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Sinopse A vida de Holly está muito complicada - Faz seis meses que sua mãe morreu, e seu pai ainda anda pela casa com um ar muito perdido. Ela acaba de perder a virgindade com Paul, um cara que é um gato, mas que tem uma namorada firme, que faz parte da turma mais popular da escola. Seu melhor amigo Nils deu de pular de galho em galho, correndo atrás de toda garota que passa em sua frente. Quando as coisas começam a ficar mais sérias, Holly terá de escolher - mudar de vida radicalmente, ou guardar um segredo que pesa cada vez mais em sua vida?

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Um Estavamos estacionados em Point Dume, Paul e eu, os dois entrelaçados um no outro, meio vestidos, meio despidos. O carro do Paul cheirava a ar marinho e fumaça envelhecida, e no retrovisor pendia um cordão de plástico amarelo e rosa que balançava com a brisa que entrava pela janela aberta. Eu me aninhei em Paul e pensei: Adoro o seu rosto, adoro as suas mãos, vamos lá, vamos lá, vamos lá ... Um braço preso atrás da cabeça dele, o outro pressionado entre dois assentos de couro arranhados, eu me segurando de dor, enquanto pensava, distraidamente, se seria diferente quando se ama a pessoa, ou quando se faz na cama. Era a mesma praia onde eu já tinha passado zilhões de manhãs com a minha mãe, entrando na água na maré baixa, procurando anêmonas e estrelas-da-mar alaranjadas e roxas. Tinha rochedos, as ondas batiam forte, parecia o local apropriado para fazer algo profundamente não original, como perder a virgindade no banco traseiro de um BMW vermelho vivo, barulhento, de um cara qualquer. Na verdade, eu não conhecia o Paul muito bem, mas isso não tinha a mínima importância. Lá estávamos nós, criando lembranças fortes e arenosas, na costa de Malibu, a vinte e cinco quilômetros de casa. Eram nove horas da noite, aulas no dia seguinte. Eu precisava estar de volta às dez. - Foi legal - ele disse, arrastando a mão para baixo, por trás da minha cabeça, através dos cabelos. - Aham - concordei, sem muita certeza do que responder. Nem tinha percebido que o momento tinha acabado, mas lá estava - o nosso final sem grandes cerimônias. - Está ficando tarde, não? - Puxei os jeans sobre as minhas coxas. Será que você pode me levar para casa? -4-


- Sim, claro. - Paul se remexia, arqueado para trás, abotoando as calças. - Vou te deixar em casa. - Ele franziu o nariz, sorriu, e depois passou as pernas por cima do apoio de braços e se colocou no assento do motorista. - Obrigada - respondi, tentando ao máximo parecer normal e animada. Puxei a calcinha e fechei os jeans, depois me espremi até o banco da frente, para que ficássemos sentados lado a lado. - Está pronta? - ele quis saber, deixando um cigarro apagado preso entre os dentes. - Claro. - Prendi o cinto e olhei Paul passar um isqueiro Zippo na costura das calças, produzindo uma pequena chama. Virei a cabeça em direção à janela e pressionei o nariz contra o vidro. Lá, num local-nem-tão-distante, um brilho alaranjado clareava o céu, que cintilava iluminado. Incêndio na mata, pensei. Perfeito. - Diz aí de novo? - ele agitou as chaves. - Hillside, ao lado de Topanga Canyon. - É mesmo, desculpe. - Ele acendeu o cigarro e deu a partida. - Sou uma droga com caminhos.

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Dois Topanga ardia. Os helicópteros se aglomeravam no céu, jogando água e uma gororoba vermelha sobre os arbustos em chamas e sobre o solo. O ar tinha um gosto ácido e poeirento devido às labaredas, e os meus olhos e garganta queimavam. Colinas flamejantes, fumaça densa isso costumava me tirar do sério. No entanto, agora, até que eu estava gostando. Minha cidade inteira tingida de laranja e cheirando a churrasco e a folhas de pinheiro queimadas. Eu estava parada na entrada da garagem, a correia do Harry enrolada duas vezes ao redor do meu pulso. Olhávamos a fumaça subindo em labaredas atrás da minha casa quando pensei: É assim que uma guerra nuclear deve parecer. Nuvens de cogumelos e a chuva de cinzas. Eu me abaixei, beijei o nariz seco do Harry e dei uma coçada bem forte atrás de suas orelhas. - Uma caminhada bem rápida, vamos só até o pé da colina e voltamos. Ele latiu. Aceleramos pelo cânion. Passamos por balanços nas árvores, madeira cortada e velhos trailers estacionados nos gramados. Fomos além da ponte de tábuas que cruza o desfiladeiro seco, a Sociedade Cristã de Topanga, com sua placa azul e branca descascando, a Igreja da Ciência Cristã, o Centro de Equitação Topanga, com os cavalos na montanha e o elegante restaurante vegetariano à sua sombra. Naquele dia, os cavalos estavam do lado de dentro, protegidos do ar fumarento e pesado. Harry e eu passamos ao redor da pequena loja hippie de presentes, anexa ao restaurante vegetariano da moda, e partimos de volta, morro acima, até a minha casa. Não havia quase ninguém na estrada. Estava ficando tarde, quase escuro, então corremos o resto do caminho até em casa. Assim que chegamos à entrada de carros, soltei o Harry da guia e depois o segui lá para trás, até O Barraco. -6-


- Toc, toc - falei, batendo na estreita porta de latão e entrando. Nils estava deitado de lado, lendo um velho exemplar da National Geographic. Eu me livrei dos tênis, derrubei a guia do Harry no chão e corri para me enfiar ao lado do Nils sobre o futon estendido. - Alguma coisa interessante? - perguntei, tirando a revista da ponta de seus dedos. - Morcegos frugívoros - ele respondeu, puxando-a de volta. Eu tremi e rolei para o lado, encostando a cabeça nas costas dele. - Com frio? - Não, foi só um arrepio... Ele se virou e olhou para mim. Meus olhos fixos no nariz dele: longo, reto e confiante. - Ficou com medo do fogo? Dei de ombros. - Está quase tudo sob controle, sabe? Pelo menos, da última vez que verifiquei. Agarrei um travesseiro do chão e o usei para elevar a cabeça. Harry cheirava os dedos do meu pé, lambia e mordiscava as minhas unhas cor-derosa. Eu ri. - O quê? - Nils falou. - O que é tão engraçado? - É só o Harry. - Balancei a cabeça. - Não, qual é, o quê? Agarrei a revista de volta. - Morcegos frugívoros - eu disse, com a voz estridente, mantendo a página aberta com os roedores voadores e penugentos. - Quero um, tudo bem? Neste ano, no meu aniversário. - Com certeza, princesa. - Ele se aproximou de mim, dobrando as pernas no peito. - O que você quiser. Nils é o meu amigo mais antigo. Meu vizinho do lado. Este barraco é nosso desde que tínhamos dez anos. Foi o barracão de ferramentas do meu pai por uns quarenta e cinco minutos - até que Nils e eu topamos com ele e assumimos o lugar. O Barraco é o nome novo, dado desde o meu aniversário de dezesseis anos. Entre os dez e os quinze, nós -7-


o chamamos de a Casa do Clube. Nils pensou que O Barraco parecia muito mais adulto. Concordo. O Barraco é bem melhor. - Já fez toda a leitura para o teste do Kiminski, amanhã? - Não - eu respondi, virando a página. - Onde é que você estava ontem à noite? Passei por aqui, mas o Jeff me disse que você tinha saído. Jeff é o meu pai, para seu conhecimento. - Só fui até a praia um pouquinho. - Sozinha? - Nils quis saber. - É, sozinha - menti, derrubando a revista do Nils e me mexendo para o lado. O Nils não precisava saber do Paul Bennett ou de qualquer outro garoto da minha vida. O Nils tinha, naquele ponto, umas cinco namoradas novas todas as semanas. Eu já tinha parado de fazer perguntas. - Hols, a gente não tem de estudar? - Toque o Jethro Tull dois segundinhos. A gente estuda depois. - Nas semanas anteriores a esta, Nils e eu tínhamos organizado toda a coleção de música da mamãe, separado todos os velhos discos, fitas e CDs em categorias, em uma estante que o Jeff tinha construído para O Barraco. - Nada a ver essa música. - Nils gritou nos primeiros acordes de Aqualung. Ergui uma das mãos no ar, balançando ao som da música, enquanto examinava a coleção dela, buscando outras fitas de que poderíamos gostar. - Hols? - Sim? - Até que o gosto musical da sua mãe era bom. Eu o encarei, apertando os olhos. - Eu sabia que você gostava disso. Admita. Você ama o Jethro Tull. - Verdade. Eu amo o Jethro Tull. - Ele me encarou, os olhos pareciam meio turvos. Não diga, Nils, por favor, não diga nada, pensei. -8-


- Sinto saudade da sua mãe - ele prosseguiu. Eu me ergui, sentando. - Se anime, garoto. Ela está nos olhando de uma nuvenzinha feliz lá no céu, tá? - Como é que você nunca fica triste, Holly? Acho estranho que você nunca fique triste - ele falou, puxando o meu cabelo. - Eu fico triste, de verdade - respondi me levantando e batendo no traseiro, para limpar. - Não é porque você não vê que as coisas não estejam acontecendo.

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Três A escola. Sete e quarenta e quatro da manhã, e eu corria pela entrada em direção à sala de História Geral com o meu café espirrando por toda parte e uma mecha de cabelo molhado, respingando, batendo no rosto. Recebi um "oi" e dois ou três meios sorrisos de algumas pessoas que cruzaram comigo, antes de me meter na minha cadeira, bem na hora em que o sinal tocou: diim diim diim. A senhora Stein estava ocupada, com o lápis na mão, contando as cabeças: - ... dezesseis, dezessete ... Quem faltou? Saskia? Cadê você? Alguém viu a Saskia? - Como se estivesse esperando uma deixa, Saskia Van Wyck entrou correndo pela porta, clique-claqueando as sapatilhas pretas brilhantes, jogando-se na cadeira vazia à minha esquerda. - Presente! Desculpe, estou aqui - ela disse, dramaticamente passando as costas da mão sobre a testa. Que amor. Engoli o meu café. - Peguem os livros, pessoal. Leitura até oito e quinze, depois vamos discutir os capítulos nove e dez. Tudo bem? Tirei o meu livro da mochila e olhei à esquerda. Saskia Van Wyck. A namorada do Paul Bennett, ex-namorada. Eu mal a conhecia. Só sabia que ela era magérrima, bonita, do-tipo-popular, e que morava naquela casa antiga de tijolos perto do conjunto habitacional, espremida entre o meu Del Taco preferido e o velho e decadente posto de gasolina na avenida Valley View. Já estive lá uma vez, no sexto ano, em uma festa de aniversário na qual não apareceram mais que quatro crianças, mas eu me lembro de algumas coisas: as paredes azul-turquesa do quarto, um abacateiro, uma - 10 -


Barbie pelada e um urso de pelúcia marrom que ela deixava escondido embaixo da cama de ferro lavrado. - Você tem um marcador de texto ou uma caneta para me emprestar? - Saskia quis saber, virando-se na minha direção. - Tenho sim. - Procurei no bolso da frente da mochila e tirei uma lapiseira. - Que tal esta? - De repente, tive uma visão daquele cartaz de Educação Sexual que nos mostram no nono ano, de como as doenças sexualmente transmissíveis se espalham: Billy dorme com a Kim, que fica com o Bobby, que faz sexo com a Saskia, que na verdade dá para o Paul, que fica com a Holly, o que torna a Holly uma grande puta-que-dá-para-todos e que dorme com a escola inteira. - Ótimo! Obrigada. - Saskia sorriu. Acenei a cabeça para ela.

*** - Holly, venha um pouco para a frente do palco, à sua esquerda. Tente a sua fala de novo. Mais uma vez... com o coração. Disfarcei, fechando os olhos e deixando a cabeça pender para a frente. Puxa, sou tão esperta. Andei até a frente do palco e arrastei os pés para o lado. - Espere... de onde? - Comece por: Oh, tanto mais anjo ela é por isso, e você, o demônio mais negro! Ei, Desdêmona! Fique deitada, você está morta, se lembra disso? - Desdêmona, ou Rachel Bicks, que estava chupando um pirulito sentada no palco, com as pernas cruzadas, revirou os olhos e voltou furtivamente para o seu lugar atrás. - Finja-se de morta! - Ballanoff gritou. - Tudo bem, Emília, Otelo, vamos lá. - Oh, tanto mais anjo ela é por isso, e você, o demônio mais negro! - Isso mesmo, é esse o espírito. - Ballanoff se virou para Pete Kennedy, meu parceiro de cena, que estava em pé, à direita no palco, segurando um travesseiro. - Otelo?

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Pete fez a cena dele, atravessando o palco todo como uma supermãe zelosa - ele era grandioso nos gestos, e, ainda assim, parecia uma tábua. Eu bla-bla-bei em resposta, mal conseguia manter as palavras certas sem errar as falas. Acho que não tínhamos nem feito metade da cena quando, de repente, Ballanoff agitou a prancheta, descuidadamente, dizendo: - Meu Deus, vocês dois, parem com isso, por favor. - E em seguida: - Holly, pelo amor de Deus, venha cá. Dei uns passos adiante. - O quê? O que está errado agora? - Cadê o fogo? Ele acabou de matar alguém que você ama, ele a está chamando de puta - cadê o fogo, Holly? Eu me mexia pra lá e pra cá, mudando de posição de uma perna para a outra. - Comi demais no almoço. Estou cansada. Só temos mais três minutos de aula... Ele apertou os lábios, soltou o ar pelo nariz, fazendo barulho. Ballanoff tem a idade do Jeff, uns quarenta poucos, mas sempre pensei que ele parecia mais velho que meu pai até este ano, quando Jeff envelheceu dez anos em um piscar de olhos, mudando de pouco grisalho para branco total em três meses. - Pessoal! - Ballanoff gritou. - Decorem as falas nesta semana. Por favor. Trabalhem mais outros sentimentos que não a apatia. Quero ver mudanças na próxima aula. - Depois sorriu, estreitando os olhos. - Podem ir. Agarrei a mochila do chão do auditório e disparei para a porta. - Holly. - Que foi? - falei rispidamente. - Você me ajuda a carregar estas coisas, por favor? Arrastei os pés de volta pelo corredor, agarrei uma pilha de livros de uma cadeira. Ballanoff pegou a outra pilha e saímos juntos pelas portas do teatro, na direção do escritório dele.

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- E seu pai, como está? - ele quis saber, equilibrando os papéis e os livros entre as mãos e o queixo. - Bem. A mesma coisa de sempre. Ballanoff conheceu a minha mãe no Ensino Médio. Certa vez, eles até fizeram um dueto em A lenda dos beijos perdidos. - E a Nancy, como vai? - perguntei. Era a mulher do Ballanoff. - Bem, obrigado. - Ele abriu a porta do escritório, chutou uma caixa de papelão vazia quase até o meio da sala e depois largou a pilha de livros sobre a escrivaninha entulhada. Deixei a minha pilha no chão, perto da porta. Todos os quatro cantos do escritório estavam tomados por pilhas irregulares de livros, peças e papéis amassados. Um cesto de lixo reciclável, pequeno e azul, empurrado contra a parede, estava cheio até a borda de garrafas vazias de Snapple diet. Ballanoff suspirou, caminhou até o frigobar e tirou um chá gelado. - Estou esperando mais de você. - Eu sei. - Você não morreria de tanto esforço se ficasse um pouco zangada, ou sentisse algo de verdade, para variar. - Pausou um instante e perguntou: - Como é que você está, de verdade? - Sonhadora. - Isso é bom, não é? - Ele se afundou na cadeira preta de courino da escrivaninha e girou de um lado a outro. - É mesmo. Reuniões animadas e fogueiras ao ar livre de montão. O último ano vive a fantasia ao máximo. - Ele riu, o que me alegrou durante certo tempo, então perguntei: - E você? - Eu o quê? - Você sabe... Como é a vida na sala de professores? - Bem, a mesma merda, ano após ano - ele respondeu, sugando o chá gelado diet. - 13 -


Ri, mostrando os dentes. - Adoro quando você usa palavrões. - Puxa, eu devia prestar mais atenção, não? Antes que o Harper descubra e me mande embora por ninar palavrões junto com Otelo. - Harper é o nosso diretor. - É verdade. Cuidado. O senhor é um perigo, senhor B. - Devo ser mesmo. - Ele passou dois dedos pela tampa da escrivaninha de madeira. - Obrigado pela ajuda, Holly. Sorri e empurrei a porta alaranjada e brilhante com a sola do meu tênis. - Às ordens. - Mande lembranças para o Jeff por mim, tá bem? - Tudo bem. - Abri a porta, saí do escritório e voltei ao saguão.

*** - Puxa, Nils, cuidado com as janelas. Nils estava grudado em alguma garota idiota, empurrando-a contra a porta do motorista do meu carro, com as pequenas pontas dos dedos imundas pressionadas no vidro. - Ah, oi, Hols. - Oi. Cai fora, por favor. Ele e a garota se afastaram para eu colocar a chave no trinco. - Obrigada. A garota deu uma risadinha e se virou na minha direção. Oh, não. Ela não. - Ei, Hols? Você conhece a Nora... Nora Bittenbender. - 14 -


Da minha aula de Cálculo. - Antes do Nils, parece que ela havia dormido com dois professores: o Epstein e Rick Hyde. Garota bonitinha, mas sem graça demais para o meu gosto. Loira e com sardas, com aqueles peitos enormes, pálidos e oscilantes, que ela estava sempre empurrando para dentro de sutiãs apertados e camisetas justas demais. O peso dela variava sem parar: magérrima em uma semana, gordinha na outra - e o gosto dela, meu Deus, bem questionável. Trajes para a escola que ficavam entre roupas de perua de baladas e moletons enormes acinzentados. Sensual. - Vai querer uma carona ou não? - O capô do carro estava coberto de cinzas. Passei o dedo na poeira esbranquiçada e entrei no carro. - Prometi ao Jeff que levaria o Harry para correr depois da escola; ou você entra ou já estou de saída. - Tá! Tudo bem. - Nils correu para a porta do passageiro. Nora o seguiu, segurando a parte de trás da camisa dele. - Será que você podia deixar a Nora no caminho? Ela mora bem perto da gente, em Pawnee Lane. Não. - Tudo bem. Entra aí. Nils foi para o banco traseiro. Nora sentou-se rapidinho e falou: - Holly, obrigada. Perdi o ônibus. -Tudo bem. - A gente faz Educação Física juntas, não é? - Cálculo - eu disse, empurrando o acelerador, e, em três segundos de direção, quase atropelei o pedestre Paul Bennett. Boa, Holly. Parei o carro e abri a janela. - Merda! - Ele estava lindo, com aquela camisa velha, com uma fileira de botões pequenos, um pequeno rasgo no colarinho. A franja caía de lado pela testa, quase batendo nos olhos. - Você passou raspando em mim! - Desculpe! Desculpe mesmo! Tudo bem com você? Paul começou a andar na direção da minha janela, até que viu Nils e Nora, então parou e arrumou a mochila. - 15 -


- Estou bem. Foi só... - agitou as mãos no ar e sorriu -... um susto, só isso. - Está bem. Desculpe. Olhei o cabelo dele se movimentando para trás quando ele se virou, andando na direção do carro dele. Depois acelerei um pouco e entrei na rua principal. - Nem sabia que você conhecia o Paul Bennett. - O Nils escorregou para a frente no assento, de um jeito que o rosto dele ficou flutuando em alguma parte do apoio de braços do carro. - Não conheço muito bem. - Tem certeza? Pois parece que ele te conhece bem. Senti uma comichão indescritível no meu estômago. Arrependimento? Saudade? Neguei com a cabeça. - Bem, temos aulas juntos. Acho que ele sabe o meu nome. - Talvez ele goste de você - Nora interrompeu, cutucando o meu ombro. - Sem querer fazer pouco-caso, não acho que a Holly seja exatamente o tipo do Paul Bennett - O Nils falou, tirando um sarro. - O que você está insinuando? - Virei para o lado e lancei um olhar gelado para o Nils. - Qual é o tipo do Paul Bennett? Fala aí! Pode começar a rezar. Nils enfiou um chiclete de canela na boca. - Você sabe. Loiras. Magrelas. Conservadoras. A anti-Holly. - Saskia Van Wyck - Nora respondeu, balançando a cabeça. Ergui os olhos. - Claro. Saskia Van Wyck, a anti-Holly. - É um elogio, Hols. Ela é um espaguete. - Ele me olhou com carinho. - Sem molho... Eu me animei. Uma supermodelo, sem graça, magrela. Pobrezinha. - 16 -


Nora se retorceu no assento para ficar cara a cara com Nils. - Posso pegar um pedaço disso? - Ela mordiscou o pescoço do Nils e puxou a embalagem de chiclete. - Eu amo canela. Adoro. Ficamos os próximos vinte minutos parados no trânsito perto do conjunto habitacional. Pelo retrovisor, observei o Nils lançando olhares para a Nora. Ele é mais bonito que ela, mais inteligente que ela, ele é bem melhor que ela, pensei. Não combinavam. São como sanduíche e serviço de prataria. Ou queijo em spray com pão especial de grãos. - Ei, é aqui! Moro ali, à esquerda, a casa verde com a árvore - Nora interrompeu. Havia um banheiro químico estacionado no gramado diante da casa, perto de uma pilha alta de placas de alumínio. - Estamos aumentando a cozinha e anexando um banheirinho. Virei na íngreme entrada de carros e parei a um metro da garagem. Ela beijou o Nils na boca. Hmm, hmm. - Obrigada, Holly, valeu. Nils, me liga. - Ligo sim. Ela se foi. Engatei a marcha e comecei a dar a ré. - Vem para a frente. Não sou sua motorista. - Nils se contorceu para passar pelo vão apertado entre os assentos. Agora estávamos sentados lado a lado. Ficamos quietos, os dois. Retomei rapidamente pela rua tortuosa da Nora até a avenida principal, onde passamos pelo meu rochedo predileto. Branco e comprido, com a superfície cheia de crateras, como uma fatia da Lua. - Qual é, Nils, Nora Bittenbender? - Uma graça. - Claro. Uma graça. O que ganha de "uma graça"? - eu disse rispidamente. - Peitões. - Claro, é óbvio. Peitões ganham de "uma graça". - Olhei para ele meio de lado. A cabeça dele estava meio inclinada e pendia para trás, a mão largada preguiçosamente para fora da janela. - Você nem conhece a menina, Holly. - 17 -


Essa coisa do Nils com as garotas ainda é bem recente. Começou no primeiro ano com a Keri Blumenthal, na festa da piscina, quando ela usou aquele biquíni verde idiota que deixou o Nils babando, e, antes que eu pudesse piscar, meu amigo tinha ido embora e em seu lugar estava aquele cara bobo que amava a Keri Blumenthal e biquínis caretas, e, embora eu odeie admitir, foi aqui que as coisas realmente começaram a mudar entre nós. A Keri Blumenthal ergueu um muro entre nós. Durou catorze dias, e mesmo depois, quando eles romperam, aquele muro idiota ficou intacto. - Ela fala como um bebê - eu disse. - Holly... - E por que ela usa aquelas roupas? - Por conforto... convenção social... - Não roupas em geral; seu tarado. Aquelas roupas. - Holly, qual é? - Sério, qual é a dela com o Epstein? Aquilo está rolando ou não? - Não sei... - Só não entendo por que você gosta dela. Você é melhor que... - Holly. - Ele se endireitou bem rápido e agarrou a minha mão. - Pare com isso, tá? - Ele me apertou com força, e um arrepio subiu pelo meu braço. - Não vou me casar com a menina. - Não vai? - Desviei o olhar para a rua, imitando a entonação da fala infantil da Nora. - Você é esquisita, Holly. - Nils largou a minha mão. - Pelo menos, não sou um bebê com... peitões - falei, fazendo beicinho. - Sua esquisitona. Dei um tapa bem forte no braço dele e entrei na nossa rua. Nós dois rimos. - 18 -


*** Eu me separei do Nils e disparei para a geladeira. O Harry estava no meu calcanhar, pedindo comida, então desembrulhei uma única fatia de queijo de soja com sabor americano, enrolei metade, fazendo uma bolinha, e joguei a outra metade no chão. Ele engoliu a coisa em dois precisos segundos, nem parou para mastigar. Fui para o quarto, mordiscando a minha pequena bola de queijo falso e, ao mesmo tempo, tirando a roupa, peça por peça. Enfiei shorts de corrida e uma regata, agarrei a correia do Harry e enfiei a cabeça no quarto do Jeff e da mamãe, a caminho da porta de trás. Era um pouco estranho, já fazia seis meses que ela tinha partido, mas o lugar ainda tinha seu cheiro: óleo de rosas e sabonete de Castilha. Não sei como isso acontece, alguém morre e seu cheiro permanece. O Jeff não mexeu em nada. Todas as roupas dela ainda estão nas prateleiras do guarda-roupa, o perfume na penteadeira, os hidratantes faciais e a maquiagem no banheirinho do quarto deles. Na maioria dos dias era fácil fingir que ela ainda estava por lá. Lá fora, indo às lojas. Fazendo caminhadas. No jardim. Passeando com o Jeff. Então peguei o cachorro e fomos correr. Lá para cima do cânion, passando a casa da senhora Penn, com a cadeira de vime em que ela amarrou uma corda, para que ficasse presa como um balanço; acima de Pawnee Lane; além da casa da Nora Bittenbender; na rua Red Rock; e para fora da cidade. Comprei um refrigerante de gengibre no Nature Mart e caminhei de volta; na maior parte do tempo, tentando manter os galhinhos e as pedras fora da boca do Harry. Mais tarde, naquela noite, por volta das sete, Jeff voltou para casa. - Oi, lindinha. - Ele beijou a minha testa e pegou uma garrafa de água com gás da geladeira. Levou-a até o pescoço, depois tomou um gole grande e se ajeitou na sua cadeira de madeira predileta. - Que teremos para o jantar? - Tacos, pode ser? Estava pensando em ir de carro até o Pepe's. Mais uma noite de macarrão e eu me mato. Jeff soltou a sua risadinha triste de Jeff e chutou os mocassins para longe. - 19 -


- Claro, se estiver a fim. Ele me passou vinte dólares. Coloquei o Harry no carro, porque ele adora ficar com a cabeça fora da janela à noite enquanto dirijo, e aceleramos morro abaixo na direção da praia, até o Pepe's, onde comprei oito tacos: quatro com batata, dois com peixe frito, e dois com frango. Deixei o saco branco quente no meu colo, longe do Harry, enquanto dirigia de volta para casa, e pensei na mamãe durante um segundo ou dois. Especificamente no cabelo dela: comprido, grosso e escuro, como o meu. Cantarolei uma música junto com o rádio, mas não sabia a letra muito bem, e, quando o meu celular tocou, dei uma olhada no identificador de chamadas e não atendi. Não reconheci o número. Jeff e eu comemos diante da televisão naquela noite, assistimos a uma porcaria de reality show de namoros que ele adora e que eu odeio, mas nem reclamei porque ele é meu pai, e a mulher dele está morta, e eu fico a fim de qualquer coisa que o deixe feliz agora. Então, quando terminamos o jantar, dei um beijo de boa-noite e saí, fui até O Barraco com o meu celular, para ouvir o recado da minha chamada misteriosa. "Oi, Holly", dizia a voz no celular, "é o Paul, Bennett. Só queria saber o que você vai fazer hoje à noite. Me liga." Clique. Meu coração quase saltou pela boca. A gente nunca tinha conversado ao telefone. Na verdade, a gente nunca tinha conversado. Encostei o telefone no meu peito e pensei em retomar a chamada, cheguei a olhar para o celular, mas toda-aquela-coisa-de-sexo-na-praia, para mim, tinha sido coisa de uma vez só. Em vez dele, liguei para o Nils. "Alô?" - Sou eu. “Já voltou?" - Sim, o Jeff está dormindo na frente da televisão e eu estou de saco cheio. “Já vou. Posso levar uns CDs?" - Se estiver a fim. - Fechei o celular.

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- Holly, a inencontrável. Oi! Paul e eu estávamos em pé, do lado de fora da sala de Química. Ele usava surradas calças cáqui recortadas, óculos pretos e um sorriso confiante. - Você não retoma as suas ligações? Olhei para ele, com ar misterioso, enquanto ele se movimentava para trás. Neguei com a cabeça. - Que chato. - Ele piscou. - O que você tem agora, Química? - Aham. - Foi o que consegui falar. - Está a fim? - Do quê? - Da aula. - Ele movimentou a cabeça para os lados, sem dúvida buscando sinais de humor no meu rosto. - É brincadeirinhal Olhei para ele, com ar entediado. O que fazíamos lá em pé, conversando ainda? - Holly? - Hum. - Tudo bem com você? - Tudo bem. Estou cansada, acho. - Bem... você está livre, mais tarde? Falei que não. Estou ocupada, desculpe, não dá pra sair. E olhei distraída, enquanto ele sacudia a linda cabeça para o lado. - Não entendo você - ele falou. Abracei o batente da porta enquanto alguns garotos se espremiam ao tentar passar por mim. - Qual é? - perguntei, porque é sério, qual é? Eu estava surpresa, perplexa, de verdade, por esse interesse súbito e obsessivo por mim. Eu usava calças Levi's surradas e - 21 -


All Stars sujos na escola, todos os dias. Raramente escovava o cabelo. Tenho um amigo, além do meu cachorro, e passo as noites com o meu pai, fora de circulação, diante da televisão. O que em mim poderia atrair Paul? Ele me lançou um último olhar, deslizou a mão pela parede e desapareceu em meio a uma multidão de garotos com chinelos de dedo e shorts jeans em pé, aglomerados em um grande grupo compacto. Será que isso era um tipo de piada ou, de repente, eu fiquei irresistível? Será que eu ao menos gostava do Paul? Será que ele gosta de mim, de verdade? Eu me desgrudei do batente, fiz um giro rápido e entrei na sala. O Nils estava com os cotovelos fincados no tampo da mesa de fórmica preta e mexia em algum mecanismo de metal com uma haste longa e estreita. Larguei os livros perto dele. - Que é isso? - É um bico de Bunsen - Nils respondeu me dando atenção. - Que foi que aconteceu com você? - e se movimentou para o lado, abrindo espaço. - Você parece chateada. Agarrei um banquinho, larguei a bolsa no chão e me sentei perto dele. - É que... É... - Passei o dedo em um coraçãozinho torto que tinha sido esculpido na lateral da escrivaninha. - Por que a Nora? Por que você está com ela? Você gosta dela, pelo menos? - Sim, claro. - Não, mas... você gosta dela mesmo, do jeito que ela é? - Gosto dela o suficiente. Eca. Este tipo de fala era o jeitão típico do Novo Nils. O Nils pós-Keri Blumenthal. Sim, talvez ele tivesse tido um pouco de experiência no ano que se passou e, sim, talvez eu nem tivesse ido um pouco além de beijar alguém antes do Paul... Mesmo assim, isso não dava a Nils o direito de ficar na dele e de tentar bancar o compreensivo quando eu precisava de respostas verdadeiras e diretas. - Como assim, o que você está insinuando? - 22 -


Nils olhou para mim. Deu de ombros. - Ela é uma forma gostosa de passar o tempo. - Puxa, cara, entendi. - Eu me encolhi. Depois abri o meu livro de Química até a página marcada com uma dobra e fingi ler. Então era isso. Sexo. Uma forma de o Paul Bennett passar o tempo. Holly-passatempo. Holly-vagabunda. Pressionei a testa na dobra do meu livro. - O que está fazendo? - Descansando. - E por que você está tão preocupada com a Nora Bittenbender? - Não estou. - Tem certeza de que está bem? - Estou bem. - Eu me endireitei na cadeira e fiz um gesto na direção do bico de Bunsen. - Que é isso? O que você está fazendo com essa coisa? - Estamos fazendo sanduíches de biscoito com chocolate, - Nils respondeu, puxando um infeliz de um bombom Kisses da Hershey do bolso e pegando um pacote amassado de Sal tines em uma das mesas. - Que nojo! - retruquei, sorrindo de verdade desta vez, e me sentindo um tantinho melhor. - Eca, que porcaria.

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Quatro Sozinha após a aula, caminhei pelo cânion relembrando a minha conversa de antes com o Paul, tentando decodificar o nosso diálogo como se fosse uma charada ou um exercício do meu livro de espanhol. Não entendo você. Não entendo você. Repassei a sentença em uma espiral pelo meu cérebro, esperando ouvir alguma dica escondida na entonação ou na dicção do Paul. Mas nada, nadica. Com toda essa obsessão, só consegui ficar tonta e agitada. Então, tentei redirecionar a minha energia. Respirei, prendi o fôlego, e corri morro abaixo até o cruzamento de Old Topanga, onde me vi parada a menos de dez metros da pequena lojinha hippie de presentes. Entrei. - Olá! - Oi. Lá, do outro lado da sala, estava sentada uma senhora new age, lendo um livro atrás da caixa registradora. - Quer ajuda? - Só estou dando uma olhada. Obrigada. Andei a esmo para o outro lado da loja, passei por um sinistro mostrador de bugigangas, cheio de gnomos de cerâmica, óleos aromáticos e gloss sem cor e sem crueldade para os lábios. Parei para dar uma olhada nos livros. A senhora new age veio até mim. - Procurando alguma coisa em especial?

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Eu me virei, voltando à prateleira para pesquisar a variedade: terapia eletromagnética, meditação transcendental, mediunidade. De repente, surgiu um pensamento: mamãe sobre uma nuvem, com um megafone, agitando os braços com entusiasmo. - Você tem livros sobre algo como o além da vida... ou a vida após a morte ou... ? Ela se abaixou perto de mim e pegou um livro da prateleira e me deu. - Visitações - li em voz alta. - Hmm. Este realmente me abriu a mente. Bárbaro. - Ela era gordinha, a senhora vendedora. Usava uma saia florida comprida que ia até o chão e um casaco de linho com botões, que ela mantinha amarrado na cintura. Os brincos eram miniaturas de bules de chá. - Obrigada. - Lancei um sorriso educado e passei os olhos pelas primeiras páginas. A senhora avançou mais um passo na minha direção: - Procurando respostas? - Não sei. - Você perdeu alguém que amava recentemente? - Não. A mulher sorriu, estreitando os olhos. - Tenho um amigo... Espere um pouco. Ela se apressou até a caixa registradora, pegou uma latinha do balcão e tirou um cartão de visitas por baixo da tampa. E voltou num piscar de olhos. - Este meu amigo é médium. Maravilhoso. Minha irmã morreu não faz muito tempo e ele conseguiu fazer contato. Fiquei pasma. - Nossa. Isso é... puxa, fantástico. - Eu me sentia completamente desconfortável. Mamãe adorava essas coisas: videntes, auras, luz branca e pensamento positivo. - Pegue aqui. - Ela agitou o cartão perto dos meus olhos. - Eu não... - Ergui as mãos e as agitei. - Eu não preciso disso. Obrigada, mesmo assim. - 25 -


- Não, não, você precisa. Pegue aqui. - E segurou a minha mão, enfiando o cartão na minha palma. Antes, eu já tinha feito uma consulta com uma vidente quando eu tinha catorze anos, com uma amiga da minha mãe, que insistia em que eu me livrasse dos cigarros e da bebida e, como alternativa, me sugeriu que eu visualizasse uma luz roxa envolvendo meu corpo todas as manhãs antes de ir à escola. - Vou ter de voltar aqui para pegar o livro. Estou sem a carteira. A vendedora acenou, dando um tchau. - Quer que eu separe o livro para você? - Obrigada. - Enfiei o cartão no bolso de trás das calças e caminhei para a porta. Eu volto. só preciso... do dinheiro. A vendedora assentiu com a cabeça, passando a mão pelo quadril arredondado. - Aproveite o dia! Ligue para o meu amigo. Acenei e saí, os sininhos da porta da loja soaram enquanto eu a fechava.

*** - Hoolllyyy. O martelo, por favor. Já. - Nils estava com um prego preso entre os dentes e se equilibrava sobre uma banqueta pequena. - Aqui, desculpe. - Passei o martelo para ele e voltei para o meu galão de tinta. Estávamos refazendo a pintura de O Barraco para o outono. Uma parede com tons alaranjados. Uma guirlanda feita com treze folhas amarronzadas, colhidas por mim, do nosso jardim. Algumas lampadinhas douradas de Natal, das quais Nils se ocupava prendendoas na ligação-do-teto-com-a-parede. - Então, você se lembra da época em que ia à igreja? - perguntei, prendendo a franja para trás com um grampo. - Não.

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- Claro que se lembra. Com o seu primo como-era-o-nome-dele-mesmo? O que mora em Cardiff. - O Harry era uma bola enorme de saliva e pelo, largada sobre o futon. Roncava alto. - É mesmo, eu me lembro. Mas era um templo. - Ele sorriu para mim, estreitando os olhos. - Então tá. O que eu quero saber é: você acha que teve respostas? - Que tipo de respostas? - Por exemplo, sobre as dúvidas que você tinha. Sobre... a vida. E o Universo. Ou sei lá que mais. - Enxuguei um pouco do suor da minha testa com um trapo. Aquilo não tinha nada a ver. Quente demais. - Como a vida e o Universo ou algo assim? Atirei uma esponja no joelho do Nils e errei. Ela aterrissou no chão, perto do Harry. - Isso, seu metido. Não fique tirando sarro de mim. É um assunto sério. - Tá bem. Meu Deus. - Ele deu uma olhada nos jeans para ver se não havia molhado. - Na época, não. Não acho que eu tenha saído com algumas respostas. Mas também eu não estava procurando respostas. Deslizei as costas das mãos rapidamente nas laterais dos dois seios. Eu vinha fazendo isso com frequência cada vez maior; distraidamente, eu procurava caroços sempre que a lembrança da mamãe vinha à mente. Nils continuou a martelar, depois parou repentinamente, virando o rosto para mim. - Você está procurando respostas, Holly? - Quem sabe... - eu disse disfarçando, tentando parecer alegre. Ele desceu da banqueta e se sentou entre mim e o Harry no futon. - Holly... ? - Ele sussurrou meu nome como se fosse uma pergunta, me encarou, e finalmente eu cedi, enfiei a mão no bolso e tirei de lá o cartãozinho da senhora new age da lojinha. Passei para ele. - 27 -


- Frank Gellar: médium. Que é isto? - A senhora da lojinha me deu. Eu só... e se ela estiver por aí e quiser que eu faça contato com ela? - Quem? - Olha, não ria, tá? O Nils pareceu incomodado. Cobri o rosto com as mãos e sussurrei: - Minha mãe. - O quê? Não ouvi. - Ele afastou as minhas mãos do meu rosto. - Minha mãe. - Arregalei os olhos e esperei que o Nils dissesse alguma merda. Mas ele, de repente, só pareceu muito triste. - Hols... - ele falou, tocando a minha mão. Eu o afastei. - Não fique me paparicando. É só quando alguém próximo de você morre, então você vê o tipo de coisas malucas que começa a passar pela sua cabeça. E se eu morresse? Hein? Você não ia tentar fazer um contato... - Agarrei o cartão do futon e vi o nome. - Frank Gellar, e se ele pudesse nos reunir uma última vez? O Nils cedeu: - Se você morresse Holly, eu procuraria o Frank Gellar, com certeza. - Só fico pensando: e se ela está tentando entrar em contato comigo e não conseguimos porque não sei o que é importante e o que não é? E se ela estiver me enviando sinais que eu não estou percebendo? - Holly. - Nils. O telefone tocou. O Nils simulou surpresa. - Talvez seja um sinal! Dei um soco no braço dele com força e depois atendi o celular. Era o Paul. Enviei a chamada para a resposta automática. O Nils subiu na banqueta: - Quem era? - 28 -


- Ninguém - respondi, pegando de volta o pincel. - Eu esperava mais sensibilidade da sua parte. Ele virou o rosto para mim. - Eu gostava muito da sua mãe, Holly, você sabe disso. Isso não quer dizer que vou te dar força, vendo você dar um montão de dinheiro para um cara qualquer que vai explorar a sua perda e alimentá-la com um montão de falação hippie. - Ele saiu de novo da banqueta, aproximou-se de mim por trás e passou as mãos ao redor da minha cintura. Sério, Hols, se precisar de qualquer coisa de mim, para se sentir melhor sobre a sua mãe, estou aqui. Só acho que esse cara parece uma piada. - Na verdade, a gente não sabe nada dele. - Holly. - Talvez ele seja totalmente sério. - Eu me virei e encarei o Nils, as mãos dele escorregaram da minha cintura para as laterais dele. - Foi só uma ideia - prossegui, tentando disfarçar. - Esquece tudo que eu falei, tá? - Holly... - Esquece, tá bom. Acabe logo com essas lampadinhas.

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Cinco Antes de a mamãe ficar doente, uns quatro anos antes de morrer, nós duas viajamos até a ensolarada San Diego para visitar uma amiga dela, que estava morando com o novo marido perto do mar. Deixamos o Jeff em casa. Usamos maiôs inteiriços, nadamos no mar gelado e comemos Taco Bell, que ela nunca me deixaria comer se estivéssemos em casa, com a nossa dieta de queijo-granola-salada-no-jantar. Astrid, a amiga dela, gostava de Taco Bell. Ela curtia cigarros, praia, pele bronzeada e homens jovens. Então, durante um dia inteiro e uma noite, mamãe e eu vivemos como a Astrid. Ficamos vermelhas do sol e comemos sem parar: Taco Bell, picolés e raspadinhas de cereja de um quiosque na praia. À noite, ouvimos Bob Marley e fizemos Chili Reinos com feijãopreto e nossas próprias tortilhas, que fritamos em uma frigideira rasa repleta de óleo fervente. O filho de Astrid, Jason, veio nos ajudar na cozinha. Ele parecia ter a mesma idade do marido da Astrid. Eu tinha doze anos, era loira e bronzeada, e depois do jantar ele e eu dançamos pela sala, ao som de Warm Love de Van Morrison. Depois, assistimos a um filme velho em uma televisão minúscula. Astrid caiu no sono no meio do filme, mas Jason permanecia alerta, observando minha mãe assistir televisão. Os olhos se movimentavam entre a tela e o rosto dela e, quando finalmente passavam os créditos, ele se levantou, segurou a minha mão e disse: - Vamos fazer uma cama para você. Ele buscou lençóis e uma manta paquistanesa de um armário do corredor e fez para mim uma cama no sofá, com três travesseiros de seda do sofazinho laranja que eu - 30 -


amei. Mamãe e Astrid agora estavam na cozinha. Eu podia ouvir a água correndo e o barulho de pratos e talheres. Eu me enfiei embaixo das cobertas e ele puxou os lençóis bem esticados dos dois lados. - Que tal? - ele quis saber. - Bom! - afirmei e observei enquanto ele procurava o interruptor. - Você está bem? Quer água ou outra coisa? - Não - respondi, estudando a longa mecha de cabelo oxigenado que pendia da testa dele. Ele cheirava a cloro e perfume. - Quantos anos você tem? - Vinte. - Você tem namorada? - Por que quer saber? Senti as minhas bochechas pegarem fogo. Ele piscou para mim e apertou o interruptor na parede. A sala ficou escura. - Sabe, você é muito parecida com a sua mãe - ele prosseguiu. Minha barriga esquentou. Eu já tinha ouvido outros falarem isso, mas como eu o tinha observado olhando para a minha mãe, eu me senti ótima ao ouvir aquelas palavras. - Obrigada - sussurrei, enquanto os meus olhos se acostumavam com a escuridão. Agora conseguia perceber o contorno dele, movimentando-se pelo tapete até a cozinha. Ele ficou contra a luz e era lindo. Estava apenas a um metro da minha cama improvisada. - Um dia - ele prosseguiu, demorando-se na porta -, um dia aposto que você vai ficar a cara dela. - Depois, passou a mão na testa, penteando a franja e puxando todo aquele cabelo oxigenado e despenteado para o lado.

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Seis Hora do almoço. Saskia estava a duas mesas de distância, cutucando um prato com batatas fritas e salada, enquanto a garota na frente dela, Sarah qualquer-coisa, conversava e agitava as mãos, enfatizando os pontos de sua narrativa ao cutucar o ombro da Saskia com o dedo. Eu comia meu sanduíche de abacate sozinha, na minha mesa de sempre. Nils almoçava mais tarde nas quartas, então, uma vez por semana, eu comia sozinha. Almoço empacotado e lição de casa. Ou almoço empacotado e um livro. Desta vez era almoço empacotado, meu caderno de exercícios de espanhol e Saskia Van Wyck. Eu estava obcecada. Repentinamente. Como alguém que passou anos amando a adorável Saskia, popular, magrela e brilhante, poderia ficar, mesmo que ligeiramente, interessado em alguém como eu? Enfiei parte do tecido do meu vestido sob o elástico do sutiã e ele ficou lá, grudado na minha pele suada. Durante quatro dias, a temperatura não tinha ficado abaixo de trinta e três graus. Mesmo dentro do prédio, com ar-condicionado, eu não conseguia escapar do calor. De alguma forma impossível, Saskia parecia fresca como uma rosa. Refrescada e alinhada, mas, o mais importante, seca. Soltei o vestido embaixo dos seios e me endireitei. Com certeza, meu rosto estava brilhante e avermelhado, encolhi a cabeça, olhei para baixo, passando os olhos na folha de tarefas e pensando por que me sentia tão enjoada. Quando ergui o olhar, ela estava me encarando. Nossos olhos se encontraram por um ou dois segundos, depois ela se virou para a amiga.

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Educação Física. Pensei em cabular, mas acabei ficando. As minhas notas estavam uma droga depois da última primavera de merda e de um outono sem inspiração, e já que em menos de três meses seriam abertas as inscrições para as faculdades, calculei que um A fácil em Educação Física não ia me matar. Então, me conformei e fui. Troquei a roupa pela camiseta fedida e os shorts de ginástica no banheiro ao lado do vestiário e saí até o campo bege e seco, onde a grama parecia palha sob os meus tênis. Joguei quarenta e cinco minutos de futebol, sob o calor de trinta e quatro graus, com um bando de garotas loiras que pareciam igualmente indiferentes aos esportes coletivos; depois arrastei o meu ser suado do campo para a sala dos armários, onde tomei um banho de chuveiro gelado por vinte e cinco segundos, antes de entrar de novo no meu vestido e nos tênis secos. Depois disso, fui até o carro. Estava tentando tirar o cabelo do meu pescoço, juntado tudo em uma mão e prendendo-o com um elástico, quando, de repente, lá estava o Paul, bem do meu lado, sintonizando a sua passada com a minha. Ele não disse nada. Olhei para ele, ele olhou para mim, e continuamos a andar. Então, eu parei. Virei para o lado e disse: - Você está precisando de alguma coisa? - Ele estalou os nós dos dedos e respondeu: - Vem comigo. Após quarenta e cinco minutos de futebol, eu disse sim a um passeio. Disse que tinha de parar em casa e pegar o Harry, então pegamos o cachorro e fomos de carro até a montanha no cânion Red Rock. Harry deixou a cabeça para fora da janela e eu roía as unhas e enxugava o suor da testa enquanto observava Paul dirigindo. Ele fumou dois cigarros, cantou o refrão da música que tocava no rádio e, de vez em quando, se inclinava sobre mim como se estivesse tentando se esfregar em mim, ou algo assim, mas o apoio de braço e a alavanca do câmbio atrapalhavam. Estacionamos. Saímos do carro e caminhamos um tempo. Andamos, andamos, e, na verdade, não conversamos tanto assim, só ficamos com calor sob o sol e respirávamos com dificuldade; por fim, paramos para nos sentar em uma pedra. - Estou ficando obcecado por você, Holly. - 33 -


Eu não sabia o que responder. Não conseguia imaginar ninguém que gostasse realmente de mim, de verdade. - Mentiroso. - Não sou não. - Ele colocou a mão diante do rosto para bloquear o sol. - Lembrase de quando a sua mãe morreu? - Não. Levou um longo minuto antes de ele entender a piada, mas depois riu tanto que os olhos dele quase desapareceram. - Você é engraçada. - Acha mesmo? - Puxei o vestido que agora estava grudado na minha pele. Eu estava usando um vestido antigo de gaze de algodão da minha mãe e, de repente, me ocorreu que eu poderia estar pegando câncer de suas roupas. Eu me virei e, discretamente, passei a mão na lateral dos meus seios. Nenhum caroço. - Como você pode estar tão bem depois daquilo? Dei de ombros. Eles montaram um belo carnaval na escola quando a mamãe morreu. Fizeram um anúncio no sistema de alto-falantes e recebi toneladas de cartões dos meus professores e até alguns de alunos com os quais eu nunca tinha conversado. - Não sei - respondi, o que era verdade. Eu não sabia. Eu tinha ficado tão doente antes de ela morrer. Tinha perdido peso com ela, não conseguia dormir como ela, me sentia enjoada quando o estômago dela doia... Eu chorava o tempo todo. E, de repente, ela foi embora, e todos os meus sentimentos dolorosos foram com ela. Torrados. Queimados junto com ela no forno do crematório. Eu o encarei, ele olhou para mim, e fiquei imaginando por que ele se importava tanto. Pensei naquela noite na praia. Imaginei a boca dele na minha e refleti se alguma vez nos beijaríamos daquele jeito novamente. Se seria melhor do que tinha sido antes. Imaginei as mãos dele sobre a minha camisa, depois lá embaixo nas minhas calças, e pensei no que, exatamente, ele via em mim. - Aquele cara, o Nils, é seu namorado? - ele quis saber, remexendo um capim seco. - Não - respondi. - 34 -


- Você gostaria que ele fosse? - Não - insisti. Paul olhou para mim por longo tempo. - Acho que você é realmente especial, Holly. - Sério? - perguntei, divertida. Ele pegou um galhinho e jogou a alguns centímetros de distância. Depois nos levantamos e caminhamos de volta para o carro. O Harry correu na frente, levantando poeira pelo caminho. O Paul ficou atrás de mim, como se navegássemos por raízes embaraçadas, pedras soltas e as ocasionais pilhas de cocô de cachorro. Ele não tentou me tocar.

*** Quando o Harry e eu chegamos em casa, era pouco antes das seis. O carro do Jeff estava na entrada. - Olá! - gritei, subindo os degraus. Arranquei os sapatos e joguei a mochila de livros, a sacola de ginástica e a guia do Harry na cadeira perto da porta. - Tem alguém em casa? - Estamos aqui. - Ouvi a voz do Jeff, que eu segui até a cozinha. Lá estava ele, sentado com o Nils, duas garrafas de cerveja e uma pilha de cartas de baralho entre eles. - O que vocês estão jogando? - peguei a garrafa de cerveja do Nils e tomei um gole. - Mexe-mexe - Nils respondeu. - E com bebida para menores. - Ele só vai tomar uma - Jeff protestou, passando a mão no cabelo. Corri pelo piso de cerâmica até a geladeira. - Que tem para jantar? - 35 -


- Tem um pouco de salmão e sobras da abóbora de ontem à noite. - Hmm - eu disse, tentando achar algumas abobrinhas na gaveta de legumes. - Você está bem animadinha - Nils falou. - Onde você estava? - Andando. Com o Harry. - Tirei o salmão, uma tábua, e preparei o forno para assar. - Está louca? Você foi caminhar? Neste calor? - Eu gosto - menti, e soltei um pedaço da manga do vestido, ensopada e embolada, embaixo do braço. Passei um cubo de gelo do freezer no pescoço. - Noitada de filme? perguntei, mudando o assunto. - De novo? - É, de novo - respondi, segurando uma abobrinha no ar, feliz da vida. Depois do jantar, fomos até a locadora e pegamos qualquer coisa idiota para assistir, uma comédia romântica com um casamento e uma explosão, e a noite inteira foi ótima; o fim de semana que se seguiu também foi ótimo, não porque tenha acontecido alguma coisa fantástica, mas porque finalmente eu me senti um pouco feliz, e o meu futuro parecia um pouco menos desanimador, e havia uma pessoa lá, em alguma parte do mundo, que realmente pensava que eu era especial. Talvez as coisas estejam melhorando, pensei. Talvez agora eu pudesse esperar algo de bom no futuro. Na segunda, eu já estava em um estado de êxtase quase ilusório. Fui para a escola toda saltitante e assobiando, e lá estava o Paul, no saguão, encostado no armário. Acenei, mas ele não me viu por causa daquele enorme bando de garotos bloqueando a visão dele/minha, então passei por eles, ensaiando o meu "oi" várias vezes na cabeça. Eu dizia "oi, tudo bem?" de uma forma bem descontraída, como se fosse nada, apenas um oi, tudo bem? que parecia tão comum, mas que, na verdade, era tão íntimo. Mas, quando me aproximei, pude ver o que não tinha visto antes. Ele estava grudado em alguma coisa. Uma garota. Uma loira magrela, Saskia Van Wyck. Ele a pressionava contra o armário. Em segundos os meus olhos estavam turvos de lágrimas. Para ser honesta, talvez tenha sido melhor. Era melhor que estivessem turvos. Eu me virei e corri para o meu carro lá fora. Durante a maior parte do tempo fiquei lá, sentada apenas, grudada no assento quente de couro, chorando. Sei que parece idiota, pois o Paul nem era meu namorado, nem nada; para ser sincera, eu nem tinha certeza de gostar dele; mas algo - 36 -


dentro de mim dizia que aquilo era o fim para mim: minha vida no caos. Eu já tinha pago a minha cota de azar com a mamãe, em maio passado, e agora estava na hora de ter algo de bom. Ou, talvez, a sorte não funcionasse desse jeito. Talvez eu não tivesse direito a nada. Não vi o Paul nem a Saskia durante o resto do dia. No caminho para casa, com o Nils, tentei disfarçar o meu humor de cão. - Que há com você, sua esquisita? Hoje de manhã estava saltitante e alegre, e agora parece que foi atropelada por um caminhão. Não respondi nada. Ele prosseguiu: - Típico comportamento bipolar. Alegria esfuziante e tristeza profunda... - Não sou bipolar, cai fora. - Dei um soco no braço dele, com força, e mudei a marcha do carro para a terceira. - Não sei qual é o meu problema. - Era verdade, eu não sabia. Ele olhou para mim. Esfregou o braço onde eu tinha batido. - Imagine, não doeu nada. Ele puxou o cinto de segurança e se virou para mim. - Tem alguma coisa que não estou sabendo? Uma onda de tristeza passou pelo meu corpo. - Como o quê? - Tentei parecer menos desesperada. Perdi o meu velho Nils. O Nils para quem eu podia contar qualquer coisa, antes de essa droga de libido aparecer e acabar com tudo. - Estou menstruada - soltei, achando que isso fosse esfriar o Nils, louco para uma conversa de verdade, de abrir o coração. - Não se preocupe. Vou ficar boa. E fiquei. Consegui me controlar o suficiente para levar o Harry para se exercitar e para fazer jantar para o Jeff. Comemos diante da televisão, como sempre fazemos segunda à noite, mas depois, quando o Nils me ligou e perguntou se eu queria me encontrar com ele no Barraco, eu disse que não. Chega daquilo por um dia. Beijei o Jeff, adormecido, no rosto, e me tranquei no quarto. Ouvi os grilos. Olhei para fora pela janela. Desliguei todas as luzes e acendi uma vela. Tentei ler. Apaguei a vela. Então, o telefone tocou. Agarrei imediatamente pensando que era o Nils, tentando pela última vez me levar ao Barraco. Nem olhei o identificador. - 37 -


- E aí? "Holly?" Não era o Nils. - Ah, é você. "Está muito tarde para eu ligar?" Era o Paul. - Eu estava dormindo - gaguejei. - Pensei que fosse outra pessoa. "Ah, não. Sou eu. Desculpe ter te acordado." Não respondi nada. Queria que ele se sentisse mal. Ele prosseguiu: "É que eu não te vi na escola hoje e queria te dizer um oi." - Eu te vi. Ele acendeu um cigarro. Deu para ouvir o barulho do isqueiro Zippo, depois uma longa e uniforme baforada. Imaginei a fumaça saindo dele em uma linha fina, reta e cinzenta. "Que foi?" - Com a Saskia, eu te vi - falei irritada. Ele não respondeu nada, então prossegui - E aí? Você voltou com ela... ou o quê? - Sabia que não tinha o direito de ficar com ciúmes. Acho que eu parecia uma louca, mas ele estava me ligando e me fazendo sentir certas coisas, e eu achava que merecia uma desculpa ou explicação. "Voltamos, sim." - Ah. - Isso foi tudo que eu pude dizer, Ah. Não que tê-lo visto esfregando o corpo dele nela no corredor da escola não fosse uma confirmação, mas ouvi-lo dizer aquilo deu um tom tão oficialmente... oficial. "Gosto muito de você, mas a Sass está passando por um momento muito difícil agora. O irmão dela está doente, ela fica mal, lidando com essas coisas de família, e a gente já se conhece há tanto tempo. Não posso deixá-la sozinha. Ela teria um colapso nervoso, juro." Ele fez uma pausa, depois disse: "Ela não é como você, Holly". - 38 -


- Você está brincando! "Não, quero dizer, ela não é forte como você. Ela é frágil." Eu não conseguia imaginar a Saskia Van Wyck com dificuldade ao lidar com nenhum problema. Não conseguia imaginá-la se esforçando, fazendo exercícios e suando em uma academia, muito menos chorando por causa do Paul ou do irmão doente. Mudei o telefone para a outra orelha e apoiei a cabeça na vidraça. - Então o quê? Somos só amigos? "É. Por favor. Eu ia ficar mal se não pudesse te ver mais, Holly." - Tudo bem - eu disse bem calma, porque tudo estava bem. Eu gostava dele, pensei - pelo menos, eu queria a atenção dele -, mas a loira magrela tinha preferência. Que mais eu podia fazer? Ou dizia tchauprasempre ou pegava o segundo lugar. Será que era um mau negócio? "Você é ótima." Ele disse isso tentando parecer sincero, dava para perceber. E eu gostei que ele tivesse dito aquilo, de verdade; mas Saskia era ótima, não eu. Saskia era a primeira, e todos sabiam disso.

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Sete A nossa cantina na escola é bem pequena. Mais ou menos quarenta mesas redondas enormes, todas apertadas naquele pequeno espaço interno rodeado por vidro. Temos janelas na maior parte das paredes, exceto na parede no fim do prédio, onde estão montadas a cozinha e o caixa. Também há um pequeno pátio interno com umas dez mesas, ou mais, do lado externo, ao sol, mas eu nunca me sento lá. Sento na mesma mesa desde o primeiro ano, a que balança, perto da máquina de refrigerantes. A que tem uma vista óbvia da Central da Saskia. - O que é isso? - Nora, curiosa, quis saber, apontando para o meu sanduíche. Outro dia, outro almoço. Desta vez com a Nora, a namorada do Nils, ou seja lá o que ela for. - É um sanduíche - eu disse, lançando o olhar que-merda-é-essa para o Nils. - Ela quer saber o que tem dentro, bobona. - Abacate - cantarolei bem feliz, tentando me reconciliar com o Nils - e tofu. Nils pôs o braço nos ombros da Nora. As pontas dos dedos roçavam o bico do seio dela. - Então, estou pensando em fazer uma festa a fantasia. No meu aniversário. - Nora mordiscou a alface e mastigava enquanto falava. - É mesmo? - Nils respondeu.

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- Hum. Será que eu escolho um tema? Daí as pessoas podem se vestir como quiserem, de acordo com o tema. - Legal. - Meus pais já me deram o passe livre. Bem, eles vão ficar lá, mas eles são ótimos, sabia? - É, parece que vai ser divertido. - Você vai, Holly? Se eu der uma festa? A Saskia Van Wyck se movimentou, entrando na minha linha de visão. - Acho que sim. Quando é? - Ela pôs a bandeja perto daquela menina Sarah, de quem ela é amiga, e soltou uma risada bem alta. - Ainda vai demorar, 14 de dezembro. - Ah, então tá. - Minha atenção se voltou para Nora. - Que dia da semana? - É uma sexta - ela respondeu, dando outra mordida na alface. Sorri, disse claro vai ser ótimo, e me virei na direção da mesa da Saskia. Ela ainda ria. Ela parecia feliz, por algum motivo que me deixou realmente louca, muito louca. Ela não parecia uma garota triste com um irmão doente. Ela parecia uma candidata em um concurso de misses, e tinha acabado de ser coroada. - O que você está olhando? - Nora perguntou, cutucando o meu ombro. - Ah, nada - respondi, olhando intensamente quando o Paul entrou na cantina. Ele pôs um prato de batatas fritas perto da Saskia e acariciou a cabeça dela. Eles se beijaram. Rapidamente, mas com a boca aberta. Senti um aperto no coração. Eu suava. - Tudo bem? - Nora se preocupou. - É mesmo, sua porra-louca, o que está acontecendo com você? Está com a cabeça nas nuvens hoje? - Ela não está em nenhum lugar. - E me levantei, furiosa. Agora o Paul dividia a cadeira com a Saskia, distraidamente, passando os dedos no cabelo dela. - Preciso ir embora. - 41 -


- Para onde? - Nils perguntou. - Ainda temos quinze minutos até as aulas. Você nem terminou de almoçar. - Sabe o que é? Preciso estudar as minhas falas para o Ballanoff na próxima aula. Peguei a minha sacola de livros e o saquinho de papel pardo. - Vejo você mais tarde, no Barraco, talvez. - E saí.

*** Cheguei à sala de aula pálida. Estava transtornada, de forma desproporcional. Bufei um oi para o Ballanoff, depois fizemos o nosso aquecimento estranho. Aliterações, gritos primais, movimentos com o corpo e estrelas. Geralmente, eu sou orgulhosa demais para participar. Pulo essa parte da aula, fico empoleirada na beirada do palco, olhando os outros e comendo sobras de laranja do almoço. Ballanoff sempre me deixa à vontade, alegando que tudo bem, desde que eu esteja ciente de que ele tira pontos pela participação. Para mim, tudo bem. Um preço tão pequeno a ser pago em troca do meu orgulho. Naquela tarde, no entanto, participei do grupo. Gritei, chorei, fiz giros em círculos estonteantes. Recitei "três pratos de trigo para três tristes tigres" mais de dez vezes, até ficar sem fõlego e de língua presa. Depois nos separamos em grupos. Pete Kennedy e eu, juntos de novo, na mesma cena em que vínhamos trabalhando há semanas, aquela que não conseguíamos acertar porque eu não conseguia sentir nada de "verdadeiro". No entanto, desta vez, as coisas foram diferentes. Desta vez, as coisas estavam ficando ótimas. Depois da escola, a caminho do meu carro, ouvi passos agitados atrás de mim, depois senti um aperto na minha mão, e então me virei. - Ah! - Era o Paul. Soltei a mão e continuei andando. - Qual é! Holly, qual é, espere. - Ele acelerou o ritmo para que caminhássemos lado a lado. - O que está acontecendo? Fiz algo errado? - Oh, tanto mais anjo ela é por isso, e você, o demônio mais negro! Ballanoff caminhou até o nosso canto no palco. Ele não deu bronca nem me puxou para o lado, nem perguntou onde estava o "meu fogo", só assistiu enquanto eu lamentava - 42 -


e gritava e apertava as mãos com punhos irados. Até o Pete melhorou muito. Ele estava menos parecido com uma múmia, o que realmente fez diferença. Quando terminamos, o Ballanoff aplaudiu, a mão batendo na prancheta. - Olhem só, vocês dois - ele disse. - Olhe só você, Holly, acho que nunca vi você emocionada antes. O que foi isso? - Fui eu... puta da vida - respondi. Eu me levantei, enxuguei um pouco de suor embaixo do queixo. Depois sorri para o Ballanoff e, sentindo o primeiro momento de júbilo, desci do palco, saltitando.

*** - Não quero conversar com você - reagi; e, sem olhar para ele, tirei as chaves do bolso dianteiro da minha mochila. - Por quê? O que pode ter acontecido entre ontem à noite e agora? Somos amigos; lembra-se? - Não somos amigos - eu disse, indo mais devagar, pois chegara ao local do carro estacionado. Ergui as chaves e ele as agarrou, roubando-as antes que eu pudesse enfiar a chave na fechadura. - Devolva, por favor - supliquei. - Diga o que eu fiz que eu devolvo. Mas não era o que ele tinha feito. Ele não tinha feito nada. Olhei para a calçada. Lá, à esquerda do meu pé, estava uma lagartixa esmagada, meio decomposta. Morta sob o sol quente, ela parecia serena. - Não é nada... você não fez nada. - Então me diga por que você está puta. Eu não sabia por que estava puta. Ele estendeu a mão, balançando as chaves no dedo mindinho. Olhei para ele e depois relevei. - 43 -


- Pensei que podia ser sua amiga, mas não dá. Só isso. Então, tirei o chaveiro do dedo dele. Ele estava vermelho como um pimentão, e a veia da testa tinha saltado. Deixou os braços caírem e se afastou um passo. - Posso ir agora? - perguntei. Abri a porta e entrei. Paul deu de ombros e ficou olhando enquanto eu batia a porta do carro. Abri a janela. - Por favor, não me ligue mais - pedi. - Sério, Holly? Por que não? Pressionei o acelerador com força.

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Oito Mas ele continuou me ligando. A cada meia hora o telefone tocava, e eu enviava direto para a caixa postal. Ele não deixava recados e não parava de ligar. Durante todo o jantar o celular ficou tocando. O Jeff perguntou: - Você não vai atender mesmo? - Não - respondi, enfiando uma garfada de macarrão com queijo na boca. - Bem, dá para desligar, então? Isso está me deixando louco. Levantei da mesa, desliguei o telefone e o atirei de volta na minha sacola de livros. Jeff e eu continuamos a comer sem conversar, e depois do jantar fui para o meu quarto. Pensei no Paul e no quanto eu o odiava por fazer com que me sentisse tão insignificante. Pensei no Nils e no Jeff e no Harry, e em como eles eram tudo o que eu tinha. Pensei em como no ano que vem eu estaria deixando Topanga sabe-lá-Deus-para¬-onde, em como eu entraria na faculdade e depois me casaria e teria bebês; em como eu ficaria chata, envelheceria e depois morreria. Ou talvez não ficasse velha. Talvez eu morresse jovem como a mamãe. Morta aos quarenta e dois anos. Puxei uma caixa de sapatos que estava embaixo da cama. Um punhado de CDs, os prediletos da mamãe, os que eu gostava de deixar pertinho de mim. Tirei um deles, do Neil Diamond, e enfiei no toca-CDs. Selecionei a faixa número nove e me deitei na cama enquanto a minha música tocava. Holly Holy. A música da mamãe. A minha música, ela dizia. O meu nome vinha dela. Escutei aquilo várias vezes, durante mais ou menos uma hora, ora dormindo, ora acordada. Depois, ouvi três batidas na janela. Eu me sentei. Gritei. Era o Paul.

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- Por Deus, Holly, desculpe, eu só queria te ver e você não atendia o telefone. - Ele parecia um louco. O cabelo espetado, todo desalinhado. - Você está louco? - Não, deixe eu entrar, tá bem? Por favor. Olhei o relógio. Meia-noite e quinze. Eu me levantei, fui até a porta da frente na ponta dos pés e abri a tranca. Enfiei a minha cabeça pela abertura e chamei da lateral da casa. - Aqui - sussurrei, e Paul veio correndo. - Tire os sapatos. Ele descalçou os tênis, colocando-os lado a lado na varanda. Juntos, de meias, escorregamos pelo assoalho liso do corredor até o meu quarto. Lá dentro, Neil Diamond ainda cantava a mesma música, sem parar. Fechei a porta e me sentei na cama. - E aí? - Gosto do seu quarto. - Obrigada. - Mordisquei o meu lábio superior - O que você quer? - É o Neil Young? - Neil Diamond - corrigi. - Isso mesmo, o que eu queria dizer. - Por que você está aqui? Ele olhou para mim. - Só queria saber o que aconteceu hoje. - Não aconteceu nada - eu disse baixinho, com medo de que o Jeff me ouvisse. - Só não quero mais ser sua amiga. Não posso ser sua amiga. - Cerrei os dentes e coloquei a mão sobre o coração, tentando desacelerar aquele ritmo maluco. - Por que não? - 46 -


- Eu te disse... - falei, olhando para baixo. - Você já tem um montão de amigos. Ele apontou para a cama. - Posso ir até aí? Encolhi os ombros, indiferente. - O problema é a Saskia? - Agora ele estava sentado ao meu lado. - Eu expliquei tudo a você. - Você estava beijando a Saskia. - Quando? - Hoje, na cantina. - Ela é a minha namorada, Holly. Eu tenho de beijá-la. - Mas ele não tinha de beijála. Ele não tinha de namorá-la ou amá-la ou passar os dedos nos cabelos dela. É uma escolha, o amor. Mesmo se ela estivesse ameaçando se matar tomando remédios ou usando gilete, fazendo chantagem para que ele a amasse, o mínimo que ele poderia fazer era parecer triste por ter de retribuir o amor dela. - Você parecia feliz - continuei. Ele se aproximou de mim, nossos braços se tocaram. Meu estômago se contraiu e eu me movimentei para o lado, para longe dele. - Você está cansada - ele observou; de repente, ele parecia muito simpático. - Você precisa sair - concordei. Ele me encarou durante um longo segundo, depois ergueu os ombros. - Será que poderíamos dormir juntos? - O quê? - Prometo que não vou fazer nada. - Ele se levantou, puxando os lençóis. - Só vamos dormir. - Como? Não. - Não iríamos apenas dormir. Ficaríamos lado a lado, acordados e infelizes. Se ele me tocar, eu ficarei infeliz. Se ele não me tocar, eu ficarei infeliz.

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- Vem para baixo da coberta. - Ele subiu na cama, puxando o acolchoado de flores até o queixo. - Não vou entrar na cama com você - eu disse. Mas ele agarrou a minha mão e me puxou. Sem querer, eu ri. Logo estávamos juntos na cama, sob as cobertas, o Neil Diamond cantava Holly Holy sem parar, e embora ele tivesse prometido que não tentaria nada, em não mais de um minuto as mãos dele estavam enlaçando a minha cintura por trás. Ele me puxou para perto dele. - Não faça isso - falei. O rosto dele estava enterrado na minha nuca. - Não faça o quê? - ele respirou profundamente. As mãos ergueram a minha camisa. - Isso - sussurrei -, não faça isso. - Virei de costas. Ele me beijou. E não foi como da última vez, no carro. Da última vez parecia errado, mas, desta vez, parecia ótimo. É tão engraçado como algo tão errado possa parecer tão certo. Como antes, na praia, tudo parecera tão vazio... e como agora, com ódio e desejo e culpa pela Saskia, tudo acabava em uma sensação maravilhosa. Ele deslizou para cima a minha camisa, passando-a pela minha cabeça. - Posso passar a noite aqui, Holly? - Você precisa sair antes do Jeff acordar. Dava para ouvi-lo tirando as calças por baixo da coberta. - Eu penso em você o tempo todo - ele afirmou, e depois me puxou, e eu o deixei dizer coisas agradáveis para mim, deixei que ele tirasse a minha calcinha. - Tudo bem? - ele quis saber, passando a mão sobre a minha barriga. Fiz que sim e rocei os meus lábios contra os dele. Eu sabia que ele tinha outra pessoa com quem se preocupar. Eu sabia que ele a amava, não a mim. Mas era a minha vida e a minha cama, e eu queria sentir o que eu queria sentir. Se eu morrer amanhã, pensei, pelo menos vou morrer sabendo que senti algo de verdade.

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Nove Foi aí que as coisas começaram a ficar um pouco complicadas. De repente, eu tinha um segredo, que me fazia sentir culpada, sim, mas eu também me sentia ótima. Senti o oposto da morte, era realmente o que eu buscava e, de repente, alguém me desejava como eu nunca tinha sido desejada antes. Nem me importava em ter de manter segredo. Ou seja, pensei que toda a situação era um bocado melancólica, mas eu sabia que eu era a pessoa que ele mais desejava. Que se ela não fosse tão frágil, tão instável, na realidade ele ficaria comigo. Não com a Saskia. Não haveria segredo. - Ela é frígida. - Não, não é. - Holly, ela é, ela não quer transar comigo. Estávamos no banco traseiro do meu carro, estacionado na praia. Paul fumava. Minhas janelas estavam abertas. - Você está mentindo - eu disse. - Não estou, não. - Vocês ficaram juntos três anos. Você transou com ela. - Eu prendi e desprendi o cinto de segurança. Ele fez que não com a cabeça. - Ela está se guardando. - Ele riu e tirou o cigarro da boca. - É tão ridículo que a gente ainda esteja junto... - 49 -


Eu odiei ouvir que ele estava com ela e não comigo. Apenas duas semanas tinham se passado, nós dois fazendo o que estávamos fazendo, e eu já me sentia possessiva. Ele passou para o outro lado e pegou o meu rosto entre as mãos. - É tão melhor com você. É fácil. Tudo parece se encaixar com você. Adorei isso. Quando ele me comparou com ela. As coisas eram mais simples comigo. Eu era melhor que ela. No dia anterior, na escola, eu os observei no saguão juntos. Batendo os quadris enquanto andavam. Eu a vi cochichando algo no ouvido dele, enquanto ele lhe segurava as mãos e mordiscava a gola da camisa polo Lacoste dela. Três garotas passaram por eles, acenando as mãos, Paul se inclinou para Saskia e a beijou. Deu um beijo na boca dela diante de todo mundo, e ela sorriu, um meio beijo, e o afastou, batendo nele com delicadeza com a palma da mão. Nils estava comigo. Ele também observou. Estávamos recostados em nossos armários no saguão, dividindo um saco de pipocas com queijo. Ele disse: - Esses dois são nojentos. Sério. A felicidade daquele jeito deveria ser proibida por lei. E ele poderia dizer o que quisesse, mas tudo parecia mentira para mim. Eu me senti mal por ela. Saskia Van Wyck, frágil e frígida. Pobre menina, pensei, observando-os passar bem do meu lado. Os braços unidos como bonecos de papel. Você pensa que ele é seu, mas não é. Pensei. Você pensa que ele é seu, mas, na verdade, ele é meu.

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Dez Certa vez, anos atrás, mamãe organizou uma reunião de cristais na nossa sala de visitas. Eu tinha dez anos, fiquei correndo por ali de meias e de camisola branca comprida, enquanto dezenas de hippies new age de meia-idade se movimentavam em meio à confusão, degustando chá de alga kombu, acariciando pedras e discutindo sobre energia. - Quem são essas pessoas? - Jeff perguntou. Ele estava sentando na bancada de granito no meio de nossa cozinha. - Não tenho a mínima ideia - disse, correndo na direção dele e escalando a lateral da bancada para que ficássemos lado a lado. - Será que eles sabem que moramos aqui? Jeff indagou. Ele girava um bastão comprido de quartzo rosa entre o polegar e o dedo médio. - Imagine - eu disse, me ajeitando na bancada e olhando a multidão. Mamãe se movimentava facilmente de círculo em círculo, feliz da vida, enchendo os copos, parando de vez em quando para verificar alguma rocha e discutir a sua forma singular e o seu poder de cura. - Gosto daquela senhora - falei, apontando a cabeça na direção de uma mulher com um blusão amarelo cítrico, examinando um pedaço de ametista. - Amei as tranças dela prossegui, puxando o meu próprio cabelo. Jeff concordou.

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- Que tal aquele cara? - ele disse, apontando para um jovem de cabelo loiro-claro, circulando ao redor da mamãe. - Ele vem tentando conversar com a sua mãe na última meia hora. - jeff olhou para mim. - Você acha que ele gosta dela? - Como assim, gosta dela? - perguntei, horrorizada. - Ah, não. - Eu acho que ele gosta dela - Jeff respondeu divertido. Nós dois voltamos o olhar para a minha mãe. O cara tentava conseguir entrar na conversa da minha mãe com outra mulher. - Tenho certeza. Sei que estou certo - jeff continuou, cutucando meu ombro. - Talvez - concordei, virando o rosto para ele. - Mas você não fica furioso com isso? Ele passou a mão na minha cabeça. - Isso me deixa orgulhoso - ele respondeu, bagunçando o meu cabelo e depois me puxando para a frente em um abraço apertado.

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Onze De repente, Nils desconfiou. Ele tinha parado de ficar bolinando a Nora Bittenbender por tempo suficiente para perceber a minha alegria histérica. - Você parece diferente - ele disse, dobrando uma página do livro e virando-se para mim. Encolhi os ombros. Estávamos no Barraco, após a escola. Já eram quase seis horas e escurecia lá fora. - É só que... estou com a nítida impressão de que você está escondendo alguma coisa de mim. Virei para o lado, me divertindo, e o encarei do futon: - Ah é? Tipo o quê... O que eu estou escondendo? - Não sei. Você está contente o tempo todo. Como se, de repente, as coisas estivessem maravilhosas. Forcei um franzir de olhos e tirei uma mecha de cabelo da testa do Nils. Ele me olhou para o golpe final. - Vou tentar adivinhar... Você está apaixonada! Eu bufei. - Ou talvez tenha ganho na loteria! - Poderia ser.

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- Ou talvez você tenha conseguido aquele morceguinho frugívoro que sempre quis. Aquele que vimos nas folhas brilhantes da National Geographic não faz muito tempo... - Aquele mesmo? - juntei-me à brincadeira, animada. - Exatamente aquele. Levei as mãos ao coração. Nils respirou fundo e deixou a cabeça pender para trás no futon. - Então, me conte a verdade. Deitei de costas e fixei os olhos no teto. Não poderia falar sobre o Paul. De jeito algum. - Nada disso. Vou acender as lampadinhas de Natal. Está ficando escuro. - Eu me virei para o lado e enfiei o pino na tomada. - Holly. - Nils. - Vamos lá, deixe de brincadeira. O que está acontecendo? - Nada. Só estou me sentindo bem. Precisa haver algum motivo? - Tentei ao máximo fazê-lo acreditar. - Talvez a nuvenzinha preta finalmente tenha sumido. - Pensei que a gente contava tudo para o outro. - Não contamos tudo para o outro. - Contamos, sim. - Não contamos nada, idiota. Não sei nada de você e de suas coisas com aquela garota. - Isso porque você não quer saber de nada. Eu te contaria se você me perguntasse. E por que você não consegue falar o nome dela, Holly? Você sabe o nome dela. - Verdade, sei o nome dela. - Diga aí. - Nora... Puta-bender. - 54 -


Nils se sentou, furioso. - Ela não é uma puta. Por quê? Só porque ela não é nenhuma virgenzinha perfeita, agora ela é uma puta? - Tudo beeem, ela não é uma puta. Mas não gosto dela mesmo assim. E você também não gosta dela! Lembra-se disso? Ela é idiota, Nils. Você só está com ela porque ela trepa com você. - Você está com ciúmes. Eu ri. - Com ciúmes do quê? Das risadinhas de sempre? De toda aquela profundidade sem fim? - Fiquei de joelhos. - Ah! Ou então... Espere só para ver a festa a fantasia do aniversário dela. Aposto que terá alguma coisa a ver com biquínis! - Tudo bem, Holly, pode parar. Inclinei a cabeça para o lado. - Você é um cara esperto, Nils. Não entendo por que você sai com uma garota como ela. - Um dia você vai entender. Você vai investir mais que dois segundos em alguma coisa ou em alguém, daí a gente conversa. - Você acha que sabe tudo sobre mim? - Eu me levantei. - Você não sabe nada. Eu investi em coisas que você não está sabendo. - Claro! - Olhamos um para o outro. Nils segurou a minha mão e me puxou para baixo. Ele me olhou bem nos olhos. Hesitei por um momento. - Olha, não posso falar nisso, tudo bem? Dá para entender, não é? Porque não posso. Pelo menos, não agora. -Tudo bem. Eu o agarrei e enlacei o pescoço dele. Fiquei bem juntinha, um ou dois segundos, antes de me separar dele. - Você a traz aqui? - Quem? A Nora? - 55 -


Fiz que sim com a cabeça, as minhas mãos escorregaram para os ombros dele. Você traz? - Não, Holly, claro que não. Este é o nosso lugar. Ficamos de bem, cruzando os mindinhos. Depois, nós dois deitamos de volta, junto com nossos livros. Nils se esticou, passou um dedo no meu cabelo e sussurrou: - Adoro brigar com você. - É um barato, não é? - observei, e encolhi os joelhos no peito. - Me faz sentir tão vivo! - ele provocou, pegando uma porção bem grossa de cabelo e puxando a minha cabeça com força para o lado.

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Doze Meio de novembro. Eu estava ajudando o Ballanoff a carregar duas pilhas enormes de livros até o escritório dele. Falávamos sobre coisas idiotas. Coisas superficiais. A escola e papai e um novo trecho da peça As bruxas de Salem, que estava sendo discutido na aula. E, de repente, surgiu aquele silêncio na conversa e sei lá por que eu disse o que disse, mas veja só o que acabou saindo da minha boca: - O Jeff me disse que você tinha uma queda pela minha mãe. É sério. O Jeff garante que o Ballanoff estava a fim da minha mãe na escola. Você deveria ver a cara dele. Parecia um veado petrificado. Holofotes. Ou faróis. Ou seja lá o que for. - Ele disse isso, é? - É verdade? - perguntei, enquanto eu confirmava com a cabeça. Ele ficou buscando as chaves no bolso do paletó, depois abriu o trinco da porta. - Entre, fique aqui um pouco. - Nós dois largamos os livros sobre a mesa bagunçada. - Quer um pouco de chá gelado? - Ele se curvou diante no frigobar. - Quero sim. - Diet? - ele quis saber, pegando duas Snapple. - Pode ser. Ele me passou a bebida e se sentou na minha frente. - Sim, é verdade. Eu tinha uma queda pela sua mãe. - 57 -


- É mesmo? - É. Aquilo foi chocante para mim. Eu adorava a ideia da minha mãe ter existido antes do Jeff. Só tinha outro cara de quem eu sabia um pouco, o cabeludo Michael, o namorado da mamãe na faculdade. Mas, agora, tinha mais este. - Aconteceu alguma coisa? - Como o quê? - Não sei. Você contou a ela? Você foi atrás dela? - Ele apenas olhava para mim, então eu me inclinei para a frente e disse: - Senhor B., o senhor namorou a minha mãe? Ele meio que sorriu, meio que tossiu, como se estivesse limpando a garganta. - Não, Holly, não namorei a sua mãe. - Vocês se beijaram? - Holly! - Vamos lá, você não está se abrindo. Ele se movimentou no assento, apertando os lábios. - Uma vez. Quando tínhamos a sua idade, ou quase. Não foi nada. Para ser sincero, não acho que ela estava muito a fim. Pisquei. - Você ficou triste quando ela morreu? - Na verdade, eu ficaria muito triste se alguém que eu tivesse amado de verdade morresse, um dia. - Claro, fiquei muito triste. - E então ele realmente pareceu triste. Eu poderia estar enganada, mas juro por Deus que seus olhos ficaram um pouco úmidos. - Eu queria visitar um médium - disparei. - Para quê?

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- Não sei. Queria ver se conseguia fazer uma conexão com ela. Só para saber se ela está bem. Ballanoff se mexeu na cadeira. - Você conhece algum médium bom? - brinquei, para continuar a conversa. Recebi um cartão daquela mulher da livraria no centro. Aquele lugar new age bem ao lado do Nature Mart. Ela me deu o cartão de um amigo. - Fiz uma pausa de um segundo, e, como o Ballanoff não dizia nada, falei: - Você acha que eu sou louca. - Não acho você nem um pouco louca. Daí a gente ficou se encarando durante um minuto, o que me assustou, mas acho que, de repente, o Ballanoff ficou muito triste, só isso. - Você se parece tanto com ela - ele falou. Todos dizem isso. O tempo todo as pessoas dizem isso, e eu sei que isso deveria me deixar ótima, mas, na verdade, me embrulha o estômago. O mesmo cabelo, a mesma pele, as mesmas covinhas de violino no fim das minhas costas. E, se eu me parecia com ela, quem poderia dizer que eu não morreria como ela? - Já ouvi isso antes. Um par de vasos - exclamei, enrolando uma mecha de cabelo entrelaçado entre dois dedos.

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Treze Paul e eu bolamos um sistema para nos vermos. Principalmente nas vésperas de aulas, depois da meia-noite. Depois que Jeff, Nils e Saskia estivessem dormindo, ele vinha de carro, batia na minha janela, eu disparava pelo saguão para abrir a porta da frente, depois ele ficava na cama comigo. - O Ballanoff e a minha mãe se beijaram uma vez, quando eles tinham tipo dezessete anos. - Passei o braço no peito do Paul. - Mentirosa! - É sério - sussurrei. - Ele me contou hoje. Depois da aula. - Você não surtou por causa disso? - Acho que é legal. Gosto de pensar na minha mãe quando ela tinha a minha idade... e também gosto da ideia de ela ter feito coisas antes de ser minha mãe ou de ser a mulher do Jeff, sabe? Paul fez que sim e passou a mão na minha cabeça. - Por que você chama o Jeff de Jeff? - Às vezes eu o chamo de papai, diretamente. Mas, não sei, quando eu era pequena, eu achava que era bem engraçado chamar o papai de Jeff. Acho que eu queria ser adulta. E parecia uma coisa tão adulta! Ele alisou a minha cabeça, escorregando a mão para baixo, segurando o meu cabelo. - Como você chamava a sua mãe? - 60 -


Atirei a cabeça para trás para que pudesse olhar para ele. - Eu a chamava de "mãe". Ele riu. - O que é tão engraçado? - mordi o ombro dele e enrosquei a minha perna ao redor dele, embaixo das cobertas. - Na verdade, não vejo a hora de você conhecê-lo, - Quem? - O Jeff, cara. Pressionei o meu nariz nas axilas dele. Ele cheirava a uma mistura abrandada de desodorante Right Guard e CC. - Holly - ele falou, apoiando-se nos cotovelos para ficar cara a cara comigo -, não posso conhecer o Jeff. - Por que não? - O que você vai dizer? Este é o meu amigo Paul, ele não é o meu namorado, mas dormimos juntos às vezes. Ah, ele também tem uma namorada. - Bem, eu não teria de dizer nada disso. Eu poderia simplesmente dizer que você é meu amigo. É verdade. - Sim, mas, e se ele conhecer os pais da Saskia, ou algo assim? - Os pais da Saskia? Ele não conhece. - Você não pode ter tanta certeza. E se ele conhecer? Eu me sentei. - Então você nunca vai conhecer o meu pai? E o Nils? Você sabe que ele já começou a fazer perguntas, e eu não sei mais quanto tempo eu consigo esconder isso dele... - Como assim, ele tem feito perguntas? - Bem, sabe, acho que ele percebeu como estou feliz. - Se você contar para qualquer pessoa sobre nós, juro por Deus, Holly. - 61 -


- Juro por Deus, o quê? - puxei o lençol, prendendo-o sob os braços, como às vezes as mulheres nuas fazem ao sair do banho. - Só estou dizendo que ninguém pode saber. Eles... eles não podem saber. - Ele baixou a voz um pouquinho. - A Saskia morreria se descobrisse. Nunca poderemos contar a ninguém. - Bem, e se vocês romperem? Não vamos poder ficar juntos? Às claras, de verdade? Ele abrandou. - Se a gente romper, sim, claro, acho que então vamos poder conversar. Mas não conte para ninguém, Holly. Não faça isso. Ninguém pode saber de nada, tá bem? Concordei com a cabeça, mas eu queria chorar. Em vez disso, engoli tudo, me deitei, e fiquei tentando me lembrar por que essa coisa toda parecia tão ótima no começo. Ele se aninhou perto de mirra , depois descansou a cabeça sobre o meu peito. - Adoro ficar com você. É sério. - Eu sei - respondi, entrelaçando os meus dedos com os dele. Ele prosseguiu: - Seria uma pena se alguém descobrisse sobre nós e tivéssemos de parar com tudo. Meu estômago se contraiu. Flexicionei os dedos, para que as nossas mãos não ficassem mais entrelaçadas. Ele mordiscou o lóbulo da minha orelha e passou a mão livre entre as minhas coxas. - O seu cabelo cheira tão gostoso. Como rosas. - Xampu novo - murmurei, e me virei para o lado, me afastando dele.

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Catorze Como se fosse um indício cósmico no dia seguinte, na aula de História Geral, Saskia e eu ficamos trabalhando juntas, em grupo, naquele terrível projeto - uma colagem temática sobre a Mesopotâmia antiga. - Você tem alguma ideia do que deveríamos fazer? - Ela me olhava fixamente, alisando a ponta do cabelo com os dedos. - Na verdade, não - respondi, com um riso nervoso. - Parece mais um trabalho de arte e artesanato do quarto ano. - Eu me levantei e fiquei circulando ao redor da minha mesa, ao fundo. - Então a gente só seleciona um monte de imagens e faz uma colagem? Estávamos juntando as mesas, e tudo o que eu conseguia pensar era que aquilo não era minha culpa, mas o Paul ia me matar. - Sim, basicamente. Acho que podemos fazer cópias de alguma coisa da biblioteca. E também tem material nos nossos livros que podemos usar. Saskia se largou no assento. - Sei que a gente se conhece, parece idiota eu ficar me apresentando a você, mas acho que nós nunca conversamos... oficialmente. Meu nome é Saskia. - Holly - eu disse, olhando para o relógio na parede. Merda, mais quinze minutos disso. Tique. Taque. Tique. Taque. - A gente já estudou na mesma classe antes, não é? - 63 -


- Mesma turma, no sexto ano. - Da senhora Shapiro? Fiz que sim com a cabeça. - Verdade, eu me lembro bem. Saskia se inclinou para a frente, tocando um dos meus brincos de pingente de prata. - Amei esses brincos. Sempre que você está com eles, eu fico olhando. Você percebeu? Eu encaro demais as pessoas. - Não percebi. - Gostaria de ter notado. - Onde você comprou? - O quê? - Os seus brincos. Em Los Angeles? - Ah, eles são da minha mãe - respondi. E então isso meio que encerrou a conversa, pois ela sabia sobre a minha mãe. Todos sabiam. Mas ninguém sabia o que dizer. Ficamos olhando os nossos livros escolares durante os últimos dez minutos de aula. Saí do esquadro em algum ponto por volta da página quatrocentos, relendo a mesma legenda mil vezes, pensando em como a Saskia parecia ser legal, e em como o Paul ficaria maluco se descobrisse isso: ela e eu trabalhando em dupla na sala de aula. Então imaginei a mamãe na nuvem dela. Depois o sinal tocou e empurramos as mesas de volta no lugar, a Saskia se virou para mim e disse: - Por que você não traz um monte de fotografias para a próxima aula, e eu faço a mesma coisa, depois começamos a colar tudo juntas? - Acho que já temos um plano - eu grasnei, agarrei a minha sacola de livros e disparei para a saída. - Ei, espere - ela gritou para mim. - Nós nem dividimos a linha do tempo! Que metade você prefere? Eu já estava fora da porta.

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- Qualquer uma... - respondi, olhando para trás - ... eu fico com a invasão da Grécia e tudo o que vem depois. - Tá bom! - ela disse, agitando a mão para se despedir. E foi assim. Mais um segredo a ser guardado. Saskia Van Wyck: minha novíssima melhor amiga.

*** - Aonde estamos indo? Paul e eu estávamos dirigindo em Los Angeles. Ideia dele. Ele disse que ia me levar a um local ótimo. - Não é bem um lugar. Ou melhor, é um lugar, mas não um lugar lugar. Dirigimos subindo a Sunset, para longe da praia, na direção da cidade grudenta. As janelas estavam abertas, a música, alta, e o ar ficava cada vez mais quente a cada quilômetro marcado no hodômetro. Não conversamos muito durante o caminho, o que foi bom, porque eu realmente não estava a fim de falar, depois finalmente Paul parou o carro naquela linda ruazinha residencial em algum ponto de Hollywood. - Onde estamos? - Entre Hollywood e Sierra Bonita. Olhei para ele, perplexa. - É mal-assombrada. É o que dizem. Acho que poderíamos ficar sentados aqui por um tempo, só para ver. - Ver o quê? - Quem sabe, se a gente se concentrar bastante, talvez consiga sentir a sua mãe. Ou algo assim. E foi então que percebi que aquilo era a coisa mais legal que alguém já tinha feito por mim. Atirei os braços ao redor do pescoço dele e senti uma vontade imensa de chorar, mas me contive. Fiquei abraçada nele, deixando que ele acariciasse as minhas costas, - 65 -


depois me afundei no assento e passeei os olhos pelo céu, para o sol que estava se pondo. Ele passou a mão no meu pescoço e desligou o carro. Fechei os olhos e pensei na mamãe, mas sem a fantasia da nuvem. Pensei em como ela era quando ainda era jovem e bonita, antes de o câncer ter corroído o seu corpo. Eu a imaginei saudável e perfeita, e depois disse o que queria falar para ela lá dentro da minha mente. Disse, sinto falta de você, mamãe, eu te amo, mamãe, nada é igual depois que você partiu. Contei-lhe do Jeff e de como ele andava triste nos últimos meses, de como os armários ainda estavam abarrotados com as roupas dela, e como a casa ainda tinha o cheiro dela. Disse-lhe que o Jeff tinha dito que até o Harry tinha chorado na manhã em que ela morrera. E depois falei sobre a escola e sobre o Paul, e contei como eu me sentia culpada, mas que ele era legal por ter me levado até ali. Talvez tudo valha a pena, pensei, pois ele realmente tinha me trazido até você. Então, senti cheiro de cigarro e olhei para a minha esquerda, Paul fumava um cigarro, os pés sobre o console, os olhos bem abertos encaravam um ponto fora da janela. Perguntei: - Ei, o que você está olhando? - Ele apenas se virou, sorriu para mim, e respondeu que não estava olhando para nada. - Você sentiu alguma coisa? - ele quis saber. Eu disse que sim, depois segurei as mãos dele e repeti obrigada um milhão de vezes. Em seguida, conversei sobre o médium que eu queria ver. Contei sobre a senhora na loja new age de Topanga e sobre como eu queria ver se o amigo dela conseguia trazer uma mensagem da minha mãe para mim. - Você vem comigo? - perguntei. - Você quer mesmo que eu vá com você? Respondi que sim, e ele falou que iria com todo o prazer. Então eu soube imediatamente que o que estávamos fazendo não era errado. Que eu não era uma pessoa má e que, por mais legal que a Saskia fosse, essa coisa entre mim e o Paul era maior que qualquer coisa que nós imaginávamos ser. Pensei, a Saskia é um amor, mas ela terá de se afastar. Então, Paul ligou o carro. Jogou o cigarro meio fumado para fora da janela, acelerou o carro e estávamos rodando de volta, descendo a Sunset Boulevard, e toda Los Angeles escurecendo no brilhante espelho retrovisor do Paul. Tudo foi maravilhoso depois disso. Durante vinte e quatro horas seguidas circulei por aí me sentindo superfeliz e bem. Voltei para casa, jantei com o Jeff, dormi direto à - 66 -


noite, tirei um montão de xerocópias na biblioteca antes das aulas da manhã seguinte... Depois, consegui cortar, colar e ficar distante da Saskia Van Wyck durante toda a aula de História Geral. Naquela noite, Nils e eu ficamos lendo juntinhos no Barraco durante mais ou menos uma hora. Pegamos um prato de brownie queimado que a mãe dele tinha feito brownie rejeitado, era como ela o tinha chamado -, e remexemos as coisas tentando nos sentir confortáveis no futon junto com nossos romances. Depois disso, voltei para casa, me enfiei na cama e esperei o Paul. As visitas do Paul, na maior parte das vezes, não eram planejadas, mas acabaram por se tornar bastante previsíveis. As noites de segunda-feira nunca eram boas por causa das porcarias familiares obrigatórias, e os fins de semana eram uma merda porque pertenciam a Saskia. Assim, as terças e quintas eram de ouro, as quartas também, mas as quartas eram pura sorte; saber se ele apareceria ou não geralmente dependia do humor dele. Era quinta-feira e, desde que aquilo tinha começado, Paul nunca deixara de vir às quintas. Então, fiquei sentada na cama e aguardei. Deitei no chão e esperei. O tempo passou, a lua surgiu, ouvi duas vezes e meia a seleção de aniversário que o Nils tinha feito para mim no ano anterior e... nada. Já era uma e meia. Verifiquei o celular. Olhei para fora pela janela e espiei a entrada de carros. Tentei dormir, mas não consegui, e quando finalmente percebi que ele não apareceria, fui até o Harry na sua pequena cama fedida no chão da cozinha e o trouxe para dormir comigo. Na manhã seguinte tomei uma ducha bem rápida e corri para chegar cedo à escola. Eu tinha vinte minutos antes de as aulas começarem. Sentei no morrinho ao lado do estacionamento e fiquei esperando o BMW do Paul chegar. Finalmente ele apareceu, às vinte para as oito, e eu saltei do morrinho na direção do carro dele. - Oi - eu disse, olhando em volta antes de me inclinar para um beijo. Ele se afastou, enfiando o corpo de volta no carro. - O que você está fazendo? Holly, é sério, sai pra lá. Recuei, depois rapidamente disfarcei com um sorriso. - Por quê? Ninguém está vendo. Qual é o grande problema? Ele agarrou a mochila do banco do passageiro, levantou-se e bateu a porta do carro. - 67 -


- É só que na escola não, tá bem? Olhei para baixo. Murmurei: - Você não quer que a sua preciosa Saskia veja... - E depois: - Onde é que você estava ontem à noite? - Fiquei em casa. - Casa casa? - O quê? Fale em língua de gente. - Agora estávamos andando. Na direção da entrada lateral perto do ginásio. - Era quinta-feira. - Traduza isso, Holly. - Eu só estou dizendo que você poderia ter ligado se não ia passar por lá. Fiquei te esperando acordada. Ele parou e se virou na minha direção: - HolIy. Não tínhamos nada combinado. Eu não te pedi para ficar acordada me esperando. - Mas você sempre vem às quintas. - Holly, - O jeito dele de ficar repetindo o meu nome o tempo todo fez com que eu me sentisse pior que nada. - Você não é minha namorada. Você não é minha namorada. Você não é minha namorada. Isso ficou ecoando na minha orelha. Eu te odeio, pensei, enquanto ele me puxava pelo campo colorido de um cinzaamarronzado até a arquibancada. Nós nos enfiamos embaixo dela, de gatinhas. - Precisamos estabelecer algumas regras de base? - Estava frio onde estávamos. A maior parte estava na sombra, exceto algumas finas listras de luz dourada que batiam no corpo do Paul e no gramado seco abaixo de nossos pés. - Eu gosto de você, Holly. De verdade. Mas não vou ficar fazendo essa porra de jogo de namorada-namorado com você, entendido? Eu já tenho de lidar com um relacionamento. - Ele tirou o maço de cigarros Camel do bolso. - O nosso lance deveria ser fácil. - Então o quê? O que é isso? Eu não devo ter nenhuma expectativa? Ele acendeu um cigarro e, com o filtro preso entre os dentes, falou: - 68 -


- Bem, quando você coloca a coisa desse modo, você me faz parecer um completo babaca. Olhei furiosa para ele. - Não fique me encarando desse jeito - ele falou ofegante, tragou o cigarro com força e depois soltou uma baforada. - Você sabia onde estava pisando. Você sabia como teria de ser. Não estou fazendo você passar o tempo comigo, Holly. Se quiser cair fora, é só dizer. Olhei para o chão e chutei um monte de terra. Ele passou o indicador sob o meu queixo. - Por que você tem de ser tão legal? - ele perguntou, erguendo o meu rosto e depois pressionado os lábios dele nos meus. - Garotinha carente - ele sussurrou carinhosamente. Meu estômago revirou. Não sou carente, pensei, me afastando. Passei a mão atrás da cabeça dele e agarrei aquele rabicho de cabelo desalinhado que ele tinha pendurado atrás do pescoço. - Que gostoso! - ele sussurrou. Eu segurei com mais força e puxei violentamente para baixo. - Que merda, Holly. Qual é? - Ele soltou um leve grito, depois agarrou o meu rosto bem rápido e me beijou com tanta força que doeu. - Ai, meu Deus - guinchei, me afastando e tropeçando para o lado. Ele riu e balançou a cabeça. - Holly, você é uma garotinha engraçada, sabia? - E enxugou a boca na manga da camisa. - Vejo você por aí - completou, dando a última tragada no cigarro e enfiando-o em um montinho de terra endurecida no chão.

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Quinze Passei a minha janela da quinta aula sentada na quadra de basquete, dobrando e desdobrando o cartão de visitas do vidente. Frank Gellar: médium. Li as palavras várias vezes. Depois, busquei o meu celular na mochila, achei, acariciei-o durante um sólido e torturante minuto antes de conseguir controlar os nervos, para finalmente teclar. "Oi, aqui é o Frank..." blâ-blâ-blá... - a minha chamada caiu direto na caixa postal. "Deixe um recado e retorno assim que puder. Obrigado e Deus te abençoe." - Eu esperava um cara com voz bonita e sensual. E, no fim, a voz dele parecia igual à da maioria dos caras new age ao redor de Topanga – super ofegante e nada sensual. No entanto, Frank apenas parecia cansado. - Oi - eu falei com voz estridente, em resposta ao bip mecânico. - Meu nome é Holly Hirsh. Peguei o seu telefone com a... - e então percebi que não sabia o nome da senhora que tinha me dado o cartão e prossegui -... bem, consegui o seu telefone e gostaria de agendar um horário para... bem, gostaria de marcar um horário. - Deixei o número do meu celular antes de desligar. Então o Frank era velho. Achei isso reconfortante. O velho e bom Frank, pensei, me sentido triunfante. Eu tinha telefonado! Eu tinha feito algo proativo! Eu tinha dado um passo na direção que me levaria a algo realmente fantástico. Ou iluminador. Ou algo assim.

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No carro, depois da escola com o Nils e a Nora, disse-lhes o que eu tinha feito. - Meu Deus, Holly. Pensei que a gente tinha conversado sobre isso. - E daí? Você acha que cada ação que tomo tem de passar pelo seu filtro? Posso assumir as minhas próprias decisões. Virei em Pawnee Lane. - Eu me senti bem. - Tá bom... se você se sentiu bem... Nora virou-se para o banco traseiro e deu um tapa na coxa do Nils. - Não seja babaca, achei ótimo. - Verdade? - Desviei o olhar para o lado. - É. Adoro aquele cara da televisão. Como é o nome dele? O que ajuda todas aquelas pessoas a conversar com os mortos da família. Teve um programa em que o filho da senhora tinha se matado, e ela estava totalmente histérica, chorando muito. Mas então o filho dela apareceu durante a sessão e falou de uma piada só deles sobre o Gruyère. Sabe? O queijo? E a senhora ficou em paz depois daquilo. Foi fantástico. Olhei para o Nils, pelo retrovisor. Ele balançava a cabeça. - Você tem... algumas perguntas específicas que queira fazer para o cara? - Perguntas específicas? - Sim, como... você não quer saber algo específico da sua mãe? Ou talvez queira perguntar sobre o futuro? Eu sempre quis saber sobre a minha vida sentimental. Certa vez, minha prima me levou para um cara que lê tarô. Incrível. Acertou na mosca, uma loucura. Ele fez previsões de que eu ia namorar aquele cara - não posso dizer quem, porque acho que vocês o conhecem -, mas, de qualquer modo, aconteceu, namorei. E ele tinha previsto nossos problemas e tudo. Muito louco. Puxei o freio e depois engatei a primeira marcha. - Não tenho nenhuma pergunta em especial, não pensei nisso. Eu só quero saber se ela ainda existe. - Virei na entrada de carros da Nora e encostei o carro. - Bem, boa sorte, Holly. Depois me conte como foi. - Nora saiu do carro. Nils ficou dentro. - Você vem? - ela quis saber. - 71 -


Ela estava em pé na entrada, uma mão repousava no quadril, e então ela curvou o corpo para olhar para o meu banco traseiro. - Não estou me sentindo muito bem - Nils justificou, saindo do carro no caminho pavimentado com pedras da Nora. - Eu te ligo mais tarde. - Sério que você não vai entrar? Nils abriu a porta do passageiro, sentou-se perto de mim. - Eu te ligo - ele repetiu a fala. Ela fez que sim, mas ficou lá parada. Acenei timidamente e acelerei o carro; observei-a ficando cada vez menor pelo meu retrovisor enquanto o carro se distanciava. - Por que você fez isso? - quis saber. - Fiz o quê? - Nils retrucou enquanto prendia o cinto. - Por que você a deixou lá desse jeito? Vocês não tinham combinado alguma coisa? - Acho que sim. - Ele cutucou um cravo microscópico no queixo. - É que já temos planos todos os dias. E ela estava me enchendo o saco. - Enchendo o saco como? - Holly, esquece. Sei o que você está pensando, mas não foi só a coisa com o médium. Ela ficou me irritando a semana inteira. - Ele fechou a janela. - Pode deixar, vou me encontrar com ela amanhã. Rodamos e rodamos e rodamos sem conversar, depois desacelerei o carro e parei, coloquei a marcha em ponto morto e puxei o freio de mão. Tínhamos chegado em casa. - Estou te enchendo o saco? - perguntei, rindo, me esforçando para disfarçar o tom de desespero na minha voz. Nils soltou o cinto e virou-se totalmente para mim. - Por que você está me perguntando isso? Encolhi os ombros e desliguei o carro. - De repente, estou me sentindo um pouco... não sei. Estou precisando de uma animada, por favor. - 72 -


- Holly. Você nunca me irrita. Você nunca poderia me irritar. Olhei para ele. - Dia após dia, eu nunca me canso de olhar o seu rosto - ele disse, segurando o meu queixo. Então ele olhou para mim daquele jeitinho engraçado que me dava um friozinho na barriga. Não sei por quê. E ele deve ter sentido isso também, porque logo depois ele tirou a mão do meu queixo e rapidamente saiu do carro. Na maior parte daquele fim de semana fiquei sozinha. Eu me deitei no sofá com o Harry e assisti ao Mistério! no PBS. Fui até o Mercado do Fazendeiro com o Jeff e comprei milho, tomates orgânicos e sabão caseiro. Não conversava com o Paul desde a sexta-feira, embaixo da arquibancada. Então, quando chegou a hora de artes e artesanato de História Geral, na segunda de manhã, fiz questão de ficar bem amiga da Saskia. Só de raiva dele, acho. - Como foi o seu fim de semana? - perguntei, olhando para baixo, para a nossa colagem. - Ótimo. Só... fui às compras com a minha mãe e o meu irmão no sábado - ela disse, agitando uma garrafa de cola para baixo e para cima e para baixo de novo, batendo a estreita tampa alaranjada na mesa dela. - Será que esta coisa está vazia? - ela perguntou, desatarraxando a tampa e dando uma espiada dentro. - Está vazia - ela concluiu, pondo a garrafa de lado. - Mas o domingo foi divertido. - Agora ela ria, distraidamente, enquanto passava a ponta do dedo sobre o canto pontiagudo de nossa tábua de pôster, - Passei o dia com o Paul. Senti o meu estômago se contrair. - E você? - ela perguntou. Ela estava com aquele agasalho cinza esfarrapado, com o decote lasseado, e pensei se ele tinha sido embargado por algum fabricante de roupas da moda ou se estava assim pelo bom e velho uso e abuso. - Ah, não saí; foi bem calmo - encolhi os ombros. - Fiquei com o meu pai e o cachorro, só isso. Saskia sorriu e me passou a cópia de um recorte do nosso livro. Cobri a parte de trás com cola e pressionei-a na colagem. - E o seu namorado? - ela quis saber. - Namorado? - eu sabia que ela não poderia estar se referindo ao Paul. Mesmo assim, fiquei com uma coceirinha. - 73 -


- É, aquele cara, o Nils. - O Nils não é meu namorado. - Respirei, aliviada. - Sério? - Não. Saskia apertou os lábios e depois estendeu a nossa colagem totalmente aberta, segurando com as duas mãos. Estávamos a meio caminho de nossa linha de tempo. - Então, isso vai aqui... Uma obra-prima - ela se gabou, pegando a cola da minha mesa. Foi nesse exato momento que eu realmente comecei a gostar dela, observando como ela empurrava o cabelo atrás das orelhas e besuntava o papel com cola. Ela era totalmente diferente do que eu imaginava. Ela tinha personalidade. - Você é totalmente diferente do que eu imaginava - pontuei. Ela olhou para mim intrigada, erguendo uma sobrancelha. - Por quê? O que você pensava de mim? - Você sabe... - Toquei o meu cabelo. - O cabelo e as roupas. Só pensei... - Pensou o quê? - Ela fechou a cola com a tampa, o corpo todo dela ficou tenso. - Não! Quero dizer, você é tão certinha. Não pensei que você seria tão legal, só isso. - Ah, obrigada. Acho... - Ela relaxou. Não consigo explicar por que de repente eu gostava tanto dela. Não que tivéssemos alcançado as profundidades de nossas almas ou coisa do tipo. Eu ainda não sabia nada sobre ela. Só pensei que ela era bem legal. A Saskia pegou um pedaço de papel e escreveu alguma coisa. - Pegue! - Hã? - Ligue para mim qualquer dia desses. - 74 -


- Ligar para você? - Fiquei confusa; por que eu ligaria para ela? O sinal tocou. Ela me passou o pequeno pedaço de papel. - É o meu telefone. Se quiser sair por aí algum dia. Ir à praia, algo assim. - Ela se levantou. - Claro, tudo bem. - Eu também me levantei, surpresa, observei quando ela empurrou a mesa na parede antes de acenar rapidamente e sumir pelo corredor. Apalpei o pequeno pedaço de papel entre o polegar e o mindinho, depois enfiei no bolso traseiro, antes de pôr a minha mesa de volta ao lugar.

*** Tap, tap, tap Eu me sentei e, ainda tonta, encarei o Paul, que olhava para mim como se estivesse pendurado no ar, flutuando por aí, sem corpo. Esfreguei os olhos e depois pressionei a mão na janela do meu quarto. Paul beijou o vidro. - O que você está fazendo aqui? - perguntei. Ele abanou a cabeça e tapou as orelhas. Não consigo te ouvir, ele balbuciou. Então saí da cama, fui na ponta dos pés até a sala, passei pelo Jeff dormindo e pelo Harry, que estava acordado e balançando o rabo. Abri a porta. - É segunda-feira - sussurrei. Ele passou por mim, se esgueirando para dentro. - O que você está fazendo aqui? - insisti. Ele colocou um dedo nos lábios e me virou, me empurrou de volta pelo corredor até o quarto. Puxou a minha camisa sobre a minha cabeça e depois tirou a parte de baixo do meu pijama. - Você ainda está puto comigo? perguntei, fechando a porta do quarto com o cotovelo. Ele tapou a minha boca com a mão e se pôs a desabotoar as calças. - Puto? - ele perguntou, me beijando de novo, escorregando a mão livre ao longo do elástico da minha calcinha alaranjada de algodão, provocando uma onda quente que subiu pela minha espinha. - 75 -


Ele me empurrou de volta para a cama e mordeu o meu lábio superior. - Ai! - Doeu? Toquei a boca latejante e neguei com a cabeça. - Ainda bem! Depois, quando tínhamos terminado, ficamos deitados lá como estátuas. Eu adormeci um pouco e depois acordei com um movimento na minha cama. - Paul? - Ouvi a porta do meu quarto se fechar. Eu me sentei. Ele tinha ido embora. Então fiquei de joelhos e olhei pela janela. Paul corria pela entrada de carros para o carro dele, que ele sempre estacionava na rua perto da nossa caixa de correio, para que ninguém o ouvisse entrando ou saindo. Fui até o meu som, enfiei o Neil Diamond no toca-CDs e selecionei a faixa número nove. Os primeiros acordes de Holly Holy tocaram delicadamente enquanto eu me deitava novamente na cama. Paul sempre passava a noite comigo. Sempre. Ele nunca tinha saído antes sem um beijo silencioso ou um tchau carinhoso. Fechei os olhos e apertei, tentando não chorar. Tentei por muito tempo, até que finalmente adormeci novamente, em algum horário por volta das quatro e meia, mais ou menos uma hora e meia antes de eu ter de me levantar para ir à escola.

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Dezesseis O médium retomou a ligação. Foi depois do almoço - o meu celular tocou quando eu ia para a aula de Cálculo. "É a Holly?" Minhas mãos tremiam, tão idiota, não sei por que tremiam, mas pressionei o celular mais perto da orelha e respondi que sim. "Frank Gellar." - A voz dele era igualzinha à da mensagem na caixa postal. - "Você queria marcar um horário para uma sessão?" Parei de me movimentar e me apoiei na parede do saguão. Tive um impulso imediato de apalpar os meus seios, procurando nódulos, mas resisti à pressão. - Sim. Sim. Eu tenho... hum... bem, você é... médium, não é? - Puxei uma prancheta e uma caneta da mochila. - É que eu tenho de conversar com alguém - você poderia fazer isso? Poderia me ajudar a conversar com essa pessoa? "Claro que posso tentar." - Ele tossiu. - "Você quer marcar uma sessão de uma hora?" - É isso que as pessoas fazem normalmente? Quanto custa uma hora? "Um sete cinco." Quase engasguei com a saliva. Ele não tinha dito um dólar e setenta e cinco centavos, e eu talvez tivesse no máximo cem dólares escondidos dentro da gaveta de - 77 -


meias da minha cômoda. Eu sabia que poderia pedir o dinheiro emprestado para o Jeff, mas então o Jeff me perguntaria para que eu precisava do dinheiro, e eu teria de lhe contar que estou tentando falar com a mamãe, e depois, e se ele ficasse puta como o Nils ficou, ou, pior ainda, se ele começasse a chorar? - Quanto tempo daria para cem dólares? - perguntei. "Uma sessão de meia hora custa noventa." - Podemos fazer meia hora, então? Neste fim de semana? "Posso marcar no sábado. Às quatro?" - Eu concordei com o horário, que seria ótimo, e então ele me deu o endereço da sua casa-consultório, que era bem perto, em Palisades. Depois disso, eu me senti maravilhosa. Fiquei a aula de Cálculo inteira pensando em perguntas que gostaria de fazer no sábado. Tipo: Onde é que você está? Como é o lugar onde você está? E, por favor, não me diga como vou morrer, porque eu não quero saber, mesmo (essa última não é uma pergunta, imagino). Então, a cinco minutos do final da aula, escrevi um recado para o Paul que dizia:

Para mim, era importante que eu parecesse carinhosa e não zangada por ele ter me abandonado na noite anterior, sem ficar a noite toda, e sem dizer tchau. Ele tinha prometido ir comigo nesse lance e, se ele pensasse por um segundo que eu estava furiosa ou magoada, ele voltaria atrás na promessa, e eu não podia deixar isso acontecer, porque eu estava morrendo de medo de ir sozinha.

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Dezessete - Estou com fome. - Holly, qual é! Concentre-se. Estávamos na sala do Ballanoff bebendo Snapple diet. Ele me prometeu crédito adicional em troca de uma leitura completa de As feiticeiras de Salem. - Abigail Williams, certo. Ela é uma bruxa? - Você ao menos leu a peça? Eu me afundei na mesa do Ballanoff, de modo que os meus braços e o queixo ficaram achatados no tampo da mesa. Peguei a minha cópia da peça e a deixei cair de volta. - Mais ou menos. - Tudo bem, os temas, então. Diga aí. - Bruxas? - falei, piscando. - Holly! - O quê? Ballanoff bateu a caneta nos dentes de cima, fazendo um dique, depois ergueu os olhos. - Medo, paranoia. O poder desempenha um papel relevante aqui, não acha? - 79 -


- O poder, totalmente. - Então o que o caso entre John Proctor e Abigail Williams faz com a Abigail? Como ela é capaz de ganhar influência, manipular a cidade dela? Que papéis o poder, o sexo e a repressão sexual desempenham no texto? Meu estômago embrulhou. Palavras como "caso", "sexo" e "manipular" agora me deixam intimidada. - Olhe, me desculpe, mas na verdade eu não li a peça toda, sabe? - Eu me sentei abruptamente e enfiei a cópia da peça na minha mochila. - Podemos conversar sobre outra coisa? Ballanoff estalou a língua, balançando a cabeça, sem entusiasmo. - Tá, tudo bem. - Eu me sentei para trás, relaxando ligeiramente. - Vamos falar sobre... - Tamborilei a ponta dos dedos no tampo da mesa. - Que tal discutirmos... você e a minha mãe, de novo? - Eu dei uma piscadela. - De novo? - Sim, de novo - eu disse, me inclinando para a frente. Mas, desta vez, com mais detalhes. Ballanoff colocou um pé em cima da beirada da escrivaninha e se reclinou na cadeira. - Sério, Holly, não há nada para falar. Foi só um beijo. - Sim, mas você a conhecia, não é? Como ela era na época? Quero dizer, ela era popular? Desastrada? Tinha namorados? Era o centro da atenção na escola? Ou o quê? Conte algo novo para mim. Ballanoff engoliu em seco. - Ela era como... bem... Ela era como... você. Isto é, ela se parecia com você. Cabelo escuro, pele clara. Ela era amiga de todos. - Ah, sim, exatamente como eu. Miss Simpatia - eu bufei. - Verdade. - 80 -


- Rá, rá. - Chutei o pé da escrivaninha. - E daí? - E daí o quê? É isso... - Só isso? Nada mais? - Meus olhos faiscavam. - Ela só era... ela era realmente carinhosa. E sincera. E as pessoas realmente respondiam a isso, acho. Ergui o olhar. Ele me encarava. - Tem certeza de que vocês só se beijaram? - Holly, tenha dó... - Ballanoff se mexeu no assento. Eu o encarei, examinando o rosto dele. - Não há nenhum romance secreto aqui. - Claro que não - eu disse, colocando o meu cabelo atrás das orelhas e me endireitando. - Mas, então... vocês continuaram se vendo? Isto é, depois da formatura. - Na verdade, não, mas eu a via por aqui nas férias... - Com o Jeff - Sim, com o Jeff - ele concordou, virando a última gota do chá diet gelado.

*** - O que é isso tudo? Acabara de voltar para casa de minha caminhada com o Harry, e o Jeff tinha posto aquela foto enorme da minha mãe, do dia do funeral, apoiada no sofá da sala. Eu a rondei, toquei os cantos agudos. - Não sei o que fazer com ela. Estava pensando que talvez você e o Nils queiram deixá-la no Barraco. Eu o encarei, com olhos amalucados. - 81 -


- É enorme. Vai cobrir uma parede inteira de lá. Vai ficar como um templo para a mamãe - arranquei os tênis e me arrastei pelo piso da cozinha de meias. - Não, obrigada. Ele jogou um pimentão picado na panela wok quente. A fumaça e o óleo voaram diante do rosto dele. - Bem, não sei o que fazer com ela. Ficou no quarto nos últimos sete meses e está começando a me deixar nervoso. Fui até o fogão e peguei uma fatia de cenoura. - Posso comer? - Jeff fez que sim. - Por que não jogar fora simplesmente? - Não posso jogar fora, Holly, É enorme. É a sua mãe. - Ele regou os legumes com shoyu. - Não é ela. É um pôster grande de papelão. - Peguei mais uma cenoura. - Além disso, a fotografia é feia. Ela era tão bonita, e eu te amo, mas o seu gosto para fotografias não é muito bom - prossegui, com a boca cheia. - Por favor, nunca faça isso comigo. Se eu morrer, quero uma foto bonita que me deixe ótima. - Não brinque comigo, por favor. Não posso nem pensar em te perder... Segurei o braço do Jeff. - Ai, estou brincando, tá? - Ele me beijou na bochecha, e eu peguei mais uma cenoura. - Por que a gente não pendura na garagem por enquanto? Jeff concordou. Peguei a mamãe pelos cantos pontudos e a levei para baixo, pela escadinha da frente e virando para a garagem. Passei pelo carro do Jeff e procurei um lugar para colocá-Ia. Do outro lado da máquina de lavar roupa tinha um pequeno espaço na parede. Caberia perfeitamente. Eu a apoiei num cano grande de cobre e me curvei para beijar seus lábios unidimensionais. - Você vai se divertir aqui - eu disse para a fotografia. -Vejo você na próxima vez em que eu estiver lavando um monte de roupa branca.

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Dezoito Depois da aula, vi do morrinho atapetado de grama, acima do estacionamento, quando Paul se aproximou de carro. Ele estava sozinho. Acenei, trotando morro abaixo. - Holly! - ele falou, só que não parecia contente em me ver. - Você recebeu o meu recado? - perguntei, sem fôlego por causa da descida do morro. Ele enfiou a chave na fechadura do carro e abriu a porta do motorista. - Que recado? - Deixei um recado no seu armário na terça. Sobre o médium. É amanhã... a minha sessão. - Que ótimo. - Ele entrou no carro, fechou a porta e abriu a janela. - Obrigada, mas eu perguntei no recado se você poderia vir comigo. Lembra-se de que disse que iria comigo? - Lembro sim, mas não posso. O aniversário da Saskia é no domingo, e eu vou com a família dela para Catalina passar o fim de semana. Vai ser incrível. Vamos acampar. - Ah! Ele parecia tão feliz com aqueles planos idiotas de Catalina. Acampar com a Saskia e o irmão doente, e eu só queria machucá-lo. Queria chutá-lo e machucá-lo e fazê-lo chorar, mas, em vez disso, fiquei plantada lá. Por fim, consegui balbuciar: - Mas eu não queria ir lá sozinha. - Então vá com o Nils. - 83 -


- O Nils não acha que isso seja uma boa ideia. - Bem, Holly, não posso ir. Sinto muito por você, mas deveria ter me perguntado antes de marcar o compromisso, se queria tanto que eu fosse junto. - Mas eu perguntei. Deixei o bilhete. - Bem, não sei, talvez eu não tenha recebido - ele retrucou, ligando o carro. Mas era mentira. Eu tinha certeza de que ele tinha recebido o recado. - Então se eu cancelar e remarcar, você vem comigo? Quando seria melhor para você? - Não sei bem. Que não seja amanhã, tá bem? A semana que vem não dá também. Sorri, mas não me sentia feliz. Eu me sentia uma merda e desesperada, mas disse: - Tudo bem, valeu. - Então cancelei o compromisso e remarquei com o Frank Gellar: médium, no sábado à tarde, no fim de semana depois do próximo, às três horas. E me senti uma merda fazendo isso, mas eu queria o que queria. E queria que o Paul fosse.

*** - Vou te fazer companhia hoje - Saskia falou, sentando-se ao meu lado e enfiando o garfo na salada de grão-de-bico com alface americana. Meus olhos dispararam para a mesa costumeira dela, onde a amiga Sarah qualquer-coisa estava sentada com um grupo inteiro de clones-de-Saskia, comendo e parecendo tremendamente felizes. - Suas amigas não vão sentir a sua falta? - perguntei, apontando na direção da mesa dela. - Elas podem ficar um dia sem mim. Além disso, você é muito mais interessante. Ela levou urna garfada da salada à boca. Olhei rapidamente ao redor da sala, examinando o lugar e buscando o Paul. Ele tinha aulas neste horário, eu nunca o via nos almoços de quarta, mas, mesmo assim, tive de perguntar: - Cadê o seu namorado?

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- Civilização Ocidental. Ele almoça tarde nas quartas. - Ela pegou mais uma porção da salada, conversando e mastigando, e ainda assim parecendo uma graça. - E o seu namorado? - ela provocou, insinuando o Nils. Agora eu sabia disso. - Ele não é meu namorado - respondi. - Mas ele também almoça tarde. Nas quartas geralmente almoço sozinha, e fico lendo. Ela enfiou mais uma porção de salada na boca. - Planos para o fim de semana? - O quê? Não. Talvez veja um filme com o meu pai. - Ergui os ombros. - E você? Eu estremeci por ter de perguntar. Eu já sabia os planos dela para o fim de semana. - É meu aniversário. - Ela sorriu timidamente. - Verdade? - Fingi estar surpresa e dei uma mordida no sanduíche. - Ha-hã, vamos para Catalina. - Uau! - Acampar. - Incrível! - A gente não viaja em família há muito tempo. E eu vou levar o Paul desta vez, então estou muito animada. - Claro que sim - eu disse, de repente sem condição nenhuma de encará-la. Olhei o relógio na parede. Olhei para o meu saquinho de almoço, para a salada dela, para as minhas mãos. Mudei de assunto. - A sua família é grande? - Ela se afundou na cadeira. - Não muito. Eu, minha mãe, meu padrasto. Meu irmão. - É mais velho? O seu irmão? - Tecnicamente, sim. Ele tem dezenove anos. Mas, na verdade, eu sou a mais velha. Sou eu que tomo conta dele, sabe? - Ela limpou o prato do almoço. - E não ele de mim. - 85 -


Assenti com a cabeça, lembrando as palavras do Paul: o irmão dela era doente. Fiquei ruminando o que tudo aquilo queria dizer, então mudei de assunto mais uma vez: - Puxa, você gosta de alface, hein? Ela olhou para o prato vazio. - Eu amo alface - ela respondeu, e os ombros sacudiram com as risadas. - Adoro mesmo.

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Dezenove Nils e eu estávamos circulando pela Instituição Goodwill, bebendo milk-shakes em copos altos de papel. - Você vai ficar feliz em saber que vou terminar. - Terminar o quê? - Puxei um vestido de lantejoulas de uma arara cheia de roupas sociais. - Você acha que eu poderia usar este? - Onde você vai usar isso? No baile de formatura? - Não vou participar da formatura. - Claro que não. Devolvi o vestido para a arara. O Nils passou a mão na manga de um paletó masculino em exibição, pendurado na parede. - Você ouviu o que eu disse? - Sobre o vestido? - Sobre terminar. Com a Nora. Parei de andar e me virei para encará-lo. - Você vai terminar com ela? - Estou de saco cheio. - Ela sabe que você vai terminar com ela?

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- Ela deveria prever. É claro que ela não deve estar se divertindo mais. Não temos nada para dizer um ao outro. Eu me virei na direção da arara de vestidos e beberiquei o meu milk-shake de baunilha. - Eu me sinto mal por ela. - Como assim, eu me sinto mal por ela? Você não gosta dela. Você acha que ela é idiota. - Claro que ela é idiota, mas ela tem sentimentos. É óbvio que ela está a fim de você. Só me sinto mal. - Pobre Nora Bittenbender, pensei, puxando a saia de um vestido com estampa de zebra e mudando o pensamento para mim e para o Paul, durante um ou dois segundos. - Então, já pensou sobre como vai fazer isso? - Fazer o quê? - Você ouviu, romper. - Bem, a gente nem mesmo está junto. - E daí... - Eu imaginei que eu poderia me afastar aos poucos - sabe, daquela maneira que ninguém fica muito magoado. Balancei a cabeça, furiosa. - Isso é a maior cachorrada que já ouvi. Você não pode fazer isso. Então a garota anda por aí pensando se ela ainda está ou não com você até que dá de cara com você transando com outra pobre garota idiota. É assim? Só para que você se poupe do incômodo de ter uma conversa de quinze minutos, dizendo a ela, "desculpe, você é um amor, mas parece que não está funcionando?". Qual é a sua? - Dei as costas para ele e fui olhar a vitrine na parte da frente da loja. Nils me seguiu. - Ei, Ei, sua louca! Você parece uma desvairada. - Ele me agarrou pelo braço. - Eu vou romper com ela, tá bem? Olho no olho. A coisa de "me afastar" era só uma ideia. Eu me acalmei um pouco e olhei para ele. - 88 -


- O que você tem? Você está bem? Por que, de repente, você está tão preocupada com isso? Dei de ombros. - Estou tentando ser mais sensível, tá? Eu me senti mal por causa daquele dia no carro, quando nós a deixamos sozinha esperando na entrada da garagem. Nils sorveu um gole grande da bebida. - Você fica sozinha na saída da garagem o tempo todo. Ele passou um braço em volta da minha cintura e me puxou para pertinho dele. - Então... e o Paul Bennett? Gelei por dentro. Parei de rir. - Que é que tem o Paul? - questionei. Será que ele sabe de alguma coisa? Como ele pode saber de alguma coisa? Eu me desvencilhei dele e me apressei para a parte da frente da loja. O Nils me seguiu mais uma vez. - Sabe aqueles óculos que ele usa? Aqueles de aviador? Agora eu estava na vitrine de bijuterias e acariciava um fio de pérolas falsas. - Não sei. Pensando bem, acho que sim. - Ele ficou de óculos o tempo todo durante a aula da Russell.Quem faz isso? Fala sério. Quem fica de óculos escuros dentro de casa? Na aula? - Não sei - respondi rapidamente; nervosa, experimentei as pérolas de imitação e depois as pendurei de volta no gancho. Apontei para a vitrine, ansiosa para mudar de assunto. - Viu só que colar? - Qual? Toquei no vidro. - Aquele com pingente verde. - Ah, aquele, sim... - Acha que combina comigo? - 89 -


Nós dois nos curvamos, olhando para o colar. Nils encostou o corpo dele contra o meu, e eu me movimentei para o lado. - Claro que sim. Verde é a sua cara. Estendi a palma da mão. - Você me empresta dez dólares, cofrinho? Gastei todo o meu dinheiro no milkshake. Nils tirou vinte dólares do bolso e colocou na minha palma aberta. - Você é ótimo - eu disse, acariciando a bochecha dele com a mão. - Oi, por favor - chamei a atenção da vendedora da Instituição Goodwill, acenando a nota de vinte dólares do Nils, nova em folha. - Posso ver uma coisa da vitrine? O Nils abriu a tampa do copo e virou o resto do milk-shake. Eu o olhei de lado, desejando que ele não falasse mais nada sobre o Paul. - O quê? - ele indagou, sentindo o meu olhar. - Nada - respondi aliviada. Depois eu me virei de volta para a atendente, que agora rodeava o balcão da vitrine. Eu apontei para o meu colar e respirei fundo.

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Vinte Um dia achei todos os velhos álbuns de fotos da mamãe enfiados no armário do corredor, perto do banheiro. Eu estava de saco cheio naquele dia e folheava a coleção secreta de romances históricos dela - uma pilha alta de livros de bolso dedicados a Henrique VIII e a todas as suas esposas sensuais: Catarina de Aragão, Catarina Howard, Ana Bolena - todas elas senhoras robustas com espartilhos. A mamãe os mantinha empilhados no fundo do armário, perto da prateleira de sapatos. Eu ultimamente vinha olhando um livro sobre a Jane Seymour, pulando de capítulo em capítulo em busca de cenas de sexo (eu fazia isso duas vezes por semana), quando percebi algo novo: perto da pilha das viúvas dos livros de bolso havia três ou quatro álbuns de fotografias gordinhos, com capas cor de vinho, que eu nunca tinha visto antes. Peguei um deles, abri, e lá estavam, me encarando, fotografias da minha mãe com um cara qualquer que eu não conhecia. Ele era cabeludo. Tinha barba e cabelo revolto, e em todas as fotos ele estava com as mesmas calças jeans detonadas e desbotadas. - Quem é? - quis saber. Estávamos em pé na cozinha. Mamãe comia uvas de um pote de plástico diante da geladeira. - Onde você encontrou isso? Meu Deus, eu, querida, sou eu. - Claro que sei que é você. Quero saber do cara. O cara cabeludo, quem é? - Ah. - Ela estourou outra uva na boca. - É o Michael. Meu namorado da faculdade. - Ela se inclinou sobre mim, cutucando as minhas costelas. Eu odiava a palavra namorado. - Agora ele está casado e mora em Calabasas. Mamãe parou e ficou pensativa durante um ou dois segundos antes de enfiar as uvas de volta à geladeira e fechar a porta. - 91 -


- Posso pegar emprestado? - Sim, claro. Por quê? - Eu só queria dar uma olhada - falei, pressionando a mão na capa fofa, e depois corri pelo corredor até o meu quarto. Mamãe e Michael. Tão lindos. Amei as roupas velhas, a pele bronzeada e os corpos esguios. Passei as mãos em todas as páginas, acariciando a beirada da folha plástica transparente, já amarelada, que cobria cada montagem de fotos. Adorei o Michael: o cabelo, as calças jeans, o modo com que ele encarava atentamente a minha mãe em cada fotografia. Eles pareciam tão felizes juntos. - Então, tudo bem. Não entendo. Isso foi mais tarde. Estávamos fora no deque, ao sol, bebendo sidra espumante em taças flûte para champanhe. A minha tinha um guarda-chuva minúsculo pendurado na borda. Empurrei-o para o lado e tomei um gole da minha bebida. - Por que você e o Michael romperam? Mamãe espremeu um mantinha de protetor solar com aroma de coco na palma da mão e fez um gesto para eu me aproximar. - Como assim, por quê? Eu conheci o seu pai. Ei, vem cá, me deixe passar nas suas costas. Eu me aproximei, fiquei em uma posição em que ela pudesse espalhar o creme nas minhas costas. - Mas, por quê? Você não amava o Michael? Parece que ele te amava de verdade. - Nós éramos jovens, querida. Nós... rompemos. Só isso. - Mas você parecia tão feliz com o Michael. - Você não está contente que o papai e eu nos casamos? - Claro, mas não entendo por que as coisas não deram certo entre você e o Michael. Ela torceu o cabelo comprido em um nó e sorriu para mim com os lábios fechados. - A gente apenas... Não sei, querida, nós dois amamos mais outras pessoas. - 92 -


Vinte e Um - É isso aí, sabe… Nils e eu estávamos deitados de costas no Barraco. - O que é? - ele quis saber. Estávamos deitados lado a lado, totalmente vestidos: de jeans e tênis, os dois enfiados nos nossos casulos apertados e confortáveis, forrados de lã de ovelha. - Isto. Não vamos ter mais noites no Barraco depois disto. Acabou. De vez em quando, quando o Jeff dava permissão, a gente dormia lá. Comida porcaria, sacos de dormir, música ruim, jogo de tabuleiro de palavras cruzadas. - Temos até o fim do verão, Hols. Enfiei a mão no saco de Doritos e, com delicadeza, mordi a ponta de um salgadinho. - Sim, mas isso vai acontecer, tipo, em dois segundos. E então acabou. Você vai se mudar para alguma cidade tipo Colonial Williamsburg ou algum lugar doido, e eu ainda vou continuar aqui. Nils riu. - Rhode Island. Talvez Nova York. - Qualquer coisa. - Lambi o pó de queijo do nacho da ponta dos dedos e me deitei de lado. - Será que a gente ainda vai se falar? Depois que você partir? - Holly, é claro. - Nils estava deitado de costas, encarando o teto. - Por que você não olha para mim? - 93 -


Ele virou a cabeça para ficarmos cara a cara. - Melhorou? - Muito. - Peguei outro salgadinho do saco. Ficamos nos encarando durante um minuto. - Ainda está rolando aquela coisa com você, Hols? - Ele virou-se para o teto. Aquilo que você não podia conversar comigo antes? - Mais ou menos. - Até perdi a respiração. - Como vão as coisas? - ele quis saber, estalando os dedos. Dobrei os joelhos até o peito e me livrei dos tênis. - Uma merda e tanto. - Como assim? - Nils me encarou novamente. Balancei a cabeça. Eu queria contar para ele. Eu queria dizer tudo. Queria dizer que não era mais virgem e que não era que eu tinha feito sexo apenas uma vez, mas que tinha transado múltiplas vezes - centenas de vezes, parecia. E como no começo tinha doído tanto que eu teria gritado se o Paul não tivesse sido um amor e me consolado por qualquer dor verdadeira que eu tivesse sentido. E agora que esse tempo tinha passado, e, de repente, o sexo parecia tão fácil, de alguma forma eu consegui contrabalançar qualquer dor física com um montão de dor emocional que parecia diretamente proporcional à quantidade de prazer que eu conseguia no ato verdadeiro. Eu suspeitava estar sendo punida. Possivelmente pela minha mãe. Mais definitivamente por Deus. - Você nunca trouxe outra pessoa aqui, trouxe? - O quê? Não. Nunca. Já conversamos sobre isso. - Eu me sentei e me inclinei para a frente, passando o dedo sobre os CDs da mamãe, todos empilhados bonitinhos na prateleira que o Jeff tinha construído. - O que você quer ouvir? - Qualquer coisa. Pode escolher. Peguei um CD do Leonard Cohen da prateleira e pus no toca-CDs. Apertei o botão. - 94 -


- Você gosta mesmo dele? - Nils continuou. - Gosto. - Pensei seriamente nisso. - Será que eu gostaria desse cara? Eu ri. Pensei no total desprezo do Nils pelo Paul. - Tenho certeza que não. - Ele é legal com você? Enfiei as unhas no ombro do Nils e o fiz balançar para a frente e para trás. - Nils, pare com isso. Que chato! Chega de interrogatório. - Só não entendo por que não podemos falar sobre isso. Não falei nada. Dei as costas para ele. Depois de um minuto ou mais, mudei a faixa do CD do Leonard Cohen e então o Nils disse: - É isso? Acabou? Busquei um prendedor de rabo de cavalo no bolso das minhas calças jeans e enrolei o cabelo em um nó. Mudei de assunto. - Você pensou um pouco sobre a Nora Bittenbender? - eu quis saber. Ele pegou a minha mão e me puxou para perto dele. - Só vou fazer isso depois da festa de aniversário dela. Ela está tão maluca com isso. Eu não quero estragar tudo. - Você vai se vestir do quê? - Não sei ainda. Talvez um vampiro. Ou uma galinha. - Uma galinha? - Eu me apoiei nas costas nele, puxando o saco de dormir até o queixo. - Você é tão estranho. - E você? - Eu o quê? - Como é que você vai? Pensei a respeito. - 95 -


- Uma enfermeira sensual. Ou um fantasma sensual, quem sabe. Desde que tenha a ver com um biqu铆ni. Eu s贸 quero me sentir enturmada, sabe? - Tentei parecer sincera. Nils tapou o meu rosto com um travesseiro.

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Vinte e Dois Paul e eu estávamos no carro dele, na praia, depois da aula. Ele tinha parado de aparecer à noite agora, então basicamente era isso. Uma vez por semana. O estacionamento deserto da praia. O BMW, a sua velha lataria vermelho-rubi, atulhado. Nós nem conversávamos mais. Era só algo do tipo: Tire a roupa logo, Holly. Tenho de entregar um trabalho na segunda. - Eu tenho aquele lance amanhã. - Que lance? - enquanto ele enfiava a camiseta dentro das calças jeans. - A hora marcada. Com o médium. - Eu não olhava para ele. Sabia qual seria a resposta dele, mas me senti compelida a falar mesmo assim. - Ah, é? - Lembra-se de que você disse que iria comigo? - Endireitei a saia. - Disse o quê? Olhei pela janela e observei uma gaivota bicando um saquinho aberto de pretzels ao lado da lata de lixo superentulhada. - Você prometeu... Paul pegou o maço de cigarros. - Bem, não posso ir. Tenho um lance de família. - Que tipo de lance de família? - Piquenique para a família na empresa em que a minha mãe trabalha. Tenho de ir. - 97 -


- Tudo bem - falei. Continuei observando a gaivota. Paul me cutucou do lado. - Isso é tudo? Não vai me torrar o saco? Holly, nem parece você... - Bom, sabe... achei que você iria. - Eu apoiei a testa na janela. - Você vai mesmo assim? - ele indagou, acendendo um cigarro e dando a partida. - Vou - respondi, depois pensei em Nora Bittenbender. Pensei no Nils. Eu me virei e olhei para o Paul. - O que aconteceu com você? - Como assim? - Ele saiu do estacionamento e virou em direção ao conjunto habitacional. - Você era tão legal. - Você não me acha mais legal? - Ele passou a mão ao redor do meu pescoço, o cigarro preso entre os lábios. - Não acho mais - disse, afastando a mão dele. - Você é sensível demais, Holly. Não aconteceu nada comigo. Sempre fui assim. Prendi o cinto. - Lembra-se de quando você me levou até Los Angeles? - Claro que sim. Não faz tanto tempo assim. - Lembra-se da promessa de ir ao médium comigo? - Holly, qual é! - Ele segurou o filtro do cigarro com o polegar e o indicador e bateu um milímetro de cinza da ponta. - O quê? - Desculpe por ter quebrado a minha promessa, tá bom? Mas isso não muda nada. Não posso mesmo ir. - E seu eu fosse outra pessoa? - Quem? - Alguém de quem você gostasse mais. - 98 -


- Holly, puxa, pare com isso. Por que se torturar tanto? O relacionamento que tenho com você é totalmente diferente do que tenho com ela. - Não me diga. - Duas coisas totalmente distintas. - Como água e óleo - caí na gargalhada, me sentindo enjoada. - Exatamente. - Ele remexeu o meu cabelo. Pensei na Saskia. O belo rosto e o bom humor constante. - Acho que ela podia ter alguém muito melhor que você - falei. Ele se esticou no assento e segurou o meu queixo com o dedo. - Ah, é? E você, Holly? - Acho que é isso mesmo que eu mereço. - Dei de ombros. Paul atirou o cigarro pela janela aberta. Eu ergui uma perna e coloquei sobre o painel.

*** Depois que ele me deixou em casa, fiz algo que não deveria ter feito. Sentei no chão da sala, esvaziei todo o conteúdo da sacola de livros na bela peça de tapeçaria da mamãe, e lá estava, no meio da pilha de pastas de plástico, cadernos espiralados, pastilhas de Tic Tac soltas e tampões, o pequeno pedaço de papel amassado no qual Saskia tinha escrito o número do telefone dela há poucas semanas. Alisei o amassado, peguei o celular do meu bolso e teclei. Tocou. Tocou de novo. E quando eu já estava me preparando para deixar um recado na caixa postal, ela atendeu. ''Alô?'' - Sou eu, a Holly. “Oi, Holly! Que surpresa!"

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Eu sabia que ela estaria sozinha. Sabia que o Paul tinha me deixado e que iria diretamente para lá; eu tinha no mínimo vinte minutos antes de ele chegar até a porta dela. - Desculpe eu te ligar. "Holly, por quê? Fiquei contente. É por isso que te dei o meu telefone. Para que você usasse. Que foi?" Não sabia como dizer o que queria, então no começo não disse nada. Ficou um clima meio estranho, até que por fim eu soltei: - É que tenho de fazer uma coisa amanhã e não posso ir sozinha. "O que é?" - Você vai me achar maluca. "Não vou não. Pode falar." Logo em seguida ela disse: "Espere, me dê um tempinho, vou lá fora. Ouvi o barulho de uma porta de tela ranger e depois bater. Pronto. Tudo bem. Pode falar." Então eu contei tudo sobre o médium. Sobre como eu procurava sinais da minha mãe. Como eu tinha marcado a hora e morria de medo de ir sozinha, e que eu tinha marcado para amanhã às três, e se ela podia ir comigo. "Claro que vou. Eu vou gostar de ir com você", ela respondeu. Todo o meu corpo relaxou. Eu me sentia ótima. Eu tinha uma amiga.

*** Passei a manhã me preparando. Acordei e fui até O Barraco, imaginei a mamãe na nuvem e conversei com ela: Vou ver esse cara hoje e ele vai dar um jeito de termos uma conversa de verdade, e se for realmente você quem aparecer, diga algo a respeito do Harry. Vou ter certeza, de que é você mesma - 100 -


se fizer uma gracinha sobre o Harry. Depois entrei em casa e preparei o café da manhã para o Jeff. Comi fatias de bacon em pé enquanto ensaiava na minha cabeça as coisas que eu queria que o Frank Gellar perguntasse para a minha mãe. Talvez apenas: O seu destino é o meu? Por que você não me envia um sinal? Depois, fiquei matando o tempo, assisti a um episódio de Além da imaginação e comi meio saco de tomates-cereja. Depois, às duas e quinze, saí para pegar a Saskia. Fazia seis anos que eu não ia à casa dela. Mas parecia exatamente a mesma por fora. Tijolo cru rosado. Grande. Velha. Saí do carro e segui por uma trilha de seixos grandes e achatados até a entrada da casa. Toquei a campainha. Quinze segundos depois a porta se abriu. Lá estava ela, loira de cegar. Ela sorriu, me cumprimentou com um abraço e me seguiu até o carro. - Esqueci de te pedir... por favor, não diga nada a ninguém sobre isso, tá bem? - Não se preocupe... - Ela prendeu o cinto de segurança. Desenhou uma cruz sobre o coração com o dedo indicador pintado de esmalte. - Nem mesmo para o seu irmão, ou para o Paul, por exemplo... - Especialmente o Paul, pelo amor de Deus, NÃO o Paul pensei. - Sou uma pessoa de confiança - ela insistiu. Ao contrário de mim. Liguei o carro.

*** A casa de Frank Gellar não era nada impressionante, mas o bairro era o sonho suburbano. As calçadas e os pequenos jardins com gnomos de argila e cata-ventos multicoloridos. Estacionei o carro e verifiquei novamente o número da casa. - É aqui? - Saskia perguntou, apontando para uma janela na pequena casa marrom. - Essa mesma - respondi. Trocamos olhares. - Que horas são? - 101 -


Olhei para o relógio digital do painel do carro. - Duas e cinquenta. - Fiz uma pausa e então disse: - Talvez seja melhor ficarmos aqui sentadas um tempo. Ainda é cedo. - Como quiser. Liguei o rádio eprocurei uma música boa, mas não encontrei nada de que gostasse. Saskia falou um pouco sobre o padrasto, mas eu estava distraída e não conseguia me concentrar no que ela dizia. Eu simplesmente a observava falar, os lábios se mexendo sobre os dentes brancos e lisos. Então peguei chicletes de canela no porta-luvas. - Está pronta? São quase três horas. - Estou me sentindo enjoada - respondi. Verdade. De repente. O meu estômago revirava como uma máquina de lavar desregulada. - Quer alguma coisa? Uma bala de hortelã? - Ela abriu a bolsa e começou a remexer lá dentro. Agarrei a mão ela. - E se ele me disser algo que eu não queira ouvir? - Como o quê? - Não quero saber como vou morrer. - Ele não vai te dizer isso. - Mas e se acontecer? - Eu olhei para ela. - Ou... e se ele não conseguir fazer nenhum contato? E se ela simplesmente não estiver lá? Ou em nenhum lugar? - Eu engoli em seco e continuei: - Vamos dizer que ele consiga fazer contato, de verdade, ótimo, maravilha, mas e se ela não estiver em paz... E se... - eu apertei a mão da Saskia com mais força -... e se eu não estiver vivendo como ela gostaria, o que esperava de mim... Ela pode estar desapontada comigo. Saskia não disse nada durante um minuto, depois trouxe o rosto dela bem perto do meu. - Imagine. Sua mãe está orgulhosa. Olhe só você, Holly. Ela fixou os olhos em mim. Engoli uma porção enorme de ar. - Não quero entrar. - O quê? Por quê? - 102 -


- Não vou. Não consigo. Saskia só ficou me olhando, por um tempo. - Tem certeza? - Sim. Ela fez uma pausa. - Está com fome? - Na verdade, não. - A comida sempre me ajuda quando estou com náuseas. Os burritos, especialmente, aliviam bem. Liguei o carro e abri a janela. - Burritos, é? - Feijão com queijo. Acredite em mim. - Ela pegou o telefone da bolsa. - Quer que eu ligue para esse cara e cancele? - Ligue para ele. - Passei o cartão com o telefone e fiz uma manobra para virar. Disparamos na direção do Sunset Boulevard e paramos no Pepe's a caminho da praia. A Saskia me comprou um burrito de feijão com queijo e um taco de batata para ela. Comi o burrito dentro do carro.

*** A praia com a Saskia era diferente da praia com o Paul. Senti a praia mais como a sentia com a mamãe quando eu era criança. Ficamos deitadas de costas na areia. Com roupas, sem sapatos. Fizemos anjos de areia. - Você se arrependeu de ter ido embora? - ela me perguntou, protegendo os olhos do sol com a mão. - 103 -


- Eu me senti aliviada - respondi, depois de refletir a respeito. - Aliviada? Verdade? - Ela se virou para o lado. Encolhi os ombros, pegando um punhado de areia. Saskia não disse nada durante um tempo, depois finalmente falou: - Fiquei contente por você ter me convidado. Olhei para ela. - Isto é, fiquei contente de você ter me telefonado. Dei um sorriso. Tirei um pouco de areia de debaixo da unha do meu polegar. - Meu irmão tem... problemas de depressão. - Ela cutucou as cutículas. - Ah... - E quando você me falou do médium, fiquei pensando em como eu me sentiria sabendo o meu próprio destino. Ou sabendo o destino de Sean. Tipo, e se eu soubesse que ele ficaria bem um dia? Talvez então eu pudesse relaxar e pararia de me preocupar. Parece tão bom não ter de se preocupar. - Ela se deitou novamente de costas. - É como se isso fosse o meu sonho - ela continuou, o que me fez sentir realmente triste. - Ele sempre foi assim? Deprimido? Ela fez que sim com a cabeça. - Ele sempre precisou de remédios. Mas ultimamente está muito mal. Ele esconde as coisas... - Ela suspirou profundamente. - Tudo parece tão trágico, eu sei. Eu a observei durante um tempo, enquanto ela enfiava o dedo em um pequeno buraco na areia. Foi cavando e cavando e então tirou o dedo e limpou alguns grãos de areia soltos sob a unha do dedo mindinho. Ela parecia tão madura ao fazê-lo. E ela deve ter sentido que eu a observava, pois de repente ela me examinava atentamente e perguntou: - O quê? Que tem de errado? Então respondi que não era nada, e ela fez uma careta para mim e depois voltou a mexer nas cutículas. Pensei no Paul. Depois imaginei o Paul e a Saskia juntos. - 104 -


Ele não estava com ela porque ela ficaria mal se ele rompesse. Não era porque o irmão dela era louco ou porque ela não conseguiria sobreviver sozinha. Ficar com ela não tinha nada a ver com algum senso desvirtuado de obrigação moral. Ele estava com ela porque a amava. Claro, e quem não a amaria? Eu a amava. Foi repentino e inesperado, porém era verdade. Eu o trocaria por ela, pensei. Num segundo. Deslizei a mão sobre o tecido firme das minhas calças jeans. Eu me senti feliz. Agradecida. Eu perderia um namorado, mas ganharia uma amiga. A opção era clara. Paul tinha de ir.

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Vinte e Três Na verdade, no princípio, não fiz nada de diferente. Só parei de prestar atenção nele. Sempre que eu pensava nele, substituía o pensamento por ela. O que eu perderia se continuasse a vê-lo - uma amiga de verdade. Uma que não compartilhava de nosso barracão de ferramentas, nem se alimentava de salsichas especiais depois da aula. Assim, quando o Paul nem olhou para mim quando nos cruzamos no saguão na segunda-feira, tentei não me importar. E quando a terça chegou, e não houve visita à minha cama, fiquei dançando pelo meu quarto com os álbuns da mamãe, como alternativa. Mas, na quarta, ele estava ao lado do meu carro no estacionamento da escola, me esperando depois da aula de Educação Física. - Oi - ele falou, se inclinando para um beijo. - Não está com medo de que alguém nos veja? - disse rispidamente. - Não tem ninguém por aqui, qual é! - Ele me puxou para a frente, pela cintura do shorts. - Nem vem... - soltei, tirando os dedos dele. - Puxa, você está linda assim... toda suada. - Ele riu e mexeu no meu cabelo. Vamos até a praia. Vamos lá, eu dirijo. - Não posso ir à praia com você. - Eu me afastei um passo. - Por que não? - Ele acendeu um cigarro, tragou profundamente e pôs o isqueiro de volta no bolso da camisa. - 106 -


- É só que não estou me sentindo muito bem com isso. Quero parar. - Parar o quê? Olhei bruscamente para baixo. Pensei que, se o encarasse por mais tempo, não conseguiria dizer o que precisava. - De sair. Não podemos mais ficar nos encontrando. Paul não dizia nada, então ergui o olhar. - Por que não? - Ele brincava com a tampa do isqueiro Zippo. - Por uma porção de motivos. - Tipo? - Tipo... Isso não está fazendo bem para mim, só isso. - E eu? - E você? - Não tenho direito a uma opinião? - Você tem namorada. Você não precisa de mim. Ele enlaçou a minha cintura e me puxou para ele. - Talvez eu te queira. - Eu te vejo uma vez por semana - esbravejei. - Você nem fala mais comigo. - É por causa daquele médium? Ainda estávamos bem juntos, o braço dele ao redor do meu quadril. - Só estou achando que é errado. - Errado. - Sim. Na-mo-ra-da - repeti, bem devagar e alto, esperando que ele me ouvisse desta vez. Ele se inclinou para me beijar. Eu estava insegura, mas deixei que o fizesse. Depois me afastei, tirei a chave da minha sacola de livros e disse que tinha de ir. - 107 -


- Então, acabou? Entrei no meu carro e bati a porta com força. Abri a janela e olhei para ele. - Você pensa que acabou, mas não acabou - ele prosseguiu. Você está errado, pensei. Depois, liguei o carro e engatei a primeira marcha. - Vejo você por aí - falei, pisando no acelerador.

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Vinte e Quatro Saskia e eu estávamos nos morros perto da minha casa, subindo por um caminho estreito e poeirento, coberto de mato seco e arbustos espinhentos. Já estava escuro. - Que horas são? - Não sei. Não muito tarde. Oito? - chutei. Saskia me ultrapassou e correu na frente, em direção a uma clareira no topo do morro. - Quer sentar um pouco? - ela perguntou, quase sem fôlego por causa da subida. - Tudo bem - concordei, terminando de escalar os poucos metros que faltavam. Ela estava ajoelhada sobre um monte de terra poeirenta. Desabei perto dela. Durante um ou dois minutos ficamos apenas sentadas lado a lado, respirando o ar seco. - Somos sortudas, hein? - Por quê? - eu quis saber, arrancando uma raiz morta, puxando-a do chão e partindo-a em dois. - Por tudo isto... - ela apontou para a nossa paisagem: montanhas, mar, morros cobertos de mato seco e vales. - Nós moramos em Nova York quando eu era pequena. Até uns seis anos, mais ou menos, nos subúrbios. Não é nada assim. Isto é, tinha praia, mas era diferente. E era plano. Assenti com a cabeça. Nunca estive em Nova York. Só morei aqui e não consigo imaginar a vida fora do sul da Califórnia. Parti a minha raiz seca em quatro.

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- Olhe, aviões. - Saskia apontou as minúsculas luzes piscantes flutuando sobre o oceano. Havia pelo menos quatro ou cinco pequenos pontos de luz que mal pareciam se movimentar. - Parecem vaga-lumes - ela prosseguiu, afundando-se um pouco mais no chão. - Nunca vi um vaga-lume - falei. - É, a gente aqui não tem vaga-lumes, não é? -Não. - Bem, eles se parecem com aquilo. - E Saskia apontou novamente as manchinhas brilhantes de luz sobre o mar. Exatamente aquilo. São pequenos e piscam como os aviões. Essa é a única coisa de que sinto falta. Bichos que brilham - e ela riu. - Eles parecem tão irreais. Como criaturas mágicas. - Eles são - ela respondeu, virando o rosto para mim. - É exatamente isso que eles são - ela murmurou, mexendo em uma longa mecha de cabelo loiro.

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Vinte e Cinco Quando eu era reamente pequena, antes de morarmos na casa que temos agora, Jeff, mamãe e eu morávamos em um desses condomínios de prédios de dois andares, ao lado da praia. Não me lembro muito sobre o lugar, além do mar na parte de trás, da nossa escada de caracol e daquela mesa bem vermelha, retangular, onde comíamos todas as refeições; porém, ultimamente, eu tenho pensado muito nesse apartamento. - Tudo bem com você? - Tudo. Só estou pensando - respondi. Jeff e eu estávamos na cozinha comendo arroz integral com feijão. Bebi um gole de água. - No quê? Eu estava me lembrando dos jantares naquele nosso apartamento antigo. Eu, mamãe e o Jeff. Pilhas de comida italiana tipo delivery. Eu tinha a imagem perfeita fixada na lembrança: os três sentados em volta da mesa acetinada, comendo espaguete suculento. - Nada de interessante - respondi. - Coisas da escola. Nós temos shoyu? - Na geladeira - Jeff respondeu, levando um bocado de arroz à boca. Eu me levantei e saí rapidamente, com a mente vagando entre o espaguete e o apartamento antigo... Consegui me livrar da imagem do Jeff e a substituí por visões do Ballanoff - reescrevi a minha memória para que a nova versão fosse algo assim: eu, minha mãe e o Ballanoff, juntos, comendo um fumegante frango szechuan com palitinhos. - Quer molho de pimenta? - perguntei, já com a mão sobre a imensa garrafa laranja na porta da geladeira. -É uma boa. Peguei as duas garrafas e fechei a porta com a sola do tênis. - 111 -


- Talvez a gente possa pedir comida chinesa qualquer dia nesta semana. - Você quer comida chinesa? Pensei que você não gostasse de comida chinesa. - Não, eu gosto. - Imaginei o Ballanoff levando um pastelzinho massudo e branco aos lábios. - Gosto de frango szechuan. De pasteizinhos também. - Eu me sentei novamente e empurrei o molho de pimenta para o outro lado da mesa, até oJeff. - Então, combinado. Acho ótimo, Hols. Concordei, satisfeita, levando a xícara até os meus lábios.

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Vinte e Seis Tap, tap, tap. Eu estava adormecida. Abri um dos olhos e encarei a janela. Tap, tap, tapo O Paul estava com aquela velha e surrada camiseta vermelha que eu amava. Ainda amo. Estava rala e tinha furos embaixo dos braços. - Holly - ele sussurrou. A minha janela estava fechada. - Vá embora - respondi. Ele vinha me ligando o tempo todo ultimamente. Todos os dias, às vezes duas vezes ao dia. Eu não respondia às chamadas dele. Ele fez que não com a cabeça. Eu me virei para não olhar a janela. Tap, tap, tap. Tap, tap, tap. Eu girei o corpo novamente. - Holly - ele insistiu. Eu me sentei, calcei os chinelos e fui rapidamente pelo corredor até a sala da frente. Ao chegar lá, ele estava me esperando. Abri uma fresta da porta e saí. - Você tem de ir embora - sussurrei, cruzando os braços sobre o peito e recostando na lateral da casa. - Fui um idiota completo - ele começou -, por favor, me deixe entrar. Não vou tocar em você. Só quero conversar. Fiquei tensa. - Vamos lá, Holly. Sou como o seu pobre cachorro. Por favor... - ele juntou as mãos como se fizesse uma prece -... deixe-me entrar. - Diga o que tem a dizer, só isso. E baixe a voz, o Jeff está dormindo.

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- Vamos para o barracão. - Não. - Não é onde você e seu namoradinho brincam de casinha? Eu me virei na direção da porta. Estava pronta para entrar. - Holly, Holly, Holly... - Ele me puxou de volta pelo cotovelo. - Desculpe, só estou com ciúmes, tá legal? Desculpe. Ele buscou o isqueiro e o maço no bolso. - Estou com saudade - ele afirmou, acendendo um cigarro. Abaixei os shorts até que ficassem na altura dos quadris e o observei soltando uma grande baforada de fumaça. - Eu peço que me desculpe, quero que as coisas voltem a ser como antes. Olhei para o chão e chutei um montinho de terra. - Vou romper com ela. Senti o medo correr pela minha espinha. - Você não pode fazer isso. Por que você vai fazer isso? - Por você. - Mas eu não quero que você faça nada. - Olhei para os pés do Paul e vi um limão podre. Passei o pé na parte mofada e amassei-o na terra. - Holly. - A voz dele suplicava. Senti enjoe. Queria levá-lo para dentro, tirar as roupas dele e dormir juntinho dele a noite inteira. Mas todas as promessas e declarações de adoração eterna não poderiam mudar o fato de que ele só me desejava porque eu não queria ficar mais com ele. - Vá embora, você tem de ir - insisti. Ele balançou a cabeça, deu uma longa tragada no cigarro e soprou na minha direção. Abri a porta e voltei para dentro. Depois observei pela janela da cozinha, enquanto ele corria morro abaixo na direção do carro.

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Vinte e Sete O quarto de Saskia era forrado de fotos dela e da amiga Sarah, cujo sobrenome eu nunca conseguia lembrar. A cama de solteiro que ela teve quando criança tinha sido substituída por um colchão queen e uma cama box sem cabeceira ou lateral. No criadomudo havia uma pilha de revistas de moda de qualidade bastante duvidosa e, ao lado delas, uma fotografia dela e do Paul juntos em um cânion, em um lugar qualquer. - Vocês são bem próximas, hein? - apontei a colagem que ficava pendurada sobre a penteadeira. - Isto é, você e a sua amiga Sarah. - Somos sim. Eu me virei e fui até a cama dela. - Você sabia que eu já estive aqui antes? - Sério? - Na sexta série, na sua festa de aniversário. - Não me lembro de você aqui. Tão estranho. - Cadê o seu irmão? - perguntei, sentada na cama dela. - No trabalho, talvez? - Ela andou até o espelho, tirou um elástico do nécessaire e puxou o cabelo, prendendo um rabo de cavalo impecável. - Está com fome? - ela perguntou, virando-se completamente para me encarar. Fiz que sim. - Venha cá. - Saskia pegou a minha mão e me levou para baixo, na cozinha. Ela tirou uma tigela de guacamole da geladeira e um pacote de batatas fritas do armário. - 115 -


Sentamos confortavelmente no sofá da sala e comemos a tigela inteira, mal paramos para respirar entre os bocados. Depois, eu me deitei no chão, com as mãos sobre a barriga. A Saskia estava no sofá, quieta. - Já terminou as inscrições para as faculdades? - Basicamente, sim - ela suspirou. - E você? - Quase todas. - Eu fiz propostas para quatro escolas, todas na Califórnia. Isso não era o plano original, mas a mamãe morreu e isso pôs fim a qualquer grande sonho de partir para a Nova York repleta de neve, ou algo do tipo. Assim, três das minhas escolas estão em Los Angeles ou perto daqui. Uma fica mais ao norte, em Santa Cruz. Agora tanto faz, não vou tão longe. - Você então vai ficar por aqui? - Parece que sim. Saskia olhou fixamente para mim, com curiosidade. - Eu me sentiria culpada em deixar o Jeff. - Ah. Eu me virei de barriga para cima. - Sabia que o Ballanoff namorou a minha mãe no Ensino Médio? - Tá brincando, o cara do Teatro? - É, o cara do Teatro. - Credo, Holly. Dei uma gargalhada. Ficamos deitadas um tempo e não conversamos. Minha barriga roncou. - Holly? - Diga. - Posso te fazer uma pergunta pessoal? - 116 -


- Claro. - O gato se aproximou e me lambeu o rosto. Passei a mão no seu pelo macio. - Você é virgem? Eu gelei. Minha mão parou de se mexer em volta do pescoço do gato. Fiz que não um não sem muita convicção. - Por quê? E você? - perguntei, por cortesia, um mero gesto, porque eu já sabia a resposta a essa pergunta. - Não - ela sussurrou, mordendo uma unha lascada. Não. Não? Ela continuou. - Embora, às vezes, eu gostaria que a gente ainda fosse. Éramos tão jovens quando começamos... Meu Deus, e depois que se começa, não dá para voltar a apenas beijar ou dar as mãos... É uma droga, não é? - Saskia estendeu os braços, mexeu-se para o lado e me olhou. - Só sinto falta de... de mais carinho. Eles vinham transando o tempo todo? Senti um aperto no coração. Talvez ela estivesse falando de outra pessoa que não o Paul. - Quem é "nós"? - eu quis saber. Ela me lançou um olhar bizarro. - Cara, oláááá, não sou essa baita puta. - Ela atirou uma almofada do sofá em cima de mim. - Paul, é claro. - A almofada passou a uns trinta centímetros, aterrissando ao lado dos meus pés. - Por quê? E você? - ela perguntou. - Com quem foi? - Ninguém que você conheça - gaguejei rapidamente, e uma onda de culpa se espalhou pelo meu estômago. Eu me levantei. - Estou enjoada - falei. - Quer ir ao banheiro? - ela perguntou, correndo para me ajudar a levantar. - Tudo bem - dispensei a mão dela e, com cuidado, me ergui cambaleando e fui até o banheiro. - Já volto. Liguei o ventilador, sentei na beirada da banheira e chorei. Eu não chorava há meses. Acho que desde a morte da mamãe e, mesmo então, talvez não tivesse conseguido espremer mais que uma ou duas lágrimas no funeral. Estas, no entanto, eram grandes, sem som, sentimentaloides. Intermináveis. Lágrima após lágrima, rolando no tapete do banheiro da Saskia como chuva. - 117 -


Toc, toc, toc. - Tudo bem por aí? Respirei fundo, depois soltei: - Estou bem. Já vou sair. - Então abri a torneira da pia e joguei um pouco de água no meu rosto, da maneira que às vezes as mulheres histéricas fazem nos filmes. Arrumei o cabelo, assoei o nariz e tentei sorrir para o meu reflexo no espelho, para ver se ainda poderia sair parecendo normal, mas os meus olhos estavam superinchados. Saí furtivamente pela porta do banheiro, cabisbaixa. - Tudo bem? Você andou chorando? Tentei parecer mais animada. - Não, foi só que eu forcei o vômito e isso sempre me traz lágrimas nos olhos. De qualquer forma, não funcionou. Não consegui botar nada pra fora. - Você quer um pouco de Ginger Ale? - Preciso ir embora - respondi. - Tem certeza? - Sim. Vou voltar para casa e dormir um pouco. Às vezes eu tenho isso - menti.

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Vinte e Oito Fui vestida de gato. Tinha uma piñata, uma geladeira portátil repleta de refrigerantes de laranja e Coca-Cola, e quatro garrafas pequenas de uísque de milho sendo passadas, para curtição geral. Nils e eu estávamos empoleirados no corrimão de madeira do patamar da escada, olhando para baixo, para vou chutar - uns cinquenta, talvez sessenta garotos. A maior parte da nossa classe estava lá. - Então, quando vai acontecer a grande cena de rompimento? O Nils estava com uma fantasia de galinha. Na verdade, ele usava um bico falso e tinha uma pena enfiada no bolso do peito da camisa. - Amanhã - ele respondeu, parecendo desanimado. - Depois de toda essa bagunça ter terminado. Olhei para a multidão. A Saskia e o grupo dela trajavam uniformes de escoteiras e bebiam em círculo, sentadas no chão, perto das azaleias. Paul também estava lá. Usava um chapéu de feltro e um terno. - Já pensou no que vai dizer? - Nils levantou os ombros. - Você é ótima, mas não estou conseguindo dar conta de um relacionamento agora. Não estou pronto para compromissos. Esse tipo de coisa. - Ele olhou para mim. - E como está a sua situação? - Ótima, na verdade. Terminada. - Uau! Verdade? - É. - Endireitei o corpo. - E me senti ótima com isso. - 119 -


O Nils olhou para mim como se fosse dizer alguma coisa, mas depois não falou nada. - O que a gente está fazendo aqui, mesmo? - perguntei, me virando na direção da festa e observando o Paul me olhar do lugar onde ele estava, no gramado. - Sei lá... - Nils respondeu. Depois disse: - Olhe só, o Paul Bennett! - fingindo entusiasmo. - Meu, ele está usando um chapéu de feltro. Que bobão. Náusea súbita. Desviei o olhar para outra direção. Nora disparou pelo gramado com um uniforme de líder de torcida do Lakers. Corpete curto e meia-calça, bem pelada! Passei as pernas sobre o corrimão e pulei para a área do gramado. - Vamos andar por aí? - perguntei. - Achar um pouco de álcool para batizar nossas bebidas? - Dei uma pancadinha na lata de Coca. O Nils saltou o corrimão e aterrissou perto de mim. Agarrou a minha mão e a segurou por um segundo. Mais que um segundo. Estranho, porque antes a gente nunca tinha ficado de mãos dadas, e não é que o Nils estivesse bêbado, nem nada. Ele só soltou quando a Nora apareceu mais ou menos uns quinze segundos depois. Ela se atirou totalmente sobre o Nils, separando as nossas mãos. - Amor - ela falou com voz de menininha, agarrando-o por trás da cabeça e o puxando para um beijo molhado. - Está se divertindo? - Nils quis saber. Endireitando-se um pouco, ele empurrou o bico de volta para o nariz. - Um sucesso - ela disse, virando-se então para mim: - Holly! Estou tão contente por você ter vindo! - Ela se adiantou com os braços estendidos. Nós nos abraçamos. - Você quer uísque? - Ela tirou uma garrafa estreita de Jack Daniels de sob o corpete. - Claro que sim. Nils e eu estendemos nossas latas de Coca-Cola. Nora despejou a bebida. Eu fiquei bêbada. Não bêbada bêbada, na verdade só tonta, e o Nils tinha desaparecido com a Nora em alguma parte, então fiquei sozinha, em pé do lado da mesa de comidas, e engolia batatas fritas quando a Saskia apareceu de repente, segurando um lírio. - 120 -


- Você está bebendo? - ela perguntou, se inclinando um pouco. Levei a lata aos lábios e fiz que sim. - O que é isso? - apontei para a flor. - Eu colhi. - Estou vendo. Tenho certeza de que os pais da Nora vão ficar felizes quando perceberem que alguém apanhou todos os lírios. - Só um. - Saskia colocou a flor atrás da orelha, pôs o braço no meu ombro e me puxou para perto. - A festa está divertida? - Não muito - respondi, rapidamente buscando com o olhar onde o Paul estava. Nenhum sinal dele. Não que fosse importante, agora, se ele nos visse juntas ou não. - Achei que não. - Ela mantinha o braço no meu ombro enquanto balançávamos de um lado a outro. - Estou tão feliz por te conhecer, Holly Hirsh. - Ela me puxou para mais perto e eu deixei. Eu amei o jeitinho dela me adorar. Depois disso encontrei o Nils, e então eu o perdi novamente, daí fiquei na fila do banheiro uma eternidade, depois eu me cansei e fui andar lá fora. Analisei a multidão. Todos bêbados. Já era tarde. Eu me afastei do agito, para uma área de bosque fechado, e encontrei um belo lugar atrás de um trecho de jasmim bem alto. Abaixei a legging e a calcinha até o calcanhar e me agachei. - É você? - veio uma voz desencarnada. Gritei, dei um salto e acabei molhando as pernas. - Holly, sei que é você, vou voltar para lá. Era o Paul. Rapidamente ergui a calcinha e a legging e ele apareceu por trás de um arbusto. - Oi. - O que você está fazendo aqui atrás? - Trabalho de detetive... - É isso, a sua fantasia? - Isso, sou detetive. Gostou do meu chapéu? - Acho que sim. - Eu me afastei e pisei em um emaranhado de mato. - 121 -


- Posso falar com você um instante? - Na verdade, não. - Aquela menina loira lá, a vestida de escoteira... você a conhece? Congelei por um instante, depois disse: - Deixe de ser bundão. - Caminhei na direção dele e prossegui: - Vamos voltar para a festa. - E aí? Agora, de repente, vocês são as melhores amigas? - Você está bêbado, detetive Bennett. Vamos conversar mais tarde, tá bem? - Tentei passar por ele. Ele agarrou o meu braço. - Estou com saudade de você. Eu me desvencilhei dele, liberando o meu braço. - Você não sente a minha falta. Você me teve e não me quis. - Continuei caminhando. - Além disso, você mentiu. Você mentiu que não dormia com a Saskia. - Não menti. - Mentiu sim, você mentiu. - Holly, qual é, espere. - Ele agarrou o meu braço de novo e me fez voltar. - Preciso ir ao banheiro. - Eu quero conversar com você. - Não agora. - Holly. - O quê?! - respondi rispidamente, esperando. Fiquei batendo o pé em uma pilha de folhas secas e quebradiças. - Acho que eu deveria falar com ela. Senti um aperto no coração. - Falar o que para ela? - 122 -


- Sobre nós. - Não há nada entre nós. - Holly. - Você não pode. - Posso, sim. E é isso que vou fazer. Vai ser bom, viu? Vou assumir e daí ninguém terá de se sentir culpado, nem nada. Como é aquele lema? Sobre a verdade e a liberdade? Ele começou a andar de volta para a festa. Agarrei-o pela camisa e tentei puxá-lo de volta, mas ele continuava seguindo adiante. Então eu me atirei nele, enlaçando os braços no pescoço dele, por trás. Ele parou. - Holly, que diacho? - Ele se virou para me encarar. Estávamos cara a cara. - Não faça isso, por favor. Vai acabar com ela. Nunca tive uma amiga como ela antes. Ela vai me odiar. - Ele segurou o meu queixo. Afastei a mão dele e respirei fundo. Por favor, não diga nada a ela. - Eu preciso fazer isso. - Não, não precisa. Por favor, Paul. Faço o que você quiser. - O que eu quiser? Concordei. Ele deu um passo à frente e empurrou a gola da minha camisa para o lado para que ficasse presa apenas por um dos ombros. Depois ele puxou o elástico do meu sutiã e riu. Meus olhos se encheram de lágrimas e se turvaram. - Que é isso, Paul, por favor! - É sério, Holly, controle-se. - Ele segurou a minha mão como se estivesse sendo legal. - Pense bastante nisso. Ou as coisas voltam a ser como eram antes ou vou contar tudo sobre nós para a Saskia. Vou te dar uma semana. - Ele me beijou rapidamente na boca e partiu.

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Enxuguei o rosto, tirei um galhinho da minha blusa e voltei para a festa. Nils estava sentado de pernas cruzadas sobre uma geladeira portátil, comendo um doce da piñata já quebrada. Ele conversava com aquela garota, Sarah. - Oi. - Mexi na manga da camisa dele. Ele ergueu os olhos. - Por onde você andou? - Vamos embora, por favor. Está tarde. Nils se levantou.

*** Voltamos para casa a pé. Era uma caminhada curta, talvez uns oitocentos metros. Fiz o Nils segurar a minha mão durante todo o trajeto, até a minha porta da frente. - Boa noite, Hols. - Ele se despediu de mim, indo na direção do quintal da casa dele. - Nils? Ele se virou. Eu soluçava. Repentinamente. a mesmo tipo de choro silencioso e aflito que tivera antes, no banheiro da Saskia. Senti a minha garganta apertar e abanei as mãos diante do rosto. Nils voltou correndo para mim. - Não consigo respirar - gritei com a voz esganiçada, abanando as mãos, procurando o chão embaixo de mim. Nils me segurou pela cintura e caminhamos até a Barraco. Entramos, ele me fez sentar no futon e ligou as lampadinhas de Natal na tomada da parede. - Quer que eu chame o Jeff? Fiz sinal que não e o puxei para perto de mim.

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- Fiz uma coisa terrível. Fiz uma coisa horrível, de verdade, com alguém de quem eu gosto muito. - Quem? - Prometa que não vai me odiar. Nunca. Aconteça o que acontecer. Por favor. - Eu nunca poderia te odiar. Você é a minha melhor amiga. Assenti, como se para dizer obrigada, eu te amo, você é o meu melhor amigo também, mas não consegui emitir essas palavras. Nils me puxou um pouco, e eu desabei em seu peito. Chorei, chorei, e a cada soluço silencioso a camiseta dele ia ficando mais e mais transparente, com o meu ranho e as lágrimas salgadas. - Holly, o que está acontecendo? Não vou contar para ninguém, por favor. Eu me sentei, inspirei profundamente e prendi a respiração o máximo que pude antes de expirar. - Estou bem - falei. - Está mesmo? Assenti com a cabeça. Agora eu conseguia respirar. - Sinto muito por tudo isso. Sinto mesmo, você deve me achar maluca. Nils me olhou de um jeito engraçado. - Não me olhe assim - falei, apertando os lábios. - Eu sei o que isto está parecendo. - O quê? - Que eu estou um caco, mas não estou. Estou bem. - Você é quem sabe - Nils respondeu, cutucando o meu ombro. - Estou boa para voltar para casa agora - falei, me levantando. - Tem certeza? Assenti com a cabeça. - 125 -


- Obrigada por tudo. Pela camiseta. - Fiz um gesto apontando a camiseta ensopada de lágrimas. - Se precisar de mim, Hols... - Ele tirou o celular do bolso e o agitou com se fosse uma bandeira. - Estou bem. Vou conseguir superar durante a noite. Eu me inclinei e beijei a bochecha dele. - Você é ótimo! prossegui, empurrando-o pela porta rangedora do barracão. - Sério, não há ninguém melhor que você.

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Vinte e Nove Segunda-feira, de volta à escola, foi um desastre total. Eu estava tão paranoica que mal conseguia enxergar direito. Quase tive um ataque ao vislumbrar o Paul no saguão. Tudo que ele fez foi passar por mim, dar uma piscadela e um sorriso, e eu tive certeza de que a escola toda sabia. História Geral não foi muito melhor. Gastei os primeiros dez minutos da aula tentando ver em Saskia sinais de que ela sabia de alguma coisa. As minhas mãos tremiam muito sob a mesa. A minha camiseta estava respingada de minúsculas manchas de suor. Não me acalmei nem parei de suar até que finalmente Saskia se virou para mim e disse: - Você está bem? Parece doente. Doce alívio. Ela tinha falado comigo, palavras de verdade. Eram palavras amáveis, repletas de carinho e amizade. Não tinham nada a ver com "sua mentirosa, sua puta, ladra de namorados!”, que eram as palavras que eu estava preparada - para ouvir naquela manhã quando me vesti e me aprontei para o matadouro. Isto é, a escola. Na hora do almoço eu já tinha me acalmado ligeiramente. O Nils e eu comemos sozinhos. A mesma rotina de sempre. Sanduíches de abacate com tofu. - Está melhor? - ele quis saber, dando uma mordida no meu sanduíche. - Não diria melhor. Eu diria diferente. - Meus olhos dispararam para a mesa da Saskia e do Paul. Tudo parecia exatamente como sempre. Salada, batatas fritas, excesso de EPA, ou exibição pública de afeto.

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- Já executou a sua tarefa? - perguntei a Nils, mordiscando um pedaço da crosta do pão que tinha caído do meu sanduíche. - Não consegui. No sábado, ela estava de ressaca brava e, no domingo, ajudei o meu pai com o carro. - Ele levou o polegar à boca e mordiscou uma unha lascada. - Temos uma janela na próxima aula. Pensei em conversar com ela. - Na escola? - Por quê? Você não acha que é uma boa? - Talvez seja melhor esperar até depois da aula. - Isso, depois da escola... talvez você esteja certa - Nils concordou. Eu me encontrei com o Ballanoff antes da aula de Teatro. Sentamos lado a lado na beirada do palco. Eu balançava as pernas para a frente e para trás. - Está pronta para a sua cena? - Acho que sim. - Terminou a leitura? - Ando um pouco preocupada. - Holly, qual é... - Sinto muito, meu Deus, estou com muita coisa para pensar... - Ah, é? Como o quê, por exemplo? - Você sabe... - Olhei para as portas do auditório. - Eu deveria te reprovar - ele retrucou, esticando o pescoço. - Você não teria coragem... - Provavelmente você tem razão. Segurei a beirada do palco com as duas mãos. - Você já fez alguma coisa realmente má? - 128 -


- Claro que sim. - Ele deu de ombros. - Não, algo realmente mau, tipo trair um amigo. - Olhei para ele. - Sim,já. - E sobreviveu? - Creio que sim. Estou aqui, certo? Eu o analisei. - Você acaba conseguindo superar a culpa? - Bem, acho que depende. - Depende do quê? - De várias coisas. Para começar... acho que depende do que foi feito, não é? Tentei imaginar o Ballanoff fazendo algo realmente ruim. Imaginei-o de boina preta, roubando joias. E depois, novamente de boina preta, roubando peças de arte. Soltei uma risada. - O que é tão engraçado? - Nada. É só que não consigo imagíná-lo fazendo nada mau. - Fiz uma pausa e falei: - Vamos, conte. O que você faria? Ele se inclinou um pouco e sussurrou: - Não é da sua conta. Concordei, olhei para baixo e ri. Alguns garotos começaram a entrar para a aula, aos poucos, no auditório. - Vou terminar a leitura nesta semana - concluí, escorregando da beirada do palco até o piso acarpetado.

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Trinta Por causa das ameaças do Paul e do meu crescente peso na consciência, a semana seguinte à festa da Nora foi uma quebra de recorde em termos de consumo de álcool para mim. Cerveja, uísque, Kahlua, mais cerveja. Vômito, Kahlua. Mas você conhece o ditado: para grandes males, grandes remédios... Eu estava em casa na quarta-feira à noite, lavando os pratos depois de jantar com o Jeff, quando o Nils apareceu. - Oi, oi. - Jeff e eu demos "ois" separadamente. O Nils entrou na casa, semcerimônia, e sentou-se na bancada junto à pia da cozinha. Passei um prato úmido e um pano para ele. - Enxugue, por favor. - Dá para ele nos ouvir aqui? - ele piscou e se inclinou para mim. - Consigo te ouvir perfeitamente - Jeff reagiu, sem se mexer diante do computador. Assim, o Nils foi o fornecedor do Kahlua; a única coisa que ele achou que os pais não sentiriam falta no bar. Surrupiei duas cervejas da geladeira da nossa garagem, que bebemos enquanto cantávamos Vienna junto com o Billy Joel. Mais ou menos uma hora depois, estávamos bêbados. A maior parte do Kahlua já tinha ido, as duas garrafas de cerveja estavam vazias, e uma pilha enorme de embalagens prateadas de Kisses da Hershey se acumulava no futon entre a gente. - Tudo bem, então diga aí, você falou assim: "Não estou pronto para ter um compromisso sério", e então ela respondeu, o quê? Ela disse exatamente o quê? - Eu estava explodindo de tanto rir. Histérica. Não que o rompimento do Nils com a Nora fosse remotamente engraçado. - 130 -


- Então ela ficou... triste, Holly. Ela ficou triste! Pare de rir! - Foi péssimo. Não gosto de magoar as pessoas. Especialmente ela, que é um doce. - Ele enfiou um punhado de chocolate na boca. Dei uma risadinha por dentro. - Estou de coração partido - Nils anunciou bem alto. - Acabei de romper com a Nora. - Ora, faça-me o favor. - Passei outro prato para ele. - Você é que partiu o coração dela. Você não ficou com nada partido. Nils continuou a conversa. - Quero acampar hoje à noite no Barraco. Com a Holly. Jeff, por favor? - Hoje é dia de semana, amanhã tem aula. - Ele ainda estava diante do computador. Cutuquei o Nils no ombro e gritei para o Jeff. - Tenho uma janela no primeiro horário, só preciso chegar na escola às nove! - Holly, não me deixe ser o vilão. Nove da manhã não é exatamente meio-dia. - Mas, sério, a gente só vai estar a dois metros de você. - E o Nils prosseguiu: Vamos comer um pacote de biscoitos e dormir por volta das onze. É só que não quero ficar sozinho em casa hoje à noite. Tão deprimente. - Sozinho? Você não tem pais? Nils curvou o corpo em uma pose de dar dó - cabisbaixo, ombros caídos. Jeff amoleceu. - Tudo bem, nem sei por que me preocupo. Vocês é que vão sofrer amanhã. - Ele olhou para nós: - Vai ser bem puxado. - Ele beijou a minha cabeça, depois passou pela sala e foi para o quarto. - Vou tomar banho. Se não me encontrar mais com vocês, divirtam-se. Holly, me dê um toque pela manhã, antes de sair. Assenti, dei uma gingadinha, e então ensaboei mais um prato engordurado.

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*** Engoli e continuei. - Não, é sério, você tem razão. É triste. É muito triste - tentei torcer o lábio, fazendo uma careta. - E que cara é essa, agora? - Estou ficando séria. - Você não está ficando séria, Hols, você está sorrindo, mas as laterais dos seus lábios estão viradas para baixo. - Nils se esticou e tocou a minha boca. Tentei me sentar, mas então Nils me puxou de volta para baixo. - Que horas são? - quis saber. - Uma. - Nils respondeu, olhando o relógio. - Amanhã vai ser dureza, hein? Nils se esticou e me agarrou pela camiseta. - O que está fazendo? - Nada. - Ele recuou a mão. Nenhum de nós falou nada durante um ou dois segundos. Eu me deitei, ao mesmo tempo em que passei a mão na lateral do meu seio. Não senti nenhum caroço. - Ei, Nils. - Sim. - Você acha que o câncer é contagioso? - Você está drogada. - Ele me deu um cutucãozinho. - Não, drogada não. Kahlua. - Falei olhando para cima. Nós dois caímos na risada, histéricos. Ele se esticou e agarrou a minha camiseta. - O que você está fazendo? - perguntei de novo. - 132 -


- Estou te puxando para mais perto. - Ele deu um puxão forte no algodão fino. Eu só fiquei deitada lá, sem me mexer. Rindo. - Holly, qual é! Vem mais perto. Eu me aproximei dele, derrubando a pilha de embalagens prateadas. - Tudo bem - falei. - Estou aqui. - Ah, que bom. - Nils se ajeitou para que o corpo dele espelhasse o meu. Nós dois ficamos de lado, nossos joelhos se tocando. Eu ainda ria muito e disse "ah, que bom" várias vezes, imitando a voz dele, que é mais grossa que a minha. Não grossa grossa. Mas mais grossa. Agora o Nils tinha parado de rir e esfregava a barra da manga da minha camiseta entre dois dedos. - Quer jogar Palavras Cruzadas? - perguntei, me apoiando em um dos cotovelos. Ele deu de ombros e depois me beijou. Foi um beijo de verdade. Com a boca aberta e de língua, ele tinha sabor de chocolate barato e eu amei isso. Gostei muito mais do que beijar o Paul. Eu me afastei, e ele olhou para mim. Tentei imaginar o Nils e eu na praia, no banco traseiro do carro do Paul. Depois tentei nos imaginar juntos na minha cama. Queria rir. Mas, então, ele me beijou de novo. Colocou as mãos no meu rosto, e eu puxei delicadamente o passador de cinto das calças dele antes de passar a mão ao redor da cintura dele e aconchegá-lo em mim. Não era nada igual a ficar com o Paul. - Nils? -Sim. Eu não sabia muito bem o que dizer, então apenas não disse nada. Então nos beijamos novamente. Ficamos nos beijando um tempo, não fizemos mais nada, e então, por volta das duas e meia, adormecemos.

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O Nils tinha colocado o alarme do celular dele para tocar às oito. Assim, às oito, ele começou a apitar alto. Eu me ergui rapidamente. Ainda usava as roupas da noite anterior. Esfreguei os olhos. A minha cabeça parecia que ia explodir. - Ei - Nils falou, esticando os braços acima da cabeça. Depois ainda disse: Meu Deus. - Não posso ir para a escola - gritei, segurando a cabeça latejante. - Não consigo. - É preciso, Holly. O Jeff nunca mais vai nos deixar dormir aqui de novo. Devagar, o Nils se colocou de joelhos e segurou a minha mão. - Vamos. Levante. Volte para casa. Tome uma chuveirada e beba um pouco de água. Você vai se sentir melhor. Eu me levantei. Nós dois nos levantamos. O Nils pegou as garrafas de cerveja e a garrafa vazia de Kahlua e enfiou em uma sacola de compras de papel que tínhamos reservado no canto. - Vou me livrar disto - ele falou, erguendo a sacola. Caminhei até a porta e depois me virei. - Ontem à noite... - Sim - Nils assentiu, parecendo tímido. - Você... - respirei fundo -... você fez o que fez, a sério? Ele coçou o queixo, rindo. Eu me movimentei para trás, batendo na parede a caminho da porta. - Ai! - exclamei, segurando a cabeça. - Cuidado, desajeitada! - Rá rá, - Saí protegendo os olhos do sol com uma das mãos. - Vejo você por aí. - E me despedi mandando um beijo. Andei pelo gramado na direção da minha casa, ainda bêbada.

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Trinta e Um O professor de Literatura Inglesa Kiminski, discursava sobre Beowulf, Grendel, temas pagãos, blâ-blâ-blâ. Não conseguia entender urna palavra do que ele dizia. Ergui a mão. - Por favor, posso ir ao banheiro? - Não sei. Você pode? - Que merdinha esse cara. Este era o seu jogo predileto. Horada-gramática. Respirei fundo e então reformulei a sentença. - O senhor me daria permissão para ir ao banheiro? - Dou. - E depois, entre os dentes: - Pela segunda vez na última hora... - Muito obrigada - zombei. Eu me levantei e caminhei até a saída. Eu tinha beijado o Nils. Beijado o NILS. E depois de amanhã, na sexta-feira, seria o meu Dia D. Ou convenceria o Paul a ficar de bico calado ou me atiraria no precipício. Saskia ia me odiar. Eu me odiaria. O mundo me odiaria. Parada sobre a privada, pensei que conseguiria forçar o vômito. O meu estômago estava revolto desde a segunda aula. Enfiei o dedo na garganta e fiz força para vomitar. Meus olhos se encheram de água. Nada feito. Então ouvi um movimento na porta ao lado. O barulho de papel higiênico e fungadas. Olhei para baixo e reconheci aqueles sapatos. Mules de couro cor-de-rosa. Feios. Com aparência barata. Provavelmente custaram quatrocentos dólares. - Nora? - falei, com cautela. - É você? - Quem é? - a voz aguda dela respondeu. Ela estivera chorando. - 135 -


- É a Holly. Eu a ouvi abrindo a tranca do banheiro e fiz o mesmo. Nós nos encontramos nas pias. - Oi - ela disse. Ela estava horrível. Usava um vestido justo cor-de-rosa para combinar com os calçados feios, como se ela realmente tivesse tentado ficar numa boa naquela manhã. Manchas de rímel se espalhavam pelas bochechas. - Tudo bem com você? - perguntei. Ela segurava um macinho de papel higiênico no nariz. - Você já deve estar sabendo. Ele te contou, não foi? Assenti. - Um idiota. Não estava esperando isso. Como pode ser? Não sabia como consolá-la. Em circunstâncias normais já teria sido desconfortável, mas depois da noite com o Nils...? O meu estômago embrulhou. - Eu realmente gostava dele, sabia? - Nora soluçou. - Não sei onde colocar todos os meus sentimentos agora. Eles ainda estão aqui, me torturando. - As lágrimas escorriam pelo rosto. Eu tinha vontade de ir até ela, abraçá-la, fazer qualquer coisa para as lágrimas pararem, mas não conseguia mexer as pernas. - Posso fazer alguma coisa? - perguntei. - Como o quê? - Ela parecia realmente perplexa com a minha oferta de ajuda. - Não sei. - Encolhi os ombros. - Quer um refrigerante da máquina? - Você pode falar com ele, Holly? - Ela assoou o nariz. - Talvez você descubra o que fiz de errado. Aquilo acabou comigo. Ela estava me deixando tão triste. - Acho que não... Isto é, não sei se é uma boa, me meter entre vocês dois... Nora foi até a pia. Ela pegou água nas mãos em cuia e espalhou sob os olhos. - Você está se sentindo mal? - ela perguntou. - 136 -


- Não, por quê? - Ouvi você engasgar, antes de perceber que era você. - Ai, menstruação - falei rapidamente, disfarçando. - Sempre me faz gemer. Ela se analisou no espelho, secando o rosto com uma toalha de papel. - Como estou? - Você está ótima - menti. Ela se virou para mim. - Então é isso? Nils e eu. Você acha que acabou para sempre? - Com os olhos bem arregalados. Ela tinha tanta expectativa. Dei de ombros e olhei todo o corpo dela murchar. - Obrigada, Hol1y. - De nada. Ela passou por mim, segurando o meu braço, na saída. - Espero que você melhore do estômago. - Obrigada. Eu me tranquei de novo no banheiro.

*** Almoço lá fora, no gramado, com a Saskia. Nada de sanduíches. Batatas fritas e ovos fritos da cantina. - Sabe que vai ter festa com fogueira, sábado à noite, na praia? - Verdade? - Enfiei quatro palitos de batata na boca, mastiguei rapidamente e engoli. - Quem vai?

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- Todo mundo. Nem sei quem está organizando. Mas acho que vai ser divertido. Ela pegou um pouco da salada. - Você vai, não é? A ideia de outra noite com o Paul por perto me aterrorizava. Além disso, sextafeira seria exatamente uma semana após a nossa última conversa. Então tínhamos coisas pendentes. - Talvez - falei -, não estou exatamente a fim de festa... Ela chutou a minha perna. - Qual é? Vai ser ótima. Depois deste ano, nada de fogueiras... tchau Topanga... sabe? Você tem de ir... - Vamos ver. - Tomei um longo gole da minha garrafa de água. E então, aconteceu. Acho que era inevitável. Era questão de tempo que Paul, Saskia e eu ficássemos cara a cara. Estávamos sentadas no chão, ela e eu. E, de repente, lá estava ele, pairado acima de nós. - Amor. Nós duas erguemos o olhar. Meu corpo ficou tenso. Esperei que ele dissesse qualquer merda. - Oi - ela falou com a voz aguda, esticando-se e segurando as mãos dele. - Sente-se! - Ela bateu na grama. - Você quer batatinha? Paul olhou para mim. - Tudo bem. Vou comer lá dentro com o Pete e o Broder. Saskia sorveu um grande gole de Coca-Cola e ergueu as mãos ao alto. - Desculpe, sou tão mal-educada. Vocês já se conhecem? - Não, de verdade - Paul disse rapidamente, estendendo a mão para me cumprimentar. - Isto é, eu te conheço, mas não te conheço. Peguei na mão dele. Estava flácida. - Paul, Holly, Holly, Paul. Paul mexeu a cabeça e se agachou perto da Saskia. - 138 -


- Vou indo - ele se despediu. Então a puxou, segurando-a no queixo com uma das mãos, para um beijo. Foi um longo beijo, durou quinze segundos - juro. Em determinado ponto, ele abriu os olhos totalmente e me olhou de esguelha, só para ver se eu estava olhando. E eu estava. - Prazer em te conhecer, Holly, - O Paul acenou desajeitadamente e se dirigiu à cantina. A Saskia parecia um pouco surpresa. - Que foi aquilo? Aquele beijo? Foi só por sua causa. Ele não me beija mais daquele jeito. - Ela se virou na minha direção. - Precisamos ficar mais tempo juntas. Por favor. Peguei um grande naco de ovo frito frio.

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Trinta e Dois Por fim, acabei indo à festa da fogueira. Não estava querendo muito, mas o Nils insistiu. - Hols, vai ser divertido - ele falou, com a mesma entonação da Saskia antes, ao falar comigo. - Tchau Topanga, alô mundão. Vamos, vamos, vamos. Então eu me deixei convencer por ele. Eu o deixei me beijar e prometer horas de diversão. Eu me convenci de que o Paul tinha blefado e bebido na semana anterior e que hoje seria apenas outra festa na praia. Fogueira e cerveja. Não vai dar em nada, disse a mim mesma. Assim, o Nils foi de carro. Ele quase não dirige, mas naquela noite ele pegou a caminhonete do pai dele. Paramos no mesmo estacionamento em que Paul e eu estivemos algumas vezes. Pouco antes de sairmos do carro, o Nils me beijou. Ele deslizou pelo assento da caminhonete do pai e me puxou para o colo dele. Tocou o meu rosto com as mãos e pressionou os lábios dele nos meus. Depois falou: - É assim que eu gosto. Você e eu desse jeito, juntinhos. Senti um calorzinho na barriga. Depois, saímos do carro. Seguimos uma trilha de fumaça até a festa. Um monte de garotos de agasalho se aglomerava, bebendo sabe-se-lá-o-quê em copinhos descartáveis diante da fogueira. Vi a Nora. Logo depois, o Paul e a Saskia. - Bebida? - perguntei ao Nils, apertando a mão dele e me adiantando para achar cerveja. - Bebida - ele concordou, seguindo-me de perto. - 140 -


Pegamos duas latas de Tecate de uma pequena geladeira portátil vermelha perto da fogueira. Bebemos lado a lado, sentados em um pequeno local gelado na areia. Nils fez círculos no meu calcanhar sob as minhas calças jeans com o dedinho. Bebemos mais duas Tecates. Observamos os outros bebendo, conversando, dançando e se beijando. Então bebemos mais duas cervejas e abracadabra! Como mágica, estávamos bêbados. Deste ponto em diante, as coisas ficaram meio entrecortadas. Bebi muito, o Nils também, e não consigo me lembrar muito da noite, exceto de como tudo acabou, o fim de tudo. Eis aqui do que me lembro: Em algum horário, por volta das dez, a Nora, bêbada e chorosa, puxou o Nils na direção do mar. Eles se sentaram sobre uma pedra, e eu me sentei em outro rochedo, sozinha, até que a Saskia veio com mais cerveja. Bebemos tudo. Dançamos ao redor da fogueira. Vi o Paul me observando e, de vez em quando, eu me virava e observava o Nils e a Nora, mas eu não estava nem aí com nada. Queria dançar. Dancei até arrebentar, até que em algum ponto, por volta da meianoite, o Nils apareceu e me disse: - Estou perdido, a Nora está me deixando maluco. Vou dormir no carro. - E eu respondi que tudo bem. Depois não me lembro quanto tempo se passou, mas de repente a Saskia tinha ido embora, a maioria do pessoal tinha ido embora, e eu estava adormecida sobre uma toalha por muito tempo. O Paul me acordou. - Está na hora de ir, Holly Eu me sentei, tonta ainda. - Vou te levar para casa, tá bem? Deixei que ele pegasse na minha mão. Nós nos levantamos. - Cadê o Nils? perguntei. - Cadê o Nils? - Ele foi embora - Paul respondeu. E assim foi. Acabamos parando no Barraco. Não sei como. Não sei se eu pedi para ele me levar lá ou o quê. Talvez tivesse pensado que esperaria o Nils por lá. Não sei bem agora. Tudo o que sei é que estávamos lá, Paul e eu, que estava escuro, que eu estava bêbada, e que eu o deixei me despir. Eu o deixei tirar todas as minhas roupas e me beijar, e não é que eu disse não, em nada, eu estava a fim. Eu me lembro dessa parte. Eu me recordo de ter desafivelado as calças dele e que ele ficou com a camisa e os sapatos. Não consigo dizer por que fiz o que fiz. Tudo o que eu sei é que, horas mais tarde, quando eu acordei - 141 -


sozinha, com as calças emboladas no chão perto do futon, eu queria morrer. Estava claro lá fora, eu estava a meio caminho de estar sóbria, sabia o que tinha feito e não sentia nada além de vergonha. Abri a boca para chorar, mas não veio nenhum som. Então vesti a calcinha novamente e recolhi as calças do chão. Eu me vesti e voltei para casa.

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Trinta e Três Em meu sonho, a mamãe tinha a minha idade e usava aquele vestido de gaze de algodão dela que usei na primeira vez em que fui caminhar com o Paul. Ballanoff também estava lá, superagasalhado com aquele estúpido casaco felpudo que ele sempre usa no auditório nos dias muito frios. Mamãe beijava o Ballanoff, só que era eu que sentia os beijos - macios, prazerosos e parecidos com o que eu senti ao beijar o Nils no Barraco naquela noite. Mamãe abraçava o Ballanoff pelo pescoço, e as mãos dele seguravam a cintura dela. O Jeff também estava lá, assim como o Nils, o Paul e o velho namorado da mamãe, Michael. Todos estavam lá, observando nas laterais, como se beijar fosse um esporte público. Como tênis. Ou golfe. Mas, então, a mamãe ficou sozinha. Sem Ballanoff nem Jeff. Mamãe ficou só, e todo o amor que eu tinha sentido entre ela e o Ballanoff desapareceu. Depois a sala mudou de tom. Transformou-se de escuro para claro, depois de claro para branco e, de repente, a mamãe ficou transparente, flutuando para cima e para longe, dissolvendo-se nas paredes brancas nuas, desaparecendo como uma mancha leve ou uma fotografia velha.

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Trinta e Quatro Eu estava sentada diante da televisão e tentava assistir algo sobre as baleias da Groenlândia no canal Discovery, mas não conseguia me concentrar. Fiquei lá sentada, assistindo às luzes piscando na tela e tentando controlar o choro. O Harry estava aninhado sobre os meus tornozelos enquanto eu pensava no Nils e na Saskia e em como eu nunca poderia voltar atrás no que tinha feito. Então ouvi o rangido na porta da frente e não virei, porque achei que fosse o Jeff que tinha ficado fora no quintal a manhã inteira, semeando as plantas perenes. - Você está aqui. O que aconteceu com você ontem à noite? Era o Nils. Os meus dedos começaram a formigar. Virei-me para enxergá-lo. Ele estava muito fofo. O cabelo todo bagunçado por causa do sono. Olhar para ele fez o meu coração doer. - Ei, estou aqui, sim. Estou bem. A Saskia me trouxe para casa - menti. - Alguém me disse que você tinha ido embora, e eu estava muito confusa, Nils, mal conseguia andar direito... Ele caminhou na minha direção. - Acordei tipo às cinco e meia, no banco traseiro da caminhonete, e ainda estava na praia. E não consegui te achar, eu surtei. - Então a gente se abraçou. Ele enterrou o rosto no meu pescoço e me beijou. - Você está com um cheirinho muito bom - ele falou, passando a mão no meu cabelo molhado. - Acabei de tomar banho. - Sua pele está tão macia - ele prosseguiu, me balançando para lá e para cá. - Fiquei com tanto medo, pensei que algo ruim tivesse acontecido.

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Senti uma comichão no meu rosto. Conte para ele, pensei. Conte para ele, conte para ele o que você acabou de fazer. Enxuguei os olhos e me afastei para que ficássemos cara a cara. - Você está chorando? - ele quis saber, franzindo a testa. Abri a boca para contar tudo. Sou uma pessoa horrioel, pensei. Não te mereço, pensei. Então o meu celular tocou. Nils deixou os braços penderem ao lado, e eu dei um passinho à frente para verificar o identificador do celular. Era a Saskia. Saskia. Eu me virei para o Nils, e o meu rosto devia estar muito estranho, pois ele falou: - Que anda acontecendo com você? Quem está te ligando? Fiquei em pé parada ali e pensei que a Saskia sabia de tudo. Logo o Nils também saberia de tudo. Diga-lhe, Holly, antes que ele descubra de outro jeito. Mas não consegui. Eu queria ficar com ele pelo tempo que pudesse antes de ele perceber que pessoa horrível eu era. - Ninguém. Só estou tão cansada. Vem dormir comigo? - Peguei-o pela mão e o conduzi, indo pelo corredor até o meu quarto. - Vamos só ficar na cama e dormir um pouco? Estou tão cansada - falei. Então, aconteceu o seguinte. Atiramos os sapatos por lá, engatinhamos pela cama juntos e depois dormimos, só isso. Lado a lado, o corpo do Nils grudado no meu, de conchinha. Quando acordei, por volta das cinco,já estava quase escuro. O Nils tinha saído. Verifiquei o telefone. Três recados novos. Não vi o identificador para saber quem tinha ligado. Em vez disso, larguei o telefone na minha cama e corri de meias pelo corredor até a cozinha. Havia um recado do Jeff na geladeira de que ele tinha ido à loja. Tinha levado o Harry. Eu me sentei apoiada no sofá e liguei a televisão. Assisti à última metade de Agnes de Deus no Showtime, depois peguei o livro da mesinha de centro e voltei até O Barraco para ler. As luzes já estavam acesas lá dentro. Dava para ver uma nesga amarela pálida saindo sob a velha porta de latão. Pressionei o livro no peito e entrei. Lá estava o Nils, sentado no futon, com a cabeça pendida. Segurava algo pequeno, azul e de plástico. - Oi - falei. - Você saiu, onde foi? Ele segurou a pequena coisa de plástico bem no alto da cabeça.

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- Vim aqui para ler. Isto estava sobre o futon. - Era uma embalagem de camisinha. Uma embalagem de camisinha. Eu nem tinha verificado O Barraco ao sair naquela manhã. Holly, idiota, idiota, idiota. Olhei para o Nils e arranquei a pequena embalagem plástica das mãos dele. Eu me sentia como se alguém tivesse me socado no peito. - Você quer me contar alguma coisa? - ele perguntou. Ele ainda olhava para o chão. - É... minha, acho. - Eu me sentei ao lado dele. Coloquei a mão no ombro dele. Ele me dispensou com um gesto. - Dá para olhar para mim, por favor? Eu preciso te dizer uma coisa. - Não quero olhar para você. Meus olhos se turvaram. Acabou, pensei. Seis anos de amizade destruídos num piscar de olhos. - Eu não queria que isso acontecesse. Não consigo me lembrar de metade da noite, Nils... Ele se afastou de mim, ainda cabisbaixo. - Por favor, olhe para mim. Ele balançou a cabeça e falou: - O problema não é você estar com outra pessoa, embora isso me deixe muito mal. Porque nós não somos casados. Não estamos comprometidos, nem nada. - Ele riu, mas a risada parecia bem triste. - O que estraga tudo é que você o trouxe aqui. E este é o nosso lugar. Você prometeu. Eu queria morrer. Ele estava certo. O que é pior que uma promessa quebrada? - Quem foi? - ele quis saber, mordendo o polegar. - Não que seja importante. Mas eu gostaria de saber. É o mesmo cara com quem você tinha rompido? - Ele deu uma olhadela em mim. Fiz que sim com a cabeça. - Então? Quem é? Eu conheço? Fiz que sim de novo e mordi o lado de dentro da bochecha. - Paul Bennett - falei, olhando para baixo, no meu colo. - 146 -


- Você realmente é demais, Holly - Nils explodiu. - Eu sei - respondi, as lágrimas queimavam as minhas bochechas. - Paul Bennett. - É. - Paul Bennett? Holly, eu detesto esse cara. - Eu sei. - Esse cara é o maior babaca... - É verdade. - E ele tem namorada. - Eu sei... - Ela é sua amiga, não é? Desde a aula da Stein, vocês ficaram totalmente apaixonadas, certo? - Mais ou menos. Sim - falei baixinho. O rosto dele estava vermelho. Ele olhou para mim e me fez fixar o olhar nele. - Você não tem coração? Como você pôde fazer isso com alguém de quem você gostava? - Não sei. Sou horrível. Já te disse, sou terrível, lembra? - apertei o braço dele. Mas você prometeu que sempre seria meu amigo. Você jurou. Ele olhou para a minha mão no braço dele. - Por favor, não me toque. Soltei um grito e me afastei. Pendi a cabeça até o meu colo e a sacudi. As lágrimas ensoparam os joelhos das minhas calças. Nils se levantou. - Sinto muito por você. Continuei a chorar. - 147 -


- De verdade, você é simplesmente... tenho pena de você - ele disse, me afastando para passar. Ouvi a porta bater e senti o meu coração se partir ao meio.

*** No domingo à noite, finalmente verifiquei a caixa postal. Três ligações da Saskia, todas desligadas. Uma era do Paul: "Oi, ela sabe. Para seu registro, não fui eu que contei. Sarah Wehle nos viu saindo juntos na noite de sexta." - Clique. Sarah Wehle, claro. Eu nunca me lembro do sobrenome daquela garota. Pensei em ficar em casa na segunda-feira, mas achei que no fim eu teria de voltar lá e encarar todos. Não tinha falado com o Nils desde o sábado à noite no Barraco. Não tinha retomado as ligações da Saskia nem do Paul. Assim, seria a minha entrada triunfante. Meu grande dia de reencontro. Acordei naquela manhã e vesti uma camisa limpa e calças jeans que não lavava há três semanas. Pus uma porção de água na tigela do Harry e dei uma coçada atrás da orelha dele como sempre faço todas as manhãs, antes de sair para a escola. Entrei no carro e não liguei o rádio. Dirigi muito tempo, estacionei no local de sempre, depois fiquei sentada lá, o carro parado. Olhei fixamente o campo de futebol. Eram sete e quarenta. Hora de encarar o pelotão de fuzilamento. No princípio, tudo parecia bastante normal. Os mesmos jovens, o mesmo corredor, apenas outra segunda-feira maçante, todos com olhos sonolentos, sorvendo o café de enormes copos de papel. Então vi o Paul, enfiando uma pilha de livros no armário. Depois Saskia, lá embaixo, no fim do saguão, cercada por um grupo de loiras com blusas de camponesa e calças jeans bordadas com nome de designer nos traseiros. No início, elas não repararam em mim, passei pelo grupo delas e ninguém pareceu me ver, até eu chegar ao meu armário. Lá, na porta, em bela letra cursiva roxa estava gravada a palavra "puta". Caligrafia perfeita. Alguém realmente tinha se dado ao trabalho de fazer aquela palavra terrível parecer maravilhosa. - 148 -


Eis o que é estranho. Não senti nada. Nem tristeza nem culpa, de verdade, senti como se estivesse flutuando fora do meu corpo, observando toda a cena se desdobrar em câmera lenta no horário nobre da televisão. Só foi comparável à emoção durante o funeral da minha mãe, quando me senti como o personagem principal em um filme tipo Esta é a sua vida, sobre as filhas sem mãe. Caminhei pelo corredor do auditório na direção daquele põster feio de tamanho natural da mamãe na praia, e lá estava o Jeff, ao meu lado. Dezenas de rostos tomados pela tristeza nos observavam caminhar. Pobre menina, eu os ouvi dizer, pensando, pobre orfãzinha Holly. Porém, eu não senti nada. Era a mesma coisa, apenas diferente. Esta não era uma reunião de condolências. Uma reunião de perseguição, talvez. O que parece muito dramático, pois na verdade não sou a vítima. Aqui, eu sou a vilã. Abri o conjunto de cadeados do meu armário e descarreguei o conteúdo da minha sacola de livros, deixando apenas o meu livro de História Geral e o caderno espiralado para a próxima aula. Foi então que ouvi um som baixo e rascante. Um coro entoado. "Holly Puta" eles cantaram, inúmeras vezes. Girei o cadeado do armário e comecei a me dirigir até o saguão, na direção da sala de aula. Sussurrei alguns acordes de Holly Holy para mim mesma, tentando abafar as vozes. Então, o canto esmoreceu. Ouvi alguns garotos rindo. Alguém atirou algo na minha cabeça. Uma bola de papel, talvez? Era leve, não sei. Não me virei para olhar.

*** Saskia não estava na aula de História Geral, embora eu a tenha visto no saguão naquela manhã. Encarei todas as quatro aulas antes do almoço me sentindo perfeitamente, felizmente anestesiada. Então, enquanto andava para o jardim interno lá atrás, com o meu saquinho de papel pardo com o almoço, o Nils apareceu caminhando rente à lateral do prédio. Nós trombamos, batendo a cabeça. Então, de repente, sem aviso prévio, eu comecei a chorar. Histericamente. O meu corpo se dobrou. Segurei o estômago, tentando recuperar o fôlego. Nils me segurou pelo braço e me conduziu para uma curva, onde havia um pequeno trecho privado de gramado, perto da ala de Ciências. - Holly, pare com isso. - Ele segurava meu braço todo, pelos ombros. - É sério, pare de chorar. Você tem de parar. Você está fazendo uma cena. Eu me levantei um pouco, assenti e prendi a respiração. - 149 -


- Eu estive bem a manhã toda - gaguejei. - Não conseguia sentir nada. Nils sentou-se no chão e me puxou para perto dele. - Eu vi o seu armário. Sacudi a cabeça. - Holly... Por quê? Mordi os lábios. - Não sei. Eu gostava dele. Parece tão idiota, mas eu realmente pensei que ele se importava comigo. E então eu a conheci e terminei tudo. E ele ficou tão bravo. E então as coisas começaram a acontecer com você, e não sei. Não sei por que fiz o que fiz. - Olhei para ele. - Não sei mesmo. Níls enfiou a unha do polegar na boca e mordeu. - É que... por que você tinha de estragar tudo? Encolhi os ombros. - Este é o meu pior pesadelo. Você sabe disso, não é? Todo mundo me odeia, eu não me importo... mas você? Não vou conseguir dar conta disso, com você me odiando, Nils. Ele olhou para o chão e puxou um pedaço de grama. - Aquilo que tivemos na outra noite... no Barraco. Significou alguma coisa para você? Eu me inclinei e segurei a mão dele. - Foi tudo para mim. Ele tirou a mão e se levantou subitamente. Balançou a cabeça. - Sinto muito. Sinto muito por causa do seu armário, Holly. Também me sinto mal por sua causa, é sério. Mas preciso de um tempo, tá? Concordei, com o peito apertado. - Você deveria conversar com a Saskia - ele prosseguiu, arrumando a mochila. Você deveria dizer para ela como se sente. - 150 -


Assenti com a cabeça. - Nem consigo olhar para ela. Nem consigo ficar na mesma sala que ela. - Eu a vi no gramado perto do auditório antes de te encontrar. Ela está sozinha lá, Holly. Seria bom ir até lá.

*** Então eu fui. Fui porque o Nils me mandou ir. Ela estava deitada na grama, de costas, sob o sol. Eu ia estragar tudo. - Oi - falei, com a voz áspera. Agora eu estava em pé bem em cima dela. Ela piscou os olhos para mim e disse: - Eu te liguei três vezes neste fim de semana. - Não sei o que eu estava esperando. Histeria? Uma surra? Não sei bem o quê. Só não esperava que ela parecesse tão legal e na boa. - Eu sei. Ela se levantou ligeiramente e se apoiou nos cotovelos, olhando para mim. - Você vai ou não vai se sentar? Caí de joelhos ao lado dela. Ela me olhou novamente, e eu só pude encarar o chão. - Saskia, me desculpe - falei. - Ah, é? Por quê? - Por... - respirei fundo. Ela ia me fazer falar tudo. - O que há de errado, Holly? Por que está se desculpando? - Ela me encarava. A expressão era indiferente. Olhei para a minha direita, havia uma aglomeração de amigos dela observando a gente do pátio. - 151 -


- Sinto muitíssimo... pelo que aconteceu entre mim e o Paul. - Certo. - Ela deu de ombros. - Então, o que aconteceu especificamente, e o que você sente tanto... ? Meu estômago se contraiu. Eu merecia aquilo. Fiz o que fiz, eu deveria ser capaz de dizer em voz alta, diretamente para a Saskia. - Por ficar com ele - sussurrei, fechando os olhos. - Você poderia olhar para mim, por favor? Os meus olhos tremularam ao abrir. Eu olhei para ela. - Então, você sente muito por estar trepando com o meu namorado? É isso que você está dizendo? Achei que eu poderia urrar. Assenti com a cabeça. Ela se pôs de joelhos e pegou a mochila de livros. - Bem, eu não aceito as suas desculpas. Senti a familiar convulsão de lágrimas, depois a observei enquanto ela caminhava pelo gramado na direção dos amigos. Um deles me mandou para aquele lugar.

*** Paul me esperava do lado do meu carro, depois das aulas. Ele estava recostado na porta do motorista, fumando. Fiquei zangada: - Cai fora, por favor. Quero ir para casa. - Dia pesado, hein? Apertei os lábios e o encarei. Ele continuava recostado na porta do meu carro. - Saia daí, por favor. Ele tragou o cigarro e vagarosamente se afastou. Enfiei a chave na fechadura. - Para sua informação - ele disse -, eu não estava planejando contar nada para ela. Ou seja, se ela não tivesse perguntado... - 152 -


Eu me virei para encará-lo. - Você disse - isto é, você basicamente me falou claro e direto na semana passada que contaria tudo para ela se eu não continuasse a transar com você. - Eu estava bêbado. Não era sério. - Ele abrandou um pouco. - Ela me perguntou o que estava rolando. Eu não podia mentir. Ergui os olhos. - Claro que podia. Você fez isso o ano inteiro. - Bem, vamos encarar isso assim: está tudo às claras agora. Sem culpas. - Ele tocou a minha cintura. - Não há mais por que se sentir mal... - Você desgraçou a minha vida. Ele deu um meio sorriso. - Você desgraçou a minha. Eu não estava com uma arma na sua cabeça. Não te forcei a nada. - Você se aproveitou de mim. - Assuma. Responsabilidade, Holly. - Ele se inclinou na minha direção. - Eu não. Fiz sexo. Comigo mesmo. - Os braços dele estavam apoiados no capô do carro, me prendendo pelas laterais do meu corpo. Ouvi o barulho da maçaneta do carro. Ele abriu a porta do meu carro, empurrou o meu traseiro para a frente. Dei um pulo. - Por sinal... como estão as coisas entre você e o seu namoradinho? Atirei a minha sacola de livros no banco e entrei no carro. Fiquei com um pé na calçada. - Você se sente bem quando vai dormir à noite? Paul deu de ombros. - É. Nem eu. - Bati a porta do carro.

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Trinta e Cinco Nils tinha ido para o Havaí em férias com a família. Passei a folga olhando para a parede. Caminhando com o Harry. Assistindo televisão. Fazendo macramê. Em algum ponto do nono dia, eu estava relaxada no tapete do meu quarto, ouvindo os CDs do Neil Diamond, da minha mãe, procurando algo para ocupar a mente, quando vi algo quadrado e esbranquiçado embaixo da cama. Peguei-o com a ponta dos dedos. Era o cartão de Frank Gellar. Não tenho nada, pensei. Nenhum amigo. Nem mãe. No entanto, eu tenho isto. Tirei o celular da mochila e teclei. "Alô?", ele atendeu. - É o Frank? "Sou eu." - Aqui é a Holly Hirsh. Nós conversamos há alguns meses. "Eu me lembro de você. Você é a garota que cancelou a consulta. Duas vezes." - É verdade, desculpe - hesitei. "Diga, então. Você finalmente decidiu remarcar." - Prometo aparecer desta vez. "São noventa pela meia hora. Se você não cancelar com um dia de antecedência, agora vou te cobrar." - Entendo. Desta vez não vou cancelar. Juro.

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*** A casa-consultório de Frank Cellar era pequena e marrom. Muita madeira escura, muitos móveis. Os tampos das mesas estavam entulhados de bugigangas e cristais, e as prateleiras estavam repletas de livros sobre coisas espirituais aqui e metafísicas ali. Esperei na sala enquanto ele se ocupava de alguma coisa no escritório, arrumando as coisas. - Holly, você quer gravar a sessão? - Ele segurava um gravador antigo. - Tudo bem - concordei, me levantando. - Vamos, entre - ele falou, me chamando com as duas mãos. Eu me sentei no sofá creme desbotado no canto. Frank se acomodou em uma cadeira verde superestofada, a alguns palmos de distância. Ele era um homem grande, de meia-idade, com barba branca, um rosto simpático e comum. Ele se parecia muito com a imagem que eu fazia de Deus, quando criança. Exceto pelo rabo de cavalo e os shorts cáqui. - Então agora vou pedir para você respirar profundamente, algumas vezes. - Ele apertou o botão vermelho do gravador. Concordei e inspirei algumas vezes, em sequência. - Não se esqueça de expirar. Respire. Ri nervosamente. Tentei novamente. Inspire, expire. - Muito bem. - Ele fechou os olhos e respirou bem alto, com um som estridente. Depois, não fez nada durante um tempo. Ele apenas respirava, com os olhos fechados. Fiquei observando, tipo esperando que ele começasse a falar em outras línguas, mas, depois de mais ou menos um minuto, ele apenas olhou para mim e disse: - Apenas respostas do tipo sim e não, tudo bem? Assenti. - Mantenha-se aberta. Pode ser que tenha algo específico que espera ouvir, mas outra pessoa pode aparecer com uma mensagem totalmente diferente. - 155 -


- Tudo bem - respondi. - Espere um pouco. Pode esperar? Ele ergueu o olhar. - Não quero saber de nada negativo. Tipo, quando vou morrer ou esse tipo de coisa. Por favor, não me diga esse tipo de coisa. - Esta sessão não lida com esse tipo de coisa. Prometo. Nada de ruim, certo? Relaxei um pouco. Frank respirou profundamente mais algumas vezes, então começou assim: - Estou recebendo a letra A... Parece um nome Anne ou Annie, faz algum sentido para você? - E fazia sentido. O nome da mãe da minha mãe era Anna, e ela tinha morrido um ano antes da mamãe por causa de um derrame, na banheira. - O nome A tem um homem K com ela. São contemporâneos. Ou seja, é um irmão ou marido ou um amigo. - Bem possível, já que a minha avó teve oito irmãos, mas eu só conheci uma: a tia Jean, que morreu quando eu tinha oito anos, de grave problema coronário. Ela estava sozinha na época. Minha avó a encontrou no chão, segurando um rolo de macarrão. No entanto, eu não conhecia nenhum K. - Há uma morte por câncer - ele prosseguiu. O meu coração se acelerou. Eu me inclinei para a frente, coloquei as mãos sobre as coxas e disse: - Sim, certo, câncer. - E então ele falou o nome da mamãe. Bem, não disse o nome dela exatamente. No início, ele só falou "bear". - Está perto - sussurrei. Ele continuou, pronunciando-o de duas ou três formas diferentes como se tivesse ouvido errado da primeira vez. Então, após algumas respirações profundas - algumas piscadelas e estalar de dedos -, ele disse Barrett. O sobrenome da mamãe. Barrett. Fiquei lacrimosa e com calor. Aquilo foi tão constrangedor, chorar diante de um estranho completo - um homem de meia-idade com barba, nada mais -, mas foi assim que isso aconteceu, então, alõoo! - Pegue aqui - ele disse, me estendendo um lenço de papel. E então - Veja, ela está me dizendo para falar do cachorro. - 156 -


Harry, Harry. Peguei outro lencinho da caixa de Kleenex e pressionei-o no canto do olho. Frank se voltou para mim, com um olhar vago, e respirou profundamente de novo. Esta foi a última coisa que ele disse: - Você é muito amada. - Ele levou um copo de água aos lábios finos, escondidos entre quilômetros de barba descuidada. - Você precisa se empenhar mais no seu amor próprio.

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Trinta e Seis É incrivel como a gente se acostuma com cada coisa! - Você sabe que não pode comer aqui, não sabe? É fevereiro e, finalmente, me acostumei com toda a merda da escola. Depois de um longo período, consegui bolar um jeito ideal para me manter invisível: ficar nos blocos abertos no jardim interno na parte de trás, almoçar no meio das pilhas da biblioteca, lendo alguma ficção barata de mistério. - Comer o quê? - perguntei com a boca cheia, metendo o sanduíche atrás das costas; cobri o rosto com a capa do livro que estava lendo. - Vamos, Holly, você sabe que não pode entrar aqui com comida. - A senhora McGovern estava parada ao meu lado, batendo nos dentes de cima com uma caneta. - Leve isto para a cantina.

- Não, olhe, já acabei - rebati enquanto engolia e reempacotava o sanduíche, enfiando-o de volta na mochila. - Juro que não vou comer mais aqui. Só ler. Mostrei os dentes em um sorriso e acenei o livro por cima da cabeça. A senhora McGovern puxou a cintura das calças de tecido sintético e se afastou, me deixando em companhia dos meus livros e da minha solidão. Verifiquei se ela tinha voltado ao seu posto, no balcão de passagem, antes de me levantar e me mudar mais para trás, para outro ponto ao lado do laboratório de computação que parecia muito mais isolado. Empilhei minhas coisas do lado da impressora e recostei relaxada, na perna de uma das escrivaninhas vazias. Tornei a abrir o livro e tirei o sanduíche da mochila. - 158 -


*** Eu estava ajoelhada no meio da entrada, revirando a minha bolsa à procura de um batom, uma caneta ou o meu livro novo, e então vi a Saskia. Ela estava a apenas alguns metros de distância, recostada em seu armário, conversando com a Sarah Wehle, que cantava e dançava animada, tentando obter alguma reação da Saskia, que parecia tão triste, parada lá, mastigando as pontas do seu cabelo loiro. Não nos falávamos desde dezembro. Senti um apertão no estômago, pus-me em pé rapidamente e me apressei. Eu ia tomar uma atitude. Eu ia falar alguma coisa. Eu consigo desfazer isso, pensei. Posso ajeitar as coisas para melhor. Mas, conforme me aproximei, de repente os olhos de Sarah bateram em mim e se estreitaram. Em instantes, a Saskia e eu estávamos nos encarando, olhos nos olhos. A meio caminho congelei, vendo as duas me observarem. Meu impulso inicial de fazer uma entrada ou gesto triunfal evaporou instantaneamente. Dei meia-volta rapidamente e me distanciei apressada, na direção oposta. De qualquer jeito, o que eu poderia dizer agora? Tudo o que havia para dizer já tinha sido dito.

*** O Nils estava a uns dez metros de distância e se aproximava rapidamente. - Você está com a cara boa - comentei. Estas foram as primeiras palavras que trocamos desde que ele voltou da viagem, no começo de janeiro. - Obrigado - ele sussurrou com um sorrisinho, passando rápido por mim na entrada, a caminho do auditório. Neste trimestre, ele pegou aulas com o Ballanoff. Foi o que descobri investigando um pouco. Adorei a ideia de ele fazer junto com o Ballanoff aqueles aquecimentos esquisitos para a aula de Teatro. De algum jeito, isto fazia com que eu me sentisse ligada a ele. - 159 -


E ele estava mesmo com a cara boa. O cabelo mais comprido, como se não tivesse se preocupado em cortá-lo nos últimos dois meses. Talvez a namorada nova goste dele assim pensei. Namorada nova! Iiirk. Eleanor Bishop. Eca! Os dois andam inseparáveis desde janeiro. Típico do Nils. Mal dá para respirar entre uma e outra garota. Mas a Eleanor era mais esperta, nem um pouco parecida com a Nora. Usava umas roupas transadas e se importava com as coisas importantes, como os cachorros de rua e o aquecimento global. Eu a odiava. Odiava seu corpo pequeno, de menino, os óculos pretos quadrados. Odiava ver o Nils segurando a mão dela no saguão da escola. Não me lembro nem onde nem quando, mas ouvi alguém falar que ela estava se guardando para quê, sei lá. Mas que ela tinha princípios, ela tinha. Era a virtude em pessoa. Duas coisas que já tive, mas que perdi, em algum lugar por aí, pelo caminho. - Tá, vejo você por aí - gritei para ele, feito louca. Ele se virou, meio sem graça, e fez que sim com a cabeça. - Com certeza. - Foi o que Nils chegou a dizer, antes de empurrar a enorme porta dupla do auditório.

*** A Nora ainda me pedia carona. Soube que a minha amizade com o Nils tinha ido por água abaixo, acho que ficou com pena de mim. - Vocês já se falaram? - perguntou. Estávamos em meu carro, indo para casa depois da escola. A Nora usava o enorme blusão de moleton predileto dela e jeans claros de cintura baixa. - Não, não de verdade. Ela pareceu ficar com pena. Não me conformei que Nora e eu pudéssemos compartilhar sentimentos semelhantes. Putz, aquela coisa de farinha do mesmo saco. - E você? - rebati. - 160 -


- Tudo igual. - Mas não podia estar tudo igual. O breve namoro do Nils com a Nora não poderia nunca ser comparado aos seis anos que passei com ele. Nunquinha. Sorri e virei na entrada da garagem dela. - Pronto, entrega em domicílio. - Encostei e parei o carro. - Quer entrar? - ela perguntou, abrindo o cinto de segurança e virando-se para o meu lado. Gostei de ter sido convidada. Gostei mesmo. Ela era a única pessoa da escola que ainda se esforçava em manter contato, e isto significava muito para mim... - Hoje não. Tenho de levar o Harry para dar uma volta. Obrigada por me convidar. - Tá bem - respondeu, dando um passo para fora, no pedrisco. - As coisas vão ficando mais fáceis, viu? - Ela se curvou e ficou me olhando pela janela do lado do passageiro. - O tempo cura tudo, sabe? - Balançou a cabeça com firmeza. - Isto mesmo. Todas as feridas.

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Trinta e Sete Em um sábado de manhã, no começo de março, eu saí meio adormecida do meu quarto quando ouvi um barulho vindo do quarto da mamãe e do Jeff. Empurrei a porta e enfiei a cabeça pela fresta. O Jeff estava com duas enormes caixas de papelão sobre a cama, faxinando o armário da mamãe. - O que você está fazendo? - Hols! ai, fofa! Vem aqui um pouquinho. Você quer algumas dessas coisas? - O que é isso? - Pegue o que quiser. o resto, acho que deveríamos doar para a Goodwill. Eu me aproximei e me sentei ao lado de uma pilha de vestidos da mamãe. Passei a mão sobre o tecido sedoso de alguns deles. - Você vai mesmo se livrar das coisas dela? Jeff se recostou, tirando uma mecha de cabelo da testa. - Ela não vai voltar, Hols, não é? O que eu faço com novecentos vestidos e um bilhão de cremes faciais? Especialmente com você indo morar fora? Não posso ficar me agarrando nisso para sempre. - Sei disso. - Abaixei a cabeça e olhei o vestido de seda bege que acariciava entre os dedos. - Tudo bem eu ficar com esse? - Claro - Jeff assentiu com a cabeça -, tudo o que você quiser. - Os perfumes dela também. E, por favor, não se livre das coisas mais antigas dela antes de eu dar uma olhada, tá bom?

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- Combinado! - O Jeff apertou o meu ombro e se virou de volta para o armário da mamãe; puxou para fora o pretinho bufante de veludo e crinolina. O vestido social de bar mitzvah. Sucesso garantido também em casamentos. - Odiei aquele - funguei, agarrando o vestido pela saia rija, levei-o até em frente do espelho de corpo inteiro e o coloquei na minha frente. - Posso ficar com esse? Jeff se levantou. - Fica por sua conta. A gente passa para a frente qualquer coisa que não queira. Ele beijou o topo da minha cabeça e saiu para o corredor. - Vou preparar os ovos explicou. No final, acabei assim: onze vestidos, alguns dos sapatos melhores, um par de tênis Puma, que ela nunca usou (para as minhas caminhadas com o Harry) , os perfumes e mais uns produtos cujos perfumes me lembravam dela: sabonetes e loção para as mãos, etc. Tornei a me lembrar rapidamente do câncer da mamãe, ou seja, será que eu podia pegá-lo? Então, deixei este pensamento de lado e enfiei pela cabeça um moleton dela bem largão, azul-claro. Também fiquei com todas as bijuterias. O resto, levei para a Instituição Goodwill. Enquanto eu descarregava as minhas caixas na calçada, o carro da Saskia parou no estacionamento bem ao lado do meu. Um rapaz alto, de cabelo loiro desalinhado, saiu pela porta do passageiro, seguido da Saskia. - Ah, oi! - disse ela, animada. - Que surpresa! - olhei sem emoção e virei para as minhas caixas. - Faxinando? Virei rapidamente. Era a primeira vez que ela falava comigo nos últimos meses. - É... são as coisas da mamãe. Finalmente o Jeff me fez tirar as coisas dela do armário. A Saskia apertou os lábios. - Viemos buscar comida tailandesa para o jantar. - Então apontou para o rapaz, atrás dela: - Ah, este é o Sean. - O irmão dela. Ah. - Oi - ele falou, olhando para o chão. - 163 -


- Holly - sussurrei, e foi aí que ele ergueu os olhos. Quando me ouviu dizer o meu nome. - Bom, acho que a gente vai andando. - A Saskia bateu a porta do carro e os dois se encaminharam na direção do restaurante ao lado. Eu queria dizer que sentia falta dela. Que eu sentia muito pelo que tinha feito. Que conhecê-la, mesmo que rapidamente, fez de mim uma pessoa melhor. Em vez disso, eu respondi: - Tá, a gente se vê por aí. Levantei uma caixa do cimento quente, carreguei uns três metros e a coloquei no latão de doações. Tchau, tchau, mamãe.

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Trinta e Oito - E se eu fosse para o norte, para Santa Cruz? O que você ia achar disso? Segunda à noite. Noite de assistir televisão. O Jeff e eu estávamos sentados lado a lado no sofá. Estávamos no início de abril. Eu tinha acabado de receber três cartas de aceite de faculdades. Uma rejeição. - Acho que seria ótimo. É o que você está pensando em fazer? Encolhi os ombros. - Talvez. Ele girou o corpo, para ficarmos cara a cara. - Por que "talvez"? Você quer ficar por aqui? Ingressar na UCLA? - Quero ir embora e não quero ir embora. Ele colocou a mão na minha cabeça. - E nós? - perguntei. - Se eu for embora, o que acontece conosco? O Jeff colocou a televisão em "mudo". - Não acontece nada com você e comigo. Você é minha filha. Vai ficar a cinco horas de viagem para o norte, Hols, isso não é nada. Ele ergueu a cabeça, mantendo o olhar no meu. - Está preocupada comigo? Mordisquei o interior de meu lábio, enquanto passava a planta do pé na cabeça do Harry, Ele estava deitado no tapete embaixo da mesinha de chá. - 165 -


- Lindinha, a vida é sua. Vou ficar bem. Sou crescidinho. Quero que faça o que achar certo para você. Apertei os lábios e senti que meus olhos estavam começando a se encher de lágrimas. - Tá bem - concordei. - Ótimo - Jeff respondeu. Ele passou os braços ao redor do meu pescoço e me puxou para mais perto. Encostei a cabeça no ombro dele e tornei a ligar o som da televisão. Ficamos assim por um tempo, a minha cabeça no ombro dele. Pelo menos até o programa terminar. Talvez até mais tempo ainda.

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Trinta e Nove Uma semana antes da formatura, eu estava deitada de costas em meio a pilhas de livros na biblioteca, folheando o livro A comida mexicana ao alcance de todos. Era uma janela entre as aulas. - Um livro empolgante. Já chegou na parte sobre a xícara de medidas? Larguei o livro sobre o peito e olhei para cima. Era o Nils. Ele esticou a mão. Eu a agarrei e deixei que me puxasse, para me sentar ereta. - Oi - falei. - Oi. Ele sentou-se ao meu lado, largando dois livros da biblioteca e a mochila. - Saí mais cedo da Trigonometria. Só... para devolver os livros. Fiz que sim com a cabeça. Não nos falamos por um tempo. Passei a mão no carpete laranja endurecido. - Estava escolhendo umas receitas para o jantar de formatura. - Vai ter festança? - Jeff e eu, e é só. Nils contraiu as bochechas. - E o seu povo? Quais são os planos? - Acho que vamos ao Mastro's. Meu pai está a fim de carne. Estiquei as pernas. O Nils e eu mal estávamos a um dedo de distância. - 167 -


- Decidi ir para Santa Cruz - desembuchei, puxando uma mecha rebelde para trás da orelha. - Verdade? Hols, que ótimo. - Ele parecia genuinamente feliz por mim. - Tudo bem para o Jeff? - Ele praticamente me expulsou porta afora. - Sorri e mordisquei o lábio superior, deixei a perna escorregar para mais perto, agora estávamos nos tocando. - E você? Já sabe para onde vai? Nils assentiu. - Universidade de Nova York. - Uau, Nils. Nossa, é demais! Senti minha garganta se contrair. Estava acontecendo de verdade. Estávamos saindo de casa. Sem tempo para consertar as coisas. Uns poucos meses e puf, partiríamos para sempre. - Ja estou com saudades de você - comentei, olhando para ele e depois desviando rapidamente o olhar. O Nils apertou o pé dele contra o meu. - Como vai a Eleanor? - questionei sem erguer os olhos. - A Eleanor... está bem... - ele respondeu. - O que vai acontecer quando você for embora? - Acho que vamos terminar... - Assim, simplesmente? O Nils deu de ombros. - Sério? - perguntei, tentando parecer neutra. - Ah, você sabe... Ela não é a Holly. Pisquei. Nils estava com os olhos fixos em mim. Senti o estômago embrulhar. - Sinto falta de você de verdade - garanti. - 168 -


- Você me magoou pra valer, Holly. - Sei disso. Eu me curvei para a frente e agarrei a perna dele. - Lembra da sétima série, quando a mamãe e o Jeff nos levaram ao parque aquático e eu fiz xixi na piscina de ondas? Os olhos do Nils me fitavam, vazios. - Sei, eu me lembro. - Somos amigos desde que eu me lembro por gente. - Também não exagera. - Tá, praticamente metade de nossas vidas, mas e aí? Aí é isto e pronto? Estamos nos formando e você acaba a uns quatro mil e quinhentos quilômetros de distância, e a gente só diz, tipo, "tchau, foi bom te conhecer. Foi divertido mijar do seu lado na piscina de ondas"... O Nils riu. Deixei a minha cabeça pender, encostando nas pilhas de livros. - Você não consegue ficar sozinho, não é? - perguntei. Ele deu um sorrisinho. - Sempre tem de ter alguém

a Nora, eu, a Eleanor... a Kim... e que-cara-mesmo-

tinha a Keri Blumenthal... no ano passado... Você tem problemas de dependência. - Sou romântico. - É, dá para chamar assim. Ficamos nos encarando por um tempo. Então o Nils puxou as pernas em direção ao peito, encostando os cotovelos nos joelhos. - Tá, mas não vai ser como antes. De qualquer modo, tenho uma namorada. - Estou sabendo... - respondi. - Não vai ser igual a antes, todas as noites no Barraco, nem nada. Eu me ergui e me desequilibrei um pouco. - Não... sei disso. Ele jogou a franja para o lado e estreitou os olhos. - 169 -


- Acho que fui meio manipulado por toda essa história da piscina de ondas... Dei um cutucãozinho nele. O sinal tocou. Nils se levantou e ajeitou a mochila na frente. - Então... a gente se vê por aí? - ele perguntou, parecendo incerto. Eu me endireitei, agarrando o livro de receitas e a minha mochila. - Que tal "a gente se vê mais tarde"? O Nils acenou com a cabeça e deu um passo para trás. Eu forcei a passagem pelo lado, tocando o braço dele, a caminho do balcão de registros.

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Quarenta Mamãe morreu na primavera passada. Uma semana e meia antes, quando tudo parecia muito, muito ruim, quando até falar "oi" era doído para ela e quando chegar até o banheiro parecia uma tarefa quase impossível, a família do Nils, que estava para embarcar em uma viagem de dez dias até o Parque Joshua Tree, me perguntou se eu queria ir com eles. - O que você acha? Acho que não vou, não é? A mamãe parece pior. O Jeff e eu estávamos na varanda tomando água com gás. Eu enfiei um dedo no copo, fisguei um cubo de gelo e o atirei no gramado. - Não, não, eu acho que você tem de ir. O que você vai ficar fazendo por aqui? Acho que seria legal você sair um pouco. - Acha mesmo? - ergui os olhos bem rápido. - Quer dizer, você acha que a mamãe... acha que ela não vai se importar? - perguntei, puxando uma mecha de cabelo para o lado e enroscando na mão. O Jeff pegou a xícara de café dele do deque. - É claro que a mamãe não vai se importar. Acho que é uma ótima ideia, Hols. Relaxe um pouco. O que pode mudar em dez dias? - Meus olhos dispararam em direção ao Jeff. Ele encarava o café, girando e girando a bebida. Nós dois sabíamos muito bem o que poderia acontecer em dez dias. Eu poderia voltar para casa apenas para o Jeff. A mamãe já teria partido. - Tudo bem, então. Vou avisar ao Nils que posso ir.

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- Ă“timo, vai ser muito bom. - Jeff concluiu tocando no meu ombro e dando um golinho na ĂĄgua mineral antes de se levantar e entrar em casa.

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Quarenta e Um Ballanoff e eu estávamos sentados, lado a lado, durante uma janela minha, no centro de estudantes, bebendo chá morno. - Você está pronta para isso? - perguntou, olhando para a frente, sem sequer virar o rosto para o meu lado. - Pronta para... ? - Para se formar? Crescer? Sair de casa? - Com certeza - respondi, brincando com o zíper do meu agasalho. Fechando e abrindo, para cima e para baixo, tudo no meu próprio ritmo. - Como o jeff está se virando com a ideia de você sair de casa? - Bem. Ele está lidando muito bem com tudo. Fico surpresa com tanto apoio respondi, dando um golinho no chá. Queria contar ao Ballanoff que sentiria saudades dele. Que só deu para aguentar este ano por causa dele. Mas, mesmo que, em breve, ele deixasse de ser o meu professor, eu queria continuar a vê-lo. Em vez disso, perguntei: - O que você vai fazer no verão? - Reformas. A Nancy quer outro escritório. Então, vamos derrubar uma parede e construir outra. Ele me olhou e depois voltou os olhos para a sua garrafa. - Posso te perguntar uma coisa? - observei o seu perfil, me questionando que tipo de pai ele teria sido se as coisas tivessem ocorrido de forma diferente, se a mamãe ainda estivesse por aqui e se a mamãe e o Ballanoff tivessem namorado mais tempo, se amado, se casado. - 173 -


- Claro, tudo bem - ele respondeu me olhando nos olhos. - Você acha mesmo que eu pareço tanto assim com ela? Quero dizer, quando ela tinha a minha idade. Nós realmente nos parecemos tanto assim? Ballanoff sacudiu a cabeça. - Você é você, Holly. Quer dizer, com certeza, você parece com ela, mas você não é ela, você é você. Acenei com a cabeça, satisfeita. - Queria ficar satisfeita em saber que me pareço com ela. Eu adorava isso antes, sabe? Antes de ela ficar doente. Ele largou a garrafa e empurrou a cadeira para trás para que ficássemos cara a cara. Explicou: - Você é você. Sabe, a sua mãe fez certas escolhas que, posso dizer com toda a certeza, você não teria feito se tivesse de encarar algo do tipo. Concordei com ele. - O caminho dela... não deve ser o seu caminho, está bem? Fiz força para não chorar. - Na pior das hipóteses, se tiver de encarar algo parecido... lute, está bem? - Ele me encarou, como se me compreendesse. - Sabe, você é uma pessoa diferente. Eu passei a mão em uma bochecha molhada. Nossos olhos se encontraram. - Além disso, a sua mãe era muito mais amiga, muito menos metida. - Ballanoff levantou o nariz com um sorrisinho maroto. Eu ri, aliviada por estar rindo, usei um lenço da mesa para assoar o nariz. - Você sempre fala a coisa certa na hora certa. - É mesmo - respondeu ele, cutucando de leve o meu braço -, com certeza!

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Quarenta e Dois Agosto chegou e eu estou de mudança para o norte, para a faculdade. Há uma hora eu carreguei a última caixa no meu banco traseiro e me despedi do Jeff e do Harry. Chorei e o Jeff também, e o Harry lambeu minhas bochechas e as minhas orelhas. O Nils deu uma passada e trouxe umas seleções de música. Duas para a estrada. A que ele me disse para tocar antes, e que estou ouvindo agora. Aqualung, Vienna, Dust in the Wind. Todas as favoritas da mamãe. - Vou te ligar quando chegar a Nova York - prometeu. O Jeff e o Harry entraram, e o Nils e eu estávamos na calçada, encostados no meu carro, de cara fechada. - Tudo bem. - Enfiei uma mecha mais comprida de cabelo atrás da orelha. Olhei para o chão. Meu verão acabou sendo melhor do que eu esperava: muita leitura e arrumação de malas e tempo na praia e tempo com o Jeff. O Harry completou quatro anos. O Nils e eu, de alguma forma, conseguimos deixar o passado para trás, e a nossa amizade estava começando a ficar parecida com o que era na época pré-Holly-graduanda-piradinha-dasilva. - A gente podia trocar correspondência? - sugeri. - Você não vai me escrever cartas de verdade. - Vou sim! - Cartas de verdade? Com caneta, no papel? - Cartas de verdade! - confirmei, acenando com a cabeça e olhando-o nos olhos. Ele parecia tão acuado e triste. Eu certamente estava com a mesma cara. - Bem... - Olhei o relógio. Eram onze horas. Eu precisava estar na escola às cinco. - Hora de eu puxar o carro - falei e estendi os braços bem abertos. - 175 -


- Para que isto? - O Nils perguntou, batendo nos meus braços. - Não vai me dar um abraço de despedida? - Holly. - Ele deu um passo à frente e deslizou os braços ao redor da minha cintura. Ele me puxou para perto, abraçou bem apertado, até que estávamos presos em um abraço supergostoso. - Não vá - ele sussurrou. Eu enfiei meu queixo em seu ombro ossudo. - Tudo bem - concordei, me inclinando um pouco para trás, depois encostei a minha testa na dele. - A faculdade que vá a merda! Vou ficar aqui para sempre! Ele soltou o ar, e eu pude sentir a sua respiração em meu rosto. Fechei os olhos. O Nils e a Eleanor ainda estão juntos. Ela vai para a Brown, em Rhode Island, a quatro horas de viagem de Manhattan, então ela e o Nils vão conseguir superar a longa distância. - Hols? - Hã? - ... Não dou nem três meses. No máximo. - Chega mais. Estávamos nos encarando. Olho no olho, com as cabeças juntinhas, e então o Nils pressionou o nariz dele no meu, eu ergui as mãos e segurei o rosto dele com as duas mãos. O ar cheirava a grama e a escapamento de carro e o sol brilhava, tudo estava sempre ensolarado, e eu me perguntei por um segundo se o Jeff podia nos ver, parados daquela forma - com as testas encostadas - da janela que dava da cozinha para a saída da garagem. - A gente se vê por aí? - perguntou o Nils se afastando e puxando um fio solto pendurado na cintura dos seus jeans. - A gente se vê por aí - respondi, e observei-o caminhando de volta, passando pelo Barraco, atravessando o gramado, de volta para a casa dele, do outro lado do muro de pedras que dividia as nossas lindas propriedades. Tenho quatro horas e meia para chegar à ensolarada Santa Cruz. Abaixo os vidros e aumento o volume do som. À minha esquerda, está o oceano.

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Ninguém como você