Issuu on Google+

6 HORA EXTRA

Especial

HORA EXTRA 7

Especial

EDUCAÇÃO | O destino dos documentos e dos prédios de escolas que são extintas pelo poder público

Para onde vão as escolas que são fechadas? Marcus Vinícius Lacerda marcusvflacerda@gmail.com

Paulo Peloso é motorista da Defesa Sanitária e precisa provar que completou o ensino médio. Há semanas dependendo destes papéis, ele vai ao Acervo de Escolas Extintas para requerer uma prova documental de que ele passou pela escola e concluiu os estudos. “É uma coisa de doido. Estou vendo a hora de eu entrar no Ministério Público para conseguir estes documentos”, desabafa o servidor da prefeitura. A razão da demora no atendimento do pedido de Paulo é compreensível quando se entra no acervo. Em plena era da informática e do acesso digital a documentos e processos, todo conteúdo de lá está em papel. “É impossível fazer um levantamento aqui a não ser checando escola por escola”, explica Sirley Cedro, coordenadora do Acervo de Escolas extintas. Pilhas e pilhas de históricos escolares estão organi-

Extinção e novos usos das escolas desativadas Além do Colégio Estadual Prof. Venerando Freitas Borges, outras escolas foram desativadas na capital. A extinção delas faz parte do reordenamento da rede estadual de ensino. Este processo visa instituições de ensino com números baixos de matrículas. Os alunos destas escolas são remanejados para outras escolas da região de cada uma das extintas. O pessoal, por sua vez, é distribuído em outras unidades da rede. Diretores têm observado uma queda no número de matrículas. “Isto é algo que notamos ano a ano. O número de alunos matriculados está diminuindo com o passar do tempo”, observa Cássio Cardoso, diretor do Colégio Estadual Parque Santa Cruz. Um dos fatores apontados para isto é a diminuição de filhos nas famílias, um fenômeno que tem sido observado nacionalmente

nos últimos anos. Outra possível causa é a ascensão financeira das classes mais populares. “Muitas famílias melhoram de situação e preferem colocar seus filhos em escolas particulares”, aponta Cássio. Escolas particulares estão entre a maioria das extintas no estado. Elas podem perder o registro mediante irregularidades, pendências em quesitos curriculares ou simplesmente fecham as portas como qualquer outro negócio. “Muitas vezes os próprios diretores é quem vêm até nós para entregar os documentos para o acervo e dar baixa na instituição”, conta a gerente de Atendimento Educacional. Segundo ela, menos de 50 escolas públicas fazem parte do acervo de escolas extintas. Enquanto o processo de reordenamento fecha escolas que

tinham poucos alunos, os prédios destas unidades ganham novos usos. A Escola Estadual Rui Brasil, no Setor Oeste, por exemplo, abriga o Centro de Apoio Biblioteca em Braile, que atende alunos cegos da rede pública de ensino assim como de instituições privadas. O mesmo prédio abriga o Núcleo de Atividades e Altas Habilidades/Superdotação (NAAH/S) que atende crianças superdotadas bem como oferece formação para docentes lidarem com estes alunos. Originalmente, o NAAH/S ficaria alojado no Colégio Estadual Venerando Freitas Borges (aquele que agora é destinado ao Acervo de Escolas Extintas). O uso de prédios de unidades da rede pública de ensino que foram desativadas não se limita à Secretaria de Educação. O Colégio Rui Barbosa, na Ave-

De escola a centro comunitário zadas alfabeticamente em centenas de estantes pelas salas do prédio da avenida T-4. É para lá que escolas particulares e públicas de Goiânia, Trindade, Aparecida de Goiânia e região mandam os documentos de seus alunos quando são fechadas. De acordo com a coordenadora, estudos já estão sendo realizados para a informatização do setor. Segundo a gerente de Atendimento Educacional, Daniela de Moura, por enquanto já foram destacadas mais 10 pessoas para o acervo a fim de agilizar o atendimento à população. A gerente reconhece o estado obsoleto em que o setor se encontra. “Em outros estados, como Tocantins, os acervos são armazenados em microfilmes e os sistemas são informatizados”, compara Daniela. A procura de um requerimento demora dias e pode demorar

mais dependendo da falta de clareza do requerente. “Muita gente chega sem saber em que escola e quando estudou”, conta Daniela. Quando o usuário do serviço possui as devidas informações para a procura (nome da escola e o ano de conclusão do ensino fundamental ou médio), ele recebe uma declaração que assegura que seu processo está em tramite e possui valor de documento. “A gente não pode liberar declarações sem controle, sem ter a mínima ideia de que aqueles documentos existem ou se a pessoa completou os estudos”, explica Daniela. O que parece ser apenas um entrave burocrático corriqueiro é também um obstáculo na batalha cotidiana da população contra a desigualdade. A comprovação da escolaridade é requisito para mui-

tas conquistas pessoais e profissionais. Os cidadãos recorrem ao Acervo geralmente para apresentarem os documentos em faculdades ou para fecharem um contrato de trabalho, muitas vezes há muito esperado. “As pessoas vêm até nós e nos dizem que precisam da declaração na faculdade para colarem grau ou para conseguirem um emprego. É um documento que está diretamente ligado à geração de emprego”, observa Daniela. Além das 10 pessoas destacadas para trabalhar no acervo e dos estudos que levantam as possibilidades de informatização do sistema, o setor conta com uma nova conquista: o prédio do Colégio Estadual Prof Venerando Freitas Borges. A escola foi desativada e abrigará a coleção colossal do acervo.

Outro exemplo de mudança no uso do prédio de escola extinta é o Centro Comunitário Naly Deusdará. Situado no Parque das Laranjeiras, o Naly Deusdará era uma Colégio Estadual. Em 2004, tornou-se um centro comunitário com a finalidade de integrar os moradores e oferecer diversas atividades. Com 7.000 matrículas já feitas, o Naly Deusdará oferece tanto atividades físicas como tae-kwon-do, yoga e pilates, mas também aulas de cerâmica, violão, pintura, inglês além de reforço escolar. Tudo gratuito e aberto a toda população. “Temos matrículas de outros bairros e até de outras cidades”, diz Meire Caetano, diretora do Naly Deusdará. De acordo com ela, mais da metade dos usuários do serviço faz mais de uma atividade. Todo início de mês, o centro abre inscrições para toda e qualquer pessoa. Os cursos são abertos à medida que as vagas são preenchidas. O centro comunitário funciona nos três turnos e supre uma necessidade dos pais por atividades extra-curriculares para seus filhos. É o caso das filhas de Cláudia Leandra Silva, morado-

ra do Setor Santa Luzia, a cerca de 4 km dali. “Eu não conseguia nada no turno da manhã para as minhas filhas e quando achava era muito caro”, conta ela que matriculou as crianças nos cursos de cerâmica e canto e coral. Além das crianças, a própria Cláudia faz pilates e coral no Naly Deusdará. “O pilates eu faço para o sedentarismo e o canto e coral eu faço para cantar na igreja”, explica a dona de casa. Apesar de não apresentar

nida Goiás, deu lugar ao Centro de Referência (CREI) da Secretaria de Políticas para Mulheres e Promoção da Igualdade Racial (SEMIRA). Destinado ao atendi-

mento de pessoas alvo de violência e preconceito em situação de vulnerabilidade, o CREI presta auxílio psicológico e jurídico para estas vítimas.

ONGs oferecem atividades extra-curriculares

vínculo formal com as escolas da rede pública, a diretora do centro conta que procura observar o desempenho escolar das crianças matriculadas nas atividades ali. “A gente tem que tomar cuidado porque elas gostam daqui e acabam esquecendo da escola”, conta Meire. Segundo ela, os educadores cobram resultados nos boletins das crianças para que elas possam participar das competições internas do centro.

O tempo que a criança passa fora da escola é de suma importância no desenvolvimento pedagógico dela. Além do Centro Comunitário Naly Deusdará, a região sudeste de Goiânia também conta com duas ONGs que oferecem atividades para os alunos da rede pública dali no contraturno escolar. Uma delas é a Associação Polivalente São José (APSJ), fundada por freiras espanholas há 16 anos. A instituição sem fins lucrativos oferece aos jovens da região cursos de informática, corte e costura, artesanato e manicure e pedicure. Além destes cursos profissionalizantes, a APSJ também oferece reforço escolar para os jovens atendidos pela instituição. Todo início de ano, eles vão até às unidades da rede pública para apresentar o trabalho a alunos, educadores e pais. O contato com a escola é parte do trabalho deles. “Para participar das nossas atividades tem que estar matriculado na escola”, explica Maria das Graças, coordenadora pedagógica do projeto. Outra instituição que atua na região sudeste é a Casa da Árvore com o projeto Telinha de Cinema. A iniciativa da ONG fundada em 2007 no Tocantins e atuante em Goiânia desde 2010 bota crianças de diversas escolas públicas em contato com o audiovisual por meio do uso de tecnologias móveis. “Eles aprendem todas as etapas da produção de vídeo. De roteiro à produção, edição e compartilhamento online”, explica Fabiana Assis, coordenadora pedagógica do projeto Telinha de Cinema. Dentro da própria Casa da Árvore, dois jovens que passaram pelo projeto Telinha de Cinema já aplicam o que aprenderam nas oficinas. Daniel Arly fez o curso no 1º semestre de 2011 e depois participou de residências artísticas organizadas pela ONG. “Não fico desocupado em casa, sempre estou fazendo alguma coisa. Não gosto de ficar parado”, explica Daniel que atualmente trabalha na Casa da Árvore. Thaísa Fernandes é outra jovem que também passou pelo projeto da ONG e trabalha lá. “Aqui aprendo muito com as pessoas”, observa Thaísa.


Escolas Fechadas