chaves decifradoras, que entremostra o


cotidiano e o histórico em que se ancora. Os versos tecem-se imbricam-se permeiam-se, como se fossem palimpsestos cuja significação reside precisamente na superposição confusão integração de planos e de sentidos. Polissemia e polimorfia. Fragmentos a boiar numa superfície líquida em movimento perpétuo, as camadas textuais, como placas tectônicas deslizando lentamente sem parar, articulam-se sob o signo da mutação: destroços de naufrágios que as retinas e a memória do poeta recuperam para organizar desorganizar o seu mundo. Lirismo feito de ausências suspensões intervalos, como se resíduos de velhos cantos se aglutinassem para engendrar os versos destes “poemas sem um nada/ de pregos, graal, páscoa, nada”, que o poeta constrói com os traços deixados na lembrança por sentimentos esquecidos. A forma que lhes dá corpo foge do convencional, não por deliberado gosto de inovar a todo transe, mas como imposição da própria matéria, anticonvencional, que nela se plasma. Descordos, “cantigas de amigo”, elegias, poemas em prosa, tudo ganha novos contornos para abrigar o inusitado, única via que o poeta encontrou para emprestar voz ao “outro” que mora no fundo dos espelhos em que se mira e em que se perde.

Massaud Moisés

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Poemas aéreos A borboleta ou é Deus ou é nada. Adélia Prado

Introito Senhor, eu não sou signo de sol; sou espelho de águas de inverno, onde pousam libélulas, pólen de luz, quando engorda a noite a lua. Mas se Seu desejo me toca, Senhor, e abre as portas de meu poema, visite-o como sol que Você esplende, embora revelado pela gema da lua. Senhor, dou este poema a Seus pés para que nele adejem Suas nuvens; para que Sua presença diluída e simples perceba Seus traços de sol numa versão de lua.

Descordo da Visitação Adentre, Senhor, este poema surpreso. Não sei como recebê-Lo, se entre rimas, oitavas, ou apenas num só gesto despojado de doçura. Vapor é todo o imaginar Seu rosto de tantos nomes, tanto esplendor no olhar e fé dos homens varados de ventos

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e desejos de sol, de tão claras escadas. Ainda não sei, Senhor, como recebê-Lo. Não conheço vigília, não tenho círios nem hóstias para o domingo de algum dia cheio de santos, anjos e glórias. [?Como um desejo que se percebe na pálida luz de um moço, lindo como um hino, que torna desejos em pátrias de inefáveis paisagens, em sublime todo delírio?]

Descordo da Procura Conheço tantos textos e muitos que procuram Seu nome; imagens cálidas que esperam Seu sopro. E meus versos jamais O hospedaram; sons e cores sem torres, nichos, mitras nem asas. Mas muitas veredas sibilaram rastro de aura malta de passos lastro de almas no teto dos olhos: Francisco dos Pássaros e João das Águas do Jordão ancoraram fantasias em meus segredos, cais para derivas. Vieram as febres instigadas pelos sonhos com esses homens que aspergiam albas nos cânticos dos seminaristas: encantamento que feria a quietude que nunca resguardei. Meus olhos entre o torso dos santos e Seus olhos

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de éter e bólido e tristeza e lampiões e lampadários e manhã. Os santos acendiam minhas velas, e as estrelas chamavam meus balões vermelhos. !Quantas horas viraram a noite e cansaram meus dedos entorpecidos de aras e salmos em busca de Seu nome, em demanda de Seu Nome! Não sobraram, meu Senhor, nem santos, nem moços, nem estrelas: apagaram-se num carme silencioso e frágil como um poente em dedos de vapor.

Interlúdio I Em mim fincaram joio e trigo raízes e nunca pude separá-los nos outonos. Quando em corpo desenhado veio o traço da luz de Cristo: triste barba, olhos cacheados de sol, pálidos lábios, ombros magros, vi grãos de claridade num dourado de pintura. Percebi estrelas em espigas de éter. E, como da beleza o trigo, o joio fez pétala entre as espigas, e os moços de pouca década entravam em meu desejo com traços de luz até para brotarem em poemas sem um nada de pregos, graal, páscoa, nada. Os claros olhos tristes, os pálidos cachos louros, a frágil magreza suave: os gratos moços vivem em meus olhos pasmos, misturados nos ventos

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que mexem nos cheiros dos grãos de luz e da luz do joio.

Interlúdio II Francisco entrou em minhas orações como os antúrios inauguram outubros. Cheio ele de pássaros nos olhos. Ouvi os pássaros sobre o róseo cheiro das flores de antúrio entre paisagens de hóstias e altares. O rosto claro de manhã macia espreitava meus olhos com antúrio nos meses em que cresciam meus dedos soltos. Ele, moço de nuvem com oestes de éter, mexia nas flores que roseavam outubros: eu dedilhava seus pássaros com cantos de luz sobre os telhados das tardes cercadas de flores de um calendário róseo, ouvindo orações com dedos de pássaros.

Descordo da Demora Os sinos e s p a l h a n d o anjos por entre as ruas, e os rosários pendurando, lentamente, as preces brancas. A revoada de estrelas na bondade dos querubins. Anas e maridos em romarias; os cantos dos cristianos sulcando graais na pele enferma de males vagos. A igreja de luz e lírio acolhia os ternos entristecidos. Quanto a mim, Senhor, espreitava

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a noite chegando com algo de Getsêmani, e nada me alçava, a não ser o som dos passos dos moços candeias levando e cânticos. Fechava a janela, traçava um falso poema herege de sílabas vesgas sem Sua presença. Mas o canto dos moços níveos de aleluias acendia êxtases entre igrejas e uma melancolia morna em que mora Sua ausência de pólen de luz. Pensava, Senhor, que teria Sua presença nos moços de olhos crentes de luz e luz e luz e luz e lírio. Não conheci ainda esses olhos, Senhor. Demoram ou moram em Sua ausência em mim como numa nostalgia.

Descordo do Deslumbramento Quando Seu filho aéreo vi dentro de imagens, cheias de Jerusalém e Jordão, em mim entrou uma manhã de amém, leve como o rosto de maio atrás de hibiscos. Em um filme o vi, frágil como neblina de poente ou minguante,

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a cabeleira serena, os olhares de exílio: homem com cigarras tristes na voz, cardos e luz. [Homem castanho, quase louro e denso, vi seus passos vagos em vários atores.] Com os olhos cheios de ele, tolo eu, ele ameno, em meus dedos a ceifarem heresias e suores. Não pude, Senhor, azulejar meus olhos com os dele. Deixei longe suas mãos e seus abrolhos; imaginei-o lírio para meus namorados que não vieram: sede de Tântalo, águas de Danaides, asas de Ícaro. Quando Seu filho vi dentro de filmagens.

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Poemas travestidos

Bastidores Contorna os olhos; realça as pálpebras; o rouge cobre o pelo, e o rosto brota, alfenim com perfume de vasta gardênia. A noite alteia, e acordam os pardos gatos. A lingerie encardida, a peruca, os cílios. Os brincos em frufru; os anéis ofegam de vidrilhos. A noite vai alta, sibilam as sombras pardas. A penteadeira o observa generosamente e lhe entrega aos poucos um nome que atenua seus anseios: Angela. A noite altaneira; arranham-se gatos sombrios. Um gesto se cria entre um sim e uma dúvida. Cintilam os brocados, e a alegria chega, bijuteria sob o mau humor do tempo.

Tomada Primeira: os vidros Adoro o brilho das pedras lilases nos aros, nas placas, nas tranças das tiaras faiscantes. Adoro as faíscas de purpurina nos batons, nos vestidos, nas écharpes, nas calcinhas com detalhes de rubi. Brilham, faíscam, reluzem, douram, iluminam. Adoro as joias que sopram esquecimento.

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Tomada Segunda: os relógios Mãe, não veio para mim meu amigo. O vinho branco murchou no quarto arrumado. Os amores, ai, os rumores. Mãe, meu amigo não me telefonou. Os anéis estalaram nos dedos abandonados. Os amores, ai, os rumores. – Deixe, meu filho, seu amigo; durma que a noite é alta, e o dia já vem a dar coices nas horas.

Tomada Terceira: as pétalas Bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer. Ai, amigas, que farei quando deixar a rua, e voltar para meu quarto entristecido? Mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer. Ai, amigas, todos os carros me convidam, e receio encontrar meu quarto chorando. Bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer. Ai, amigas, todos os frios entram pelo meu decote, e não quero voltar para meu quarto abandonado.

Tomada Quarta: os atalhos Flores da meia-noite, o que faço com meus seios e com esse batom que não apaga meu nome, mesmo quando sobre ele se deitam os rapazes? Flores da hora morta, o que faço com minhas saias e com os saltos altos que não diminuem meus pés traçados para barbas, camisas e futebol? Flores da meia-noite, o que faço com meu querer atônito e com essa tristeza que embaça os brilhos que cobrem meus olhos e meus dedos assustados?

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Tomada Quinta: as nódoas Chuva de junho, não deixe seus dedos borrarem a face que invento para conquistar os rapazes deixados. Chuva de junho, não deixe seus fios desmancharem meu rosto emprestado para acalentar os rapazes desacordados. Não, chuva de junho, não molhe minha face ou nós, os rapazes largados, não resistiremos ao rosto que não conseguimos fecundar.

Tomada Sexta: os conselhos Um homem de óculos me falou que uso brinco e cabelos vermelhos por causa de meus pais. Não pode ser. Minha mãe era um anjo; dava-me bonecas louras e me ensinava a fazer de plástico as papoulas. Meu pai, para não nos atrapalhar, saía da sala, e ficava dias sem voltar para casa. Não pode ser. Tão bons eram eles. Homens de óculos dizem muita bobagem, especialmente depois de deixarem dentro de mim seus sussurros e seus leites casmurros.

Tomada Sétima: os lagos Ele é lindo como o espelho que falava sobre mim. O buço, a nuca, o peito liso como o meu antes de nele enxertar os volumes. Um homem simples, com olhar de ingênua íris. Poemas desconcertantes

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O pensamento leve, o ledo sentimento, o gesto como o meu. Ele ĂŠ lindo como o espelho que reclama de mim o bigode, o peito, o gesto, o sentimento fluido que deixei sob o batom que tomei emprestado de nĂŁo sei quem, e que permanece, brincando com meus colares, em cada conta de meu descontentamento.

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Poemas germânicos

E, se pudesse, a este instante eu diria: “És tão belo, fica.” Johann Goethe

para Moisés

1. Um alvoroço acende as horas iniciadas de manhã. Augúrio de beleza... Como num clichê romântico, tua sombra traz teu nome, teus passos, teus cigarros. À janela, amanheço todos os dias para ouvir revoarem teus silêncios de moço germânico. Ilícito, meu ver você te acompanha longe de teus olhos. Entre não poder deixar em teu colo uma braçada de alegria e não conseguir emudecer os pássaros que rugem incansavelmente a queixa de tua quietude, escrevo estas atarantadas linhas. Cintilo de você e de dor: um allegro de Telemann premindo minha pele, emaranhada com tuas cercas e limites e longes.

2. Feito de maio, abril e junho a insinuarem oboés e aldeias alemãs, teu corpo fende o ar e revela e esconde a cor nômade de teus óculos, portões e de tuas frases trancadas. Insistir em te ver: caminho que não conhece repouso.

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3. Para te conhecer, vasculhei toda a capixaba região. Colhi morangos em Pedra Azul; pianos em Santa Isabel; montanhas em Jetibá; sobrados em Santa Leopoldina. Paisagens nas palavras; ventos nas metáforas. Vi-te: mangas dobradas, rosto terno, sob mangueiras sombreando o rio. Desenhar você requer dativos, vinho branco e calmas para me contentar com tua ausência rumorosa.

4. Malogro em desmanchar o século dezenove com suspiros poéticos e Magalhães todas as vezes em que te pressinto na calçada. Tento me cercar de cacos de vidro, sapos, Dores do mundo, mas Caetano, o Veloso, amanhece cajuínas nas ripas de minha sina: então bebo vodka com maçãs de Cèzanne, e tento te impressionar. Vencido, álcoois na íris, entreabro, em vigília, os escuros de teu quarto, onde oscilam viagens de Vangelis, e elfos decolam de tuas mãos de gentleman. Should I try a glass of water? Or just oblivion?

5. Uma camada de pêssegos te clareia as manhãs. Comecei a ver-te, grave hora, da janela que sempre me hospeda: uma erupção de vermelhos farfalhou, gelando o nó de minha garganta. Teu rosto simples, tua barba comportada, as espáduas, as sardas, tuas mãos acanhadas, teus passos líquidos. Espalhei-me pelos ventos e pelas folhas de agosto, procurando teus dedos firmes, sem que você soubesse sequer de minha sombra em brasa.

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6. Um Minnesänger nunca diz o nome de sua senhora de iluminura. Como dizer o teu, meu amigo? Vertigem, então, trazem teus anjos, quando a mim entregam tua presença feito hóstia de Tânatos. Quanta vontade enovelada em tapetes de mil e uma manhãs. Meus olhos, devo dizer-te, pesam de tanto você. Um pouco de teus ombros, Liebe, me daria vastos alpendres com avencas, calafates e ipês cheios de cachos de leveza. Plúmbea delícia.

7. Maresia à beira do rio. Teu país flui para dentro de minha invenção. Teu beijo conteria fábulas de algas dançando águas sob tons de albas envolvendo faunas de Eros? Desaguar: um camafeu de dor adamascada. Acho que aguardo você como quem espera o tempo atrás de um conto de fadas relido. Kyrie eleison.

8. Os minutos desta manhã e tua passagem entregam tua imagem a meu campesino poema prosaico, em grãos de um signo que não adivinho. Sagitário te recebo, colhedor de uma planície de vinhas, várzea ondulante em cheiros e cicios que cato e guardo na página de uma frase omitida. Que azul se alumbra, quando tua voz se espalha pelos quatro cantos de meu não ouvir-te?

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9 Alvoroço de calma estia em minhas mãos. Não se faz noite nem chuva quando tu partes, apagando os grafites de passeios que escondo [sim, dentro de meus fólios]. Nem minguantes, nem neblinas, nem elegias. Faz-se reticência, alteza de retornos, entreatos de alemanhas que cultivo, amsterdâmente, a cada gema em que se transforma tua passagem, joia de ausência com rumores de luz. És tão belo, fica.

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2.

DE ULISSES A TELÊMACOS E OUTRAS EPÍSTOLAS (1998)

para meus avós João Badoca Moraes e Antônio Sodré

Ai! doudo sonho!... Uma estação passou-se, E tantas glórias, tão risonhos planos Desfizeram-se em pó! Fagundes Varela


SUMÁRIO

Primeira Epístola De Ulisses a Telêmacos. Segunda Epístola De Pietro di Bernardoni a Francesco. Terceira Epístola De Jessé a Davi. Quarta Epístola De João a Sebastião I. Quinta Epístola De Giovanni Guglielmi a Rodolfo. Sexta Epístola De Vicenzo Galilei a Galileu. Sétima Epístola De Buonarroti Simoni a Michelangelo.


De Ulisses a Telêmacos

I Meu filho não é meu filho, em nada, senão no que nele meu sangue molda e meu sêmen legitima. Não mais que aparência ele manifesta em seu rosto de minha juventude, em seu jeito de minha presença. Não, esse filho não assume meu nome, mas seu traço que de mim é menos que meu nome quereria.

II Quando o vi entre os anos, pressenti atalhos de mim. Não podia dizer-lhe Esse é o passo, Esse é o gesto, Esse é o espelho. Envelheci sobre seus poucos anos e nada pude lhe outorgar, senão uma fenda, uma lacuna, um silêncio.

III Sei que suas mãos são gêmeas das minhas; que seus ombros, seu andar, seus olhos são águas onde posso me debruçar, sem cair. Mas nenhum de seus nortes lembram os meus: as partidas, os desafios, as terras, nada o acende para os navios e as gáveas. Você não tece tapetes, tampouco dá vida às setas.

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IV Uma vez falei-lhe de viagens, de guerras, de cavalos. Ouviu-me como quem bebe vinho sem defesa, e deu-me sua atenção sem perceber que seus olhos empalideciam, luz a luz. Guardei todas as dúvidas num medo tácito e zarpei, munido de um espesso frio no coração. Mais do que das praias de casa, zarpei de meu rapaz que me olhou como quem não partilha o mesmo ar. Você me disse qualquer coisa, e ouvi Adeus. Eu silenciei os olhos, e você entendeu Nada posso fazer. Criamos o avesso, filho, e não nos beijamos mais.

V Entre o que queria e o que em você conheço há o tempo que esvaziei distraidamente. Não percebi seus olhos longe, em algum lugar, onde se frisam estigmas. Vi-o por meio de mim, ignorando-o. Esqueci-me do que naufraga entre o que se sonha e o que vibra o tempo. Ele vai, com meu corpo, sem meu nome, e não sei se sorrio ou se fecho portas.

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De Pietro di Bernardoni a Francesco

I Assis ouviu seu choro e sorriu com minha alegria cheia. Cantaram os jograis sua estrela, e as ruas se encheram de manhã, quando seu nome virou Francisco. Ah, meu filho pequeno, pássaro para meus anos envelhecidos. Ah, meu pequeno menino, broto para meus passos virarem um sempre de meu nome e de minha fortuna. Assis ouviu seu riso e chorou com minha dor enraivecida, quando ao sol sua nudez esvaziou-se de mim e deixou-me numa espessa noite sem filho.

II Ouço a revoada de luzes, filho, em seus olhos, e lamentos me vêm: neles não tilintam a seda, os florins, o prestígio. Não sei se pranteio as moedas em silêncio, se minha família sem sua voz, se meu rosto jovem em você sem mim. Vejo-o em vão; em vão espero que meus netos cirandem em minha velhice, continuando minha fecundidade.

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III Rezo Kyrie eleison todos os dias, filho, e nada de minha alma repousa. Rezo Ave Maria todos os dias, filho, e nenhum de meus prantos silencia. Seus passos pobres enchem de ruídos meu sono desassossegado. Por que você rasgou nosso abraço, filho? Por que sua manhã encheu-me de vespas? Olhá-lo ensombrece meus espelhos.

IV Altíssimo, bom Senhor, beneditíssimo dono dos louvores e das bênçãos e da glória. Nenhum homem é digno de nomear-te. Louvado sejas, bom Senhor bendito, pelo sol, pela lua, pela terra, pelas criaturas. Louvado sejas, bom Senhor querido, pelo vento, pelo fogo, pela água, pelos frutos. Louvado, sim, Senhor, mas não pelo caminho que incendiaste nos olhos de meu Francisco. Louvado, sim, Senhor, mas não pela sombra que sopraste entre meu beijo e o rosto de meu filho. Oh, Senhor, não te bastaste perder teu Filho; tinhas que saquear de mim o meu pequeno e de meu sonho o ser-me nele.

V Vejo-o e perco-me no que poderia ser. Onde haveria seda e brocado, encontro sarja; onde haveria poder e ouro, encontro pó; Poemas desconcertantes

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onde haveria elegância e cortesia, encontro pão; onde haveria justas e damas, encontro pardais. Ouço-o e todos os meus nortes ficam sós. Às horas de cristianos dias, filho, deixo-o e parto para meu nome deserto. Chegará o dia para o sossego de minha noite. Kyrie eleison.

VI Sei que celebras por nós a cristiana bênção. Sei que abençoas os homens com as chagas que tomas para ti, homem de sol e lua. Sei que reparas os erros de nossas mãos sôfregas. Mas como posso desistir de ti, meu menino, se ao olhar-te sou menos, pois me ausento em ti? Não tens meu brasão nem meus olhos sorridentes para o farol do mundo. Não rezas como penso nos altares; não jejuas como obedeço à Quaresma; não falas de Maria como oferto dízimos. Perco-te e, mais que essa angústia, perco-me por não abandonar meu nome nem receber o batismo iluminado do teu.

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De Jessé a Davi I Quando a pedra de tua funda arrebentou o tamanho daquele homem, filho, caí com ele sob a consciência de que teus anos seriam acesos e meus passos não seriam mais que um grão que trouxe o teu para a luz. Desde então alegrei-me para o Senhor, e entristeci-me para o que em mim era mais que ser pastor e teu pai. Apaguei minhas estrelas: tua claridade delas faz garranchos.

II Largo os olhos sobre esses pastos. Meu cajado sob meus dedos secos; as ovelhas cochicham sono sob o sol; nenhum vinho alegra a sede que sinto ao ver esse plano silêncio de vida. Soletro teus passos a caminho de Saul, meu filho, e nenhum dos milhares que fiz canta um salmo de luz, mas de pó infecundo. Teus passos a caminho de reino e ouro e glória. Não sei que inquietude assombra hoje meus dias, que não ouço bem o caminho do rebanho. Tudo é pequeno e pouco e ermo e fosco e nulo senão teu sangue onde agita-se o meu.

III Cantam as palmas de Israel tua passagem, e nada obsta teu destino, larga tiara de Deus: nem lanças, nem reinos, nem luas, nem crimes. Sob teu nome fulgura o poder que desencoraja a pieguice. A flauta que acompanha meus dias Poemas desconcertantes

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arrulha pastorais mesquinhas, filho, e nada, senão minhas ovelhas, seguem o vulto de minha humanidade pequena. Fecho os olhos sobre os pastos empoeirados e minha vida não consegue ser mais que um eco pálido de tua luz no mundo.

IV Ishai, chamam-me; viril significa o nome. Dauid, chamam-te; amado de Deus acende o imensurável sentido de teu imenso nome. Sou o homem que, dono dos grãos e da terra que te trouxe, de minha estirpe raiou tua sina: a de humilhar grandezas e dourar reinados. Do nome do pai, o sêmen de teu início; Do nome do pai, o cajado de teu começo; Do nome do pai, a poeira para teu esplendor. Dá ouvidos, Senhor, às minhas palavras e acode, pelo salmo de meu filho, ao meu gemido.

V Largados os olhos pelo horizonte, cometo a tristeza de chorar meus limites. E nada posso mover senão minha sombra que sonha o vulto de meu filho abençoado. As ovelhas querem o caminho de meu cajado e meus olhos ardem de sede e sol e ausência. Tu brilhas, filho, aumentando meu nome em ti, e brilhas, esvaziando em ti minha presença. A poeira dos teus passos me acolhe.

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De João a Sebastião [ post mortem ]

I Ó bem nascida segurança minha e da tão sofrida gente de nossa finisterra; ó tenro e florescente ramo de meu corpo e do brasão que defende nossas fronteiras, que bem soavam teus olhos de Galaaz sobre meu desejo de filho e nome e sempre. Nenhum canto te acolheu melhor, que minha alegria de homem fecundo a receber tua presença em minha genealogia. Ó poderoso cavaleiro de impossibilidades, como pudeste florescer tanto brilho débil? Ó excelente monarca de ausentes, como pudeste clarear tanta aurora triste? Ó frágil filho de minha esperança, por que invocou meu júbilo tua figura tão triste, tão débil, tão longe de levar adiante minhas mãos sem cetro?

II Quem se dirige a vós, filho? Não sei, não percebo, não atino. Se vos digo, se te digo, como saber se sou teu pai, se vosso súdito? Já não sinto meu coração no coração de tua graça. Ouço tua morte sem corpo e meu choro sem pranto corre numa mudez atormentadora. Não sei onde jaz teu pulso. Sei que morro em teu desatino e não tenho chance de ressuscitar-me.

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III Os dias exigiram teu triunfo, bem sei; mas nenhuma hora foi menos que cruel com as esperanças de tua cavalaria, de tua fé, de tua vontade de reino iluminado. Partiste de minha paternidade, e não esperei que tua voz fosse senão vitória sobre o imprevisível. Assim sorri, quando a coroa cobriu em ti meus intentos; Assim carpi, quando o cetro caiu vazio sobre tua ausência.

IV Talvez devesse notar teus passos e não o desenho e a ideia dos meus. Talvez devesse ouvir teus anseios; talvez devesse querer teus projetos; talvez pudesse acalmar teus clamores. Não fiz mais que esperar o triunfo – que nunca encetei, falto de coroa – que os auspícios quiseram de ti, quando tuas mãos abarcaram o reino. Deixei-me em ti, filho, para ser-me em teus anos coroados de expectativas.

V Não ouvi o sopro da escura Dona, antes que teus olhos vissem a luz; não entendi os salmos dos mouros, antes que tua mãe te derramasse no mundo; coisa alguma, nenhum, ninguém fez-me perceber que para tua vida tudo era penumbra. Agora escuto o murchar das espadas e todo um reino aflorar misérias.

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A raiva que choro banha a dor, e nada impede que eu ofenda o Fado, que eu deflore rosários, que eu fira minha cabeça e minhas mãos sem majestade.

VI Deus meu, como pode assim anoitecer tanto desejo de terras e mares e império? Como tantos reis são devorados pela insânia de um devorador de nomes, brasões, esperanças? Por quê, filho, coroaste meu claro reinado com teu desvio de mim, com teu atalho em meu sonho? Por quê, Rei, esvaziastes minhas regiões com vossa infecundidade, com vossa brevidade? Não chorarei teu corpo ausente sobre as essas, se não dominastes a febre de vossa fragilidade; se vosso gesto sequer venceu as areias sem fé; se não fizeste de teu pai um nome em iluminura. Para não mais que uma espessa sombra, por que acenderia velas e pranto e memória?

VII Não foste senão meu outro nome. Ganhei-me, quando vós sorristes de domínio; logrei-me, quando respirastes realeza; conquistei-me, quando vós abraçastes o império; Hesitei diante de teus gestos insalubres; duvidei diante de teus sonhos doentes; vacilei diante de tua armada de insensatos; perdi-me, filho, quando teu nome amanheceu ruínas.

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De Giovanni Guglielmi a Rodolfo

I Todo meu ser esplende diante de seu rosto, e um gozo adorna meu olhar quando seus olhos me acolhem. Cada traço de sua figura arrebata os espelhos, que lastimo, fazendo-me debruçar, incauto, sobre sua presença. (Tudo em mim, filho, é rabisco sombrio.) Hesito entre olhá-lo, para assim ver-me, e, para não me perceber, cegar meus olhos, doído de derrota, ao vê-lo lindo como não sou.

II Imenso é seu rosto que ilumina toda minha farta vontade de vê-lo. Nada consigo ver, mas sua imagem, epifania com que fulmino os olhos que só pretendem receber sua beleza. Sim, sua beleza que congela a indiferença das mulheres, o despeito dos homens e o ciúme dos deuses que rondam a Fortuna. O que mais pode um pai pensar de sua criação, quando nela a perfeição se contenta e descansa seu percurso longo, largo, longe e lasso?

III Perguntam-me como sobrevivo ao perceber-me superado indefinidamente.

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Perguntam-me como conformo meus brios atarantados indefinidamente. Perguntam-me como sublimo o que meu corpo exige indefinidamente. Disparei contra meus dias perdidos tanta frieza, frígida agonia, tanta que nenhum ódio vem à tona de meu sorriso quando olho, desesperadamente, o que não sou nem tenho nem consigo na sua beleza de meu filho.

IV As mulheres me olhavam, mas nenhuma anoiteceu-se de amor; os homens me olhavam, mas nenhum rendeu-se a meus pés; o amor inscrevia-me em suas setas, mas nenhuma ganhou direção; os espelhos reconheciam meu rosto, mas nenhum, em momento algum, fulgurou. Olho para sua sombra e já por ela choram as mulheres, os homens, o amor, e os espelhos tremem de júbilo, e eu enxugo, como larga danaide, meu desespero.

V Olhar-me fere tudo o que não sou em sua farta espessura de ser lindo. Quando poderei olhá-lo sem que me torne súdito mesquinho do que você é completamente sem mim? Jamais é o que vem nas brechas da resposta

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que adio a cada fechar de olhos, a cada dor de punho cerrado, rígido e silenciado.

VI Neste tango que tiro de alguma lacuna, danço com seu jeito de ser tão belo sem me importar que ao fim teremos que reconhecer o que subjuga e o que se retira para a sombra. Seu rosto reflete os traços do meu; sua boca reproduz meus lábios; seus ombros responde aos meus; seus passos retratam meus pés. Seus olhos faíscam sobre a palidez dos meus, e minha voz não ilumina as palavras como a sua. Seu gesto encanta as mulheres ausentes para o meu, e meu abraço não acolhe os ais que seus ouvidos recolhem delicadamente. Dançamos e a verdade me exaure. Olho sua presença, e o júbilo me envolve, tanto, que cedo, descalço, imbele, filho de sua beleza que canto com todos os espelhos em agonia.

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De Vicenzo Galilei a Galileu

I Sempre olhei o céu como quem deseja sossegar canções impossíveis. E largas baladas procurei vibrar nas partituras eivadas de céu. Olhei teu rosto de filho e todos os meus dedos disseram suítes. E suítes criei para teus primogênitos passos com frases contentes. Veio, enfim, a escolha: tuas pautas acolheram os números e o mapa dos astros. Doeu o silêncio do alaúde.

II Deus habita a ciência dos homens, decerto. Deus caminha pelos conceitos dos homens, certamente. Deus alia-se aos inventários dos homens, por certo. Mas em nenhuma ciência fulgura o divino hálito como nas lisas linhas sonoras em que se debruçam os madrigais. Quando te debruças sobre os inumeráveis cálculos, filho, sobre os enigmas do céu incontáveis, tremo com o silêncio de que te cerca teu pensamento e lastimo imensuravelmente tua distância das violas.

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III Talvez estejas mais próximo do Criador ao dedicar tua vida às lições de Sua Máquina; talvez recebas Dele mais regozijo ao fazer de tua vida trilhas para Sua Ideia. Talvez o alaúde de que colho aleluias aproxime-se menos de Seu esplendor do que tuas lentes arrogantes. Mas nada, filho, umedece mais delicadamente a alma de nossos sentimentos de sombra e pó do que as hosanas num cravo amanhecidas.

IV As vezes em que brinquei com teus anos esgalhando, sorri profundamente ao antever teus dedos matizando as cordas para uma balada de anjos. Rabisquei frases para tua leitura num instrumento a toda luz. Maestro di capella — imaginei meu filho, belo como um acorde amoroso. Tenho ódio aos céus que tocaram teus olhos mais que o júbilo de ouvi-lo compor epifanias.

V Sob sombra as pautas restam silenciosas, secadas, silentes. Saturno gira; as estrelas boiam; o compasso rodeia números inquietos; o sol ganha coroa, e estilhaça os frios

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e o frágil horizonte antigo de ouvir-te, filho, num crescèndo em que teu corpo escondesse do ouvido do mundo o inevitável cessar do meu.

VI Sabes, e teus olhos compreendem o universo mais que minhas pautas. Que importa que eu toque a alma dos homens num momento fragílimo? Que importa que o alaúde conquiste o pranto de um rei, de um jogral, de um bispo? Teus cálculos tocam a humanidade e dá-lhes a quimera da compreensão do imponderável. Teus cálculos tocam a Criação, aproximando-a do humano domínio. Teus cálculos, filho, são a música que nunca tocarei na posteridade.

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De Buonarrotti Simoni a Michelangelo

I Disse-lhe: Fala, filho de meu nome! e você chorou como quem amanhece. Disse-lhe: Ande, filho de meu gesto! e você tropeçou como quem descobre. Disse-lhe: Seja, filho de meu tempo! e você sofreu como quem prenuncia.

II Das pedras tirei menos que lascas, nos dias de todo e qualquer dia. Acostumei-me, filho, com martelos e ruínas que vinham das extrações inumeráveis. Os gritos da têmpera do aço, sobre a pele faiscante dos granitos, nunca tocaram a alma de meus dedos, nem rasgaram minha cegueira para a textura de maçãs dos mármores. Escravizei as pedras, filho, à ausência de brilho.

III Como me descobri, ao olhar suas pedras! Olhei para minhas mãos e pranteei os anos vazios deixados nas britas, na poeira das ausências. Os blocos áridos; as infecundas penhas; os ruídos de morte; as faíscas fátuas: tudo dançou na lembrança como cadáveres maninhos.

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Nenhuma lágrima vingou, filho, senão uma grave dor que revolveu cada jazida desvanecida em nada. Suas pedras vivas olharam-me, e já não logrei saber se era seu pai, se seu fiasco, se seu vazio.

IV Sempre quis que meu nome acompanhasse seu corpo e seus passos. Quebrei pedras, como quem colhe peixes, para que seus anos conhecessem letras e astros e nada do mundo escapasse a seus sentidos. Vi-o com pincéis arrumando paisagens e humanas criaturas e divinas e corpóreas; vi-o em capelas e palácios e ruas e mosteiros e sorria com seus zelos de cor em cor. Mas quando vi-o criar, filho, homens e mulheres de pedras que eu sempre reduzi a quadrados toscos, não pude evitar perceber a distância entre o que fiz com minhas mãos e o que você faz com as que eu lhe dei do meu corpo.

V Disseram-me que você pediu à pedra: Fala! e ela ofereceu um duro silêncio. Disse-lhe eu: Cale-se! e ela gritou, enormemente, luz.

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3.

POEMAS RIDÍCULOS (ELE PASSEIA EM BELEZA) (2003)

Para Cássio, Régis e Ledeumar

Tocar e ser tocado – nada senão um corpo o pode fazer. Lucrécio


SUMÁRIO

01. A imaginar algum direito eu teria?

02. Da eira das explicações: beiradas.

03. As circunstâncias de sal e areia.

04. Elegia das chegadas tardias.

05. Das intempéries e calmarias intempestivas.

06. Do sim à maneira de contramão.

07. Um jeito para ouvir canção.

08. Nesta noite há cerveja no copo dos olhos.

09. Contra a ordem expressa do dia.


1. a imaginar

algum direito eu teria?

A névoa a cair sobre os telhados; Por um momento em dúvidas me perco. Já que não sei o que sentir ou se o entendo. Esta melodia culmina com uma “agonia de outono” E já que aqui falamos de agonia - Algum direito a sorrir eu teria? Thomas Stern Eliot

para Levi

Colaterais Todas as claridades nas algas dos rios que escorrem pelos cabelos. Se vejo assim as palavras que ouço, quase remando os fios de seu nome, é que tudo fluvial se torna, remanso de afluentes, quando seus dedos dizem, sim, que existo.

Anúncio cada violoncelo colhe licor ou sombra quando à rua de meus passos vem sua véspera de riso, de cheiro, de perto, de nós. Nenhuma nota chega a mim sem que uma sensação de pluma

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calce a rua, escada, corredor que aproxima sua chegada de minha espera. Franca a rua, aberta a porta, a manhã se desdobra, e tudo não é menos que delícia.

Vínculo Uma casa à beira de maio não é mais que seus olhos com bagagem para inícios. Um poema com caligrafia de Kaváfis não pode ser mais que seus olhos com senhas para chegadas. Entremos.

Ruminação Examino o manuscrito dos episódios, diante das horas, quando seu nome era ainda talvez. Deu-se o sentido que o tempo, aos minutos, fez chegar (a cada um) de seus atos.

Perecíveis mas, se ergo os olhos e deparo a impressão do tempo, adivinho que sua chegada é passagens. Há, dizem, para poeiras as chuvas.

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Ergo os olhos e seus passos umedecem largamente minha pele. Os inícios. Eles quedam quietos.

Visibilidade ainda que a neblina impeça, entrevejo e conheço dos mapas os limites. Não posso prescindir da alegria que não prevejo entre seus dedos. Deixo de olhar sua chegada; recolho dos ventos as pipas. O tempo é largo; o não é fértil. Arrisco.

Vazão Parto de sua passagem, remanso de líquidas tardes. Meus passos irrequietos adormecem lentamente. Ruído de esquecimento.

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2. da eira das explicações: beiradas

non consintades que padesca yo olvidado en este vuestro reinado; Alfonso Álvarez de Villadandino

para Cirineu

Deslize Olhei-te como quem vela, e ao mirar teus olhos ignorei as pétalas de teu diário, fincadas entre um silêncio e um delicadíssimo rubor. Ver-te requer manuseios sutis, fólios intocados, visitados sob a penumbra. Nenhuma luz, senão a dos veludos, [que mina do inefável] pode incidir sobre teu corpo. Ao olhar-te, esqueci-me de apagar os supérfluos códigos, as leis inúteis. Esqueci-me de ficar só com teus mosteiros.

Torpor Adormeci onde tuas águas disseram: Não aguarde meus dedos, tampouco espere meus cálices. Desacordado calmamente Poemas desconcertantes

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sobre o que não se aguarda, entreacordo com os ruídos líquidos de teus dedos oferecendo-me cristais. Adormecida a sede, dormente a espera, molham-me, todavia, os fios aquosos a contornar o delírio de meu corpo seco. Adormecia? Acordam trôpegos os desejos de água na ponta de teus dedos.

Chuva O corpo estala a cada gota de calor que teu rio concede. Farfalham as sílabas dos músculos: as rosas se reanimam de cor e volutas. O corpo se umedece de teu sim sob as correntes em que medusas, algas e lemes se debatem. Reclamam os membros e os olhos: as rosas acolhem os voos dos fôlegos afoitos.

Hiato De sobre tua pele a ditar clarezas retiro a camisa, e me molho com teus cheiros que recolho de canto a canto. De sobre tua pele a grifar nudez levanto o véu e me encharco de teus arfares que bebo, que bebo, que sorvo, até que, entre estar adormecido e longe do sono, vem-me o temor de estar ilícito no território de tuas sete chaves germânicas.

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Curva Hesitando: as rosas desligam seu sumo. Ao duvidar: as camisas desfecham seu augúrio. Silencio: as águas se retiram da sede. Permanecem a volumosa noite e o gosto no céu interrompido da boca.

Habeas corpus Releio as leis e a memória, enquanto velo a polpa dos veludos. Nada ganha, no entanto, nítidos sempres: nem o crepitar dos líquidos cálices, nem a dança das rosas e das camisas, nem o quebradiço ruído da poeira. Enternece o cheiro dos fólios e do rubor que os manuscritos alinhavam. [Não tardes.]

Rio/Vitória (2000)

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3. as circunstâncias de sal e areia

para Lincoln

Nomenclatura Que nenhum som, nenhuma luz amanheça sem que seu nome ancore num sentido que anuncie sua passagem pelas minhas clepsidras. Um nome para tomá-lo em palavra, antes que o poema tombe seus sons.

Étimo Colônia do lago é a paisagem que seu nome ressoa, latino e galês, como uma pintura de Constable: cheiros de junho sob nuvens, pássaros em cada canto de uma estação propícia. Eis o nome. Eis o lugar. Eis meu recorte.

Fora de lei Ainda que não devesse, de modo algum, mesmo não podendo, olhei sua voz. Atravessei sua paixão por outro e, sem chances, olhei seu cheiro. Sob as castanheiras de Itaparica, larguei meus olhos a suas mãos: deriva.

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Adivinhação Não sei de seu beijo nem de seu gosto. Desconheço a textura de seu sonho. Não imagino como sua noite dança. Apesar de tantos nãos, olho seu hálito e todos os meus músculos se retesam. Rir com você transborda de vinho.

Não estacione Sei de seus olhos que não me incluem; de seus dedos que não me indicam. Mas adivinho, Sagitário, seus pelos que tocam seu corpo como ventos que preparam o frescor da vontade. Ilícito, peço ao talvez que me dê de beber.

Alternativa Sim, é o que digo à vontade de ficar ao lado de seus gestos engenheiros. Mas parto de você para um lago, onde planto portas, nenúfares e vésperas. Nomeado o desejo; colhido o sentido, rumo em direção aos silêncios: colônia das horas imprevisíveis.

Vila Velha (1996)

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4. elegia das chegadas tardias (a partir de quadros de René Magritte)

para Waldir

Le chef-d’oeuvre ou les mystères de l’horizon cheguei quando a rua não concernia a seus passos se se se se

havia norte e leste vermelho o sinal ou apagado era gérberas a vendedora tinha ou selos o ônibus passara ou viria

cheguei e bússola alguma marcava sua passagem se chance havia ou nenhuma minguava o que poderia devir cheguei quando a rua era um rol de chances em branco

La malédiction à janela esvoaçam prédios; o vinho seca à beira da tarde; ao relógio escapa o encontro; sobre sua fotografia de Felipe

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boiam as digitais que desconheces e a ridícula senha para o que não digo. Fulmino a calma que humilhas, quando acendes as nuvens que sequer tens o trabalho de apagar, quando displicentemente partes embora

Le bouquet tout fait Em seu dedo um anel descansa uma pedra que rumina os azuis, estampa dos olhos que declaras. Desgrenhados os fios que ordenho dos dias e das tardes e das manhãs, advérbio onde ris como quem desconhece o que vagueia por cada um de meus nervos. [uma primavera ronda minhas sombras] Suas mãos se fecham, e os dias, que fazem chegada, debocham dos cheiros que não vejo.

La grande guerre “Guardade-vos de mim”, que muito vos desamo por tirardes de meus óculos tudo mas não um claro fruto calado. “Guardade-vos de mim”, que mui feramente vos tenho desamor por tirardes de meus ouvidos tudo mas não esse verde fruto distante. Guardai-me [sim], de mim fazei guarda, para que não me esconda nos versos aéreos, muito ao largo dos territórios dos dedos, onde receba de improviso sua chegada.

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Golconde Não chove, se pensas que sim. Diante de mim desconheço o que quero, mas tremo diante dos ventos que passam pelo seu endereço e de lá trazem sua vontade que me ignora. [Se havia chance ou nenhuma] Ou chove, se queres que sim. Ou desejo, se desconheces que sim. Escuramente chovo entradas, mas não consigo umedecer seus passos para que se desabotoem para minha espera sem trégua.

São Paulo (março de 1999)

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5. das intempéries e calmarias intempestivas

para Marcelo (de Londrina)

Negócio Pediu-me vinte moedas e receei que tramasse secura de figueira antiga. Mas pediu-me as moedas e deu-me de seus braços um estender de nuvens e brisas. Ao pedir-me dezenas de moedas, deu-me um canto de seu corpo e tecemos bons silêncios serenos. E veio a inequívoca manhã, e não dissemos mais que um nome sem dono.

No meio do caminho Veio como quem recolhe das margens o fluir franco dos dias e dos favos. Não havia música, nem gatos nos sofás; As escadas indicavam sentidos sem véus: subi, subiste; vinhas gentil e fatigado e gentil e fatigado eu vinha; tinhas nas mãos apagado teu nome, e nenhuma pergunta à vista eu tinha. E giramos, como quem rouba mangas de quintais completamente esquecidos.

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Contrato Não há razão para pensar nele como se gosta de imaginar rapazes prontos para uma via de direitas retas. [Mas pensava.] Ele me beija como quem afaga dezenas, e nenhum gesto vem algo a ser como que especial. [Mas era.] No entanto, tanto é o pacto e claro e longo e raso e grave e certo, que nada se assemelha a seu gesto de me sorrir ao dizer meu nome que não conheço.

São Paulo (1999)

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6. do sim

à maneira de contramão

Conselhos Dizem os sábios que, no silêncio, devem ser guardadas as palavras as que não ganham grão, folha, fruto. Também dizem os sábios que nada é tão indizível que não valha o risco de acendê-lo. Os sábios dizem advertências e, às vezes, enquanto roda a vida, é inevitável o avesso, esse território onde a surpresa brota e acende o inusitado.

Desbolado, desmiolado: treslouco Desaconselhado, sem lei, arvorando-me em insensato, retiro do silêncio estes versos que despem pouco a pouco, o que se vê, o que se ouve: desnudam-se os sentidos.

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Acontecimento Mais que um gesto torna-se o olhar, quando quem se vê espalha, no corpo da retina, mais que uma imagem: o que você instaura, distraidamente, faz esfriar a indiferença, faz perguntar sobre os detalhes que compreendem seu nome, sua tez, sua chegada de rapaz sem roteiros.

Novelo Nestes versos sem regra, sem discrição, (perdoem-me os sábios que dizem) desenha-se o que o cotidiano encobre, dispersa, dilui. Nestes versos escritos com álcool, rabisco os traços de seus ombros sem o véu das camisas. (Há sardas? Há clarezas? Há tatuagens?) Nestes versos há sua presença de cabelos escuros, pequenas mãos, olhos de brincadeira, queixo exato. Presença tão cheia quanto a ausência de um homem desconhecido.

Mapeamento Já vi você sorrindo, a dançar, a prescrever, tocando, olhando, a abraçar mulheres entre o meio-dia e as nove horas da noite. Tudo, tudo dentro de uma larga distância.

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(Nunca vi as águas cobrindo sua pele. Nunca vi suas roupas jogadas no chão.) Entre o que conheço e o que ignoro, deitam-se estes versos curiosos.

Prudentemente Aconselham os sábios a jogar-se no silêncio as palavras sem chance. (Deixar estes versos quietos ou oferecê-los à sua surpresa talvez encontre o mesmo destino.) Insensato e sem lei, entrego-os. O tempo arde. E nada, nada é tão absurdo e vão que não valha o risco de calar os conselhos e lançar estes poemas na contramão.

Alto Lage (1997)

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7. um

jeito para ouvir canção

Me veja nos seus olhos Na minha cara lavada Angela Ro Ro Ana Terra Vi no meu caminho Uma aglomeração Procurei você Nem sei por quê Antonio Cicero

para Hélio Jr.

aviso Abro estes deslocados poemas, a despeito do que São Jorge, Chico Buarque e Pound disseram sobre versos. (Danem-se essas folhas que recusam o único nome que acende o oriente de cada um de meus olhos.)

parede Não consigo prendê-lo no poema que quero te dar. As palavras se pulverizam; as lâmpadas enguiçam; as canetas emperram.

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Colo seu nome nas linhas que o não registram. Pregos, fita crepe, durex, nada o retém no texto que rasgo, mas que sobrevive na planície da mão indesistente.

claraboia Nenhum outdoor o anuncia, reclame mais urgente. O horizonte de janelas silenciosas não traz manhã nem noite nem seus passos de sol tamanho 40. As ruas, sim, essas linhas deliciosas, sempre trazendo os trânsitos que podem, entre um PARE e um sinal verde, lançar sua vinda, sua chegada para um inesperado golpe de sorte.

curriculum vitae De Touro, de Tigre, de água de poço cercada por todos os muros; de terra, de fogo, de ar, de água de lua à margem dos caminhos; de turmalina, de nácar, de água de avencas em frestas baldias; de pardal à beira dos fios de tardes sem eira nem semente de romã, sento-me ao poema, e espero que você me veja e pergunte por meu sim.

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flor de cinza Deixar um endereço na florista para que ela entregue bilhetes é tão tolo quanto cromático. O clichê, com pólen de cinerárias, ganha qualquer traço de ouro ou de dia lavado de chuva ou de nome que deixa a quietude e mina de todas as pedras.

astrolábio Vai alta a incerteza medo adentro. Os atalhos e os certos caminhos e as brechas de estrada e a falta de trilha penteada assombram os pés diante da hora que escapou do relógio pontual. Óculos sem olhos, farol sem centelha, toda a nudez dos pontos cardeais estremece, falto que estou de sinal de seta de sentença de sentido. O que chamar meus dedos sabem, mas os passos não decifram e, estancadas, as ruas não acontecem. A noite estala no céu da boca.

qualquer coisa entre o céu e os girassóis Dentro de seus olhos, os desenhos imprimem calendários de cantigas com páginas para as quatro estações.

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Dentro de sua voz, as cartas caligrafam tecidos de horas em que chegam indícios de frêmito. Dentro de seu corpo, meus nervos plantam nuvens de onde brotam senhas que absolvem meus silêncios.

clepsidra Heliotrópico, heliografia, heliocromia, heliofilia, heliossonância, heliogravura, helioscópio, heliometria, helionomia. O rio arruma seus augúrios. O tempo busca os empecilhos e, mesmo à beira das águas, temo e demoro e receio desligar os nós. O rio arruma as palavras. Hélio.

Vitória (1998)

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8. nesta noite há

cerveja no copo dos olhos

nervos enquanto olho seu rosto belo e ouço o rumor, solto na noite a romper augúrios, recolho a atenção dos álcoois e reparo nas palavras que pouco a pouco entregam a você os nervos guardados senão para paixão.

pele não são dias o que separa o que digo do que calei. Resma de tempo colhido entre olhar e silenciar o que sob a pele doía.

copo Digo-lhe. Todos os anos param e reparam no desvelar que lhe ofereço, nu como o tempo que alimenta cada um dos entreolhares para seu nome de homem lindo.

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botão nunca desabotoei sua camisa. Nunca vi seu pelo minar de entre as fendas do zíper. Só os olhos fechados se arrepiaram ao vislumbrar o som de sua pele tocando a palma do olfato.

página Em que página deixarei minha roupa para, descoberto, receber sua nudez? Em que toque lhe direi Entre.? Eis o papel.

esferográfica suas mãos para jogo de xadrez e sua caligrafia impetuosa. Minhas costas fremem, prontas para sua escritura.

lusco-fusco rente ao nervo de meu corpo sua voz acende o que as palavras exigem,

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mas as mãos se escondem: trêmulas de medo e de tempo.

leitura talvez nunca saiba da fruta que aflora em seu hálito. Talvez nunca saiba da rigidez que vibra em seus movimentos. Talvez nunca acolha o líquido que mina de seus músculos. Mas agrada ler sua letra e sentir nela seu cheiro amado e, sempre, adiado.

Alto Lage (2003)

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9. contra a ordem expressa do dia

para Josemar

1 Não havia sinal, senão o dos dias engomados, ordinários. Os cães sob as macieiras. Os ventos burocráticos remavam sem esforço a favor das horas.

2 Talvez brilhassem os búzios nas areias; talvez beliscassem papeletes os adivinhos; talvez bolinassem as cartas os valetes. De toda maneira, não havia sinal nem vento e os cães faiscavam à sombra.

3 Contra a ordem do dia um silêncio moreno estilhaça a capa dos olhos.

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As maçãs. Os cães. A sombra: ruído. Na contramão das horas esguias.

4 Fora dos búzios e das cartas, adentra morenamente o rapaz nos dígitos dos dedos e sorri, sem saber, como fruto à mão para foto, para fome, para mordida. (Os cães reparam, calmamente.)

5 A flora dos pelos nigérrimos contornando os músculos; a flora dos cheiros dulcíssimos a contornar os sulcos; a fauna dos medos, mínimos, a atiçar os tumultos. Atentos (os cães) espreitam.

6 As horas redefinem a macieira, rondando a folhagem dos frutos indiferentes à guarda dos cães. O cheiro das mordidas, adivinhado entre os dentes, aguarda a distração dos cães. Os ventos levantam as sombras, Poemas desconcertantes

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roçando a claridade dos sumos inertes sob as patas dos cães.

7 Não havia sinal nem ventos, senão a ordem das horas comuns. Instante de água e sorte sem nome: o olho nos passos do moreno de peixes, alheio aos cães. Um fruto de minuto: sem guarda, sem futuro. Uma mordida na ordem dos dias. Uma passagem para perturbação, sem direito à calmaria que deriva de um sim.

Vitória

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4.

ANOTAÇÕES DE VIAGEM (2010)

Para Maria Ana Ramos

A água da minha memória devora todos os reflexos. Cecília Meireles


SUMÁRIO

1. A f[r]auta de Maria. 2. Juego de Cézanne ou Por la ventana: los azules. 3. Vasco Fernandes Coutinho (ou as escolhas). 4. Fado espanhol ou O ponto diário dos enganos. 5. Visitação. 6. Quadros de Montevideo. 7. Maranhenses. 8. Passagem na ilha; os passos ilhados. 9. Terra inicial.


A f[r]auta de Maria

[Poemas inspirados em Frauta agreste, de 1927, de Maria Antonieta Tatagiba]

para Karina Fleury

Frauta agreste Serra, a terra de onde, longe, toca-se avena, toca-se elegia, leva-se a fera a gemer harmonia; Longe a serra, terra de tons e sons de avena, idílio de lírio na eira, na tela do campo, a elísio. Terra de monte, monda de glebas, paisagem de luz, miragem de lis, ausência de homem, cá, aqui, por ali. Tudo na flauta, sob laranjais e sibipirunas, a pastora da serra, da serra da estrela, e de verdes madrigais.

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Quando eu sonhava de amor Um clarão violento a fazer do dia diário de deslumbre tenso. Horas a fio, em fio de enlevo e desvelo a ouvir nada e vazio. Quando eu sonhava, quando eu extasiava, quando eu ficava a desenhar do amor o rosto impreciso, o passo em sol maior, nem folha, nem pio de flor no galho verde reparava, senão no cio do sonho em cioso clarão.

Elegia a um menino Maio nas estradas, nas beiras, nas eiras a coma da mata em grão, leonado viço de tempo; contudo, no berço, a sombra do menino ido, em maio passado, magoado em som de choro, de choro, de dor; entretanto, maio na tarde de sinos, de lírios,

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o menino ido de seu berço tenro, para nunca mais; da casa, do teto do afago, do doce acalanto de mãe nenhuma falta sente, ressente, pressente o menino ido para nunca mais; maio nos caminhos, nos ombros de outono anoitece o filho ido, menino e findo; foi-se nos verdes para nunca mais.

Berceuse Melodia Leve, a Pluma de Meio dia. Cantilena Leve em Terna vez De avena. Murmúrio, Leve ar, Poeira de Arrulho. Música Leve, tez De canção, De tarde Em luz e fita. Regato Leve traz Flor de sol e lima de lis e som alado. Poemas desconcertantes

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Melodia De flauta, Leve mês de sonho, de cor, e via.

Moça tão linda Moça tão linda, Clara faiança Desnuda – tão bela –, Vaga Náiade. O rio te acolhe, Escolhe teus seios; Recolhe teus versos De casto novelo. Salgueiros te cobrem, Encobrem teus seios, Recobrem teus veios De calmos cabelos. Moça tão linda, Rápida ninfa: Bem que te vi.

Vitória (2006)

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Juego de Cèzanne ou por la ventana: los azules

a Juan Ibarra

1. Hay una silla de azules cortados frente a una ventana: el paisaje escribe una caligrafía vaga y el sonido de nubes sube indistintamente, mientras los colores rompen reñidos la claridad.

2. Astromelias, violín, granadas. Míralas, escúchalos, romperlas. Los dientes ceden a las palabras e imprimen los deseos. Dónde las escaleras?

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3. Un recorte de montañas nos pide pasos y días. Un olor de frutas y flores se nos añade a la piel. Un encuentro de manos sugiere días y pasos. Todavía, me quedo quieto en un silencio de piedras y pétalos. Las manos? Transpiran (en vano).

4. Todo cabe y se cierra en un día, mismo la intención de durabilidad.

5. Hay una copa de rojos cortados frente a una puerta: el paisaje queda vagamente y el sonido de nubes

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se despoja, mientras los pasos interrumpen, sustenidos, la posibilidad.

Santiago do Chile/Vitรณria (2005)

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Vasco Fernandes Coutinho ou as escolhas

para Luiz Guilherme Santos Neves e Renato Pacheco (in memoriam)

Centelha 1. Arqueja no mapa o palpite de estrelas, de pepitas amarelas, a driblar a sanidade entre o que se vĂŞ e o que se almeja. De riscos largos, de fartos indĂ­cios, o mapa, entretanto, rumoreja, sim, inadvertido. Cabe ao homem, inexato e febril, riscar o arco, e encetar o fio para ariadnes fecundas ou para fumos fĂĄtuos.

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2. Os dedos do rei, longe sinal de dom, apontam capitanias. Os anéis do rei, brilhos ambíguos, ordenam senhorios de verdes lumes. A chancela do rei, nos mapas do capitão, bendiz as dúvidas. Os olhos do rei navegam nas velas e nos ventos de Glória: um desejo de vida nos sargaços dos mapas imprevisíveis.

3. Cheia a garrafa de vinho. As canções caladas entre a sala e o portão fechado. Os calendários enormes engordam os dias. Cheia a garrafa de vinho. As naus se acendem; as perguntas adejam, e o quinto ponto cardeal exige bússola e despedida. Canta o sonho (e o sumo) de uma garrafa de vinho.

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Cálice 1. Largam amplamente os navios que oprimem bússolas e rompem as hesitações. Líquidas as nuvens pulsam de sol, de lua, de eclipse, enquanto os percursos se esgueiram entre desconhecimentos. O que à vista se expõe canta pasárgadas (invertebradas): parece que os séculos trazem sempre as mesmas sombras. Zarpam ou cantam: os mares moinham.

2. Navegam as gáveas entre nortes, sereias, santelmos, - longínquas, frágeis –, fadas a adivinharem pássaros ou cardumes de ventos com cheiros de chegada. Irrequietas as gáveas; as âncoras reluzem. Nenhum caminho deve acolher morada senão para a arquitetura das partidas.

3. Nem Helena, nem Oriana, nem Laura movem os navegantes. Nem Perion, nem rei, nem bispo movem os navegantes, mas o cálice do horizonte,

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onde nada se adivinha, mas a mínima fresta de devir. Inquietos os passos, o percurso vem e os olhos hospedam miragens que os caminhos recolhem, liquidamente.

4. As velas acolhem os ventos. A proa espalha as águas. Os óculos escolhem as constelações que trilham os pensamentos de porto. As estradas rasgam as interrogações e cada nome de cidade apaga ventos, umidades, estrelas. No contínuo das ondas, as lâmpadas aguardam canções.

5. Os mares trilhados pelas bússolas portuguesas expedem cardumes de naufrágios, de tesouros, de marolas, de enjoos. Armas e barões e pólvora marcados na paisagem atlântica. Cada viagem, seu quinhão de lua, de Sírius, de trovões, a tornar cada palmo de mar uma campa de corpos e de medos. Ferrugem, cansaço e doença gerados na atlântica paisagem. Vasco Fernandes viaja firme e repassa as lições de marinhagem. Só um desejo de vila farta

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perpassa o assoalho azedo e aquoso, e atravessa o cardume do desespero.

Jardim 1. A costa americana (decalque de edens, e de infernos gentis) canta seus recortes de areias claras e frutos enfrutando de doce. A nuvem americana (iluminura de oásis e de miragens ternas) brinca de matéria e desvanece claramente entre os olhos e os sonhos. A terra americana.

2. Olhar as ondas que olham as areias que olham os passos que olham os verdes da cor das ondas. Vila de farto nome na intuição que desenha o porvir de ruas e janelas para o olhar dos passos que olham o futuro. Olhar os homens que olham os montes que olham as nuvens que olham o mundo

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da cor dos homens. Vasco Coutinho: na intuição da vila de escasso nome.

Terra 1. As terras no horizonte das horas fecundas. Planta-se e tudo vem de milho, de cana, de brasil. Planta-se e tudo vem de fazenda, de engenho, de moeda. As bênçãos nas eiras da vontade jucunda.

2. Que terra é esta, Santa Maria, que, como colo e ventre, aguarda o espírito em anunciação? Que anúncio vem, Rosa das rosas, que, traga arado e grão a trabalhar o espírito em germinação? Senhora das senhoras, que gérmen vinga, adentrando o seio e envolvendo o espírito em plantação?

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3. São toscos, sim, os nus que se fundem à folhagem das águas. São estranhos, sim, os nus que se fundem à fluência das folhas. São donos, guai, os nus às folhas e águas destas terras sem capitão.

4. Os cardos nas trincheiras das horas infecundas. Colhe-se e tudo vem de formigas amargas. Colhe-se e tudo vem de maruís agudos. Os danos nas eiras do desejo em paludes.

5. As botas no chão do Ribeiro ressoam o vespeiro das dúvidas. Bão-lá-lá-lão Senhor capitão. As botas no chão da Vila

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sangram os palpites de estrelas. Bão-lá-lá-lão Senhor capitão. Onde os seios e os horizontes de Pasárgada?

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Fado espanhol ou O ponto diário dos enganos

“¡Oh pecho duro, oh alma dura y llena de mil durezas! ¿Dónde vas huyendo? ¿Dó vas con ala tan ligera y presta?” Francisco de Aldana

para José Miguel

1. Alguma coisa acontece em meu comboio lento de cordas, entre a Travessa das Mônicas e a Lisboa espalhada no miradouro largo da Graça. Alguma coisa de oliva. Serão teus dedos à beira de vésperas?

2. Desce o elétrico os enredos dos fios de rua à noite alta. Descendem da Graça os tortuosos rumos em busca de paragens. Tua voz encosta-se ao ouvido e um cheiro de talvez sob veladuras anima os sentidos a olharem cada sílaba da cidade, enquanto um sorriso espanhol deitas nos meus olhos americanos.

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3. Há um salão de dança vazio. Há um corredor de passos calados. Há uma cadeira à mesa vazia. Há um pedido silencioso inútil.

4. Dormir com teu nome amacia a imagem da janela por onde nada se vê. Será qual a cor de tua nudez a escrever crônicas de gestos?

5. Se te reencontrar, que palavra olhada te darei? Se te reencontrar, que aviso te embolsarei? Encontrando-te, como guardarei os selados sins?

6. Aldana; el-rei casto. O Tejo a ouvir tuas frases nítidas. O tempo (infante daninho) entre os dedos

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e teu dedilhar renascentista. Faíscas, iluminas: ateio flor a meus nervos sem dono.

7. Sob o abajur, que cai - entre o que desejava e o que teus lençóis escrevem claramente –, estilhaça-se o olhar ou o dedo ou o comboio em direções fugidias. Nova arte, novo engano busca e encontra o amor, seja em Lisboa, seja alhures, onde os olhos inventam e o corpo, triste, desmascara camonianamente.

8. Ofereces-me uma página de romance. Que romance entrevi no noturno miradouro da Graça? Ofereces-me uma viagem à terra da improbabilidade. Que viagem se anunciou nos trilhos dos elétricos de Lisboa? Ouço teus dedos, olho tuas frases, leio teus lábios e não consigo mover os passos.

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9. Alguma coisa acontece entre o que quis de teu nome e o que escorre entre os dedos da alma rigorosa e dura. Alguma coisa de neblina. Serão meus passos à beira de vésperas?

Lisboa (2001)

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Visitação

para Lillian DePaula

I. Coqueiros e castanheiras desenham um julho que refresca a praia. Na margem da rodovia, guaranis capixabas vendem penas e sementes em objetos melancólicos. As ondas entornam sua memória.

II. Um rapaz, rodeado de crianças e mulheres, desfia a tarde. Coqueiros, maresia, ventos de julho: na menina dos olhos. Caravela ou carro ancorado na lembrança das ondas?

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III. Um professor de literatura portuguesa estaciona o automóvel na margem da rodovia: as ondas suspendem sua memória; os saguis recolhem seus saltos; os objetos de penas e sementes olham-no, no entanto, coloridamente.

IV. Uma menina fala a língua atlântica de que saguis e paus-brasis são a paisagem. Velhos calmos incrustados nas sílabas de suas frases imemoriais.

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Uma menina fala; as ondas recordam.

V. O leque amarelo; O colar brasil; o cesto frรกgil e vazio. O rapaz olha. A menina espera. Uma crianรงa, quase loura, chora. As ondas?

VI. Os guaranis e suas frases castanhas nรฃo sorriem. Tingem uma presenรงa indiferente.

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VII. O carro parte. E a poeira, como as ondas, indaga: atĂŠ quando?

Coqueiral de Aracruz (2 de agosto de 2008)

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Quadros de Montevideo

Rua A rua passa e por cada passo dos olhos há o toque de tambor e de luz tardia. Na rua, sob carvalhos, a tarde apanha cada toque e o candomble dá acorde aos moços de sandália. Os olhos chegam e sob cada movimento das mãos há o tambor de Figari e de tarde luzidia. O passo segue e não sei se Figari, se o candomblé, se os olhos tontos enervam o poema.

Senhor Um homem de sessenta anos debruça seus ombros nus sobre a varanda para o rio. O laranja da tarde, depois da chuva, despeja-se sobre seu peito e ilumina sua figura viril. Olho-o e me vê como estranho; olha-me e vejo-o como fruto inacessível aos dedos abertos.

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Cavaleiros Há cavaleiros na cidade, altos e rigorosos, montados em esculturas. Passam, os claros pés em sandálias, rapazes altos, pela 18 de julho esvaziada. Lutam os cavaleiros no alto de sua vontade; passam os rapazes desatentamente.

Benedetti Benedetti recita o tempo, com ponte e pêssego na mão. Ouço-o e não sou capaz de empunhar uma guitarra, atravessar a ponte e morder, decididamente, o pêssego na mão. Ouço-o, Mario, e escrevo frutos secos e pontes silenciosas. Uma guitarra, por favor.

Montevideo (Início de janeiro de 2008)

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Maranhenses

para XibÊ de Alcântara

1. As dunas, cada e cada uma, enformam vaga e larga pluma de areia. Um homem, cada e cada um, abandona passo e vasto prumo na areia. O lume, todo e qualquer, sim, consome a pluma e o prumo de areia.

2. Vento aberto, desenho lento: enduna-se a areia de passos inquietos. Um homem, talvez.

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3. Lagoa no meio da areia tremula águas em leque; nuvem no meio das dunas umedece ventos a leste; passo no meio da tarde rascunha silêncios e messes.

4. Ele olha as horas no sopro das areias; ele entreolha. Ele olha as nuvens no corpo das areias; ele entremolha. Ele olha olhá-lo eu, Néfelehomem incapaz de nuvem de areia e de horas. Eu olho: sopro de entreolhar.

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5. A luz nas dunas redunda ouro de areia morna. Há turquesa nas águas rodeadas de margem de areia meiga. Os passos nas horas reduzem o tempo de areia leve.

6. Pouco a pouco, o grão de areia tépida vasculha o vento. Grão a grão o pouco de areia veste e macula o tempo. Paulatinamente, o pouco grão de areia reverte a bússola do intento e enduna o grão pouco.

7. Alegra o passo a paisagem absorta em areia.

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Lençóis de água e de tempo a amansar o percurso. Alegra o tempo a paisagem que o enforma: dunas de paisagem.

Lençóis, Maranhão (dezembro de 2009)

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Passagem na ilha; os passos ilhados

para Gustavo

I (A tarde, na Rua Graciano Neves) O que traz a rua lembra rebento de tarde alucinada entre fresta de janela e pétala de acácia temporã, que escapou de janeiro. A rua: os desígnios de chão, de ilha, de sinais. O caminho, em contramão, encontra.

II (O lapso, entre a Rua Sete e a Cidade Alta) Cachos claros e o risco dos olhos incorrigivelmente castanhos, castanhos.

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Barba clara e o risco da boca irrepreensivelmente macia, macia. Dedos claros, sobre nenhum piano; um modo vago de triscar poemas.

III (A noite, com janela para o Morro da Piedade) Uma canção desafinada como fruta em inespero e tímida sobre os dedos. A noite coça de luar e vaga-lume perdido entre o luminoso e o vislumbre. Desafinada uma intenção descostura a frase, lívida, sob os medos.

IV (A ilha, de Ítaca a Vitória; o mesmo tecido) Entre o que enlua e enluta, vinga o passo, a tesoura, o fio solto. Nada vinga, Poemas desconcertantes

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senão os dedos todos presos nos poemas de calma e cal e

Vitória (verão de 2007)

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Terra inicial

para Leandro de Araújo (e sua arqueologia de Alto Lage)

I Vasto e alto o morro, entre tantos, laje onde ressoa, úmida e fértil, a manhã. Numa clareira, a história finca seus caprichos sob a enxada de Manuel Gincanga: cria-se. Tosco o senhor, toscas as ruelas, alta a vereda traçada para que São José, o operário, deixasse seus calos, sua aura, sua igreja plantada no alto do morro. Largo o tempo em que portas e janelas escreveram moradias, ditaram cercas, coloriram flamboyants, acolheram os dias. Veio alto, veio laje, veio o nome acanhado na boca dos homens remotos, da terra embevecidos. Deu-se a manhã nas cercas de Gincanga. Brotou o bairro nos canteiros de sua chegada.

II A tarde toda cheira a laranjeira. Da igreja de São José descem Maria, Antônio e grãos de arroz que a alegria de todos espalha ao tilintar dos sinos embranquecidos. Dançam e bebem, no quintal da festa. Esperam a noiva e o noivo o silêncio em que deixarão sua nudez à aliança. Poemas desconcertantes

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Os dias aumentam suas crônicas. Ele trabalha, retorna, adormece. Ela trabalha, aguarda, murcha. A noite se ajeita, confiante no vir a ser.

III O Moxuara se dedica ao sol, e um azul de distância ecoa pela paisagem que rodeia o oeste dos morros de Alto Lage. As ruas, as praças, os pardais, a folhagem toda aos ventos das árvores e das pipas largadas nos fios que carregam silêncios. O Moxuara acolhe nuvens. Alto Lage hospeda simplicidades. De cima de quase nada as alturas de dezembro, e um pó de relógios e história visita meus olhos de miopia.

IV Dezembro se arvora em chegada nas franjas dos flamboyants tomados de vermelhos, ao redor dos caiados muros do cemitério. Farfalham os calores. As varandas quaram frescuras e as conversas giram entre cotidianos e segredos. As esposas fazem suco; os maridos fumam; as meninas se perfumam e os rapazes brincam enquanto a lua entorna luz sobre os cantos que os olhos dificilmente esquadrinham. A noite recebe cheiros e líquidos brinquedos.

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V Seu Tião padeiro; Dona Domingas; Seu Pereira do riso bom; Dona Lídia da trança dourada. Todos viram o tempo trazer e levar paralelepípedos, hibiscos e casas novas. Eles, nas ruas, colhendo idades, vendo julhos e novembros com trouxas de férias e Finados. Eles, nas ruas, sorrindo dos relógios. Começo a colher anos e rugas e a plantar na sola dos passos os olhos e as trilhas simples que adivinho, aos poucos, nas pistas que eles vão deixando.

VI Sob o descanso das sibipirunas, aposentados soletram o tédio, viúvas esperam a meia-noite, garotos fazem núpcias com galinhas, esposos se deitam com nada, meninas engordam fundos de quintal. Sob a sombra das ruas, acostuma-se aos uivos da noite e ao riso da aurora a colecionar flagrantes. Sob a quietude dos que ignoram, os galos tocam clarim para que a noite faça seus enredos e armadilhas sem que as casas se entristeçam, sem que a Fortuna enferruje precoce.

VII O sol cai, atrás do Moxuara, como os gerâneos exaustos de vermelho pendem e procuram o colo do chão. Poemas desconcertantes

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Dezembro desembarca nas ruas que entrecortam os morros de Alto Lage. Assim chegam às ruas os dias: os ventos vêm e a noite entrega suas estrelas e faróis. Cantam os ventos suas horas sem sol, em que a rua Constância Novaes bifurca na Romualdo Martins e Artur Mazelle. Meu poema para, aguarda, e abre seu próprio caminho.

VIII Quando menino, numa escola, a matemática na ponta da régua de Dona Zuleika me punha medo. Não havia anjo nem sossego que acalmassem meus temores. Numa prova de subtrações e somas, o medo roendo minhas cordas, olhei para o lado e as contas, cantantes e dóceis, que Alemão, louro e simples de si, fazia. Passou-me os números, e passei, para outras escolas e colégios. Na praça, dezembro ainda ditando claridades, passo de óculos, e ele, ainda calmo, carrega louros por desacertos somados, e envelhecemos de margens e de sombras. Os pardais arranham os ventos.

IX Dona Mulata canta nas Quaresmas de luzes e rosários e de fim de domingo. As crianças enfeitam de xadrezes as noites juninas de pipoca e rojão. Poemas desconcertantes

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Seu Zé Reis, que Deus o acolha!, ainda espalha balas de Cosme e seu Irmão. Para os Finados e sua ausência Isaías vende velas e flores e flores. A igreja de São José Operário espalha os anjos com cristais de Natal. Do porto de Vitória vêm os avisos de que um ano começa num apito de navio. Edinho, o louro, e Daniel, o do riso, anunciam a folia na espuma das cervejas. Sempre estive à beira do mundo, enquanto passavam pelos calendários os indícios de que as ruas batizam somente os que comungam com elas. X Neuza dos rubores e das vizinhas ria. Sua vida passava de sussurro em sussurro de murmúrio em murmúrio dos casmurros cochichos cochichados e chochos. Ela cuidava de suas orquídeas e de seus peixes e de suas aves enquanto o homem não chegava de seu exílio. Os galos soavam e os ônibus das companhias acordavam o cotidiano das ruas. A manhã chegava e pousava nas orquídeas, longe de chegar às cortinas que riam de renda, de vento e de um vago segredo.

XI “Olha ê a bala de leite!” Tinha medo dos olhos de Aidê, Poemas desconcertantes

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quando passava pelas ruas cobertas de pedras e poeira, onde ficavam seus passos tristes. “Olha ê a bala de leite!” Até que o dia trouxe, em seu mapa de inesperados, esses olhos para bem perto de mim: de dentro deles veio um sorriso e uma bala de leite virou presente. O medo e suas palavras-chave.

XII Anoitece e não conheço todas as ruas. Dezembro escapa, em febre. O que esperava das estradas murcha aos poucos e poucos. Tenho mapas dentro de mim, e os pontos que marcam roteiros e rotas e trilhas foram achados em Alto Lage. Como saber da conclusão dos caminhos? Sei que as viagens doem, e meu sorriso só acende para vontade de girassol. Onde os campos amarelos?

Alto Lage

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5.

SENHOR BRANCO OU O INDESEJADO DAS GENTES (2006)

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado Olhando o esquife longamente Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade Que a vida é traição E saudava a matéria que passava Liberta para sempre da alma extinta Manuel Bandeira

é sempre o amor e a morte disse o poeta assim Geraldo Carneiro


SUMÁRIO

Prefácio.

PARTE I PERCURSO DE SOMBRA E FRESCOR.

CONTRAPONTO 1 com a abreviatura do não.

PARTE II PERCURSO DE SOMBRA E ARREPIO.

CONTRAPONTO 2 sob o grifo dos cabelos.

PARTE III PERCURSO DE SOMBRA E CORTE.

CONTRAPONTO 3 Da cor do caqui e do azul.


PREFÁCIO

Esta apresentação do livro de poesia Senhor branco ou o indesejado das gentes, de Paulo Roberto Sodré, começa com a leitura de um de seus versos: “Nenhum texto declara norte ou figo na constelação que o verso investiga.” Ele adverte que não há como um texto esclarecer as referências e frutos de um verso poético; a poesia é uma constelação que não cabe no alinhavo de um texto. Isso porque, de modo geral, o texto pretende, com a certeza de sua análise, investigar o assunto na luz meridiana, sem sombras, da razão. Entretanto, se, oposto à claridade da certeza, o que é próprio da poesia é o mistério de sua imensidão, como é possível ler versos com tanta luz? Ao contrário da pretensão à certeza, um texto que se propõe a interpretar poesia deve, tal como o verso, investigar a constelação que se recusa a ser observada no meio-dia de um esclarecimento e, entregue a vastidão dessa investigação, compreender o que, por sua própria natureza, se oculta. Com tal advertência, abnegamos de, nesta apresentação, esclarecer este livro de poesia. Ao contrário de declarar o norte ou o figo dessa constelação poética, este nosso texto de abertura propõe indícios, apenas acena para o que, por se ocultar, deve ser entrevisto desnorteadamente. Advertência feita, passamos então ao título do livro: Senhor branco ou o indesejado das gentes. Imediatamente, salta aos olhos uma ressonância poética com Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. Uma filiação, cepa ou estirpe poética?! Sim. Pois, além da consoante concepção da morte como a indesejada das gentes, encontramos neste livro tanto o trabalho formal de um João Cabral, quanto a revelação informal de um Manuel Bandeira; ressoam em seus versos tanto a lira desse como a antilira daquele. Como afirma a promessa do primeiro poema, o livro propõe, “nestes páramos de sílabas”, dar à morte um rosto; e tal tarefa é confirmada como cumprida no último poema: “Nestas paragens de poemas, dei-te um rosto de homem”. Antes de considerar porque aqui a morte tem um rosto de homem, podemos observar que, em sua estrutura formal, o livro começa com o poema Nestes páramos e termina com o Nestas paragens, afirmando e confirmando ser o seu propósito dar um rosto à morte. Páramo é topo, o planalto deserto da abóbada celeste, o ponto mais alto, mais afastado, enorme. Para Paulo Sodré, páramos são as sílabas de suas poesias. Paragens são os lugares de repouso das grandes navegações, aonde o mar encontra praia, porto, parada para descansar. Aqui, as paragens são poemas escritos com páramos, poesias que dão rosto à morte. Distinto tanto da morte que é mulher ou anjo em Manuel Bandeira, quanto da morte que é lâmina ou cama em João Cabral, aqui a morte tem um rosto de homem, ela é o senhor branco, belo e castanho, com cabelos cacheados: o morte! Por quê? – simples: “pois, se uma mulher deu-me o que se fez vida, é de sorte que um homem ma recolha”. Com o propósito de dar rosto


ao senhor branco, o livro de Paulo Sodré descreve a morte como um percurso de sombra, que começa com o frescor, passa como um arrepio e acaba com o corte – momentos que constituem respectivamente as três partes do livro: No frescor da sombra, tudo são questões, dúvidas, pressentimentos e especulações. O fascínio e o medo unidos edificam simultaneamente o totem e o tabu. Morte!? Termo que determina, baile de foices; um átimo que, retirando o nome, separa a voz do silêncio; recesso de silêncio, senhorio de ausência, domínio de esquecimento. A primeira parte do livro, intitulada Percurso de sombra e frescor, apresenta o senhor branco. Com o frio de seu frescor, a sombra arrepia: após todas as dúvidas, a constatação da morte. Não importa como vem, seja por atropelamento, tiro, veneno ou derrame, a morte é sempre certa, está na espreita, por trás da curva, à espera do chão. E, quando ela se aproxima, tudo desfalece em reticências. A morte revela a incompletude do que somos, o nosso inacabamento e imperfeição. Nada, ninguém, nenhum; quieto, vazio, vencido – a morte é o não que perfaz a finitude da vida. A segunda parte do livro, intitulada Percurso de sombra e arrepio, faz a constatação de ser o senhor branco uma partida que abandona tudo como estava. Por fim, o corte. A confirmação de que a morte irrompe, rompe e interrompe; de que ela é a ruptura da vida que, deixando tudo na mesma inevitável reticência, revela que somos, no fim, perda. O senhor branco mostra a ausência, o itinerário de nossas vidas vazado, esvaziado em não. Após o frescor e o arrepio da sombra vem o hálito do esquecimento, o corte do aperto de mão com a morte, seu paternal abraço. Tudo se finda nessa concessão inevitável do nada, poeira ou pólvora para fátuo fogo. Neste percurso de sombra, que atravessa o frescor, o arrepio e o corte, a morte ganha um rosto, a face do senhor branco. Ao fim de cada um desses três momentos, um contraponto; cada parte do livro é, portanto, composta de um ponto e um contraponto. Criado na composição polifônica da música medieval, o contraponto consiste em estabelecer um paralelo entre duas linhas melódicas simultâneas que se encontram nos contrastes e dissonâncias. Na poesia de Paulo Sodré, como contraponto à morte, o amor, ou melhor, o erotismo: Como contraponto ao Percurso de sombra e frescor, Da abreviatura do não também questiona a finitude, sendo que o primeiro, a da morte, e, o segundo, a do amor. Amor e morte se confundem num erotismo cheio de dúvidas, ciladas e vacilos. Solidão, relação, casamento, concessão, união, separação. O discernimento do sim e do não se obscurece na sombra do talvez, ficando tudo confuso. Bastava dizer que sim, mas disse não antes do tempo. Na primeira parte do livro, como contraponto ao questionamento da morte, encontramos a dúvida do amor. Na segunda parte, uma caligrafia dos cabelos contrapõe-se ao arrepio da morte. Em Sob o grifo dos cabelos, o que era arrepio se esvoaça numa orquestra de alaúdes, um madrigal de Monteverdi. Encontramos cachos de cabelos castanhos espalhados pelos versos, tristeza e doce melancolia. Uma escrita emaranhada e evasiva, cheia de silêncios e saudades. Na terceira parte, ao Percurso de sombra e corte contrapõe-se da cor do caqui e do azul, numa explícita referência ao disco Araçá azul de Caetano Veloso. Embora a frase central, tanto do disco quanto desse terceiro contraponto, seja “com fé em Deus, eu não vou morrer tão cedo”, há aqui um Poemas desconcertantes

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titubear entre a esperança e a desilusão, que podemos caracterizar como uma espera do desespero. Como contraponto à revelação do corte da morte, da inevitável reticência de nossa vida, o verso marca, desata e vara o desejo, o sonho-segredo do araçá azul, o nome mais belo do medo. Com fé em Deus não morrerei antes de sentir os dedos de suas mãos sem anéis, o cheiro dos cachos morenos de seus cabelos. Mas, ao fim destas canções, como contraposto ao iniludível senhor branco, o indesejado das gentes, a confissão do cansaço em aguardar os passos daquele que nenhuma probabilidade, faça sol, faça noite, faça nuvem, deixara chegar.

Fernando Mendes Pessoa

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Parte I Percurso de Sombra e Frescor

Nestes páramos Nestes páramos de sílabas, darei a ti um rosto, sim, de homem, pois, se uma mulher deu-me o que se fez vida, é de sorte que um homem ma recolha.

Provocação Faleces, finas, finalizas, feneces e tudo decede, definha, desanima, desce. Transpassas, transpiras, transitas, traspassas entre um ato, um trato, um entreato, um termo. Determinas?

Vi tua dança Vi tua dança, teu baile de foices, as foices invisíveis que recolhem da haste a papoula, o grão, o olhar luminoso. Poemas desconcertantes

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Não há música, nem matiz, nem vibração para o cortejo de teus passos. Um átimo: que separa a voz de um silêncio inamovível. Vejo tua dança, mas canto-te, sim, ruidosamente.

Talvez os cisnes Talvez os cisnes toquem árias quando abres os olhos, líquidos, e castanhos como poeira, para aquele que te espera. Talvez cachos rodopiem teus cabelos e os lábios claros serenem o riso que de teu rosto vem, quando do corpo retiras o nome. És lindo e pálido e esguio ou hediondo como um susto que rompe o peito e tira os sentidos? Senhor, que beleza amaciaria tua voz, quando anuncias tua passagem àquele que, surpreso, te nomeia?

Que rumor haverá em teus olhos, Que rumor haverá em teus olhos, quando escolhes, dono, a criatura para teu senhorio de ausências? Que tremor se flagrará entre teus dentes,

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ao escolher o corpo belo ou chagado para teu recesso de silêncios? Que canção ocorrerá a teus ouvidos quando, senhor, recolhes o ânimo para teu domínio de esquecimento?

Os arredores florem: Os arredores florem: figos, nervos, libélulas a criarem nas águas os brevíssimos movimentos. Sob o salgueiro, brancamente, dormes. E tudo, no entanto, aguarda.

Os cavalos Os cavalos: pétalas de estrelas, faíscam de velocidade e músculos. No espelho de tua lâmina eles riscam o tempo e relincham de poder. Diverte-te a energia dos que não te percebem, tomados de alegria e sonho.

Poeira fina: Poeira fina: joeira das horas delicadas. Poalha leve. Entre a leitura dos dias e a partitura dos gestos a praia, o vento, o pó. Poemas desconcertantes

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Poalha fina: joeira das horas enternecidas. Poeira leve.

Monumento escuro Monumento escuro, hórridas brenhas. Os postais, sob teus pés, adivinham-se sinistros. O mapa escuro de hórridas lapas desorienta o sonho dos que vislumbram teus bosques súbitos. Teus domínios rugem, e o medo se infiltra. Os postais: incógnitos.

Levanta-se a lua Levanta-se a lua, bruma feito água de fonte alguma. Selene adiposa, pomposa palavra: aérea lis e cova. Em teus olhos, de luz além, contudo, nenhum clichê sobrevive, senhor. Levanta-se a hora, nua como o acaso de sol, de lua, de luz, e leva.

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Ris, senhor? Ris, senhor? Jocoso jogo fazes em penhor do que perde o roto gozo. Aqui yáze Campozano, cuja anima llevó el demonio, y la roupa Señor Antonio. Os anjos oram; as feridas duram; os retratos malogram; e os epitáfios acodem ao doce arejamento. Rio, e seus passos adejam: desenfado.

Ubi sunt? Que será do homem ao texto dado tanto? Que será da mulher à ciência dada tanto? Que será do astro ao lume dado tanto? Cinza, gôngora, olvido? Guardas em tuas notas inumeráveis e em infinitos o sopro, o avanço, o esplendor do que tua foice colheu. Mas ainda assim, fendidos, tudo em nada, irrompem. Sempre.

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Onde Froidmond Onde Froidmond, que monda fria fez do joio e do cereal nos passos dos homens, entre versos sombrios? Onde teus cantores vetustos, vexados, vislumbrados com o finíssimo da lâmina de teu movimento? “Morte, tu me obrigas a mudar Nesta estufa em que meu corpo sua Todos os excessos do século.” Onde Hélinand, obstinado pela luz de tua passagem certa? Ris?

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CONTRAPONTO 1 com a abreviatura do não

Bastava Dizer que sim. Nuno Júdice

Inconveniência Não o esperava. Não o convidei. Mas da improbabilidade veio seu pedido de meu nome e sua pergunta sobre minha permissão. Talvez: palavra arejada e dúbia que ressoa a cada inesperado. Não o imaginava. Não o desejei. Fenda. E meus olhos fremem, verdes de dúvidas.

Poente urbano Sua atenção na avenida Paulista, em lusco-fusco luminoso. : sua nuca ao alcance de inacessível perto. Canso-me do que meu olhar-te me traz: dúvida de passos, de bicicletas, de aeronaves. : os castanhos matizes sobre sua pele. Contra sua camisa provoco todos os meus dedos.

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Desenho a giz Invento-o neste ruir de dúvidas, enquanto invoco seu querer-me para suas aventuras de nauta mineiro. Não quero lay-out. Não quero maquetes do que suas coxas escrevem quando se cobrem os relógios e os documentos. Tenho pressa de suas mãos sem anéis.

Quarto-crescente Há pausas breves em seu silêncio, em que me olho brevemente. Há chegadas breves em seu toque, em que me molho brevemente. [...] Transpiro de tanta demora em chegar a suas úmidas passagens.

Augúrios Não sei o que de triste adivinho em sua sombra. Entristeço meu corpo com seu jeito sorridente sem sorriso. Enquanto o tempo não cessa e nenhuma desistência é dada, dedilho as sonatas ou os blues que recolho de cada letra de meu cansaço, de cada linha de seu descontentamento.

Gota de água Dizer não antes do tempo: faca para tristes gumes.

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Parte II Percurso de Sombra e Arrepio

Nada de subterrâneos Nada de subterrâneos, nem lajes, nem lápides. Pela rua dos comuns atentarei a teus passos. Sei que brincas à vera quando o carro ladra e o pedestre se esquece e não recorda o porquê de não o verem mais depois da queda. Olhas seu rosto e o abandonas à sorte. Onde?

Nem no campanário, Nem no campanário, nem na vigília, nem nas sombras vejo teu pulsar. Nem na bala que arde, nem na erva cortante, nem no coágulo incerto vejo teu mover. Como o amor que do nada vem e escolhe; como quem ignora, e abraça.

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Disseram: Disseram: Por toda minha vida, sempre, se inscreverá seu jeito belo. Não puderam ouvir teu bocejo triste.

Um cheiro diáfano Um cheiro diáfano roçou o medo de um caminhante. Sorriu ele, como quem adivinha, por trás da curva, o fruto, por um fio, à espera do chão.

Sobre a mesa o traço Sobre a mesa o traço de luz, de sol, de tarde, descobrindo o fruto solto, fraco, inútil. Belo é o quadro, assim, estático à tarde em mancheia de cor. Risca a mosca e sobre o fruto estanca, anunciando a secura da luz, do sol. Tarde.

Cantam os galos, sim, Cantam os galos, sim, no beiral da hora serena.

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Sim, cantam eles entre o que me acorda e o que acordo em tudo. Outra vez, enquanto o dia entra pelos sentidos, levas tuas mãos vazias.

Quando te aproximas Quando te aproximas, como uma falta, copos, sumos, lábios, tudo desfalece em reticências, senão tua presença, viva como atrito de silêncio.

As sobrancelhas franzem As sobrancelhas franzem e o rosto teme teu nome dito: Plutão belo, aqui; lindo Osíris, lá, anfitriões umbrosos e sombrios senhores. Nada, ninguém, nenhuma fábula diminui o cheiro do retrato quieto, do quarto vazio, do nome vencido. Sereno e claro, contudo, chegas, e nada, exceto tuas crônicas, e clepsidras, flore,

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não obstante, túmido e extenso.

Alguém parte, daqui, Alguém parte, daqui, e o ônibus acende a saída. O olhar espreita o insuspeito; o caminho é farto, o ponto deserto. Teu nome nebuloso se espalha pelos escaninhos da estrada entre o que se conhece e o que, longe e desconhecido, se entrevê. Alguém parte, sim, de alhures.

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CONTRAPONTO 2 sob o

grifo dos cabelos

Toda coisa que vive é um relâmpago Cacaso

para Thadeu

A cerca dos cabelos Toda a caligrafia dos cabelos prende-se ao inalterável nó. O olhar, ensimesmadamente; a ronda. Nenhum texto declara norte ou figo na constelação que o verso investiga. O cheiro, a tessitura, o som e o ar dos soltos cabelos, perto de sua tez: nenhum. Somente um imarcescível estado de reticência.

Ao redor das bússolas Abro os passos para a rua, onde há sempre uma orquestra de sombras. (Rosáceas no centro de uma larga noite, quando a lua entorna valquírias e as murtas espatifam o ar inquieto) Nada declaram os fios de seus lacres.

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Ouço dizeres de morcegos elegantes e de cachos esgalhados de escuro castanho, evasivos como uma rua para lugar algum.

Livro das cinco horas e outubro Um madrigal que ouço de Monteverdi: O como sei gentile, scalza il piede e sciolta il crine, passeando, pastoral intensa, seu silêncio, pela paisagem de augúrios, – poema que desprendo – origami de olhar seus vestígios, sem vez. A grafite, o desenho; a vermelho, o canto; a preto e branco, os cabelos sem habeas corpus: calendário de Penélopes.

Os dígitos da inviabilidade Focalizo o que os extensos cabelos denegam: cirandas de mãos perscrutando linhas de água e fluxo e lacustre enigma e jorro. Acendo véus, borrifo luzes para digitar o nome esguio de seu corpo. Úmidas todas as hesitações sob os cacheados fios e gentis. Assim levanto o olhar e a boca e a música para receber o desconhecido endereço. Tremulam os cadeados?

Ensaio de chave dos cabelos Desobrigar os cabelos, um quando de silêncios em territórios ignorados.

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Ressalto os sentidos e álcoois os cheiros alçam, entre o receber sem pauta, que o acolhe, e o dorso que você, sutil, venha a inscrever. Toquem os alaúdes.

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Parte III Percurso de Sombra e Corte

Sei que quando Sei que quando acenderes tua passagem, tudo ganhará uma vasta sombra precisa. E se fiz poemas ou se deixei de desenhá-los; e se beijei Tiago ou desencontrei Roberto, tudo estará na mesma inevitável reticência. Vamos.

Tudo irrompe Tudo irrompe, rompante, ressonante, diante das horas. Rompem-se as sílabas do que detém de ti a distância. Tudo interrompe

Choram pelo que tu levas. Choram pelo que tu levas. Riem pelo que deixas.

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As ruas cheias de passos esquecem teu itinerário vazado em não e ruptura. No café, no cais, na varanda, o cortejo e suas flores sem tino. Choram, riem, esperam que teu dedo nunca os aponte.

Não te espero, senhor, Não te espero, senhor, senão como desejo tudo que simplesmente se põe ao pé das coisas: do fruto, do caminho, do escrever.

Os temores do jardim Os temores do jardim espreitas. Pontuas o jardim das delícias. Acompanho teu rosto enquanto olhas cada painel claro, sombrio, escuro. Como quem procura ver-se, tu te inquietas com os seres pálidos, nus, obcecados. Passas, sem que o espelho te dê mais que um alinhavo de engano, trapaça, delírio: os jardins.

Muitos ardem de dor; Muitos ardem de dor; sorriem de alívio alguns;

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cantam pelas ruas grupos; muitos quase morrem quando declaras tua ordem rígida como a hora do sol. Em teu rosto vário a compaixão tece delicadezas ainda que tudo, tudo, seja perda. Ardo de reticências, senhor.

As jornadas preparam As jornadas preparam a descoberta. Que surpresa há entre a tua escolha e a tua recolha que cancela o tempo? Espreito o relógio, e uma criança, doce como o inesperado, pergunta-me a hora. Olho para ti e para ela sorrio. És lindo, mas não agora quero teu beijo, nem teu hálito de esquecimento.

Dar-te a mão Dar-te a mão e o ânimo. Que estrada anoiteceria? Que desenho incompletaria?

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Que riso desconheceria? Dar-te o passo e o sim. E a próxima esquina?

Será nada Será nada o que declaras ao cessar o giz que escrevemos? Será nulo o que, casmurro, penso entrever quando ceder a ti? Poeira ou pólvora para fátuo fogo?

És terno, como abraço de pai, És terno, como abraço de pai. E o conforto que anuncias seduz como o colo dos vales. Vislumbro-te: entorpecidamente. Mas algo, entre o que sinalizas e o que tuas mãos insinuam, faz do alumbramento dúvida. És seguro, como idade de pai. Mas deixo-te entregue a ti, por ora, e sigo do dia o dedo afeito a sinais.

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Nestas paragens Nestas paragens de poemas, dei-te um rosto, de homem. Sim, belo e castanho, nĂŞspera Ă beira das mĂŁos. Onde a fome e a recolha?

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Contraponto 3 da cor do caqui e do azul

se querer requer (e querer requer) requeiro o abismo onde beiro Bith

para Pedro

Araçá azul é sonho-segredo Quando um homem marca o desejo a voz o prefácio dos dedos a sombra ao chão Quando esse homem desata o desejo a nesga de corpo no entreaberto do jeito os livros em desalinho Quando o homem vara o desejo o nome cresce no nervo pedra improviso: dono, senhor, capitão.

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Não é segredo sobre a pedra, o caqui, ao minuto da manhã, ressoa a imagem da pele. Os dedos irrequietos ruminam o sumo, em cheiro adivinhado, entre o enigma e o reino. A tanta resposta, úmida, desleixa o que tudo diz sobre a pedra e o caqui.

Araçá azul fica sendo Todo o mar despeja seus azuis sobre os cachos anéis caracóis enrodilhados nos dedos do poema. Onde a hora para catar seu suor sob a camisa amarela? Todo o vento desamarra seus elos e suspende as sebes muros cercados fincados nas margens das frases. Onde o remanso para olhar seu jeito sobre a nudez castanha?

O nome mais belo pouso passo a passo no peito o pétreo paraíso porção de Poemas desconcertantes

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pássaro e páscoa e papoula

Medo Nenhum indício na cartografia O nome fora do mapa dos olhos das mãos dos dentes em que seu desejo se anuncia Preso no meio da estrada nem norte nem placa nem carona indicam a rosa de sua cajuína Vagabundo, tolo, inviável sou o que soletra seus olhos ao léu, ao breu, ao lebréu sem caça nem caçador: ninguém.

Não vou morrer tão cedo Releio os poemas ridículos em que guardo as passagens de homens jogados na minha cara sem dó, tanto sol, sem piedade. Você entre eles, dentre eles em topázio pedro juán castanha Quando o vi, ouvi a outra banda da terra uva longe da mão, caqui à mão da lua Com fé em Deus não morrerei antes de sentir nos dedos os anéis e as digitais da lua.

Araçá azul é brinquedo Quando terminar estas canções, terá o tempo escorrido o rio

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de que se fazem os vinhos e os frutos e os nomes de pedra. Estarei cansado de me ter à esquina aguardando a luz dos postes ou dos passos daquele que nenhuma probabilidade, faça sol, faça noite, faça nuvem, deixará chegar.

Vitória (meses de 2004 e 2005)

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SOBRE OS LIVROS REUNIDOS

1. Poemas do desconcerto (1993. Inédito) 2. De Ulisses a Telêmacos e outras epístolas Vitória: Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (IHGES), 1998. (Coleção Almeida Cousin, v. 30) 3. Poemas ridículos (ele passeia em beleza) (2003. Inédito) 4. Anotações de viagem (2010. Inédito) 5. Senhor Branco ou o indesejado das gentes Vitória: Secretaria de Cultura do Espírito Santo (Secult-ES), 2006. Edição eletrônica de Pedro J. Nunes. 2010. Disponível em: <http://www.tertuliacapixaba.com.br/arquivo/senhor_branco_01.h tm>


Em memória de meu pai, Loadyr Sodré.


Profile for Maria Clara Medeiros

SODRÉ, Paulo Roberto. Poemas desconcertantes. Vitória: Estação Capixaba / Cândida, 2017.  

Série ESTAÇÃO CAPIXABA, Volume 5. Edição digital - ISBN 978-85-64258-11-2.

SODRÉ, Paulo Roberto. Poemas desconcertantes. Vitória: Estação Capixaba / Cândida, 2017.  

Série ESTAÇÃO CAPIXABA, Volume 5. Edição digital - ISBN 978-85-64258-11-2.

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