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Margarida Cardoso

UM LIVRO, UM AUTOR Textos publicados na revista C

https://www.wook.pt/livro/a-eternidade-nao-e-de-mais-francois-cheng/103800 https://in-libris.com/products/porta-de-minerva

Biblioteca do Agrupamento de Escolas de Pombal

2017


Porta de Minerva

Branquinho da Fonseca

http://cvc.instituto-camoes.pt/teatro-em-portugal-pessoas/branquinho-da-fonseca-dp8.html#.WKLvX2CdGM8

“Estavam em meados de maio e começavam a preparar-se os carros para o cortejo da Queima das Fitas, a festa dos quartanistas e da emancipação dos caloiros”. É assim que Branquinho da Fonseca inicia a descrição da maior festividade da academia coimbrã, em Porta de Minerva, romance publicado em 1947. Sob o olhar crítico do protagonista, ficamos a conhecer as tradições académicas, sem saudosismos bacocos, nem condescendências cúmplices para com os exageros da praxe e os excessos alcoólicos. A vida boémia de Bernardo Cabral e dos estudantes que à sua volta gravitam alimenta-se de aventuras bem-humoradas, na velha Alta, de sonhos quixotescos, como o de uma revolução logo aniquilada pela repressão governamental, e de projetos entusiásticos, como o da criação de “uma revista boa, bem apresentada, em bom papel”, que despertasse a “sonolência nacional” e donde se fizesse ouvir “o grito de triunfo de novos caminhos”. É de crer que só não lhe deram o título de “C”, porque o tempo ainda não era chegado… Este fervilhar de ideias e de ação contrasta com a visão desenganada da universidade, revelada por Manuel Vaz, jovem amante de tiradas provocatórias: “Lá dizia o grande Tolstoi que as Universidades não davam homens de que a humanidade precisava, mas os homens de que necessita a sociedade pervertida”. É também ele que, no final do romance, exorta o recém-licenciado Bernardo Cabral a largar a capa, porque, só liberto do “manto negro dos preconceitos e das conveniências sociais”, poderá fazer emergir a “nudez forte da verdade”. Talvez por isso, após aprovação no último exame, o protagonista, ao transpor a nobre Porta de Minerva e “como num regresso simbólico à pureza primitiva, nu, debaixo da velha capa sacudida pelo vento, sentia que era, enfim, um homem livre”.


Poeta, dramaturgo, romancista, cofundador da Presença, Branquinho da Fonseca (19051974) formou-se em Direito em Coimbra, o que talvez explique a alacridade da descrição da Queima das Fitas que, anualmente, anima a cidade: “O cortejo tinha começado a andar lentamente e os carros iam saindo a Porta Férrea, como levados sobre a turba maciça e pasmada. Seguiam muito lentos pela Rua Larga […] para o Largo da Feira onde estava armado um estrado, ao meio da grande praça coalhada de uma multidão tumultuosa. […] Ao meio do estrado, sobre uma peanha, um bacio de barro, como se fosse um vaso sagrado para sacrificar aos deuses. Os quartanistas […] depositavam, dentro do bacio, o grelo, a fita estreita que durante o ano haviam trazido na pasta. Por fim, lançaram fogo a essas fitas que estavam dentro do vaso. E os quintanistas entregaram aos novos colegas as pastas que tinham usado até aí, dando-lhes o abraço fraterno. Os novos quintanistas desciam do estrado, já com as pastas de fitas largas e regressavam aos carros. E o cortejo voltou a mover-se, lento, arrastado, garrido de mil cores, tumultuoso e gritante. Muitos dos estudantes andavam já embriagados e as bandas de música continuavam a atroar os ares com as suas marchas vibrantes”.


A Eternidade não é de mais

François Cheng

http://lea.boulogne.free.fr/Joomla/index.php?option=com_content&view=article&id=240:francois-cheng-premier-ecrivain-dorigine-chinoise-elu-a-lacademie-francaise&catid=57:relations-franco-chinoises&Itemid=75&lang=en

Em 2001, é editado pela Bizâncio O que disse Tianyi, de François Cheng, poeta, tradutor, calígrafo e romancista que, como o jovem pintor Tianyi, abandona a China para se instalar em Paris, em 1948, sem, contudo, romper com o país natal ou perder a confiança no futuro da pátria. Assim se explicam as palavras registadas no final da obra: “…o tempo retomará sem falhas o seu ritmo imemorial. No horizonte subirá o fumo azul que não engana, lá onde o sol se põe, cedendo o lugar à lua. A terra nocturna, aspirada pela claridade cristalina, espreitará o começo imprevisível do novo ciclo. A eternidade não será de mais para que a árvore do desejo volte a rebentar. Caso contrário, para que é que uma pessoa cá andou, dilacerada por fomes tão violentas, por desgostos tão inconsoláveis? De certeza que só é preciso saber esperar”. Vislumbra-se já o título do romance seguinte, A Eternidade não é de mais, que narra, com uma tocante sensibilidade, a “paixão vivida por duas personagens simultaneamente vulgares e pouco comuns”, no fim da dinastia Ming (séc. XVII), período marcado pela chegada de jesuítas à China e consequente diálogo entre culturas e religiões. O autor sublinha que “a paixão mais elevada, mais sublimada, se por um lado se manifesta num contexto de peias sociais, não menos vezes surge num quadro de demandas e interrogações espirituais; é o caso deste período do fim da dinastia Ming. Pela idealização do sentimento humano, ou por um impulso verdadeiramente místico, os parceiros envolvem-se num processo de contínuas superações”. Deixando o mosteiro taoista, Dao-sheng desce da montanha para reencontrar Lan-ying cujo olhar cruzou há trinta anos e que depende de um tirano, o Segundo Senhor. No final de um romance feito de separações e reencontros, de aproximações e afastamentos, o tempo ensinou ao protagonista que o verdadeiro encontro entre seres e/ou culturas assenta na


capacidade de dialogar. Por razões diferentes que o leitor descobrirá, o Segundo Senhor e Dao-sheng sofrem por só intermitentemente verem Lan-ying por quem nutrem uma paixão comum. A impossibilidade de saciar o desejo transforma o tirano num criminoso, enquanto Dao-sheng, que tem o dom do diálogo, se torna sábio.

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