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dilĂşvios mar de paula


NĂŁo sou eu que gosto de nascer eles ĂŠ que me botam pra nascer todo dia e sempre que eu morro me ressuscitam me encarnam me desencarnam me reencarnam


A grande inundação não submete ao fim instantâneo pelo afogamento. Ela mantém os corpos vivos, asfixiando suas línguas. Sabemos que as ondas sonoras não se propagam através da água na mesma velocidade que através do ar. Não se ouve bem debaixo d’água, mas em estado de afogamento ouvir é a última necessidade. Sussurrar, gritar, gemer... atravessar corpo e voz no espaço torna-se tarefa realizada a duras penas.

No momento em que nos deparamos com as estruturas monumentais da Colônia Juliano Moreira evacuadas, vulneráveis à ação do tempo, somos testemunhas da força impiedosa dos Deuses da Razão sobre corpos desviantes do sistema. Transportados a um tempo pós-diluviano, fitamos o que sobreviveu à grande inundação: palavras, desenhos, marcas deixadas nas paredes, pequenos objetos. Tudo evoca o que foi, mas também a incerta presença do que é. O desejo da escuta encontra-se grafado nas paredes e nas fissuras da memória, tal como a tempestade que caía, aprisionando os corpos em anacronias diárias de um tempo a deriva. Stela do Patrocínio foi este corpo sufocado pelo dilúvio, náufraga agarrada ao verbo, flutuando nos gases puro, ar, espaço vazio e tempo. Imersa nesse ambiente que lhe roubava a “claridade luz” e lhe legava a escuridão. Nascendo e tomando forma todo dia, se restabelecendo a partir de seu falatório, ora se metamorfoseando em cavalo, cachorro, serpente, jacaré, criava a si e ao mundo através de sua língua.

Este trabalho, fruto de uma residência artística realizada em uma parceria entre o Festival Artes Vertentes e o Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea (Rio de Janeiro), integra a soma de desejos de visibilizar e reconstruir estes novos mundos. A partir das vozes de Stela e de tantas outras vozes que se inscrevem na paisagem, sobreviventes da tragédia que foi a política psiquiátrica do seu tempo, despontam novas práticas de um recomeço que desvelam vozes para serem escutadas e corpos para serem visto.


Profile for Mar de Paula

PILOTO : FOTOLIVRO DILÚVIOS  

PILOTO : FOTOLIVRO DILÚVIOS  

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