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MARES de SESIMBRA

17 de Agosto de 2014, Ano 1, nº 11

A Informação que conta

António Cagica

João Augusto Aldeia

Mestres de pesca de Sesimbra

Director: João Augusto Aldeia

António Cagica começou a trabalhar na pesca logo aos sete anos, a estender aparelho na praia. Foi para o mar com catorze anos, para a

pesca do aparelho de anzol, mas seria na pesca com redes, nas traineiras, que acabaria por ascender à categoria de Arrais.

Marine Traffic

Veja onde pescam os nossos barcos

Nesta entrevista recorda Deixou de ir ao mar em 2011 , mas continua a acom- as mudanças que a pesca panhar a realidade das pes- sofreu durante as últimas cas, como proprietário da trai- décadas. neira Princesa de Sesimbra. Pág. 3

Marsilio Rosa: "Sesimbra é genuína!"

Maria Rosa Marsilio é uma italiana apaixonada por Sesimbra, que visita regularO Calhandro, um apare- mente desde 1 999. Residenlho electrónico que as em- te na cidade de Novara, barcações de maiores di- desenvolve actividade jornamensões são obrigadas a le- lística e de investigação hisvar a bordo por motivos de tórica, incluindo história de segurança e de fiscalização, Portugal. Na sua recente passapermite a qualquer pessoa saber, através da Internet, gem pela Piscosa, com o seu onde se encontram os bar- companheiro Richard, revecos a pescar, bem como o lou-nos como descobriu Sesimbra. seu rumo e velocidade. Pág. 6 Pág. 2


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Marine Traffic

Veja onde pescam os nossos barcos Na Internet é possível verificar, a cada momento, qual a posição dos barcos de pesca, bem como a rota percorrida, as velocidades de navegação, etc. Esta informação pode ser consultada no endereço:

www.marinetraffic.com

Para além das embarcações de pesca também são indicadas as posições e rotas de outros navios. A informação inclui igualmente uma espécie de "bilhete de identidade" de cada navio, incluindo fotografias, que podem ali ser adiciona-

das por qualquer pessoa, bastando apenas fazer o registo prévio na página. Esta informação é possível devido a uma aparelho que as embarcações de maiores dimensões são obrigadas a ter a bordo, por motivos de segurança e também para

facilitar a vigilância pelas autoridades. A este aparelho os pescadores de Sesimbra dão a alcunha de Calhandro, precisamente porque permite saber onde cada embarcação se encontra. Nas imagens de baixo encontram-se alguns exemplo desta tecnologia.

Rasto da embarcação Estrela de Sesimbra, na costa de Aveiro, sendo visível a zona de pesca e o rumo de regresso ao porto.

Embarcação Desterrado, pescando ao largo da Península da Arrábida e de regresso a Sesimbra

Percurso da traineira Princesa de Sesimbra, registado passado dia 5 de Agosto: esteve a pescar frente a lagos e Portimão, e regressou depois a Sines, onde se encontra sedeada.


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Mestres de pesca de Sesimbra

António Cagica

António Carlos Carapinha Cagica começou a trabalhar na pesca logo aos sete anos, a estender aparelho na praia. Foi para o mar com catorze anos, para a pesca do aparelho de anzol, mas seria na pesca com redes, nas traineiras, que acabaria por ascender à categoria de Arrais.

Em que companha começaste a trabalhar, ainda como moço de terra?

Era da barca Amália Cas­ tanho, do Joaquim Escrivão. Depois, conforme fui crescendo, fui para a barca do Cunha, que era a Bendita Seja. Depois quando saí da 4ªclasse, fui para o mar com catorze anos. Fiquei lá a trabalhar em terra na Bendita Seja e depois fui para o mar. Naquela altura andava às pescadas, nos mares aqui fora, no Mé, no Galhete, por aí fora, nestes mares aqui ao Sueste. De vez em quando ia para a Arrifana, ao peixe-espada, aquilo era uma barquinha com 1 3 metros, 1 4 metros. Naquela altura, peixe-espada havia com muita quantidade, a malta tinha que dormir pelos cantos, alguns em cima, outros no porão do peixe, outros na cabine. O porão às vezes era pouco para o peixe. Houve uma noite, que eu nunca mais me esqueço, quando era para ir para o mar, comecei a chorar. Chorava que nem um rapaz pequeno: eu era magrinho, pesava trinta e nove quilos na altura, e o meu pai era pescador e disse para a minha mãe, nunca mais me esqueço: " o rapaz não vai mais pa­ ra o mar".

Qual a explicação para essa crise?

Não me sentia bem. lembro-me perfeitamente de irmos uma vez para o Mar dos Ursos, memórias que uma pessoa tem de miúdo, que não esquece, e estava uma nortada desfeita, e eu quando

se muitas vezes o peixe, não havia sondas, não havia sonar, e eles viam muitas vezes o peixe a olho: quando havia lua, iam para a proa e viam o peixe a olho. E eu tinha aquele gosto de estar ao pé dele a ver as coisas. Depois, conforme o tempo de foi passando, com dezoito, dezanove anos, fui tirar a carta de Arrais: naquela altura não era carta de Mestres, de Contra-Mestres, o Mestre chamou para a ca- como é agora. A primeira çada de manhã, lembro-me carta que se tirava era a carde não conseguir sequer me- ta de Arrais de pesca, quem xer as mãos. E um rapaz me tirou foi o Ernestino, aqui com 1 4 ou 1 5 anos é uma em Sesimbra, o Ernestino criança! Se eu te posso dizer que era cabo-de-mar. o que senti... que chorei, Fiquei com a carta de Archorei, e que o meu pai sen- rais e andei sempre a trabatiu-se que era o filho que es- lhar lá na Pérola de Se­ tava a chorar, porque tinha simbra. Há uma altura em que ir para o mar, e chegar a que um cunhado meu, que um ponto de dizer para a era esse chofer da Pérola de mãe: "O rapaz para o anzol Sesimbra, sai para governar não vai mais! Vou arranjar a Tainha, para ir ser mestre outra coisa para o rapaz, pa­ da Tainha. Um ano ou dois ra o anzol não vai mais!" Foi mais tarde, eu tinha para aí ai que eu saltei para a trai- vinte e dois, vinte e três neira. anos, convidou-me para eu ir Tinha um cunhado que ser Contra-Mestre da Tainha. andava numa traineira, que E fui. era a Pérola de Sesimbra, Já era um homem, tinhaera chofer – eu tinha para aí me livrado da tropa – ou uns 1 6 anos. Naquela altura, aliás, não me livrei da tropa, para ir para uma traineira, fui apurado, depois rebentou era quase preciso meter pa- o 25 de Abril e as pessoas péis por debaixo da porta, que eram para ir para a tropa uma cunha, havia pescado- já não foram, e assim foi o res a mais. Como o meu cu- meu seguimento na pesca. nhado era lá chofer, e era Depois andei lá uns quinsobrinho do Mestre, lá fui pa- ze, dezasseis anos, como ra moço da Pérola de Sesim­ Contra-Mestre da Tainha, e bra, que é esta Pérola de depois os armadores do Sesimbra que aí está. Na al- Pombinho convidaram-me tura ainda era de pôpa re- para eu ir governar o Pombi­ donda, construída em Aveiro. nho, eu era um rapaz que Depois daí, andei lá uns quando governava em lugar seis, sete anos, fiz todos os do Mestre, já fazia boa figulugares que há na traineira, ra, já mostrava que estava ali mas já tinha a ideia de não fi- um pescador. car como operário normal, ou seja, como camarada, já ti- Fazer boa figura é apanhar nha a ideia de ser mais al- peixe? guém na pesca. Juntava-me É apanhar peixe, é. É fasempre ao Mestre, a ver zer boas pescas. Aquilo foi aquilo que o Mestre fazia, e seguindo em frente. Aceitei o o Mestre era uma pessoa convite e fui governar o que gostava de mim, que era Pombinho velho, que foi deo tio Lourenço Caparica, que pois mais tarde vendido para Deus tem. Angola. De vez em quando chaDepois, como eu achava mava-me, naquela altura via- que aquilo já era um barco

pouco para as minhas ideias, como os armadores tinham um projecto metido para um barco novo, eu disse-lhes que era melhor não seguir com o projecto porque eu, aquilo já era pouco para mim. Foi assim que fizeram este Pombi­ nho que aí está, e eu andei lá vinte anos. Depois daí, há uma oportunidade de eu sair, onde comprei com outra pessoa, um barco para os dois. Formámos uma sociedade.

Também para traineira?

Traineira! Formámos uma sociedade, depois aquilo durou dois, três anos, acabou.

Como se chamava o barco?

Era a Princesa de Peni­ Depois esse barco foi vendido e comprámos mais tarde um em fibra. Depois a sociedade acabou e fiquei com este barco em fibra. A pessoa saiu, e eu fiquei com este barco que continua agora em actividade, que é o Prin­ cesa de Sesimbra. che.

Este foi feito de novo?

Foi feito de novo, em Vila Real de Santo António.

Quando não havia aparelhos electrónicos, como é que se procurava o peixe?

Normalmente funciona assim: agora há seis barcos da pesca do cerco, há uns que vão para o Norte, outros vão para o Sul, cada qual vai à sua ideia, onde pensa que vai encontrar peixe. E nós temos de saber, com a experiência de mar que temos, como temos artes que não podemos trabalhar na pedra, temos de saber onde é que estão os pontos de areia. No tempo em que eu comecei a governar, não havia GPS como há agora, não havia sonares como há agora, simplesmente havia uma sonda a preto e branco, e depois mais tarde – eu sou desse tempo – começou a vir a sonda a cores. Depois é que começaram a vir os sonares. Nós fazemos as marcações para os pesqueiros atra-


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1 7 de Agosto de 201 4 Era por isso que muita gente queria ir para a traineira? Sim, a traineira naquela altura não tinha falta de pessoal, e havia mais traineiras do que há agora.

E em termos de rendimento, do dinheiro que se levava para casa, havia diferença?

Companha da Pérola de Sesimbra em Cascais. António Polido é o primeiro do lado esquerdo. vés do radar, às quatro ou cinco milhas, ou às cinco ou seis milhas, é que se podia procurar em certos mares, faziamos marcação radar. Actualmente é GPS. Depois do GPS já vieram as cartas de pesca que são montadas nos computadores, e a coisa evoluiu muito melhor a esse respeito. Portanto, é mais fácil ser Mestre hoje do que há anos atrás. E anterior a mim, conheço Mestres mais antigos, como o Eduardo Armelindo, como o Chico Avelino, como o António Anacleto, como o Manuel Chochinha, como outros mais, nessa altura as coisas eram diferentes. Antes, nem sondas havia. Eles tiravam marcas de terra: tu vias um pinheiro em terra, vias uma rocha em terra, quando descobria aquele pinheiro, se estavas no mar, mais ou menos, depois arriavas um calamento para o fundo com uma pedra e sondavas as braças: se as braças condiziam com o rumo que tu tiraste de terra, com o Norte que tu tiraste, sabias mais ou menos que estavas no mar.

Isso fazia-se mais na pesca do aparelho?

Sim. Na pesca do cerco nunca funcionou assim, era mais por via radar, é que nós conseguiamos chegar aos mares onde trabalhávamos.

Que indicações é que se tiram do radar para descobrir o pesqueiro?

O radar dá as milhas. Por exemplo, a gente para entrar no Mar de Ferro, que é um bocado de mar a quatro milhas do Espichel, eu sabia que estava no Mar de Ferro e que podia trabalhar, das vinte braças para fora.

O radar dá essa indicação da distância a que se está de terra?

A distância a que se está de terra! Mais tarde é que vieram aparelhos novos, foram as sondas a cores, veio o GPS, tornou-se mais fácil. Deixou de marcar pelo radar, e começou a tirar as coordenadas pelo GPS. Actualmente já há sonares melhores do que aqueles que havia na altura, e há as cartas de pesca, que eles metem o barco nos computadores, e a coisa tornou-se mais fácil. Mas também há agora menos peixe do que havia nessa altura. E há menos barcos do que havia nessa altura, muito menos, há um décimo. Agora há mais escassez de peixe. Porquê? Temos que falar nisso

até às cinco, seis da tarde, e depois nós, como eramos moços, tinhamos que ficar a bordo da barca a limpar a barca. Quando chegávamos a casa aquilo praticamente era noite. Depois era outra vez aviso para a meia-noite. Eu lembro-me de estar sentado à borda da cama e a minha mãe, que Deus tem, estar-me a vestir para eu ir para o mar, que eu não conseguia, nem tinha força nem para me vestir.

Quase não havia tempo para dormir?

Não havia quase tempo para descansar.

E a bordo era sempre a trabalhar?

Em relação à pesca artesanal na altura, acho que a pesca artesanal tinha mais rendimento, tinha mais lucro. o operário, acho que ganhava mais na altura do que ganhava a pesca do cerco. Eu tive temporadas, por exemplo, na Pérola de Sesimbra, que era um dos barcos que melhor pescava na praia, de vender num mês 300 contos, 400 contos, 200 contos, num mês inteiro. Hoje vende-se cem mil euros (vinte mil contos). Está bem que a vida está mais cara, a vila evoluiu muito e Sesimbra, como tu sabes, é uma vila cara. Não te vou dizer que actualmente se vive pior do que se vivia na altura. Eu acho que se vive melhor agora do que se vivia antigamente.

A traineira continua a ser um horário mais certo...

É. É sempre um horário mais certo. Eles vão para o mar – o nosso barco por acaso não está cá, está a pescar no Algarve, porque aqui a sardinha é pouca e não nos dá procura de sardinha, o que há por aqui é carapau... os barcos que andam por aqui sairam ontem às oito da noite e regressaram às nove da manhã. Já por aqui passaram alguns homens para casa e agora está o dia livre até à noite. Enquanto o aparelho continua a ser uma vida mais dura, acho eu.

Sempre a trabalhar! Até àquele período, aquele espaço de tempo. Depois largávamos a caçada, e depois Nessa altura, quais eram as tínhamos uma hora ou duas enquanto a caçada pescava. Que comida é que se levava horas de saida e regresso do mar, nessa pesca do an- E era quando comíamos, as- para o mar, quando começaste a trabalhar? zol? Quanto tempo se pas- sávamos umas sardinhas. Além do saco que tu levas sava no mar? Nós fazíamos de Domin- A traineira dava mais tempo para o mar, o teu saco que é aviado em casa, iam umas go para 2ª, de 2ª para 3ª, de livre? É. Na traineira, nós che- frutas, iam umas sandes, uns 3ª para 4ª, e descansávamos na 5ª. Depois faziamos de 6ª gávamos de manhã, na altu- carapaus fritos, muitas vezes, para Sábado, fazíamos cinco ra, o peixe era vendido a em vinha de alho. Os homens bordo do barco, como tu sa- antigos ainda faziam sopas lances por semana. Na altura saiamos para o bes, e era descarregado pe- de vinho: uma carcassa, tiramar ali na vila, possivelmen- los compradores, que tinham vam a mama da carcassa, te, iamos de bote ou na chata 4 ou 5 operários que descar- emborcavam lá a garrafa do para fora, os barcos eram an- regavam o peixe, e nós pes- vinho tinto, só paravam quancorados alí na vila, e ao fim cadores íamos para casa. do estava a escorrer para de meia hora tinhamos ali lo- Ficavam três ou quatro den- baixo, eram sopas de cavalo go as traineiras com sardinha tro do barco, que eram os ho- cansado – eles faziam isso na para nós iscarmos. Abordá- mens de vigia, como cha- minha presença! Dava força, vamos a traineira naquela al- mavam na altura, que faziam diziam eles. Eu era novo, não tura, passávamos a isca cá a limpeza ao barco. Mas conseguia fazer aquilo. E quando era na. altura do para dentro, aquilo que o aquilo era uma vigia, era uma Mestre entendia: sete ou oito coisa que corria a todos. E Verão, que as sardinhas eram caixas, e íamos a iscar para depois voltávamos a ir para o gordas, era uma das coisas mar às 9 da noite, tinhas o que eu gostava e que a malta o mar. Aquilo era desde a uma período da tarde para des- admirava, depois da caçada da manhã, que era aviso pa- cansar. ra a meia-noite, para a uma,


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estar largada, quando estava bom tempo, levávamos o fogareiro a bordo, com o resto da isca, normalmente sobrava sempre sardinha da isca, e assávamos. Depois torrávamos o pão, comias a sardinha em cima do pão, torrávamos o pão em cima da grelha, com a gordura da sardinha, e barrava-se com um bocadinho de manteiga. Sabia que nem gingas! Era o melhor, era aquilo!

A bordo nunca se cozia comida?

Não, naquela altura não. Naqueles barcos pequenos, eram aquelas barcas de catorze metros, não tinham cozinhas, não tinham nada disso, não havia muitas condições para isso. Faziamos um peixe assado de vez em quando, isso fazíamos. Cheguei a levar farinha torrada e a levar fava torrada. Os rapazes novos quando iam para o mar, as mães torravam fava, em areia quente, porque a fava ajudava a não enjoar.

A pesca da traineira está melhor do que a do anzol? Vão transformar um barco da pesca do espadarte em traineira.

Nesse caso é o espadarte: está melhor do que o espadarte. Sabes que para o espadarte saíu uma quota, que está regulamentada, sete, oito toneladas ano, e a fiscalização está em cima disso. Portanto, um armador que tenha um barco do espadarte e que esteja limitado a apanhar sete ou oito toneladas de espadarte por ano, não consegue sobreviver. Isso apanham eles numa viagem. O armador está a ver que essa vida praticamente está condenada.

É facil arranjar companhas? Vocês têm o barco em Sines, mas a companha é só gente de Sesimbra?

É só pessoal de Sesimbra. Aliás, temos um brasileiro a bordo, que é imigrado em Portugal, de qualquer maneira já é mais português do que brasileiro. Já está cá há muito tempo. Mas a pesca do cerco, segundo eu oiço e segundo reza a história, há pessoas – sabes que temos muito desemprego no país, e aqui em Sesimbra também temos algum desemprego, a juventude, mesmo com estudos, alguns estão ligados ao mar e outros querem-se ligar, porque não há outra saída. Em Sesimbra o que é que tu tens? Para o turismo, ou pesca! Não tens cá mais nada.

Antigamente tinhamos fábri- sardinha. A gente nota de cas de conserva, tudo isso ano para a ano que a sardinha, sentimos falta dela. De acabou. há uns anos para cá temos feito uma paragem, quanto a E a companha, se o barco está em Sines, dormem lá? mim a paragem é mal feita, O nosso barco tem umas porque pára em Sesimbra, condições mais ou menos, mas em Sines andam ao mar não é? Tem chuveiro, ficam a a apanhar. Enquanto ela está bordo, tomam banho, comem magra, precisa de engordar, a bordo, tem cozinha, vêm no para quando chegar a altura em que ela vale algum difim-de-semana. nheiro, haver no mar para apanhar. Com que idade e é que te É aí que eu estou a prereformaste? Eu reformei-me com cin- ver que o futuro poderá estar quenta e seis anos, e aban- azedo. Acho que devia haver donei a pesca em 2011 , uma paragem, como todos estamos em 201 4, tenho ses- os anos há, paragem de dois senta e um anos. Fui trans- meses, mas devia ser uma plantado a um rim há doze paragem a nível nacional. anos, depois tive uns meses Parar a nível nacional à pesde recuperação e fui para o ca da sardinha. mar novamente, andei dez anos ao mar transplantado. E os barco ficam parados? Aí, é uma das coisas que Depois chegou a um ponto, como isto aparece sempre eu não compreendo, qualquer operário tem os deconuma crisezita... Todas as pessoas que eu tos tal e qual como tu tens, conheço, conheço muitas, a todos os níveis. E eu gostatransplantadas, me critica- va que me respondessem vam por aquilo que eu fiz. por qual a razão, se o barco São poucas as pessoas que pára para reparação ou por andaram ao mar transplanta- interesse monetário ou por das. Não são 4 ou 5 horas interesse do país, porque é sentado no escritório, são que nós não temos o desemmais, todos os dias por cima prego como outro operário de água, e mais a mais o qualquer? Se descontamos Mestre. E foi isso que me fez para todo o lado!? abandonar. Acho que há altuMas em alguns portos ras para tudo.

mo é que esta gente vive?

Qual a tua opinião sobre o futuro da pesca em Sesimbra?

Mas em Lisboa passam cartas de Mestre...

Eu acho que a pesca tem um futuro, não te vou dizer que garantido. A pesca tem um futuro em Sesimbra que temos que olhar para o futuro. Temos que pensar no furuo, não é só capturar peixe no dia a dia, temos que pensar no amanhã. E quando eu digo pensar no amanhã, digo pensar na

podem receber subsídio de desemprego?

Isso só não acontece de Sesimbra para o Sul. De Sesimbra para o Norte toda a gente tem desemprego. Eu gostava que alguém me esplicasse porquê. Dizem que é porque ao Norte as pessoas têm um contrato de trabalho. Chega ao final do ano, as pessoas não são despedidas, é dada baixa das pessoas todas, vão para o desemprego. Aqui não. Co-

Quantos são actualmente na companha do vosso barco? Nós somos 1 7 a bordo do barco, somos 3 no armazém, que é composto por Mestre de terra e mais dois operários.

Aqui no armazém, o trabalho é de reparação de redes?

Reparação de redes. Uma das coisas que eu falei, não sei se estavas lá, é nós termos uma escola de pesca. Hoje, se queremos um homem para o armazém, não temos. Queremos formar um Mestre, não temos. A única coisa que a escola de pesca forma é miúdos para a cédula, mais nada! Mas as pessoas não se esqueçam, para levar miúdos para o mar, para a pesca, tem de haver Mestres! E isso não há. E um Mestre não se faz... Além de que para tirar uma carta, precisa de quatro, ou cinco, ou seis anos a bordo do barco, ao lado de um Mestre, para se ir fazendo.

Estás a falar do Forpescas aqui de Sesimbra?

Estou a falar do Forpes­ Eu condeno o F orpes­

cas. cas!

Mas em Sesimbra não! Eu queria que houvesse é em Sesimbra. Porque é mais fácil este homem abandonar o trabalho agora, ele larga o trabalho às cinco horas, vai para a escola das cinco às oito e faz a sua aula.

Antigamente as traineiras


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tinham enviadas, e ainda há, mas a vossa não tem?

Não. Eu fui o primeiro Mestre a acabar com a enviada em Sesimbra.

E porquê?

Porque eu acho que não é rentável. Se eu tiver uma enviada, o que é que acontece. Eu faço um lanço, meto na enviada, avança para a terra, coninuo a pescar, isso é só para condenar o mar. E eu achei por bem que o mar não precisava de tanto desgaste.

Mas o facto dos barcos agora serem maiores, também ajuda a isso?

Mas não te esqueças é que quando eu não quis enviada, eu governava o Pombi­ nho, e o Pombinho ainda existe, actualmente não tem enviada, a Beatriz Paulo também tinha, acabou. O único barco que tem enviada é o Luís Adrião e a Sesimbrense, mais ninguém tem.

Então o que acontece se tiverem um lance muito grande?

Eu fui ao mar há dois anos e apanhei, sei lá, dez

MARES DE SESIMBRA ou doze mil cabazes de cavala grande, e dei. Carreguei o Luis Adrião, carreguei a enviada do Luís Adrião, carreguei a Sesimbrense, carreguei..., a gente dá! A gente dá aos outros! Quando não há ninguém para dar, tem que se tirar do barco e deitar fora.

Este ano, como estão os preços?

Os preços, a nível da sardinha, estão óptimos. Houve anos atrás que aquilo era uma loucura, eram preços mesmo baixísimos. Depois a sardinha começou a evoluir. Antigamente andávamos mais à procura do carapau, que era mais valioso do que a sardinha, actualmente o carapau não vai nada. Hoje houve carapau, foi para aí a 25 cêntinos, 30 cêntimos, não passa disto.

O que mudou? Foi a opinião das pessoas relativamente ao peixe?

A gente não consegue compreender porque é que o carapau desvalorizou tanto, de uma tal maneira, que não consegue servir para nada. Quer ele esteja bom, quer ele esteja mau, não se consegue compreender.

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A cavala também, apesar das campanhas de promoção?

serva, ninguém pode caçar! Numa Reserva ninguém pode caçar nem ninguém pode pescar. Reserva é Reserva! Eu gostava de saber como é que as pessoas entendidas nisto, como é que proibiram as traineiras de pescar aqui, e deixaram covos, redes, alcatruzes, não sei quê, não sei que mais. Se é um Parque, é um Parque! Se é uma Reserva, é uma Reserva!

E o facto da sardinha estar melhor no preço, será por haver pouca?

Mas eras de opinião que se proibisse a pesca toda?

Então não foi! Eu cheguei a estar no porto de Setúbal, à espera de vez para entrar com o barco, o porto estava atolado de barcos carregados, para entrar. Aquilo tudo se vendia em melhor preço do que se vende agora. Isso não se consegue compreender. Eu acho que é por haver pouca. Tem havido mesmo muito pouca sardinha. Do Espichel para o Sul, e do Espichel para o Norte, não temos uma sardinha,

Mas há barcos pequenos que andam aqui ao cerco? Há dois, dois pequenos.

Portanto não rende andar aqui à pesca nas costas aqui próximas?

Não, não. E depois também temos uma coisa que é o Parque Natural da Arrábida, que faz uma extrema confusão à minha cabeça. Quanto à minha opinião, se é um Parque Natural, é uma Reserva. Se é uma Re-

Eu não sou de opinião que se proibisse a pesca toda, sou de opinião é que eles fechassem aquilo por dois ou três meses e depois abrissem. O período do ano em que eles acham, os entendidos, que têm a mania que são entendidos e que sabem tudo, fechassem aquilo durante um tempo, mas quando abrissem, abrissem para todos. Nós, quando é de Inverno não podemos ir para muito longe, e aqui à costa iamos apanhar uns carapaus, umas cavalas, e governávamos a vida. Pelo menos que nos abrissem a parte do Inverno João Augusto Aldeia

Marsilio Rosa: "Sesimbra é genuína!" Maria Rosa Marsilio é uma italiana apaixonada por Sesimbra, que visita regularmente desde 1 999. Residente na cidade de Novara, desenvolve actividade jornalística e de investigação histórica, tendo já publicado na revista Famiglia Nuaresa um artigo de divulgação de Sesimbra. Apaixonada pela História de Portugal, e pelas ligações a Itália, também já publicou sobre a rainha D. Maria Pia. Marsilio veio a Sesimbra pela primeira vez em 1 999, e regressa todos os anos, em viagens que também incluem a estadia de alguns dias em Lisboa. Na sua mais recente passagem pela Piscosa, com o seu companheiro Richard, revelou-nos que descobriu Sesimbra através de um guia turístico: "Tal como acontece em Itália, procuro sítios muito bonitos, mas genuínos, que não estejam destruídos pelo grande turismo. Foi ele que me indicou Sesimbra, e a primeira impressão foi fantástica, com se fosse o

Marsilio Rosa e Richard aguardando or peixe assado, na Tasca do Isaías. Paraíso, um lugar genuíno, antigo. E os pescadores são muito gentis." Marsílio acha a água do mar mais fria que a do Mediterrâneo, "mas não é problema, a água é limpa, e bela,

como toda a região." As suas férias em Portugal duram normalmente uma semana, repartida por vários locais, de modo a ver o mar, percorrer a Hstória e visitar alguns monumentos.

Na tasca do Isaías provaram uma diversidade de peixes grelhados: espadarte, peixe-espada preto e palmeta, tendo dificuldade em escolher o melhor, mas acabou por ganhar a palmeta.

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Mares de Sesimbra nº 11  

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