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Marcos Teodorico Pinheiro de Almeida O BRINCAR E A CULTURA LÚDICA: UM DESAFIO DA ESCOLA1 Por Marcos Teodorico Pinheiro de Almeida 2 O brincar tradicional têm estado sempre presentes, em todas as épocas e culturas, sendo uma das principais coordenadas da vida humana. O jogo e o brinquedo e a sua relação com a nossa vida, é parte do nosso patrimônio lúdico. Atualmente o brincar passou a ser um tema de grande relevância para estudiosos e curiosos. No Brasil e no mundo, os jogos tradicionais tornaram-se importantes no cotidiano, com o seu grande dinamismo e sua adaptabilidade ao tempo e aos espaços, revelando-se como uma potencialidade lúdica incomparável. O jogo tradicional tem sua energia própria e uma magia que teima e resiste às normas e formas impostas pela sociedade, já que se enraiza nas culturas locais onde mora a verdadeira essência humana. Os jogos e brinquedos antigos não aceitam definições prévias, preconceitos ou reconhecimentos abstratos. A sua legitimação encontra-se na dimensão histórica e cultural dos comportamentos e no vinculo aos elementos de uma data situação. Os jogos e brinquedos são marcados por uma identidade particular, isto é, a identidade do contexto cultural em que a ação lúdica se realiza. Mas isto não significa dizer que o jogo e o brinquedo não estejam abertos aos múltiplos e diversos cruzamentos de culturas, porque eles não são uma entidade descontinua, imutável, finita, sem capacidades de reestruturação permanente, como as vezes e erradamente eles tem sido apresentados, com uma visão reduzida e substantiva do mundo. Podemos dizer, que o jogo e o brinquedo têm contido neles os mais diferentes elementos e valores que são suas virtudes e os seus pecados. Virtudes, porque na essência, eles são constituídos de princípios generosos que permitem a revitalização permanente. Pecados porque o jogo e o brinquedo podem ser também manipulados e desviados para as mais diferentes finalidades ou objetivos podendo, comprometer a verdade. A pluralidade cultural para mim é entendida como a convivência em um mesmo espaço de pessoas procedentes de diferentes culturas, é um fato presente em nossa sociedade atual. Esta diversidade, longe de significar uma ameaça pode fortalecer a própria identidade cultural. Muito pelo contrário, a pluralidade cultural pode favorecer e enriquecer a nossa cultura lúdica 3 e se converter em um fator positivo para o desenvolvimento de indivíduos e sociedades. A cultura lúdica é, então, composta de um certo número de esquemas que permitem iniciar o brincar, já que se trata de produzir uma realidade diferente daquela da vida quotidiana. A cultura lúdica não é um bloco monolítico, mas um conjunto vivo, diversificado conforme os indivíduos e os grupos, e, função dos hábitos lúdicos, das condições climáticas ou espaciais. Atualmente neste mundo globalizado as culturas lúdicas não são (ainda?) idênticas de um país para outro. Essa cultura lúdica muda segundo numerosos critérios. Neste caso, em primeiro lugar, 1

Artigo publicado na Revista Vida e Educação: ALMEIDA, M.T.P. O brincar e a cultura lúdica: um desafio na escola. Revista Vida e Educação, n° 9 - Ano 3. Fortaleza, CE: Tropical. 2006, pp. 36 – 39. ISSN 1806-0145 2 Atualmente sou professor da Universidade Federal do Ceará – UFC, Mestre pela Universidade de São Paulo – USP, Doutorando em Educação na Universidade de Barcelona – UB e coordeno o Laboratório de Brinquedos e Jogos – LABRINJO da Universidade Federal do Ceará-UFC na Faculdade de Educação – FACED. 3 É um conjunto de regras e significações próprias do jogo que o jogador adquire e domina no contexto de seu próprio jogo. A cultura é antes de tudo um conjunto de procedimentos que permitem tornar o jogo possível.


Marcos Teodorico Pinheiro de Almeida a cultura em que está inserida a criança é sua cultura lúdica. Elas se diversificam também conforme o meio social, a cidade, o clima, a organização social, econômica e política de uma determinada sociedade e mais ainda, o sexo da criança. As escolas de hoje estão inseridas em um contexto mundial globalizado, onde acolhem alunos de diferentes culturas, neste sentido, a escola se converte em um lugar de encontro, onde meninos e meninas de diferentes etnias compartilham experiências lúdicas entre outras. As relações na escola entre as crianças marcarão sem dúvida as relações em outros âmbitos como: na família, na comunidade e na cidade. O objetivo que devemos buscar como educadores é a integração da cultura minoritária com a cultura majoritária sem que isso leve a renúncia da cultura minoritária e seus próprios padrões culturais e sociais. Tão pouco podemos propor o conhecimento das diferenças e o respeito das mesmas sem favorecer uma interrelação entre ambas culturas, entre pessoas de distintas culturas. Este ambicioso objetivo é válido tanto para escolas que recebem alunos de minorias culturais como para outras que somente tem alunos de uma mesma etnia. Em ambos os casos, partirão de um conhecimento das manifestações culturais das mais diferentes etnias, eliminando prejuízos e preconceitos, para ir, pouco a pouco, descobrindo as diferenças e semelhanças e estimulando um intercâmbio que possibilite inúmeras ações comuns. Um dos principais pontos em comum dos meninos e meninas de diferentes culturas é o BRINCAR. O jogo é um meio que as crianças aprendem as normas culturais e os valores de uma sociedade. Os diferentes tipos de jogos que os meninos e meninas praticam são um reflexo da cultura em que vivem. É importante estimular na escola a pesquisa de jogos de diferentes países e culturas com o fim de que sirva como recurso em uma aula, resgate e manutenção da cultura lúdica. Desta maneira, podemos selecionar jogos e brinquedos de diferentes lugares do mundo e introduzi-los convenientemente estruturados nas aulas, permitindo assim, que os nossos alunos tenham acesso a outras formas de brincar. Praticando e tendo uma reflexão sobre estes jogos os envolvidos podem estabelecer elementos de comparação com outros. Perguntas podem surgir: • • • •

Com que se parecem? Em que se diferenciam? Que materiais variam? Como podemos modificá-los?

Neste tipo de pesquisa, vamos perceber que muitos dos jogos investigados são similares a outros que conhecemos. Algumas características podem ser observadas: • • •

Alguns vão parecer simplificações de outros; Variantes derivadas da adaptação do jogo a múltiplas condições como: a ausência de um material determinado ou sua substituição por outro ou até mesmo a eliminação do mesmo; A educação a um espaço de jogo concreto ou a adaptação para favorecer o jogo quando o número de jogadores é superior ou inferior ao habitual.

A busca de semelhanças e diferenças entre jogos pesquisados e os que conhecemos e praticamos habitualmente em nossa vida ou na escola, assim como, uma analise mais profunda dos diversos contextos culturais de onde são provenientes os jogos pesquisados, podem nos levar a adquirir um maior conhecimento de outras formas de vida, nem melhores nem piores que a nossa, simplesmente diferentes. A fabricação de materiais para a prática dos jogos a partir de elementos que estão ao nosso alcance e que se usa no dia-a-dia, na maioria das vezes considerados materiais não necessários (lixo), com eles, podemos estimular vários temas para discussão sobre a sociedade de consumo em que


Marcos Teodorico Pinheiro de Almeida estamos inseridos e fazer reflexões com os nossos alunos como nossa forma de viver e tratar o meio ambiente repercutem nas formas de brincar. Finalmente podemos realizar inúmeras propostas que podem se derivar do jogo como eixo condutor. Um eixo no qual tem a criança como representante primordial, e consequentemente um elemento motivador para nossos alunos e para o professor como meio ou recurso para o trabalho docente nas mais diferentes áreas do conhecimento, os mais diferentes objetivos e conteúdos orientados há uma verdadeira educação intercultural. Sou consciente de que não é somente a cultura lúdica a responsável em conseguir os objetivos citados. Porém já é um bom começo! A partir do bincar podemos analisar de forma interdisciplinar, outros conteúdos comuns a todas as culturas: a música, a alimentação, a arte, a religiosidade, as formas de vida etc. Cada escola pode iniciar com os seus alunos e alunas, um pequeno trabalho de investigação de jogos que sirva como ponto de partida para encontrar aspectos comuns e diferentes entre os jogos praticados pelas crianças em função de suas respectivas origens. O professor pode estudar também alguns jogos de outras culturas não existentes no grupo de aula. Descobriremos jogos e brinquedos com diferentes nomes, podemos aprender algumas formas de escolha nas diferentes línguas, as próprias crianças podem ser os responsáveis de ensinar o jogo a outras crianças e colocar em prática etc. Porém podemos ir um pouco mais longe, depois de escolhidos e investigados os jogos e brinquedos, podemos planejar uma CIRANDA DE JOGOS E BRINQUEDOS DO MUNDO, onde os próprios alunos pesquisadores serão os organizadores e multiplicadores. Organizando os espaços, selecionando os jogos e brinquedos e estabelecendo um sistema de rodízio (com se fosse uma ciranda) onde todos os outros colegas da escola irão passar. Vou relacionar abaixo outras sugestões que podem ser desenvolvidas para facilitar este intercâmbio nas aulas dentro da escola. • • • • • • • •

Criar um museu do brinquedo tradicional e popular; Danças, rondas e cirandas do mundo; Aulas abertas com a participação dos pais; Desenvolvimento de atividades lúdicas não-sexistas; Criação de brincadeiras, jogos e brinquedos não belicosos; Brincar com à natureza. Jogomóvel Dia do brincar

Em fim, estas são algumas propostas não tão difíceis de por em prática com um pouco de ajuda por parte de todos, porem não são as únicas. O jogo e o brinquedo é uma fonte inesgotável de recursos pra abordar um projeto mais global de educação intercultural e deve ser o próprio educador e/ou educadora o encarregado de descobrir quais são as alternativas que mais se adaptam as características de sua escola ou comunidade. Os jogos e brinquedos são criações de uma cultura e fruto de uma história. Sabemos que é fundamental e urgente viver o presente, preparando o futuro e sempre respeitando nossas tradições. SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, M. T. P. Atividades lúdicas: jogos para animação de grupos. Petrópolis-RJ: Editora Vozes, (no prelo). ___. Jogos, quebra-cabeças, enigmas e adivinhações. Petrópolis-RJ: Editora Vozes, (no prelo). ___. Brincando com palitos e adivinhações. Petrópolis-RJ: Editora Vozes, (no prelo).


Marcos Teodorico Pinheiro de Almeida ___ (2005). O brincar na educação infantil.Revista Educação, n° 2 Ano 2. Fortaleza, CE: Tropical, pp. 34 – 36. ___ (2004). Jogos divertidos e brinquedos criativos. Petrópolis-RJ: Vozes. ___ (2004). Los juegos cooperativos em la educación física: una propuesta lúdica para la paz. In: Juegos Cooperativos. Tándem. Didáctica de la Educación Física, nº 14 Ano 4. Barcelona-ES: GRAÓ, pp. 21-31. ___ (2003). Jogos cooperativos na Educação Física: uma proposta lúdica para a paz. Actas del III CONGRESO ESTATAL Y I IBEROAMERICANO DE ACTIVIDADES FÍSICAS COOPERATIVAS – Ampliando horizontes a la cooperación. Comunicaciones, 1ª edición. Gijón (asturias) – Espanha: La Peonza Publicaciones, Junho. ___(2000). Os Jogos tradicionais Infantis em Brinquedotecas Cubanas e Brasileiros. São Paulo: Universidade de São Paulo - USP/PROLAM, 2000. (Dissertação de Mestrado) ___(1997). Brinquedoteca e a importância de um espaço estruturado para o brincar. In: MARLI, Santa. Brinquedoteca: O Lúdico em diferentes contextos. Petrópolis - RJ: Editora Vozes, pp. 132 –140 Meu contato para compartilhar experiências e informações: E-mail 1: marcosteodorico5@hotmail.com E-mail 2: marcosteodorico@hotmail.es E-mail 3: mtpa@ufc.br Universidade Federal do Ceará-UFC Faculdade de Educação-FACED Curso de Educação Física www.faced.ufc.br

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FOTOS DE JOGOS ANTIGOS: ACERVO PESSOAL DE MINHA PESQUISA DE DOUTORADO


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SERPENTE SENET SEEGA SADURANGAM RIMAU PENTALGA/PENTAGRAMA PARCHIS/LUDO REAL MUTORERE MOLINO/TRILHA/MOINHO UR – REAL TORRE ELE CANDIDATO XADREZ/AJEDREZ TSUPU TRÊS EM RAIA/TIC-TAC-TOE


Marcos Teodorico Pinheiro de Almeida FOTOS DO ACERVO DO PROFESSOR MARCOS TEODORICO DA PESQUISA DE DOUTORADO REALIZADA NA UNIVERSIDADE DE BARCELONA - UB - ESPANHA- BARCELONA FOTOS TIRADAS NO DIA 19/05/2006 NA ESCOLA PAU CASALS EM BARCELONA EVENTO : DÍA DEL JUEGO Y JUGUETE


O brincar e a cultura lúdica: um desafio na escola