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Monografia seriada D. LUCIANO MENDES DE ALMEIDA

Volume 1 – 1930 a 1975

2013


PRODUÇÃO EM PARCERIA: Faculdade Arquidiocesana de Mariana – FAM “Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida” Diretor: Padre José Carlos Santos Centro de Documentação Dom Luciano Mendes de Almeida Diretor: Padre Enzo dos Santos Grupo de Pesquisa em História Religiosa Coordenadora: Profa. Dra. Virgínia Albuquerque de Castro Buarque

Coordenação do projeto: Padre José Carlos dos Santos e Virgínia Albuquerque de Castro Buarque Organização do volume 1 e levantamento documental: Virgínia Albuquerque de Castro Buarque Reprodução fotográfica: Tamara Lins Antunes Quirino, Áurea Fonseca Magalhães Consultoria sobre os registros fotográficos: Maria da Glória Assunção Moreira Formatação em linguagem digital: Marcos Eduardo de Sousa Ficha catalográfica: Marina de Oliveira Silva Imagem da capa: PadreLuciano Mendes de Almeida em julho de 1958, em Roma, por ocasião de sua ordenação sacerdotal, com seus pais.


SUMÁRIO Apresentação............................................................................................................................ 07 Padre Enzo dos Santos FALTA TÍTULO......................................................................................................................xx Padre José Carlos Santos O Centro de Documentação D. Luciano Mendes de Almeida..................................................xx Maria da Glória Assunção Moreira Os escritos de D. Luciano: biografia e memória.......................................................................xx Virgínia Buarque Cronologia e inventário documental (1930-1975)....................................................................xx


O CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO DOM LUCIANO MENDES DE ALMEIDA

Maria da Gloria Assunção Moreira Arquivista do Centro de Documentação e do Museu do Livro Arquidiocese de Mariana

Falar sobre o Centro de Documentação Dom Luciano – CDDL – é, para mim, um momento a mais para recordar aquele que veio, viveu e tudo realizou em Nome de Jesus. O Museu do Livro – Biblioteca dos Bispos Marianenses – fundado pelo saudoso Arcebispo Dom Oscar de Oliveira funciona em um anexo da Residência Episcopal em Mariana. Como funcionária dele, tive a graça de conhecer e conviver um pouco mais com Dom Luciano. Durante toda sua vida em Mariana, D. Luciano já ocupava um espaço da Biblioteca, onde guardava parte de seu material de trabalho: livros, jornais, revistas e fitas de vídeos. Também usava desse espaço para escrever seus preciosos artigos. Foram gratificantes os anos de convivência com Dom Luciano, pois pude conhecer de perto uma pessoa tão iluminada, e com a vida totalmente dedicada ao bem de todos. Logo após seu falecimento, acredito que, por uma Providência divina, grande parte de seu acervo foi guardado na Biblioteca. A partir daí iniciamos, eu e minha irmã Aparecida, também funcionária do Museu, sob a orientação de alguns padres da Arquidiocese, o trabalho de separar e catalogar tudo que fosse possível para que nada se perdesse. Passamos um tempo sofrido, pois as lembranças eram muito presentes. Em junho 2007, tomou posse na Arquidiocese o Arcebispo Dom Geraldo Lyrio Rocha, que finalizou a restauração do Antigo Palácio dos Bispos (hoje, Centro Cultural Arquidiocesano Dom Frei Manoel da Cruz) e, em 2010, reservou e inaugurou um espaço dando-lhe o nome de Centro de Documentação Dom Luciano – CDDL. Mas somente em setembro de 2011, é que foi possível a transferência oficial do acervo para o referido local. Embora em processo lento, os trabalhos continuam sendo realizados com muito carinho e seriedade. Agradeço a Deus pela oportunidade de poder colaborar para que os escritos e ensinamentos deixados por Dom Luciano possam atender aos anseios de tantas pessoas que o conheceram ou daqueles que virão a conhecê-lo. E que, um dia se Deus quiser, possamos ver o seu nome na lista dos santos reconhecidos pela Santa Sé.

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OS ESCRITOS DE D. LUCIANO: biografia e memória Virgínia Buarque Professora do Departamento de História Universidade Federal de Ouro Preto

Introdução Em 27 de agosto de 2006, falecia D. Luciano Pedro Mendes de Almeida, arcebispo de Mariana. Cinco anos depois, 26 de agosto de 2011, em missa presidida pelo cardeal Serafim Fernandes de Araújo1, o atual arcebispo de Mariana, D. Geraldo Lyrio Rocha, reiterou seu propósito, previamente assumido na assembleia geral da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, de solicitar autorização à Santa Sé para abertura do processo de beatificação de D. Luciano2. Em paralelo, a fama de santidade devotada a D. Luciano torna-se cada vez mais difundida, sendo seu túmulo, na cripta da catedral de Mariana, permanentemente visitado pelos fiéis. Reportando-se a este público reconhecimento que lhe era tributado, o jesuíta Luis González-Quevedo, redigindo a Introdução a uma de suas biografias, já havia indagado: “O que posso acrescentar ao muito que já se tem dito e publicado sobre essa figura tão querida? Quem é que não sabe, neste Brasil que ele percorreu de norte a sul e de leste a oeste, que D. Luciano foi um homem bom, um jesuíta exemplar, um pastor zeloso e um corajoso defensor dos pequenos e pobres?” (Apud: Simões, 2009, p. 15). Porém, num contraponto à grande atenção que lhe era dirigida, D. Luciano praticamente nada escreveu sobre si, ao longo dos seus 76 anos de existência, e a parca produção de perfil autobiográfico hoje disponível distribui-se principalmente por algumas entrevistas. O que é possível, então, conhecer acerca de sua trajetória pessoal, como cristão, jesuíta e bispo, através desses textos? Inicialmente, uma leitura atenta dos relatos deixados por D. Luciano sobre algum episódio de sua vida permite observar que duas figuras3 aparecem de forma recorrente: Deus e o pobre. Tal preferência tornou-se Bispo-emérito da Arquidiocese de Belo Horizonte e grande amigo de D. Luciano, tendo-o hospedado em 1990, quando o arcebispo de Mariana precisou recuperar-se de inúmeras cirurgias, em função de grave acidente que sofrera (Assis, 2010, p. 600). 2 “Após cinco anos do falecimento de Dom Luciano, comunico oficialmente que, com o apoio dos bispos brasileiros, a arquidiocese de Mariana iniciará o que é necessário para obter da Sé Apostólica a autorização para dar início ao processo de beatificação do quarto arcebispo de Mariana, dom Luciano Pedro Mendes de Almeida” (Site da CNBB, 30/08/2011). 3 O termo “figura” é aqui empregado no sentido de “signo”, com base na reflexão de santo Agostinho acerca da linguagem. Segundo ele, o signo pode ser entendido como a expressão lingüística (imagem, gesto ou texto) que articula uma experiênciacom a interpretação que lhe é conferida: “É signo o que [...] além da impressão que produz em nossos sentidos, faz com que nos venha ao pensamento outra ideia distinta” (Agostinho, 2002, p. 85). 1

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OS ESCRITOS DE D. LUCIANO: biografia e memória

mais explícita sobretudo a partir de 1990, logo depois de D. Luciano ter sofrido um grave acidente automobilístico, conforme indicado por ele à revista Família Cristã: “Foi uma revalorização dos acontecimentos e, ao mesmo tempo, uma intensificação na valorização de tantos pontos que hoje marcam mais a minha vida. Por exemplo: o compromisso com os pobres, a vontade de vê-los atendidos numa sociedade digna; consciência de que pertence à missão da Igreja colaborar para isso. Depois, a experiência interior da oração na certeza de que Deus está sempre presente e não falha, de tudo tira o bem e que os sofrimentos, mesmo quando imprevistos e até mesmo muito fortes, têm um sentido redentor” (Almeida Apud: Botasso, 1990, p. 8). Em seguida, é possível perceber que as remissões a Deus bondoso e ao pobre sofredor geralmente convergem, nas páginas deixadas por D. Luciano, na figura de Jesus Cristo: “No fundo, é uma valorização da própria cruz de Jesus Cristo, que parecia um pouco distante, um pouco pregada na parede, e que hoje é mais interiorizada. Creio que o grande saldo que revela como me sinto hoje é o de uma ligação maior com Jesus Cristo no seu aspecto salvador e redentor, vendo que ele quis participar de todas as situações humanas para se tornar mais ligado a nós e poder expressar melhor o seu amor. Uma experiência como a que fiz criou uma participação pequena, é claro, mas de certo modo parecida à de Jesus, que tem como fruto uma ligação mais intensa com ele, pela qual sou muito grato a Deus” (Almeida Apud: Botasso, 1990, p. 8). Efetivamente, é possível observaro primado claramente desfrutado pela figura de Jesus nos escritos de D. Luciano: “Se pudéssemos perceber que enquanto damos pão somos, sim, cristãos, enquanto nos empenhamos pela casa e saúde, estamos levando à frente o ideal do bom samaritano, mas quando dizemos, ‘meu irmão, minha irmã, você sabe o que me alimenta, o que me dá vida? É o Cristo morto e ressuscitado que nos amou e a você também e a todos nós’, então é o começo da vida nova que vai além desse mundo, que supera todas as limitações do nosso egoísmo. [...] O anúncio, a evangelização, é um grande ato de amor [...] A vida encontra sentido em Cristo. Esta alegria é que temos de levar àqueles que caminham conosco [...]” (Almeida, 1996, p. 15).4 Mas ao mesmo tempo em que não se cansava de testemunhar o amor de Cristo pela humanidade, D. Luciano também empreendia, através de seus textos, uma profunda identificação de si com a figura de Jesus. Tal reconfiguração existencial, vivida através da fé, mostra-se inclusive anterior ao traumático evento de 1990, pois já em 1976, quando sagrado bispo-auxiliar de São Paulo, ele escolheu como seu lema episcopal Em Texto inicialmente apresentado por D. Luciano como palestra no XIII Congresso Eucarístico Nacional, em 1996, com o título “A eucaristia, centro da comunidade eclesial”. 4

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nome de Jesus (Simões, 2009, p. 42-43). Pouco tempo depois, essa mesma divisa havia se constituído em um referencial de sua ação pastoral e mesmo de sua pessoa, como indicado pelo padre Edélcio Serafim Ottaviani: “Em tudo o que ele fazia, sentíamos uma contemplação do Cristo, fazendo segundo o lema Em nome de Jesus, mas de uma forma muito carnal, muito integrada no ser humano” (Apud: Assis, 2010, p. 197). Trata-se, portanto, de um ato denominação pautado em uma profissão de fé, pelo qual um sujeito, em sua trajetória biográfica,buscava impregnar-se pela Palavra divina, tomando como referência a pessoa do Verbo feito carne. Tal processo, longe de ser vivido isoladamente por D. Luciano, pode ser considerado um registro cultural da religiosidadejudaico-cristã, conforme indicado pela teóloga Anne Fortin: “De Abraão, passando por Moisés, até Paulo, entre o nome dado e o nome reatribuído, as vozes se misturam numa escuta recíproca” (1995, p. 251).5 Tal renomeação, todavia, implica na renúncia à posse de uma identidade própria, de cunho autoreferencial, vindo o sujeito a constituir-se a partir desse outro nome recebido: “Paulo, exatamente como Moisés, torna-se mediação da Palavra entre Deus e povo, mas é uma mediação na qual o mediador é esvaziado de si mesmo: ‘Quem sou eu?’, pergunta Moisés; ‘É o Cristo que vive em mim’, diz Paulo” (Fortin, 1995, p. 251). Mas esta mesma acolhida da imputação de um nome, ao ser promovida na dinâmica da fé cristã, mostra-se, paradoxalmente, capaz de propiciar a emergência de uma memória de si de contornos muito singulares, pois configurada no sentido da kénosis ou do autoesvaziamento, como explicita o teólogo e historiador jesuíta Michel de Certeau: “[...] uma arte da memória desenvolve a aptidão para estar sempre no lugar do outro mas sem apossar-se dele, e tirar partido dessa alteração, mas sem se perder aí. Essa força não é um poder (mesmo que o seu relato o possa ser). Recebeu antes o nome de autoridade: aquilo que, ‘tirado’ da memória coletiva ou individual, ‘autoriza’ (torna possíveis) uma inversão, uma mudança de ordem ou de lugar, uma passagem a algo diferente, uma ‘metáfora’ da prática ou do discurso [...]” (Certeau, 1994, p, 163). É justamente a esta memória desapossada que o cristianismo intitula “memorial”, reconhecendo na morte e ressurreição de Jesus sua expressão emblemática: foi o desaparecimento do corpo/presença físicas do Cristo que possibilitou o surgimento de um corpo eclesial (a Igreja), de um corpo textual (o Novo Testamento) e de um corpo eucarístico (união dos fiéis com Deus e entre si, em ação de graças) (Certeau, 1987, p. 267-306; Geffré, 1991, p. 171). Sugere-se, assim, que D. Luciano, reordenou sua trajetória biográfica – logo, o 5

Tradução minha.

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