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Mateus Gandara

Marcus V. F. Lacerda Mayra Gonçalves "Mas de onde vem a palavra 'boteco'?", pergunta um freqüentador entre as garrafas de cerveja. Magicamente, todos à mesa tornam-se verdadeiros catedráticos do assunto. Assim é uma conversa de boteco: todo mundo entende de tudo, dos pontos corridos do Campeonato Brasileiro, passando pelo conflito árabe-israelense, chegando às grandes dúvidas da filosofia e da física quântica. A arte da discussão em boteco consiste em não ter razão e procurar lançar os argumentos e dados ao vento, quanto mais duvidáveis melhor. "A palavra vem do alemão 'botechish'", fala um na mesa levantando o dedo. "A expressão 'boteco' tem um cunho pejorativo e preconceituoso. O termo correto é 'estabelecimento carente de requinte'", retruca outro. Na verdade, a palavra deriva do lusitano "botica" e do espanhol "bodega", que por sua vez tem origem no grego apothéke, que significa “depósito”. No Rio, os botecos são conhecidos como "pés-sujos" e em Belo Horizonte como "copos-sujos". O aspecto tosco é típico e tornou-se uma característica deste ambiente que, afinal, é a última opção para um encontro romântico. Além disso, ele é diferente do bar, onde as mesas são cobertas por toalhas e há máquinas de car-

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Campus

21 de junho a 4 de julho de 2007

tão de crédito. A versão mais aconchegante do bar, o barzinho, geralmente tem alguém tocando bossa nova ou MPB ao estilo "um banquinho e um violão". E mais: a melhor diferença entre o boteco e os outros é a cerveja barata e, claro, a tradicional gastronomia. A comida típica de boteco é gordurosa e pesada, ideal para sustentar noites regadas a cerveja e cachaça. Os clássicos da culinária botequeira vão da rabada e caldo de mocotó até os exóticos pescoço de peru, fígado acebolado com jiló (bastante popular em Minas Gerais) e o famoso torresmo coberto de pêlos. O Bar do Codorna (antigo "Mané das Codornas - o rei da codorna"), na 403 Norte, mantém um cardápio bastante diversificado. "O pessoal vem aqui mais para comer", informa o gerente Carlos Lúcio Martins, reagindo ao senso comum de que boteco é lugar barra pesada. "Aqui quase não acontece briga. O máximo que já teve foram dois velhos discutindo na eleição", assegura Carlos. Perto dali há um outro estabelecimento do gênero, com preços em placas de plástico, salgados fritos repousando numa estufa, uma parede cheia de pôsteres do Botafogo e três TVs para reunir os torcedores do time. É o Só Drinks, bar mais antigo da Asa Norte, aberto em 1975 e comprado em 1984 por Nilton Novanto. "Nos dias de jogo sai gente pelo ladrão",

afirma o orgulhoso proprietário. Assim como o concorrente de dois blocos abaixo, Nilton preocupa-se com a segurança do lugar. "Quando alguém começa a causar confusão a gente fala com o cara e depois pára de servir", explica ele. Ele serve petiscos variados e baratos, mas a cerveja é um pouco mais salgada. "Eu prefiro botar a cerveja mais cara para não dar muita gente. Não vale a pena", justifica Nilton, que prefere os clientes mais velhos e mais fiéis aos jovens barulhentos. O lugar dos jovens é a 408 Norte, onde há um verdadeiro complexo de botecos. A clientela arranja alguns problemas para Alonzio Filho, dono do Pôr do Sol - principal bar da quadra. "Apesar de o som de carro ser proibido, eles batucam nas mesas", reclama. Além do ambiente descontraído e informal, o local conta com a famosa porção de carne de sol com mandioca regada à manteiga de garrafa trazida especialmente da fazenda de um amigo de Alonzio. A receita da iguaria, segundo o dono, tem um segredo. "A carne de sol é pré-assada na brasa e depois passada na chapa, e a mandioca é cozida em banho-maria". Para quem não gosta do barulho dos bares da 408 Norte ou do aspecto do Só Drinks, existe o Mercado Municipal na 509 Sul. Inspirado nos botequins da Lapa e no Mercado Municipal de São Paulo, ele reúne a descontração

típica dos botecos com um generoso toque de requinte. No lugar do copo americano engordurado ou, muitas vezes, molhado da lavagem feita ali mesmo na sua frente, copos longos, tulipas e taças ocupam as mesas. No cardápio, pratos típicos de boteco, como torresmo e pastéis, dividem espaço com ostras e tábuas de frios, ao lado da "ambígua" Punheta de Bacalhau (peixe cru e desfiado, com azeite e salsinha acompanhado de pães). O estoque da popular cachaça Seleta e do conhaque Napoleon VSOP (R$14,00 a dose) são controlados por um sistema computadorizado, que aposentou a clássica caneta atrás da orelha, o bloquinho de papel amarelado e a dose chorada na base do "bota mais um pouquinho". Junto ao "bar-boteco" há um empório onde se vende diversas especiarias, frios, castanhas, queijos, bacalhau e, para destoar de vez dos botecos-tradição, vinhos. Há quem considere o lugar uma perversão da essência do boteco enquanto manifestação popular. Ou que isso já foi feito há muito tempo na Nova Zelândia. Mas, hoje em dia, a própria discussão de boteco começa a perder o sentido. Afinal, sempre tem um sujeito pronto para interromper os entusiasmados filósofos de bar e suas teorias com uma frase broxante. "Chegando em casa a gente vê isso no Google!".


Boteco: rangos e papos