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BOM DIA BAURU - DOMINGO / 17 DE JUNHO DE 2012

SAÚDE

dia a dia

Você precisa saber mais sobre depressão Doença ainda é vista como frescura por alguns e até ironizada por outros, mas o sucesso no tratamento só é possível com diagnóstico correto e ajuda da família. Cresce a procura por associação de apoio Maria Clara Lima

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BOM DIA BAURU - DOMINGO / 17 DE JUNHO DE 2012

Agência BOM DIA

brasileiro precisa aprender a encarar a depressão. A doenã não deve ser tratada com ironia ou desprezo. É um quadro clínico sério e grave. Esse é o alerta do psicólogo Vitor Sampaio, especialista em psicologia existencial. “Infelizmente existe muita falta de informação entre as pessoas que consideram depressão uma frescura ou até preguiça”, diz.

Minimizar ou banalizar a doença é a pior maneira de buscar a cura

TRATAMENTO / O psicólogo Luís Russo, presidente da Abrata (Associação Brasileira

CONHECIMENTO

“Antes, a depressão era um jargão popular. Hoje as pessoas começam a entender que isso é uma coisa séria” _ Luis Russo Presidente da Abrata

de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos) explica que, como qualquer outraenfermidade,adepressão tem tratamento, mas é preciso que o paciente e os familiares entendam a doença. Há 13 anos a associação, formada por médicos, psicólogos e voluntários, ajuda as pessoas que sofrem da doença a entenderem o transtorno de humor. Nos últimos dez anos, 12 mil pessoas frequentaram palestras da Abrata, 7 mil buscaram apoio por telefone e 3 mil participaram dos grupos de apoio mútuo mantidos pela associação. “Aprocuraégrande.Cadavez mais as pessoas procuram por informação sobre o assunto. Antes, a depressão era um jargão popular. Hoje as pessoas começam a entender que isso é uma coisa séria”, diz Russo. O psicólogo explica que a facilidade do acesso à internet facilitou o contato das pessoas com a Abrata. “Só ano passado, tivemos 48 mil acessos em n o s s o s i t e ( w w w . a b r ata.org.br)”, fala Luís.

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Leia as perguntas abaixo com atenção

Segundo o site do médico Drauzio Varella, a quarta edição do “Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders “ traz duas perguntas interessantes e que podem ajudar na identificação do problema: 1 - Durante o último mês, você esteve frequentemente chateado por se sentir deprimido e desesperançado? 2 - Durante o último mês você esteve frequentemente chateado por sentir falta de interesse nas atividades? Se a resposta foi não a ambas as perguntas, é pouco provável que você tenha depressão. Mas, se uma das respostas foi sim, esteja atento a outros sintomas da doença.

-Humor depressivo, irritabilidade e ansiedade -Desânimo, cansaço mental, dificuldade de concentração, esquecimento - Confusão para expressar sentimentos -Tendência ao isolamento social e familiar -Apatia, falta de motivação - Sentimento de medo, insegurança, desespero, vazio - Pessimismo, ideias de culpa, baixa auto-estima -Ideias de morte e até suícidio -Dores e outros sintomas que não se justificam por outros problemas médicos -Alteração no apetite -Redução da libido -Insônia ou aumento do sono

O que fazer?

Procurar um psiquiatra para fazer o diagnóstico clínico As prefeituras são responsáveis pelo serviço na saúde pública. O atendimento é feito pelo Caps (Centro de Atenção Psicossocial).

Produção: Edy Braos

Segundo a Abrata, aumentou o número de pessoas que buscam informações

Segundo o profissional, a sociedade tende a achar que o deprimido está mentindo ou minimiza o seu sofrimento. É aí que está o perigo. A depressão é uma doença difícil de ser diagnosticada e, por isso, pode até matar (veja ao lado os principais sintomas da doença). O psiquiatra Renato Mancini, especialista do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo), explica que, para sechegaraumdiagnósticopreciso, vários exames são feitos para que o médico possa ter certeza que não se trata de outras doenças que também alteramohumor,como,porexemplo, câncer e doenças hormonais. “A depressão altera a sensibilidade das pessoas”, afirma o psiquiatra. Otratamentoéfeitocommedicamentos que potencializam a comunicação dos neurônios que agem na área do cérebro que controla as emoções.

Preste atenção aos sintomas

Fonte: Abrata e ps icólogos

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O BOM DIA falou com três pessoas que passaram por momentos difíceis e, com diagnóstico correto e tratamento, enfrentam bem seus problemas

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Camila G. M., 28 anos, supervisora de telemarketing

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Fotos: Arquivo pe sso

Desde criança sentia que meu humor variava muito. Mas foi apenas aos 16 que senti necessidade de procurar ajuda. Eu me sentia triste, muito pressionada por causa dos estudos e já não conseguia mais dormir. Fui a um psiquiatra que logo diagnosticou a depressão.. Minha mãe entendia um pouco a doença, mas meu pai, não. Ele zombava de mim, dizia que eu estava naquele estado para chamar a atenção da minha família. Logo comecei a tomar medicação: um remédio para a depressão e o outro para dormir. Eu tomava o remédio para dormir sempre que me sentia triste, pois sabia que quando eu acordasse, as coisas estariam melhores. Um dia eu tomei remédio demais e acharam que eu queria me matar. Queria me internar, mas a minha mãe não deixou. Fui levada para uma psicóloga e encaminhada para um outro psiquiatra. Esse me diagnosticou com outro transtorno, o bipolar, e disse que a medicação que eu tomava piorava minhas alterações de humor. Passei duas semanas naquela clínica, participei de terapia familiar e isso ajudou meu pai a entender melhor o que eu passava. Meus amigos foram me visitar, tive muito apoio de todos. Antes, eu achava que a clínica era como em filme e que iam me dar choques. Mas foi como um spa, um lugar de repouso. Depois dessa crise, fiz acompanhamento com o psiquiatra por dois anos e terapia com o psicólogo. Hoje já não preciso mais de medicação alguma

Dierli Santos, 24 anos, jornalista,

Há sete anos frequento um grupo de apoio. Isso me ajudou a me entender melhor. Quando me separei do meu namorado, logo depois perdi meu emprego. Foi com esse grupo que eu encontrei o caminho para a minha recuperação. Eles perceberam que eu não estava bem e foi aí que a minha mãe resolveu me acompanhar em um especialista. Eu tenho plano de saúde, não sabia se esse tipo de doença era tratada na rede pública. Então, nem procurei. Na época, eu sabia que precisava de ajuda, estava muito triste e muito agressiva. Fiz dois meses de terapia, mas eu não via melhoras, porque eu não queria melhorar. A psicóloga me indicou um psiquiatra. Ela achava que eu precisava de medicação, mas eu não queria. O psiquiatra

me diagnosticou com depressão logo de cara. Mesmo assim, decidi continuar apenas com a terapia. Faço terapia com o grupo do Centro Espírita e terapia com a psicóloga. Os dois tratamentos me ajudam muito, principalmente em entender que eu preciso de mais fé. Agora estou frequentando o Mada (Mulheres Que Amam Demais) para aprender a ser mais independente. Sempre tive um convício familiar bem complicado. Isso influenciou no que eu sou. Busco por mais equilíbrio na minha vida e a terapia é meu jeito de encontrar isso. Espero não precisar de medicamentos. Não estou totalmente recuperada, mas estou melhor agora. Voltei a estudar e estou procurando um novo emprego

Maria Inêz Ribeiro, 61 anos, artesã

Não nunca tive depressão antes, sempre fui uma pessoa alegre e otimista. Mesmo quando acontecia alguma coisa ruim, eu conseguia passar por cima muito fácil. Tudo começou quando o meu marido sofreu um acidente e quase ficou tetraplégico. Nesse período, emagreci muito. Em um mês perdi cinco quilos. Logo depois descobri que eu tinha um problema na tireoide e optei por operá-la para evitar um câncer. Me arrependi. Tomava remédios para repor hormônio e fui achando tudo aquilo um exagero. Não me reconhecia mais. Comecei a achar a vida sem graça, não tinha vontade de sair, me arrumar. Tudo perdeu a graça. Sou artesã, e na época não conseguia me concentrar. Eu começava uma peça e parava, nada ia em frente. Eu não pensava em suicídio, mas sempre pensava na morte. Foi só aí que procurei ajuda, sozinha, não queria falar isso para ninguém, não me sentia à vontade dividindo o meu sofrimento. Procurei uma psiquiatra, com um diagnóstico em mente. Eu sabia o que estava passando, eu lia muita coisa sobre o assunto e, até hoje, ela me acompanha. Já estou no segundo ano de tratamento contra a depressão. No começo foi difícil, não me adaptei aos medicamentos. O calmante me fazia ficar como uma boba, mas agora me acostumei com as dosagens. Já estou aposentada, mesmo assim não consigo parar de fazer a minha arte. Sou uma pessoa bem mais produtiva agora e consigo levar a vida numa boa


Você precisa saber mais sobre depressão