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Geração saúde

O jogador de vôlei Bruno Rezende teve o código genético sequenciado. Aqui, fizemos uma simulação com um circuito flexível colado à pele que monitora o organismo

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Saúde

Com monitoramento permanente de várias funções e tratamento personalizado, a medicina alia-se à tecnologia para nos ajudar a viver sem nenhuma doença crônica. Entenda como isso é possível

/ Por MarCus ViníCius Brasil fotos Dulla

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Durante a última temporada da Superliga Brasileira de Vôlei, um grupo de jogadores de 11 times foi submetido a um exame diferente, no centro de treinamento de Saquarema, no Rio de Janeiro. Amostras de saliva de 138 atletas foram seladas dentro de tubos de ensaio. Depois de embalado, o material biológico seguiu para um centro de pesquisa em Pittsburgh, nos Estados Unidos, onde os códigos genéticos passaram por um processo de sequenciamento. O jogador Bruno Rezende, 26 anos, filho do técnico Bernardinho e da ex-jogadora de vôlei Vera Mossa, estava entre os atletas que foram analisados. O levantador Bruno não tem nenhum problema de saúde. Participou da experiência pensando no longo prazo. “Tenho uma genética boa para o esporte, por causa dos meus pais, mas é interessante fazer o teste”, afirma. O estudo busca marcadores genéticos específicos que indiquem predisposição para a tendinopatia, uma lesão nos tendões que afeta atletas de alto rendimento. Um desses marcadores pode apontar características hereditárias que pioram o quadro inflamatório, dificultam a recuperação ou potencializam os sintomas. “Buscamos informações consistentes, que ofereçam segurança aos nossos atletas”, afirma o professor José Inácio Salles Neto, preparador físico da seleção brasileira de vôlei masculino e coordenador do laboratório de pesquisa neu52 / INFO Novembro 2012

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MonitoraMento

Placa com circuitos eletrônicos flexíveis da startup americana MC10. Eles são colocados em um polímero que estica e, grudados à pele, podem medir desde o nível de hidratação até os batimentos cardíacos. Os dados vão por tecnologia sem fio para o celular, que os registra

romuscular do Into (Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia), órgão ligado ao Ministério da Saúde. “Analisamos os aspectos bioquímicos vinculados às doenças e o treinamento é modulado para cada atleta a partir desse mapeamento”, afirma Salles Neto. No início das temporadas, Bruno Rezende passa por uma série de testes que analisam amostras de sangue, urina e fezes, além de frequência cardíaca e outros sinais vitais. Isso tudo para que o treino esteja totalmente adequado à sua condição física naquele momento. O que acontece no centro de treinamento da seleção de vôlei ilustra bem uma tendência que vai muito além da medicina esportiva. Em todas as outras grandes áreas da saúde, como a oncologia e a cardiologia, avanços apontam para um futuro em que a medicina estará adaptada às particularidades de cada paciente.

Tecnologias como mapeamento genético, marcadores moleculares, supercomputadores e até aplicativos móveis ajudam médicos e pacientes a entender o que está havendo no organismo e a prever o futuro. Bem-vindo ao universo da medicina personalizada, só possível com muita inovação tecnológica. “Existe um velho ditado que diz que com informação suficiente, o erro desaparece”, afirma o médico David B. Agus, professor da University of Southern California e um dos oncologistas que tratou Steve Jobs. “Os próximos anos serão incríveis. Teremos exames que dirão o que está havendo com o corpo naquele exato momento. Em vez de todo o mundo ter que fazer uma colonoscopia quando chegar aos 50 anos, vamos procurar no exame de sangue uma proteína-marcadora que sinalize um pólipo. E apenas se a encontrarmos é que faremos o procedimento”, disse Agus a INFO.

fotos Ken RichaRdson

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A MEDICINA DO FUTURO

CinCo áreas que devem transformar a prátiCa médiCa nos próximos anos

Proteômica_enquanto o dna pode ser comparado a uma lista de ingredientes do organismo, as proteínas guardam o segredo dos processos que acontecem no corpo. entender seu funcionamento leva à medicina preventiva e personalizada.

Entre as novas áreas de estudo que prometem transformar as velhas concepções de tratamento está a proteômica, que desbrava o papel das proteínas como reguladoras dos processos do organismo, além das pesquisas do universo de micróbios que vivem instalados em nossos órgãos e que controlam desde a maneira como metabolizamos alimentos até a produção de hormônios. Em seu livro The End of Illness (“O fim da doença”, ainda sem versão em português), David Agus argumenta que a medicina está próxima de reduzir drasticamente o número de mortes prematuras por conta de doenças como câncer, problemas respiratórios e cardiovasculares. “Com as tecnologias preventivas que temos hoje, estamos muito perto disso”, afirma. Sem o entendimento dos processos em escala individual, esse cenário não seria possível.

O MÉDICO PROCURA O PACIENTE Em São Paulo, uma iniciativa inédita do Instituto do Coração (InCor) e do Hospital Samaritano pretende levar a medicina preventiva a um elevado nível de inovação na área da cardiologia. No lugar de esperar que o paciente procure um médico, muitas vezes já com um quadro avançado do problema, o médico chegará antes a esse paciente.

“Principalmente em casos mais sérios, como os de infarto, vemos que há uma influência genética importante”, afirma o cardiologista José Krieger, diretor do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do InCor. Hoje já existem genes e proteínas suspeitos de funcionarem como marcadores desse tipo de predisposição e a iniciativa do InCor pretende usá-los para identificar possíveis pacientes que venham sofrer de doenças cardíacas hereditárias muito antes que a doença se manifeste. Colocado em prática em caráter experimental, o projeto do InCor começa pela instalação de um sistema integrado entre o instituto e postos de saúde da Zona Oeste de São Paulo. Assim, quando um paciente fizer um exame de sangue que aponte colesterol elevado, essa informação chegará ao instituto, que, por sua vez, mandará uma enfermeira para coletar uma nova amostra dessa pessoa, usada para fazer o mapeamento genético. Com os avanços na tecnologia de sequenciamento, é possível analisar em questão de dias se aquele indivíduo possui alguma predisposição que pode levá-lo a um ataque cardíaco precoce. “Nossa intenção é atuar de maneira mais ativa. Não vamos esperar que a pessoa tenha um infarto e venha até o InCor”, diz Krieger, que participou, em

Micróbios_estima-se que temos dez vezes mais células bacterianas que humanas no corpo. esses microrganismos influenciam na maneira como metabolizamos os alimentos, por exemplo. Compreendê-los é uma das fronteiras médicas de hoje. Big data_processar enormes quantidades de dados ajudará no diagnóstico e na elaboração de tratamentos para doenças de alta complexidade. supercomputadores como o Watson, da iBm, trabalham nisso. o desafio é torná-los mais precisos. Técnicas microinvasivas_Há dez anos, uma cirurgia de câncer no fígado durava seis horas, com uma grande incisão. Hoje existem técnicas de introdução de moléculas no organismo que se associam e atacam o tumor de modo inteligente. robôs como o da vinci, já usados em hospitais brasileiros, fazem cirurgias cardíacas sem abrir o peito dos pacientes. Telemedicina_as tecnologias não presenciais já são uma realidade. videoconferências são usadas por centros médicos de são paulo para auxiliar médicos de outras cidades.

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outubro último, de um simpósio sobre o tema na cidade de Kyoto, no Japão. “A medicina personalizada pode ser uma alavanca para fazer uma reengenharia no sistema de saúde. Ela forçará o sistema a se adaptar”, afirma Krieger.

LABORATÓRIOS AMBULANTES

O MATADOR DE DOENÇAS

o oncologista DaviD B. agus, um Dos méDicos que tratou steve JoBs e autor Do livro the end of Illness, acreDita que Doenças que poDem nos matar antes Dos 90 anos serão erraDicaDas

Estamos muito longe do “fim da doença” que o senhor descreve em seu livro? o fim da doença significa se livrar de qualquer coisa que evite que a pessoa viva até a sua nona ou décima década. acho que com as tecnologias preventivas que temos hoje estamos muito próximos disso. o problema é que a maioria das pessoas não adere a essas tecnologias e técnicas preventivas. são coisas simples. trata-se de comer sua refeição num horário regular, tomar aspirina, falar com seu médico sobre estatinas e se movimentar. essas coisas têm um impacto profundo sobre a nossa saúde. O senhor acredita que a prática médica pode mudar com a introdução de celulares e apps que permitem às pessoas monitorar sua saúde? pode ser um aplicativo de smartphone, um equipamento de medição de pressão sanguínea, um acelerômetro que mede como você se move ao longo do dia. todas as métricas são importantes, pois nos ajudam a entender o organismo. essas tecnologias vão nos auxiliar a perceber os comportamentos que são bons e os que são ruins para o corpo de cada pessoa. Em que áreas de estudo a medicina está avançando mais? os próximos cinco anos serão incríveis para a proteômica e para um novo campo, que estuda os microrganismos em nossos corpos. Há dez vezes mais bactérias do que células no corpo. e elas controlam como metabolizamos a comida, os níveis de hormônio. pela primeira vez começamos a caracterizá-las e haverá uma dimensão de estudos completamente nova adiante. Entender como diferentes campos se relacionam é um caminho para vencer doenças como o câncer? essa é a chave. somos um sistema complexo, o que significa que há tantos níveis que às vezes não é preciso entendê-los, mas controlá-los. se eu perguntar a meu filho de 12 anos como parar um trem, ele dirá "puxe o freio". ele não precisa perguntar quanto pesa ou do que é feito o trem. você pode controlar coisas que não compreende. criar modelos para todo o sistema é essencial. isso inclui genética, proteômica, estudo do metabolismo, de microrganismos. tudo em um único sistema.

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Mas não é só por meio de análises complexas do DNA que a medicina personalizada se transformou em realidade promissora. Alguns dos indicadores mais importantes para monitorar a saúde são mais óbvios que a análise das proteínas e dos genes. São informações de referência, como frequência e variação cardíacas, a quantidade de exercícios físicos e a qualidade do sono. Esse conjunto responde por boa parte do estado de saúde de uma pessoa. Médicos estimam, por exemplo, que passar cinco horas por dia sentado tenha um efeito prejudicial à saúde semelhante ao de fumar um maço e um quarto de cigarros por dia. A diferença é que a tecnologia está tornando essas medições uma tarefa cotidiana, que pode ser feita com o celular. Aplicativos já registram esses dados de maneira eficiente (leia na página 57). Assim, não é preciso esperar o check-up anual para monitorar a saúde. “Nos velhos tempos, o paciente ia ao seu médico e ele media a pressão sanguínea às duas da tarde. Mas não havia como medir de manhã, ou à noite, ou quando o paciente ficou chateado após uma discussão”, afirma David Agus. “Com essas novas ferramentas, é possível ir ao médico com três meses de dados coletados, para que possamos tratar as pessoas de uma maneira mais eficaz.” Doutor Agus conta que tem sido cada vez mais comum os pacientes aparecerem em seu consultório com dados detalhados que eles mesmos coletaram com seus aplicativos ou com aparelhos

ilustração evandro bertol

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supercomputador

O Watson, da IBM, ajuda médicos do Memorial Sloan-Ketering Cancer Center, de Nova York, a analisar sintomas para sugerir possíveis diagnósticos com base em big data. O desafio agora é diminuir sua margem de erro, ainda alta

munidos de sensores especializados. “Pode ser um aplicativo de smartphone, um equipamento de medição de pressão sanguínea, um acelerômetro que registra como a pessoa move-se ao longo do dia. São todas métricas muito importantes, que nos ajudam a entender o organismo”, afirma Agus.

cIrcuItOs Na PELE O próximo passo da tecnologia é miniaturizar os medidores e adaptá-los para que permaneçam colados à pele. Assim, será possível monitorar o organismo o tempo todo. Em Massachusetts, nos Estados Unidos, uma startup chamada MC10 já trabalha para tornar essa ideia viável. A empresa fabrica circuitos eletrônicos flexíveis que podem ser utilizados de diversas maneiras, colados à pele

ou passeando pelo sistema circulatório no formato de pequenos balões infláveis. Esses circuitos são colocados em uma superfície feita com um polímero que estica. Eles se comunicam por tecnologia sem fio a celulares que registram os dados coletados. A MC10 desenvolveu, por exemplo, um medidor de hidratação que funciona conectado à pele e trabalha em outros sensores que analisam batimentos cardíacos, respiração e oxigenação do sangue. Tudo isso faz parte da grande mudança que ocorre no sistema de saúde em todo o mundo. “Em vez de focar no tratamento dos doentes, a intenção agora é manter as pessoas saudáveis”, afirma o escritor David Ewing Duncan, especializado nos avanços da medicina e autor de When I’m 164, publicado

pela editora TED Books, sobre o papel da tecnologia no aumento radical da expectativa de vida da população.

ONcOLOGIa PErsONaLIZaDa Uma das áreas que mais têm focado nos avanços da medicina personalizada é a oncologia. Pela natureza do câncer, que se manifesta de maneiras diferentes em cada organismo, mostrou-se necessária uma evolução dos métodos atuais de identificar tumores, até hoje derivados das mesmas técnicas de comparação de padrões desenvolvidas lá atrás, no século 19. “Estamos redefinindo o câncer sob o ponto de vista genômico”, afirmou a INFO o médico Otis Webb Brawley, membro da Sociedade Americana do Câncer. “Aprendemos cada vez mais sobre a célula cancerígena e encontramos

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caminhos químicos que nos permitem desenvolver drogas que interferem diretamente em seu funcionamento.” Em São Paulo, o hospital SírioLibanês se prepara para a inauguração, no próximo ano, de um laboratório ligado ao Centro de Oncologia Molecular, onde começarão a ser realizadas análises genéticas no material que o hospital vem coletando, desde setembro passado, de cerca de 40 pacientes. “A oncologia personalizada depende de saber mais sobre alterações genéticas e bioquímicas do tumor e usar essas informações para orientar o tratamento”, afirma a pesquisadora Anamaria Camargo,

e é associada ao fator de crescimento celular. Esse tipo de câncer pode ser tratado com o medicamento Herceptina. Ou no caso da leucemia mieloide crônica com uma droga chamada Glivec, que apresenta taxa de resposta de até 90%. No Hospital Israelista Albert Einstein, em São Paulo, um projeto de sequenciamento genético de tipos raros de leucemia pretende levar o entendimento do funcionamento molecular da doença a casos pouco estudados até agora. Dez amostras de pacientes foram coletadas e os resultados dos testes devem começar a sair nos próximos dois meses. “É um quebra-cabeças gigantesco, que

O mapeamento do DNA permitiu o surgimento de drogas-alvo para o câncer, que atuam apenas nas proteínas ligadas ao crescimento desenfreado das células

coordenadora do Centro de Oncologia Molecular do Instituto Sírio-Libanês. Esse tipo de pesquisa de mapeamento do DNA de células cancerígenas permitiu o surgimento, na última década, de uma série de drogas que atuam de maneira muito mais precisa, ao contrário dos tratamentos quimioterápicos tradicionais. Elas atacam proteínas específicas ligadas ao crescimento descontrolado de uma célula e, mesmo que não tenham um impacto dramático na redução da mortalidade, têm-se mostrado eficazes na diminuição da velocidade com que a doença se desenvolve. Um exemplo é o tratamento de tumores com amplificação da proteína ERBB2, que responde por cerca de 30% dos cânceres de mama,

precisamos montar peça por peça”, diz o hematologista Fábio Pires de Souza, que coordena a pesquisa no hospital. “Cânceres são heterogêneos”, afirma Pilar Estevez Diz, coordenadora da Oncologia Clínica do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo. “Mutações podem fazer com que a doença seja mais ou menos resistente a um determinado tratamento. A medicina personalizada serve para aumentar a eficiência dos remédios e para ajudar a diminuir seus efeitos colaterais”, diz Pilar. Enquanto drogas-alvo e estudos de proteínas tentam enfrentar os tumores agindo no sistema molecular, outra tecnologia está sendo utilizada no combate ao câncer: a análise de big data para diagnóstico. No Memorial Sloan-

Kettering Cancer Center, em Nova York, o supercomputador Watson, criado pela IBM e famoso por ter vencido humanos no programa de quizzes Jeopardy, ajuda médicos a analisar sintomas e sugere possíveis diagnósticos. Dados médicos alimentam o supercomputador, que faz uma análise semântica desse conteúdo e depois sugere prováveis diagnósticos. As opções oferecidas pelo Watson, que indicam um tipo ou outro de câncer, por exemplo, vêm dentro de uma margem de erro ainda considerada alta. Atualmente, uma equipe de desenvolvedores trabalha para reduzir ao máximo essa margem. “Um mesmo tipo de câncer pode ter inúmeras propostas de tratamento”, diz Fabio Gandour, médico de formação e cientista chefe da IBM Brasil que trabalhou nos Estados Unidos no desenvolvimento da memória que hoje equipa o supercomputador Watson. “O número de drogas para quimioterapia aumenta a cada mês, gerando muitas variáveis para análise. Então, fica a pergunta: como os médicos vão conferir os resultados produzidos no mundo todo?”, afirma Gandour. Aí entra a inteligência da máquina, capaz de processar todas essas informações e gerar resultados compreensíveis para a equipe médica. “Somos um sistema complexo”, afirma David Agus. “Precisamos desenvolver modelos que integrem todo esse sistema. Isso inclui genética, proteômica e metabolismo”. Com o total controle dos processos individuais que regem o organismo, acredita Agus, chegaremos à nona ou décima década de vida saudáveis, sem sofrer com nenhum mal crônico. E nesse estágio a tecnologia poderá finalmente decretar o fim da doença. LeIa maIs em www.INFO. abrIL.cOm.br/extras

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