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Diversão&arte

• Brasília, domingo, 15 de julho de 2012 •

CORREIO BRAZILIENSE • 5

Recado

DICASDEPORTUGUÊS

“Adquirir sabedoria é melhor que adquirir ouro.” PROVÉRBIO POPULAR

por Dad Squarisi >> dadsquarisi.df@dabr.com.br

Mila Petrillo/CB/Reprodução/D.A Press - 01/01/00

20 bombons.Vende-se um apartamento contendo quatro suítes e duas garagens. Recebi a pasta contendo as certidões solicitadas. Enviei emails contendo dados sobre o concurso. Xô, intruso! Vem, dona da casa: Comprei uma caixa com 20 bombons.Vende-se um apartamento com quatro suítes e duas garagens. Recebi a pasta com as certidões solicitadas. Enviei e-mails com dados sobre o concurso.

Gerúndios chicletes? Xô! Mudar é bom? Os mesmeiros dizem que não. Preferem deixar tudo como está pra ver como é que fica. Os adeptos da transformação inspiram-se na natureza. Citam o suceder do dia e da noite, das estações do ano, das fases da Lua. Citam, também, o ciclo da vida humana — nascemos, crescemos, morremos. A língua joga no time dos mutantes. Instrumento de comunicação das pessoas, muda conforme mudam os tempos e os falantes. Concordâncias, regências, colocações, significados, grafias trocam o passo conforme a música. A reforma ortográfica serve de exemplo recente. Mas há os abusos. É o caso dos modismos. Por influência sobretudo dos meios de comunicação, certos usos se intensificam em determinado momento. Mas passam. Lembrase do a nível de? Nos 15 minutos de glória, o trio virou praga. Depois, bateu asas e sumiu. Já foi tarde. Vedetes da vez? São dois gerúndios. Um deles: envolvendo. O outro: contendo. Há um terceiro que caminha rumo à extinção. É o tal vou estar fazendo & cia. Xô!

Envolvendo Jornal, rádio e tevê maltratam o verbo envolver. Se o assunto for acidente, não dá outra. Lá está ele. “Apesar das boas condições da pista, carreta quebrada provoca sequência de colisões envolvendo seis caminhões e quatro carros” , escreveu o Correio Braziliense. “Acidente envolvendo ônibus e moto deixa dois mortos”, anunciou a CBN. “Batida envolvendo dois carros de luxo provocou congestionamento na Avenida Paulista”, noticiou o telejornal. Valha-nos, Deus! O pobre trissílabo, além de praga, virou usurpador. Rouba o lugar da preposição entre. Veja: Apesar das

Vou estar mandando A coisa começou nos telemarketings. Atrevida, ganhou asas. E adeptos. Estudantes, secretários, advogados entraram no time do vou estar mandando, vou estar providenciando, vou estar podendo fazer & cia. irritante. Se você entrou nesse time, só tem uma saída: usar as formas portuguesas de indicar o futuro: vou mandar ou mandarei, vou providenciar ou providenciarei, vou poder fazer ou poderei fazer. Olho vivo, marinheiro de poucas viagens. O futuro composto se forma do presente do verbo ir + particípio do verbo (vou contar, vou fazer, vou trabalhar). Não caia na esparrela de trocar o presente pelo futuro (irei contar, irei fazer, irei trabalhar).

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LEITOR PERGUNTA boas condições da pista, carreta quebrada provoca sequência de colisões entre seis caminhões e quatro carros. Acidente entre ônibus e moto deixa dois mortos. Batida entre dois carros de luxo provocou congestionamento na Avenida Paulista.

Contendo “Fujo do gerúndio como o diabo da cruz”, costumava repetir Graciliano Ramos. O autor de Vidas secas tinha razão. A forma nominal parece chiclete. Aceita mordidas, sopros, puxadas, colas, carícias. Resultado: perde precisão. Não raro pisa a norma culta. Descompromissada, não está nem aí pro emprego das classes gramaticais. Uma das vítimas é a preposição com. Ganha um bombom Godiva quem não tiver lido frases como estas: Comprei uma caixa contendo

As Celebrações de Inverno é o maior evento do estado? As Celebrações de Inverno são o maior evento do estado? A concordância do verbo ser me rouba o chão. Pode me ajudar? Khennya Raquel, lugar incerto

Eta verbinho flexível. Ser, em geral, pode concordar com o sujeito ou o predicativo. Em “tudo é flores”, concorda com o sujeito (tudo). Em “tudo são flores”, com o predicativo (flores). Mas o pequenino tem preferências. Uma delas: o plural ganha do singular. Outra: o concreto vence o abstrato. Ambas as preferências se encaixam na sua frase. O sujeito é plural (celebrações). Celebrações de Inverno é mais concreto que evento. Fique com As Celebrações de Inverno são o maior evento do estado.

LANÇAMENTO / Autor goiano publica ensaios que investigam as questões filosóficas por trás da obra de Renato Russo e sua turma Mila Petrillo/CB/D.A Press - 20/12/86

Referências

Asvárias estações daLegião

Algumas questões percebidas por Marcos Carvalho Lopes em canções da Legião Urbana:

Renato Manfredini Júnior teria se inspirado em Rousseau e Bertrand Russell para escolher o “sobrenome” Russo

Eduardo e Mônica » A canção inverte um paradigma social, os papéis tradicionais da mulher e do homem, colocando este como o dominado. Faroeste caboclo » O personagem João de Santo Cristo remete ao mito do “bom selvagem”, que diz que “o homem nasce bom e a sociedade o corrompe”. Essa temática também está presente em Índios. A montanha mágica » De clima medieval, tem o

mesmo nome do livro de Thomas Mann, em que a busca pelo autoconhecimento passa pelo uso de drogas. Pode ser vista como a experiência de Russo com a heroína, uma “especiaria”. O teatro dos vampiros » Crítica à televisão e à alienação, aborda o vazio do mundo consumista, que vive de aparências, e as competições em uma sociedade capitalista.

Mírian Carvalho Lopes/Divulgação

» GABRIEL DE SÁ

Vivo e escondido

M

» PEDRO BRANDT

tras/ o das Le Mercad Editora ução Reprod

Atualmente, Marcos Carvalho Lopes é doutorando em filosofia pela UFRJ

CANÇÃO, ESTÉTICA E POLÍTICA —ENSAIOS LEGIONÁRIOS

Foi Rousseau, inclusive, que, ao lado do britânico Bertrand Russell, teria inspirado o sobrenome escolhido pelo jovem Renato Manfredini Júnior: Russo. O livro pode ser visto como uma biografia idealizada deste personagem criado pelo compositor, a partir do momento em que se assume assim. “Para se inventar, você constrói uma obra. Renato dizia que sua vida não era importante, o que havia de importante estava em

sua obra”, relata o autor. A publicação mergulha pelos álbuns da Legião Urbana, buscando perceber a relação deles com seu tempo, destacando algumas canções e o interdiscurso presente nelas. A filosofia, aqui, foge um pouco das questões epistemológicas e busca se aproximar de uma abordagem mais pragmática. “A tarefa é tentar traduzir nosso tempo em pensamento. Para isso, os produtos culturais, que são signos de nosso tempo, devem ser investigados”, explica Marcos. Há, no livro, uma tese central que aponta para o conceito de

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De Marcos Carvalho Lopes. Mercado de Letras, 176 páginas. R$ 68.

utopia lírica, termo cunhado pelo filósofo Renato Janine Ribeiro para falar da anulação do “eu”. As canções de Russo estariam permeadas pela visão de que o indivíduo não é importante, e sim a coletividade. Isso tem muito a ver com o sentimento de nação unida que aflorava na abertura política dos anos 1980, pós-ditadura militar.

www.correiobraziliense.com.br

Leia trechos do livro de Marcos Carvalho e entrevista com Walter Coe.

Jornalista cearense morando em San Francisco, Estados Unidos, Walter Coe, 48 anos, viu uma pessoa bastante familiar certa vez no metrô local. “O sujeito era muito parecido com o Renato Russo. Pensei em falar com ele, mas fiquei sem jeito. Desci já imaginando essa história: um jornalista brasileiro chega à cidade e alguém lhe diz que o Renato está vivo e morando aqui.” O que foi escondido é o primeiro romance do autor e, por enquanto, só pode ser adquirido em versão digital. “Enviei os costumeiros primeiros capítulos para três editoras no Brasil e nunca recebi resposta. Sei que à distância as coisas ficam mais difíceis. Ninguém te conhece. Você é um email entre vários pedindo um pouco mais de atenção”, comenta. O autor salienta que o livro não é sobre Russo, mas sobre a cidade californiana — onde o cantor brasileiro passou algum tempo no fim do anos 1980. A ideia do romance, conta Coe, era escrever uma história de detetive com jeito de diário de viagem dos anos 1970. “Uma espécie de guia de sobrevivência do mochileiro roqueiro, em capítulos curtos, que você pode levar e ler na praia. Queria homenagear San Francisco, essa cidade que adora inventar moda — no bom sentido. Beatniks, hippies, boa parte dos movimentos de contracultura saíram daqui.”

ulgação Coe/ Div Walter

arcos Carvalho Lopes, 31 anos, era professor de filosofia em escolas estaduais de sua cidade natal, Jataí (GO), quando decidiu, no começo dos anos 2000, se utilizar de letras de canções da Legião Urbana para despertar em seus alunos interesse pela disciplina. Fã da banda desde meados da década anterior, o jovem não era do tipo que ia a shows, mas se impressionava com as ideias que embasavam os escritos de Renato Russo. Os estudos informais foram ganhando consistência e Marcos decidiu colocá-los no papel. Entre 2001 e 2007, dedicou-se a escrever Canção, estética e política — Ensaios legionários, que chega agora às lojas, pelo Mercado de Letras. Um dos primeiros estalos de que a obra da Legião poderia manter um diálogo com questões filosóficas veio com a cançãoSefiqueiesperandomeuamor passar, do álbum As quatro estações (1989). “Ela mistura a descrição de uma relação afetiva idealizada com um canto do catecismo católico. Para mim, como adolescente, essa junção satisfazia certa busca platônica que nessa fase da vida se torna muito chamativa. Como diria Nietzsche, o cristianismo seria um platonismo para massas”, detalha Marcos. Já no início da letra de Sereníssima, (“Sou um animal sentimental/ Me apego facilmente ao que desperta meu desejo”), o estudioso percebeu uma alusão ao filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau, que descreveu o homem desta forma.

O QUE FOI ESCONDIDO De Walter Coe. Livro digital, 132 páginas. À venda em www.amazon.com. US$ 2,99.

Walter Coe não encontrou em San Francisco ninguém que tivesse conhecido Renato Russo. “Mas o interessante era imaginar o que ele andaria fazendo por aqui, agora já cinquentão, se estivesse vivo. É uma maneira de revisitar esses clichês do rock. Se vale dizer que Elvis segue vivo, por que não o Renato?” O que foi escondido tem também uma versão em inglês, batizada de Ain’t Miss Beehive. Nela, no entanto, o jornalista-protagonista está em busca de AmyWinehouse. A história é basicamente a mesma, mas com outro desfecho. “A Amy nunca viveu em San Francisco, só cantou aqui uma única vez, em abril de 2007. Ainda era relativamente desconhecida. Nenhuma das pessoas que conheço se lembra desse show. Há vídeos noYouTube. Mas posso garantir que, se estivesse hoje em San Francisco, poderia passar despercebida.”


as varias estaçõesda Legião