Page 1

Cidadania na Sustentabilidade da Civilização do Bem Comum [1] Por Maria Alfreda Cruz

A crise dos nossos dias que atravessa o mundo em todos os azimutes é a da Civilização do Bem Comum ligada ao Bem Estar, conceito este que sendo ainda formalmente assumido pelo Conselho da Europa como consigna de progresso societal[2] congruente com critérios de superação das lutas que no século XX deflagraram na Europa, não chegou porém ainda a expandir-se a partir do espaço civilizacional em que se configurou. O denominador comum à fragilidade que as Instituições nacionais ou internacionais denotam para fazerem vingar qualquer determinação no sentido de guiar o bem estar dos povos e nomeadamente de assegurar o direito destes à paz e à sustentabilidade do desenvolvimento nas componentes vitais da justiça na economia e da preservação do ambiente, decorre dos antagonismos emergentes da interacção conflituante entre os Governos que superintendem nas causas públicas, repercutindo sobre os cidadãos condições de vida que estes sofrem em completo divórcio com os direitos e expectativas resultantes dos contratos sociais que presidem à condição de cidadania. Acresce que a época actual e a correspondente globalização assumem pela primeira vez contornos que se prendem com a dimensão imediatista da gestão do tempo de propagação dos ditames do poderio que subordina as soberanias regionais e nacionais aos seus critérios e timings universalizantes. A distinção entre tempo e temporalidades a que Manuel M. Carrilho alude em artigo de opinião na imprensa diária (DN, ed 7.070.11 ) decorre do “tempo” ter, em contraste com as “temporalidades”, a dimensão “temporal“ que se lhes impõe por dispor de dispositivo adaptado “à cultura do curto-termismo”, cujos veículos essenciais são os media e as NTIC em que se suportam as relações comunicacionais da posmodernidade. Acontece que estas estão para as dinâmicas da gobalização dos nossos dias como os transportes marítimos estiveram para a ubiquização da idade moderna a partir das Descobertas e das dinâmicas de circulação que as permitiram, preservando por acréscimo as identidades regionais de acordo com as correspondentes origens históricas e vivências desenvolvidas no contexto temporal das épocas em que se foram sedimentando muitas vezes ao longo de séculos até que entraram em disfuncionalidades induzidas por desgastes das respectivas soberanias identitárias em presença do poderio que faz girar o mundo actual de acordo com a unilateralidade dos seus próprios interesses. De novo a palavra Manuel Maria Carrilho: “A lentidão que na verdade foi sempre uma condição da civilização tem vindo a ser cada vez mais substituída por uma apologia estonteada da velocidade (…) que atravessa todo o sistema de comunicação (…) tornando cada cidadão num espectador preso a narrativas que o manipulam sem contraponto”.


A selva dos interesses desconectados duma perspectiva ética não pode porém pactuar com a perspectiva do bem comum, apanágio duma aposta europeia no plano dos princípios…. Sobre este aspecto Viriato Soromenho Marques em artigo de opinião (DN; ed 8.070.11) expressa com toda a pertinência [3] que “os mercados não são sujeitos morais imputáveis, sendo que o mesmo se não pode dizer dos governos que os deveriam regular”. De facto, perspectivar uma saída para os múltiplos impasses que manietam o direito e os contratos sociais e designadamente os internacionais que deveriam constituir a ossatura duma globalização vinculativa da subordinação de quaisquer governos nacionais e locais ao bem comum, passa essencialmente pelo incremento da capacidade destes controlarem a voracidade dos interesses que detêm as alavancas económico- financeiras do poderio universal, passando a implementar com visão glocal, a dialógica “governação vs. cidadania”, tendo por norte um contrato social susceptível de garantir que os valores que lhe forem implícitos possam ser objectivamente questionados em sede de incubação da cidadania , onde quer que seja assumida. Em conclusão: 1. Efectivar a cidadania nesta perspectiva pode ser uma chave essencial para a requalificação da civilização, entendida como conjunto de praxis da relação dos humanos com a natureza e com a organização dos espaços em que vida societal se projecta, desde a que emerge da teia de laços que transforma o indivíduo em ser social, até aos territórios em que a presença ou a ausência dos seus impactos se exprime por via das tecnologias utilizadas e do sentido que subjaz às opções pelas quais opta. 2. Implementar o modo de Viver a Cidadania em qualquer dos espaços civilizacionais que partilham o Mundo de hoje implica universalizar ferramentas operacionais no território web que, possibilitando generalizar o acesso social ao universo do conhecimento, possam concitar os cibernautas a aprofundá-lo na relação com as diversas praxis e escalas de convivencialidade societal em que se inserem. 3. Por aqui passará a componente down-top de dinâmicas susceptíveis de impulsionar desbloqueios incidentes na operacionalidade das relações entre o universo da Cidadania e o da Política que superintende nas várias escalas da Governação, tomando por norte todas aquelas em que coesão social constitua condição de bem estar, de acordo com origens históricas e vivências de cada uma das “regiões”da ecúmena que se foram sedimentando ao longo dos séculos.

[1] Escrito em 08.07.2011 [2] http://book.coe.int [3] "A Culpa é dos Mercados", transcrito em http://alfredacruz.net/ws/index.php/bloco-de-notas/11-culpa-mercados

Cidadania na Sustentabilidade da Civilização do Bem Comum  

Texto de Maria Alfreda Cruz