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Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Comunicação Social/Jornalismo como requisito para a obtenção do título de bacharel em Jornalismo. Orientador: Antonio Francisco Magnoni

Maria Clara Lima 2011


À minha mãe, mentora, Maria. Muito obrigada por acreditar, por criticar, por contextualizar, por ter paciência e explicar, por mostrar, por cobrar, por ensinar que o mundo é tridimensional, base da minha profissão, do que sou. Às nossas leituras precoces, um grande obrigada.


"Minha liberdade é escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo." Clarice Lispector em A Paixão Segundo G.H.


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Prefácio

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Introdução

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Apresentação

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I

A cidade e os números

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III

Uma rota de fuga

V

São Paulo, Tabatinguera e adjacências

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II

IV VI

O caminho da ajuda

Os primeiros passos firmes Em busca de soluções

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Anexos

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Glossário

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Agradecimentos Bibliografia


PREFÁCIO

É

com grande orgulho e também como um grande desafio que aceitei escrever esse prefácio. Acompanhei, mesmo que de longe, o desenvolvimento desta que é muito mais que uma obra, é a concretização de um sonho que acompanha Clara pelos quatro anos de faculdade. A paixão pelas questões latino-americanas sempre foi tema comum de intensas discussões e reflexões quando dividíamos os corredores da Unesp, e a alimentou mesmo quando me formei. A cada ano, e cada vez mais pulsantes, pude observar suas indagações e inquietações. A América Latina carece de um olhar integracionista entre os países que a formam. Não nos reconhecemos como países vizinhos, e, por conta disso, sequer nos conhecemos. No sentido mais puramente geopolítico, os problemas estão aqui, do nosso lado. Faz necessário e urgente voltar as atenções a esta realidade tão próxima, mas que escolhemos não ver. Na contramão, São Paulo – uma rota de fuga reúne as histórias de personagens quase invisíveis na gigante cidade paulista. Entre os dois mil refugiados acolhidos, ou não, pela maior metrópole da América Latina, Clara nos emociona com a nostalgia do colombiano Jesus, que ‘vive’ na Glicério fugido das FARCs, ou com os dissabores da família cubana Fernández. Em meio aos frenéticos passos da cidade que não para, Clara parou. Parou e ouviu.

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Quase como confidentes, dividimos opiniões e experiências nas visitas de Clara à cidade que sempre a encantou. Mineira e natalense, a autora desse livro envolvente sempre teve uma visão singular de São Paulo. E é com esse olhar ímpar, de quem também ‘veio de fora’, que apresenta um recorte de uma América Latina humanizada. Com uma linguagem às vezes sarcástica, ela exprime suas impressões sobre a realidade que viu de perto, mas que muitos preferem cegar-se. Formada em Letras, e agora também jornalista, Clara supera as expectativas de quem busca uma Rota de Fuga. Se ora pode ser visto como a transcrição de extensa pesquisa científica acerca da política, economia e cultura da América Latina, ora é um romance riquíssimo, cheio de personagens reais oriundos de diversos cenários, em um só enredo. São histórias que se complementam, que contam a dura realidade de imigrantes ilegais, refugiados ou fugidos na São Paulo contraditória, tão grande, e tão pequena para aqueles que lutam apenas pelo direito à sobrevivência. Pâmela Nunes, jornalista


APRESENTAÇÃO

M

eu mundo sempre foi aquele que estava além do horizonte. O fascínio pelas coisas de fora, do estrangeiro, não deve ser confundido com o desapego ao meu cotidiano. Pelo contrário, desde criança queria saber o porquê das coisas que aconteciam ao meu redor, até que os arredores foram crescendo e crescendo... Escrever esse livro foi um resgate das minhas próprias motivações infantis. Devo ter sido uma criança muito chata, ou ao menos inconveniente, frequentava as rodinhas de conversa dos adultos com muita opinião, interrogações e interjeições - cada vez mais complexas -, mas nunca me descartaram uma explicação. Acho que me levavam muito a sério quando eu tinha apenas seis anos de idade. Ainda bem! Interesse não nasce, se descobre. Lembro ter descoberto o Mundo por acaso. Em uma manhã de 1989, quando perguntei para a minha mãe por que as pessoas estavam felizes pela queda de um certo muro em Berlim, e ela não me ignorou. Para mim, não fazia sentido tanta festança por causa de uma falha na engenharia, muros não são feitos para cair, - e tinha um muro na minha rua que estava sendo mantido em pé com um pedaço de pau... deveríamos derrubar aquele muro também? A pergunta se transformou em uma aula de geopolítica avançada que minha mente guardou em uma prateleira de difícil acesso. Mas o estrago já estava feito. Foi assim com a Guerra do Golfo, emancipação de Hong Kong, acordo de paz

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na Irlanda do Norte, embargo à Cuba, ao poucos eu fui conhecendo o Mundo e me deixando absorver, pelas notícias de televisão. Para chegar no tema desse livro, revisitei a minha biblioteca de questionamentos de criança boba. Queria falar de coisas além da minha fronteira e acabei encontrando isso aqui mesmo, em São Paulo. Sou mineira de nascença, nordestina de criação e paulista de coração. Sempre me vi como brasileira e mais tarde, como cidadã do mundo. Só pude ter uma visão completa do que sou quando fui desbravar as porteiras dessa vida. E agora, posso juntar finalmente o ponto de partida com o final da minha jornada no curso de jornalismo. A criança curiosa e introspectiva, foi fazer faculdade de Letras para entender a etimologia das coisas. Quando falo ‘coisas’, quero generalizar mesmo. A construção da linguagem é o mecanismo mais cru do desenvolvimento de um povo em um nação. Vale a pena lembrar que o povo da Suméria (atual Iraque) só prosperou depois de desenvolver a escrita cuneiforme. Ah, os Sumérios... ninguém prestava atenção neles na escola... Mais tarde, a criança curiosa e inconformada tomou conta de mim. Vim fazer jornalismo para transgredir muros e fronteiras. O estudante de jornalismo é doutrinado desde o inicio da faculdade a se apegar aos critérios de notícia - o que para mim sempre será um grande ponto a ser compreendido, porém combatido. Segundo esses critérios defendidos pelos teóricos da comunicação, o que está além do seu quintal, não vale uma nota no jornal. Em uma conversa informal com um texto do Mauro Wolf, nas aulas da faculdade, aprendi que há seis critérios que auxiliam os jornalistas a decidir quais acontecimentos podem ser caracterizados como notícia. Para que um fato ganhe notoriedade é preciso que esse tenha proximidade (com o público), atualidade, identificação social, intensidade, ineditismo e identificação humana. Ou seja, a história que tanto me compele e me proponho a contar para vocês não passaria nem em 50% do valor de uma notícia. Espero que esse não seja um livro sem valor! Descobri meu lugar no mundo do jornalismo dentro do noticiário internacional, onde dificilmente se respeita esses critérios. Quando


me perguntaram na aula trote sobre o que eu queria fazer quando eu me formasse, respondi sem titubear: Quero ser correspondente internacional para contar a verdadeira história do mundo. (Isso durou bem mais do que uma frase, acredite). E foi aí, nessa vontade de cobrir o mundo que descobri uma porção de terra que nem estava longe demais, nem perto demais do Brasil, e que caia quase sempre no limbo do esquecimento das notícias. A América Latina agrega grande parte dos esteriótipos do jornalismo mal feito. Apesar da proximidade geográfica com o Brasil, os países vizinhos são tratados de maneira ausente fazendo com que a população brasileira pouco se relacione com o resto dos países. É bem mais comum compreender uma guerra na minha antiga Suméria do que entender grande parte dos conflitos que ainda existem por aqui. A América Latina - e sim, o Brasil está incluído nela - tornou-se o foco das minhas inquietações durante os quatro anos da faculdade. Fui repórter, chefe-de-reportagem, editora e editora-chefe de um programa de rádio chamado Diferente, pero no mucho, da Unesp. Lá aprendi a observar a cultura latina de forma singular, aprendi a reconhecer cada país e sua história, e a apreciar as diferenças e semelhanças com os “hermanos”. Me descobri perplexa ao saber de coisas que aconteceram na época da queda do muro de Berlim, das batalhas iluminadas da Tempestade no Deserto e das armas devolutas pelos grupos armados europeus. Eram acontecimentos aqui mesmo, na Argentina, no Chile, na Colômbia. Resquícios do regime militar que pouco se fala e se discute no dia a dia. Todas essas notícias, contadas ou não, têm um elemento em comum, o elemento que tornou-se a liga dos meus anseios. A transgressão aos Direitos Humanos e ao Direito Internacional, isso solidificou o foco do meu trabalho como jornalista. Além de contextualizar eu queria - e quero - humanizar as minhas histórias. Não pense que seguirei a carreira de romanticista melodramática, e que aproximar o humano da notícias é simplesmente a base da Comunicação Social. Os apontamentos para soluções ao invés do esgotamento dos martírios da sociedade é o que me motivou a escrever sobre o tema do refúgio de latinos em São Paulo. Por atender os seguintes aspectos: poderei contextualizar a história

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política recente do subcontinente latinoamericano, poderei expor os problemas enfrentados por essa pequena parcela de cidadãos que vivem engolidos pela maior cidade do Brasil e poderei apontar soluções, para que você leitor, possa um dia cobrá-las. Espero que vocês se permitam, como eu, descobrir o que os olhos não podem alcançar.


INTRODUÇÃO

“Um refugiado sem esperança é muito” Cabanas improvisadas em linhas fronteiriças, abrigos precários instalados em ambientes e condições absolutamente insalubres. A brutalidade das guerras separa inúmeras pessoas de suas famílias e tira delas suas casas e os meios de sobrevivência. Os conflitos armados atingem principalmente os civis mais pobres e desprotegidos. Os veículos noticiosos exibem quase diariamente imagens e reportagens de conflitos, muitos campos de refugiados são mostrados como exemplo de degradação e de desrespeito aos direitos humanos, e recebem prêmios internacionais de jornalismo. Mas mesmo as reportagens mais geniais não conseguirão capturar a angústia desse povo desterrado, que para escapar com vida, precisou fugir de seus lugares só com a roupa que vestia. São pessoas tangidas pelo medo de serem torturadas, violentadas e mortas. O refugiado não é um imigrante comum, que se desloca porque deseja melhores oportunidades em lugares mais promissores. Ele não escolhe partir, é forçado a deixar seu país de origem por uma situação de extrema ameaça ou de violência direta, a abandonar seus costumes, rotinas e muitas vezes os entes queridos. Eles são punidos por temerem a perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social, opiniões políticas, ou por não se

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submeterem a viver em uma generalizada situação de violação dos direitos humanos. Quando estoura uma guerra, geralmente em algum país longínquo da África ou do Oriente Médio, esses personagens recorrentes costumam ilustrar capas de jornais com suas caras tristes, em fragmentos de prosas colhidas entre um pensamento e outro. Todos relatam a dor de quem se tornou involuntariamente um deslocado; e tais histórias deixam penalizados os corações do público, que se sensibiliza e contribui com campanhas internacionais para arrecadar ajuda e dinheiro, que nem sempre será suficiente para amenizar o sofrimento de tantos banidos pelos inúmeros conflitos contemporâneos. No entanto, tais iniciativas simbólicas servirão para aplacar a consciência dos muitos bem-estabelecidos e para alimentar o “marketing humanitário” de muitos governos e meios de comunicação. O refúgio não é coisa nova, remete ao início das grandes civilizações da História Antiga. Sempre tratado como um problema local, nunca foram bem recebidos pelo território ocupado. Banido na clandestinidade, a situação tornou-se uma preocupação mundial apenas na metade do século XX , quando a humanidade viu-se perplexa com as somas dos mortos, dos mutilados, dos enlouquecidos e dos orfãos que resultaram da Segunda Guerra Mundial. O pior conflito da era moderna produziu mais de 80 milhões de vítimas fatais entre combatentes de 72 nações e vítimas civis, sem contar os desterrados e os que foram afetados pela fome e pelas doenças causadas pela guerra. Nessa extensa conta, estão as vítimas do holocausto de judeus, de ciganos, de militantes comunistas, de homossexuais, das populações civis da Europa e da URSS, dos japoneses incinerados pelas bombas dos EUA lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, quando o Japão estava claramente vencido... A crueldade daquele conflito ofuscou os valores renascentistas e iluministas, os conceitos moderno-positivistas de humanidade. As sociedades foram retalhadas por ideologias e por interesses geopolíticos, que reduziram milhões de vidas humanas em


combustível bélico de horrendas batalhas que aterrorizaram os povos de vários continentes. Em dezembro de 1948, três anos após o final da Guerra, foi adotada pela ONU a Carta de Declaração dos Direitos Humanos, que previa a garantia de que o mundo não retornaria novamente ao total estado de barbárie registrada naquele conflito. A reconstrução dos lugares devastados não restabeleceu a paz para muitos sobreviventes. Muitos não puderam voltar para suas casas, por medo ou por não terem mais porque ou para onde retornar. Ironicamente, naquele mesmo ano a ONU também chancelou a criação do Estado de Israel sobre territórios da Palestina. O expansionismo judeu transformou os palestinos em desterrados em seu próprio território, em refugiados em guetos tão cruéis quantos os guetos de confinamentos dos judeus pelos alemães. Em 1950, o Acnus (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados) foi instituído para assistir aos 1,2 milhão de refugiados europeus. No ano seguinte, o Estatuto dos Refugiados foi criado pela ONU como um instrumento internacional para regulamentar os direitos fundamentais dessa população. Foi determinado que o órgão deveria funcionar até o momento em que não existisse mais refugiados no mundo. Hoje em dia, existem mais de 43 milhões de refugiados, apátridas e deslocados internos em muitos países. Sendo, 36.4 milhões deles sob a responsabilidade do Acnur. Para lembrar os 60 anos do Estatuto para Refugiados, foi lançada uma campanha para chamar a atenção da população mundial sobre o crescimento dos casos de refúgio e propondo quantificar o sofrimento dessas pessoas desterradas. A palavra de ordem do Acnur passou a ser muito, porque “um refugiado sem esperança é muito”. O que dirá então, de 43 milhões de refugiados sem destino ou perspectivas imediatas? Tamanho contingente precisa de ações eficazes mais que superexposição melodramática. As ações do Acnur são pautadas pela proteção da “população de interesse”, pela busca por soluções duradouras e na ação em casos de emergência. Funcionar assim...

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Proteção: 147 países assinaram as Convenções que visam regulamentar a proteção legal da população refugiada. O Acnur age como um órgão fiscalizador para garantir que as leis sejam cumpridas. Além disso, incentiva a criação de leis nacionais e medidas que respalde a integridade física, como o abrigo e o acesso a rede médica.

Meio ambiente: Os acampamentos improvisados, principalmente

dos deslocados internos, causam um grande impacto no meioambiente. A população refugiada se abastece de recursos naturais e torna-se um agente catalisador da degradação. O Acnur cria estratégias de preservação local junto aos campos de refúgio.

Resposta de emergência:

Quando surge uma guerra ou conflito, milhares de pessoas deixam suas casas para refugiarem-se em outro lugar. O Acnur tem uma equipe de 300 pessoas preparadas para ajudar até 500 mil deslocados em um tempo estimado de três dias. Essa equipe recebe formação para planejar a operação, formar grupos capazes de agir com segurança na ajuda humanitária.

Soluções duradouras: O maior propósito do Acnur é buscar por soluções não-paliativas como a repatriação voluntária, integração local, reassentamento para um terceiro país - quando o refugiado não se adapta no país alocado. Metas do milênio:

Até 2015, o mundo deve estar preparado para atingir as metas propostas pela ONU. Deve-se erradicar a fome, pobreza, alcançar educação global, igualdade de gêneros e reduzir a mortalidade infantil, combater Aids/HIV, malária e outras doenças, melhorar a saúde materna e promover a sustentabilidade e desenvolvimento global. O Acnur monitora como a população de interesse se porta mediante a essas metas.

Hoje em dia, os campos que abrigam os deslocados expandemse além das fronteiras. Essas pessoas vivem sob a proteção das leis de outros países, diluídas nas cidades em busca pela integração e pela reconstrução de suas vidas.


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Nem tão longe assim... Na região do tango, do samba e da salsa, a alegria latina é incorporada ao estereótipo, ao pseudo-exotismo que serve para caracterizar parte da região da América, ao sul dos Estados Unidos, na mídia internacional. É nesse cenário tropical, que várias pessoas acreditam ser um local pacífico, que cerca de 4 milhões de pessoas vivem em situação de refúgio causado pela conjunção de deslocamento interno e despatriamento. A América Latina nem é tão pobre quanto a África, nem é um pólo de tensão beligerante. Por isto não chama a atenção internacional por suas dores diárias. Afinal, estamos nos trópicos, somos latinos, parecemos cordiais e assim, conseguimos esconder ou minimizar nossos conflitos, nossos pobres e nossos deserdados. A conformidade do olhar dominante e hegemônico para a região encobre as conseqüências de séculos de exploração colonial européia, de massacres e de escravidão indígena e negra, de mais de meio século de ditaduras militares financiadas pelo neocolonialismo atual, que contribuiu para o surgimento de pontos de tensão dentro dos países. É o caso da Colômbia, conhecido pelo país das FARC. Os que se interessam por conflitos sabem que a nação colombiana vive em estado de guerra civil, que atualmente possui mais de 4 milhões de deslocados internos, um Estado que gera o maior número de refugiados na região sul-americana. É nesse cenário contraditório e quase invisível, que a diplomacia e organismos humanitários internacionais tentam buscar soluções para o sofrimento de pessoas que precisam fugir para salvar suas vidas. Os países latino-americanos, com base na Declaração de Cartagena e no Plano do México, dizem buscar por soluções duradouras para o tema dos refugiados.

Refúgio no Brasil

O escritório brasileiro do Acnur funciona na asa sul de Brasília em uma rua tranqüila, resguardada por um muro e muitas árvores.


No entanto, as decisões tomadas naquele lugar preocupam cada vez mais as autoridades brasileiras. Até novembro desse ano, o Brasil havia contribuído com 3.500 milhões dólares para os programas que tratam da questão do refúgio no país. Vivem em território brasileiro 5.229 pessoas sobre os cuidados do Acnur, a maioria delas mora nos grandes centros do país e tem que conciliar as barreiras sociais e econômicas típicas de uma metrópole brasileira. Em 1997, o país aprovou uma lei nacional para o refugiados, a lei 9.474 onde foi criado o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare). O Comitê está encarregado de tomar decisões em casos de refúgio, é ele que reconhece no país, a condição de refugiado para estrangeiros. O órgão é presidido pelo Ministério da Justiça e tem representantes do Ministério das Relações Exteriores; do Ministério do Trabalho e Emprego; do Ministério da Saúde; do Ministério da Educação; do Departamento da Polícia Federal; da Organização não-governamental (ONG), representada pela Cáritas Arquidiocesana de São Paulo e do Acnur, que tem direito a voz, sem voto. Segundo o Acnur-Brasil, há mais de 30 organizações que participam da Rede de Proteção no país. O Acnur tem ainda parcerias com a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), a Secretaria Especial de Políticas para Mulheres e com os ministérios da Saúde, Educação, Trabalho e Desenvolvimento Social. A cidade de São Paulo recebe quase a metade dos pedidos de refúgio no país. Até junho desse ano, o Centro de Acolhimento para Refugiados da Cáritas havia registrado 2052 pessoas nessa situação. Elas são estrangeiros do Congo, Colômbia e Afeganistão, que emprestam suas línguas e histórias para o dia-a-dia da maior cidade do país. Misturam-se aos demais estrangeiros, ao menos no imaginário popular. Segundo o escritório da Acnur no país, os principais problemas enfrentados pelos refugiados são aqueles que fustigam os próprios brasileiros:- conseguir emprego, ter acesso à educação básica e superior e aos serviços públicos de saúde, de transporte e para poder ter moradia permanente. Apesar dos esforços brasileiros,

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o país “acolhedor ”precisa superar obstáculos diários que giram entorno da virulenta exclusão social que persiste no país.

Todos os caminhos levam à São Paulo Os trilhos da antiga linha férrea se cruzam na rua Dr. Almeida Lima e a Visconde de Parnaíba, no Brás. No canto da rua, já próximas da calçada, as duas linhas seguem perpendiculares, cravadas no asfalto, desafiando as leis da física, procurando um espaço entre o passado e o presente. São a prova concreta de um passado que define a cidade. São Paulo é um encontro de rotas, sempre foi. Antes dos paulistas, antes das bandeiras... a cidade já se fazia passagem, era um local de conexão. No século XIX, as locomotivas testemunharam a formação da maior cidade do Brasil. Elas serviram como meio de transporte para mais de 60 etnias, que hoje estão estampadas na história local e nos documentos de boa parte dos paulistanos. O cruzamento da rua Dr. Almeida Lima e Visconde de Parnaíba atualmente abriga o Memorial do Imigrante. Está lá, para lembrar os ‘forasteiros’ que foram as mãos e os braços da construção das bases dessa metrópole. Hoje, São Paulo é a cidade mais cosmopolita do Brasil, isso significa que pessoas do mundo inteiro emprestam seus temperos e sobrenomes para criar esse gigante urbano. É nesse cenário, o ponto de partida - e de chegada - dos refugiados que buscam a maior cidade do país como abrigo.


I. SĂŁo Paulo e os nĂşmeros


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INSPIRAÇÃO São Paulo! comoção da minha vida... Os meus amores são flores feitas de original... Arlequinal!... Traje de losangos... Cinza e Ouro... Luz e bruma... Forno e inverno morno... Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes... Perfumes de Paria... Arys! Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal! São Paulo! comoção de minha vida... Galicismo a berrar nos desertos da América!

S

Mario de Andrade

ão Paulo é a cidade dos números grandes: - mais populosa, mais poluída, mais rica, mais congestionada, mais violenta... A cidade tem cerca de 11 milhões de habitantes, recebe por ano essa mesma quantia de passantes, seja de turistas, de trabalhadores, de comerciantes, de habitantes temporários... É o município com o maior PIB brasileiro, é um gigante feio, que assusta e encanta quem O vê de cima, de baixo e pelos entornos... A cidade abriga 3,5 milhões de domicílios permanentes, poucos são de paulistanos. Quem se depara com a capital dos paulistas e de todos os migrantes, vai achar logo de cara que tudo nela é exagerado e radical. A maioria é gente agregada pelas circunstâncias e necessidades, o combustível que desloca tantos brasileiros por quantos recantos de um país tão desigual...


A rua tranquila serve como sede do Acnur no Brasil. Na capital do país, é onde as decisões sobre os refugiados são tomadas


Av. Nove de Julho em S達o Paulo


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Em trânsito diário, há cinco milhões de carros, ônibus, caminhões e motocicletas que se arrastam labirinticamente pelas vias intestinas do gigante. Ele se contorce no rush matutino, na hora do almoço, na ida para casa, no dia de chuva, no dia de jogo, e já não consegue andar muito mais depressa que um transeunte. Uma cidade com veículos na mesma quantia de gente de Belo Horizonte ou Madri, não é mais uma São Paulo, é uma Babel reeditada. É uma metrópole zangada, que padece de “rush” e de insônia:praticamente não dorme e tampouco consegue mover-se no sentido horário da vida de seus cidadãos, que correm muito para ganhar o pão, mesmo que amassado por satanás, também decidido a abrir seu próspero negócio de diabruras na mega-cidade convulsionada. Não dorme e não para, até que para, por horas e horas em filas indianas e maléficas - não advertidas pelo Ministério da Saúde, mas que fazem tão mal quanto colesterol ou pressão alta. A Organização Mundial de Saúde (OMS) qualifica o ar de São Paulo como péssimo, “a poluição é 4 vezes maior do que o aceitável”. De fato, a capital dos paulistas é um lugar do “jeitinho que o diabo gosta”. A cidade mais cosmopolita da América Latina acumula quase meio milênio de história e de crises, é uma senhora indecifrável que não segue mais modelos, nem mira espelhos alheios e conduz sua rotina ao sabor de suas resolutas vontades. Hoje a metrópole é um lugar de muitas memórias, de muitas paisagens, de muitas atrações: abriga tantos museus, teatros, institutos, observatórios, parques e monumentos... São Paulo é uma cidade quase lendária, daquelas que vemos embevecidos, em folhetos e brochuras, em desenhos imaginários das crianças. É um lugar tão grande, de tamanho quase mítico: quando olhamos de dia, para qualquer um de seus lados, não enxergamos a divisa do horizonte, o fim do casario térreo e dos arranha-céus, os recortes serpenteantes de ruas e avenidas. Tampouco de noite, conseguimos avistar o fim da cidade, onde a escuridão engole as luzes vagalumeantes, que iluminam as janelas e as calçadas. Quem não a conhece, estranha bastante quando alguém a descreve: São Paulo é assim, contraditoriamente fascinante, acolhedora e também uma apartadora desalmada...


O desemprego paulistano castiga mais de um milhão de trabalhadores, segundo os números mensais do PED (Pesquisa de Emprego e Desemprego). Por causa disso, mesmo no bom momento econômico que enche os bolsos do setor industrial e dos especuladores imobiliários, há cada vez mais pessoas morando na rua. Hoje, cerca de 13 mil desabrigados de São Paulo conseguem dormir em albergues. Os outros tantos que ficam ao léu não conseguem ser abrigados nem no censo do IBGE. Afinal, ainda não há uma maquineta de última geração, que consiga registrar o lugar nenhum... O outro motivo para o desabrigo de muitos é a especulação imobiliária. Em apenas um ano, os aluguéis na capital paulista ficaram 17% mais caros. De acordo com uma pesquisa do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP), o aumento ocorreu entre agosto de 2010 e setembro de 2011, devido à escassez de imóveis na cidade. Com um cômodo qualquer custando os “olhos da cara”, para os pobres e desempregados não restam muitas possibilidades além de buscar abrigo embaixo de viadutos. Entretanto, morar em São Paulo não é o único desafio que os pobres têm que enfrentar na capital dos paulistas. Aqueles com filhos pequenos precisam lutar muito para conseguir vagas em creches ou escolas públicas nas diversas regiões metropolitanas. No começo de 2011 havia uma fila de 120 mil crianças esperando matrícula na rede municipal de educação. Se nem o acesso ao ensino fundamental e médio em São Paulo ainda foi universalizado, a possibilidade dos pobres paulistanos de ingressar no ensino superior público ou particular ainda está mais distante. Nem o escritor inglês Charles Dickens poderia descrever com tanta precisão, o tamanho da desigualdade que impera na cidade:é tanta riqueza e pobreza convivendo em um só espaço. Se não tivesse tanta gente, teria mais emprego, mais vagas nas creches, menos especulação imobiliária, menos carros nas ruas, mais leitos nos hospitais... a solução é esvaziar São Paulo, ao menos é o que pensam aqueles que estão ocupados demais para buscar políticas de inclusão. Há quem culpe os imigrantes pela desordem expansiva

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da capital. Agora que a casa está cheia, bem que eles podiam voltar para o lugar de onde saíram... É nesse local de luz e escuridão, que todos os anos centenas de refugiados estrangeiros procuram reconstruir suas vidas. Eles são recebidos por uma parte de São Paulo, ainda solidária, e engolidos por outra parte plenamente desumanizada pelo turbilhão do veterano capitalismo urbano-industrial. Até junho de 2011, São Paulo registrava 1.568 refugiados. Considerando que até setembro desse ano havia 484 solicitantes de refúgio na cidade, a quantidade total de pessoas, entre solicitantes e refugiados, chegava à quase metade dos 5.229 indivíduos que vivem em solo brasileiro, na mesma situação. O número ainda é pequeno no universo de uma cidade tão grande. Dois mil exilados não lotam nem a Catedral da Sé, que pode acolher até oito mil peregrinos. Perdidos entre os 11 milhões de habitantes da “Paulicéia”, os refugiados são praticamente invisíveis aos olhos do morador comum, entretido com as belezas e com as mazelas da cidade. Muitas vezes os exilados são vítimas da desinformação que isola tantas pessoas preocupadas com a própria fuga diária. O senso comum acontece da seguinte maneira: Os dois homens chegaram à parada da Praça Kennedy por volta das 11 horas da manhã, de um dia mais quente do final do mês de julho. Um deles, vestido de camisa e calça de linho, carregava consigo uma mala e um estranho sotaque: - meio mineiro, meio carioca. “Vamos pegar esse ônibus elétrico, como nos velhos tempos”, disse entusiasmado. Assim, o homem alinhado e seu acompanhante subiram no trólebus 2100-10, sentido Sé, com destino desconhecido.

Depois de alguns minutos de viagem, sentindo-se a vontade o bastante para fazer confidências, contaram animados aos poucos passageiros do coletivo que estavam de viagem marcada para Paris. “Vamos hoje mesmo!”, anunciaram. A agitação do mais atípico dos dois passageiros logo se estendeu ao cobrador, que tratou de lembrar aos dois senhores, que logo seriam imigrantes em outro país. Mas para a dupla de viajantes, estava tudo bem, afinal a França é um país rico e poderia receber pessoas do mundo todo. “Aqui no Brasil


é diferente. Os imigrantes acabam com a nossa cidade, consomem nossos recursos, nossa previdência...”, constatou o senhor alinhado. E sem muitos rodeios o seu acompanhante completou a teoria. “Se é um nordestino então, o pessoal chama de vagabundo, mas quando vem de outro país, é coitadinho... refugiado...”. A conversa despertou a atenção de um “baiano” que tratou de completar. “É isso mesmo. E ainda dizem que não tem emprego pra gente, mas pros outros de fora sempre dão um jeito... e quando arrumamos algo, é pra pegar no pesado, porque você sabe? Paulista é preguiçoso”. Todos os envolvidos concordaram, menos uma senhora de cabelos dourados, que levantou-se imponente e ergueu a voz. “Não venham falar mal de São Paulo. É a cidade que acolheu vocês, se não gostam, podem voltar para o lugar de onde vieram”, disse. A discussão durou o tempo da viagem até a Praça da Sé, onde os dois homens e a senhora desceram mutuamente aborrecidos. Cada qual foi para um lado e possivelmente, nunca mais se esbarrem em lugar algum. Eu observei atenta a confusão de estatísticas, conceitos e de julgamentos, que havia aparecido e debatido casualmente, naquele curto trecho de trólebus. O breve entrevero resume um fato que muita gente custa a entender: refúgio é uma opção dolorosa, e o refugiado é uma vítima. As confusões dos brasileiros são frutos da desinformação. O senso comum mistura imigrantes e refugiados num mesmo pacote de injustiças, sejam econômicas ou sociais. Pouco se divulga sobre os conflitos que assolam os países da América Latina e que fazem de São Paulo um campo de refugiados para muitos “hermanos”. Apesar de próximos, eles se tornam tão estranhos quanto qualquer outro imigrante procurando arrumar um jeito para se integrar. “Mas como assim refugiados do Peru? Da Ilha de Páscoa?” De repente, a latinidade não cria vínculos, ela até afasta por causa de conceitos e preconceitos. No jargão popular, todos são transformados em bolivianos, que vem aos “montes” para “roubar empregos” dos paulistanos. A cidade que recebe todos os anos milhões de visitantes

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ainda se mostra avarenta para atender uma pequena população de refugiados oriundos de comunidades irmãs... São Paulo não é um campo de refugiados como Breidjing no Chade, ou como muitos outros da Palestina invadida por Israel. Nem se pode comprar a situação dos refugiados paulistanos com outros campos em áreas de conflito. É apenas uma grande cidade, que trava suas próprias batalhas diárias para encontrar algumas soluções para atender paliativamente os que chegam em seu território, em busca de um recomeço de vida. Mesmo assim, num pequeno enclave em pleno “marco zero” se configura um campo de refugiados sem muros ou sentinelas militares, sem tendas e sem serviços de emergência. É um campo quase invisível no coração da maior cidade da América Latina, um espaço que não recebe a atenção dos jornais e da televisão. Entretanto, os profissionais e voluntários que atuam ali precisam todo dia, encontrar meios de prover moradia, atendimento médico, educação, trabalho e integração social para aqueles “hermanos”, que não podem mais voltar ao seu recanto natal e que desejam receber a cidadania paulistana e brasileira.

A porta de entrada

Antes que os pés possam tocar o chão paulistano, a cabeça dos refugiados já registrou as primeiras impressões marcantes da cidade. Olhos ávidos, quase assustados, capturam as informações do lugar cogitado como a nova morada. Sinapses atiçam sensações, esperanças e ilusões... O alívio da chegada avisa o cérebro que é a hora das supra-renais liberarem adrenalina: uma profusão de sentimentos quase faz explodir o coração! Quando os pés trêmulos e cansados tocam o chão de São Paulo, o corpo ainda não está totalmente preparado para mover-se para a nova vida. A viagem continuará sempre longa para os refugiados, que desembarcam hesitantes, na maior cidade da América Latina. Nos primeiros momentos os refugiados continuam a ser tangidos pelo medo que os moveu para o desterro. Apesar de São Paulo estar longe das fronteiras, dos locais de conflito, o receio de ser capturado

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ou de ser morto pelos perseguidores é um sentimento que demora a sumir da cabeça dos fugitivos. Os refugiados não encaram a cidade de frente, estão sempre de olhos baixos. Entretanto, São Paulo é um lugar que não respeita fragilidades e envolve os refugiados dos pés a cabeça, os consome com sua grandeza desde o momento no qual eles a tocam pela primeira vez. O encontro dos fugitivos com São Paulo nunca é tão sutil porque também ocorre em uma situação que não é sutil. Seja por terra, por ar ou pelo porto de Santos, a chegada é sempre um movimento de conquista quase eufórica para esses migrantes, que fogem de seus países, muitas vezes sem rumo, e descobrem a gigante metrópole quase por acaso. A extensão continental do Brasil faz com que a maioria dos latino-americanos que pedem refúgio aqui, chegue por terra ao destino traçado. Em São Paulo a rodoviária Tietê, com seus dois andares e mais de 60 guichês, é o lugar de chegada e de partida para a maioria deles. O segundo maior terminal de ônibus do mundo, e um dos três terminais da capital paulista, liga a cidade com o resto do Brasil e com países além da fronteira. O lugar mais distante que se pode alcançar - sem escalas e desvios - saindo do Tietê é a capital peruana, Lima. Para aqueles que aceitam o desafio, a viagem dura 5 dias e percorre 5.800 quilômetros em algum ônibus do Expresso Ormeño. Os refugiados latino-americanos chegam ao enorme e confuso corredor de entrada e saída da Rodoviária do Tietê com passos ligeiros e tortos, olham desconfiados e inseguros, e ao contrário de passageiros, imigrantes e visitantes, carregam uma bagagem pesada, mesmo que não tragam nada mais que a roupa que vestem. Foi assim que Carlos Ernesto Llanos chegou sozinho em São Paulo no ano de 1991: - veio um pouco a pé, um pouco de trem, e quase 5 dias de ônibus pelo Expresso Andorinha. Não veio direto do Peru, atravessou a Bolívia até chegar a Corumbá no estado do Mato Grosso do Sul. Só depois embarcou para São Paulo. “Nossa”, foi tudo o que ele conseguiu dizer quando se deparou com o novo local de morada. Faltou-lhe interjeições para descrever aquele imenso lugar desconhecido. Quando chegou, ainda aliviado por ter conseguido, e assustado pelo caminho desconhecido que iria


encontrar pela frente, o peruano nem imaginava que um dia seria refugiado no Brasil. “Só fiquei sabendo o que era refúgio quase um ano após a minha chegada aqui, na época, eu só pensava em ficar vivo”, conta. Ser refugiado é ter um conjunto de medidas protetoras a favor de quem as solicita, não é somente o estado de espírito, é receber um documento e garantias. Carlos: um homem que nada lembra os estereótipos latinos, tem sobrancelhas espessas, pele dourada, queixo avantajado..., ele se misturou aos outros na rodoviária Tietê, seguiu para a rua, sem destino certo. A bagagem que mais pesava em seus ombros era o fato de ter sido forçado a deixar a mulher e as quatro filhas. Foi para o centro de São Paulo, de onde nunca mais saiu. Sem os documentos que comprovassem o status de refúgio, ele não podia desfrutar das garantias que o governo brasileiro já se propunha a cumprir, mesmo antes da Lei para os Refugiados. “A solicitação tem que partir do próprio refugiado. Nenhuma autoridade brasileira pode induzir o pedido”, informa Bruna Rodrigues Menk, delegada chefe do Núcleo de Registro de Estrangeiro da Delegacia de Migração (Delemig) em São Paulo. E como Carlos Llanos não sabia disso, viveu desamparado por quase um ano. O prédio da Superintendência Regional de São Paulo, no baixo da Lapa, zona oeste da cidade, simboliza o início do refúgio para os solicitantes da capital paulista. A Delegacia de Migração de São Paulo, onde trabalha a delegada Bruna Menk, recebe ao menos um pedido por dia, “são quarenta por mês, média maior do que no ano passado”. Muitos chegam encaminhados por ONGs, mas todos precisam ter um horário agendado e depois da entrevista, terão o processo de refúgio iniciado. Todos os dias, três servidores - inclusive a delegada- buscam atender os estrangeiros que aportam na delegacia fugidos de um lugar qualquer. Mais uma vez, os refugiados são subestimados em demandas habituais, não há um “setor” para eles no atendimento. No Núcleo de Registro de Estrangeiros passam diariamente cerca de 2 mil pessoas. Mais uma vez, o solicitante de refúgio é minoritário e precisa sentir-se a vontade, mesmo quando tal possibilidade é quase impossível. Ah, se ao menos houvesse mais servidores...:

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- desejo da delegada é de expandir o serviço, mas isso ainda não depende dela. É um serviço diferenciado, mas não há diferença no ambiente. O mais difícil é conseguir que os refugiados se sintam a vontade, ao menos o bastante para deitar no divã simbólico e contar os seus receios, temores e motivos que os fizeram partir. “É preciso ter cautela e paciência, devemos transmitir empatia e segurança ao solicitante de refúgio”, explica Bruna Menk. No litoral paulista, os porões dos navios servem de abrigo para aqueles que chegam pelo mar. Ainda são clandestinos, que vêm do mundo inteiro, principalmente da África, como em navios negreiros partindo para a terra nova. Segundo a delegacia da Polícia Federal de Santos, a hegemonia do continente africano no porto é evidente, só esse ano, 11 camaroneses desembarcaram em Santos depois de uma viagem nada agradável no espaço mais incômodo de um navio. Mas se engana quem pensa que não há clandestinos vindos da América Latina. Os países caribenhos costumam exportar escondidos em porões, muitos de seus habitantes. Muitos clandestinos “saltam” no litoral de São Paulo e vêm para a capital. Em outubro de 2011, foi a Polinésia que enviou a mais preciosa de todas as cargas clandestinas. Era uma adolescente da Ilha de Páscoa, sem nome e lembranças, o medo era seu único documento. Souberam mais tarde que a menina havia sido violentada, e que os olhos tristes escondiam mais informações sobre os abusos. “A maioria não sabem nem que está no Brasil, eles passam dias no porão sem água ou comida”, informa o delegado Weber Custódio da Polícia Federal de Guarulhos. O delegado Custódio estava alocado na delegacia do aeroporto de Guarulhos na tarde de uma quinta-feira do final do mês de Agosto. As ocorrências mais comuns eram sobre passaporte perdidos ou menores que de algum modo estavam sendo embarcados para países nórdicos com autorizações não legais. Assim como nas outras delegacias, os pedidos de refugio são ocasionais. A verdadeira demanda era outra. Não demorou muito para o local ficar movimentado. Uma mãe desesperada e o um filho cabisbaixo tentavam embarcar para a Dinamarca. Era possível observar o acanhamento e tristeza no rosto


do adolescente que assistia constrangido a mãe esbravejar contra o delegado de plantão. A mulher insistia ter consigo o documento dos avós paternos necessário para prosseguir em viagem com o “menor”, mas o agente da imigração afirmava que a autorização não era de um juiz, e nem estava registrada em cartório. “Ah, essa burocracia”, bradou a mulher no corredor da delegacia, que fica no último cantinho do pavilhão de embarque. Aquela manhã de quinta estava tranquila até na opinião dos agentes, apesar da novela sem final feliz - o garoto teve que obter outra autorização e iria perder o vôo - nenhum caso mais grave tirou a paz da delegacia. Mais uma vez, São Paulo assusta pela sua enormidade. O Aeroporto Internacional de Guarulhos, conhecido como Cumbica, é uma cidade que recebe milhões de pessoas por ano. Em 2011, até o mês de setembro, foram 22.173.574 passageiros. É o aeroporto mais movimentado de toda a América Latina. Os avisos bilingues não fazem justiça aos dialetos que circulam no terminal, com ouvidos mais apurados você pode ouvir vários continentes em apenas um dos pisos. Nas filas das companhias aéreas é possível enxergar vários países, muitos carregam lágrimas e tristeza no meio dos pertences, nervosismo pela longa viagem ou alegria porque logo voltarão para casa. Nas filas de embarque, quem fica, sempre sofre mais, mesmo que a companhia perdida esteja embarcando para uns dias de férias em Paris. Entre marinheiros de primeira viagem e executivos enfadados, há muito para um repórter ou para um policial notar. No andar de baixo, o desembarque costuma ser mais discreto e o volume de malas bem maior. Entre dondocas com sacolinhas do Duty Free, e adolescentes coroados por medalhas do Rotary, desembarcam os refugiados de países longínquos com um pouco mais de sorte - ao menos tiveram dinheiro para não vir em um porão insalubre de um navio cargueiro. Ninguém espera os refugiados, e por um lado isso é muito bom. A segurança ou a liberdade de quem foge depende do anonimato. Antes de pisar em solo brasileiro, com a cabeça e com os pés, eles passam ainda em jurisdição internacional, pelos agentes de imigração. Casos de refugiados não são tão corriqueiros na delegacia do aeroporto de Cumbica. Roubos no terminal ou passaportes

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perdidos são mais comuns, o bastante para atingir algumas dezenas no final da semana. Sempre que desembarcam refugiados, eles são identificados pelas suas peculiaridades e viram o assunto da vez nas conversas dos agentes. “Fiquei sabendo que estes dias apareceu um homem do Butão!”, admirou-se o delegado Weber Custódio. Assim como os da Delemig de São Paulo, os funcionários da Delegacia de Guarulhos são preparados para esse tipo de situação, e que qualquer agente da Polícia Federal está apto para atender um solicitante. “Se precisar, chamamos um intérprete, pois cada palavra do depoimento precisa ser compreendida”, explica. Eles podem aparecer no guichê da imigração, ainda no desembarque ou sair de lá com um visto qualquer e solicitar o refúgio na Polícia Federal. Em ambos os casos, o futuro solicitante precisa seguir até a asa norte do segundo andar. “Alguns chegam sem dinheiro e sem passagem de volta, querendo ingressar no Brasil como turista. Outros chegam com documentos falsos, ou rasgam os verdadeiros para não serem identificados. É comum encontrar passaporte aos pedaços no banheiro”, relatou um dos agentes que passava pelo local. “Muitos nem sabem o que é refúgio, aprendem isso na rua com algum outro, aí só depois fazem a solicitação”, disse. O depoimento do agente carrega um pouco de receio, já que nem todos os solicitantes são na verdade refugiados. Qualquer pessoa estrangeira pode solicitar o refúgio, segundo a Lei 9.474/97. Até o pedido ser julgado pelo Conare, o solicitante permanece no Brasil desfrutando dos direitos previstos pela Lei. Quando a família Fernández desceu no Cumbica, um mês antes daquela tarde de quinta-feira, eles estavam em um vôo de conexão, com destino final para África do Sul. Em Cuba, Lisliet e o marido Javier haviam negociado com um “agente especializado em evasão” a fuga deles e das duas filhas, K. Fernández e G. Fernández, por dinheiro economizado durante mais de um ano. O Brasil seria a última chance para a idealizada “liberdade”, ou teriam que ficar na ilha caribenha para sempre. Aproveitaram a facilidade da passagem pelo solo brasileiro para ficar por aqui. Assim estava nos seus planos, que eles não compartilharam nem com familiares e amigos. “É perigoso falar dessas coisas, tivemos que manter segredo


até o último momento”, relevou Lisliet Vassalo, esposa de Javier Fernández e mãe das pequenas K. Fernández e G. Fernández. Sem charutos e chapéus, a família de cubanos estava disfarçada entre a miscigenação latina. Não pareciam com desertores, nem com fugitivos, não pareciam com nada daquilo que ilustra a nossa imaginação. Ela tem a pele clara, cabelos acobreados, e sorriso de menina. O marido tem porte de europeu, alto, cabelos negros, feições afiladas, um pouco sério. As menininhas carregam um pouco dos dois, são maiores do que as crianças brasileiras, cachinhos dourados na cabeça e carinhas rechonchudas. Pareciam uma família de um lugar qualquer. Naquele dia, eles entraram no Brasil com visto de trânsito, que valeria uma estadia de apenas 10 dias e passaram pela imigração com pouco dinheiro e somente com aquilo que o regime cubano permitia carregar em suas malas. Só pediram refúgio depois de passar pela Cáritas, 3 dias depois. Foi um daqueles casos que o agente da imigração deixou escapar descontente quando conversávamos na delegacia. Eles aprendem a falar a palavra refúgio na rua, desse modo não seriam mandados de volta pra casa. A família cubana marcou um horário na Delemig semanas depois da chegada na cidade, e agora aguarda o julgamento para o pedido de refúgio. Não foi esse o caso do colombiano Jesus, um homem de aparência cansada, pele branca, altura mediana, calvo e olhar fixo, e pele branca. Não tinha cara de guerrilheiro, nem de militante potencialmente perigoso para o Exército do seu país. Quando deixou seu país em 2008, ainda abalado pelos 45 dias de cárcere que passou nas mãos das FARC, ele sabia exatamente o que fazer, pois tinha sido orientado pelo próprio cônsul brasileiro em Bogotá. Sabia o que o esperava no Brasil, e o que a Lei poderia oferecer: proteção, assistência e integração. O homem deixou o avião, e passou a viver em São Paulo do jeito que pode. A angústia consumia os passos cambaleantes de Jesus, a dor conseguia ser mais subjetiva do que física. Mesmo assim, as marcas em seu corpo serviam como prova para o seu relato. Ainda na fila da imigração do aeroporto de Cumbica, o homem expressou seu desejo de tornar-se refugiado. “Eles me levaram direto para a

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Polícia Federal do aeroporto, isso me economizou uns dois meses no processo de julgamento do meu status de refúgio”, contou. Se não tivesse feito isso, o colombiano teria que ter agendado uma entrevista na Delemig em São Paulo, e tudo isso leva tempo para quem se encontrava bastante fragilizado. Cansado pela viagem e atormentado pelas lembranças do sequestro, não conseguiu se fazer entender, foi preciso chamar um profissional para traduzir os relatos em espanhol - a língua que todos os brasileiros pensam que dominam. Mas o delegado de plantão não quis arriscar, e preferiu ouvir do interprete a história do colombiano. Passaram a manhã colhendo informações, checando dados. No final do dia, o colombiano foi escoltado pela polícia até a sede da Cáritas, no centro de São Paulo. Jesus estava pronto para dar os próximos passos para o refúgio. A chegada na maior cidade da América Latina assusta até os que lidam com situações extremas. Assusta pelo tamanho dos números e da extensão de tudo. Nada em São Paulo é simples, pequeno mesmo só o contingente de refugiados diante da imensidão de habitantes, imigrantes e viajantes. A mesma cidade que assusta também acolhe aos que passam pela Policia Federal e pedem proteção do governo brasileiro. A delegacia é a porta de entrada para o “campo de refugiados” paulistano, dentro dele, ainda há muito para acontecer.


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II. O caminho da ajuda


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A

Venceslau Brás é daquelas ruas que todo mundo ouve falar, mas pouca gente sabe exatamente onde ela fica. Na prática, é uma rua ofuscada pelo ponto histórico-turístico-místico-e-referencial chamado Praça da Sé. Tudo que está ao redor da histórica praça, do “marco zero”, perde referência própria e é incorporado ao pavilhão religioso que deu origem à cidade. Todos os dias, milhares de pessoas apressadas passam pela rua Venceslau Brás: - vendedores, cozinheiros, advogados- aos montes, com seus ternos soturnos e calorentos-, funcionários de repartições anônimas, viajantes com malas e valises, pedintes e artistas errantes, camelôs, policiais, meninos e meninas de rua, romeiros rezadores e profetas- que anunciam presságios para quem não tem o que fazer. É assim, uma rua passageira. Tão inexpressiva quanto seu homenageado Venceslau Brás, o 9º presidente da Velha República. Um daqueles senhores sisudos do início do século passado, só lembrado ligeiramente antes de alguma prova de vestibular, em um trecho grifado de algum livro de história brasileira. Está espremido entre Hermes da Fonseca e Delfim Moreira, assim como sua rua, espremida entre outras tantas. No entanto, é na Venceslau Brás, no prédio de número 78, que muitos estrangeiros que buscam refúgio na cidade procuram por orientação. É lá, espremido nas entrelinhas arquitetônicas, o edifício no qual funciona o Centro de Acolhida para Refugiados (CAR) da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo. O local chama a atenção


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somente pelo vai-e-vem de sotaques e histórias tristes, não está grifado e muito menos identificado na fachada - uma adequação à Lei Cidade Limpa e um mecanismo de discrição para quem esteve em situação de perigo. Para os solicitantes de refúgio que chegam por mar, terra ou vias aérea, é com o pessoal da Venceslau Brás que acontece quase sempre o primeiro contato, ao menos no sentindo romântico da palavra. A Cáritas é parceira do Acnur desde 1989, quando foi incumbido à arquidiocese de São Paulo o trabalho de orientar a população em situação de refúgio. Antes disso, a tarefa era realizada pela Comissão de Justiça e Paz da Igreja Católica, criada pelo então arcebispo dom Paulo Evaristo Arns no final dos anos de 1970. Naquela época, o fluxo de exilados e fugitivos dos regimes militares na América Latina preocupava dom Paulo. Pessoas eram perseguidas como ratos, pelos agentes da Operação Condor e fugir para terras distantes era uma tarefa árdua, mas necessária. “O endereço da Cúria Metropolitana, na Avenida Higienópolis, número 890, era um dos mais procurados da América Latina durante o regime militar. Lá chegavam os refugiados políticos, os familiares de desaparecidos, gente marcada pelo desespero e pela dor, sem ter a quem recorrer”, disse dom Paulo em um depoimento para a publicação Refúgio no Brasil, organizado em parceria entre o Acnur/Ministério da Justiça/Conare e lançado em 2010. O religioso percebeu que não bastava acolher essas pessoas em sua paróquia, era preciso denunciar internacionalmente a violência patrocinada por muitos governos ditatoriais latino-americanos, e partiu em uma cruzada para orientar e cobrar dos governos soluções para a questão do refúgio. Em 1981, o Acnur reconheceu o trabalho feito pelo arcebispo e encarregou as paróquias de São Paulo de acolher os refugiados da cidade. Não só acolher, mas darlhes orientação e promover políticas de integração. Com o passar dos anos e o aumento da demanda, a Cáritas assumiu a parceria com o Acnur e o governo. O órgão é reconhecido juridicamente como de utilidade pública federal, e tem como objetivo promover ações de desenvolvimento solidário e sustentável. É o braço da Igreja Católica para as obras sociais. Segundo o folheto


da organização, a missão da Cáritas é ajudar a formar uma rede de economia popular solidária - substituir o assistencialismo passivo pela autonomia econômica e também política. Traduzindo em miúdos, é o setor de Responsabilidade Social da Igreja Católica. O Centro de Acolhida para Refugiados é um dos projetos que cabem à organização religiosa. A doutrina cristã e os ideais da Teologia da Libertação - aqueles onde a caridade não é o fim, e sim o meio para a transformação dos menos favorecidos - funcionam como uma cartilha para o trabalho da Cáritas. “Mas aqui não é um local para orientação religiosa”, explica Maria Cristina Morelli, a coordenadora do projeto. “Fazemos isso tudo em nome da Igreja Católica, mas o nosso trabalho é outro”. Acolher, orientar e integrar. São Paulo é uma cidade grande que desorienta até quem é nativo. Quando eles chegam na cidade é normal serem consumidos por ela. O Centro de Acolhida para Refugiados é onde se dá os primeiros passos, apoiados na tríade proteção-assistência-integração. A proteção tem uma lei que garante direitos e deveres, assistência básica para quem precisa e integração com a sociedade. Esse é o papel da Cáritas, garantir os primeiros passos em São Paulo, até que um dia seja possível caminhar sozinho. Quem foge não tem tempo para pensar em detalhes e consequências. Os documentos, por exemplo, quase sempre ficam pelo meio do caminho, até porque muitos têm que se desfazer deles para não serem facilmente identificados pelos perseguidores. Ao chegar ao país de refúgio, precisam lidar com a burocracia, entender procedimentos, aceitar as condições, assimilar um milhão de coisas sobre leis e costumes brasileiros. Essa é a primeira etapa do refúgio, é a etapa da Cáritas. Só quando você chegar lá, na rua Venceslau Brás, nas redondezas da Catedral da Sé e observar todo trabalho feito, vai conseguir entender a grandeza daquele local apertado e escuro. Minha experiência com a Cáritas começou depois de subir os três lances de escada – e de passar alguns hesitantes segundos dentro do elevador antigo- que fizeram evaporar minha euforia por ter encontrado aquele número 78 quase invisível, da Venceslau Brás. Será de fato encontraria naquele local gente capaz de sanar

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todas as minhas dúvidas sobre refúgio em São Paulo e no Brasil? Creio que para os desterrados estrangeiros, as dúvidas são muito mais angustiantes. Afinal, eles procuram um lugar para buscar orientação, alívio para suas intensas dores, algum fio imediato de esperança. As dúvidas e angústias estão estampadas nos rostos dos africanos, asiáticos, europeus e latino-americanos que frequentam o prédio diariamente. São tantas nacionalidades, crenças e culturas que buscam diariamente pela orientação da Cáritas. Oi, você está no Brasil. Falamos português e não inglês. Nossa lei é essa. Você tem alguns direitos, mas também tem deveres. Pode nos contar a sua história? O encaminhamento para a Polícia Federal é feito pela Cáritas. A entrevista é feita na Polícia, você pode ir de metrô ou ônibus. Demora, eu sei, mas há muitos pedidos e cada um deve ser analisado e julgado. Enquanto isso, você terá um protocolo, CPF e carteira de trabalho. Vamos arrumar um lugar para você dormir, para comer... trouxe roupas? Se não trouxe, temos aqui um brechozinho com peças de inverno e de verão. E é assim todos os dias na Cáritas, de segunda à sexta-feira. Lá em cima, no segundo andar do velho prédio, grupos de pessoas esperam por atendimento, por orientação. Maria do Céu Fonseca é portuguesa e veio trabalhar no Centro de Acolhimento para Refugiados em São Paulo no ano de 2007 para orientar estrangeiros em uma terra além-mar. Assustou-se com a diversidade de nações acolhidas no pequeno centro da Cáritas e também com o número de pessoas que passa por lá diariamente. Mais de 70 por dia, estima o porteiro Francisco. “É assim bem estafante, mas gratificante”. Ela conta que todos chegam ao final do dia esgotados, não só pelo volume de trabalho, mas pelo atendimento nunca ser apenas um atendimento meramente formal ou burocrático. Quem chega procurando médico, pode revelar em uma conversa que está com dificuldade para encontrar trabalho ou sem dinheiro para comer. É difícil ignorar as circunstâncias dos estrangeiros que procuram refúgio. “Hoje veio uma moça que teve um bebê, ela veio buscar uma cesta básica, só que aí a gente já perguntou se a criança já tinha registro? Não tem. Então vamos orientar pra ir pro cartório”. Então é assim, não é uma coisa simples, não é só chegou ali e atende e


manda de volta. Querem saber como vai, o que está fazendo, se está amamentando, se já fez o teste do pezinho... Mas o primeiro contato na Cáritas é feito com o porteiro. Não é com as assistentes sociais, nem com o padre Marcelo Monge, diretor da organização. É com Francisco. Do lado de lá da grade, ele observa um africano indicar o banheiro aos dois homens que acabaram de subir pelas escadas. Ali, no corredor com pouca luz, as diferenças são bem visíveis. Os do Congo ficam em um canto, os da Angola no outro, há colombianos, Palestinos, Peruanos... às vezes, acontece de um cruzar a barreira invisível que os separa, apenas para trocar idéias sobre a cidade ou para reclamar do atendimento lento. Toda essa interação é observada por Francisco, um homem negro, alto e esguio, que guarda as portas da Cáritas há 27 anos. “Geralmente eles não têm paciência, querem tudo no tempo deles. Mas é assim mesmo, eles tem urgência e o sofrimento não pode esperar”, reflete. No corredor, a rotina acontece como um filme de enredo repetido. A postura desses dois senhores revela que são recémchegados. Ele observa a mulher sentada no banco de madeira segurando um bebê: - ela não é novata e seu bebê já é veterano da Cáritas, todos eles estão se adaptando ao modo de vida de São Paulo. Os que estão aqui há mais tempo ajudam aos que estão chegando, e assim o ciclo continua. O porteiro Francisco apenas observa o burburinho dos estrangeiros no corredor. Algumas vezes ele reconhece que a distância entre ele e os que estão do outro lado da grade é enorme, mas aquela barreira de ferro é necessária para quem lida com esse trabalho. Se tiver o coração muito mole como eu, a coisa não anda, não funciona, é preciso achar um meio termo entre emoção e eficiência: - isso leva muitos anos. Mas Francisco já é experiente. Faz cara de durão apenas entre as grades. Há duas maneiras de encarar o desconhecido: com os olhos ou com as mãos. O tato nos dá a certeza daquilo que é matéria, que é real. Com o olhar podemos avaliar e construir hipóteses retiradas de um procedimento quase científico. Observar, analisar e deduzir. Quando se espera em um corredor escuro, as incertezas afloram, é comum encontrar olhares estrategicamente perdidos - quem sabe procurando uma rota de fuga - novamente? Quando

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cheguei à Cáritas, queria usar as minhas mãos. Certos estavam os que buscavam refúgio: - olhavam para as brechas no piso como se procurassem uma fissura em um osso. Sentados e impacientes, esperavam com uma senha nas mãos. Era meio-dia, mas o corredor praticamente sem janelas, continuava escuro. Um casal encostado perto da porta segurava impaciente o pequeno pedaço de papel. Observei-os com o meu conceito estereotipado sobre as aparências e fiquei tentando adivinhar de onde eles vieram. O tom amendoado da pele, os olhos pequenos, puxados e negros, cabelos compridos, e roupa colorida. Fiquei entre bolivianos e peruanos. “De onde você vem?”, perguntei de forma mais natural possível, como se perguntasse o horário do próximo trem. Na verdade, a pergunta era bem menos impessoal. “Do Peru”, o homem revelou, e fim de papo. Eles estavam fugindo do Peru. O casal manteve os olhos no chão, talvez não fosse seguro ainda encarar às pessoas ou estavam apenas analisando as possibilidades de abordagem ou de diálogo. Francisco os chamou pelo número e do outro lado da grade os recebeu para uma conversa que durou um cruzar de olhares e um afago no ombro. É o Francisco que estabelece o primeiro contato. O segundo contato é feito em uma sala mais ampla e iluminada, com pessoas mais especializadas e assertivas.

O segundo contato Malas. No canto da sala sempre há algumas malas. “Acabaram de chegar”, conta Maria Cristina Morelli, coordenadora do Centro de Acolhida para Refugiados. A maioria dos refugiados que chegam em São Paulo procuram diretamente à Cáritas, alguns passam primeiro pela Polícia Federal, mas todos os envolvidos na questão do refúgio, em algum momento, fazem contato com a organização católica. Levou quase um ano para Carlos Llanos conhecer a Cáritas Arquidiocesana de São Paulo. “Depois disso, tudo aconteceu muito rápido”, lembra o peruano, que após sua chegada em 1991 precisou


viver na rua, sem nenhum tipo de assistência. O que mudou na vida dele e da família Llanos? Quando um estrangeiro pede refúgio no Brasil ele ganha documentos. Um registro provisório, uma carteira de trabalho e o CPF (Cadastro de Pessoa Física). Assim, ele torna-se um cidadão brasileiro. Sem o registro de solicitação, Carlos e a família poderiam ser mandados de volta para o país a qualquer momento. Eles não estavam protegidos pela Lei 9.474/97. Viviam em constante medo de serem “pegos” por não terem documentos, uma situação que os forçava a viver na ilegalidade. “Uma vez, houve um roubo na pensão onde ficávamos e a polícia foi chamada. Tivemos que fugir antes que eles chegassem”. Assim, Carlos e a família se tornaram também clandestinos dentro do Brasil. Por não terem documentos, Carlos e Martha não podiam trabalhar formalmente. Carlos, que era comerciante no Peru, passou a vender nas ruas o que podia, desde batons chineses a artesanato. Os brincos e tapetes peruanos carregavam a cultura de sua origem e a esperança de um dia poder viver em São Paulo com dignidade. O artesanato era vendido na calçada da universidade Mackenzie. Foi lá onde eles conheceram as pessoas que os apontariam a Cáritas. “Minha esposa foi chamada para fazer um tapete para um dono de uma empresa de contabilidade. Ela aproveitou a oportunidade e perguntou se tinham um emprego para mim”, relata. O empresário deu trabalho para Carlos e algo mais. Depois de quase um ano vivendo na rua ou em pensões, Carlos Llanos, a esposa - e mais recente-, as filhas do peruano conseguiram um quartinho nos fundos de uma casa para morar. “Tinha espaço o bastante para nós seis dormirmos no chão”, disse como se isso tivesse sido a maior conquista na época. Mas as preocupações continuavam, até porque o gesto piedoso do empresário era ilegal. Se fosse descoberto, Carlos estaria encrencado, e seu empregador também. Sem o registro e os documentos, o refugiado não está protegido, nem assistido e por consequência, está impossibilitado de se integrar. “Quando as minhas filhas vieram para São Paulo, elas queriam estudar”, as “meninas” já eram pré-adolescentes e tinha tido boa educação no Peru. Tinham planos, curso de inglês e um futuro interrompido pela

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Cruzamento a caminho da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, próximo ao marco-zero na Praça da Sé


Número 78 da rua Venceslau Brás


Adelaide, Maria Cristina, Maria do CĂŠu e HeloĂ­sa Maria A Catedral sob o olhar do Centro de Acolhida para Refugiados


Carlos e Jesus se orgulham dos documentos


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situação de clandestinidade na qual viviam. “A diretora da escola jogou minhas meninas na calçada”, a desculpa para a atrocidade era justificada pela falta de vagas - e pelo fato das peruaninhas não terem documentos. Apesar do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) garantir o acesso à educação para qualquer criança, as meninos de Carlos foram punidas pelo desconhecimento da lei. O dia que a família Llanos entrou em contato com a Cáritas, foi o dia que tudo isso mudou. Foram levados até lá por um padre que conheceu a história da família dentro de sua paróquia. Receberam um registro de solicitação, documentos, e a certeza de que estavam amparados. Para ele, que morou meses na região central de São Paulo, encontrar a Cáritas foi como encontrar uma mina de ouro. “Pude estudar, trabalhar e encaminhar a minha vida”, confessa Carlos Llanos. Ali, sentado em frente ao Poupa Tempo na praça da Sé, a poucos metros da Cáritas, Carlos mostra a coleção de documentos em sua carteira. Registro de estrangeiro, CPF, carteira de motorista, de sócio do Sesc, bilhete único... já é um paulista, brasileiro-peruano. Tudo isso começa no segundo contato, trabalho feito pela jovem advogada Marta Rocco desde 2009. A entrevista tem início em tom de conversa. “De onde você é? Você já tem lugar para morar? Tem amigos no Brasil?”, são perguntas que funcionam como uma triagem, isso facilita o trabalho das assistentes sociais. Nem todas as primeiras impressões são tiradas de uma breve conversa, é preciso conversar com a Polícia Federal e depois voltar para a Cáritas e conversar mais um pouco com a advogada. É o procedimento para fazer o parecer que irá ser julgado pelo Comitê Nacional para Refugiados (Conare), lá em Brasília. É conversa demais para quem costuma falar pouco. Custa para eles se habituarem. Não é à toa, uma entrevista assim de cara, ninguém gosta de tamanha interferência em sua privacidade. Aos poucos, o refugiado se acostuma com o ambiente impregnado de posteres do Acnur, que contam com fotos, a linha do tempo da instituição. Ásia, África, América Latina, são de todos os lugares, menos de São Paulo. Era mais fácil imaginar em um daqueles campos estampados nas ilustrações do que na cidade que os acolhia. Tudo parece tão surreal. Refugiados em São Paulo?


É como colocar o Cristo Redentor no meio da Av. Paulista. Uma coisa em um lugar errado. Mesmo assim eles estão lá e tentando assimilar o que são, em um lugar tão grande e mundializado. O entrevistado aponta com o dedo para o mapa estampado na parede, para identificar o lugar de onde veio. É preciso ter certeza do local de origem, só assim a advogada irá cruzar os dados oficiais com as confissões feitas entre quatro paredes. Quando a conversa acaba, o formulário com essas informações é preenchido. O próximo passo é a Polícia Federal. É lá que o refugiado preenche o Termo de Declaração, mais um pouco sobre a origem e motivos. É o início formal do refúgio. Com o Termo em mãos, o próximo passo é a Solicitação. “Ele volta aqui na Cáritas, e fazemos outra entrevista. Depois de preencher o Questionário de Solicitação, enviamos para o Conare. É rapidinho”, explica a advogada. Mas o tempo não passa tão rápido para quem não tem uma casa, um trabalho, uma vida. O veredicto poderá demorar seis meses ou até um ano, depende da demanda. Os sonhados documentos chegam após o Termo de Declaração passar pelo Conare. O vai e vem de documentos é apenas um dos entraves. Mas 20 anos depois de sua chegada, Carlos Llanos já não reclama da demora. Apenas se mostra admirado que tenha levado dois anos para a que decisão do Conare pudesse ser favorável a sua causa: ele e sua família foram reconhecidos como refugiados. Durante o tempo de espera, a Cáritas foi um constante aporto para seus problemas, lugar com que ele mantém uma profunda ligação até hoje. Fica feliz quando se lembram dele por lá, do mesmo jeito que os funcionários do Centro de Acolhida para Refugiados gostam de ser lembrados. “Sempre tem gente que volta só para contar como está e para nos ver”, conta Heloísa Maria Rêgo Gomes, assistente social da Cáritas há 22 anos. É a mais “experiente” das assistentes sociais da organização. Conhece bem a história da família de peruanos, e também de centenas de outras famílias que passaram a conviver com os funcionários da Cáritas. O tempo lhe deu a habilidade de dizer não, “ah, Helô, você é muito carrasca”, mas ela diz - com orgulho - que é preciso alguém que pondere a caridade dentro da equipe. Ela lembra que a organização não é

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um centro de distribuição - de dinheiro ou outras coisas -, e que com o crescimento do número de solicitantes fica mais evidente o papel da Cáritas como centro de acolhida e também o papel dos advogados, secretários, porteiros e assistentes sociais. Essa proximidade é algo com que Maria Cristina Morelli ainda está se acostumando. Ela assumiu o posto de Coordenadora do Centro de Acolhida para Refugiados em junho desse ano, mas “trabalha na Cáritas há 20 anos”. Já era setembro, e ela começava a falar com os olhos de quem observa. “Quando falam de refugiados aqui no Brasil, sempre mostram alguns casos, são apenas casos, nunca se preocupam em perguntar “mas o que acontece (com eles) agora que estão aqui?”, releva seus próprios questionamentos. Jornalistas ligam para Maria Cristina e perguntam “tem alguém aí da Somália?”. E é só. Apenas quando o assunto vem a tona na mídia, que eles procuram algum personagem exótico para ilustrar as tragédias do noticiário internacional. Mas o refúgio é um problema local, com soluções locais, o que ficou para trás deve ser apenas lembranças. O que vende na mídia é a tragédia. Saber o que houve com o intuito de chocar. Se estiver magro, ferido, órfão, é ainda melhor. O que acontece com “esse número quase inexistente perto da população local” não interessa. A verdade é, eles são alguns milhares em uma cidade de milhões. A assistência é a parte mais urgente do trabalho no Centro de Acolhida. É quando eles chegam, com malas ou sem, e ainda estão aprendendo a tocar São Paulo com os pés. No corredor que liga todas as salas do Centro de Acolhida, é preciso ter cuidado para não tropeçar com uma das três assistentes sociais, -lá, existem três delas, Maria do Céu, Heloísa Maria e Adelaide. Adelaide Pereira Guarabira Lemos trabalha na Cáritas desde 1993, é assistente social, preenche com sabedoria e calma o vazio dos questionamentos urgentes. Ela informa que o Centro tem parcerias com os albergues da cidade, e é lá para onde os refugiados são encaminhados. O maior deles é o Arsenal da Esperança, fica ao lado do museu do Imigrante no Brás e acolhe até 1500 homens, dos quais 25 podem ser refugiados. O mais procurado é a Casa do Migrante, há algumas quadras da Sé, tem 105 leitos e podem receber famílias (homens, mulheres e


crianças). Há também a Casa da Mulher que recebe tem capacidade para receber 30 moradoras, com ênfase da acolhida de ex-detentas, e alguns outros que são acionados quando estes estão lotados. Não existe um lar para refugiados, a preocupação é não deixá-los dormir na rua. Maria Cristina Morelli gostaria que fosse diferente. Essa é uma luta passada, que precisa do apoio do poder público de São Paulo para acontecer. “Queríamos que tivesse um lugar só para eles”, essa preocupação não é uma vaidade. Recomeçar é um verbo difícil de se conjugar, e em outra língua então, sem nada de concreto... Não é que os albergues sejam ruins - o que não são - mas servem para outros propósitos. Estão nos detalhes, detalhes que Adelaide tenta explicar. São os horários, regras, falta de privacidade, ou de pessoas preparadas a lidar com esse tipo de vítima. No campo de refugiados, eles são alojados em tendas, não é o ideal, mas achar uma tenda em São Paulo é complicado. Nos albergues, é preciso sair de manhã cedinho e ficar na rua até o fim da tarde. Se estiver doente ou tiver criança pequena, pode até ficar, mas não acontece com a maioria. “Mas essa não é uma situação ideal. O ideal seria é se pudessem ter o próprio lugar, ou ir morar com amigos”, aponta Adelaide. No caso dos africanos, por serem maior em número, é comum que eles consigam dividir moraria. Já os “hermanos”, introvertidos e sempre desconfiados, preferem ficar sozinhos ou em família. O colombiano Jesus chegou sozinho em São Paulo. Teve o primeiro contato com a Polícia Federal do aeroporto de Guarulhos e o contato mais demorado com o pessoal da Cáritas. Foi encaminhado para o Arsenal da Esperança e depois para a Casa do Migrante, onde residiu por oito meses. “Lembro bem das noites no Arsenal. Foram as primeiras noites. Não conseguia dormir, atormentado pelos meus pensamentos e pelo barulho de dezenas de homens tossindo”, no Arsenal, os quartos chegam a ter aproximadamente 500 leitos. Apesar dos 25 reservados para refugiados, eles não têm leito fixo. “Quando dava seis da manhã, era hora de deixar a cama”. As assistentes sociais lembram bem do homem colombiano. “Ele

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chegou com a saúde bastante abalada”, revela Adelaide. O convênio com o Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas auxiliou Jesus a lidar com o trauma e com a dor. Ao menos lá o serviço é especializado, e tem uma junta de profissionais preparados para atender as vítimas do deslocamento forçado. Depois do teto, comida, dinheiro para pegar o ônibus, roupa... é hora de começar a procurar por soluções mais duradouras. A necessidade da integração rápida e eficiente é o que garante ao refugiado uma estadia menos penosa. É quando ele já está recomeçando, dando os primeiros passos mais firmes. Mais uma vez, os esforços da Cáritas levaram a uma sólida parceria com os Sistema S (Sesc, Senai, Senac). Expandir essas parcerias tornarouse prioridade para o padre Marcelo Monge. É aí que acontece o terceiro contato na Cáritas. É o mais subjetivo. Não acontece cara a cara, é esporádico, tem datas específicas e atas. É o contato feito por quem dirige a Cáritas. O padre Marcelo é um novato mas está na instituição tempo o bastante para acompanhar as urgências de sua posição. “A Cáritas é a implementadora (da lei) aqui no Brasil”, reafirma a posição articuladora da instituição no processo de acolhida de refugiados. Ele sabe disso, e sabe que as parcerias são a extensão dessa responsabilidade. A última delas foi concretizada em outubro agora, com apertos de mãos dos responsáveis pelo Programa de Apoio à Recolocação de Refugiados (PARR). A ideia simples de fazer um site para cadastrar empresas interessadas em empregar refugiados e solicitantes de refúgio e cruzar o perfil desses canditados surgiu em fevereiro desse ano na 1ª Oficina sobre Trabalho e Emprego para Refugiados. Procuravam soluções para um dos principais entraves na integração dessa população aqui no Brasil. Oito meses depois daquele encontro em fevereiro, promovido pelo Acnur e pelo Ministério do Trabalho, a ideia simples transformou-se em uma ação encabeçada pela empresa jurídica Emdoc. O padre Marcelo era a mão da Cáritas no evento. Mais uma parceria concretizada. Ele é o terceiro contato na Cáritas, mas o primeiro contato com a causas sociais acontecem bem antes de sua vida sacerdotal.


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Perfil - Pe. Marcelo Álvares Matias Monge Nasceu em Ubirajara, à 405 KM da Catedral da Sé. Nasceu em 1968, ano da Primavera de Pagra, da primeira batalha em Saigon, da Passeata dos Cem Mil no Rio de Janeiro, da morte do líder negro Martin Luther King. Nasceu já atraído pela vida religiosa e pelas lutas à favor das minorias. Viu de perto as campanhas por reforma agrária, julgou necessário fazer da sua vida sacerdotal um instrumento contra as injustiças sociais e resolveu agir, envolvendo-se com as políticas públicas da cidade, do estado e do país. Ele poderia ter ficado em Ubirajara, poderia ter sido “padre de sacristia”, poderia ter sido missionário na Índia, sim poderia, mas quem acredita em predestinação, atribui a Deus as escolhas de Marcelo. Já quem acredita no acaso como uma experiência cósmica, aceita a relevância da trajetória desse padre, que em 2011, foi eleito diretor da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo e membro do Conare. Essa história de acasos e escolhas começou no final de seus estudos no antigo colegial, ainda no interior de São Paulo. “Em 1984, fiquei muito impressionado com a morte de Indira Gandhi, na Índia”, e naquele momento ele quis usar a sua vocação religiosa para interferir. Rumou para Marília, à 60 KM de sua cidade natal, para estudar Filosofia em um curso improvisado no Seminário, para “abrir a cabeça para o mundo”. O crescimento espiritual e intelectual o ajudou a compreender as dificuldades de organização de uma sociedade, da economia, da política e dos conflitos religiosos. A experiência no Seminário e os incentivos ideológicos de D. Eugênio Rixen (atual bispo de Góias Velho - SP) o levaram para a rua. “Coletávamos assinaturas para abaixo-assinados para que contemplassem as minorias na Constituição de 1988. Eram questões como a reforma agrária, direito dos indígenas, das mulheres, dos negros, dos trabalhadores”. Não entendia tudo, mas soube anos mais tarde o reflexo que essas experiências trariam para a sua vida. Quando saiu de Marília, foi para São Paulo, ele também do seminário - não por falta de fé - mas porque nem o MEC, nem a Igreja, reconheciam o curso de Teologia na cidade. “Fui ser professor


e acabei me envolvendo em uma greve”. Três disciplinas e 89 dias de greve depois, o ex-seminarista havia tornado-se comandante da paralisação dos professores “Pensava muito nos alunos, que não tinham aula, e também no professor ganhando pouco”. No final da greve, cansado e amadurecido, deu mais um passo em sua peregrinação. Ficava cada vez mais próximo da Sé. Ele voltou ao Seminário e se envolveu nas eleições dos primeiros Conselhos Tutelares (órgãos municipais destinados a zelar pelos direitos das criança e dos adolescentes), nas reivindicações para a criação de programas de moradia popular, nas eleição dos conselheiros de saúde... “Eu me deixei guiar por tudo isso, pela luz do Espírito Santo, e fui crescendo nessa direção”. Encontrou na periferia de São Paulo seu reduto e a missão de buscar soluções para problemas com a moradia, o transporte, a violência, a falta de creches e escolas. Já padre, resolveu mudar o mundo em sua volta. De Indira até a Cáritas foram quase duas décadas. Há 350 metros da Catedral da Sé, longe de Ubirajara, Marcelo agora é padre, diretor da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, e luta pela aplicação de políticas públicas que atendam aos paulistanos e à essa pequena mas significativa - parcela da população, os refugiados. Encontrou as duas pontas do seu próprio caminho.

Pelas janelas, a Catedral vigia o trabalho incessante do Centro de Acolhida, no segundo andar do antigo prédio na rua Venceslau Brás. Às vezes, pode-se encontrar o Pe. Marcelo descendo e subindo os degraus, sempre apressado, buscando uma coisa ou outra. Ele faz uma pausa com hora marcada para acabar, na sala de reuniões que também reúne livros, teses, panfletos e pôsteres sobre migrações forçadas. “Você vê essa parede? Está mofada. O prédio é muito velho, precisa de reformas, mas não temos dinheiro para fazer isso”, analisa com os olhos de quem é novato, mas já tem bastante experiência, assim como sua nova colega de trabalho, Maria Cristina. Ambos sustentam a mesma crença. “Não é o lugar ideal para receber essas pessoas”, desabafa. Ele informa que talvez mudem para um outro prédio na rua José Bonifácio, um prédio melhor, “mas não tem elevador”. É uma preocupação, já que o local

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tem degraus até o terceiro andar. Atender bem os refugiados é essencial para amenizar o choque da chegada e criar um vínculo de confiança durante a acolhida. Mas são as questões da integração que tomam o tempo do novo diretor da Cáritas, que monitora de perto vários outros projetos da organização. “Estamos fazendo uma campanha para arrecadar doações para a África”, disse entregando um pequeno informativo. Marcelo não distribui mais panfletos na praça, como fazia nos tempos de seminarista, mas é assim que ele dissemina as suas novas causas. Marcelo sabe que como diretor da Cáritas ele pode melhorar o Centro e a acolhida dos refugiados em São Paulo. O padre tem como missão rearticular as parcerias da Cáritas na busca por soluções duradouras. Ao longo dos anos de sua trajetória missionária, ele aprendeu que são nessas parcerias que se constrói uma rede sólida capaz de gerar boas ideias e bons resultados. “Quero preparar as pessoas para receberem os refugiados”, ele reconhece que a falta de conhecimento sobre a causa é perigosa para o acolhimento dessa população, principalmente durante a fase de integração. “Gostaria de ter hospitais e escolas que fossem referências na questão do refúgio”. Como são minoria, muitos não chegam a perceber a gravidade de sua presença pelos serviços básicos da cidade. Como usar o Poupa Tempo? Como empregar alguém sem diploma? Ou que está fugindo de outro país? Como alugar um imóvel para alguém que não pode comprovar renda ou com documentos ainda em fase de legalização? Mas eles não podem esperar, vivem em albergues provisórios, e precisam recomeçar a vida, logo. São questões que ele pretende sanar com conhecimento, o conhecimento sobre a causa. Além disso, o padre Marcelo, Maria Cristina e as assistentes sociais compartilham o desejo de ampliar o número de vagas nos albergues. É onde tudo começa, ou recomeça.


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III. Rota de fuga


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a noite que a coisa complica. Fechar os olhos é um exercício exaustivo para quem está fugindo, dormir torna-se um martírio. Você nunca sabe se vai sonhar ou lembrar... sonhar com a nova vida ou lembrar - com requintes de detalhes - tudo o que passou até chegar em solo brasileiro. A memória se apega aos acontecimentos recentes, falas são repetidas e sensações revisadas até se confundir realidade com lembranças. Esse é um processo pós-traumático comum entre aqueles que passam por situações de abuso físico ou mental. Ele tem um súbito momento de coragem, fecha os olhos e entrega à sorte os próximos minutos da madrugada. Saudade é uma palavra desconhecida para as pessoas de língua castelhana, mas o misto de melancolia e nostalgia será presente durante todo o tempo, sem escapatória, mesmo depois de se restabelecer e começar a esquecer o sufoco da fuga. A tristeza também não some, mas aos poucos, se abranda. Esses são sentimentos imediatos, que são domados com a lida diária e testados no silêncio pesado de algumas noites insones. Tais sensações passam corroídas pelo tempo, ou será que não passam nunca? Rememorar 43 anos depois é um tempo bastante considerável para uma pessoa dizer com categoria, se a passagem dos anos realmente ameniza as lembranças ruins, se as apaga completamente, ou se as mantém vivas, como se fossem antídoto para o esquecimento. Quase meio século depois de ter que deixar o país


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em busca de proteção e liberdade, o jornalista Paulo Cannabrava Filho ainda hesita para resgatar da mente, suas memórias do exílio. “O senhor lembra como era atravessar fronteiras com a sua família? Como era sair acossado de um país, em busca de outro que pudesse lhe dar refúgio?” A pausa na conversa não era um momento para relembrar os fatos e sim um artifício para despistar as inquietudes. “Ah... isso é coisa que a gente não fala...”, disse. As memórias pessoais são preenchidas com uma avalanche de informações sobre o contexto político dos anos de 1960 e 70, é um assunto familiar e já não incomoda tanto falar dele. O tempo não apaga, nem ameniza, apenas transforma a percepção daquilo que aconteceu de maneira tão dramática, tão sofrida. Paulo Cannabrava, 75 anos, cabelos brancos esvoaçantes, sorriso largo e olhos críticos é a figura de alguém que foi vítima de várias ditaduras militares na América Latina. Os olhos não escondem as preocupações que o sorriso não revela, mas a falta de conhecimento e de memória das pessoas sobre o conturbado e autoritário contexto político da América Latina leva esse senhor a continuar sua batalha tão solitária como a de um Quixote, uma luta sem trégua contra o esquecimento e o desconhecimento da história trágica dos países ibero-americanos, que já dura mais de meio século. “Por muitos anos eles alteraram a consciência da população alienando essas pessoas com um ideal político fraco e dependente do capitalismo”. Em 1968, aos 32 anos de idade, o jovem jornalista fez o caminho inverso dos refugiados latinos de São Paulo e saiu do Brasil para morar no Peru, Bolívia, Cuba e Panamá. Vivenciou durante 12 anos os golpes militares que varreram o continente latino-americano, e a cada derrubada golpista de governos democráticos, em países que havia escolhido para se refugiar, ele era obrigado a se deslocar clandestinamente, com a esposa e os filhos, até encontrar outro lugar seguro. Até hoje, são lembranças que ele não gosta de comentar. No final da década de 1960, a América Latina tornou-se uma rota de fuga para Paulo Cannabrava e sua família, e para tantos outros militantes e protagonistas anônimos, que lutavam contra a escalada ditatorial no subcontinente.


Como repórter, tenho que recuar ao passado em busca do contexto, do motivo de tal epopéia. Na história, nada acontece por acaso, mesmo quando querem nos fazer acreditar que um fato é esporádico e casual. Mas não há nada de esporádico na história de quase quatro milhões de refugiados, e nem casuais formam os motivos para seus deslocamentos dramáticos, sempre em busca de amparo. As Farcs, o Sendero Luminoso, algumas guerrilhas, outras tantas milícias paramilitares e governos autoritários... são estes alguns dos motivos apresentados à Polícia Federal pelos desafortunados latinos, que vem pedir refúgio no país. Logo alguém desavisado ou conservador fanático infere que o mal do refúgio é culpa de um bando de terroristas desocupados, que perseguem, seqüestram ou matam pessoas para aporrinhar os pobres governos de países quase pacíficos... Esse é o perigo oferecido pela falta de informações sobre a história político-social em nosso continente. Há mais de 50 anos, Paulo Cannabrava vivenciou o início do ciclo ditatorial, o estopim da reação em cadeia que foi o militarismo na América Latina. “Naquela época, vivíamos aqui uma efervescência cultural e política... até que tudo foi interrompido”, lembra-se. Foi aí que essa história começou. O golpe militar no Brasil serviu de exemplo para elites autoritárias no resto do Continente. Foi seguido por setores dominantes autoritários e anti-comunistas e combatido por grupos democráticos e por várias correntes de esquerda, que surgiram por toda a América Latina, para tentar frear as ideologias da extrema direita. É um passado revisitado em filmes e livros, mas que a maioria da população custa a conectá-lo com os martírios dos movimentos de guerrilha, desvirtuados ou não, que hoje são apontados como os principais responsáveis pelos conflitos atuais. A metade do século passado era uma época de efervescência cultural. Os barzinhos no bairro de Santa Cecília respiravam revoluções e exalavam os pensamentos intelectuais dos paulistanos. Época pós-moderna, do teatro de Arena, festivais de música... a aparente tranquilidade do cotidiano da cidade, já grande e cosmopolita escondia a conspiração de uma elite conservadora e anti-popular e de segmentos militares que haviam se alinhado as doutrinas dos EUA, que deram origem à “Guerra Fria”. Logo, aquilo

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tudo estava para ser calado, os cabeças “pensantes” do país foram perseguidos, um tanto foram mortos ou presos e outros tiveram que buscar refúgio fora. Não era apenas ame ou deixe-o, era deixe-o ou terás conseqüências severas. Paulo Cannabrava precisou de ajuda e “solidariedade” de muita gente dos países por onde passou. Precisou também de abrigo de documentos, de ferramentas para ajudar na sua reintegração social. “Quando eu estava no Peru, fui atendido como um refugiado, todo mundo me recebeu muito bem, até consegui trabalho em um jornal que era de propriedade da cooperativa dos trabalhadores. Mas quando o governo virou, fui expulso do país”, relata. Ele relembra a preocupação das pessoas com a saúde dos refugiados. “Foi num momento de muita humanidade na América Latina”. Enquanto Dom Evaristo recebia latinos fugidos dos ditadores por aqui, Paulo era recebido com o mesmo zelo, em vários países. Lá, ele testemunhou a mobilização do povo peruano para receber muita gente que escapou do massacre no Chile, promovido por Augusto Pinochet. Essas ditaduras deixaram conseqüências, mesmo após a “abertura política” na década de 1980. É a América Latina segue ainda no “olho do furação”. O aparente momento de bonança, da paz restabelecida com a queda dos grandes ditadores, esconde batalhas intermináveis, como a ressurgimento do Sendero Luminoso e do enfraquecimento ideológico das guerrilhas de esquerda, do provável envolvimento das Farcs com o narcotráfico na Colômbia, que oferece pretexto para que o paramilitarismo faça mais vítimas naquele lugar. Já em Cuba, os jovens seduzidos pelo apelo internacional do consumo, assediados pelas doutrinas hedonistas e individualistas, são recrutados pela guerra ideológica, no único país que conseguiu fugir das ditaduras de direita, e que hoje é rotulado como um lugar aprisionado no tempo idealizado por intelectuais de esquerda. A Guerra Fria continua por aqui dividindo as pessoas em “contra” e “a favor”, e vitimando as pessoas que não podem escapar dos conflitos. Peru, Colômbia e Cuba, terra de Carlos, de Jesus e de Lisliet, são os países da América Latina que mais enviam refugiados ao Brasil.


Paulo Cannabrava Filho. Um jornalista à serviço da América Latina


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Peru, 1991 Fugir era o único jeito de continuar vivo! Carlos Ernesto Durand Llanos teve que deixar para trás o trabalho e a casa confortável, onde vivia com a esposa e as quatro filhas pequenas. Ele pensou desesperado em salvar a própria vida. Não teve tempo e tampouco alguma condição subjetiva para pensar como seria viver sem o conforto de seu lar, sem o convívio de suas “meninas”. Mesmo que tivesse imaginado naqueles instantes dramáticos, como seria sua vida no exílio, a realidade posterior se mostraria muito mais dura que a sua capacidade de antecipar o sofrimento causado por tantas perdas brutais. A decisão de deixar o Peru foi tão repentina quanto à chegada do “paro armado” do grupo Sendero Luminoso na região montanhosa de Junin. A ação aconteceu antes das ofensivas do ex-presidente Alberto Fujimori, que acabou por aniquilar grande parte da guerrilha no início dos anos de 1990. O “paro” é uma tática de guerrilha na qual a cidade é parada - literalmente - por ações organizadas com o objetivo de aterrorizar os moradores e cometer saques. Eles impediam a saída e a entrada de pessoas, isolavam a população em um clima de terror. O único jeito era fazer o que eles pretendiam ou fugir. Foram três dias de “paro armado” em uma cidade do município de Satipo, tempo o bastante para tirar de Carlos tudo o que ele havia conquistado na vida. Era uma noite tranquila no vilarejo de Union Capiri. A beleza do céu despertou a atenção do peruano, uma beleza só vista por causa da moldura translúcida do crepúsculo andino. As estrelas despontavam, uma por uma, anunciando a lua cheia que estava por aparecer. “Naquela noite eu fiquei observando o céu, e tive tranquilidade. Dormi muito bem”, conta Carlos. No entanto, a beleza daquela noite ocultava a chegada do Sendero... Embevecido, Carlos não conseguiu prenunciar a reviravolta que estaria para acontecer com sua vida. Afinal, o grupo armado sempre estivera presente naquela região peruana. Por ser um local de produção de Tabaco, o município de Satipo era bom lugar para negociar. Por muito tempo, Carlos


negociou diplomaticamente o seu destino, conseguiu visibilidade e respeito com a parte da guerrilha, que se aproximou do narcotráfico. Ele não negociava mercadorias, mas sabia oferecer o seu silêncio em troca de paz. Carlos vendia querosene, combustível precioso na região, mas se recusava em comercializá-lo com os “traficantes”, pois dizia prezar por sua liberdade de escolha. O acordo anterior era silencioso; Carlos não atrapalhava o grupo, e o grupo não atrapalhava Carlos. Foi durante aquele “paro armado” que eles demonstraram que não estavam mais interessados em negociar. A gritaria dos invasores soou no meio da noite como uma trombeta, surpreendendo e fazendo estremecer as pessoas recolhidas em suas casas. A guerrilha entrou na cidade gritando, empunhando armamento pesado e entoando palavras de ordem. Alguns gritavam em tom bem mais alto do que os outros, que apenas acompanhavam medrosos e apáticos. Eles anunciavam os planos revolucionários e ditavam as regras que iriam impor. Ao mesmo tempo, farejavam o medo de quem não estava na matilha. Sob a lua, que fez Carlos e a família dormirem inseguros, os “bandidos” festejavam a noite inteira a conquista sem resistência da cidade. No dia seguinte, a pequena Capiri acordou de ressaca e cansada demais para abrir os olhos e enfrentar os fatos com clareza: os moradores estavam reféns daquele grupo que um dia lutou pela liberdade política do Peru. Havia vários corpos pendurados em exposição pública, alguns em porteiras e outros pelas esquinas. A matança dos opositores servia como uma lição macabra: - expunha as vísceras dos que resistiram ou foram insolentes, para lembrar, aos demais, o destino de quem resistisse. Nem mesmo a polícia tinha coragem de revidar. “Sinto vergonha de não poder ter lutado para salvar a vida de colegas meus, mas tive medo”. Não há covardia quando uma pessoa não reage a uma ameaça, por temor de arriscar a vida de sua família. Mesmo assim, a consciência daqueles que sobrevivem a um contexto tão aterrorizante, segue acusando-os de covardia ou de imobilismo. Aquele dia fora carregado de incertezas sobre o que estava por vir. A noite seguinte já não seria mais tranquila e bela. O luar tão claro exporia os que desejam fugir no meio da madrugada. Na

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casa de Carlos, os funcionários dormiam na parte de cima, vigiando quem chegava por baixo. Quem ouviu o primeiro sinal da invasão dos guerrilheiros foi a esposa de Carlos. Martha acordou o marido:era madrugada e ele não conseguia diferenciar sonho de realidade. Seria aquilo um pesadelo? Não, pesadelo era o que ele havia tido poucos minutos antes da esposa chacoalhar seu corpo. A realidade era bem mais dura, tinham que guardar o que havia de mais precioso na casa. Os dois correram até os quartos das meninas. Pamela era a mais velha, tinha 12 anos na época. Carla e Mariella eram as filhas do meio, com 11 e 9 anos, a mais nova, Vanessa, era um bebê de apenas 2 anos de idade. “Elas estavam bem, eles não chegaram a entrar no quarto delas”, lembra. Mas só a possibilidade de lhes acontecer algo, fez de Carlos um homem passivo. O bando entrou na residência sem anunciar ou pedir licença. Um dos homem pegou um aparelho de som - para gravar mensagens e colocar nas rádios -, levou equipamentos eletrônicos e ameaçou Carlos Llanos; ou ele colaboraria mais, ou teriam que matá-lo. A decisão veio de alguém poderoso na hierarquia da guerrilha, porém o chefe do bando naquela noite resolveu não executá-la. “Eles querem matar você. Vou fingir que estou te batendo, vou te xingar, te deixar bem mal. Eles precisam pensar que eu estou maltratando você”, disse o guerrilheiro, que era um antigo conhecido seu. Carlos concordou com a “encenação”, apanhou, foi xingado, humilhado e perdeu a confiança na lei e em si mesmo. A guerrilha tinha finalmente quebrado o acordo de palavras não ditas, invadiu a propriedade do comerciante e prometeu acabar com sua vida. Martha e as quatro filhas foram levadas para a casa dos “avôs”. Carlos juntou o que pode, pegou o dinheiro que tinha disponível, e foi embora para não voltar. Seguiu de trem até a Bolívia, de Corumbá para Bauru, e de lá, foi de ônibus até a rodoviária Tietê, em São Paulo. No total, quase 7 dias de viagem e 7 noites mal dormidas. Ele seguiu o fluxo dos imigrantes que trabalhavam nas ferrovias ou que cruzavam as fronteiras para ser mão de obra em muitos lugares do Brasil. “Estava em um vagão e observei um grupo de jovens bebendo cachaça e reclamando da vida. Desejei ter o que eles tinham, se não fosse a vida deles, pelo menos a cachaça”, lembra-


se Carlos. Decisões como essa não são planejadas, aparecem como epifanías em momentos de total desespero. Não é uma escolha, é a reação desesperada de quem quer seguir vivendo.

Colômbia, 2007 Jesus segurou firme a faca, prestes a começar mais um dia de trabalho. O ritual quase cirúrgico foi iniciado de forma prazerosa, perturbado apenas pelas lembranças das constantes ameaças que estava sofrendo. Nos últimos meses, a rotina do chefe de cozinha estava sendo interrompida por várias chamadas, eram as “pessoas fora da lei” lhe pedindo dinheiro. A faca afiada e limpa não foi reconhecida como um presságio do que estava por vir. Aquele que sempre fora o instrumento preciso para o preparo diário dos alimentos de seu restaurante, mais tarde, seria a ferramenta de tortura daquele homem. Jesus A. V. M, tinha 42 anos, era dono do restaurante onde exercia a profissão, que escolhera quando mais jovem. Era chefe de cozinha há mais de duas décadas. Com aquele trabalho, levava uma vida de pequenos prazeres, podia praticar uma boa leitura, assistir um bom filme. Era um pequeno empresário de vida regrada, era pai, irmão e filho, antes de ter a vida interrompida pelos homens da guerrilha. Jesus não morreu, mas a vida que levava como um homem de classe média na Colômbia hoje faz parte de um passado, que dificilmente irá voltar. Em meados de dezembro, antes das festividades natalinas, Jesus foi levado pelas Farcs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) para um acampamento e ficou preso durante 45 dias. Nunca mais recuperou a saúde, o emprego e a família. Foi salvo por um súbito ato de piedade de um dos guerrilheiros que o deixou escapar. Antes de ir, Jesus ouviu um conselho e também uma ameaça: “corra sem olhar pra trás, se o pegarem te matam”. Então Jesus correu desesperado, não no sentido literal da palavra. Depois de mais de um mês nas mãos da guerrilha, ele havia sofrido uma luxação no tornozelo esquerdo, tivera traumas em três vértebras da

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coluna, o intestino fora deslocado por um pedaço de pau, que fora enfiado em seu ânus. Ele se arrastou como pode até a beira de uma estrada, onde foi resgatado. A história desse colombiano se mistura com muitas outras histórias trágicas, em um país com mais de meio século de conflitos entre guerrilha, militares e paramilitares. A Colômbia vive em estado de guerra civil desde a metade do século passado, os grupos paramilitares e o exército têm sido responsáveis por deslocar quase 3 milhões de pessoas na região. A situação colombiana extrapola pela fronteira da Venezuela, Equador, Peru e Brasil. Casos como o de Jesus não chegam a ganhar notoriedade nas páginas de jornal, pois são corriqueiros naquelas paragens. Ele foi apenas mais um infeliz, que não pode honrar seus compromissos financeiros com os homens que ele mesmo denomina como “foras da lei”. Antes de ser levado por membros da guerrilha recebera ameaças por telefone. Assim, extorquiram grande quantia de dinheiro, ao ponto que o chefe de cozinha teve que começar a vender seus utensílios e ficou prestes de perder seu ganha-pão. Cansado e desiludido, resolveu que não cederia mais à pressão feita pelos guerrilheiros, - e não ligaria mais para as ameaças. Ele iria denunciar aqueles homens, e esperar que a paz retornasse a sua vida. Antes de fazer a denúncia, as ameaças se tornaram mais próximas e sabendo que deixariam Jesus abalado, atacaram o que ele tinha de mais precioso. “Eles assaltaram e golpearam a minha mãe a minha irmã, quando as duas iam para uma aula. Deixaram a minha irmã surda do ouvido esquerdo e a minha mãe perdeu grande parte da mobilidade de um de seus braços”. Aí estava a receita da covardia, e que sempre dava certo. Jesus não teve outra escolha do que voltar a pagar as quantias exigidas, até acabar com todas as suas reservas. Não tinha mais nada a perder. Como retaliação pela falta de pagamento, os “foras da lei” entraram na casa de Jesus, e bateram nele e nas duas mulheres que o homem protegia. A denúncia chegou como todas as outras, mas o trabalho da polícia colombiana é limitado: - não há policiais para fazer a guarda de todos os cidadãos colombianos, que são ameaçados de morte. Não deveria ser assim, apenas é.


O próximo golpe foi o sequestro. Jesus perdeu sua vida colombiana em 2007, e em fevereiro de 2008 teve a oportunidade de retomá-la penosamente em outro lugar. Já não tinha mais profissão, não tinha mais saúde, nem poderia proteger e sustentar a mãe e a irmã debilitada. O consolava a perda já assimilada da ex-mulher e do filho, que seguiram a vida nos Estados Unidos. Deixava para trás as lembranças felizes e levava consigo apenas tristeza e muito dor.

Cuba, 2011 “Roubaram todo o nosso dinheiro”, lamentou secretamente. Lisliet e a família não conseguiram embarcar no dia prometido. O homem, do qual eles haviam comprado o passe para a nova vida no solo estadunidense, sumira sem deixar rastros. Lá se fora um ano de economia e o sonho de fugir do próprio país. A família Fernández não estava sendo ameaçada, não corria perigo de vida, muito menos precisava se esconder. Mas a fuga parecia ser iminente. Lisliet e Javier nasceram no auge do socialismo em seu país, quando Fidel tinha o apoio econômico da União Soviética e resistia bravamente ao fantasma de Fugêncio Batista, ao embargo econômico covarde dos Estados Unidos e aos tentáculos do capitalismo. O ícone barbudo da resistência latino-americana, fonte de inspiração para intelectuais do mundo inteiro, lutava como um Quixote enfurecido, contra inimigos mais poderosos e perigosos que os moinhos de vento do personagem de Cervantes. No início da década de 1990, a pequena Lisliet testemunhou a economia do seu país ruir como o muro da Berlim Oriental, para ainda não se recuperar duas décadas depois. O plano de fuga talvez tenha começado ali, ainda na juventude pueril de quem não entendia porque começaram a racionar a comida em sua casa e a serem mais restritos no controle de quem, ou o que, saía e entrava em Cuba. A decisão dos Estados Unidos de proibir o comércio de empresas internas e internacionais com o governo cubano tornou mais evidente a asfixia da economia de Cuba, e seguiu sendo sustentada por democratas e republicanos ao longo dos anos,

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mesmo que condenada por organismos humanitários mundiais e por vários países importantes. Nenhuma companhia americana pode comprar produtos que tenham procedência cubana, se você quer um cafezinho, por exemplo, tenha certeza de que o açúcar não veio do país de Fidel, ou você estará furando o tal embargo. Com a perda dos principais aliados do antigo bloco socialista, Fidel seguiu sozinho, defendendo-se dos bombardeios ideológicos contínuos dos americanos, e a população cubana seguia cada vez mais fragilizada. O cerco ao país era sentido pelo povo, de uma forma bem menos romântica: as privações de bens essenciais e o brutal racionamento de comida. A crise humanitária que se seguiu durante aquela década foi também a doutrina dos milhares de cubanos que cresceram nesse meio tempo. Lisliet, quando criança, sempre desejou poder viajar, conhecer as outras cidades do próprio país, visitar parentes distantes, queria ver além, mas havia uma barreira silenciosa que a impedia de seguir. Havia falta de dinheiro e a recomendação de não transitar entre as províncias cubanas porque era preciso racionar combustível. Não é que esteja proibido, veja bem, em Cuba não se proíbe viajar. No entanto, para quem ganha 25 dólares por mês, viagens ficam longe de ser a prioridade da vida. Para visitar algum país da América Latina, um trabalhador médio cubano teria que desembolsar o equivalente a 2 anos de salário. “Tudo é muito caro”, reclama. Lisliet começou a perceber a desigualdade social e econômica da Ilha em relação os estrangeiros, quando estava cursando a faculdade de enfermagem - uma boa faculdade no final das contas, já que a educação de Cuba tem uma qualidade que atrai pessoas do mundo inteiro. A formação dos seus jovens garante um país de intelectuais, um país autosuficiente em cérebros, é um investimento e não um gasto. Mas lá dentro as coisas não eram iguais. “Os estrangeiros tinham tudo melhor. Melhor comida, melhor dormitório. E nós ficávamos com o resto. Quando íamos reclamar, eles diziam que não tínhamos os mesmo direitos porque eles pagavam, e nós estudávamos de graça”. Os jovens cubanos não encaram a desigualdade com naturalidade, vivem uma época de questionamentos. “Porque não é igual para todo mundo?”.


O conflito de gerações em Cuba é a uma guerra silenciosa, e também, a mais perigosa para o regime. Era a guerra que Lisliet e o marido estavam lutando em segredo. Milhares de cubanos encaram as balsas e outras embarcações improvisadas para atravessar a porção estreita do Atlântico entre Cuba e o Continente, em busca de “uma vida melhor”, nos EUA. De vez em quando, alguns desses “balseiros” tornam-se estrelas de notícias descontextualizadas de jornais, aludindo a bravura dos que conseguem fugir ou apontando a traição dos que quiseram escapar. O êxodo é a pior arma contra o governo de Cuba, que perde gente formada a duras penas, para outros países capitalistas. Até setembro desse ano, o Acnur somava mais de 11 mil refugiados cubanos, sem contar aqueles que migram ilegalmente e não fazem parte das estatísticas. Desertores, que como Lisliet e Javier, planejaram cuidadosamente a fuga. “Queríamos ir para os Estados Unidos. Mas não deu certo. Então, falaram para a gente: vão para o Brasil ou fiquem por aqui”, e Lisliet completa “decidimos vir”. Eles queriam a liberdade que Cuba não podia lhes dar. Imigração econômica não é motivo para concessão refúgio de emigrantes na maior parte do mundo. No entanto para os cubanos, ainda persiste a lógica da “Guerra Fria”: os desertores são recebidos como refugiados por escaparem do “inferno comunista”. Pelo simples fato de você não poder se opor à ele ou escolher ser pobre em outro lugar. A pobreza comum em tantos outros países da América Latina tem em Cuba uma grande diferença: “lá, não se pode trabalhar e triunfar”. Mas em Cuba, você está livre para ser cubano. Curtir uma salsa no fim de tarde, ter a certeza de que não será analfabeto, e que terá um bom sistema de saúde, tem a liberdade de não ser privado das necessidades básicas de um ser humano. Você pode ser tão cubano quanto quiser. Ter orgulho de ter vencido a ditadura e de não ter se tornado mais uma ilha caribenha pronta para virar uma colônia novamente. Em Cuba tudo é permitido, menos carne e segredos. “Não se come carne aqui. Isso é exclusivo para os turistas e para pessoas enfermas”, diz Lisliet. Cuba é uma Ilha do tamanho de um pasto daqueles que o latifúndio permite por aqui no Brasil. Por isso,

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o boi e a vaca são quase tão sagrados quando as divindades indianas. A carne de boi é propriedade do governo, e matar um bicho desses para comer é um crime contra a ordem pública, a não ser que a vaca morra - coitada - por causas naturais... é normal ficar sabendo do triste destino de um bovino ou outro que pularam de um penhasco, acabando com a própria vida - e depois virando banquete. “É um absurdo o povo não ter acesso a esse tipo de coisa”. Durante os meses que seguiram os preparos para a viagem sem retorno, eles não confidenciaram a ninguém, nem para os pais, o que estavam planejando. O segredo de Lisliet e Javier Fernández era na verdade um plano que se fosse descoberto poderia mudar de significado e cair na categoria de conspiração. Ninguém podia saber que dentro de alguns meses, logo após a sua formatura na faculdade de enfermagem, ela e o marido iriam tentar a vida em outro lugar. “Você trabalha um mês inteiro para ganhar 15, 20 dólares. Não podemos comprar produtos de limpeza, produtos de higiene, coisas para cozinhar.”. O segredo de Lisliet era uma conspiração das brabas aos olhos do regime cubano, ela queria comprar. É um discurso totalmente incoerente para a Cuba dos cubanos. Eles querem comprar casas, carros, viajar - tudo o que queremos aqui, fora da Ilha. Em julho desse ano, a família Fernández estava pronta para partir. Sem se despedir de ninguém, eles seguiram como o combinado. Lisliet não iria retirar o diploma de enfermeira e eles iam fazer uma viagem de turismo para a África do Sul, só restava ter a saída autorizada pelo escritório de imigração. Em Cuba você não está proibido de viajar, mas precisa ter visto de saída, e nem todos conseguem esse visto. Perguntaram para ela o que ela fazia, era ainda estudante, e em poucos meses se formaria enfermeira. O diploma seria um bom vínculo para prendê-la em sua cidade. “Para onde você vai? Por quê?” As perguntas foram respondidas com firmeza, para não levantar nenhuma suspeita. “Mas vai sair pra quê?”, e Lisliet continuou o procedimento. “Ah, Cuba precisa de ventres, você não pode ir embora”. Mas a futura enfermeira insistiu na viagem e teve sua saída aceita. “Mas as suas filhas ficam. Elas não precisam ir”. Para ela, esse era apenas um modo de pertubá-


la psicologicamente. Meses depois, a autorização das crianças foi aprovada, e a família Fernández finalmente conseguiu a liberdade tão desejada. “Meu pai me disse que se ele pudesse falar com o Fidel, pediria para que me levassem de volta. Ele não entende, prefiro morrer em São Paulo”. Os olhos de Lisliet se enchem de nostalgia por um momento, mas logo ela se recupera: o passado fica na ilha. Refugiados na América Latina? Mas não há guerras por aqui. São imigrantes? Vindos do Peru? Cuba? Colômbia? Esclarecer é um verbo bastante simbólico. Se a nuvem do desconhecimento não pairasse pelo Brasil, a recepção dessas pessoas poderia ser bem melhor. Suas histórias podem ser entendidas. Quando chegam ao Brasil, os refugiados latinos levam bastante tempo para amenizar suas lembranças. Depois de relatá-las na delegacia, confirmá-las na Cáritas, é no momento da integração, que eles precisam revivê-las várias e várias vezes para aqueles que ainda acreditam na paz inventada do nosso subcontinente.

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IV - Os primeiros passos firmes


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s linhas de trem que cortam o asfalto da ruas da Mooca em São Paulo são lembranças concretas de uma época remota e bastante movimentada. Não servem para nada agora, mas no final do século XIX era nessa região que as locomotivas embarcavam e desembarcavam milhares de pessoas, imigrantes em sua maioria. Vinham de todas as partes do Brasil e do mundo, para povoar e construir boa parte da cidade. E também, para fazer parte do gene do paulistano. O vai e vem de máquinas trouxe a necessidade de um lugar para recolher os passageiros em trânsito que precisavam descansar antes da próxima partida. Em 1887, o ilustríssimo Conde do Parnaíba inaugurou a Hospedaria dos Imigrantes em São Paulo. O ex-presidente da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, enquanto expandia seus negócios do café, observava com preocupação as consequências de toda aquela movimentação. Além de cansados, os transeuntes geralmente chegavam doentes, muitas vezes moribundos e apáticos demais para continuar a jornada. A hospedaria transformou-se no lugar onde se podia dormir, alimentar-se e receber cuidados médicos. 91 anos após a sua fundação, o local fechou as portas. Deu lugar ao Memorial que guarda as lembranças do auge da imigração na capital paulista. Uma vez no ano, descendentes e amantes da boa culinária reúnem-se na rua Visconde do Parnaíba para provar quitutes ao som dos ritmos de vários países. Mas é na rua transversal


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chamada Almeida Lima, em uma parte da antiga Hospedaria, que a tradição do local continua. Lá, funciona o Arsenal da Esperança, um lugar que continua a abrigar pessoas com as mesmas necessidades daquelas que cruzavam o bairro no início do século passado. O Arsenal nasceu na Itália, terra de muitos dos imigrantes paulistanos, na cidade de Turim, pelos braços de Ernesto Olivero e sua esposa. Nasceu apenas na ideia de um dia poder colocar em prática o sonho comum dos jovens da década de 60. Em 1963, surgiu o Sermig (Serviço de Missionários Jovens) que buscava acabar com a fome, promover ações contra injustiça social e alcançar a paz. É uma Fraternidade de jovens, casais, famílias, monges e freiras. Em 1983, Ernesto consegue um espaço para solidificar seu projeto, um espaço simbólico, no cantinho do Arsenal Militar de Turim, que logo transformou-se no Arsenal da Paz. É lá, no antigo depósito de armas, que os jovens do Sermig recebem até hoje milhares de imigrantes e pessoas que perderam as bases edificadas de suas vidas... são alcoólatras, viciados, e até criminosos em recuperação. Aqui no Brasil, o Arsenal existe desde 1996. Naquela ruela, cortada por linhas de ferro e galpões antigos, tão expressiva e simbólica, passam centenas de desabrigados todos os dia. “Temos capacidade para 1200 homens”, conta Celeste Arruda, assistente social mais experiente da casa. O local impressiona não só pelos números mas também pela beleza. O prédio foi tombado por causa da sua relevância histórica e arquitetônica. Os passos largos e floridos intercalam-se entre os gigantescos galpões que servem de depósito para coisas e para gente, “alguns tem capacidade para 500 leitos”. A senhora simpática passeia pelas instalações da nova hospedaria com o conhecimento de uma guia - sempre bem informada -, ela aponta as possibilidades dentro do Arsenal e chama a atenção para as regras do lugar. O horário de permanência é do fim da tarde ao início da manhã, das 16h até às 7h, “para evitar que os usuários fiquem acomodados”. A vaga é fixa, mediante de aprovação, e chega a faltar leitos no inverno - quando a procura aumenta. Alguns até perguntam quanto tempo eles podem ficar na hospedaria - diferente dos albergues, o local não impõe


esse limite-, e fica no bom senso do hóspede estipular o tempo de uma situação que deveria ser provisória. Quem não tem rumo ou atividades durante o dia, pode ficar na hospedaria e usufruir dos cursos profissionalizantes na área de reciclagem, construção civil (em parceria com o Senai), alfabetização, e gastronomia - a padaria produz pãezinhos em ritmo industrial, abastece a casa e perfuma o bairro todas as manhãs. Celeste aponta para uma latinha de refrigente no chão de um dos galpões, não se faz de rogada, abaixa-se e apanha o objeto. “Começamos com reciclagem de latinha, agora reciclamos de tudo”. Um dos funcionários que assiste a cena dá “bom dia” para a senhora, que responde ao aceno e releva com orgulho: ele é um ex-acolhido e agora é um funcionário da casa. Esse é o prazer secreto de Celeste, sempre que toca no assunto o sorriso infla em seu rosto. Ela fala com vaidade sobre os hóspedes que chegam no local totalmente desestruturados e conseguem se reerguer após passar um tempo na instituição. A filosofia do Arsenal da Esperança é reintegrar os seus hospedes na sociedade. “Muitos deles voltam para ajudar depois”, contenta-se. Os alojamentos abrigam vários beliches, são espaçosos, arejados e extremamente organizados, ao menos até o início da noite. O serviço de limpeza e manutenção é feito por terceiros, mas os “hóspedes” podem se alistar para trabalhar voluntariamente durante as horas que estão disponíveis. Cada cama, com seu lençol branco e cobertor quente, é arrumada e preparada para receber novos moradores todos os dias. Pela manhã, tudo começa novamente. Os moradores de rua ou passantes sem teto que se abrigam no Arsenal precisam estar atentos às regras. As luzes são apagadas às 22h, não se pode transitar no pátio durante a madrugada, têm que tomar banho antes de ir dormir... eles têm crachás, número de chaves, armários... “Não se pode entrar no Arsenal sem ter documentos, e é preciso passar por uma entrevista antes”, e só depois o andante poderá ter acesso ao seu leito.” A gente procura saber o porquê de ele ter vindo aqui... se tem família, se não tem... o que ele busca aqui”. Celeste conta que antigamente a casa recebia

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muitos imigrantes, mas que hoje o cenário já começa a mudar. O número de paulistanos frequentando o Arsenal é visivelmente grande. É nesse contexto que uma parceria com a Cáritas ajuda a hospedar refugiados no Arsenal da Esperança. São 25 leitos destinados para homens solicitantes de refúgio que precisam de um local para dormir. O italiano Simone Bernardi, missionário da Fraternidade da Esperança e Coordenador do Arsenal, fala em tom baixo e com palavras cantadas. O homem de estatura mediana, corpo franzino e olhos reluzentes, sustenta a missão de administrar as finanças da nova hospedaria, e toca também os projetos sociais da organização. A parceria com a Cáritas é apenas administrativa, Simone reconhece que a imensidão do Arsenal engole as peculiaridades do refúgio. O papel da hospedaria é o abrigo. Apesar de moradores de rua e refugiados padecerem quase sempre das mesmas necessidades assistenciais, não é possível tratá-los da mesma maneira. São barreiras culturais, linguísticas e o medo que os diferem dos demais. Mas, como são uma minoria, não conseguem nem atingir o número inteiro nas porcentagens, eles são tratados como os demais desabrigados. Homens jovens sem família, que chegam na cidade e solicitam refúgio, entram no perfil dos prováveis moradores do Arsenal da Esperança. “A nossa casa acolhe pessoas em situação de rua ou não, às vezes, recebemos refugiados... haitianos, africanos...”, informa. Quando as assistentes sociais da Cáritas precisam de leitos, a hospedaria é uma das opções. Elas encaminham, já com documentação e parecer da entrevista, para o Arsenal. Celeste, a assistente social da hospedaria, recebe os pedidos e providencia um lugar para ele ficar. “Aqui só entra com um documento de identificação, é a regra”, mas Celeste sabe que nem todos os refugiados têm documentos e por isso, a parceria com a Cáritas dribla essa impossibilidade. “Não é o lugar ideal para eles, são situações diferentes.” A fase da Acolhida é quando os refugiados começam a dar os primeiros passos sozinhos. Não são obrigados a viverem em albergues e casas de acolhida, de vez em quando dão a sorte de terem amigos, conhecidos, residindo na cidade. Alguns juntam-se


com companheiros e dividem algum espaço nas redondezas da Sé. Mas se algo sai errado, a insegurança toma conta, aleija quem ainda não está de pé. “Passei um tempo lá no Arsenal e foi algo horroroso”, lembra Jesus, o colombiano. Com a saúde ainda bastante debilitada e as lembranças dos abusos sofridos durante seu sequestro, ele estranhou a multidão dentro daquele espaço tão grande, apenas condizente com as dimensões paulistanas. Tantas histórias tristes, como a sua, não o fizeram enxergar as semelhanças, pelo contrário, acentuaram ainda mais as diferenças. “Eu não conseguia dormir, quando chegava de manhã cedo, tinha que levantar e ficar na rua”, a reclamação poderia também ser de qualquer outro hóspede da casa, naquele momento, Jesus, ex-chefe de cozinha e empresário de Bogotá tornou-se um sem teto na maior cidade da América Latina. “Só mais alguns minutos?”, ele suplicava, mas regras são regras. A madrugada é cortada pelo apito do trem que está de passagem, lembrando a todos que o dia logo virá. Às 6:30 o alarme soa em toda a hospedaria. O que mais incomodava o colombiano não eram as regras desaconchegantes e necessárias, mas sim, a falta delas. “As pessoas não tinha muita noção de higiene, e te roubam as poucas coisas que você possuía”, lembra. A limpeza compensa o desleixo com os modos pois nem sempre se cumpre a etiqueta quando a socialização não é importante. Jesus lembra das noites de inverno com um tênue asco em sua voz. “Muitos estavam doentes por causa do frio, tossindo, quando você dorme com 500 outras pessoas não é só uma tosse que você ouve, são 50 ou mais”, conta. Havia quem espirrasse e limpasse o muco expelido nas paredes e lençóis. Apesar das memórias desconfortáveis, o homem reconhece que os vários beliches e travesseiros que eram entregues para ele todas as noites na hospedaria eram melhores do que “nada”, e aceitou a situação de bom grado. Afinal, o Arsenal é uma possibilidade dentro das possibilidades. Quando Carlos Llanos chegou aqui, vindo do Peru, ele não fazia ideia de onde poderia passar a noite. Saiu da rodoviária Tietê e foi se abrigar embaixo de um papelão, na região central da cidade. Para viver na Cracolândia não precisava de documentos, e como ele não

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era nem solicitante de refúgio, vivia onde dava, como outros tantos. Depois de um tempo, aprendeu a reconhecer os perigos da rua. Sabia exatamente onde poderia dormir, onde daria para guardar seus pertences com segurança. Durante a noite, o medo e a saudade o levavam de volta para o Peru. Agarrava-se na carta da esposa, que lhe jurava amor eterno e um reencontro próximo. Carta que ele mostra com alegria. No final, deu tudo certo. Durante um ano inteiro Carlos morou nas ruas de São Paulo, em tempos de sorte e com algum dinheiro, ele pagava um quarto numa pensão, e sonhava com o dia que iria ter de volta o convívio com suas “meninas” e um lugar para tocar a sua vida. O peruano é carismático, conversa demais e está sempre otimista, características que o fizeram um bom vendedor. Ainda na rua, sem o apoio da Cáritas, ele conseguiu driblar as dificuldades de quem vive no abandono. De 1991 até 92, ele carregou esse fardo sozinho, até a chegada da mulher. Passaram a dormir, os dois, embaixo de cobertas que também serviam de esconderijo. Martha não veio para São Paulo em busca de riqueza, veio atrás do amor e da possibilidade de viver em segurança com o marido. “Meus sogros nos deram um pouco de dinheiro e ficaram com as nossas filhas”. Veio viver no centro da maior cidade do Brasil, cheia de perigos que trancam a população em suas grades de proteção. Ninguém com pouca coragem transita na região da Sé após as lojas fecharem e os turnos se encerrarem. Sem se importar, Carlos lamenta. “Não há lugar mais bonito do que o centro dessa cidade”. O casal de peruanos passou a vender artesanato na rua. Fizeram das vias errantes de São Paulo sua morada e escritório. Conseguiam tocar a vida, como imigrantes ilegais, pensando em um dia trazer o resto da família para juntar-se a eles. “Sempre lamentava a falta das minhas filhas, e um dia, a minha mulher falou: arrumaremos um dinheiro e as traremos para cá”. Carlos reconhece que a proposta foi tentadora demais para ele negar. Apesar de lembrar dos tempos de desabrigado com uma nostalgia demasiada romântica, o pai de família esperou arrumar um emprego melhor e também um teto para abrigar as suas meninas. Carlos e Martha resgataram Pamela, Carla, Mariella e Vanessa apenas no final de 1992. O pai sabia que a rua não era um lugar para as filhas, e por isso resolveu esperar.


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Os Llanos do Peru nunca se hospedaram em albergues da prefeitura, levaram quase dois anos desde de sua chegada para começarem a refazer a sua história. Os tempos na rua poderiam ter feito eles desistirem de tudo, mas regressar ao país já não era mais uma opção. A fase da acolhida, quando acontece dessa maneira, desnorteia e é sofrida. “Mas estavamos juntos, e era isso que importava”, concluiu o pai. E a Cáritas recohece isso. Refúgio em família pode ser mais trabalhoso, mas o apoio do núcleo familiar ajuda na hora da integração com o local. Quando chegam famílias, A Casa do Migrante é o albergue mais procurado. Fica no Baixo Glicério, a algumas quadras da Catedral da Sé. Lugar de fácil acesso, recebe migrantes do estado, país e do mundo. Se Carlos e a família tivessem recebido ajuda logo que chegaram, talvez tivessem se abrigado nessa casa de acolhida. O local funciona nos fundos da Igreja de Nossa Senhora da Pazconstrução imponente cuja torre construída em tijolos vermelhos e planejada pelo arquiteto Pettini chama a atenção de quem está do outro lado do viaduto. Apesar da suntuosidade, não é nem de longe tão grande quanto o Arsenal da Esperança, mas é o que mais se aproxima do atendimento apropriado para essa população deslocada. Todos que estão ali são frutos do mesmo acaso, e os funcionários que os atendem recebem treinamento ao menos para entender o que são migrantes e porque eles precisam de ajuda. A Casa do Migrante faz parte do complexo religioso formado pelo Centro de Estudos Migratórios (Cem) e a Pastoral do Migrante, mantidos pela Missão Scalabriniana em São Paulo. Aí conseguimos entender porque o lema da missão é “eu era estrangeiro e vocês me acolheram” - retirado das descrições do apóstolo Mateus. Na cidadezinha de Placência na Itália, no final do século XIX, o beato Dom João Batista Scalabrini fundou uma congregação com a finalidade arrebanhar os imigrantes, oferecendo o conforto espiritual e moral que precisavam. Era uma época de profundas transformações no ciclo político-econômico-social na Europa, a época da expansão do capitalismo, e dos primeiros migrantes que buscavam escapar da pobreza e do desemprego. Muitos foram recebidos pela Estátua da Liberdade nos Estados


Unidos, alguns vieram ser lavradores nas fazendas de café do Brasil, e outros rumaram para terras longínquas para nunca mais voltar. Sem leis de migração que regularizassem a situações desses viajantes, era comum que enfrentassem dificuldades de adaptação, passassem por humilhações e exploração, e enfrentassem preconceitos. Foi só em 1967 que a os Scalabrinianos transformaram-se em uma missão religiosa, espalhada em 33 países e todos os continentes. Em São Paulo, eles são a Missão da Paz, responsáveis por “servir os migrantes”, entendo, integrando e acolhendo essa população. A parte do “entender” é coordenada pelo padre italiano Paolo Parise, diretor do Centro de Estudos Migratórios. O Centro é uma rede mundial, reúne artigos, teses e projetos feitos para entender os movimento migratórios. “Sabe, nem todos os moradores da Casa são refugiados”, explica em algum momento da conversa. Essa percepção é o diferencial da Casa do Migrante. O padre, migrante como aqueles que ele atende, recebeu em 2007 o título de cidadão paulistano por suas ações sociais na cidade de São Paulo, entre elas, a limpeza do lixo na represa Billings e a campanha de prevenção contra o uso de drogas por adolescentes na zona sul da cidade. É um padre preocupado. Era uma tarde chuvosa, como quase todas naquele inverno atípico de 2011. Contrariando os pais e o revertério climático, crianças pilotavam suas bicicletas e patinetes no pátio da igreja Nossa Senhora da Paz, no bairro do Glicério. As regras para o uso do local estão escritas em uma pequena placa que alivia os pequenos rebeldes e os absorvem da transgressão. Usem o pátio com seus filhos. Devia ser quase três da tarde, mas o sol fraco entre as nuvens atrapalhava a percepção do tempo. Logo, aquelas crianças iriam embora, e o bairro se tornaria perigoso demais para andar de bicicleta. A maioria das pessoas que mora no Glicério é migrante, é perceptível a olho nu e aos ouvidos mais treinados. O que difere a história desses moradores da recente trajetória de quem se abriga na Casa do Migrante é apenas a moradia. Os que estão do lado de fora, já conseguiram edificar suas raízes na cidade de solo caro. O sinal da escola - que funciona na Pastoral - toca, e é chegada a hora daquelas crianças irem para casa, das crianças da escola

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As grandes dimensões do Arsenal da Esperança. Ajojamento e refeitório


Lisliet e as Ăşnicas lembrancinhas trazidas de Cuba por suas duas filhas


A Casa de muitos migrantes, imigrantes e refugiados em S達o Paulo


Carla Aparecida da Silva Aguilar, gerente da CdM e os porteitos NoĂŠlio e Aleixo


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serem buscadas por seus responsáveis e dos acolhidos do Glicério retornarem para os albergues. 5 da tarde, às vezes menos, às vezes mais. A Casa do Migrante tem capacidade limitada, apenas 105 leitos, cinco berços e muitas pessoas na fila. Em outubro, a Casa tinha 116 pessoas, entre homens, mulheres e crianças de várias nacionalidades. “Aí a Cáritas liga para cá e perguntam se podem mandar mais um refugiado. Infelizmente, temos que falar não”, declara Carla Aparecida Silva Aguila, assistente social e gerente do lugar. Carla é do tipo mulher-forte. Sempre com uma aparência concentrada, ela não está ali para brincadeiras. Aliás, as brincadeiras ela guarda para os pequeninos que chegam com os pais. Com eles sim, ela abre um sorrisão. Mas na maioria das vezes, precisa manter o tom austero, para não se abalar com as suplicas sofridas de quem pede mais do que eles podem oferecer. Concentrar-se não é ser durona, são mil e uma decisões por dia, e às vezes isso cansa. “Se eu pudesse pedir algo para o poder público, pediria mais leitos”, e talvez assim não fosse tão difícil ter que dizer “não”. A Casa é mantida com os recursos da igreja e doações, não recebem repasses do governo ou da prefeitura da cidade. Todos os dias, os acolhidos tomam café-da-manhã e jantam, as mães podem pegar fraldas para seus filhos e os jovens e interessados tomam lições de português na biblioteca da moradia. São custos difíceis de se administrar. “Estamos sobrecarregados”, diz sem alterar o tom de voz, depois ela lança um olhar de cobrança - quisera eu poder fazer algo para ajudá-los. A princípio A Casa doMigrante recebia apenas deslocados brasileiros, vindos do norte ou do nordeste à procura de trabalho ou de familiares perdidos, mas nos últimos anos a situação mudou. Agora tem em sua maioria, cerca de 85%, pessoas de outros países, são paquistaneses, afegãos, peruanos, bolivianos, africanos - muitos africanos-, e recentemente muito haitianos, são poloneses, belgas, húngaros, chilenos, pessoas vindas do Equador, Kashmira, do Egito e por aí vai. “Nem todos são refugiados”, explica Paolo Parise. Carla e Paolo não param um só segundo. Cuidam pessoalmente de cada caso que chega na Missão. Paolo também passeia pela


creche da pastoral, enquanto Carla precisa se ausentar para fazer as compras no “atacadão”. Imagina a quantidade de coisas que eles precisam comprar para manter funcionando a pequena hospedaria. São mais de 100 refeições todas as noites, feitas e degustadas antes de uma breve oração. É no fim de tarde que o movimento retorna para o pátio da casa. A chuva cessa e para de molhar o jardim constantemente vigiado pelas janelas dos alojamentos. Padre Paolo sabe que está na hora de sair do Cem e seguir para o outro lado do prédio, corta caminho por passagens secretas e chega ao outro lado para ajudar a colega. “Há um caso difícil no momento, uma menina da Ilha de Páscoa, ela está muito abalada psicologicamente, estou acompanhando ela de perto”, e estava mesmo. Perdido e desorientada, a jovem tinha uma aparência apática, circulou o pátio algumas vezes até conseguir a atenção do padre. Em poucos dias na casa, ela já ensaiava algumas palavras em português e relaxava ao menos o bastante para sorrir. “Posso te mostrar a minha casa na internet? Eu coloco o endereço aqui e olha! A minha casa, a minha rua... ah, que saudade”, o padre e a jovem fugitiva se conectam pela única similaridade, os dois vieram do estrangeiro, são frutos dos movimentos migratórios, cada um com seu motivo. O padre morava em uma região bonita do norte da Itália, deixou para trás suas raízes e sua família, para viver entre migrantes do mundo inteiro. “Posso ficar aqui?”, a menina aponta para o computador e com o consentimento do padre, algumas palavras são jogadas no site de busca. Lá estavam as fotos do seu país de origem. O padre estava tentado fazer com que ela se lembrasse de algo sobre a sua misteriosa origem. A jovem de aparência saudável estava tão traumatizada que uma semana depois de sua chegada na Casa, ninguém ainda sabia de fato o que tinha acontecido naquela Ilha do pacífico e como ela tinha chegado na cidade. Não é trabalho da Casa do Migrante investigar a vida de seus acolhidos, mas é bom saber, para depois poder ajudar. A menina já estava fazendo acompanhamento com psicólogos, mas era com o padre italiano que ela se sentia mais a vontade. “Se eu tivesse uma filha, seria como

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ela”, ele brinca. “Ah, eu não quero um pai como você”, ela responde entre risos tímidos. A cúmplicidade com os hospedes fez Carla lembrar do colombiano Jesus e sua história triste. Ela o cita como exemplo de uma situação que jamais irá esquecer, uma das histórias mais cruéis que ela ouviu, e um dos casos que mereceram sua total atenção. Jesus morou na Casa do Migrante por oito meses, e foi lá que o colombiano aprendeu a se virar sozinho. Recebeu o apoio da assistente social quando conquistou sua independência, e alugou um apartamento a algumas ruas de distância dali, no bairro do Glicério. “Sou muito grato à ela”, diz o colombiano. E percebe-se que a estima é mútua. As relações na Casa são melhores que no Arsenal, ao menos para os solicitantes de refúgio, onde confiança é um elemento primordial para quem está chegando. As pessoas se conhecem, sabem uns dos outros, conversam na sala de vídeo, na biblioteca, nos banquinhos, nos corredores, na hora das refeições. As aulas de idiomas - português e inglês - dadas por voluntários são uma ótima oportunidade de aprender histórias dos outros. Sales Conceição de Melo Nogueira é o professor do dia. O jovem missionário, 26 anos, formado em Ciências sociais pela Universidade de Rondônia, veio do norte para saber como era ser um migrante e como era ser um Scalabriniano. Sales sabe que ajudar só não basta, e por isso as suas aulas de português são tão importante. Ele cumprimenta uma africana e pergunta se ela vai para a classe. A aula vai começar. A africana é solicitante de refúgio, acomodada com o missionário e desconfiada com o resto do mundo, a jovem confirma a presença e faz confidências para o recente amigo. Parece que ela encontrou o amor dentro da Casa, e estava sendo correspondida. Se existisse algo como solidariedade multidisciplinar, essa seria uma boa definição para a aula de Sales. O assunto do dia era artigo, mas o objeto de estudo eram países e nacionalidades. “Ela vem da Colômbia”, ele pede para que todos repitam, e faz ênfase no “da”, o artigo antes de Colômbia é “a”. Lição aprendida e a origem da mulher loira sentada no canto também. Ela estava pouco a vontade, havia chegado há pouco tempo, pediu refúgio no Brasil e não falava com


quase ninguém, a não ser o jovem Sales. Antes da aula, a mulher pediu para que ele a ensinasse a chegar até a Polícia Federal, mas o que ela queria mesmo era que ele a levasse até o local. A sala estava repleta de gente, demorou um pouco para ficar cheia, mas quando a aula começou logo apareceram africanos, peruanos e dois homens que pareciam ser árabes, sorriam muito e não entendiam nada. As aulas de línguas e de informática são parte do programa da integração da Missão da Paz. Bem parecido com as parcerias feitas pela Cáritas e que dão ao refugiado ferramentas para que eles possam caminhar sozinhos em algum futuro próximo. Na Missão, essa integração está diluída nos valores dos missionários. As atividades servem também para desopilar um pouco, pois é como dizem por aí “cabeça vazia é oficina para o diabo”, e ninguém quer ver o “tinhoso” andando por ali. A Casa já está aberta. O porteiro pernambucano Noélio Pires da Silva já está de prontidão para receber, identificar, verificar os pacotes e dar as chaves às dezenas de migrantes que esperam pela hora de entrar. São 5 da tarde, e eles já podem juntar-se as exceções (mulheres com crianças e doentes), que podem permanecer no albergue. Noélio não reclama do volume de trabalho, do entra e sai de pessoas, nem dos bêbados que insistem em entrar na casa, a sua única tristeza é quando alguém tenta burlar as regras. Ele e seu companheiro de cargo, o Seu Aleixo, formam uma bela dupla dinâmica no combate aos vícios dos transgressores. “Temos que ter jogo de cintura”, diz o pernambucano que já trabalha lá há mais de um ano. Aleixo ainda estava em seu primeiro mês, mas fez sinal com a cabeça concordando com a afirmação do colega. Já Salvador, o porteiro mais antigo, está no local há 11 anos, aprendeu várias línguas com seus clientes e conhece muito bem cada um deles. “Não vai para a aula de português?”, perguntou Salvador para um africano, que apenas apressou em dizer sim com um gesto de mãos. Aquele lá precisava realmente começar a falar a nossa língua. Salvador me lembrou Seu Francisco, porteiro da Cáritas. O mesmo biotipo, homem alto, negro e esguio, com os olhos de sabedor e sorriso de quem precisa manter as regras do local intactas. Um sorriso pequeno mas sincero. “Ah, às vezes perco a paciência, mas

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logo passa”, confessa. Noélio mora em São Paulo desde os 2 anos de idade. Veio para a capital pendurado com sua família em um típico pau-de-arara. Ainda pode ser chamado de “baiano” pelos paulistas, por carregar um leve sotaque nordestino e preservar as caracteriíticas físicas de seus pais. E Seu Aleixo, um senhor magro, branco e grisalho, completa o trio de porteiros que trabalhavam no turno mais conturbado do dia. É nesse horário que Lisliet chega com as suas filhas da creche depois de um longo dia de faxina. A aparência cansada da cubana engana quem acha que ela não teria energia para encarar a sua terceira jornada de trabalho. “Elas são tão cheias de energia”, a constatação é cheia de outros significados. A mãe e as duas filhas logo se preparam para entrar no refeitório onde a janta será servida. O sino toca avisando ao Glicério que já são seis horas da tarde, e Javier ainda não chegou, pois o turno dele vai até mais altas horas. Irá jantar depois. “Não vejo a hora de ter minha casinha. Um lugar só nosso, mas isso vem com o tempo”, medita a cubana. A família de cubanos mora lá desde julho e já faz planos para deixar o local. Apesar de ser uma Casa, não é a casa de ninguém. Javier dorme no alojamento dos homens, Lisliet divide o quarto com as duas filhas e uma pilha de brinquedos. Os números nas chaves e identificações na portaria viram nostalgia do começo de jornada.


V. SĂŁo Paulo, Tabatinguera e adjacĂŞncias


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e repente eles estavam em uma selva de pedra. E na selva, ou você se integra ou você será consumido até a morte. Se São Paulo fosse um campo de refugiados, com barraquinhas da Onu e ruas sem nome, chão de barro batido como os muitos que vemos pela televisão, não seria tão caótico e cheio de possíbilidades. São Paulo é uma selva, com perigos de selva, e com o solo de selva. Há de se aprender a domar as feras. “Você sabia que São Paulo não é uma cidade planejada? Cresceu como pode, sem controle”. A pergunta também era uma constatação do colombiano. O refúgio na cidade já o fez conhecer bem as limitações do lugar que o abriga. Há pouco espaço, muita gente. Ou muita gente, em espaços reduzidos. “O preço do metro quadrado aqui é um dos mais caros do mundo, mais caro do que Tóquio!” Jesus riu admirado com o aparente exagero, que na realidade, não é só força de expressão. De fato, São Paulo é uma cidade ‘cara’ e ocupa na América Latina, o primeiro lugar no ranking de carestia. Esse colombiano, economizou na metonímia ao comparar São Paulo com outras cidades ao redor do planeta. Citou arquitetos, dados e o senso comum. Espantava-se com o cotidiano do paulistano, que conhecia desde fevereiro de 2008. Trânsito caótico, poluição, desemprego... Mesmo imerso em um espaço que considera uma loucura, decidiu que São Paulo era o melhor lugar para recomeçar a vida. Bastava apenas se integrar com a selva de pedra.


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Escolheu o grande centro cosmopolita - a São Paulo dos folhetos – que ele também pensava que era menos quente que o Norte brasileiro. Quando chegou, deparou-se com o forte calor do verão paulista, inconveniência que até hoje ele não sabe como resolver. Um desterrado tem que assimilar o ambiente de seu refúgio... A integração é a última fase antes da liberdade. Quem chega na cidade em busca de refúgio almeja poder um dia ter a mesma independência de antes das coisas se complicarem. Os parâmetros são diversos, há pessoas que não tinham muito, e outras que tinham tudo. Apesar das diferenças, essa fase costuma ter caminhos semelhantes, com lugares e pessoas iguais. É o passo mais importante das cartilhas e manuais, é quando o refugiado começa a ser cidadão novamente. Assimilar o refúgio, é trabalhar com a autossuficiência dessas pessoas, e o emprego é o meio mais eficiente. Mas esse capítulo tem início ainda nas aulas de português, quando se aprende o vocabulário básico para se comunicar. São as palavrinhas mágicas de pré-escolares escritas em uma lousa. “Obrigado, por favor”, e por aí vai. E não pense que ser latino é vantagem quando é preciso estabelecer trocas de palavras, o “portunhol” é a maior fraude na integração dessa população no Brasil. Ninguém se entende direito, a aparente irmandade das línguas latinas vira pura enganação. Carlos Llanos e Jesus carregam o sotaque de suas pátrias, mas já misturam bem menos as palavras. Os 20 anos de São Paulo deram a Carlos a autonomia de construir até neologismos, Jesus ainda se esforça para não cometer deslizes. Entre os cubanos, as garotinhas são as mais desenvoltas, corrigem os pais toda hora mas são crianças, sabem como que é. Têm menos preocupações e mais tempo para aprender novas palavras. Enquanto se estabelece a comunicação, o refugiado precisa procurar trabalho. Os diplomas e qualificações ficam quase sempre para trás, esquecidos entre tantos outros objetos. Apenas 1% dos refugiados se declaram analfabetos, a maioria estudou até o nosso Ensino Médio e 10% deles têm diploma universitário. Eram operários, comerciantes, servidores e profissionais liberais.


Em São Paulo, a integração é responsabilidade da Cáritas e seus parceiros. Maria Cristina Morelli citou alguns só para começar. O sistema S é um forte aliado na qualificação. O Sesc dá cursos de português, promove eventos culturais e alimenta os refugiados e solicitantes de refúgio por um precinho camarada. O Senac e o Senai são parceiros daqueles que já tiveram a situação julgada pelo Conare, e dão cursos profissionalizantes para os refugiados. O centro universitário FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas) oferece formação superior. Desse jeito a formação está bem encaminhada. Com o português na ponta da língua e certificados embaixo do braço, a falta de emprego é o leão que devora. Não basta querer apenas, a desigualdade econômica e social no Brasil é uma fera difícil de ser domada. Bem menor do que uma década atrás, mas mesmo assim assusta e faz vítimas. E no refúgio então... a ignorância alimenta a besta do desemprego, a maioria dos “patrões” não sabe o que é um refugiado, o que é não ter carteira de trabalho com experiências anteriores ou até documentos para comprovarem o currículo. E por não saberem, não contratam. A super-liga de parceiro busca por soluções, enquanto isso, eles assimilam. Era fim de tarde, e a temperatura já estava perto dos 20 graus - para o alívio do colombiano - quando ele terminou de tomar um suco no refeitório do Sesc, na rua do Carmo, bem perto da Praça da Sé. Ele seguia sua rotina de visitas ao local onde ao menos duas vezes por dia, almoço e jantar, lhe servia com tanto agrado. As refeições são subsidiadas pela parceria com o Acnur, mas o som ambiente era de graça. “Uma refeição aqui custa em torno de 15 reais, pago 3...4..., o que é uma maravilha. Se não fosse desse jeito, eu não poderia nem me alimentar”, desabafa. O som calmo do saxofone entoava um jazz que atenuava a realidade caótica das ruas, agitadas pelo vai-e-vem das pessoas de lojas e repartições de serviços privados e públicos. Durante a refeição, Jesus ingeriu apenas um suco de maçã, daqueles em caixinha, para misturar à alguns dos 22 comprimidos que ainda precisa tomar todos os dias.

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“Está muito doce”, disse com o paladar de chefe-de-cozinha. Ofereci-lhe a minha água para que ele pudesse diluir o néctar açucarado. Ele me confidenciou um grande sorriso de quem compartilhava a habilidade da culinária. “Vou aceitar”, avisou. Misturou a fração certa dos líquidos, e terminou de degustá-lo. Esses sucos de caixinha não sabem agradar gostos mais refinados. Foi ali naquele mesmo restaurante na rua do Carmo, que eu o conheci em setembro. Na ocasião, ele era um dos convidados do Sesc para o projeto “Encontro dos Sabores”, um evento de integração cultural sobre culinária e política, que vai virar livro no ano que vem. “As receitas são preparadas pelos refugiados, no livro traremos o contexto histórico e político de cada país... para não ficar só nas receitas”, revelou Renato Pereira, assessor do Sesc-Carmo. Esse “encontro” promovido pelo Sesc levou Jesus a retomar a atividade que exerceu durante 22 anos de sua vida, e que foi interrompida com seu sequestro abrupto, pela guerrilha. Na Colômbia, o restaurante do qual era dono, era mais do que o ganha pão, era também a sua identidade. Apresentado ao público brasileiro, não se fez de rogado, explicou passo-a-passo como preparar um “Ajiaco”, sopa com mandioquinha, batatas, cenouras, ervilhas, frango desfiado, coentro – que recebe como toque final, alcaparras e creme de leite. Parar servir, um prato de arroz e fatias de abacate com sal - uma delícia. “Você gostou?”, ele mirou a minha expressão cuidadosamente. Seria um exagero discursar sobre como a alcaparra fazia diferença na finalização do prato. Então me contive com um simples e sincero “sim”. Naquele dia, o contato com Jesus fora rápido. Não lembro, ao fim do evento, de tê-lo visto sair. Lembro apenas do tom gentil de sua voz e do gosto “Arriaco”que fora prematuramente retirado da minha mesa e da minha pronúncia. Recordo também da bengala, na qual ele se apoiava. Jesus chegou ao restaurante escorando nela o peso de seu corpo e de suas lembranças. Logo reparei no suporte, que fora deixado de lado, na hora de sua apresentação. Depois, ela voltou para a sua mão direita, como se fosse prolongamento de seus membros. Fiquei imaginando como ele teria sido obrigado a utilizar o apoio, o que me foi revelado


terrivelmente pelas entrelinhas - e depois em uma confissão total-, naquela tarde quente de primavera um mês após o nosso primeiro encontro. Primeiro, ele disse que não poderia ficar muito tempo em pé ou sentado, pois sentia dores intensas. “Imagina como que é viver com dor o tempo todo?”. Imaginar a dor é tão subjetivo quanto adivinhar um sabor. Para mim, o suco de caixinha não seria tão doce e nem a dor tão intensa - percebida apenas entre um suspiro e outro. As pessoas que o torturaram deixaram fraturas permanentes em seu tornozelo e em três vértebras da coluna, tiraram-lhe a capacidade de trabalhar e de sonhar. Foi assim, que pude entender o significado daquele encontro de sabores e das lembranças apetitosas. Por conta das sequelas físicas, o colombiano está desempregado há 27 meses, sem dispor de nenhum benefício assistencial. Sem renda, não conseguiu pagar o aluguel da quitinete no Glicério. Agora vive em um abrigo da prefeitura, uma espécie de albergue coletivo para moradores de rua. Com muito esforço consegue pagar a taxa de 50 reais - a qual ele chama de simbólica-, para continuar morando por lá. Aluguel onera a vida em São Paulo e põe na rua quem não tem renda alguma. As pessoas já chegavam para jantar, quando resolvemos encerrar a nossa conversa no restaurante do Sesc. Jesus levantouse, e apoiado em sua bengala subiu a rampa e seguiu pela rua, até a ladeira da Tabatinguera - ao menos São Paulo fosse Brasília e pensasse em alguma acessibilidade... A íngreme Tabatinguera nasce no coração da cidade e liga o conglomerado judiciário da Praça João Mendes ao Glicério - o lugar de migrantes brasileiros e estrangeiros na região do bairro da Liberdade. O senso comum dirá que a ladeira conduz os pedestres para o lugar certo: o nome da rua em tupi significa “barro abandonado”. Os índios que transitaram por séculos naquele fim de ladeira, jamais imaginariam que um terreno tão inclinado seria ocupado por prédios residenciais, lojas de doce, mercearias, bancos, salão de beleza, e a igreja de Santa Luzia. Aquele caminho, em que o colombiano manco seguiu escorado em sua triste bengala, é o cenário de uma história recente, de uma São Paulo que conservou apenas os nomes do passado. Uma cidade que apagou

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suas origens e cresceu desmedidamente, desordenadamente, que se transformou na Paulicéia de Jesus, na capital cosmopolita de alguns refugiados e de outros tantos desamparados... Jesus descia a ladeira com passos cuidadosos, mas com a desenvoltura de quem conhecia bem cada buraco e obstáculo. Eu, não me sentia tão segura naquelas calçadas tão inclinadas e olhava com cautela, cada intempérie urbana. A rua estreita também abriga vagas para carros e motos, suas calçadas são disputadas por ambulantes, pedintes, passantes, moradores e clientes dos muitos estabelecimentos. Descer era o sentindo mais comum para todos, mas alguns corajosos vinham de contra-fluxo, ladeira acima, atrapalhando o curso natural da vida dos moradores da “aldeia abandonada” - já inflacionado pela especulação imobiliária. A dureza de caminhar pela Tabatinguera, me fez perceber o quanto as cidades brasileiras não se preocupam com as limitações físicas das pessoas, o quanto não há preocupação com a acessibilidade urbana. Conversei com Jesus sobre as muitas dificuldades de locomoção em ruas inclinadas, esburacadas, congestionadas, sobre o sistema de transporte público falho, ainda distante da necessidade e do respeito ao cidadão. Aquela cidade descomunal tem apenas 5 linhas de metrô. O cidadão saudável já padece muito naquelas vias loucas, nos ônibus cheios e insalubres, imagine então, quem tem limitações físicas... Um dia, o colombiano precisou renovar seu passe de metrô, é um cartão “Especial” para pessoas com deficiência, o que o economiza um bom trocado, já que a ida e a volta de uma passagem de metrô custa mais do que sua refeição no Sesc. Chegando na SpTrans, a novela estava prestes a começar. “O senhor não tem os documentos necessário”, disse a atendente. O resto foi um exercício de paciência. O homem precisou falar com todas as instâncias da empresa, até suas súplicas chegarem à chefia e mudarem as normas para a renovação do cartão. “Sempre lutei pelos meus direitos”, diz vitorioso. Jesus, como um refugiado paulistano, anônimo e pobre, já descobriu que não há atalhos para aliviar a vida dura da metrópole fincada no pátio dos jesuítas e dos bandeirantes. Escorado no


seu bastão, todos os dias ele desce e sobe aquela ladeira, como se cumprisse um suplício expiatório. Afinal, as coisas de que ele necessita estão no topo da ladeira e o seu prosaico abrigo está bem no final dela. Para um refugiado trôpego, já é quase impossível mudar um destino de tantas perdas.

Enfim, a aldeia dos migrantes

“Quero te mostrar onde vivo”. Onde vivo. Aquela sentença criou um duelo semântico na minha cabeça. Onde vivo... Não era “onde moro”. A escolha da palavra balançou meus pensamentos por algumas centenas de segundos, mas em São Paulo viver e morar tem significados bem distintos. Tinha certeza de que aquilo não tinha sido uma confusão linguística causada pelo pelo portunhol do colombiano. As sobrancelhas franzidas e a bengala firme em sua mão sublinharam o “vivo”. A maioria dos refugiados que chega em São Paulo acabam se instalando pelo Glicério. É um bairro de ótima localização, perto de tudo. Lá em baixo, as ruas são planas como as cidades do Oscar Niemayer, o único problema é quando chove e alaga tudo. Mas a soberania da arquitetura popular prevalece e as casas são construídas com barricadas - sem custo adicional. A cada metro avançado, uma observação. “Esses homens de aparência mais desconfiada estão fazendo coisas ilegais, se você prestar atenção, eles estão por aí”, disse em um tom de voz baixo, enquanto acenava em sinal de cortesia para alguém passando na rua. “Geralmente não mexem com você”, ameniza. O baixo Glicério não lembra em nada a uma aldeia abandonada. Tem prédios altos que cabem 1.500 pessoas - quase o número de pessoas em situação de refúgio em toda a cidade! Informação obtida do próprio morador-guia, que segue o caminho apontando as particularidades daquele povoado. No meio do caminho, ele encontra uma conhecida, franzina e calorenta. “Jeeeeesus. Ei.”

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“Hola. Você tá sumida...” “Ah, eu estava resolvendo aquele problema, sabe? Mas agora já resolvi”. “Você vai para a aula hoje? Falou com a professora?” “Ainda não...ainda não, mas vô. Num se preocupe”. “Tem que ir sim. Ela já terminou o primeiro livro”. “Eu vô”. “Então eu vejo você lá. Tchau” “Tchau, Jesus”. E seguimos em direção oposta. Depois da rápida conversa, fiquei sabendo que o bairro é cheio de pessoas vindas do nordeste, que chegam em São Paulo buscando uma vida melhor. “São os porteiros, empregadas, todos do Glicério. Alguns viram donos de imóveis, e alugam seus apartamentos para outros nordestinos”, observou intrigado um fato que já faz parte do inconsciente coletivo de todo brasileiro. São Paulo é terra de mineiros, gaúchos, turcos, japoneses, italianos. Pelo sotaque, a amiga da escola era nordestina, mais uma nas estatísticas. Não consegui captar o tom crítico naquelas informações, mas penso que se fosse para escolher, Jesus não deixaria sua casa para “viver” em outro lugar. Mas ele não julgou nada, pois cada um sabe do que está fugindo. De repente a calçada acabou. Um grupo de crianças andava de bicicleta na rua em frente ao colégio, enquanto outros verificavam a mercadoria na esquina. “Ah, esses meninos estragam a vizinhança”, apontou para o segundo grupo. Eles se escoravam em um muro abandonado na rua de nome emblemático, que não posso relevar para não ferir a lei e nem por em risco a proteção do refugiado colombiano. Ali, perto da escola que Jesus frequentava todas as noites o curso do supletivo - para um dia fazer vestibular em Letras no estado de Minas Gerais -, era onde ele vivia. Um conjunto de casas coloridas, cada uma com sua barricada, e seus moradores anônimos. Vivia, não morava. Não poderia morar, pois na casa com três cômodos vivem 14 pessoas com diferentes histórias e anseios. “A maioria é alcoólatra que vai morar na rua, são pessoas doentes e abandonadas. Meu companheiro de quarto era da marinha. Ele faz confusão das coisas, vive no passado. Alguma coisa aconteceu


com a cabeça dele, também é doente”, lamentou. O que torna Jesus diferente dessas e outras pessoas de São Paulo é que ele é refém de uma casualidade global. A brutalidade e imprecisão da fuga justifica cada momento de fraqueza onde os pensamentos cogitam possibilidades, mas essas possibilidades não chegam a tornassem realidades. Ao menos ele pudesse voltar como os milhões de “retornados” dos gráficos do Acnur. Mas ainda não pode, “não agora”. Sofá, móveis, eletrodomésticos. Apesar do coletivo ser mais uma agonia para o refugiado, com toda certeza aquelas pessoas viviam melhor que muita gente. Mas viviam, não moravam. O conforto do seu quarto quarto estava em duas coisas que julgava ser essencial: um ventilador e um aparelho de dvd. Para quem tem problemas com o calor e adora assistir filmes antigos, aquilo era uma dádiva e não um capricho. Se ao menos ele pudesse deitar na parte de baixo do beliche e descansar assistindo ao filme italiano Cinema Paradiso, mas era impossível, nem a doença nem as circunstâncias permitiam. “Um dia ainda vou ter a minha própria casa”, profetizou antes de pegar a bolsa com o material da escola e descer a escada que dava acesso à sua moradia. Desceu, e seguiu para mais um dia de aula.

São Paulo tem tempo e espaço próprio

A ansiedade do pouso não deve ter ajudado ao exercício silencioso de prever sem expectativas, a única motivação era passar pela imigração e: liberdade! Mas não se é livre em um lugar tão desigual. No país deles, não há esse tipo de coisa - ao menos não em grandes proporções. Mas perdoem São Paulo, é que a cidade tem números grandes, e com a desigualdade não seria diferente. Os cubanos estão no início da fase de integração, ainda são solicitantes que precisam aprender o português e escapar das tentações de um subemprego. Eles lembram do primeiro dia, quando desembarcaram perdidos na República. Pediram informação em espanhol e ouviram

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informações em português. Perderam quase a manhã inteira tentando explicar de onde eram e para onde queriam ir. “Ninguém nos entendia, e nós ‘tampoco”. O ritmo paulistano não os deixou explicar, e o ritmo cubano não soube esperar, deixaram o local sempre saber para onde ir. Lisliet, Javier e as pequenas K. e G. foram informados por um peruano que havia uma igreja que “recebia imigrantes”. O próximo desafio estava certo, eles tinham que chegar nesse lugar, nessa terra prometida. Então pegaram um taxi. “Vão pra onde?” “Iglesia Nossa Señora de La Paz”. “Fica onde?” “Sabemos que está en la Liberdad y só”. “Não sei onde é essa tal igreja”. “Mas como no? El señor és un taxero” “São Paulo é muito grande. Não conheço todas as ruas”. Nada feito.Tiveram que procurar andando em um centro que de atômico não tinha nada. Saíram do ponto de ônibus na República às 7 da manhã e chegaram ao seu destino às 11 horas, depois de muitas informações trocadas em um escambo de gratidão, acharam a torre da Igreja Nossa Senhora da Paz e a Casa do Migrante. Para quem conhece a cidade, o percurso dura somente 8 minutos de carro, 15 minutos de ônibus e cerca de meia hora a pé. Lição aprendida, São Paulo era uma cidade de longas distâncias para quem é de fora. Quatro meses depois daquela manhã do dia 2 de julho, a torre comprida da Igreja esperava por Lisliet, que descia apressada a rua Tabatinguera. Os tijolos avermelhados como aqueles das antigas fábricas revestem a sinuosa estrutura que enxerga todo o baixo Glicério, vigia espremida entre prédios grandes e abandonados pelo zelo. Morando lá há quatro meses, a Família Fernández já tinha absorvido São Paulo como ela era. “Ay, mas que aqui o tempo passa muito rápido”, diz esbaforida. A latina trabalha o dia inteiro como diarista e ainda tem que chegar a tempo para buscar as filhas na creche da Pastoral. “Quando percebo o dia já terminou”, completa. O ritmo industrial agora é o que marca as horas. Enquanto Lisliet espera o sinal tocar avisando que já era a hora de retirar as suas pequenas, ela confessa uma mágoa recente: “se


não fosse pela caridade do padre Paolo, as meninas não teriam um lugar para estudar”. As cubaninhas, espertas como toda criança deve ser aos 5 e 3 anos, precisavam de um lugar para passar o dia e desenvolver as espertezas, mas a funcionária da escola mais próxima disse que não poderiam frequentar as aulas pois o período de matrícula já havia passado, e também “não havia vagas”. Se houvesse - talvez para o ano que vem -, elas poderiam tentar, mas não era garantido. “A tia guardou a lição na pasta”, a cubaninha mais velha falou para a mãe. Demorou um tempo para entender que “pasta” não era creme dental, e que o dever de casa tinha sido guardado pela professora. Lisliet ri, “elas levam tudo na brincadeira”. A escola é um importante ambiente de socialização, logo logo estarão tão brasileirinhas quanto seus companheiros de classe. Ainda bem que esse ano conseguiram uma vaguinha na creche da Pastoral, porque senão... Aquela era a mágoa de Lisliet, até porque em seu país o índice de analfabetismo era muito pequeno para ela se preocupar com essas coisas. “A educação em Cuba é muito boa. Pessoas vão de toda a América Latina estudar lá”. Agora, aquilo lhe tirava o sono, pois veio viver em um país onde nem todos podem estudar. A cubana é enfermeira de formação, estudou para dedicar a vida à auxiliar nas horas de precisão. Outra mágoa. Lisliet informa que está fazendo cursos - um deles é para aprender a língua que ainda fala com bastante dificuldade - e que espera um dia poder exercer a sua profissão. “Não pude pegar meu diploma, porque lá eles não permitem a saída de profissionais do país, e como eu tinha planos de viajar, não peguei o certificado”. Outra grande dificuldade de integração de refugiados é essa: aceitar que as condições de vida são diferentes, muitas vezes piores. Javier conseguiu o primeiro emprego em um açougue. Trabalhava quase 16 horas por dia, para ganhar muito pouco. “Em Cuba, a população não come carne. Logo no primeiro dia passamos por um açougue. Sentamos abraçados na calçada e choramos”, lembra do momento em que o açougue tornou-se símbolo de liberdade, mas em pouco tempo, ele virou um símbolo de exploração. Era a ironia do capitalismo e socialismo lado a lado.

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O Sesc - Carmo oferece aula de português e refeições


PrĂŠdios no Baixo GlicĂŠrio, bairro de migrantes e imigrantes


O peruano Carlos descreve seu amor por S達o Paulo e pela rua 11 de Agosto


Agora Javier é porteiro, ganha um pouco melhor mas não o bastante para juntar com as economias da esposa o suficiente para alugar um cantinho. E se tivessem grana, seria difícil explicar para as imobiliárias que eles não tem um fiador, nem como comprovar renda, muito menos como pagar um seguro. Enquanto o Conare não julga o pedido de refúgio, o português bem compreendido é a ferramenta mais valiosa para eles, e as habilidades manuais. Ali perto da Casa do Migrante, onde vive a família Fernández, há cerca de 10 universidades, uma delas é a FMU... São possibilidades, e um longo caminho.

Os caminhos da Pauliceia Há 20 anos morando em São Paulo, o peruano Carlos Llanos sabe que há vários caminhos para chegar a um mesmo lugar nessa cidade. Os caminho que ele e sua família tomaram foram tortuosos. Até conseguir o refúgio, passaram por dificuldades jamais imaginadas em sua terra natal. Mas no final, conseguiram. Esse senhor fincou os pés no marco zero e foi criando raízes, bem rasteiras, mas era o que ele podia fazer, agora, ele já incorporou os dois lados da cidade. É assim:” há coisas muito boas e coisas muito ruins”. Mira... compreende o que falo? Carlos se escorou em um encontro de muros na Praça da Sé. Observamos os pombos e passantes voarem apressados para o destino certo. É o centro, abarrotado como sempre perto da hora do almoço. Mas ele não se distrai, e continua a contemplar a cidade que o acolheu. “Então, prédio modernos você vê em qualquer lugar do mundo, aos milhares, e mais bonitos... mas isso aqui, olha só que preciosidade”, observa com entusiasmo. Guardei a lição com carinho: beleza está nos olhos de quem já passou por poucas e boas e agora consegue reconhecer que mesmo esmagando as minorias, São Paulo é bonita. A beleza tornou-se mais clara quando os peruanos conseguiram o status de refugiados. Foi quando Carlos, Martha e as quatro filhas começaram a desfrutar das oportunidades oferecidas nas adjacências da Catedral da Sé. Com uma pilha de documentos em

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mãos, que ele mostra orgulhoso em sua carteira, a integração com a cidade foi mais fácil, mais concreta. “Foi bom desburocratizar essas coisas”. Depois de 1994, foi possível fazer os cursos do Senac e do Senai e matricular as filhas em escolas boas. “Fiz todos os cursos que pude, até de cavaquinho”, Carlos aproveitou bem as parcerias do Acnur. Ele queria encontrar as ferramentas certas para montar o seu próprio negócio, voltar a ser comerciante como era no Peru. O sonho se realizou em pouco mais de um ano. Na rua 11 de Agosto, há poucos metros da igreja e do marco-zero da cidade, o peruano montou uma escola para ensinar todas as suas experiências. Eram mais de 20 cursos! Línguas - alemão, inglês, espanhol..., música - piano, cavaquinho..., e até teatro! “Dávamos emprego para professores recém formados na Usp”, lembra nostálgico. Mas a escola fechou pelo amadorismo na administração. Ele reconhece que para abrir um negócio é preciso mais do que idealismo. “Não formei um público, me dediquei a criar cursos”, explica. A escola cobrava 5 reais, pelos ensinamentos que ele tinha de graça no Senac. As meninas de Carlos se formaram. Pamela - a mais velha - agora trabalha em um banco, e é formada em pedagogia. Carla Katerine, Mariella Yolanda e Vanessa Edith estudaram na Universidade Presbiteriana Mackenzie, local onde a calçada abrigou por uns meses os serviços de seus pais. A primeira é formada em Comércio Exterior, trabalhou em uma multinacional e agora presta serviços para a Boehringer Ingelheim. Mariella tornou-se engenheira de sistemas e Vanessa é publicitária. E se não fosse pelos documentos... Já Martha agora vende outras coisas, especializou-se em Planos e Seguros de Saúde. Finalmente, todos estão protegidos. Hoje, além de um excelente contador de história, o refugiado é professor de espanhol. Quem diria? De vendedor de batons chineses à vendedor de artesanato peruano, agora Carlos vende a sua própria língua para educar brasileiros que se interessam pela beleza de mais uma sonoridade latina. Mas se um dia precisar, ele pode trabalhar como guía-turístico no centro de São Paulo (em uma “tour” bilíngue!) ou mestre-cuca. O peruano também foi convidado pelo Sesc para o “Encontro de Sabores”, o que se tornou também um encontro de gerações de refúgio. Ele foi o primeiro a se apresentar


naquela noite. Mostrou como se prepara um delicioso Ají de Gallina - que o peruano não me escute, mas para mim, o gosto era de frango com creme de leite. Mas tenho certeza que era bem mais do que aquilo. Ele certamente estava feliz naquele dia, com a esposa, amigos e muitas histórias para contar. A integração do refugiado é a parte mais trabalhosa para todos. Para os que chegam e para os que se propuseram a ajudar a cumprir a lei. Não digo que as outras são menos importantes, mas há de se reconhecer que é de fato a parte mais difícil. Eles têm direito à educação, atendimento médico, precisam de emprego, de moradia... Mas como arrumar isso tudo quando não se tem escola, hospital, trabalho e casa para uma outra maioria. Cynthia Sampaio é uma jovem assistente social que trabalha para o Acnur em busca de soluções duradouras. A pernambucana é Assistente Sênior de Reassentamento no Brasil e esteve em São Paulo para participar de reuniões com futuros parceiros da Cáritas. Precisava discutir como melhorar integração. Ela estava entre o público que apreciou o “Encontro de Sabores” realizado pelo Sesc, viu de perto o que uma boa parceria pode fazer. Não conhecia nem Jesus, nem Carlos, nem os outros refugiados que estavam no recinto, mas sabia que a parceria com o Sesc fazia parte da vida de todos eles. Lá estavam também Padre Marcelo Monge, Adelaide, Maria Cristina, o pessoas da Cáritas, além de convidados e curiosos. O evento foi um sucesso, mas agora estava na hora de ir mais além. Cyntia ressaltou que o Acnur busca soluções junto às autoridades e reconhece que a falta de conhecimento dos servidores públicos e dos administradores - sobre os direitos dos refugiados dificulta o que por si só já é difícil. Moradia, educação, saúde, emprego...“O reduzido número de refugiados no Brasil, se comparado ao tamanho da população local, torna-se um dos grandes desafios no envolvimento do poder público na reflexão sobre os mecanismos de acesso às políticas públicas existentes”, explica. Depois da festa, e das constatações, era hora de todos juntaremse novamente, na busca por mais soluções.

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VI. Em busca de soluções


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“E

xistia um Comitê para isso... mas não funciona”, disse Carla Aparecida. Se funcionasse, a diretora da Casa do Migrante teria uma lista de exigências para fazer. Começaria pela proposta de construção de novas moradias. “Estamos sobrecarregados aqui”, reclama. Não é por menos, a pequena casa nos fundos da Igreja virou referência para refugiados na maior cidade do Brasil. A falta de abrigos, ou de um especializado no assunto, é uma reclamação comum. Simone Bernardi, do Arsenal da Esperança, concorda com Carla, Padre Marcelo Monge e Maria Cristina Morelli, da Cáritas, também. A falta de moradia é uma questão que pesa. Se o CER (Comitê Estadual para Refugiados) de São Paulo estivesse funcionando, teria que conhecer a história de Jesus M. e seus meses compartilhando noites de sono- e alguns de seus pertences- com desamparados de outras causas. Deveria conhecer as cubaninhas filhas de Javier e Lisliet - casal que dorme em quartos separados desde que chegou no Brasil. Mas o Comitê, criado em 2007 pelo governador José Serra, está abandonado, assim como as políticas públicas no Estado de São Paulo. Quem arca com as questões da integração é a rede de parceiros e a Cáritas. As casas de acolhida, albergues e hospedariam são opções frequentes, recolhem os refugiados ao cair da noite, e os mandam para a rua durante o dia. E onde ficar? Para onde ir nos primeiros dias? Mas com o metro quadrado super inflacionado, fica difícil para a sociedade civil e


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organizações caridosas construírem mais tetos na cidade de São Paulo. De 2008 para cá, Jesus passou por três hospedarias, e quando conseguiu alugar um apartamento, logo teve que entregá-lo. Perdeu o emprego e o benefício por tempo de trabalho e não podia arcar com suas despesas. O colombiano aguentou a doença por 11 meses, mas a previdência só começa a pagar com 12 meses de contribuição. Ainda tonto e procurando quem possa ajudá-lo, o Sr. M. poderia recorrer à Defensoria Pública da União, e solicitar o Benefício Assistencial... Talvez, se uma das secretarias do Comitê tivesse desenvolvido um projeto para atender refugiados deficientes, a agonia do pobre homem estaria com os dias contados. Nem precisa ser coisa grande, mas certeza que já seria grande coisa. Ao menos para essa ínfima população tão significativa. Mas como chamar a atenção do poder público para um grupo de pessoas tão pequeno e que nem votar pode? Esse era o desafio que todos estavam tentando vencer. Ah, mas se houvesse um Comitê ativo, no futuro, haveria Educação para todos. Quem sabe mais convênios seriam assinados e os professores de algumas instituições, assim como os diretores que negam vaga aos filhos de solicitantes de refúgio, saberiam como agir em casos como esse. Basta esclarecer e várias matriculas seriam feitas sem muitos dramas e frustrações. Mas para isso, a Secretaria de Educação de São Paulo precisaria de projetos, e o Comitê deveria funcionar. Quem sabe assim, refugiados poderiam dar continuidade aos seus estudos e conseguiriam empregos que os sustentassem na cidade cara e consumista. O Hospital das Clínecas é parceiro do Acnur. Alguns refugiados recebem tratamentos lá, e outros tantos fazem acompanhamento psicológico. Mas o atendimento nos 12 Pronto de Socorros do município de São Paulo não é especializado, e tomar uma injeção para dor ou fazer uma simples sutura se torna um martírio. Certo dia, na porta da Casa do Migrante, chegou um congolês com um encaminhamento da Cáritas. Ele deveria ir para um Posto de Saúde, mas não sabia onde era. Estava tão assustado que se recusou sair da Casa, mas com um pouco de paciência, o porteiro Salvador


conseguiu explicar em um misto de francês-português-espanhol que o pobre solicitante estava no lugar errado. Foi embora a muito contra-gosto, buscando a própria sorte. Chegando lá, ninguém sabe o que o homem do Congo encontrou, e nem se havia alguém na portaria capaz de entendê-lo. O Comitê Estadual para Refugiados não é um salvador da pátria. Mas é bem verdade que de quase todos os problemas enfrentados pelos estrangeiros em situação de refúgio passam pela esfera pública. O Comitê poderia dar uma mãozinha. Desativado desde 2009, ele não operaria milagres, mas quem sabe estaria disposto a discutir soluções. E aí é que o espírito da Declaração de Cartagena fica envergonhado. Se o Brasil é um país tão acolhedor e com uma lei federal tão avançada, como pode deixar coisas tão essenciais nas mãos praticamente apenas da sociedade civil. Ele foi instituído no dia 12 de novembro de 2007 com a finalidade de “elaborar, acompanhar, monitorar e avaliar a execução das ações destinadas a assegurar à população de refugiados o pleno exercício de seus no Estado de São Paulo”. Parecia um bom plano, bom demais até. No dia 8 de novembro, quase no dia da comemoração dos seus quatro aniversários, o Comitê começou a dar os primeiros suspiros. Precisou de alguém com experiência e sensibilidade com a causa para reaver a importância da mobilização do Estado. A secretária Eloisa de Sousa Arruda trabalhou na reconstrução do Timor Leste e no amparo aos refugiados de lá. Foi colega do embaixador Sérgio Vieira de Mello, referência até hoje por seu trabalho no Acnur. A primeira reunião foi agendada para às 15h, na sede da Secretaria de Justiça e Defesa da Cidadania, no Pátio do Colégio, símbolo da história paulistana. Naquele prédio antigo, o futuro dos refugiados paulistas estava na boca e no pensamento de 18 pessoas. Todos os secretários deveriam ouvir as urgências do tema, e com a palavra do Acnur, Cáritas, CDDH, Casa do Migrante, um solicitante de refúgio, Casa das Mulheres, SESC... dez minutos para cada um, sem mais. “O ideal é tentar fazer tudo de maneira oficial, o ideal é um plano de ação para que os gestores cumpram e possam ser cobrados”, diz Júlio César Correa, da Secretaria de Justiça e Defesa da Cidadania

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Fachada da Secretaria da Justiça e Defesa da Cidadania de São Paulo e os prédios do Pátio do Colégio


O missionário Sales dá aula de português na Casa dos Migrantes


Refugiado colombiano Jesus M.


Jesus improva conforto em sua moradia provis贸ria


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de São Paulo. Na pauta da reunião dois itens enchem de esperança quem acompanha a situação do refúgio na cidade: capacitação aos representantes das secretarias de estado e a articulação em andamento de integração dos refugiados, com relação ao trabalho, articulada com as pastas de emprego e renda do município de São Paulo e da esfera estadual. E tudo em caráter de urgência. Sem demora, a capacitação dos secretários aconteceria no dia 28, por funcionários do Acnur. É preciso entender o que é refúgio para poder trabalhar com providências. Júlio Cesár explicou como funciona o Comitê, e quem faz parte dele. No e-mail, era tudo bem explicadinho. O Comitê Estadual de Refugiados é composto por representantes titulares e suplentes das seguintes secretarias: a) Casa Civil; b) Secretaria de Economia e Planejamento; c) Secretaria da Habitação; d) Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social; e) Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho; f) Secretaria da Educação; g) Secretaria da Saúde; h) Secretaria do Desenvolvimento Metropolitano; (em substituição à Secretaria de Relações Institucionais) i) Secretaria da Cultura; j) Secretaria da Segurança Pública;

Nesse sentido, cabe apontar que, além dos membros do poder público, há dois representantes da Sociedade Civil, que pertençam a entidades conveniadas com a ACNUR - ONU, sendo uma atendendo reassentados (já participantes do programa da ONU para refugiados antes de chegarem ao Brasil) e outra que atende solicitantes da condição de refúgio, bem como faz o acompanhamento daqueles que aguardam a resposta do Comitê Nacional – CONARE, órgão que reconhece a condição de refugiado e autoriza a emissão de documentos e a permanência no Brasil. No primeiro caso, quem passou a atender


os refugiados no estado de SP, a partir de 2010, é o Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Guarulhos – CDDH, cujo coordenador é o sr. Orlando Fantasini. Esta entidade atende atualmente cerca de 200 refugiados, distribuídos da seguinte maneira: colombianos em duas regiões – Guarulhos, Caçapava, Taubaté, São José dos Campos e Campinas, Monte Mor, Jundiaí, Itatiba; palestinos e sunitas do Iraque em Mogi das Cruzes. A principal demanda dessa população é o acesso à escola. Quanto ao segundo grupo, quem acolhe é a Cáritas Arquidiocesana de São Paulo. Esta entidade já fazia parte do Comitê em seu início de trabalho nos anos de 2008 e 2009. Em primeiro lugar, hoje estão sob acompanhamento da Cáritas cerca 2.450 pessoas, sendo 1.800 refugiados e 450 solicitantes de refúgio, a maioria oriunda do continente africano, também da Colômbia, Haiti, Palestina, dentre outros países. Os nomes não podem ser divulgados por uma questão de segurança. Foi colocado que em 2008 se apresentou ao Comitê as demandas dos refugiados, que não diferem das dos dias atuais. Como questão essencial tem-se as deficiências de infra-estrutura física de acolhimento por parte da Cáritas, uma vez que esta presta os serviços num local de boa localização (próximo ao metrô Sé), porém com instalações inadequadas e insuficientes quanto à sala de espera, às salas para orientação jurídica, psico-social e capacitação em requisitos básicos como língua. “Ah, esse problema de moradia, então... tinha até o projeto, acho que será reativado também”, confidenciou. “Mas não é oficial”, avisa. Há alguns anos, a Cáritas articulou, com a Secretaria da Habitação, um lugar para a moradia exclusiva para os refugiados funcionar. Seria um espaço doado pelo Estado e com profissionais qualificados para atuar com essas pessoas. A ideia da Casa de Acolhida de Refugiado funcionaria exatamente como eles desejam. Receberiam as orientações jurídicas, cuidados com saúde, capacitação profissional, eles permaneceriam na casa por tempo indeterminado, sem a necessidade de sair durante o dia. O local teria uma sala de arte-terapia, cursos e oficinas... chegaram até a ver dois prédios no Bom Retino, mas descobriram que eles iriam ter outra finalidade, e a ideia morreu.

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Apesar da interrupção precoce no projeto de acolhida, em fevereiro durante a 1ª Oficina sobre Trabalho e Emprego para Refugiados promovida pelo Ministério do Trabalho, o Acnur saiu uma proposta simples, e como todas as ideias simples, o plano deu certo. Nasceu o PARR (Programa de Apoio para a Recolocação dos Refugiados), com o objetivo de construir um cadastro de empregos para os refugiados. Foi criado entre uma parceria do Acnur e da empresa EMDOC, e conta com o apoio da Cáritas e outras ONGs. Além disso do cadastro, o PARR deve mobilizar as empresas privadas e conscientizá-los sobre a causa. “As empresas interessadas terão acesso aos currículos dos candidatos (refugiados e solicitantes de refúgio) e poderão entrar em contato com a Cáritas São Paulo para avaliar o perfil e verificar a possibilidade de preenchimento da vaga”. Está tudo no site, já tem até depoimentos e logomarca de parceiros. Agora tudo são suposições e espera por resultados. No avançar do ano, São Paulo segue em busca por soluções para uma história que o Pe. Marcelo Monge desejaria que um dia tivesse um fim. “Mas enquanto houver refugiados, estaremos trabalhando”.


ANEXOS

Campanha do Acnur de 2011

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AGRADECIMENTOS

Agradeço à família Lima; minha mãe, minha irmã Sarah, minha avó Maria Nazaré, minha sobrinha Raquel e as minhas queridas tias Dorinha e Alba por acreditarem em meu sonho de ser jornalista. Obrigada pai, pelo gene da sensibilidade. Agradeço à turminha animada, tia Fátima, Ana Luísa, Ana Maria, Sandrinha, que sempre me encheram de alegria e histórias. Agradeço à minha “madrinha” Paula Francinete, por ser um exemplo de mulher e profissional. Agradeço à minha família bauruense, Gilson, Sebastiana, Mariana, Gustavo, Guilherme, Gabriel e Giovani. Agradeço à família Sodré, Cristina, Marcos e Miriam. Um muito obrigada às minhas amigas Mariana Ranieri e Helouise Melo, que mesmo longe, estão muito perto e sempre cuidando de mim. Aos meus amigos Rafael Pires, Aline Custódio, Karin Klinczak, Mariela Assmann, Juliana Mello, Alice Wakai, Bruno Martins, Cristiano Pavini, Samir Machado. Thank you Tyler and Christopher Luke for giving me my first tools to engage in my new career. Agradeço (e peço desculpas) às minhas veteranas, Ana Paula Campos, Flávia Costa, Niti Takemoto, Pâmela Nunes, Camila Samogim. Agradeço às minhas amigas de residência que me ensinaram o valor da paciência e da boa convivência, Laísa Amaral, Larissa

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Lotufo, Mariana Belo, Sofia Viotto, Aline Martusceli, Bruna Costa e Camila Lima. Obrigada aos meus repórteres e parceiros da Família Pero no Mucho e aos colegas da Rádio Unesp Virtual. Agradeço ao meu diagramador, ilustrador e amigo Marcos da Mata. Agradeço às melodias do She & Him, Mumford and Sons, U2 e Smiths. Obrigada aos meus professores, principalmente o Dino, por me aguentar nesses quatro anos de muita dúvida e agonia. Graças a Deus, à Santa Clara e à fé que sempre carreguei em minhas escolhas.


GLOSSÁRIO

Acnur (Alto Comissariado da Onu para Refugiados) - foi criado pela Assembléia Geral da ONU, em 1950, visando garantir proteger e assistência às vítimas de perseguição, da violência e da intolerância. Atualmente, é uma das principais agências humanitárias do mundo, tendo auxiliado mais de 50 milhões de pessoas e vencido duas vezes o Prêmio Nobel da Paz (1954 e 1981).

Albergue - local destinado ao abrigo de pessoas. Pode ser uma hospedagem, pousada ou apenas um asilo noturno. Em São Paulo, os albergues mais utilizados pelos refugiados são o Arsenal da Esperança, a Casa da Mulher e a Casa do Imigrante.

América Latina: Subcontinente americano, é uma divisão ideológica que reúne os países falantes de línguas latinas da América do Norte, Central e do Sul. Apátrida: é aquele que não possui nacionalidade ou cidadania. Ou seja, o apátrida não é considerado nacional por nenhum Estado. Tal situação ocorre quando o elo legal entre um Estado e o indivíduo deixa de existir. CAR (Centro de Acolhida para Refugiados) - é o projeto, mantido pela Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, destinado à assistência aos refugiados.

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Cáritas - É um organismo de pastoral e de assistência da Igreja Católica Apostólica Romana. A história da Cáritas Internacional remonta ao ano de 1950, quando a Santa Sé criou, oficialmente, a instituição. Atualmente, são cerca de 165 Cáritas nacionais filiadas à Cáritas Internacional . No Brasil, a Cáritas foi criada em 1956, pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), recebendo a incumbência de articular todas as obras sociais católicas e assumir a distribuição dos ‘alimentos para a paz’. Em São Paulo, a Cáritas Arquiocesana (CASP) foi fundada em 1968 (refundada em 1987), e atua em favor das vítimas das emergências naturais e dos excluídos nas urgências sociais. Os refugiados em São Paulo são atendidos pela instituição. CEM (Centro de Estudos Migratórios) - criado em 1969, sua finalidade é atuar junto aos migrantes. O centro pertence à Congregação dos Missionários de São Carlos/Escalabrinianos. Desde 1988, publica a TRAVESSIA - Revista do Migrante. Trabalha na coleta de informações sobre os movimentos migratórios, visando assessorar os agentes que atuam no atendimento aos migrantes. Comitê Estadual de Refugiados - Comitê criado em 2008, é presidido pela Secretária da Justiça e da Defesa da Cidadania, várias secretarias e membros da sociedade civil.

Conare (Cômite Nacional para Refugiados) - órgão colegiado, vinculado ao Ministério da Justiça, que reúne representativos da área governamental, da Sociedade Civil e das Nações Unidas, e que tem por finalidade resolver as questões acerca do refúgio no Brasil. É composto por representantes de 8 órgãos ou instituições, sendo que 7 destes tem direito a voto. Convenção de Genebra de 1951 - foi a convenção das Nações Unidas que definiu o termo refugiado, bem como estabeleceu as bases para a concessão de refúgio e do direito de asilo e as responsabilidades das nações concedentes dos mesmos. No Brasil, foi regulamentada através da Lei 9.474/97.


CPF (Cadastro de Pessoas Físicas) - é um documento oficial, emitido pelo Governo Federal, através da Receita Federal. É composto por um número de 11 algarismos, permanente. Nele ficam armazenadas todas as informações cadastrais fornecidas pelos próprios contribuintes, e pelo Governo Federal.

CTPS (Carteira de Trabalho e Previdência Social) - é um documento oficial, emitido pelo Governo Federal, através do Ministério do Trabalho e Emprego. Foi instituído pelo Decreto nº 21.175/32 e regulamentado pelo Decreto nº. 22.035/32. A anotaçã do vínculo de emprego na CTPS garante acesso aos direitos trabalhistas, tais como seguro-desemprego, benefícios da Previdência Social e do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS).

Declaração de Cartagena - Declaração instituída, em 1984, na América Latina, tendo como tema central os refugiados, e como resposta aos diversos conflitos que ocorriam naquela região na época. A principal preocupação foi adequar o conceito clássico de refugiado, da Convenção de 1951, para a realidade latino-americana. Delemig (Delegacia de Polícia de Imigração) - é a responsável, dentro da estrutura da Polícia Federal, por resolver questões atinentes à imigração. Consequentemente, é responsável por questões relacionadas ao refúgio.

Deslocados internos - Os deslocados internos encontram segurança dentro de seu país natal. Assim, mesmo que tenham fugido por razões semelhantes às dos refugiados , continuam sob a proteção de seu próprio país, de forma que mantêm todos os seus direitos, eis que continuam cidadãos.

Direitos Humanos - são os direitos e liberdades básicos de todos os seres humanos, e visam preservar à vida, e garantir condições dignas de sobrevivência.

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Direito Internacional - é o conjunto de normas que regulamenta as relações externas entre os atores que compõe a sociedade internacional - Estados nacionais e organizações internacionais. Embargo dos Estados Unidos a Cuba - é um embargo econômico, comercial e financeiro imposto a Cuba pelos Estados Unidos, e que iniciou em 1962. Em 1992 o embargo virou lei, e se aprofundou no ano de 1999. É um dos maiores embargos econômicos da história. Estatuto dos Refugiados - documento resultante da Convenção de 1951. Nele, estão definidas as principais questões atinentes ao refúgio e a caracterização dos refugiados. FARCs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) - organização de inspiração comunista, surgiu na Colômbia na década de 60. O grupo é classificado como terrorista por alguns países, e atualmente está ligado ao narcotráfico.

Imigrante - Que, ou quem imigra; que, ou quem vem estabelecerse num país estranho, com ânimo permanente ou temporário. Lei dos Refugiados - É a lei n° 9.474/97, editada para definir mecanismos que permitissem a implantação do Estatuto dos Refugiados. Nela, foi prevista a criação do Conare. Missão Scalabriniana - a Congregação dos Missionários de São Carlo Scalabriniana é uma congregação católica, fundada em 1887, por João Batista Scalabrini, na Itália. Dedica-se fundamentalmente à atenção aos migrantes. ONG (Organização Não Governamental) - são grupos sociais organizados, sem fins lucrativos, com constituição formal, caracterizados por ações solidárias no campo das políticas públicas. Fazem parte do chamado terceiro setor.


Polícia Federal - é um dos órgãos aos quais a Constituição Federal de 1988 (art. 144) conferiu as prerrogativas de garantir a segurança pública, através da preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. Subordina-se ao Ministério da Justiça. Protocolo de 1967 - protocolo concluído em 1967, é uma adição à Convenção de Genebra de 1951, e redefiniu algumas questões relativas ao refúgio. Foi ratificado pelo Brasil em 1972.

Refugiado: segundo o artigo 1° da Convenção de Genebra de 1951, é toda a pessoa que, em razão de fundados temores de perseguição devido à sua raça, religião, nacionalidade, associação a determinado grupo social ou opinião política, encontra-se fora de seu país de origem e que, por causa dos ditos temores, não pode ou não quer fazer uso da proteção desse país ou, não tendo uma nacionalidade e estando fora do país em que residia como resultado daqueles eventos, não pode ou, em razão daqueles temores, não quer regressar ao mesmo. São os primeiros beneficiários do trabalho do Acnur. Registro provisório - quando recebida a solicitação de refúgio, a Polícia Federal emite um registro provisório, que permite ao solicitante e ao seu grupo familiar a permanência no país, além de CTPS provisória e CPF. Requerentes de asilo: também chamados de solicitantes de refúgio, são aqueles que, embora afirmem ser refugiados, ainda não tiveram seu pedido de refúgio avaliado de forma definitiva.

Retornados - são aqueles que, após terem sido obrigadas a deixar o seu país e viver como refugiadas em outro, têm garantido um retorno voluntário em segurança e com dignidade ao seu país de origem.

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Sendero Luminoso - grupo terrorista fundado na década de 60 por docentes e discentes de universidades peruanas. Enfraqueceuse no final dos anos noventa, com a captura de seu líder e fundador, Abimael Guzmán. O grupo voltou a agir em meados do século XXI. Sermig (Serviço Missionário de Jovens) - foi fundado na Itália) em 1964, por Ernesto Olivero, que sonhava em acabar com a fome e as injustiças sociais no mundo, promovendo ações de justiça e de desenvolvimento. A ênfase especial era a promoção da solidariedade para com os mais necessitados, com ênfase especial aos aos jovens. Relaciona-se com a Fraternidade Esperança e, consequentemente, com o Arsenal Esperança. Sesc (Serviço Social do Comércio) - é uma instituição privada, criada em 1946, e mantida pelos empresários do comércio de bens, serviços e turismo, com atuação em todo âmbito nacional. Sua atuação é voltada, principalmente, ao bem-estar social dos seus empregados e familiares, mas é aberto à comunidade em geral. Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial) criada em 1946, na cidade de São Paulo, a instituição visa oferecer educação profissional à toda sociedade. Suas principais ações são voltadas a disseminar ações em comércio de bens e serviços.

Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) criado em 1942, é uma instituição privada de interesse público, e não possui fins lucrativos. Seu objetivo é formar recursos humanos capacitados à atuação na área industrial, capazes de prestar serviços tecnicos e tecnológicos. Oferece cursos presenciais e à distância. Soluções duradouras - O Acnur oferece três soluções para os refugiados: repatriação voluntária, integração local e reassentamento em um terceiro país. Termo de Declaração - É o documento preenchido pelo solicitante de refúgio quando da solicitação inicial de refúgio.


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São Paulo - uma rota de fuga  

Livro reportagem sobre refugiados latinoamericanos em São Paulo.

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