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RADARES GAYS Procurando o quê?


Marcos Fernandes

RADARES GAYS Procurando o quĂŞ?

Orientado por Bruno Souza Leal


Dedico esta obra aos donos dos nicks aqui presentes, que se dispuseram a me contar suas histórias. Dedico, também, aos amigos que tornaram este livro possível através de ajudas insubstituíveis: André, Diego, Luís e Fabiana.


Índice Prólogo.................................................................... 9 Parte 1 O baile de máscaras................................................ 17 Mãe, tô no Hornet!.................................................. 37 Caçando homens... ou quase isso......................... 59 Parte 2 Like a virgin................................................................... 66 Jogo de azar................................................................. 91 Um relato bêbado..................................................... 123 Parte 3 A hora do encontro... ................................................... 138 ... é também de despedida........................................... 158 Epílogo – A indústria de autores.................................. 168


Prólogo

“A cada resposta minha, você tira uma peça de roupa”. Foi com esse ultimato que me defrontei numa das

primeiras

tentativas

de

entrevistar

pelo

computador um usuário de chat gay de Belo Horizonte – o que poderia significar algo positivo, do ponto de vista de uma experiência jornalística complexa, ou não, se eu estivesse (como eu de fato estava) ainda resistente a ser tão agredido pela obra que havia me proposto a escrever. Sendo eu mesmo outrora frequentador do site, exposição pela webcam não seria novidade, mas a situação, agora, era outra: colocava-me frente a uma balança em que os pesos seriam as minhas futuras palavras e a ausência e qualidade delas.

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“Eu não tenho tantas peças de roupa”, respondi, num tom impaciente e comedido. “Ótimo. Assim você tira o leite também”. “E eu ganho o quê? Uma entrevista de um dia?” “Sim”. Após uma conversa contundente (em que descobri que L. tinha 22 anos, estava na segunda graduação, havia escrito uma revista digital aos 17 com amigos que conheceu no Orkut, usava chat mais para se masturbar através de nudez virtual mútua e traíra a namorada com seu primeiro parceiro de mesmo sexo há quase um ano), acabei por recusar o striptease e fui bloqueado pelo possível entrevistado. O bloqueio era uma arma letal que matava minhas esperanças de conversa sem piedade alguma. Nem

todos

os

casos,

por

outro

lado,

trouxeram-me tantas desavenças e me puseram em

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posições tão peculiares como esta. MorenoVNé um exemplo dessas outras histórias – as amigáveis, como eu as defini. Eu o conheci quando a produção deste livro nem

sequer

passava

pela

minha

cabeça.

As

primeiras visitas ao Bate-Papo UOL, até então infrutíferas, serviram para consolidar uma imagem depreciativa

do

site,

quebrada

apenas

pela

oficialização do que devia ter sido um encontro (sério) entre nós dois. Em respeito à minha cartilha de desastres pessoais,

uma

sequência

de

adversidades

se

desencadeou no dia marcado. Pensando agora, a perda de um ônibus no momento da chegada ao ponto, o início de uma chuva tempestiva vinda do absoluto nada e o trânsito muito, muito engarrafado talvez tenham sido um acréscimo àquela experiência inédita de conhecer um estranho da internet, catalisadora de nervosismo por si só.

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Apesar

das

desavenças

com

o

destino,

cheguei a tempo. Vê-lo mostrou-se uma revelação de como as coisas funcionam nesse meio. Nunca tínhamos conversado sobre atribuições físicas como tamanho ou peso; tudo o que imaginei a respeito vinha de suposições por associação à suas fotos de rosto. Ele devia ter uns 80 quilos, mas era bem mais alto do que minhas amostras mentais poderiam supor (em torno de 1,80 metro). Era apenas um detalhe. Suponho, aliás, que sua altura deveria ter me impressionado ao invés de causado o leve incômodo que senti, mas o contexto em que estávamos facilitava esse jogo instável entre nossas expectativas e as coisas de fato. Um jogo que as “coisas de fato” tendiam a vencer com grande vantagem. “Você é alto”, foram as primeiras palavras que

me

lembro

de

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ter

dito,

tímida

e


abobalhadamente, olhando de baixo para cima em direção a uma face sorridente. “Eu nunca disse que não era”, ele respondeu, e era verdade. Não uma verdade dele, nem uma verdade que se limitava a nossa situação interna e específica; era uma verdade que pertencia aos usuários de salas de bate-papo: as coisas poderiam ser ditas, como poderiam não ser lembradas, ou ditas de uma forma que não reproduzisse os fatos de maneira exata. As coisas poderiam ser assim. E poderiam ser de outra forma. A questão que para mim mais legitima isso que digo é que nos chats tudo é tentativa de conseguir algo – uma conversa, uma transa, um namoro de tarde na rede. O fato de você estar ali, numa noite de terça após a novela e uma boa ducha quente, diz que você quer qualquer coisa; qualquer coisa mesmo, nem que seja apenas espiar conversas alheias, rir dos nicks que às vezes são de uma criatividade espantosa ou mesmo estar à deriva.

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Ficar online no chat é estar sujeito a. Sublinho: conscientemente

estar

sujeito

a.

Depois

desse

primeiro passo você pode abordar ou ser abordado e decidir o rumo de uma porção de situações hipotéticas: limitadas.

as

possibilidades

Participar

de

são

bate-papos

infinitas.

E

online

é,

também, saber lidar com esse pomar vistoso que pode secar a qualquer momento. Aquilo que eu e MorenoVN plantamos, juntos, e vimos crescer no decorrer de algumas semaninhas de um namoro virtual simpático e calejado de ambos os lados mostrou-se esperto e resistente ao receber

a

lâmina

afiada

da

constatação

que

mastigamos silenciosamente em nosso primeiro encontro: nada além de uma amizade desconjuntada sairia dali. O motivo até hoje nenhum dos dois sabe – e a vontade de conhecê-lo apagou-se com a mesma velocidade

com

que

nos

colegas.

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aprofundamos

como


Foi por isso que o escolhi para fazer parte dessa história, que muito tem de mim. E assumir isto, aqui, agora (reconhecer que a seleção desta fonte foi absolutamente contaminada por um desejo pessoal que não deixa de forma alguma de ser profundamente jornalístico, uma vez que não carece do mesmo interesse e cuidado que eu teria com qualquer outro entrevistado, muito pelo contrário) é uma etapa importantíssima de meu trabalho. O jornalismo, afinal, não é muito diferente de uma sala de bate-papo: as coisas serão postas da forma como o usuário X, dotado da oportunidade da fala, e inserido num contexto, decidir colocá-las. Haverá uma seleção e edição de fatos, lembranças, conversas, tudo na intenção de convencer. De construir um mundo e oferecê-lo a um outro. E nesta imensa sala chamada mídia eu pretendo ser o mais autêntico possível. Com o risco, é claro, de não conseguir nada com isso: todo bom

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usuário de chat sabe que uma mentirinha aqui e acolá, se bem compensada na interação face a face, sempre ajuda. É claro que a minha verdade é também uma fantasia e os dados que escolherei publicar podem não representar a realidade que todos gostariam de ler; entretanto, como disse e ressalto, é tudo, tudo mera tentativa. E isto aqui sou apenas eu tentando.

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Parte 1 O baile de máscaras 1

São vinte e uma horas e trinta minutos. Os homens estão exaltados. Todos falam ao mesmo tempo. A abordagem poderia vir de qualquer canto, do ponto onde ele estava e, quando por fim ocorreu, o outro precisou erguer a voz um pouco para ser ouvido no meio de dois sujeitos que tagarelavam sem parar. “Opa! Beleza?”, disse. Parecia estar na casa dos trinta. “Oi, beleza, e você?”, respondeu. “Joia! Tenho 35 anos, e você?”

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“Vinte esperando

e

dois!”

uma

Parou

reação.

um

Depois

momento, continuou:

“Procurando o quê?” “Pô, curto deixar o cara me lamber e me mamar. Tenho namorada, saca?” “Hm. Você é bi, então?” “Sim, cara! Curto mais mulher, mas às vezes gosto de um corpo de macho” “E você só procura caras por aqui?” “Sim e você?” Silêncio. “Não muitos por aqui.” “Você frequenta o meio?” “Não muito também.” “Bacana!” “Tua namorada tem a sua idade?” “Vinte e nove, por quê?” “Curiosidade! Quer sair daqui? Podemos ir ao Skype”

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“Sim, claro, anota aí!”

A simpática conversa acima, ocorrida na sala Sexo – Gays do Bate-Papo UOL, foi fruto de uma das minhas

primeiras

incursões

com

um

olhar

jornalístico no site. Houve uma adaptação, é claro, não só em termos de eufemismo (expressões como “cu”, “pau meladão”, “rabo” e “buceta” fazem parte da constelação real de onde o extrato menor saiu) como

numa

tentativa

de

reprodução

de

um

ambiente mais amistoso – de bar, talvez. Os chats têm suas particularidades – às vezes extravagantes demais para alguns –, mas não são muito diferentes de qualquer outro espaço de convivência e socialização. É por isso que pode parecer estranho ouvir de um usuário a questão “Você frequenta o meio?”, para se referir a locais dirigidos ao público LGBT, quando na verdade uma sala do UOL pode ser exatamente isso.

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Uma

das

características

mais

brilhantes

desses ambientes, entretanto, que não figura em outros, mais comuns, é a forma como as pessoas se expõem

e

usam

de

diversos

artifícios

como

chamativos. É claro que mesmo um perfume que você utiliza, ou um brinco, ou aquela camisa comprada em tal loja específica são utensílios que podem ser entendidos, em certos casos, como ferramentas para atrair e tentar arranjar um parceiro ou parceira na noite. Mas para que numa boate, por exemplo, a situação ficasse similar à dos chats, seria preciso que as pessoas andassem com pequenos outdoors, contendo informações pessoais, pendurados nos pescoços. Ou que pelo menos elas levantassem uma plaquinha com seus desejos para a madrugada em cada nova conversa.

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–Salveeeeee, galera, volteiiiiiii! Depois de anos ausente, tô na pista pra negócios rsrsrsrs. Bom, agora tô com 34 anos, branco, 1,75 metro, 60 kg, cabelo e olhos castanhos claros, poucos pelos no corpo, jeitão

de

macho

mesmo,

voz

bem

grossona, totalmente fora do meio, ok? Para tristeza de muitos, e alegria de pouquíssimos, sou somente passivo!

– Tenha um PÊNIS BEEEEEM GRANDE!

ALGUÉM

DE

CARRO

A

FIM

DE

MAMAR?

– Algum homem sem preconceito? Sou deficiente

físico

(explico

o

tipo

de

deficiência no Skype). Tenho 20 anos,

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1,70 metro, magro, bonito, sem vícios. Busco um homem pra namoro discreto. Sou passivo (que fique claro que busco o homem,

não

o p... dele). Não

sou

afeminado e não curto afeminado, não frequento lugares GLS e sou discreto. Se gostar, adiciona meu Skype...

– CASADO A FIM DE DAR AGORA PRA MACHO, 1,80 METRO, 80KG, CLARO, 34 ANOS

– Minha esposa e uma travesti mega rabuda - vídeos reais em um motel de SP - veja tudo em: MEIANOVE.COM

– VOCÊ JÁ PENSOU EM SERVIR A DEUS MESMO SENDO GAY? SOMOS A 1ª IGREJA BATISTA INCLUSIVA DO BRASIL. ENTENDEMOS QUE O AMOR DE DEUS Ñ EXCLUI AS PESSOAS, MAS INCLUI A

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TODOS EM SEU REINO PELO SEU AMOR. E FOI PELO SEU AMOR QUE ELE TE CRIOU COM A SUA NATUREZA SEXUAL. CURTA NOSSA PÁGINA PARA NOS CONHECER MELHOR

– OLÁ, BOA NOITE, ALGUM RAPAZ COM ATE

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ANOS

QUE

NÃO

TENHA

PRECONCEITO E QUE QUEIRA ALGO SÉRIO?

TENHO

DISCRETO,

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SINCERO,

ANOS,

SÉRIO,

ATENCIOSO,

CARINHOSO!!!! ALGUÉM?

Um grande quadro de anúncios. É assim que eu definiria a maior parte dos chats destinados a relacionamentos (gays ou não). Tudo indica um desejo a ser realizado – o recorte da foto, a escolha de signos para o nick, ou mesmo a promoção de si mesmo em um parágrafo relativamente grande e

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decididamente expositivo. O chat UOL, em especial, como

exemplificado

acima,

tem

os

melhores

publicitários do ramo. No meio dessa enxurrada surgia o meu espaço de apuração. Naquela época eu imaginava que havia tanta chance de o trabalho dar certo quanto de dar errado – e o controle disso passava longe das minhas mãos. Eu não me sentia um escolhido do jornalismo que tivesse o dom de retirar das fontes aquilo que de mais essencial meu texto teria e, além de MorenoVN e poucos outros colegas com os quais eu poderia contar, não tinha muita noção

de

como

abordar

ou

angariar

mais

entrevistados para o projeto. De novo a experiência de usuário falava em minha mente: eles são ariscos. É preciso ter cuidado. Delicadeza. Demonstrar confiança e firmeza. Uma fórmula de trabalho investigativo muito seguida e que não deveria fugir à regra.

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Meu primeiro erro foi tentar estabelecer um método preciso. Não demorou para que minhas pernas se embaraçassem e que eu me encontrasse caído em meio aos usuários que se negavam, ou topavam e depois recuavam, ou aceitavam mas não tinham muito a oferecer. O chat é um organismo no qual

eu

tinha

que

mergulhar

caso

quisesse

encontrar algo. E me deixar ser atingido por ele, sem dúvidas. Foi isso que aprendi.

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O que chamo de chat aqui se refere às inúmeras plataformas usadas para se conectar online no intuito de conversar com outros usuários, geralmente destinadas à produção de relações como novas amizades, namoros, sexo ou casamento. Isso inclui uma extensa lista de ferramentas, mas me limitei a comentar seis, de onde surgiram as

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experiências que compõem este livro. São elas: o Bate-Papo UOL (www.batepapo.uol.com.br), o site Manhunt (www.manhunt.net) e os aplicativos para smartphone Grindr, Scruff e Hornet. O Bate-Papo UOL é um serviço gratuito, fácil e rápido, que existe desde 1996 e oferece cerca de 7800 salas. Qualquer um conectado à internet pode acessar a página principal e descobrir dezenas de espaços temáticos para todos os gostos. Algumas, óbvio, lotam mais que outras: já vi gente migrando de um chat sobre Sexo para um sobre Artes plásticas porque, assim disseram, queriam ficar à sós (eu conferi e, de fato, além desse tema, Cinema, Música e Teatro são áreas que não atraem muito pelo nome e podem servir como um escurinho para quem quer conversar sem a bagunça dos chats abarrotados). As salas voltadas para o público gay, em geral, não ficam vazias. Na posse de um nick e certa dose de esperança, transitei, durante um mês, em

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dezembro de 2013 (além de visitas aleatórias), pelos cômodos do Sexo Gay – BH, Imagens Gays, Namoro gay e Sexo bi. Tentei a sorte, por pouco tempo, nas salas de Sexo (sem especificidades) e Fetiche (idem), mas não tive o mesmo retorno que nas anteriores. Como

qualquer

praticidade sem

custos,

serviço

que

ofereça

o

tem

as suas

UOL

dificuldades pela alta demanda. Há um limite de 40 usuários por sala (quem chega atrasado fica na fila, provavelmente pressionando o F5 do teclado, e aguarda sua vez). Lá dentro, claro, encontra-se certo caos. O famigerado

anonimato

virtual

ganha

vida

em

diversas formas, mas é quase raro ver alguém de fato deturpando a ordem do lugar. Há um respeito pelo que cada um tem a dizer – e quem incomodar demais pode ser bloqueado a qualquer momento. Certos usuários afirmam que há diferenças notáveis entre as salas Sexo e Namoro. Claro que é

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sempre difícil e quase nunca produtivo partir para preceitos morais onde o Amor lê um livro em silêncio no quarto enquanto Sexo joga futebol no quintal e acredito que não seja desta separação (entre físico e emocional, carnal e sentimental) que eles falam. Duas das muitas facetas que encontrei nos chats são as do gay voraz e esporádico (o cara que pega todos e nunca se apega a ninguém) e, na outra ponta, os homens que não se interessam por um modo de vida onde a caça é interminável e dá gosto às relações e preferem encontrar alguém fixo para dividir os lençóis. Essa separação, entretanto, não parece se cristalizar tão fácil temáticas

para

como em

conversas.

duas divisórias

Não

porque

interessados em sexo rápido (românticos, também, por que não?) podem dar um olá (repito: basta um nick e um clique) em salas destinadas a “namoro”,

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assim como sujeitos mais comprometidos com uma ideia a dois visitam com frequência salas de “sexo”. Mas também, e principalmente, porque é quase injusto estabelecer exigências, sexuais ou sentimentais, dentro de um contexto tão abstrato. Dois parceiros de transa podem se casar e dois usuários “sérios” podem não se ligar após a primeira noite – e serem surpreendidos pelo que não estava no contrato inicial assinado através das telas dos computadores.

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Usuário antigo e atual repórter imerso nesse universo, sinto como se no chat UOL os homens se reconhecessem. Entra em jogo a lógica dos nicks, que aqui tem vital importância. Como não podem se ver, os participantes se guiam pelas palavras; são quase cegos tateando um português de rosto meio

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torto, meio machucado (esburacado, talvez, pela pressa), na busca por encontrar um vestígio que desperte ou não interesse. E

pode

ocorrer

uma

sensação

de

familiaridade tanto pelas características resumidas em siglas e gírias como “ATV” (ativo), “PASS” (passivo), “VERS” (versátil), “Maduro” (cara mais velho), “Novinho” (mais novo), “Urso” (sujeitos mais gordinhos e peludos) etc., como pelo jeito de digitar (com ou sem erros gramaticais, com ou sem abreviações, formal ou informal). São regras de sedução adaptadas e mesmo aperfeiçoadas (sabe-se, mesmo antes de conversar, as preferências do outro) para e por uma plataforma. Poucos espaços proporcionam a sensação de espiar por trás de uma fechadura ou de um buraco no muro do vizinho como estar online nos chats. E tudo começa nos nicks. Você pode usar um apelido absolutamente neutro como Abs_Neutro e, ainda

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assim, ver dezenas de pessoas expondo o mais fundo de seus desejos a um bando de estranhos. Gratuitamente. Porque, ao contrário de Abs_Neutro, existem aqueles que não têm pudor em revelar uma parte de si (às vezes uma parte que poucos teriam coragem de assumir) na esperança de encontrar um parceiro para dividir aquela mesma característica na cama ou onde quer que seja. Encontrei tipos que se encaixavam na linha de Bridget Jones em busca da verdadeira paixão (“Quero ser feliz!” e “TeDouCasa&Amor”), os que queriam

um

sexo

específico

(“MagreloSubms”,

“Escravo”, “me chupar sion BH”, “Militar Passivo” e “Quero picão”), os decididos a terem uma relação realista

de

companheirismo

(“zs

serio”

e

“hivserioatkervc”), os super bem resolvidos quanto à autoestima

(“Tiago

pauzudo”,

d++++++++++++”) e muitos, muitos outros.

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“gato


Claro que nem sempre dá para confiar na promessa de um nick. PRADOSERIOC/L35, por exemplo, foi uma quebra de contrato para mim. Seu apelido diz mais ou menos o seguinte: homem no bairro Prado, com propensão a relacionamento sério, tem 35 anos e local. É que os dados “Sério” e “Local” em geral não andam juntos no mesmo apelido, uma vez que caras “Sérios” não oferecem “Local” – entende-se “lugar para sexo imediato” – assim de cara. Podia ser que ele fosse mais complexo (e as pessoas são) que o conjuntinho de palavras escolhido para a noite. Mas a conversa que se seguiu me mostrou que ele estava longe de agir como outros sujeitos com a proposta “séria” que conheci. “A fim de vir aqui agora? Tem quanto de pica?”, foram as perguntas que recebi, ao invés de “Então, o que você gosta de fazer nos fins de semana?”. Mas é claro que a abertura para criar

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quantos e qualquer nick que se queira faz com que tentar adivinhar quem está por trás desses apelidos seja uma tarefa mais árdua do que somente visualizar e interpretar. Muitas vezes,Quero_Pau_Agora é, na verdade, um rapaz mais interessado num namoro que em sexo instantâneo – e Júlio_Sério só descobriria isso se puxasse assunto ou se fosse simpático em responder uma mensagem do dito. No Bate-Papo UOL, saber as regras do diálogo acaba sendo tão importante quanto ser claro e objetivo no nick.

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“Oi!” “Oi! Tudo bom?” “Tranquilo! E você?” “Joia.” “Procurando o quê?”

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“Tô aqui fazendo um trabalho pra faculdade. É sobre chat. Quer participar?” “... ok” “Desde quando você usa o chat?” “Não muito tempo, deve ter uns três meses.” “Hm. Com que finalidade?” “Buscando relacionamento.” “E por que não usava antes?” “Porque eu tinha um relacionamento...” “É assumido? Tem quantos anos?” “Sim. Vinte e nove!” (...) “Você se importa se a gente conversar sobre a escolha de seu nick?”

GatoSoroPositivo+sai da sala...

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Há histórias que eu gostaria de contar. São de gente que sentimos no paladar serem saborosas – mesmo de longe, à distância, escondidas atrás de um apelido virtual. O caso acima foi um desses. Encontrei outros soropositivos

no

Bate-Papo

UOL,

que

se

identificavam assim no nick, mas nunca, muito provavelmente por falta de tato na abordagem, consegui conversar a fundo com um deles. Tive que me contentar com minhas suspeitas de que eles se expunham, em primeiro lugar, porque queriam ser honestos e que, em segundo lugar, desejavam, através da sinceridade, encontrar alguém disposto a entrar numa relação sem preconceitos e sobretudo sem sustos posteriores. Diversas outras personagens me escaparam por entre os dedos por causa de uma pergunta fora de hora ou por puro desinteresse em contribuir para

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o meu projeto. Cada uma delas me faz falta de formas diferentes, que eu sinto no momento em que preciso de uma ligação no fluxo da narrativa. Cada uma delas faz falta como uma parte incompleta desse trabalho.

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Mãe, tô no Hornet! 1

“Eu falo que tem cinco perguntas básicas, né?

a) Você é de onde? b) Curte o quê? c) Procurando o quê? d) Tem local? e) Idade?

Sempre tem essas, e aí a gente fica mesmo é se mordendo pra perguntar logo „procurando o quê?‟ e „curte o quê?‟.”

O imaginário da caça, da busca irrefreável e da sede insaciável por sexo e inúmeros parceiros

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que cerca o universo gay talvez tenha ganhado outras tonalidades (certamente produziu milhões de novas histórias, incluindo a de P_27, dono da fala acima, que aparece mais à frente) com a chegada dos smartphones e seus aplicativos com GPS, foto e mensagens instantâneas. Mas quem visita esse mundo, nem que seja por curiosidade (utilizando, digamos, uma foto em close-up do olho esquerdo e o nick “Discreto”), conhece diversos mecanismos de contenção de uma sexualidade exacerbada – não no intuito de reprimir; mais como uma manutenção do jogo do desejo um pouquinho que seja mais sutil. Discreto, por exemplo, ao tentar criar uma conta no Scruff e fazer upload de uma foto, receberia a seguinte indicação:

“Nosso provedor de serviço NÃO PERMITE nudez frontal ou traseira em aplicativos distribuídos

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pela loja de aplicativos. Se você enviar fotos nu, nós seremos forçados a DELETAR PERMANENTEMENTE o seu

perfil.

Fotos

acima

da

cintura

SÃO

PERMITIDAS... Obrigado pela compreensão”

Discreto determinação

iria,

então,

proporcinou

descobrir uma

que

tal

explosão

de

fotografias em frente a espelhos de banheiros, academias e outros diversos locais onde os sujeitos aparecem duplamente desmembrados: sem cabeça e sem camisa. Mas apesar da conotação que um peitoral bem trabalhado pode oferecer, Discreto veria alguns perfis um tanto quanto... moralistas, em geral recusando “encontros rápidos” e dizendo-se “não interessados em sexo” (a despeito de que qualquer relação a dois, oriunda de aplicativos ou não, tem grande propensão a terminar no jogo de corpos). Discreto poderia perceber que, em alguns

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momentos,

quem

de

fato

quer,

objetiva

e

rapidamente, obter uma transa, chega a ser mal visto por certos usuários – e provavelmente pensaria duas vezes antes de se incluir na lista dos interessados em “fast-foda”. Claro que a existência desse movimento percebido por mim (talvez não tão grande e tão pouco efetivamente sólido)

em

direção a um

romantismo em oposição à diversão casual não significa que homens que usam e abusam das facilidades dos aplicativos não estejam lá. Porque eles estão, não importa se disfarçados em um perfil cuja descrição seja de alguém que “não procura sexo” ou se usando a tag “RIGHT NOW” do Grindr. Talvez o que vale, nesses casos, seja a regra do-quevocê-faz-quando-ninguém-está-olhando

(sendo

o

momento ninguém-está-olhando-agora o chat UOL, por exemplo, enquanto nos smartphones qualquerum-pode-te-ver em maior ou menor grau). Quer

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dizer, em bate-papos como o UOL você está absolutamente oculto, a menos que informe seu nome, idade e onde mora (e ainda pode escolher entre fazer isso para toda a sala ou somente para um dos usuários, numa conversa privada que ninguém mais vai ver além dos dois), detalhes que, nos aplicativos, aparecem muitas vezes já a priori, no perfil público. Existir no Grindr, Hornet ou Scruff é se expor. É a renovação do dito “sou outra pessoa entre quatro paredes” por “sou outro sujeito numa conversa reservada do bate-papo”. E enquanto uma fotografia (nítida do rosto ou embaçada de qualquer outro membro do corpo) é o suficiente para que mensagens sejam trocadas por alguns

usuários,

outros

são

quase

escritores

incompreendidos, exigindo leitura completa do perfil antes que um contato se efetive (geralmente

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substituindo o nick pelo recado: “LEIA ANTES DE PUXAR PAPO” ou algo do tipo).

2

Dar conselhos sem camisa e às vezes sem calça (exibindo o que parece ser o resultado de muito tempo numa academia em busca do auge da forma física), sobretudo a respeito de “gostar de si mesmo como você é”, poderia soar pretensioso ou hipócrita para muita gente (e de fato soa), mas foi o que

deu

certo

para

a

celebridade

virtual

DaveyWavey. Com

aproximadamente

600

vídeos

no

YouTube e a marca de mais de 150 milhões de visualizações,

o

rapaz

ficou

conhecido

por

comentar, usualmente de forma cômica, diversos tópicos envolvendo a rotina de um homem gay. Seu tutorial para a limpeza interna do ânus antes do

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sexo, conhecida no Brasil como “xuca”, é um bom exemplo do que é proposto no canal (ele até cita “A whole new world/A new fantastic point ofview”, parte de uma canção da Disney, para enfatizar a diferença de uma transa com/sem a prática). O UrbanDictionary tem uma visão peculiar a seu respeito: “Como em seus vídeos ele aparece sempre sem camisa/usando apenas cueca, a maioria das pessoas (meninas e meninos gays) apenas o assistem para se excitar. O melhor é calar sua voz chata e se divertir assistindo-o ostentar seu corpo”.

3

Hornet, uma das ferramentas gays mais bem avaliadasno Google Play (a loja de aplicativos para celulares com sistema operacional Android), inclui a seguinte mensagem em sua página de download:

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"Venha descobrir por que DaveyWavey chamou Hornet de 'o Aplicativo que o Grindr deveria ter sido'"

A “voz chata” e a incerteza sobre a verdadeira contribuição de Davey para a comunidade gay, aparentemente,

não

o

impedem

de

ser

um

referencial. Quando

os

programadores

do

Hornet

decidem incluir esse personagem específico em suas informações de apresentação, eles parecem ter dois claros

objetivos:

primeiro,

usar

da

parcial

legitimidade atribuída a Davey para alavancar o app como um “aplicativo melhor que Grindr” (que ainda vence em popularidade) e, segundo, dizer que mesmo caras bonitos, bem torneados e influentes estão fazendo download da ferramenta. O que é verdade. Em minha experiência como usuário de chat, passei por diversas situações em que amigos ou

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conhecidos se surpreendiam com o fato de que eu lançava mão desse tipo de serviço – e eles se mostravam assim por três principais razões. 1.

O

perigo

de

se

encontrar

com

um

desconhecido virtual (sobretudo de um espaço tão amplo e aberto como o bate-papo); 2. Conhecimento prévio do conteúdo sexualmente explosivo das conversas que ali ocorrem e, sobretudo, 3. Uma ideia de que esse era o tipo de plataforma utilizada por pessoas que fracassaram em relações face-a-face ou que tinham defeitos imperdoáveis e se escondiam atrás do computador. Todas essas três asserções representam uma verdade sobre o Bate-Papo UOL, mas esse é um universo que engloba muito mais do que tais noções reducionistas.

homens/mulheres

bonitos(as),

feios(as), interessantes, de pouca instrução cultural, mestres do português ou ignorantes gramaticais completos, ricos, pobres, gente da capital e do

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interior – toda sorte de pessoas, mesmo. Assim como nos aplicativos. A diferença é que as ferramentas para conhecer

pessoas

presentes

nos

smartphones

parecem ser mais bem aceitas, muito embora a lógica seja quase a mesma: DaveyWavey tem um perfil no Hornet tanto quanto seu vizinho com menos aparatos visuais. Mas ainda sinto, nas conversas que ouço, que estar no Tinder, por exemplo, é mais leve de se assumir para os amigos do que ter um nick num chat virtual. Mesmo a relação das mídias com esses novos dispositivos é diferente: nos portais de notícia, os apps representam a modernidade, uma roupagem nova para o velho jogo da paquera, nada muito extraordinário. Os usuários são pessoas normais com vontade de se entrosar com gente nova. No chat, parece que a coisa muda de figura. Quem ali

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está guia-se pelo desespero de encontrar alguém – qualquer um. Em novembro de 2013, uma delegada de 30 anos tornou-se famosa após espalhar faixas pelo bairro Santo Antônio, zona centro-sul de Belo Horizonte, em busca de um tal de “Bonito”, que ela tinha conhecido no Bate-Papo UOL. Além dos previsíveis e soníferos comentários machistas,

duas

outras

vertentes

de

opinião

surgiram junto com o caso: pessoas que se diziam certas de que ela devia, necessariamente, “ser feia” (através da ideia de feio que elas mesmas traziam) ou que manifestavam espanto com a importância do cargo exercido e “provável beleza” de uma usuária de chat.

“Vim aqui pensando em ver ibafens [sic] da gordinha desesperada”

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“E o pior, ou o melhor, sei lá, é que ela é uma bela mulher de 30 anos, de cara e corpo, e não faz o tipo que se poderia esperar da mulher já meio desesperada. Só posso concluir que esse Bonito é de fato um ás, um Don Juan dos chats.”

“Desesperada detected”

“Dá licença! Pessoalmente vai ser a maior decepção”

“Procurar namorado em Bate-Papo do UOL é fim de linha mesmo... deve tá num desespero medonho!”

É claro que esse caso específico carrega a peculiaridade das faixas espalhadas (um golpe de superexposição), mas isso, de certa forma, apenas ressaltou críticas comuns aos participantes desses

48


espaços. Delegata (nick que usou), não satisfeita em deplorar sua imagem num chat, decidiu revelar ao mundo que fez uso dessa ferramenta: dois absurdos de uma vez. A impressão que fica é de que os bate-papos da internet, esses sim, nunca foram, no imaginário popular, os aplicativos que Grindr, Scruff ou Hornet (com Davey ou não) conseguiram ser.

4

Todo mundo tem um amigo que só sai de casa se for para beber em determinado barzinho, o que só come em tais restaurantes, e aquele também que está em todo lugar e com quem a gente sempre esbarra vez ou outra. Os aplicativos são mais ou menos assim: tem caras que só tomam as cervejas do Grindr (mais geladas, talvez), aqueles que preferem os vinhos do Scruff ou os que curtem mais

49


o clima do Hornet. Outros já visitaram esse ou aquele e, apesar de não terem propriamente um cartão

de

membro,

conseguem

distinguir

as

qualidades e defeitos de cada. Por fim, há sujeitos que veem graça em dar as caras (ou os bíceps, ou o tanquinho) em todo canto e ao mesmo tempo, num frenesi

de

mensagens

e

perfis

novos,

experimentando aqui e acolá um tempero e mistura diferentes. Os três aplicativos que acompanhei oferecem serviços gratuitos, excetuando exclusividades para quem paga, o que significa que qualquer um pode criar uma conta, a todo momento, sem nenhum custo. E é nessa hora que os programadores tentam fisgar seus fieis, oferecendo algo de diferente. O Scruff, por exemplo, permite que se veja quem foram os visitantes do perfil; o Hornet cobra por esse detalhe, mas deixa que os usuários postem

50


até oito fotos (quatro públicas e quatro privadas), coisa que o Grindr não faz. Por aí vai. O GooglePlay me deu acesso a diferentes opiniões sobre cada um dos meus campos de pesquisa. Como todos os três contam com a marca de mais de um milhão de downloads, achei pertinente, para estabelecer um ranking, que eu analisasse outro dado: o número de avaliações (de uma a cinco estrelinhas). Essa é uma informação, aliás, que diz mais sobre os participantes – a nota que se dá a um aplicativo fica visível para seus amigos que visitarem a página (“Fulano avaliou isso”). É uma declaração pública de uso, igualzinha a da Delegata. Até o mês de março, o Grindr, presente em 192 países e com mais de 6,5 milhões de membros, tinha a menor classificação (3 estrelas), mas era o mais avaliado (68.862 vezes), demonstrando uma popularidade ainda vigente – falem bem ou falem

51


mal. O Hornet contava com 4 estrelas e 31.328 avaliações. Já o Scruff, que também ganhou 4 estrelas, ficou em último lugar em quantidade de críticas: apenas 24.778 usuários o deram nota. Comentários diversos pipocam na página de cada um dos aplicativos e a maioria somente comprovou, para mim, que a linha os separando é tão fina que quase não existe. Tanto que, se ignorarmos a plataforma, parece até que os caras estão falando da mesma coisa.

“Se não fosse usado pela maioria pra apenas putaria seria legal...”

“Gente, apenas boys magias!”

“Uma

oportunidade

alguém legal”

52

ótima

de

encontrar


“Demais... Muita gente bonita... Vale a pena mesmo”

“Legal, mas não ache que vai encontrar o amor da sua vida”

“Fiz muita pegação e deu certo mesmo...”

“Legal, gostei, bacana. Me procurem lá pra batermos um papo”

A diferença maior, na verdade (e que justifica a frase marqueteira de DaveyWavey na tentativa de promoção do Hornet) são os próprios homens. São eles e a qualidade ou quantidade das relações que dali brotarem é que vão convencer quem quer que seja dos bons frutos. Da fala de um membro: “Pro App, dou 10. Para alguns usuários, 0.”

53


5

No meio disso tudo, é notável o esforço dos desenvolvedores de se aproximarem de seu público. Não só no uso de gírias e expressões que passaram a fazer parte da comunidade homoafetiva, mas mesmo em questões como a possibilidade de incluir seu status de HIV (embora seja extremamente raro você encontrar muitas pessoas próximas se dizendo soropositivas). O Hornet pode até te mandar um email lembrando-o de fazer o próximo exame. Informações que podem ser interessantes para os usuários também estão sempre chegando na caixa de mensagens. Enquanto estive presente no Hornet e Scruff, por volta de janeiro a março de 2014, recebi mensagens automáticas me convidando para conferir os pequenos documentários feitos pela equipe da revista VICE sobre a vida de jovens homossexuais vivendo na Rússia, a estar presente

54


na parada do orgulho LGBT de diversas cidades e a acompanhar Looking, a série do canal HBO focada em personagens gays da São Francisco moderna (um dos quais, inclusive, usa o Grindr).

6

“I’m like a shooting star, I’ve come so far, I can’t go back to where I used to be!”

Para

um

usuário

insatisfeito

dos

chats

antigos, os aplicativos são exatamente como canta a princesa Jasmine na melodia Disney preferida de DaveyWavey: uma estrela cadente que, após ter ido tão longe, não consegue voltar a seu estado anterior. Pode parecer exagero, mas o aprimoramento das ferramentas de smartphone abriu um caminho e chegou a locais que os bate-papos (que ainda

55


mantêm uma personalidade cativante para muitas pessoas) jamais alcançariam. Muitas vezes, anos atrás, na sala Namoro – Gays

nacional,

eu

iniciei

conversas

bastante

produtivas com sujeitos que se diziam de Belo Horizonte, mas que por fim eram de cidades vizinhas como Sabará, Ouro Preto ou Mariana. Esse é um problema que não ocorre com o GPS dos aplicativos, que te informa a distância provável (e incrivelmente certeira) dos homens nas redondezas.

Situações

como

decepção

com

a

imagem do outro ou com preferências sexuais não muito

interessantes

também

são

parcialmente

evitadas com o uso das fotos e da criação de um perfil. Além dessas diferenças técnicas, talvez a mais notável (para alguém que busca relações que ultrapassem

o universo virtual)

tenha sido

a

disposição dos homens em se encontrar – e a

56


naturalidade com que esse encontro se dá. As mensagens trocadas nos telefones conduzem para um barzinho, um cinema ou transmitem logo um endereço onde ambos podem praticar quaisquer que sejam as fantasias que possuam. Essa agilidade e maior abertura talvez se devam ao fator mobilidade. De qualquer canto podese falar com qualquer um que esteja online, não mais somente em frente ao computador (geralmente em um quarto com porta trancada). E

esse

“estar

online”,

também,

sofreu

modificações importantes: as mensagens enviadas serão recebidas em algum momento, e o dono do perfil não precisa necessariamente lê-las no mesmo instante, como nos chats. Bate-papos online contam muito com o acaso do outro estar ali, no mesmo momento que você, e qualquer chuvinha besta que provoque uma queda de energia pode encerrar o romance da vida de alguém caso um endereço de e-

57


mail ou número de telefone não tenham sido trocados. Transportes baladas

se

públicos,

tornaram

praças

espaços

onde

ou

mesmo

abrir

um

aplicativo pode significar encontrar vários gays – é a ideia do “radar” ampliada ao aparato eletrônico. Uma troca de olhares pode terminar no Grindr e aquele rapaz bonito do Hornet, quem sabe, está bem atrás de você no metrô.

58


Caçando homens... ou quase isso 1

O Manhunt é uma espécie de prévia do que seriam os aplicativos no futuro – com muitas limitações, é claro. Mas também não pode ser visto como uma evolução dos chats antigos, que, como disse, ainda mantêm uma personalidade que cativa fieis participantes. São diferenças básicas como a criação de um perfil fixo, o uso de fotos, e mensagens não instantâneas que o fazem ser um dos precursores do que hoje se vê nos smartphones. Um outro detalhe coloca Manhunt em uma nova relação com os usuários: dinheiro. A cobrança de taxas por serviços como mensagens e visitas a

59


perfis ilimitados – práticas essenciais para quem quer ter bons resultados na busca por um parceiro – interfere diretamente no modo de navegação pelo site. Apenas a título de comentário perverso, vale dizer que, no meio do carnaval de cores do BatePapo UOL e dos modelos modernos de chat instalados em milhões de celulares, o Manhunt é, hoje (com seu azul-arroxeado à la Orkut e as janelas pop up abrindo infinitas portas do além), um dos mais mal vestidos da turminha.

2

Para quem mora com os pais e acessa o batepapo, momentos de tensão quando alguém adentra o

quarto

é

uma

situação

comum.

Janelas

alternativas, provavelmente onde o Facebook está aberto, servem como um bom álibi. Mas nenhuma

60


conversa de chat, excetuando as fotos-bomba das salas Imagens – Gays, supera, no quesito “Alerta vermelho”, o Manhunt. Homens de sunga apertada, em posições dignas de um ginasta olímpico da sedução, pulam aos olhos de quem acessa a página – e perseguem até o momento em que o logoff é executado. O layout parece mesclar referências dos clássicos sites pornôs gays (algo no nível das honoráveis franquias de Randy Blue ou NextDoorMale) com um ambiente para socialização online. A impressão é de que ali você esbarrará em um entregador de pizza bem dotado ou em um bombeiro que, em determinado momento, vai se molhar e começar a tirar o uniforme. Pensando assim, pode-se até crer que a proposta é boa. Mas, para mim, os resultados ali não passaram muito perto disso.

61


3

De todas as plataformas que usei, essa foi a menos produtiva, do ponto de vista das interações. O limite de mensagens a serem enviadas por dia me irritavam profundamente – ao mesmo tempo em que me colocavam na posição de maior seletividade, o que pode fazer sentido para alguns. Meu perfil, que seguia a linha dos discretos (sem foto clara de rosto), recebia em torno de 3 a 8 visitas por semana, das quais surgiam de 2 a 4 mensagens, que eu respondia ou não, seguindo critério de interesse no que a pessoa dizia nas informações pessoais. Minha conta foi criada em setembro de 2013 e existe até hoje, embora abandonada. Acredito que se tivesse dedicado mais tempo a esse site, a interação teria sido maior (quanto mais tempo online, mais pessoas veem seu perfil), mas

62


acabei por visitá-lo em torno de uma vez por semana. Pude notar, no tempo menor que passei nesse chat, que o uso de aplicativos para celular entre os usuários é baixo e as conversas, quando pedem para sair dali, vão para o Skype ou Facebook, com maiores chances de terminarem no primeiro (mais privacidade, menos conexões públicas). A imposição para que limitem o número de recados trocados com outros usuários (uma ordem para que se fale menos) é refletida numa pressa ainda maior, talvez. “Oi, gostei do seu perfil, meu Skype é tal”. Escolhe-se bem para quem se manda a mensagem – mas depois disso o negócio mesmo é usar objetividade ao máximo. Minha observação no Manhunt, na verdade, foi esburacada pelo fato de eu não ter uma conta Premium. Acredito que esse fator altera e muito o jogo de quem usa esse chat. Elite ou não, foi ali que

63


adquiri ainda mais experiência para o livro – e isso é algo

que,

para

mim,

dinheiro

comprar.

64

algum

poderia


Entram na sala...

MorenoVN:Um metro e oitenta, oitenta e cinco quilos, moreno, ativo, pau de vinte e três centímetros. Grosso. Romântico:Um metro e setenta e oito, setenta e quatro quilos, branco, versátil, vinte e dois anos. Abel:Moreno, olhos castanhos, cabeça raspada, barba, setenta e um quilos, versátil, vinte e sete anos. Malho e corro. Krum:Pardo, um metro e setenta e nove, cinquenta e sete quilos, vinte e dois anos. Sério29:Um metro e setenta, sessenta e um quilos, vinte e nova anos, branco, olhos e cabelos castanhos. Cinquentão:Divorciado, preferencialmente ativo ou versátil. Cinquenta e oito anos, um metro e setenta e cinco, oitenta e seis quilos, braços e pernas grossas, pelos normais na perna e barriga, poucos no peito. P_27:Moreno, vinte e sete anos, um metro e sessenta e cinco, sessenta e dois quilos, versátil.

65


Parte 2 Like a virgin 1

Os

dois

estão

deitados

na

cama.

Uma

intimidade criada recentemente, posta entre seus corpos,

cresce

se

alimentando

de

um

desejo

vigoroso. O diálogo flui como um carinho. “Todos os caras têm a sua história. É como um rito de passagem”, um diz. “Mas você não tem a sua?”, o outro retruca. “É, acho que não.” Russel, que não conheceu os pais e está no armário para os colegas de trabalho, acha que pulou uma etapa imprescindível para o fomento de sua identidade: o momento de se declarar para as pessoas mais importantes de sua vida. Sente-se

66


órfão mais que de progenitores – é carente de uma situação hoje extensivamente compartilhada entre os jovens que descobrem a difícil tarefa da atração por outros de mesmo sexo. Glen propõe um jogo: poderiam reproduzir a cena de uma confissão ali mesmo e ele faria o papel do pai, que ouviria compreensivamente, embora um pouco espantado, o tímido filho. Minutos depois, terminada a encenação, Russel passa a integrar uma estatística, um grupo, e ganha o status que queria. É mais um gay assumido. Personagem do filme britânico Weekend, de Andrew Haigh, Russel é atormentado pela ausência de uma participação sua na manutenção do mito sobre a hora da confissão homossexual: é parte de tornar-se (ou de ser, ou de se aperfeiçoar no papel de) gay. Todas as referências apontam para este ponto em que culminam uma vontade imbatível e a

67


expectativa quanto a reação dos outros. A maioria passa anos ensaiando as falas, linha por linha, marcação por marcação. Checa-se a acústica do palco, a iluminação, o cenário. Mas a atenção do público ainda é uma incógnita e um dado que interfere e incentiva, sempre, o adiamento da peça. A inauguração, em muitos casos, acontece sem aviso prévio. “Olha, tenho que te falar uma coisa”, disse Krum, com o telefone (e o coração) na mão. Do outro lado da linha, em um município mineiro pequeno e distante, a irmã ouvia silenciosa. “É um negócio que você até me perguntou e eu sempre neguei e é verdade”. Pronto. Havia dito. Não com todas as letras. Gay, palavra do inglês de apenas três caracteres – só uma monossílaba –, ainda não saía da garganta, ficava presa a meio caminho de uma coragem incipiente, pálida. Ficava lá.

68


Era verdade que a irmã, Marina, havia feito diversas abordagens ao longo de eventos do cotidiano. Um deles terminou até em escândalo. Enquanto lia um dos livros da série Harry Potter no meio da agitação de um churrasco (Krum reconhece curiosidade:

ser o

“muito nick

que

anti-social”; usa

é

de

nota

de

um

dos

personagens do quarto volume, O cálice de fogo), uma garota se aproximou e iniciou contato. Disse que ele era muito bonito e começou a tocar em sua coxa. Incomodado, Krum desconversou e pediu que, por gentileza, a leitura pudesse prosseguir sem mais delongas. O que não delongou foi um cochicho sobre sua sexualidade, dado o sucesso que a moça fazia entre os outros rapazes da festa. Marina, ofendida com o disse-me-disse, expulsou a todos aos berros e o questionou sobre a legitimidade da fofoca. Krum falou que apenas não sentiu apreço pela menina (“É

69


que ela é escrota mesmo”). A irmã assentiu e deixou passar – até a fatídica conversa por telefone. “Mas

o

que você

quer

que

eu

faça?”,

respondeu Marina, num fôlego de compreensão. Não foi preciso que Krum dissesse muito. Ele negou por motivos óbvios e agora estava ali, reconhecendo a verdade, ainda que de forma parca. O peso das palavras era o mesmo. “Você acha que eu devo contar pra mãe?”, perguntou Krum. “Não vai ser necessário não”, respondeu a irmã. “Por quê?” “Porque eu tô conversando no viva-voz e ela tá aqui do lado, chorando”.

70


2

Em novembro de 2013,decidi pesquisar pela palavra

“gay”

no

Internet

Movie

Database

(IMDb),uma atual e poderosa fonte de dados quando o assunto é produção audiovisual.O banco de informações, à época, retornou com os seguintes resultados: 6.745 títulos cadastrados nos quais o termo aparece como palavra-chave; 5.043 onde o que consta é “gay-interest” (“temática gay”); 1.824 para “gay-sex” (“sexo gay”); 1.272 para “gay-kiss” (“beijo

gay”);

e

1.486

para

“gay-character”

(“personagem gay”). A lista envolve filmes, seriados, especiais para TV e outras produções nos quais possa ter havido menção à homoafetividade. A busca por “lesbian” apresenta números parecidos para títulos em que o termo aparece – 6.994 arquivos cadastrados interessante

declínio

de

71

–, mas contém “lesbian-sex”

o

(“sexo


lésbico”) e “lesbian-kiss” (“beijo lésbico”), de 8.171 produtos e 2.632, respectivamente, para “lesbianinterest” (“temática lésbica”), com

apenas 897

arquivos e “lesbian-relationship” (“relacionamento lésbico”), que tem a menor marca, de 277 títulos. O

motivo

pode

ser

a

fantasia

erótica

heterossexual envolvendo duas mulheres, presente em obras que não necessariamente discutem (ou o fazem de forma rasa) questões como sexualidade, gênero e preconceito (que atinge seu ápice em American Pie 2: A segunda vez é ainda melhor, em minha

opinião

de

cinéfilo menor,

onde

duas

vizinhas servem de objeto para os jovens voyeurs de puberdade exacerbada – tanto os do filme quanto os das cadeiras do cinema). Além de aproximar o público interessado às incontáveis

produções

cinematográficas

que

proporcionam uma abordagem mais aprofundada (com atenção especial para experiências tidas como

72


independentes, sem dispensar, claro, os velhos clichês de Hollywood; quem não se lembra com afeto de Christian, melhor amigo gay e tentativa romântica frustrada de Cher em As Patricinhas de Beverly Hills?), a internet hoje oferece inúmeros portais, blogs e páginas no Facebook e Twitter voltadas para o público LGBT. Isso sem falar no acesso ilimitado e sem custos (excetuando possíveis vírus) aos canais pornográficos. Atualmente

a

rede

está

quase

à

mão

(literalmente, na ponta dos dedos) de qualquer um – e na falta dela a literatura nunca deixa de surpreender. (Foi através de uma matéria na versão física da revista Época que Krum, aliás, descobriu o Grindr, aplicativo que lhe abriu caminho para o contato com outros caras). São muitas referências e torna-se necessário uma poderosa versatilidade para abrigar a enorme bússola cultural indicando diversas possibilidades

73


sexuais e de identidade. A escolha de um caminho, como fez Russel, muitas vezes requer um jogo de aceitação interna e externa.

3

Flexibilidade

é

palavra

de

ordem

para

Cinquentão. Seu jeito de falar demonstra calma e maturidade – e seu olhar para trás, em direção ao passado,

remonta

com

argúcia

detalhes

que

poderiam estar perdidos para um observador menos atento. Ele se lembra dos toques familiares na infância (“Pelo que me recordo, aos oito anos”) em regiões sensíveis do corpo e da busca por respostas para seus instintos em livros de anatomia. Cinquentão ressalta, também, a falta de referências visuais antes dos anos 90, quando era difícil

pôr

os

olhos

em

materiais

eróticos

direcionados. Quem queria, tinha que procurar

74


meios

alternativos

fizeram

(revistas

de

enorme sucesso entre

musculação o público

já gay

brasileiro, trazendo rapazes jovens e sarados em suas capas). Com

a

facilidade

dos

arquivos

digitais,

porém, a um clique de distância, tudo mudou. As cenas de sexo entre homens (caprichados close-ups em vigorosos pênis, que sempre lhe despertaram a curiosidade, e em bundas másculas, além de toda a movimentação dos corpos) foram lhe aproximando cada vez mais de um mundo ainda desconhecido. Cinquentão me confessou ter começado a se interessar por sexo bem cedo, mas deixou que seus desejos homoafetivos esquentassem um tempo antes de tirá-los do forno (por onde passaram várias mulheres). Quase 45 anos depois, a criancinha curiosa

ressurgia

mais

questionamentos.

75

uma

vez

faminta

de


“Apesar do pênis de outro homem sempre ter me despertado curiosidade – e de sempre ter desejado fazer sexo anal com as mulheres que conheci –, nunca havia sentido tesão por bunda de homem, mesmo porque não havia muito como ver fotos ou filmes antes de 1990. Quando tive acesso, pude ver detalhes do sexo entre

dois rapazes e

cada vez mais fui me aproximando disso.” Desta vez, com sorte, a mesa estava farta e ele teve muita desenvoltura para transitar pelo cardápio; quase como se tivesse ensaiado a vida inteira para aquilo. Seu primeiro namorado, aos 54 anos, tinha apenas 22. O relacionamento às escuras, regado a muita naftalina, surgiu do chat UOL e durou três anos. Após o término, o rapaz foi à casa de Cinquentão devolver/buscar coisas pessoais. Um momento delicado por si só, mas que ainda guardava mais emoções.

76


Antes de partir, o então ex foi surpreendido pelo som da campainha. Pouco habituado a dividir o ambiente com outros além do parceiro, o jovem suspeitou. Cinquentão explicou: os filhos, de dois casamentos antigos (quatro, no total: três homens e uma moça), haviam chegado para o almoço. Era a hora de contar a verdade. Ou uma verdade.

4

“Sangue de Jesus!” e “Misericórdia!” são duas palavras que passaram a ser recorrentes na vida de Krum depois do episódio telefônico. Não que sua mãe houvesse rejeitado por completo a novidade e o estivesse

tentando

convertê-lo

em

cristão

na

intenção de fazer a omelete entrar de volta no ovo. São apenas expressões de uma senhora de cidade pequena um pouco apreensiva com os novos assuntos do filho (a saber: homens).

77


Krum é bem o tipo de jovem que leva a mãe às loucuras: magrelinho (tem 54 quilos e 1,72 metro), bastante tímido e de óculos. Mais um nerd indefeso no mundo. Mas sua personalidade, apesar das proporções físicas adequadas ao bullying no período escolar, cresceu forte e vigorosa. “Mãe, se o assunto fosse uma mulher você estaria falando o quê? „Que ótimo‟, né? Então, minha filha! Mesma coisa. Só que ninguém vai engravidar”, protestou o rapaz. Ninguém ia engravidar, na verdade, mesmo que a confissão de Krum fosse de que ele estava apaixonado por uma garota do trabalho. A timidez e a falta de um interesse por locais de socialização – sobretudo o tipo de interação que ele preferiria – manteve sua virgindade, ou o que ele entendia por vingindade, intacta até os 22 anos. Na infância, Krum diz ter vivido situações confusas e sexualmente abstratas. Participou de

78


joguinhos íntimos com um primo, ainda com sete anos,

e

afirma

com

certeza

que

não

eram

brincadeiras contaminadas por desejos efetivamente sólidos, afinal não tinha mentalidade o suficiente para isso. Depois, uma amizade gostosa e confusa com um vizinho que resultaram num início de polêmica pela cidade onde morava. Krum negou qualquer envolvimento corporal com o amigo, quando o irmão ouviu boatos a respeito e o questionou, e desde então eles não trocam saliva, palavra, olhares ou mensagens no WhatsApp. Quando veio para Belo Horizonte cursar a graduação, após conseguir bolsa através do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), Krum manteve-se discreto para os outros e para si mesmo. Afundouse em livros e revistas (chegou a colecionar a Veja), até

encontrar

na

reportagem

“Rastreado

pelo

gaydar” uma boia que o puxou de volta à superfície. O

objeto

salvador

79

não

fazia

parte

de


nenhuma

religião,

embora

seus

usuários

permaneçam anônimos e ativos entre a multidão como membros de uma seita. Para entrar não era necessário praticar ritual algum ou fazer grande esforço além do econômico, o que era perfeitamente viável no pensamento de Krum, e ele não demorou para adquirir um smartphone com o qual poderia criar um perfil no Grindr. O aplicativo, na verdade, o decepcionou ao se mostrar limitado em alguns pontos, mas através dele um mundo de outras ferramentas para contato com gays se apresentaram: Hornet, que ele também não gosta muito, e o preferido: Scruff. Krum se sentia mais dentro de uma comunidade, ainda que imaterial e distante. Já tinha com quem usar as já conhecidas gírias – guardadas porque ele sempre evitou lugares ou pessoas onde e com quem pudesse usá-las.

80


“Mas você nunca quis ir a nenhum espaço gay?”, pergunto. “Não, não. Eu tenho pavor! E espaço gay é o quê?” “Não sei, baladas, cafés, saunas...” “Eu tenho pavor de boate. Não pelo ambiente em si, mas porque não faz meu perfil. Não gosto de som alto, eu sou muito chato. Passou de dez sujeitos, pra mim, virou zona. As pessoas já vão achando que você tem que pegar alguém, não pode chegar lá e curtir a festa.” Faço um meneio de cabeça, demonstrando compreensão, ainda que “curtir a festa” pudesse significar, neste caso, praticar feitiços com Hermione. Até o momento de nossa primeira conversa, Krum havia teclado com alguns sujeitos, encontrado por acaso com outros e se apaixonado uma ou duas vezes (me enquadro, em sua lista de contatos, nos

81


dois primeiros pontos). Mas nada saía do campo verbal. Um usuário platônico, fosse por gosto ou não. Era um status que ele não se via pronto ou disposto a alterar. E que, até então, não havia representado grande problema (excetuando os impulsos físicos comuns a qualquer bípede de apetite sexual regular, parcialmente solucionáveis).

5

“Ele quis correr! Quando estava em casa e tocou o interfone, ele veio logo querendo saber quem estava chegando.” Cinquentão parece se divertir enquanto me conta sobre a arapuca que armou para o ex-namorado. Não tinha finalidade de machucar ninguém, é claro, quando marcou a reunião com os filhos e o antigo cônjugue na intenção de sair de trás das cortinas.

82


E tudo, por fim, terminou bem, num almoço até agradável dadas as circunstâncias de circo pegando fogo. “Conversamos generalidades e sobre a sexualidade na nossa sociedade, tabus, essas coisas. Ficou como se minha situação fosse um fato consumado, e os assuntos, então, variaram”. Ao contrário de Krum, Cinquentão preparou bem

o

campo

e

dirigiu

com

precisão

cada

movimento dos atores de sua peça: A Revelação, por falta de título. Ele teve tempo, certo, mas muitas vezes o amadurecimento da ideia de assumir-se gay passa por engrenagens alheias ao tique-taque do relógio e tem muito mais a ver com a personalidade e modos de vida de cada um. “Antes, como hetero, ou agora, gay, em nenhum momento de minha convivência com meus parceiros,

mulheres

ou

homens,

demonstrei

publicamente o que eu curtia fazer com o outro. O nome

íntimo

diz

tudo

83

e

lá,

dentro

do


quarto/casa/carro,

que

isso

é

bom”,

reflete

Cinquentão. “Quem não tem a necessidade de afirmação ou não é inseguro, se contém. Eu não sou radicalmente contra esse tipo de demonstração, mas há ambientes para tudo, é bom respeitar quem não gosta

de

ver

namorados

se

beijando

como

preliminares para o sexo, tipo sarrando em público – e alguns fazem para horrorizar”. Há quem veja vantagem em sair do armário aos 15 anos, há quem não veja em nenhum momento da vida. Alguns assumidos não notam diferença alguma entre sua fase de antes e depois, enquanto Cinquentão, que preferiu guardar segredo por décadas, percebe as coisas do ponto de vista de uma era “hetero” e outra “homoafetiva”. Esse tipo de diferença de perspectivas, desde que passei a me interessar pelas formas como cada um tratava seu corpo, sempre me mostrou que não existem regras universais para a construção da

84


própria sexualidade; cada um monta seu jogo com as peças que quiser. E isso é o que, ainda hoje, me encanta mais.

6

Harry Potter, desajeitado e sem jeito com as meninas, levou cinco livros para dar o primeiro beijo. Inspirado pelo bruxo ou não, Krum decidiu empurrar o começo de sua vida sexual para uma idade em que alguns gays já fizeram de quase tudo. Se assumiu para a família mesmo antes de ter conferido do que gostava no sexo com homens, deixando

sua

mãe

nervosa

por

motivos

de

namorados que ainda nem existiam. Com o uso dos aplicativos, o que faltava mesmo em sua vida era coragem, opções ele tinha. Tanto que, do garoto que nem mostrava a cara que conheci, ele passou a ser uma mini-celebridade nos

85


apps. Krum é vendedor de uma pequena loja localizada em lugar de grande movimento; depois que começou a sorrir escancarado na foto de perfil não foram raras as vezes em que sujeitos lhe mandavam mensagens dizendo “Ei, você é o cara que trabalha em tal lugar?”. Sim, era ele, passou a responder sem conflitos internos. É o que alguns chamariam de sair do armário em grande estilo. Dessas novas conversas, diversos convites surgiram. Alguns bem prováveis de terminarem na cama: os sujeitos não só queriam, também tinham local e horários flexíveis. Acompanhei seu draminha para

escolher

imaginando

um

que

primeiro o

que

parceiro

faltava

era

ideal, um

empurrãozinho. Um dia, em mais um de seus encontros

que

não

pretendem

passar

do

cineminha/praça de alimentação (A Menina que Roubava Livrosera a sessão da vez), ele acabou

86


aceitando o convite e indo para a casa de um dos caras do Grindr. Eu me lembro quando, num domingo à tarde, há uns três anos, decidi dar fim à minha falta de experiências sexuais e topei me encontrar com um sujeito em seu apartamento, tendo o visto, até o momento, apenas pela webcam. Quando cheguei ao local – que algumas pessoas achariam muito apropriado para a concretização de um crime digno das páginas do Super Notícia, já que o conjunto de edifícios ficava ao lado de um cemitério –, pedi logo um copo de água e um dedo de prosa. Acabei recebendo duas mãos grandes de conversa com o rapaz de 1,80 metro, moreno e de piercing na língua (mas isso eu só descobriria mais tarde, quando roubasse dele um beijo sem graça nem nada). Falamos sobre sua família, sua faculdade, seu trabalho,

seus

gostos

por

música

(colocamos

Rihanna para tocar) e por livros; até indiquei O Caso

87


dos dez negrinhos, da Agatha Christie, já que ele gostava de suspense. O assunto, afinal, não chegou a mim nem ao que eu tinha ido fazer ali. Depois do beijo insosso, vi que não ia sair coelho daquela toca (mais por culpa minha, acho, por estar nervoso demais para sentir qualquer coisa), fui embora debaixo de uma chuva que estava só começando a engrossar. Não que eu já não estivesse habituado a tempestades nos meus encontros. Mais tarde, após vivenciar aquilo que a maioria consideraria a perda da virgindade (tenho minhas dúvidas de quantas “primeiras vezes” são necessárias para constituir uma autêntica “primeira vez”), percebi que, para mim, o jogo do sexo tinha mais peças do que aparentava e era tão complexo quanto um xadrez; era necessário calma, e ir levando uma jogada paciente atrás de outra jogada paciente.

88


Foi por isso que fiquei um pouco surpreso ao ouvir o relato de Krum – no dia seguinte ao encontro do cinema – a respeito de uma estreia na cama feliz, sem grandes tensões, nem mesmo físicas. O jovem “viu a felicidade” quando o cara o pegou nos braços e começou a coisa toda, que terminou com ele debaixo do corpo do outro, sendo o passivo da relação. E a penetração que pode ser difícil e dolorosa para alguns – por motivos óbvios – não se mostrou grande desafio. “Ele nem acreditou que eu era virgem mesmo. Me senti um buraco negro”, brinca.

“Esperava

algo

pior,

mas

foi

bom,

especialmente para uma primeira vez”. Krum se descobriu e, mais importante, se aceitou mesmo antes de ter experimentado os cantos e as curvas de um corpo alheio. Assumiu-se para a mãe sem nunca ter estado com outro homem. E apresentou, para mim, uma identidade não sólida – flexível como qualquer outra – mas pronta para

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defender os princípios que ele havia estabelecido para si. O mais importante deles talvez não seja exatamente ser gay no sentido como o conhecemos hoje; mais próximo, provavelmente, do que ser “gay” fosse à época em que essa era uma palavra inglesa para definir uma pessoa alegre. Sua principal diretriz, ao se assumir homossexual (que envolve mais do que contar isso a seus parentes por telefone; envolve também se sentir bem em dar a bunda no sexo, sem as neuroses que podem acompanhar o ato) é apenas isto. Ser feliz.

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Jogo de azar 1 a.ca.so SM (a+caso) 1. Acontecimento incerto ou imprevisível;

sucesso

imprevisto,

casualidade,

eventualidade. 2. Caso fortuito. 3. Destino, fortuna, sorte.

O Bate-Papo UOL é palco de cenas previsíveis, representações que passam a ser comuns aos usuários, como a identificação, pelos nicks, de quem tem um comportamento compatível com o que se busca. Mas também é um pouco a festa do improvável, do que somente aconteceria ali e que não existiria caso o participante estivesse em qualquer outro lugar – ou aba do navegador. Nele é preciso ficar atento, mas também é bom se deixar levar.

91


De olho aberto, mas ao mesmo tempo com a cabeça

relaxada.

Esse

foi

o

meu

status

de

pesquisador. Eu estava na defesa (não buscava necessariamente encontrar pessoas para namoro ou sexo, embora o segundo tenha, é claro, acontecido durante o período) e no ataque (abordava, inquiria, queria e não deixava certos caras em paz em busca de conteúdo para meu trabalho). Mas foi sem esforço que alguns acasos apareceram ao longo do processo de apuração. Um desses compôs um bordado de três linhas, ligando as pessoas que aparecem nesse capítulo. A união delas, na verdade, é mais clara para mim e muito mais me importa do que para elas e para suas vidas. É como uma peça de arte que existe em minha mente sem que seja preciso existir em matéria. Mas ao invés de criá-la, o que proponho, aqui, em seu lugar, é a composição do que seria a explicação ou justificativa da obra – sua interpretação.

92


Uma interpretação, como venho dizendo desde o início. A minha.

2

Em sua volta da escola para casa, P_27, à época um garoto de 16 anos baixinho, moreno e de cabelo raspado, gastava, em média, 20 minutos. Era um caminho meio a esmo que percorria sozinho, sempre, sem nunca se perguntar o que acontecia no estômago

das

ruas

por

onde

passava.

Provavelmente, em alguns desses dias, ia remoendo um pouco o que aconteceu na instituição de ensino: estava começando a sentir aquela coceira que por fim recebeu o nome de puberdade e, com isso, alguns pontos foram surgindo. Como, por exemplo, o olhar dirigido aos meninos, não de cobiça, apenas de curiosidade (o desejo de verdade apareceu,

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talvez, quando viu um pênis pela primeira vez num filme pornô). Num desses dias, P_27 recebeu uma proposta de carona. “O sol tá quente”, disse o sujeito. Rejeitou. Mais uma vez, em outra semana, o mesmo cara. Alguma coisa o atraía naquele jogo, ainda que a resposta tenha sido “não” para as ofertas. Por fim, após mais uma abordagem, P_27 resolveu aceitar. Queria experimentar a puberdade. “Começamos a dar uns beijinhos, assim, ele pegou no meu pinto, eu peguei no pinto dele... Aquela coisa de um sarrinho muito básico, muito inicial, tipo „Gozei!‟. Porque nunca tinha feito nada, enfim. Ele devia ter o dobro da minha idade. E aí fui pra casa com um nojo, assim, muito nojo. Tipo, cheguei em casa, tomei um banho e passei um sabão que eu queria tirar a minha pele”. A reação de P_27 pode ser considerada comum, se levarmos em conta as referências

94


negativas que um adolescente recebe a respeito de sentir

atração

por

pessoas

do

mesmo

sexo,

sobretudo em ambientes escolares, onde certos colegas tendem a ser legitimamente cruéis. A culpa do gozo, porém, não o perseguiu por muito tempo; pelo menos não mais que os motoristas oferecendo carona. P_27, apesar do episódio de repúdio (ou vai ver por causa dele, reprimindo por/para querer ainda mais), acabou aceitando outra vez. “Passou quinze dias e apareceu outra pessoa no mesmo lugar. E aí eu fui descobrir que era um local de pegação. Então a descoberta da minha vida sexual foi muito nesse ambiente, assim, desse sexo nem tão sexo, dessas coisas sarrinhos”. Sexo nem tão sexo. Difícil encontrar definição melhor para certas relações não somente de chat, mas que o povoam. E que saiu da boca de um de seus usuários. Talvez, acredito, porque ele falava da própria história e as pessoas conseguem

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ser


brilhantes (e concisas e estranhas e únicas) quando contam sobre si. E não que P_27 tenha pronta uma definição do que é sexo (com indicações de que buracos do corpo devem ser usados). Acho que ele fala mais de um sexo com falta de. Não ausência de “amor”, a sacra matéria prima, ou “paixão”, a substância transgênica. Algumas relações, casuais ou duradouras, faltam em. E produzem um sexo que não chega a ser. Um sexo-não-é-pra-tanto.

3

As aulas de yoga que Abel leciona talvez tenham sido cruciais para a sobrevivência de nossa amizade. Paciência foi uma exigência ferrenha de minha parte para este sereno rapaz de 27 anos, que aguardou, por quase uma hora e meia, pelo surgimento de um estranho da internet já habituado com uma vida de atrasos persistentes. Isso sem

96


contar as inúmeras SMS trocadas para combinar os horários e locais mais bipolares do mundo – decidimos, finalmente, por nos encontrarmos na Praça da Liberdade. “Em

que

local

da

praça,

exatamente?”,

pergunto eu. “Me procure debaixo de alguma sombra”, foi a resposta. Insatisfeito com a abstração do nosso ponto de encontro (apesar de ter achado a sugestão simpática o suficiente), indico um lugar mais específico. E acrescento uma mentira: “Vou demorar um pouquinho...”. Mas não falhou: longos minutos e uma caminhada pela Rua da Bahia mais tarde, lá estava ele. Plácido e com um sorriso pronto, saído do forno. “Cê tá bem?”, pergunta. Cansado e suado, respondo: “Com sede”. Atravessamos a rua e paramos numa fonte de água potável. Irrequieto, saio com

ele em

busca de um

banco onde

pudéssemos bater um papo e eu conseguisse me

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saciar plenamente. Minha mente, ainda de garganta seca, queria se molhar em respostas. Abel é morador de um dos vários municípios vizinhos a Belo Horizonte que mantém contato esporádico com a capital. Como muitos – como eu, inclusive –, ele optou por continuar residindo com os pais numa idade em que a maioria sai de casa em busca de maior independência e privacidade, ainda que isso significasse certa intromissão familiar e mais tempo perdido com um transporte público pouco justo mesmo com quem vive em áreas mais centrais. Nunca houve interesse de sua parte em comentar sua sexualidade com a família, escolhendo a velha política do “Não me pergunte e eu não conto”. Anos atrás, houve uma tentativa de nova vida: resolveu dividir apartamento com um colega na região da Pampulha. O imóvel era pequeno e relativamente barato para a localidade (R$700,00

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mensais). Era ok. Mas o apetite sexual do parceiro de contas fez com que, aos poucos, Abel começasse a cogitar o papel de filho pródigo. “Todo dia eu acordava com um cara diferente andando pela minha casa”. Juntou as coisas, pegou a mala e voltou para os braços da mãe, que ficou satisfeitíssima. Sua atitude, em minha cabeça (sempre imersa numa névoa de gostosa confusão e adrenalina durante um

primeiro contato), o coloca num

departamento específico dos usuários de chat: o daqueles que buscam relacionamentos sérios, que tenham como objetivo a longevidade, e fogem dos assaltos sexuais relâmpagos. Claro que isso é o mesmo que reduzi-lo ao significado isolado de uma frase dita ao acaso de uma conversa com um semiconhecido numa agradável tarde no Centro de BH. Mas é irresistível, no processo de conhecer pessoas da internet, que ocorram essas tentativas de encaixe e construção. Um jogo válido se as conclusões forem

99


apenas

flexíveis

apostas

com

predisposição

a

futuras – e inevitáveis – mudanças. Mas, naquele momento, Abel poderia muito bem ser “27_namoSÉRIO” para mim. Suas tentativas românticas, iniciadas com joguinhos entre primos, passou por fases em que ele namorou duas mulheres, por períodos de um ano e três meses, até chegar às relações de chat. Num desses casos de antes do Bate-Papo UOL, Abel vivenciou uma pequena fábula de aventuras físicas com um colega de cursinho pré-vestibular. Alguém que, por um momento, era só mais um relato na sua narrativa para mim, mas que acabou se tornando Sério29, um novo personagem desse livro.

4

De acordo com a história que Abel me contou, o Edifício Dantes, no coração de Belo

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Horizonte, abrigou, por volta de 2003, um cursinho pré-vestibular em um de seus andares, conhecido trampolim de jovens que estão saindo do ensino médio e pretendem entrar em uma faculdade. Foi nessa época que, num dia comum, ele, aspirante a estudante de Artes Visuais e outro aluno da escola, que queria tentar Letras, pegaram uma saída diferente após as aulas – ao invés de descer, subiram até o último andar, à época desocupado. Abel se recorda com carinho do tempo em que ele e Sério29 descortinaram um romancinho gostoso, quando ambos queriam muito e com tanta intensidade: “Tinha essa coisa meio mágica de descoberta, desafio. Foi legal. A gente conversava, trocava ideia, e foi se constituindo, para mim, o que era gostar de alguém do mesmo sexo”. Entre os dois as coisas tentavam se ajustar às regras de um

e outro.

Enquanto Sério29,

experiente, queria intensificar os amassos, Abel

101


preferia manter um nível de intimidade que não extrapolasse para contatos físicos mais profundos. “Eu tinha que ir com calma, porque notei que ele era um menino bem tímido”, relembra Sério29. “Ele foi a coisa bonitinha que eu não tive na adolescência, já que meu namoro anterior tinha sido bem sexual. Sexo era a razão pela qual ele existia”. Os dois se uniram através dos desenhos que Abel fazia (e que o levaram a optar pelo curso de Artes Visuais). E foi uma de suas figuras artísticas o presente escolhido para oferecer ao companheiro de classe quando o namorinho chegou ao fim, com a aprovação de Sério29 e a reprovação de Abel. O desenho de uma ampulheta quebrada, para Sério29, simbolizava o tempo que havia passado e nunca mais voltaria. Era a perda de uma época. Ficou, de sobra, uma boa amizade, que durou o suficiente para que um puxasse o outro para este livro.

102


5

“Eu me lembro de assistir àquela peça do Caio Fernando Abreu, chamada Aqueles Dois, se eu não me engano, em que um dos personagens vira e fala que a sua lembrança gay mais antiga seria dele assistindo Peter Pan. E que ele não tinha vontade de fazer nada sexual com o Peter, além de dar aquele abraço loooongo e dançar com ele, como no desenho. Eu tenho uma lembrança parecida, porque filme de infância para mim é A Pequena Sereia. E eu queria ficar com o príncipe Eric. Mas de forma alguma eu queria ser a sereia, eu me imaginava um tritão, mas queria a figura do Eric. É nessa hora que eu penso, né, „Nossa, desde criança‟.” Sério29 não demorou a conhecer um Eric alternativo, amigo de uma amiga, quando tinha 16 anos. Esse primeiro relacionamento, produtor de 48 meses,

proporcionou

a

realização

103

de

diversas


fantasias e o apresentou a um sexo sem pudor e sem amarras. O chat passou a existir na relação como uma presença não exatamente bem-vinda, mas que os dois concordaram em não ignorar. Quando terminaram, aceitando o inevitável, Sério29 passou a ser um participante frequente de plataformas online (hábito que ele levaria para temporadas onde viveu nos EUA e Canadá). É engraçado que sua lembrança mais velha de uma homoafetividade incipiente envolva Ariel, uma das princesas Disney mais obstinadas na busca pelo seu amor. Na história adaptada para o desenho, a sereia abre mão de sua voz para obter pernas no lugar de sua cauda – mas precisava, dentro de um curto espaço de tempo, convencer Eric a beijá-la, mesmo sem poder pronunciar uma palavra. Cabe aos seus gestos e seu jeito carismático. Uma dinâmica um pouco parecida com o que acontece nos chats, onde a conquista flui por

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formas alheias aos métodos convencionais da troca de olhares ou de um conhecimento físico prévio. Quando o pergunto por que ele não gosta dos aplicativos para smartphone, Sério29 responde que prefere o flerte através do contato verbal antes de mais nada, o que demonstra sua predileção por uma paquera diferente e por homens mais eloquentes. “Nos apps, você é julgado no sentido de „Whatyousee is whatyouget’. Então, eu tô ali pra ser visto, tô na vitrine, e é a única chance que eu tenho de impressionar alguém. Na balada às vezes você conhece algum cara, é até legal aquela coisa física, mas no momento em que a pessoa abre a boca, você já desanima. No chat, como eu gosto muito da palavra, eu tenho a oportunidade de trabalhar com isso primeiro.” Sério29 fala com propriedade do chat UOL, local que se tornou a principal fonte de seus relacionamentos nos últimos anos. Ele já reconhece

105


tipos, regras e sabe dançar segundo as melodias que são propostas – seja no intuito de se esquivar, seja no de aprimorar mais os passos. “Eu acho que você vai encontrar pessoas mais saudáveis no final de semana. Porque, por exemplo, esse cara que não trabalha, ou que está olhando do trabalho, é o perfil do homem casado ou do adolescente, que não vai atender as minhas necessidades de depois daquele encontro”, explica, experiente. Passivo nas suas relações, Sério29 usa como norte de sua busca a questão “Procurando o quê?”. É da resposta para esta pergunta que ele tira o conteúdo com o qual analisará se deve ou não continuar a

conversar

com

os

sujeitos.

“Isso

costuma revelar muito mais do que o „Quantos anos?‟ e „Mora onde?‟. Porque aí o cara fala: „Ah, o que rolar‟, e você já muda a acentuação da palavra: ele quer é rôla.”

106


Que é, claro, o que ele também deseja, em algum momento. Mas o que fica entendido, nesse tipo de troca inicial, é que quem fala demais em genitais os quer em grande número, enquanto quem deixa para conhecer o corpo

do

outro num

momento de mais intimidade prefere ter um pinto fixo (e todos os outros órgãos, evidentemente, incluindo o coração).

6

P_27 tem, como diz seu nick, vinte e sete anos

de

idade.

Não

cresceu

tanto

desde

a

adolescência e hoje sustenta 65kg em 1,70 metro de altura. Tem um jeito divertido até quando conta casos dramáticos,

o que me faz

sentir uma

irreverência que é usada como escudo, como forma de ir levando a vida.

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Após as peripécias automobilísticas, P_27 passou a ter relacionamentos um pouco menos clandestinos; entrou pela primeira vez no chat UOL, encontrou amigos gays e começou a frequentar bares e clubes. Namorou por oito anos sem nunca precisar assumir o relacionamento como conjugal para a família – que sabia de tudo, ele reconhece, e com razão. Alguém que nunca namorara de repente fica amigo de um sujeito por tanto tempo, além de viajar, passar noites fora e fazer uma infinidade de outras

atividades

com

ele.

Não

havia

uma

necessidade de esconder, mas existia, sim, uma administração do que podia ser dito sobre. “Eu sempre discordei da ideia de que eu tenho que chegar e falar da minha sexualidade pra alguém. Porque ela é minha e eu não tenho que ficar a justificando. Quando o cara resolve casar com uma mulher, ele não chega pra família e fala „Pai, mãe, eu sou heterossexual, eu namoro com a Natália.‟

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Ninguém faz isso. Por que o gay tem que chegar e fazer isso? Nunca achei que a nossa sexualidade tinha que ser justificada – você tem que vivenciar ela. Eu assumi pra mim, a minha sexualidade, mas para os outros eu nunca dei importância. Tanto é que quando eu contei pra minha irmã e pra minha mãe foi por uma outra circunstância, não por estar namorando”. A circunstância, no caso, foi o término da relação. O acontecido abalou P_27 e o obrigou a usar o termo que tanto evitou por anos: era, por fim, gay. A irmã, claro, disse que já sabia e que sempre esperou que ele contasse. Já no último ano do relacionamento, P_27 voltou a usar o Bate-Papo UOL e fez uma conta no Scruff (“É Iscrâfi que diz, né? Eu tenho um amigo que fala Iscrúfi!”). Quando tornouse solteiro por definitivo, rendeu-se a todas as artimanhas possíveis: Hornet, Grindr e até o Tinder. “Mas Tinder não é mais hetero?”, pergunto.

109


“Não! Bom, pode ter sido...” “Tem também o GROWLr...” “Ah, mas esse é pra ursinhos... Eu sou uma pessoa

de

um

leque

amplo,

não

descarto

a

possibilidade, mas não é comum para mim”. É

o

começo,

em

sua

vida

agora

profundamente alterada, de uma nova temporada de alta atividade sexual e afetiva, cujo emblema poderia muito bem ser a citação que ele rebuscou de um amigo. “Eu não tenho tipo, eu tenho pressa!”.

7

Abel

sempre

se

interessou

mais

por

relacionamentos nos quais pudesse contar com um pouco de esperança que fosse de que as coisas iriam dar em algum lugar. Isso talvez tenha feito com que ele se tornasse exigente demais, o que explica as “sabotagens” praticadas contra os namorinhos que

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vivencia, usando de detalhes mínimos como razões irrefutáveis para terminar com os sujeitos. “Minhas histórias acabam sempre com três, quatro meses. Elas seguem um padrão no qual venho pensando muito. Do tipo: „Por que essas coisas não duram?‟ Ou duram pouco... Eu penso assim: o bate-papo afunila, seleciona, então você tem ali uma prateleira, você olha se combina, se não combina, o que é muito diferente do cotidiano. Acho que não só para mim, como para eles, ficou muito mais fácil de deixar de lado”. Seu último caso de chat, com um professor universitário de 33 anos, foi o ápice daquilo que ele chama de “quebra” (o rompimento abrupto de um relacionamento ainda novo) e que atribui às relações de origem online. “Com ele rolou muita afinidade e, três dias depois do bate-papo, a gente se conheceu fisicamente e ele me pediu em namoro”. Abel ficou com um pé atrás, mas decidiu acompanhar o sujeito

111


à festa de uma amiga, onde, para sua surpresa, foi apresentado como namorado de um cara que conhecia há menos de 12 horas. “Depois de três semanas, ele começou a me chamar de marido. Era algo que não tinha sido construído para mim ainda, mesmo depois da primeira noite num motel. Aí, num fim de semana em que eu estava estressado, fui meio grosso pelo telefone e tal. Ficamos um tempo sem conversar”. O resultado do episódio “meio rude no celular” foi uma mensagem quilométrica enviada pelo “marido” via Facebook, dizendo que Abel precisava resolver suas neuras. Ciente de sua tendência a ser categórico demais com problemas às vezes simples, Abel se desculpou e demonstrou interesse em ver o outro de novo. Tarde demais. “Ele disse: „Olha, não é mais o que eu quero, fiquei desmotivado‟. E me deixou pensando na solidez do

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sentimento dele, porque como é que muda em uma semana, „já não quero mais‟?”. A desconfiança de Abel quanto às pilastras que sustentam os relacionamentos online tem justificativa: além do professor-esposo-instantâneo, ele encontrou ainda outro rapaz bem rapidinho no gatilho e que só fez aumentar suas dúvidas com relação aos homens do chat.

8

“Nos meus primeiros meses de retorno ao status de solteiro, eu precisava do UOL e de aplicativos por uma questão de auto-afirmação. Precisava massagear meu ego, eu queria ter pessoas me querendo. Então eu abri meu leque pra encontrar diversos caras, talvez não muito interessantes, mas eles tinham interesse em mim, sabe? Aquilo mexia”.

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P_27 saiu abalado do último relacionamento, longo o suficiente para deixar feridas que ele tentava tapar com os band-aids encontrados em aplicativos e no chat UOL. Passou a vivenciar muitas histórias sexuais, onde alternava entre ser ativo e passivo, e numa dessas tentativas de recuperar o que quer que tivesse perdido com o término do namoro ele acabou se colocando numa situação que o deixou ainda pior. É que o que devia ter sido só mais uma noite de pegação habitual se transformou numa confusão em sua cabeça quando ele sentiu a camisinha estourar. O outro, depois que o fato foi percebido, viu-se obrigado a contar um detalhe mantido às escuras até então. “Olha... a gente vai ter que ir ao hospital, porque eu sou HIV positivo”, disse. P_27,

imerso

em

susto,

seguiu

as

recomendações médicas e iniciou o tratamento padrão para quem passa pela situação de acidente

114


entre casais sorodiscordantes – começou a tomar remédios que impediriam que uma possível infecção ocorresse. “Mas lá descobri que o passivo pode ser relativamente mais vulnerável”, lembra. Ainda que tivesse sido o ativo da noite, P_27 teve que se submeter à quimioprofilaxia, um tratamento pesado para seu organismo (causou forte diarreia), o que definitivamente não melhorou sua autoestima. Para seu alívio, entretanto, os exames subsequentes apresentaram resultado negativo. “Quando eu ia à boate, via aquele cara bonitinho, que esnobou todo mundo a noite inteira, entrando numa darkroom no fim da festa. Depois você o encontra no chat e pode até acabar chupando o pau dele sem saber por onde passou”. Atualmente P_27 se diz “tranquilo”, do tipo que conversa mais e marca encontros de menos – uma decisão que tem a ver somente com processos internos e pessoais que dizem respeito ao que ele quer da vida no momento,

115


não com um moralismo que se instaurou após o incidente da camisinha. “Há uns quinze dias, alguém me propôs um encontro casual e eu falei „Não‟, e era uma pessoa muito interessante. Isso tem se tornado cada vez mais recorrente”, ele afirma, com certo orgulho. “Mas isso aqui”, e balança o celular, “é de Satanás, né? Não é de Deus. Você passa o dia todo querendo que alguém diga um „Oi!‟e tal, e, quando finalmente senta pra se concentrar num texto e estudar, recebe várias notificações dos aplicativos”. Toda tranquilidade tem um preço.

116


9

a) O acontecimento incerto Descobrir amigos em comum no Facebook é quase sempre surpreendente. A maioria das pessoas na rede social já passou pela situação de encontrar laços onde não havia nenhuma pista que indicasse o fato – é a vizinha que conhece sua ex-namorada, o primo que mantém relações com seu chefe, a militante da faculdade que curtiu um post do cara mais machista da academia. A primeira pergunta a vir à mente é: de onde veio isso? Não foi diferente quando eu, passando por perfis de conhecidos, percebi que duas pessoas até então improváveis tinham adicionado uma à lista de amigos da outra. A história repassada a mim, a princípio, foi de que ambos tinham se encontrado por intermédio de uma terceira entidade. Mais tarde, porém, durante uma entrevista, Abel admitiu que

117


sua relação com P_27 fora mais uma peripécia de meu cupido trapalhão preferido: o Bate-Papo UOL.

b) O caso fortuito É surpreendente, mas nem tanto, que os dois, sem saber de nada, tenham se encontrado ali. Se BH é um ovo, como os mineiros gostam de dizer, o chat é outro – só que de codorna. Mas mesmo assim o ocorrido não deixa de me espantar. Ou, pelo menos, de

me

fazer

refletir

quanto

ao

perfil

de

entrevistados que selecionei. Outro ponto que me instigou foi a diferença de perspectivas apresentadas por ambos a mim – e que de fato se mostrou certo empecilho ao curto relacionamento,

como

Abel

revelou.

“Saímos

algumas vezes e ele me pediu em namoro. Aquelas loucuras”, diz.“A gente começou a namorar. Achei meio corrido, eu já tava com aquela dúvida, mas fui

118


vendo a coisa. Fiquei uns dois dias meio assim, „em quê isso vai dar?‟”. Foi

que

comparações

com

o

antigo

namorado de P_27 (aquele mesmo) começaram a mitigar o interesse de Abel. Eram cobranças quanto aos lugares que frequentava, ao seu jeito de vestir e de falar. “Ele disse que eu era como a casa nova e ele ainda estava tateando pra saber onde estavam os apagadores”, lembra Abel.“Eu respondi que não era a casa antiga e nem ia ser. Que ele tinha que começar a pensar se não estava se espelhando num relacionamento velho pra se envolver com as pessoas”. Depois disso, Abel foi desqualificado de recém-namorado a “peguete”, o que, por fim, acabou esfriando de vez a relação. A verdade é que esses dois terem

se

conhecido ressaltou ainda mais a magia lotérica presente nos bate-papos: ali você encontra de tudo e

119


qualquer um. Desde um doido fazendo um livro sobre a plataforma à colaboradores da dita obra.

c) O destino No dia em que tive a conversa com Abel onde a origem de seu caso com P_27 foi revelada, eu o deixei

à

porta

do

cinema

para

assistir

a

Ninfomaníaca, de Lars Von Trier. Até brincamos, na noite anterior, sobre como aquele seria um dia de reflexão acerca do sexo e sexualidade. E foi mesmo. Abel bem que rebuscou e remoeu cada lembrança, cada

caso,

e

provavelmente

(longe

de

mim

considerar-me um terapeuta ou tão pouco um bom diretor de cinema) soube tirar proveito de seu extenso relato, assim como fez a protagonista Joe. Eu não teria a mesma visão purista que o velho ouvinte do longa-metragem, muito menos minhas palavras. Eu era, ali, um companheiro de aventuras. De qualquer forma, foi um pouco essa

120


ideia da autobiografia oral de divã – com uma vã promessa libertadora – que atraiu Sério29 para meu projeto. Ao chegar em casa, Abel entrou em contato com o antigo amigo via Skype para falar sobre o filme e, de quebra, nossa conversa. Sério29 ouviu com interesse quando ele contou sobre um certo livro-reportagem que tinha a proposta de narrar as relações gays oriundas de chats, algo que sempre tivera um papel importante em sua vida. Desde que terminara com o primeiro namorado, a maior parte de suas experiências posteriores veio dali. No dia seguinte, recebi uma mensagem de Abel me comunicando do interesse do colega. “Lembra do Sério29?”, disse. Enviei ao sujeito, então, um e-mail, dizendo-me com certa urgência, pois já estava terminando a etapa de apuração.

Não

demorou para que iniciássemos um diálogo no

121


WhatsApp, que evoluiu para uma longa conversa telef么nica e findou em mais uma das entrevistas.

122


Um relato bêbado 1

O processo de aprendizagem de si mesmo, com a descoberta da sexualidade (homo ou hetero ou bi ou trans ou qualquer que seja), é, claro, extremamente pessoal; é parte da identidade de cada um. Aceitá-la mas não verbalizá-la; verbalizá-la para aceitá-la; escondê-la até onde for possível; escondê-la para que seja possível praticá-la; praticála, aceitá-la, verbalizá-la em partes e escondê-la parcialmente, tudo ao mesmo tempo. São todas formas

possíveis,

entre

tantas

outras,

de

se

experimentar desejos, sensações, ideias (próprias e alheias) e ações. É perfeitamente plausível que Krum tenha preservado seu direito ao silêncio, ainda que os

123


indicativos (a ausência de namoradas e a preferência sempre

por

músicas

pop

muito

animadinhas)

falassem mais alto. E pode parecer estranho que Cinquentão

tenha

passado

tanto

tempo

o

equivalente à referência de seu nick – sem se envolver

com

outros

homens,

sobretudo

para

alguém que não vê problema algum em afirmar, durante uma entrevista: “Comecei no chat cedo, por volta dos 18 anos. Já chupei muito pau nessa vida, se quiser pode colocar isso”. A afirmação pode ter vindo seguida de uma brincadeira

meio

moralista

(“Isso

saiu

muito

promíscuo, quero parecer normal no seu livro”), mas MorenoVN

passa

a

sensação

de

um

sujeito

perfeitamente aberto e saudável com relação ao que pensa de si e de sua sexualidade. “Você tá me perguntando se eu marcava, tipo, sexo? Marcava, filho. Não tinha tempo a perder não. Tinha um leão dentro de mim que se chamava puberdade”, brinca.

124


Não dá para negar que MorenoVN é, também (pelo menos num primeiro momento), um personagemespetáculo – que gosta de ouvir como soa o que diz. Penteia cada palavra como quem arruma o cabelo antes de ir a uma festa. Sua relação com a família sempre foi a mais autêntica possível. Nunca sentiu que havia um intenso drama por trás do fato de ser gay. Não teve grandes problemas em se assumir e sua mãe até conhece seus namorados – em geral os adora. Passou um tempo fora de casa por causa de conflitos com o pai, mas não tardou em retornar para o lar que abriga, também, uma irmã lésbica. MorenoVN não precisou buscar nas ruas o que sempre

encontrou

em

sua

residência;

pertencia, sem medo, a um grupo de afeto.

125

ali

ele


2

Fazer parte ou não de uma comunidade nunca foi grande dilema para Romântico_Sonhador. Na adolescência, segundo ele me explicou, sua identidade floresceu entre os muros de um beco de sua cidade natal como se estivesse assim destinada a ser. O local, afastado e pouco frequentado, foi palco do beijo que iniciou sua carreira na busca por um parceiro ideal. Então com 16 anos, Romântico saiu de casa para encontrar um desconhecido ainda mais novo, de 12, outro provável jovem desbravador dos mistérios do corpo. O desconjuntado toque das línguas – alta carga de saliva e bem pouco tesão – precedeu 24 meses de espera, em que Romântico se preparava para o momento. Facilidades como o upload de uma imagem com pose fotogênica e bem editada, aliada a um nick criativo, num aplicativo com GPS capaz de localizar

126


pretendentes por raio de quilometragem passavam longe de Romântico em 2006, ano em que começou a ter contato com outros gays. O chat nessa época, para ele, funcionava por serviço de SMS, com custos calculados por mensagem enviada e recebida, de acordo com a tabela da operadora utilizada. Sem oportunidade para troca de fotos, o jeito era usar as palavras como isca num anzol hoje considerado antiquado. Boa conversa, em português corretíssimo, aliás, tem uma importância enorme para Romântico – vem logo depois da qualidade da foto de rosto, primeiro item observado na escala de preferências atuais.

“Erros

básicos,

tudo

bem.

Mas coisas

gritantes não. Vi até o perfil de um menino bonito no Badoo que dizia assim: „Procuro pessoas que seje carinhoso’. Pronto, acabou! Nem olho”. Mesmo com uma

exigência

muitas

vezes

ignorada

pelos

usuários, Romântico persistia no diálogo com

127


interessados,

sempre

com

um

atrás.

A

desconfiança de mineiro foi se rarefazendo à medida em que ele avançava no conhecimento de si mesmo e só foi fazer falta anos depois, quando uma entrega

rápida

relacionamento

e

intensa

ainda

demais

verde

o

a

um

marcou

profundamente.

3

“Então, se você tivesse gozado...”, eu digo. “... a gente não estaria aqui.”, ele completa. Esse

pensamento

surgiu

quando

eu

e

MorenoVNconversávamos num dos bares no Edifício Maletta, durante um sábado agitado. Uma terceira pessoa (um primo), sentada à mesa, mexia no iPhone recém adquirido, com pouco interesse ao que falávamos. MorenoVN parecia meio desconfortável com a situação, bem diferente de como tinha se

128


mostrado online, e o diálogo pendia entre assuntos aleatórios que nos orbitavam e o tema que nos pusera ali. Foi nesse insosso bate-bola que chegamos à conclusão de que não teríamos mantido contato por tanto tempo se tivéssemos atingido o sexo, dado que ele fazia questão de esquecer todos os caras que conhecia pelo chat UOL e com quem transava. Essa foi uma daquelas raras ocasiões em que não ter tido um orgasmo surgia como uma alegria. Desde que pensei em incluí-lo neste livro (como

um

personagem

que

eu

não

somente

conhecia anteriormente, como tinha como amigo), acreditei que não teria problemas em descrever MorenoVN.

A

pré-apuração,

por

Facebook,

confirmou essa sensação de confiança que eu estava cultivando. Ele estava solto, sem amarras, e parecia bem disposto em colaborar. “Você já está me entrevistando? Só pra saber. É que imaginei algumas

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perguntas numa mesa de um bar, com um clima mais boêmio. Não quero ser entrevistado pelo „Face‟”, foi o que disse à época. Eu tinha tudo para acreditar que as coisas iam bem. E assim foram, até o ponto em que a conversa que deveria ser a mais fluida de todas travou. E nem uma ajuda etílica a desamarrou para o meu gravador frustrado – na verdade, a pequena luta entre as garrafas de Heineken e meu estômago relativamente vazio resultou no ato falho de deletar o áudio que eu tinha conseguido com grande esforço. Ele me consolou dizendo que estava tudo na minha cabeça. Discordamos quanto ao conceito de “tudo”. Daquela noite, três elementos ficaram de fato em minha mente. Cheguei em casa, ainda meio bêbado, e os registrei no notebook. São eles: 1) cintura; 2) real e 3) Kaiak.

130


4

Romântico

sempre

tentou

deixar

claro

suas

intenções, fosse pelo nick que usava, fosse dentro das conversas que iniciava. Era um moço para casar. Quando

ele

oficializou

um

certo

namoro

no

Facebook, acompanhei por fora como as coisas se desenvolviam. Ele parecia bastante envolvido e a relação caminhava a passos largos. Não era estranho que a rede social fosse uma espécie de santuário do relacionamento, já que era graças a ela que os dois estavam juntos. Depois de passear

por

diversas

plataformas

(e

inclusive

investir uma pequena quantia monetária para se tornar mais visível no Badoo), Romântico resolveu apostar no Spotted UFMG. A

página,

de

funcionamento

igual

em

diversas universidades do país, era um correio do amor virtual, um quadro de vagas para desejos não

131


ocupados

onde,

anonimamente,

qualquer

um

poderia anunciar e acompanhar os resultados através dos comentários. Romântico não tinha nada a perder. Com o anúncio, alguns caras entraram em contato, mas a maioria não agradou muito. Um, entretanto, se destacou, sobretudo pelas ações posteriores ao contato digital: quando saíram pela primeira vez, a um restaurante, Romântico, bastante nervoso, foi acalmado pelo toque do outro, que disse que “tudo ficaria bem”. Apaixonou-se ali mesmo. Bonito e promissor, mas não foi precisamente bem que Romântico ficou quando, um mês depois, o namoro acabou. Foi uma interrupção surgida do nada e que o arrastou para um marasmo de sensações coletivas. Espectador do início da relação, acompanhei também as postagens meio pra baixo que Romântico passou a despejar no Facebook

132


(mesmo com o ex presente). Não havia muito que eu podia fazer, como amigo, nem como voyeur da história toda. Mas foi no meio da bagunça em que ficou a cabeça de Romântico que eu descobri uma poderosa força de sua vida: a relação com a mãe. Desde que ele

alterou

o

status

de

“solteiro”

para

“comprometido” com outro homem e postou uma foto fofinha dos dois juntos, eu a via comentando e apoiando o filho, numa demonstração pública de carinho e defesa que alguns entes de família relutam em oferecer em casos como esse. Mesmo meses depois, se Romântico tivesse uma recaída numa postagem deprê, ela trazia algum trecho de Clarice Lispector (ou atribuído a) com liçãozinha de vida e de dar-a-volta-por-cima nos comentários. Os contornos de espetáculo que tomou esse curto mas marcante relacionamento de Romântico são um espelho de como as coisas são para ele

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nessa área (ou, quem sabe, em todas): intensas. Um pulo no fundo, de cabeça e sem medo. Que é, de fato, como diria Vander Lee, a receita básica de todo romântico de verdade. E o cantor acrescentaria ainda outro detalhe: são loucos e poucos.

5

“Da cintura para baixo todo homem é igual”. Não era o álcool falando. MorenoVN bebeu muito naquela noite, mas não passou dos sucos. Do pouco que, longe do Facebook e do incentivo de, digamos, uma caipirinha, ele resolveu contar, essa foi uma parte importante de sua fala. Que ele conheceu bastante gente da internet, em casos que não exigiram muito de seu tempo ou do seu poder de

escolha:

estando

lá,

em

frente

à

bunda

(MorenoVN se diz estritamente ativo) cujo dono até pouco era um nick, a vontade e o prazer seriam os

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mesmos que com outros corpos. “Ah, tesão havia. Isso não faltava.” Tanta versatilidade tinha, porém, um limite: o dia seguinte. Lembranças do que ocorrera e como acontecera foram sutilmente engavetadas dentro da mente de MorenoVN – levando, talvez, ao bloqueio que trancou nossa conversa. Não me pareceu, entretanto, produto de culpa (não há moralismo em sua fala); era nojo mesmo. De quem aceita comer o que não provaria em outras situações por fome apenas. “Nojo das pessoas, do ato em si e até de mim mesmo. Porque eu sabia que poderia matar o meu tesão com uma masturbação”. É talvez o que ainda ajuda a manter a ideia do desespero acerca dos chats: a dinâmica de quem usa o nick “Real_Agora” (demonstrando pouca paciência para enrolação e muita agilidade e disposição para um encontro numa realidade que se constrói fora de ambientes online – para sexo).

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Quando MorenoVN me conta de suas reações nas manhãs posteriores, me vem à imagem de um grande e criminoso Big Mac. De um sexo bom (porque fastfood pode ser gostosa), mas não exatamente o tipo de coisa que ele pediria todos os dias no jantar, sobretudo acompanhado de um perfume Kaiak. A fragância, usada por um dos sujeitos com quem ficou, até hoje lhe embrulha o estômago. Não por ser de mau gosto, só por associação a uma noite que ele preferia esquecer. É só sentir por perto que ele tem vontade de sair correndo. Isso me faz pensar ainda mais nos detalhes a que ele se apega na tentativa de repudiar os homens de chat. Um psicanalista, obviamente, esclareceria melhor sua aversão, mas eu fico feliz por, mesmo sem explicação, não ser objeto dela. Uma coisa, por certo, estava a meu favor no dia em que nos

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conhecemos: o fato de que eu nunca gostei muito de Kaiak.

137


Parte 3 A hora do encontro... 1

a) Quantas velinhas já assoprei Ele havia se preparado para aquele dia (afinal, encontrar um match, alguém que se encaixasse em todas as prerrogativas, não era exatamente fácil). Sabia que a maturidade, tão mal vista por alguns, seduzia certos jovens, inclinados a gostarem de sujeitos mais velhos, sobretudo um coroa bem resolvido, atraente, com casa própria e aberto sexualmente como ele. Isso sem falar em toda a experiência em relacionamentos a dois que tivera, não importa se

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com mulheres. No fundo aquilo que ele procurava não exigia ensaios; aliás, era exatamente o improviso que dava cor e tempero à coisa. E mesmo que conhecimento prévio no assunto fosse necessário, pelo menos boa parte da cinematografia sobre o tema disponível na internet já havia sido degustada com fervor. Não tinham

se visto por fotos quando

conversaram na internet, o que poderia ser um erro, mas tivera a sacada de pedir detalhes de como o outro estaria vestido sem contar qual seria a sua indumentária na ocasião, o que lhe dava a vantagem de poder observar sem ser notado a princípio. Por ser o seu primeiro encontro com estranho de chat, também tomou as precauções óbvias: marcou o acontecimento em frente ao Cine Theatro Brasil, bem na fuça da Praça Sete, no Centro de Belo Horizonte, para não correr risco de cair numa cilada ou coisa parecida.

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Um crime, talvez, pudesse ser evitado dessa forma, mas um engodo não. O ninfeto com gosto por coroas que apareceu no local e hora marcados, com as roupas indicadas, na verdade era um cara que parecia mais velho que ele próprio, usando uma pochete sob a axila, com os cabelos pintados da cor – imagine! – caju e, ainda por cima, fumando. Cinquentão virou as costas instantaneamente e nunca mais falou com o sujeito.

b) La traviata

O jovem iria se deitar satisfeito naquela noite – a conversa com um dos caras do chat tinha sido realmente produtiva. Parecia que ia sair qualquer coisa dali, já que o sujeito era bem interessante (formado em filosofia e, o mais impressionante, cantor de ópera!). Ele achou impossível não se deixar levar.

140


No começo até pensou que não ia dar em nada, já que DomCabralAFim não era exatamente o tipo de nick com quem ele, Abel, conversaria, porque, ao mesmo tempo em que tentava passar uma mensagem (fulano-do-bairro-Dom-Cabral-teminteresse-em-alguma-coisa), não dizia nada. Pelo menos não era da safra dos Pica_Dura, o que, em se tratando do Bate-Papo UOL, já era algo para se comemorar. Acabaram

trocando

telefone

e

se

encontraram algumas vezes. O tal cantor o atraiu tanto que Abel decidiu abrir as portas do escritório onde trabalhava e do qual tinha as chaves. Num fim de semana sem expediente, a única atividade desenvolvida ali foi a dos dois corpos, um dos quais (o de Abel) virgem. A lembrança desse caso em especial é boa e dura até hoje.E, no fundo, até que ser dono de grande potencial sonoro fazia certa

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diferença na hora do rala e rola: era parte do charme que dava gosto ao tempero final.

c) Dá pra pedir outro sabor de pizza?

Todas as providências pré-encontro já tinham sido tomadas – conferiu se as informações do GoogleMaps batiam com o que foi repassado por Real_Agora, com quem conversara há pouco e arrumou-se com o devido cuidado que uma foda de fim de noite oriunda de chat exigiria. A noite de leitura de nicks tinha sido divertida:

Macho...

Quer...

Na...

Bunda?

MachoQrNaBunda! O papo excessivamente objetivo – altura?, peso?, idade?, tamanho da piroca?

–,

característico do Bate-Papo UOL, dessa vez não o incomodara. Também estava se sentindo num dia prático, onde o sexo podia ser o objetivo e o fim da relação.

142


P_27 era do signo de gêmeos, o que permitia uma versatilidade que se mostrava útil quando ele queria descobrir algo completamente novo do que tinha conhecido na semana passada. Geralmente entrava procurando sugestões de relacionamentos que fossem se desenvolver em mais de uma conversa, mas aí mudava de ânimos e colocava logo um nick que chamasse a atenção dos dispostos a sexo rápido. Tirou o carro da garagem e saiu a caminho da casa desconhecida da vez. Sabia que, em geral, os homens ali estão focados demais naquilo que propõem e não têm outra intenção que não aquelas que são combinadas online, por isso não se preocupava mais tanto. Mas aí uma outra variável das relações de chat entrou em seu caminho: a rejeição. Depois de todo o trabalho em se preparar, se deslocar e tudo o mais, foi obrigado a ouvir do outro que o interesse

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não se fazia mais presente, agora que se viam face a face. Resignou-se sabendo que contra o gosto alheio não dava para brigar: sexo sem sabor seria tão ruim ou quase pior que o balde de água fria que tinha acabado de levar no tesão. Deu meia volta e retornou para casa. Não era a melhor das situações, mas ele superaria. Era de gêmeos e logo, logo já estaria em outra.

2

Sair dos chats é uma decisão que muitas vezes

passa

por

várias

etapas

de

interesse,

combinações e aceitações. Quando comecei a usar, era a fase do MSN Mesenger – com e-mail fake, é claro. Lá era o lugar de quem queria desenvolver melhor o que quer que fosse. Com a compra do MSN pelo Skype, os interessados em delongarem a

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conversa passaram a migrar para o novo serviço (também peguei um pouco dessa transição). Mas isso porque eu queria relações menos fugazes

e

que

não

envolvessem

entrar

num

carro/moto estranho no meio da noite. Os adeptos desse tipo de encontro preferem modos mais rápidos de comunicação, como o telefone. Parece até que hoje, com o boom do WhatsApp no Brasil, esse dado se tornou ainda menos pessoal e mais fácil de distribuir (mesmo que divulgar o número de celular num chat ainda seja quase equivalente a escrever a mesma informação num banheiro de bar copo sujo). Os três casos acima, respectivamente de Cinquentão, Abel e P_27, demonstram bem como todos estão expostos a qualquer tipo de situação: desde ser completamente iludido pelas informações cedidas a se encaixar perfeitamente. Os resultados de uma conversa no chat são vários e múltiplos – e acredito, pelo que vivenciei e ouvi, que a maioria das

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histórias passam longe do imaginário do psicopata que fatia as vítimas e joga para os cachorros. Sério29 até faz graça da situação: “Minhas amigas ficam

meio

chocadas,

dizem

„Você

é

louco,

encontrar alguém de bate-papo?‟, e eu falo: „Ih, filha, ali ninguém quer te comer vivo não, ali eles querem comer de foder só‟”. É claro que num universo tão vasto há sempre pessoas com más intenções e o fato de que a maioria, pelo menos nas salas gays, esteja realmente mais focada em encontrar parceiros não elimina os poucos que podem estar interessados em tirar proveito da delicada dinâmica virtual. É aqui que entra em cena um certo jogo de cintura dos participantes, com mecanismos de proteção como encontros em locais públicos em horários com maior concentração de gente. Mas mesmo quem sai de carro no meio da noite de uma quarta-feira, como P_27, têm as suas artimanhas. “A primeira delas é

146


olhar a localização e ver se o que a pessoa me diz confere com o que está no Google”, ele explica. “Se a ela fala, por exemplo, o número residencial, eu pergunto: „É casa ou apartamento?‟. Se no Maps aparece um prédio e o fulano disser „É uma casa‟, eu penso: „Opa, tá mentindo‟. Já conversei com pessoas que ficavam me perguntando qual era meu carro, qual era meu carro... Aí por fim não me encontrei. Ele pode falar para eu ir numa rua, chego lá e pronto, sou assaltado! Vai muito disso, as perguntas que as pessoas fazem”. As

perguntas

que

as

pessoas

fazem

representam um dado bastante superficial, mas são a única lanterna que os usuários têm para guiaremse no escuro. É exigida uma sensibilidade que se aprimora com o tempo de uso e o número de encontros – mas que, como lembra Romântico, não assegura nada por completo. “Sempre marco em shoppings, parques, praças, barzinhos, restaurantes.

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No ano passado, eu conversava com um menino que, pelas fotos e pelo jeito de falar, parecia muito meu tipo. Só que aí assim que o vi pessoalmente não senti mais nada, nada. Estamos sujeitos a isso”, diz. Mas certamente há aqueles que, exatamente por sentirem-se seguros do feeling de usuário, não se preocupam em bolar estratagemas de segurança, como MorenoVN. Por se encontrar com muitos em sua época de chat e a maioria bem próximos de sua casa, as únicas estratégias que seguia eram aquelas que não burlassem a objetividade do sexo por vir. O que procurava saber, por exemplo, antes de marcar o encontro, eram dados como proporções físicas do pênis e a cor da pele: “Eu inquiria, sim, o dote do rapaz. E não podia ser negro, de preto basta eu”.

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3

Características muito

em

alguns

corporais, casos.

O

aliás,

importam

espelho

mágico

responsável por localizar as concorrentes em beleza da rainha do conto da Branca de Neve teria muito mais trabalho se estivesse nas mãos de alguns usuários de apps. Certas fotos passam a impressão nítida de terem sido tiradas respeitando critérios pessoais de enquadramento, luz, expressão facial, números de músculos rígidos e efeitos bacaninhas posteriores. Não é de se estranhar: ninguém quer sair feio num espaço que reúne os caras solteiros da região onde se mora. Sobretudo quando se leva em conta uma certa característica atribuída às bichas do mundo: a capacidade de produzir, em grande ou pequena escala, comentários ácidos e impiedosos. O Hornet oferece um grande palco aos desinibidos com seu espaço para até oito fotos, mas

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o Scruff vai além e propõe uma competição de narcisos: quem ganha mais woofs (espécie de cumprimento

do

aplicativo,

quase

como

uma

piscadela de olho) aparece na lista dos “maiores woofs da última hora”, que inclui caras do mundo todo. No dia 6 de abril de 2014, às 16h37, resolvi fazer uma sondagem desse grupinho de príncipes eleitos. Dos 40 homens que aparecem a cada 60 minutos, 32 estavam sem camisa (expondo um corpo esculpido em supinos, pesos e suplementos), 19 seguravam o telefone celular para fazer a selfie em frente ao espelho e, como dado de curiosidade, 25 tinham barba (sempre desconfiei que eles fizessem mais sucesso). Erra quem pensa, com isso, que usuários do chat UOL não prezam pela aparência só porque estão no baile de nicks. P_27 se assegura da forma que pode: “Como eu não de gosto de me mostrar na webcam, também não me importo se a pessoa não

150


quiser se expor. Mas tem que ter uma foto, porque a descrição física verbal é muito subjetiva, né? A pessoa pode falar uma altura e peso e você achar interessante, mas ela pode ter uma circunferência onde a gordura acumulou toda na barriga!”. E não é como se as fotografias de aplicativo, ou mesmo as trocadas no Skype, são garantia de como é a pessoa em carne e osso. O momento da interação face-a-face, aliás, acaba recebendo um ademão de importância para quem utiliza meios online de relacionamento, como explica Abel. “Eu tive uma fase legal

de conhecer pessoas na

universidade, porque acho que já estava mais livre, tinha mais consciência do meu desejo. Rolaram umas pegadinhas em banheiro de clube e tal. E essa coisa do „ao vivo‟, né? Eu sempre fico fazendo essa comparação da relação que começa pelo chat e da que começa ao vivo. Porque tem esse negócio interessante que você não tem na sala às vezes. A

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emoção da hora ali, em que você encontra com a pessoa e tal”. É

essa

separação

das

relações

nos

compartimentos virtual/real de que fala Abel e a busca pelo segundo tipo como um certo alívio da rotina dos chats que regula, também, a agenda de P_27. Durante a semana, ok, ele se sente aberto para escapadinhas na casa de fulano do bate-papo com a intenção de transar sem compromissos. No fim de semana, a lógica é outra. Tirar a bunda da cadeira, se arrumar, botar um perfume e “dar uma chance ao coração”. É isso que ele diz para si mesmo quando pensar num nick super criativo passa longe de ser divertido: hoje eu não quero um encontro casual, quero tentar conhecer alguém lá fora para dar beijinhos, dizer “te amo!”. “Aí, se não rolar nada na rua, na segunda você volta pro sexo casual, né? É assim que funciona, é a vida”.

152


4

A criação de uma conta num aplicativo, por mais que supostamente fechado à comunidade gay, também está ligada a etapas de reconhecimento do espaço até que se chegue ao ponto do que chamo de uso pleno: com foto de rosto, nome real, bairro onde mora e até preferências sexuais descritas no perfil. Krum seguiu à risca a tabela do usuário arisco: começou com uma fotografia que mostrava a orelha e parte da barba e o nome fictício emprestado de J. K. Rowling. Aos poucos, foi abrindo mais a figura da face, revelando sua alcunha de nascença e tentando mostrar aos sujeitos o que é que o trazia ali. “Geralmente as pessoas me chamavam no aplicativo e eu respondia”, Krum explica, “só que quando surgia um papo mais sério, de se encontrar, onde você trabalha, eu meio que ignorava. Porque como ainda não me aceitava muito bem, eu não

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queria aquilo, então meio que só conversava e tal, trocava assunto, e fiz vários amigos virtuais”. A proximidade de alguns e a possibilidade de ser reconhecido na rua também deixava Krum com os dois pés atrás. “Achava que em qualquer esquina que fosse com um cara eu ia encontrar alguém que conheço, tinha essa paranóia. Minha aproximação era só até certo ponto”. Sua desconfiança do mundo que espreita não é desvinculada de uma verdade. Que o diga um certo seminarista, frequentador do UOL, com quem Abel começou a sair e se pegar esporadicamente. O moço não queria pular fora nem do seminário, que o dava sustento, nem do namorinho, que o dava prazer. Nesse impasse ficaram, entre a bíblia e seus corpos, até que, ao ser surpreendido no shopping por conhecidos, o seminarista deu um jeito de esconder Abel – atrás de uma lixeira.

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“Depois disso ele me ligou, tentou reatar... Mas ele queria permanecer no seminário e manter o relacionamento. E eu achei que isso não ia levar a lugar nenhum”, Abel diz. “E você já queria ir a algum lugar?”, indago. “Eu queria algo mais bem estruturado do que ficar sendo escondido atrás de uma lixeira de shopping, né?”. Aceito o argumento. Mas logo em seguida Abel retoma o raciocínio do passado (baseado naquela ideia mesmo da oposição “relações de chat” versus “relações do ao vivo”) e decide-se: “Acho que eu sempre, de uma certa maneira, sabotei algumas relações. Eram detalhes mínimos aos quais eu me apegava e terminava com a pessoa. Porque, às vezes, fico pensando se outros não teriam continuado o namoro, já que rolava afinidade”. Sim e não. Para Cinquentão, por exemplo, que prefere tudo no escurinho do quarto, não teria sido problema algum,

155


mas acho que Romântico, tão expositivo, que gosta que o mundo conheça seu amor, teria tomado a mesma atitude de Abel. É culpa do velho quebracabeça da sexualidade e da natureza humana.

5

Existe um encontro que precede o “real” e que me fascina igualmente nas relações do BatePapo UOL: é o deparar-se com quem está online. Muitas vezes, em rompantes de romantismo durante a adolescência, acreditei estar conversando com o homem da minha vida; aquele amor prometido em livros e filmes. Acho que um pouco disso vem de uma série de coincidências: os dois ali, na mesma sala, na mesma cidade, na mesma universidade, no bairro vizinho. O chat proporciona isso. É o que talvez tenha levado Delegata a espalhar suas faixas: a crença, inocente ou não, de

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que o chat UOL ĂŠ empregado terceirizado do destino, promovendo encontros entre as almas perdidas da internet de uma quinta-feira Ă noite.

157


... é também de despedida 1

As

exigências

para

aconteça,

sobretudo

em

que

um

aplicativos

encontro (onde

as

especificações do perfil podem ser uma boa peneira do que vai ou não se tornar realidade), em muitos casos acaba criando restrições que vão erguendo uma muralha em torno dos usuários e de seus desejos. É natural, em uma área tão íntima como a sexualidade, que as pessoas queiram delimitar o que é que as agradam: se é ser ativo, passivo, ambos ou nenhum dos dois – mas isso, na opinião de P_27, vai separando cada um em ilhas isoladas de vontades que devem ser obedecidas à risca, mesmo antes que

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um conheça o outro mais a fundo. “Percebo que as pessoas criam muitas expectativas e elas não estão prontas para se abrirem para o que não está dentro delas”, ele reflete. “Isso me incomoda muito. Na vida real, quando ocorre um encontro, no cinema, teatro, na festa de um amigo, num restaurante (são todos lugares possíveis de se conhecer alguém), você não cria tantas expectativas. Já é algo que está ali”. Em alguns casos parece que essas restrições existem

apenas

para

manter

um

sistema

de

pensamento onde o privilegiado é aquele que recusa, sempre, ser passivo de relação alguma. Intencionalmente ou não. O termo “bottomshame” (algo

como

“vergonha

do

passivo”)

surge

exatamente para definir aquele cara que até sente desejo de saber como é, que acha que pode gostar ou que até mesmo é mais penetrado do que penetra, mas se recusa a aceitar-se como passivo porque ainda não processou todas as referências que vem

159


junto com o ato de “dar o cu”, prática que Sério29 adora sem o menor dos problemas: “Geralmente quem diz que é versátil, na verdade é passivo e não gosta de admitir. Porque não pode falar que é passivo, você é inferior no mundo gay se diz isso”. É parte

do

machismo

importado

às

relações

homoafetivas, que rotula como menor aquele que representaria o papel feminino (e que diz que o ativo jamais será o “afeminado”). “Ainda pensam que o ativo é dominante”, reflete

Cinquentão.

“Que,

por

excelência,

dele

apenas deve ser o orgasmo. „Vou me lavar‟ e o passivo que se vire. É o que se vê na maioria dos filmes temáticos, o passivo tem que demonstrar cara de dor e o ativo de prazer. Os passivos são as „mocinhas sofredoras‟ e os ativos são machões comedores. Às vezes entra nas salas alguém com o apelido de „Hetero‟, engraçado, não? É a cultura do mais forte dominando o mais fraco”.

160


São muitos os homens dizendo que “não curtem” afeminados, tanto no chat UOL quanto nos aplicativos, embora seja difícil calcular os níveis de afetação – ou “fechação”, na gíria do meio – de um gay assim classificado. Sério29 sempre se depara com a famigerada pergunta “você é afeminado?” quando conversa com tipos que entram com o nick “Sigilo” ou “Discreto”. “Eu até paro e pergunto para algum colega no Skype: „Eu sou assim?‟. Minha resposta costuma ser „Cara, eu não sou homão, machão, mas também não sou essa... „bichinha pão com ovo‟, como falam, né? Eu sou tipo menino‟.” Na verdade, a afirmação de ser gay reforça exatamente o direito de cada um gostar do que quiser, seja de um cara mais “machão”, seja de um mais “viadinho”, assim como para cada ativo sempre existirá um passivo. O problema que sinto, quando passo por perfis de homens que “não curtem afeminados”, é que, em geral, essa é uma fala

161


carregada de moralismo. No sentido de correção mesmo, do tipo “pare de ser assim”. Pelo menos foi dessa maneira que me senti quando conversei com um usuário que se mostrou bastante insatisfeito com minha recusa em dizer se “era ou não era” afeminado (não porque não tivesse uma resposta pronta, apenas pela forma grossa como ele se dirigiu à mim). “Deve ser uma bichona, né? Você vai ver o rio de homens que vai perder desse

jeito”,

foi

o

que

li

como

comentário

reprovador. Julgando pelo número de sujeitos que concordariam com ele (que “bichonas” afastam possíveis pretendentes), pode ser que estivesse correto. O errado, não somente no meio gay, são os mecanismos de controle do caráter e personalidade alheios. Porque quem “tieta cantoras pop ou tentam dançar como elas” (mais um exemplo de comentário censor que encontrei) não são mais gays do que os que ouvem Ramstein e jogam futebol, tentando

162


parecer mais másculos – como bem lembrou MorenoVN e sua reflexão sobre a poética da cintura masculina na arena da sexualidade. Isto é, são todos iguais.

2

O amasso já durava um certo tempo. Mãos, braços, pernas, tudo entrava no jogo, e Sério29 até se sentiu aberto para apimentar mais as coisas, deu uma mordidinha na orelha e saiu descendo com a língua até o umbigo, mas o outro pediu que parasse. Tinha ido longe demais, segundo ele me contou, muito embora não exista uma medida exata para o que faziam. A cena acima exemplifica algo que acontece com certa frequência quando se faz parte de um universo de troca sexual: é preciso ir construindo, a cada novo caso, o que agrada o outro, o que deixa

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de satisfazer, e esperar ser correspondido. Novos corpos, novas regras. Nessa situação, em especial, o que aconteceu foi mais uma empata-foda, já que Sério29 não achou que estivesse extrapolando nada. “Acho que o sexo tem que ser demorado. Do contrário, compre uma boneca inflável, né? A gente não pode ser só um buraco”, diz. Até porque nem todo mundo, no meio gay, chega à penetração – muitas vezes o sarro, o toque dos corpos, o choque dos pintos, é suficiente. Hoje quem faz esse tipo de sexo recebe o nome de gouine– porque bichas precisam de um termo próprio para qualquer coisa –, mas cada um vê isso da forma que quer. Pode ser uma masturbação acompanhada ou uma encenação de coito como é comumente praticado (e, assim sendo, pode até haver ativos e passivos, mesmo que nada seja injetado no traseiro de ninguém).

164


Era assim quando MorenoVN ia para a casa ou para o carro dos caras que conhecia no chat. Muitas vezes, pela correria, nem tinham tempo de chegar à penetração. Mas MorenoVN ainda se sentia o dominador da construção sexual improvisada: “Sempre tive preferência por caras mais machões. Ter esse estereótipo passou a ser um pré-requisito para marcar um encontro comigo. Dominar homens com esse estilo meio cafuçu sempre me deu muito tesão”. “E

o

que

você

chama

de

dominar?”,

questiono. “Quando digo dominar”, ele explica, “é no sentido de sempre estar no comando de tudo. Gosto mais de fazer (sexo oral) do que de receber. Sou meio frígido, sabe? Meu prazer é ver o prazer do outro”. E o que se diz – e como se diz – não passa batido também para alguns. Erros de português, por exemplo, como já sabemos, fariam Romântico

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broxar instantâneamente e a sugestão de que Krum já não fosse mais virgem, dita pelo seu primeiro amante, apesar de cômica quando contada hoje, na hora representou um grande corta-clima. É que se a vida, como disse Vinicius de Morais, é mesmo a arte do encontro, os bate-papos online são um importante instrumento desse ofício. Cabe aos artistas dessa área paciência, versatilidade e cuidado no contato com cada novo cara. Cabe aos artistas talento na produção das obras. “As pessoas do UOL existem”, lembra Sério29, desconcertando com sua fala a ideia de que os homens dos chats são só um bando de nicks, pedaços de corpos ou putos selvagens (podem ser, também, e com direito). Existem porque, antes de serem usuários online, são uma gente com vida sexual e afetiva como qualquer outra. E estão aí, pelo mundo. A diferença, talvez, é que dessa terra não se sai (seguindo métodos fáceis, pelo menos). Uma evasão do chat, por outro lado, é

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uma decisão que pode ser tomada a qualquer momento – e que, dia sim dia não, sempre passa pela mente dos participantes. Pergunte a qualquer um quantas vezes o Scruff já foi deletado e adquirido novamente no telefone e a resposta provavelmente será: muitas. “Ali é um reservatório, é uma biblioteca, o bate-papo. Hoje eu tô a fim de um livro sobre isso, então me interessa, li dois capítulos, não me interessa mais, tá aqui de volta. É muita intensidade pra pouco tempo”, desabafa Abel. “Tô precisando de uma folga, vou mandar cortar a internet lá de casa”. Uma relação de amor e ódio, alguns diriam. De aversão e gratidão, também. Mas é desse jogo, sempre instável, que nascem as melhores histórias.

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Epílogo A indústria de autores Acho que o pior castigo para um usuário de chat talvez seja um encontro que promete muita coisa (seja um sexo ótimo ou um amor durável) e que acaba não cumprindo exatamente o esperado. O desencontro – de desejos, de emoções, de ideias – nesse caso é intensificado pela construção que ocorre

enquanto

as

relações

ainda

estão

no

ambiente online e que não sobrevive à realidade. Esse é um pouco o medo que passou pela minha cabeça enquanto eu escrevi, editei e recebi indicações para mexer nesse ou naquele capítulo do livro. De que houvesse um desencontro entre mim e os leitores;

de que minha conversa estivesse

expondo um perfil que, na hora do cara a cara, se

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mostraria insuficiente. De que eu não estivesse sendo autêntico – ou profundo, sobretudo por se tratar de um tema tão vasto, complexo e pelo qual tive tanto carinho. Além de, é claro, ter tido aulas sobre como construir uma boa história com

os melhores

biógrafos

que

diariamente,

do

mundo:

aqueles

semanalmente

ou

tecem,

mensalmente

a

narrativa da própria vida. Eu escutei os contos dos participantes de chat com os ouvidos atentos ao detalhe de que esses caras já estão acostumados a fazer isso, só que de forma anônima e, talvez, bem mais reduzida. Isto é, eles vestem o seu nick ou entram em seu perfil nos apps e vão espalhando por onde transitam pedaços de suas personalidades; “Oi, sou P_27, passei por uma fase meio badvibe e tô querendo algo mais leve agora”; “Oi, eu sou MorenoVN e podemos nos marturbar somente para que eu mate minha vontade”; “Oi, eu sou Abel e me

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interesso mais pelo que você tem na cuca que pela geometria do seu corpo”. Não é isso que o jornalismo, às vezes, quer somente? Fontes que saibam ser concisas, sumárias e, ainda assim, contundentes? Sempre que nos engajamos em uma atividade social, nos expomos ao outro, em maior ou menor grau, na intenção de estabelecer um vínculo – e nesse sentido todos nós somos experientes em contar a própria história. O que ocorre com os usuários de chat online é que eles multiplicam (e intensificam)

isso

quando,

por

exemplo,

se

apresentam (mentindo ou não) para mais de dez sujeitos numa mesma sala, numa mesma noite, do Bate-Papo UOL. Ou quando, antes de criar um apelido virtual, eles refletem sobre suas vontades e afunilam suas identidades ao se decidirem por “Sério”, “Real”, “QroPiroca” ou “DouRaboGostoso”.

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De uma certa forma, escrever este livro foi um processo de metalinguagem. Eu reuni um bando de pequenos contadores de história para falar sobre o ato de narrar e transformei isso numa coletânea de casos e perfis. No meio disso, assuntos como o sexo, o amor, a homossexualidade, o armário e preconceitos orbitaram, mas não chegaram a se tornar a tensão maior do produto, a meu ver. Cada detalhe integra a obra maior, que nada é mais que o conjunto da reflexão sobre essa indústria de autores instantâneos conhecida como chat online. Uma indústria que,

como

várias

outras

grandes empresas, têm os seus segredos e mistérios – a diferença, provavelmente, é que os podres do Bate-Papo UOL, do Grindr ou do Scruff todo mundo parece conhecer, pelo menos uma parte. Foi esse conhecimento parcial (geralmente esburacado e preconceituoso) que me incomodou e me levou a

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produzir uma obra que se colocasse em defesa desse universo do qual faço parte. Minha tática de contra-ataque, na forma de um produto jornalístico, envolveu, claro, a reunião de dados, fatos e vozes, mas eu não tive a intenção de soar como um advogado que apresenta as provas da inocência do réu. O que eu consegui organizar e transformar neste livro nada pede além da reflexão do que é oferecido; cabe ao leitor decidir se concorda ou discorda. Não deixo, entretanto, de fazer o apelo: de uma compreensão outra, ou mais aprofundada, acerca dos usuários de chats e de suas plataformas. Que

trazem

seus

riscos,

claro,

tanto

quanto

qualquer outro departamento da vida; e suas complexidades, por conseguinte. As pessoas não são desconhecidos com intenções ocultas somente na internet; são assim na vida real também. Não foi uma opção minha deixar de lado a questão dos

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acasos sombrios dos encontros online; é que nenhum dos entrevistados trouxe exemplos de situações em que tivesse ocorrido algum tipo de violência contra eles e seus corpos. Pouco antes de terminar o livro, li uma nota da revista Out a respeito de um garoto norte-americano que, após marcar encontro no Grindr, foi encontrado morto. Os comentários da curta notícia traziam exatamente a discussão que eu pretendi evitar (porque cairia em um moralismo desnecessário) sobre

o

uso

dos

aplicativos.

Alguns

rapazes

pareciam ter a solução perfeita para o crime que nem a polícia havia ainda desvendado: fora morto porque, por decisão própria, se arriscara (lógica um pouco parecida com a que suscitou o recente debate em torno da ideia simplória e machista, mas infelizmente presente, de que a uma mulher de saia curta “procura” sofrer qualquer tipo de abuso, físico ou verbal).

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No caso dos chats gays, essas reações podem até

vir

acompanhadas

de

uma

homofobia

condenatória e pronta para dizer que a culpa está na vítima, que decidiu-se por uma vida que vai contra princípios morais, éticos ou religiosos e que, portanto,

pagou

por seus erros.

Em

nenhum

momento tentei desenhar um universo perfeito e livre de rasgos; acontece que perigos são parte da história do mundo, não somente dos chats, e preferi me dedicar à observação de outro tipo de risco: a adrenalina que acompanha a busca da própria sexualidade aliada à parafernália digital – para mim, muito

mais

interessante

e

que,

vivida

individualmente, também está cheia de sustos, desvios e emboscadas. Eu

ainda quis mostrar como os chats,

usualmente ligados à insegurança, representam na verdade sinônimo de comodidade para a maioria de seus participantes. Bate-papos online não deixam de

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ser um gueto – sobretudo para os gays – porque proporcionam um acesso à distância e anônimo, meio à deriva, fatores que são, em alguns casos, importantes para a paquera no meio homoafetivo(as relações de bares e boates alienam igualmente seus frequentadores do mundo exterior, ainda que num espaço físico com música alta). A verdade é que eu quis confrontar o imaginário acerca dos chats com as histórias daqueles que estão lá e, com isso, descosturar e costurar dois mundos. Acredito que meu bordado de casos não tenha formado um vestido, uma camisa ou qualquer outra peça que tenha curvas concisas – talvez uma manta mal feita, ainda que a ideia não seja cobrir, seja desvendar. Só espero ter tido êxito no meu objetivo: que o chat tenha, enfim, saído do armário.

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Marcos_F sai da sala...

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Radares Gays - Procurando o quê?  

"'A cada resposta minha, você tira uma peça de roupa'. Foi com esse ultimato que me defrontei numa das primeiras tentativas de entrevistar p...