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História e estórias do povoamento e gentes de Vila Sant’Ana e Itaquera

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Capa da 1ª edição de “Os Lusíadas”, em homenagem à todos as pessoas, brasileiros ou não, que participaram e participam na construção da história épica de Itaquera, de São Paulo e do Brasil.

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Edições M.A.S.P. © 2012, Marco Antonio Stanojev Pereira, Antonio Pacheco Pereira e Valquiria Stanojev Coelho Pereira Título: História e estórias do povoamento e gentes de Vila Sant’Ana e Itaquera Impressão: www.clubedeautores.com.br Registro na Biblioteca Nacional: 565.638-L.1079-F.197 ISBN: 978-85-913809-3-0 1ª Edição São Paulo Junho - 2012 4


Índice Agradecimentos Introdução Capítulo 1 - A conquista do litoral Capítulo 2 - Subindo a Serra Capítulo 3 – Bandeiras Capítulo 4 - Itaquera dos Campos Capítulo 5 - Vila Santana Capítulo 6 – Itaqueras Capítulo 7 – Gentes - Família Falcon, por Marcos Falcon - Família Stanojev Coelho, por Valquíria S. C. Pereira. - Família Sugaya, por dra. Marisa Sugaya - Família Roldan Pereira, por Antonio Pacheco Pereira. - Familia Cursino Monteiro, por Evanira Cursino - Familias Drumond e Barreto, por Macilia Drumond - Familia Ramos, por Antonio Luiz Ramos Rizzo - Familia Mercier, por Yedda Mercier - Familia Brenneisen, por Arthur Victor Brenneisen - Familia Vaccareli, por Oswaldo Vaccarelli - Familia Giannella, por Roberto Giannella - Familia Novelli - Família Gianetti - Família Alves dos Santos, por Dário Alves dos Santos - Familia Szarota, por Waclaw Szarota - Familia Mendonça, por dr. Washington Luiz de Mendonça - Familia Trazzi, por Márcia Trazzi - Familia Rivas, por dra. Marisa Rivas Capítulo 8 – Educação Capítulo 9 – Saúde Capítulo 10 – Esportes e o Futebol de Várzea Capítulo 11 – Culinária Capítulo 12 – Política Capítulo 13 - Economia e sistema monetário Capítulo 14 - Itaquera hoje - Caracterização Oficial da Vila Santana Capítulo 15 – Segurança Capítulo 16 – Imprensa Capítulo 17 - Escudo de Armas do Distrito de Itaquera e da Vila Santana. Capítulo 18 – Monumento aos Desbravadores Anexos Bibliografia

07 09 11 17 25 29 41 75 85 89 91 101 103 131 133 153 159 165 175 189 195 199 201 209 223 235 241 249 263 269 287 291 305 319 320 329 331 337 341 343 389

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―Da vida, nada se leva de material, mas a bagagem de trabalhos e memórias que deixamos para os que vivem, constituem o nosso maior tesouro e asseguram a imortalidade do ser humano para os homens‖. Astrogildo Pereira

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Agradecimentos Agradecemos efusivamente à todos os que colaboraram para que esta obra saísse da vontade e tomasse forma, assim, somos profundamente gratos aos amigos e companheiros da ACEMI – Associação dos Comerciantes, Empresários e Moradores de Itaquera, a qual oferecemos o presente trabalho pela participação inspirativa e pela vontade do resgate histórico, em especial ao seu presidente Sr. Francisco Roldan Pereira, pelo dinamismo e valiosos contatos com pessoas chaves de interesse para a construção desta obra. Aos depoentes, sr. Marcos Falcon, sra. Dra. Marisa Sugaya, sra. Profª Evanira Cursino, sra. Dra. Macilia Drumond, sr. Antonio Luiz Ramos Rizzo, sra. Laurinda Ramos Marcellino, sra. Profª Yedda Mercier, sr. Arthur Victor Brenneisen, sr. Oswaldo Vaccarelli, sr. Roberto Giannella, sr. Dário Alves dos Santos, sr. Waclaw Szarota, sr. Dr. Washington Luiz de Mendonça, sra. Márcia Trazzi, sra. Dra. Marisa Rivas e sra. Diva Mendes de Oliveira, que foram fundamentais na construção deste trabalho, dedicando seu tempo para que nós aprendêssemos um pouco de nós mesmo. Ao Revmo. sr. Pe. Manoel Olavo Amarante, pela disponibilização das atas da antiga “Irmandade de Sant’Ana”, existente na comunidade assistida pela Capela de Sant’Ana dos anos de 1920. Ao sr. Marcelo Augusto Stanojev Pereira e sr. Kauê dos Santos Stanojev Pereira, ponte entre mim e o Brasil, pelos trabalhos de informática, digitalizando os textos, figuras e mapas e enviando-me célere, via a maravilha da internet. Ao sr. Amaury Roldan Pereira, pela preservação e disponibilização de jornais da época de 1920-1930, os quais foram fundamentais para nosso discernimento e respostas de algumas questões que eram obscuras. À sra. Dra. Marisa Rivas, pela doação de diversos documentos, informações e objetos chaves para a construção da presente obra. À sra. Vera Helena Seckler Tavares de Lima, neta do fundador da Vila Santana, Cel. Francisco Rodrigues Seckler, pelo fornecimento de importantes informações biográficas e fotos de seu venerável antepassado. À Fundação Biblioteca Nacional Digital, à plataforma digital JusBrasil Diários (http://www.jusbrasil.com.br/diarios), fonte de pesquisa de todos os Diários Oficiais citados e, ao Portal Google Livros, cujas obras disponibilizadas on-line, permitiram a consulta de algumas referências chaves para a concepção da presente obra. À todos os ínclitos “Dons Quixotes” modernos de nossa terra itaquerense, representantes das diversas entidades sem fins lucrativos, que por ideal, desde os primeiros dias da aurora de nossa terra, dedicaram e dedicam suas vidas para a conquista de melhorias sociais, educacionais e de saúde para uma população de mais de meio milhão de pessoas. À Portugal, de onde foi possível conceber este trabalho, meu atual e eterno solo, junto com a Pátria do Cruzeiro uma única nação. A Itaquera e a Vila Santana, terras amadas, inspiração permanente em nossas vidas, fonte constante de alegrias e profundas preocupações, chão abençoado de aprendizados e ideais. À Deus, nosso Pai, que nós dá a oportunidade, restando-nos o resto…

Os autores 7


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Introdução Este foi um trabalho gigantesco. Penoso em alguns sentidos e grandemente prazeiroso em outros. Escrever sobre história, sem entrar em estória é muito delicado pois, em muitas circunstâncias o que temos em nossas mãos são relatos de pessoas, pouquíssimo patrimônio edificado e trechos de documentos em péssima situação de conservação. Outro fato, que muito dói no coração, é quando descobrimos uma fonte preciosa e, para nossa surpresa chegamos tarde pois a implacável ceifadora adiantou-se a nós. Também quando chegamos tarde para impedir a grande fogueira das vaidades, que queima sem dó nem piedade fotos velhas, recortes de jornais imprestáveis e memórias inúteis, guardadas com carinho por décadas. Precisamos aprender a preservar e guardar em registros, as memórias de nossa família, que é a célula de uma nação pois, é com o passado que vivemos o presente e construímos o futuro. Mas assim é… A idéia da organização deste trabalho, surgiu em Setembro de 2008, como sugestão dos pares de diretoria, enquanto participávamos como diretor cultural da Associação dos Comerciantes, Empresários e Moradores de Itaquera – ACEMI, para organizar um levantamento histórico sobre a Vila Sant´Ana, sobre a Igreja de Sant’Ana e sobre o grande benfeitor da região, o coronel da Guarda Nacional Francisco Rodrigues Seckler. Ao iniciar o levantamento da bibliografia, de fatos, fotos e depoimentos de antigos moradores, fui advertido que deveria ter muita paciência, pois o trabalho deveria ser enorme. Pensei com meus botões, Qual nada! Todo mundo tem uma foto guardada de recordação e algum documento sobre a familia! Ledo engano! Para minha surpresa, em estado sempre crescente, descobria que famílias antigas na região não possuíam mais nada pois, os herdeiros haviam jogado fora as recordações, memórias e documentos, assim que o patriarca ou a matriarca da família faleciam. Nada mais verdadeiro do que a frase de George Orwel que “A história é escrita pelos vencedores‖, que neste caso, são aqueles que guardam suas memórias e passam assim a posteridade, imortalizando os membros de um clã. Cruel esta frase? Muito cruel! E em nosso país, tradicionalmente rotulado de sem memória, cruelmente verdadeira. Certa vez, estava esperando o trêm na estação do Brás, em São Paulo, para ir para a Universidade onde lecionava. Estava parado na plataforma, tranquilamente, apreciando as estruturas antigas que o governo estava recuperando, quando se aproximou de mim um senhor, com seus sessenta anos de idade e puxou conversa. Volto a reiterar que eu estava tranquilo apreciando os entalhes. - Que absurdo, não é? Disse o senhor. - Perdão, não entendi! Disse eu já antevendo o que vinha, pela entonação dos “hums” no final da frase. E continuou: - Quanto dinheiro jogado fora. Restaurando estas baboseiras, velharias. Se fosse eu que mandava aqui, mandava um trator passar por cima! Bem, resumindo, discutimos, filosoficamente claro, e ele acabou se afastando de perto de mim. 9


O fato, é que a grande maioria dos brasileiros pensam iguais a este senhor. Ele não está errado de pensar assim. Pensa desta forma pois os governos, os intelectuais e outros ditos sábios de nossa civilização brasileira, nunca agiram de forma diferente, cuidando do patrimônio, permitindo o acesso à cultura, amando a história e a estória de nossas raizes. Se as coisas estão mudando, se um interesse no patrimônio cultural está aumentando e a preocupação da preservação da identidade está vindo a tona, isto é graças às mudanças de mentalidade, mas em nossas crianças. Estas mesmas que ensinam e bronqueiam com os adultos sobre a importância de separar o lixo reciclável, preservavar as águas e o meio ambiente. Os poucos abnegados que guardam em seus arquivos pessoais, a memória de uma região, deveriam ser declarados heróis pois deixam, a revelia da opinião de seus familiares, que nossas crianças saibam quem são e de onde vieram. Fiquei contente quando vi uma reportagem, no começo de fevereiro de 2010, que dizia que os repentistas do nordeste haviam adquirido o direito de aposentadoria. Que bobagem! Alguns diriam, mas eu pergunto: Sabes, por acaso, fazer versos em tempo real, de qualidade iguais a eles? Eu não e, quando vou me aventurar em escrever um poema, preciso consultar um dicionário de rimas. Fiquei triste quando, por ordem do progresso, a estação de trem de Itaquera, construída ainda no império brasileiro foi posta abaixo, sabendo que na Europa é comum se transportar até castelos, pedra por pedra. Agora a preocupação é com a casa do Chefe da Estação, que fica em frente à antiga estação e data aproximadamente do mesmo período da construção do prédio principal, 1930. Este trabalho vai descrever, ou tentar, acerca da fundação e povoamento de uma das vilas mais antigas de Itaquera, a Vila Santana, ou como aparece no frontispício da Igreja Matriz: Sant´Ana. Daremos foco nas pessoas, famílias, ocupações dos pioneiros e nos edifícios que a compunham e, quando possível, fazendo um “antes e depois”. Outro detalhe importante de se anotar, é quanto ao fato de escritores se basearem e citarem referências duvidosas para dar algum crédito em suas obras, o que vem na verdade a não auxiliar outros pesquisadores, dado a inconstância e inexatidão da informação veiculada. Fato observado em muitas publicações somente comerciais, sem a responsabilidade histórica. Esta obra não tem a pretensão de fixar, contestar ou reinvertar datas, nomes e acontecimentos. A parte áurea desta humilde obra tem o objetivo de mostrar a história de nossa região através dos depoimentos e ilustrações de verdadeiros heróis Ítacos, com a diferença que não estavam perdidos, onde por meio de descrições detalhadas, podemos construir uma época vivida intensamente em nossa região. Costumes, práticas alimentares, arquitetura, política, vestuário, educação, enfim, um universo maravilhoso e emocionante vivido por pessoas muito próximas de cada um de nós, e que na esmagadora maioria dos casos, não nos damos conta de sua importância para nossa própria identidade. Nossos parentes mais velhos! Espero que aqueles que leiam esta obra possam também participar da mesma emoção que participamos ao escreve-la e, os jovens, possam utilizar estas poucas páginas como prefácio da obra maior e mais ampla que eles escreverão sobre a história de sua família e a própria, colaborando com a construção da identidade de nossa gente, somando à esta obra como volumes incontáveis.

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Capítulo 1 A conquista do litoral Desde a chegada de Cabral na Ilha de Vera Cruz, o contato com os índios sempre foi constante, ora pacífico, ora sob chuva de flechas. O trecho abaixo foi retirado da Carta de Achamento do Brasil, que Pero Vaz de Caminha enviou ao Rei D. Manoel, o venturoso. ―(…) Passou-se então além do rio Diogo Dias, almoxarife que foi de Sacavém, que é homem gracioso e de prazer; e levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteuse com eles a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem, fez-lhes ali, andando no chão, muitas voltas ligeiras, e salto real, de que eles se espantavam e riam e folgavam muito‖. Itaquera não se fez em um dia e, as palavras de Washington Luis em seu livro “Na Capitania de São Vicente1, que ―A fundação de uma cidade é uma [obra] coletiva e não é obra de um só homem, de uma só classe, de um só partido.‖, mostra exatamente o que gostaríamos de retratar neste trabalho, no que se refere a história de Itaquera e dezenas de outros bairros que gravitam ao redor da hoje Metrópole São Paulo, nascida em uma casinha paupérrima, coberta de palha. Sua fundação ou, como dizem alguns historiadores, povoação, se fez de modo longo e continuado, daí vem sua riqueza histórica e a necessidade de criar cátedras específicas nas várias universidades de nossa região Leste para o estudo sistemático de seu crescimento, de sua história e de suas estórias. Deixo isso como uma sugestão bastante viável para um futuro breve. O plano de colonização do Brasil era prático. Com o tratado de Tordesilhas, dividindo o orbe no eixo Norte-Sul, as terras descobertas e à serem descobertas eram então de propriedade de Portugal e Espanha. Aceito o tratado, Portugal dividiu a parte que lhe cabia em Capitanias hereditárias, com poder e administração feudal. Os Capitães, fidalgos e cavaleiros do reino tinham a obrigação de fundar Vilas e, distribuindo sesmarias, promoviam a fundação de povoamentos em toda sua donatária, cuja objetivo tinha o princípio de tomar posse do litoral e avançar rumo ao sertão, ou interior do Brasil. O fidalgo e governador Martim Afonso de Souza vem de Portugal com a seguinte recomendação régia, assinada por D. João III2. ―Dom João por graça de Deus rei de Portugal e dos Algarves, d’aquém e d’além mar, em África senhor de Guiné e da conquista, navegação, comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e da Índia, &c. A quantos esta minha carta virem, faço saber, que as terras que Martim Afonso de Sousa do meu conselho, achar e descobrir na terra do Brasil, onde o envio por meu capitão-mor, que se possa aproveitar, por esta minha carta lhe dou poder para que ele dito Martim Afonso de Sousa possa dar às pessoas que consigo levar, e às que na dita quiserem viver e povoar aquela parte das ditas terras que bem lhe parecer, e segundo lhe o merecer por seus serviços e qualidades, e das terras que assim der serão para eles e todos os seus descendentes, e das que assim der às ditas pessoas lhes passará 1 2

Washington Luiz. Na Capitania de São Vicente. Edições do Senado Federal – Vol. 24. Brasília – 2004 Cartório da Provedoria da Fazenda Real de S. Paulo. Liv. de reg. das sesmarias, tít.1554, págs. 43 e 102.

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suas cartas, e que dentro de dois anos da data cada um aproveite a sua, e que se no dito tempo assim não fizer, as poderá dar a outras pessoas, para que as aproveitem com a dita condição; e nas ditas cartas que assim der irá trasladada esta minha carta de poder, para se saber a todo tempo como o fez por meu mandado, lhe será inteiramente guardada a quem a tiver; e porque assim me praz lhe mandei passar esta minha carta por mim assinada e selada com o meu selo pendente. Dada na vila do Crato da Ordem de Cristo a 20 de novembro. Francisco da Costa a fez, ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1530 anos. REI.‖ Foi assim que a Capitania da Vila de São Vicente foi fundada em 1531, seguida da Vila de Santo André da Borda do Campo em 1531, Vila de Itanhaém em 1532, Vila de Santos em 1546 e, posteriormente, a Vila de Piratininga ou Vila de Piratininga de São Paulo, em 1554. A Figura 1, mostra o marco de fundação da Vila de São Vicente que, imponente, olha para o oceano domado pelos navegadores portugueses do século XV.

Figura 1 – Padrão de Fundação de São Vicente. No local de sua fundação, já havia um modesto povoamento e dois portugueses, João Ramalho e Antônio Rodrigues que estavam no Brasil há muito tempo, algumas fontes os descrevem como sendo vítimas de naufrágio ou ainda degredados por crimes. Ambos eram casados com filhas de caciques da região. O primeiro com Bartira, filha do cacique Tibiriça e o segundo com a filha do cacique Piquerobi, irmão de Tibiriça, ambos chefes dos índios guaianás, que é o que nos interessa. No ano de 1531, Martim Afonso concede uma sesmaria a João Ramalho na ilha de Guaíbe, ao longo do curso do rio Ururaí, até Jaguaporecuba, o qual funda a Vila de Santo Amaro e outra, já em local acima da Serra, chamado Borda do Campo e tendo como orago Santo André. Alguns autores, como o próprio Pedro Taques, dizem que esta vila era próximo da hoje cidade de Santo André, contudo nenhuma referência ou indício arqueológico foi achado até o momento.

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O texto abaixo foi extraído do livro “História da Capitania de São Vicente” de Pedro Taques de Almeida Paes Leme3. ―Correndo Martim Afonso de Sousa toda a costa de Cabo Frio até o rio da Prata, onde na ilha dos Lobos meteu um padrão com as armas d’el-rei seu senhor, tomando a altura de vinte e quatro graus, em que está a ilha de S. Vicente, nela fundou a primeira vila que houve em todo o Brasil, com vocação do mesmo santo, pelos anos de 1531‖ Sabe-se que Martim Afonso de Sousa distribui três sesmarias à capitães-mor. A de Pero de Góes, que é a que nos interessa pois é onde está assentada Piratininga, foi dada em 10 de outubro de 1532. Começava no porto Apiaçaba ou porto das Almadias, rebatizado por Martim Afonso como Santa Cruz. Deste porto, partia pela barra do Cubatão, subia direto a serra até o cume da serra do Mar e daí pelos outeiros que estão no caminho que vem de Piratininga. Atravessando esse caminho ia pela mesma serra até atingir o vale do Ururai (que está no Norte dessas terras), e por ele voltava serra abaixo até encontrar o mar4. No Cartório da Tesouraria da Fazenda, Livro 10 de sesmarias antigas e maço 4 de Próprios Nacionais5, está registrada a carta de doação à Pero de Góes a qual transcrevemos abaixo. "Martim Afonso de Souza do Conselho de El-Rei Nosso Senhor, governador destas terras do Brasil, etc. Faço saber aos que esta minha carta virem, que havendo respeito em como Pedro de Góes, fidalgo da casa de El-Rei Nosso Senhor, servio muito bem Sua Alteza nestas partes e assim ficar nesta terra para povoador que será com ajuda de Nosso Senhor ficar povoado. Eu hei por bem de lhe dar e doar as terras de Taquararira com a serra de Taperovira que está na banda donde nasce o sol com águas vertentes com o rio Jarabatyba o qual rio e terras estão defronte da ilha de S. Vicente donde chamam Gohayó a qual terra subirá para serra acima até o cume e daí a buscar o Capetevar, e dali virá entestar com o rio adiante que está da banda do Norte e por ele abaixo até Ygoar por terra em outro rio que tem ali o outeiro e daí tornará dentro a um pinhal que está na banda do campo Gioapê e daí virá pelo caminho que vem de Piratininga a entestar com a serra que está sobre o mar e dai por uma ribeira que vem pelo pé da serra de Ururay e virá dentro por este rio a entestar com a ilha Caremacoara e então pelo rio de S. Vicente tornará a entestar com a dita serra de Taperovira donde começou a partir e assim os outeiros e cabeças d'águas e todas as entradas e saídas das ditas terras por virtude de uma doação que para isso tem de El-Rei Nosso Senhor, a qual seu conteúdo é o que se segue: (…). (…) E por virtude da qual doação lhe dou as ditas terras, as quais serão para ele dito Pedro de Góes e para todos os seus descendentes, com declaração que ele as aproveite nestes dois anos primeiros seguintes e não o fazendo, as suas ditas terras ficarão devolutas para delas fazer aquilo que me bem parecer e as ditas terras serão forras e isentas sem pagarem nem uns direitos, somente dízimo a Deus, e por este mando que logo seja metido de posse das ditas terras e esta será registrada no livro do tombo que para isso mandei fazer. Dada em Piratininga a 10 dias do mês de outubro. Pedro Capico

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História da Capitania de São Vicente de Pedro Taques de Almeida Paes Leme – Edições do Senado Federal. Vol.25 – 2004 <http://www.novomilenio.inf.br/cubatao/ch074c.htm> Acessado em abril de 2010 5 M.E. de Azevedo Marques - Apontamentos Históricos, Geográficos, Biogr. Estat. e Noticiosos de Provìncia de S. Paulo, São Paulo, Livr. Martins, (1954), tomo II, p. 265 4

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escrivão de El-Rei Nosso Senhor e das sobreditas terras o fez. Ano de mil quinhentos e trinta e dois." E o Auto de posse de Pero de Góes "Saibam quantos este instrumento de posse virem como no ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de Mil quinhentos e trinta e dois aos quinze dias do mês de outubro, em a ilha de S. Vicente dentro da fortaleza por Pedro de Góes, fidalgo da casa de El-Rei Nosso Senhor, foi apresentada a mim escrivão ao diante nomeado uma carta de doação de certas terras que o mui magnífico Senhor Martim Afonso de Souza, do conselho de ElRei Nosso Senhor, governador em todas estas terras do Brasil, deu ao dito Pedro de Góes por virtude de um poder que para isso lhe deu Sua Alteza, as quais terras se chamam Tecoapara e a serra de Tapuribetera que está da banda donde nasce o sol, águas vertentes com o rio de Gerybatyba, o qual rio e terras estão defronte da ilha de S. Vicente das quais terras com todas as suas entradas e saídas, cabeças de águas e rios que nela houver com todas as suas confrontações, o dito Sr. governador manda que seja metido de posse o dito Pedro de Góes e por virtude da qual carta e doação em cumprimento fui eu escrivão às ditas terras com o dito Pedro de Góes e lhas divisei e demarquei, puz todos os nomes das mais terras e confrontações, e levei comigo a João Ramalho e Antonio Rodrigues, línguas destas terras já de quinze e vinte anos estantes nesta terra, e conforme o que eles juraram assim fiz o assento como mais largamente se verá pelo livro do tombo que o dito governador para isso mandou fazer e com meu poder o meti de posse delas ao dito Pedro de Góes de todas as terras que na carta faz menção, e lhe meti nas suas mãos terra, pedra, páos e ramos de árvores que das ditas terras tomei e pela qual o dei por empossado e dou deste dia para todo o sempre tão solenemente como de direito se pode fazer, e lhe publiquei e notifiquei a doação de ElRei Nosso Senhor e assim as condições dela para que em nem um tempo possa alegar ignorância, e ele dito Pedro de Góes aceitou a dita posse e se deu por empossado e ficou de cumprir as ditas condições que as hei por declaradas como se claramente as especificasse. Testemunhas que a tudo foram presentes o sobredito João Ramalho, Antonio Rodrigues e Pedro Gonçalves que veio por homem de armas nesta armada, que veio por capitão-mór o dito Sr. Governador, as quais assinaram no livro do tombo comigo escrivão. Em testemunho da verdade, eu como público escrivão da Fazenda de El-Rei Nosso Senhor e destas sobreditas terras e tabelião público pelo dito Senhor fiz este instrumento e traslado do sobredito tombo. Aquelas cláusulas e forças necessárias para dar tudo por instrumento ao dito Pedro de Góes, feito em Yrarabul, onde tem feito por virtude da dita posse o dito Pedro de Góes uns tijupares, e o assinei de meu público sinal que tal é". (…) "E sendo assim tudo trasladado como dito é e o dito Pedro de Góes disse que à conta das ditas dezessete peças de escravos já tinha 12 e lhe faltavam ainda 5, e portanto fez esta declaração, e asism consta nos próprios papéis que aqui trasladaram, e o dito governador lhe mandou dar este. Testemunhas que a tudo foram presentes Antonio do Valle, escrivão do público judicial, e Francisco Pinto, cavaleiro e fidalgo. E eu Antonio de Almeida, escrivão do público judicial, que isto escrevi." O mapa da Figura 2, com texto em latim, mostra a Capitania de São Vicente e arredores, compreendendo os anos de 1553 a 1597. Nas inscrições, vemos descritas tribos indígenas da região. Carijós ao Sul, Tupiniquins de Cananéia a São Vicente, 14


Muiramomis na região de Bertioga, Tamoios ao Nordeste e os caminhos dos Goianases e do padre Anchieta entre São Vicente e São Paulo de Piratininga.

Figura 2 – Capitania de São Vicente – Caminho de Peabirú6.

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Mapa que consta da obra “Capitanias Paulistas- Capítulo II – Primeira fase do Litigio”, publicado por Benedicto de Jesus Calixto. Ed. Duprat e Mayença. 2ª edição, 1927.

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Figura 3 – Caminhos de acesso ao planalto de Piratininga. No livro “Capitães do Brasil” de Eduardo Bueno7 vemos o mapa da Figura 3, que ilustra o novo caminho aberto para subida da Serra, evitando assim os índios tamoios, conhecido por Caminho do Padre Anchieta, que ia até o porto de Santa Cruz na encosta da serra e daí para o vale do Rio Perequê.

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Eduardo Bueno. Capitães do Brasil Vol 3 – Editora Objetiva. 1999

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Capítulo 2 Subindo a Serra Para começar a falar sobre Itaquera, é necessário que comecemos do princípio, falando sobre as Vilas e Cidades que vieram primeiro, seguindo uma sequência lógica. Saindo da Capitania de São Vicente, o caminho para se chegar até o local onde se encontravam as aldeias de Tibiriça e Piquerobi, no alto da Serra do Planalto de Piratininga, era sacrificante e, no depoimento do padre Anchieta em 1585 em “Informação do Brasil e de suas capitanias8”, sobre a subida da Serra do Mar, do século XIV, lemos: "Vão lá por umas serras tão altas que dificultosamente podem subir nenhuns animais, e os homens sobem com trabalho e às vezes de gatinhas por não se despenharem e por ser o caminho tão mau e ter tão ruim serventia padecem os moradores e os nossos grande trabalho". A dureza da subida também é dramaticamente descrita pelo Padre Mestre Simão de Vasconcelos9 e, o qual transcrevemos ipsis litteris, do original. ―148. A propria aspereza das serras faz mais aprazivel a benignidade dos campos: da qual aspereza só digo, que a paragem por onde se atravessam estas serras, é a mais fácil, que depois de experiencia, e discurso dos tempos poderam achar os moradores da outra parte do sertão de Piratininga para passarem ao mar (chamando-lhe os índios Paranápiacaba), e com ser parte escolhida, e o caminho feito por arte, é elle tal, que põe assombro aos que hão de subir, ou descer. O mais do espaço não é caminhar, é trepar de pés e de mãos, aferrados ás raízes das arvores, e por entre quebradas taes, e taes despenhadeiros, que confesso de mim que a primeira vez que passei por aqui, me tremeram as carnes, olhando para baixo. A profundeza dos valles é espantosa: a diversidade dos montes uns sobre outros, parece tira a esperança de chegar ao fim: quando cuidas que chegais ao curso de um achai-vos ao pé de outro não menor: e é isto na parte já trilhada e escolhida. Verdade é, que recompensava eu o trabalho desta subida de quando em quando; porque assentado sobre um daquelles penedos, d´onde via o mais alto cume, lançando os olhos para baixo me parecia que olhava do céo da lua, e que via todo o globo da terra posto debaixo de meus pés: e com notavel formosura, pela variedade de vistas do mar, da terra, dos campos, dos bosques e serranias, tudo vario, e sobremaneira aprazivel. Se se houvéra de medir o grande diametro desta serra, houveramos de achar melhor de oito leguas: porque supposto que vai fazendo em paragens algumas chans a modo de taboleiros, sempre vai subindo, e tornando á mesma aspereza; ainda que em nome diverso, chamada em uma das paragens, Praná Piacá Mirí, e logo em outra Cabarú Parangaba; e tudo é a mesma serrania. E finalmente vai subindo sempre até chegar ao raso dos campos, e a segunda região do ar, e onde corre tão delgado, que parece se não podem fartar os que de novo vão a ella. A grande copia de alagôas, fontes, e rios; a formosura de bosques, brutescos, e arvoredos; a diversidade de hervas e flores; a variedade de animaes terrenos e voadores; as apparencias admiraveis da compostura da penedia posta em ordem desigual; desde o princípio 8 9

Padre José de Anchieta. Cartas. Informação do Brasil e de suas capitanias. Padre Mestre Simão de Vasconcelos (1597-1671) “Crônica do Brasil‖, livro 1º, pág. 81

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(parece) da criação do mundo; a riqueza dos mineraes de ferro, cobre, chumbo, e ainda ouro, prata, e pedraria; tudo isto, se se houvéra de escrever em particular pediria leitura mui diffusa‖. A trilha, sempre íngreme, era o Caminho de Piaçagüera, primeira via utilizada pelos índios guaianás e pelos portugueses, que partindo dos Campos de Piratininga, desciam a Serra pelo vale do Ururaí, em direção ao vale do Rio Mogi e vice-versa. A partir de 1554, este caminho teve que ser inutilizado, pois os Tamoios, que eram inimigos dos portugueses e dos guaianás, ocupantes do vale do Paraíba e o litoral Norte, começaram a atacar os viajantes que transitavam por esta via. Dependendo do mapa, este caminho recebe uma denominação diferente. Os Tupis a chamam de Piabirú, que ligava o oceano atlântico ao Pacífico. Os europeus o chamavam de Trilha dos Tupiniquins, dos Goianases, Caminho de Piaçagüera, Trilha do Rio Mogi e Trilha da Raiz da Serra. Subindo-se a Serra, chega-se ao planalto de Piratininga onde os Guaianás e outras tribos tinham suas tribos, como pode ser observado no mapa da Figura 2. Da fundação de São Paulo e a missa de celebração, feita pelo Padre Manoel de Paiva, superior dos jesuítas, Anchieta relata ao Geral Inácio de Loyola as seguintes palavras10 ―(…) Assim, alguns dos irmãos mandados para esta aldeia, que se chama Piratininga, chegamos a 25 de Janeiro do ano do Senhor 1554, e celebramos em paupérrima e estreitíssima casinha a primeira missa, no dia da Conversão do Apostolo São Paulo e, por isso, a ele dedicamos a nossa casa‖. ―(…) De Janeiro até o presente tempo permanecemos, algumas vezes mais de vinte, em uma pobre casinha feita de barro e paus, coberta de palhas, tendo quatorze passos de comprimento e apenas dez de largura, onde estão ao mesmo tempo a escola, a enfermaria, o dormitório, o refeitório, a cozinha, a dispensa: todavia, não invejamos as espaçosas habitações, de que gozam em outras partes os nossos Irmãos, pois N. S. Jesus Cristo se colocou em mais estreito lugar, e dignou-se nascer em pobre mangedoura entre dois brutos animais e morrer em altíssima cruz por nós. Os índios por sí mesmos edificaram para nosso uso esta casa: mandamos agora fazer outra algum tanto maior, cujos arquitetos seremos nós, com o suor do nosso rosto e o auxílio dos índios. São Paulo de hoje, nasceu de uma casa paupérrima, coberta de palha, como descreve também o padre mestre Simão de Vasconcelos11. ―(…) Aqui no mais patente destes campos, junto a um rio, e perto da vivenda dos índios, escolheram os padres o sitio para seu collegio, e por bom annuncio do futuro, disseram nelle a primeira missa aos 25 de Janeiro, dia da conversão do sagrado Apostolo S. Paulo; de cujo nome quizeram todos se denominasse o sitio, e depois se denominou a villa, e territorio todo. 151. O modo da pobreza, e edificação religiosa, com que aqui começáram a viver estes obreiros da vinha do Senhor, descreverei pelas mesmas palavras, com que o pinta o mesmo irmão José de Anchieta: e diz assim a letra. Aqui se fez uma casinha de palha, com uma esteira de canas por porta, em que moraram algum tempo bem apertados os irmãos; mas este aperto era ajuda contra o frio, que naquella terra é grande com muitas 10 11

Padre José de Anchieta. Cartas. Quadrimestre de maio a setembro de 1555. Padre mestre Simão de Vasconcelos (1597-1671). Crônica do Brasil. Livro 1º, 2nd. Edição (1864) pg. 83.

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geadas. As camas eram redes, que os índios costumam; os cobertores o fogo, para o qual os irmãos commummente, acabada a lição da tarde, iam por lenha ao mato, e a traziam ás costas para passar a noite. O vestido era muito pouco, e pobre, sem calças, nem sapatos, de panno de algodão. Para mesa usaram algum tempo de folhas largas de arvores em lugar de guardanapos: mas bem se escusavam toalhas, onde faltava o comer, o qual não tinha donde lhes viesse, senão dos indios, que lhes davam alguma esmola de farinha, e ás vezes (mas raras) alguns peixinhos do rio, e caça do mato. Muito tempo passaram grande fome, e frio: e com tudo prosseguiram seu estudo com fervor, lendo ás vezes a lição fóra ao frio, com o qual se haviam melhor, que com o fumo12 dentro de casa. Até aqui José. Esta mesma substancia com pouca mudança escreveu o mesmo a Roma a nosso padre Ignacio de Loyola, em carta sua feita em Agosto do mesmo anno, em que imos de 1554. E diz assim no mesmo Latim em que escreveu. A Januario usque ad præsens nonnumquam plus viginti (simul enim pueri catichestæ degebant) in paupercula domo luto et lignis contexta, paleis cooperta, quatuordecim passus longa, decem lata mansimus. Ibi schola, ibi valetudinarium, ibi dormitorium, cænaculum item, et coquina, et penus simul sunt: nec tamen amplarum habitationum, quibus alibi fratres nostri utuntur, nos movet desiderium; siquidem Dominus noster Jesus Christus in arctiore loco positus est, cùm in paupere præsepi inter duo bruta animalia voluit nasci; multo verò arctissimo cùm in Cruce pro nobis diquatus est mori. 152. Aqui nesta pobreza se abriu a segunda classe de grammatica que teve o Brasil (porque já na Bahia se tinha aberto uma) frequentavam-na nossos irmãos, e bom número de estudantes brancos, e mamelucos, que acudiam das villas circumvizinhas. Lia esta classe o irmão José de Anchieta: occupação em que perseverou alguns annos, com grande aproveitamento de seus discípulos, e com maior opinião de sua santidade. O trabalho era excessivo: ainda naquelle tempo não havia nestas partes copia de livros, por onde podessem os discipulos aprender os preceitos da grammatica‖. O crescimento de São Paulo é marcante e sua importância estratégica é tal que, em 1560 o Governador Men de Sá decide dissolver a Vila de Santo André e a transfere para Piratininga. Contudo os índios ficam incomodados com um aumento na densidade demográfica de brancos, pessoas estranhas ao seu modo de vida e, receosos com o impacto que isso teria em seu dia-a-dia, decidem abandonar as proximidades do colégio e seguem para a aldeia São Miguel de Ururaí acompanhando seu chefe, o cacique Piquerobi. Está aldeia também tinha um posicionamento estratégico pois, em linha reta, acompanhando os rios Baquirivu, próximo da atual Praça Padre Aleixo Monteiro Mafra, em São Miguel Paulista, chegavam ao rio Anhembi, atingindo o local onde se pode avistar o Mar, em tupi, Paranapiacaba. Em 1562, Piquerobi ataca a vila de São Paulo e é derrotado, o que o faz isolar-se em definitivo em Ururaí. Como a briga e a dissidência era com os portugueses, não com os Jesuítas, estes continuam a visitar regularmente a aldeia e fundam uma nova missão, catequizando assim os índios de Ururai. Anchieta e os demais Jesuítas que o acompanha vêem o crescimento da aldeia e resolvem fundar uma capela em louvor a São Miguel Arcanjo que, diferente que alguns historiadores escreveram, não era o Orago de devoção do padre José de Anchieta, mas sim o “Sagrado Coração de Jesus”, cuja devoção ainda não era oficial e, Nossa Senhora, mãe de Jesus. O fato de ter escolhido o Arcanjo, general das milícias celestiais é, com certeza, uma identidade aos guerreiros de Piquerobi. O que 12

Fumaça produzida pela fogueira dentro da casa. Os portugueses modernos ainda hoje referem-se às fumaças desta mesma forma.

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suscita a tese de que os jesuítas, e principalmente Anchieta, torciam em favor dos índios e sua causa, e mais, a data de fundação de São Miguel, deve ser revista e, de minha parte, depois de rever as referências de forma isenta e comparativa, reforço sem sombra de dúvida, a conclusão feita pelo historiador Sylvio Bomtempi13,14, onde propõe a data de 1560 e o Padre Anchieta como um de seus fundadores.

Figura 4 - Detalhe da Carta Corográfica - Capitania de S. Paulo, de 176615.

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Sylvio Bomtempi. Origens Históricas de São Miguel Paulista. Editora UnicSul. 2000 Sylvio Bomtempi. História dos Bairros de São Paulo: o Bairro de São Miguel Paulista. Prefeitura Municipal 15 Conservada no Arquivo do Estado de São Paulo no setor iconográfico/mapa 08.02.04. 14

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Figura 5 – Trecho do "Mappa da capitania de S. Paulo, e seu sertão em que devem os descobertos, que lhe forão tomados para Minas Geraes, como tambem o camiho de Goyazes, com todos os seus pouzos, e passagens". Detalhes: 1-Vila de São Paulo, 2Arrayal de São Miguel, 3 – Vila de Mogi. Os Tracejados são caminhos de ligação entre São Paulo, o litoral e os sertões. Século XVIII. Por Francisco Tosi Columbina. Arquivo Biblioteca Nacional16.

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O arquivo digital com o mapa integral pode ser encontrado em: <http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_cartografia/cart

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Figura 6 – Mapa Corográfico da Província de São Paulo. Daniel Pedro Muller. 1837 17. A fim de salvaguardar os interesses dos índios, Jerônimo Leitão, Capitão-mor de Lopo de Souza, faz provisão de uma sesmaria de terras de seis léguas18 em quadra, aos índios da aldeia de S. Miguel de Ururaí ao longo do rio Ururaí, como se lê19: "(…) começando onde acabam as terras que se deram a João Ramalho e a Antônio de Macedo". Contudo Azevedo Marques20, com base em dados obtidos em consulta à documentos do Cartório da Provedoria da Fazenda de S. Paulo, L. 2º, de Sesmarias, na parte cronológica, confirma a data de 12 de Outubro de 1580, todavia a dimensão de terras era de três léguas. Estas terras compreendiam a Penha, Itaquaquecetuba e Ferraz de Vasconcelos e fazia fronteira com Mauá e Santo André e naturalmente Itaquera21. Devida sua posição estratégica, a vila de São Miguel era passagem de várias tropas, fazendo com que se expandisse e, em 1585, seus habitantes já contavam 1000 almas, conforme carta “Informação do Brasil e de suas capitanias” de Anchieta, que relata a existência de mais duas outras povoações, aos cuidados dos seus irmãos jesuítas.

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<http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0102z12.htm> Acessado em 03/2010 Uma légua portuguesa equivalia a cinco quilômetros. 19 Registro Geral, Volume 1º, Pág. 354 20 Azevedo Marques, Manuel Eufrásio de. "Apontamentos Históricos, Geográficos, Biográficos, Estatísticos e Noticioasos da Província de São Paulo". São Paulo, Livraria Martins Editora, 1953. 21 A distância entre a Capela de São Miguel e a Igreja de Sant´Ana, em Itaquera, é de 4,22km. 18

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― (…) Têm duas aldeias de Índios a seu cargo: uma intitulada da Conceição de Nossa Senhora dos Pinheiros, que dista uma légua da vila, e outra intitulada de S. Miguel que dista duas léguas. Entre ambas terão 1000 pessoas, e há nesta terra muito bom aparelho para conversão por haver ainda grande número de gentio não muito longe‖. Este fato levou os Jesuítas a projetarem um templo maior em São Miguel, o que fez merecer uma nova igreja e, segundo Washington Luiz22 em seu livro “Na Capitania de São Vicente” diz que: ―A Capelinha de S. Miguel de Ururaí ainda existe e é bem conhecida em S. Paulo pela sua antiguidade, tendo sido restaurada por diversas vezes; está situada além da Penha, na estrada de rodagem que passando por Mogi das Cruzes vai à Capital Federal, chamada Rodovia Rio–São Paulo. Ficava essa capelinha na aldeia de S. Miguel, então no velho caminho do mar, vereda de índios, que se desenvolvia no vale acidentado do rio Mogi. Foi por ele que Martim Afonso subiu ao planalto em 1532, visto que então não havia outro‖. A aldeia dos Guaianás, em Ururaí, apesar de bem demarcada por concessão de sesmaria sofreu com invasões. Sua localização era privilegiada pois ficava na rota conhecida por Velho Caminho do Mar e, conforme cita Saint-Hilaire23 ―O capitão geral D. Luiz António de Sousa Botelho Mourão, que governou São Paulo em 1766, quis melhorar a sorte das aldeias; foram excelentes suas intenções, mas não conhecia êle nem o país, nem os indígenas, nem, mesmo, ao que parece, os homens em geral, porquanto não podia, razoavelmente, ter a ilusão de encontrar, nos administradores que dava aos indígenas, as perfeições que pretendia encontrar nos mesmos administradores. Tendo reconhecido que as terras das aldeias tinham passado, inteiramente, para a mão de extranhos, e que, entre os intrusos, vários não pagavam o foro, quis restituir aos seus legítimos proprietários os bens que lhes pertenciam. Munido dos títulos dominiais de Pinheiros e de São Miguel, deu ordens para que fossem medidas as seis léguas em quadra, que tinham sido concedidas aos guaianazes, primitivos habitantes de cada uma dessas aldeias. Contra qualquer verossimilhança, acreditava o governador que se tinha pretendido conceder aos indígenas uma superfície quadrada, da qual cada lado medisse o comprimento de seis léguas; mas, quando percebeu que as cidades de São Paulo e de Mogí das Cruzes seriam, de acordo com tal avaliação, incluídas na área atribuída aos indígenas, não prosseguiu no seu projeto de medição. — "Atualmente, escreveu, em 1797, o padre Gaspar da Madre de Deus, — os infelizes indígenas, descendentes dos antigos donos das terras, não possuíam quasi nada mais; os brancos despojaram-nos da maior parte de suas terras, embora as áreas que lhes foram concedidas o tivessem sido sob a expressa condição de não causarem qualquer prejuízo aos indígenas". Em 1823, a expoliação dos indígenas de Pinheiros estava completamente consumada, e pode ser que o estivesse desde muito tempo antes; intrusos ocupavam todas as terras que a esses infelizes pertenciam. Ganhavam os mesmos a vida trabalhando como jornaleiros; as mulheres fabricavam artefatos de barro‖.

Washington Luiz. Na Capitania de São Vicente. Edições do Senado Federal – Vol. 24. Brasília – 2004 Saint Hilaire, Auguste de. "Viagem à Província de São Paulo, Província Cisplatina e Missões do Paraguai", 2ª ed., Livraria Martins Editora, são Paulo, 1945. 22 23

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Capítulo 3 Bandeiras As Entradas e Bandeiras, ponto característico da civilização paulista, que em muitos inspira orgulho e em outros o ódio, foi a principal engrenagem de avanço do território brasileiro, esboçando o mapa que temos hoje impresso em nossos livros24. Somente assistindo documentários e consultando referências sérias sobre o assunto, podemos plasmar em nossa mente a dureza da vida de um bandeirante, seja ela organizada para capturar escravos índios, resgatar escravos negros, procurar ouro, prata ou pedras preciosas ou demarcar o território previsto pelo Tratado de Tordesilhas, o qual teve um papel marcante junto ao papa o venerável Infante Dom Henrique, fundador da Escola de Sagres. Como as bandeiras não respeitaram o Tratado, os bandeirantes foram penetrando no interior do continente, e a medida que paravam, criavam povoados, que eram, em princípio, ranchos muito simples, com o intuito principal de abrigar os viajantes e tropas. Foi desta forma que nasceram muitas cidades, como Limeira, Rio Claro e Ipeúna, e é desta forma que pretendemos propor o povoamento de Itaquera, e sua consequente fundação ou povoamento. Primeiro como passagem de tropeiros e bandeirantes, pousando na Casa Pintada, rancho que descansavam e se reabasteciam para seguir viagem rumo ao Rio de Janeiro e às Minas Gerais. A ligação entre os nascentes centros de povoação era por estradas, que tinham o nome oficial de Estradas Reais ou Estradas Gerais, pois eram as vias oficiais criadas pelos donatários das terras, cumprindo ordens de El Rei de Portugal, através de seus representantes na Colônia, facilitando as aduaneiras e a cobrança dos impostos. Muitas destas Estradas eram melhorias de antigas rotas utilizadas pelos indígenas, recrutados em muitas expedições como guias. Sabe-se que na segunda metade do século XVII as Bandeiras foram incrementadas, com o objetivo de suprimir a derrocada da cultura açucareira, desta forma, para a Metrópole o foco das riquezas da Colônia passa a ser o Sertão, ou o interior do país, afastando-se cada vez mais da costa litorânea. O que nos interessa, objeto deste trabalho, é que estas bandeiras utilizavam a chamada trilha dos Guaianases, isso porque era uma trilha utilizada pelos índios da tribo Guaianás, cuja extensão de terras compreendia Cananéia, em São Paulo, à Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Esta Estrada, posteriormente rebatizada de Caminho Geral do Sertão, Caminho dos Paulistas ou Caminho de São Paulo, tinha seu trajeto iniciado na atual cidade de Jundiaí, e atravessava São Paulo de Piratininga até chegar no rio Paraíba do Sul. Todo este caminho era para alcançar Mogi das Cruzes, em função de seus garimpos, o que permitia que neste trajeto fossem fundados vários povoamentos. Este trajeto funcionou como a principal rota da Região Centro Sul até o século XVIII, onde seguindo para Norte atravessa a Serra da Mantiqueira (que se estende pelos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro), através da Garganta do Embaú, seguindo até a região do rio das Velhas e seguindo para o Sul, passando pela Vila Galvão (atual cidade de Cunha), descia a Serra do Mar, alcançando Paraty (Sul do Rio de Janeiro), de onde se embarcava, via marítima, para Sepetiba (Oeste da cidade do Rio de Janeiro), e daí, por terra, para a cidade do Rio de Janeiro. Estes caminhos, norte e sul, formavam o chamado Caminho Velho das Minas, ligando o Rio de Janeiro a Paraty, Paraty a Guaratinguetá, e Guaratinguetá a Vila Rica (hoje Ouro Preto). 24

José Alípio Goulart. Tropas e Tropeiros na Formação do Brasil. Editora Conquista. 1961

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Vindo de São Paulo rumo à Mogi das Cruzes, por exemplo (vide Figura 5), o caminho era passar por Penha de França, alcançar São Miguel, passar por Itaquera através da Estrada Geral, atual rua Padre Gregório Mafra, seguir pela rua Monsenhor José Rodrigues Seckler, atual rua Francisco Alarico Bérgamo, chegando na Av. Pires do Rio. Daí podia escolher em seguir para Leste, alcançando Itaquaquecetuba, Mogi das Cruzes e o litoral ou seguir para Oeste, alcançando o centro de Itaquera e a estação ferroviária, a partir de 06 de Novembro de 1875, quando foi inaugurada (Anexos 1 e 2). Interessante de se notar é que segundo o depoimento de vários moradores antigos, até a década de 1950 assistia-se os carros de bois desfilando pela rua Francisco Alarico Bergamo, transportando mercadorias que seriam colocadas nos vagões de carga do trem que aguardavam na Estação de Itaquera ou, seguiam em tropa para Mogi das Cruzes. Tivemos acesso à um magnífico trabalho que descreve estes trajetos, de autoria de André João Antonil25. No título do Capitulo IX, encontramos a explicação da máxima popular “Quinto dos Infernos”: ―Da obrigação de pagar a El-Rey nosso Senhor a quinta parte do Ouro, que se tira das Minas do Brasil‖. No Capítulo X, “Roteiro do caminho da Vila de São Paulo para as Minas Gerais e para o Ria das Velhas”, vemos a base de nossa tese sobre a povoação da Vila Santana de Itaquera, como entreposto de descanso e abastecimento entre a Vila de São Miguel e Itaquaquecetuba, o que ocorreria em 1820. ―No primeiro dia saindo da Vila de São Paulo vão ordinariamente a pousar em Nossa Senhora da Penha, por fè (como elles dizem) o primeiro arranco de casa: e não são mais que duas leguas. Dai vão à Aldeia de Tacuaquisetuba, caminho de hum dia. Gastam da dita Aldeia até a Vila de Mogi dois dias. De Mogí vão as Laranjeiras, caminhando quatro ou cinco dias até o jantar. É interessante de se observar que a palavra “droga” ou “drogaria”, utilizada em português de Potugal, ainda nos dias de hoje, não tem a conotação que temos no Brasil. Enquanto em Portugal “Drogaria” é relativo à um estabelecimento que comercializa produtos químicos em geral (Drogas) e materiais de construção, ferramentas gerais, artigos para jardinagem, etc, no Brasil a palavra “Droga” é relativa à substâncias narcóticas e “Drogaria” é o estabelecimento que comercializa medicamentos.

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André João Antonil. Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas.Lisboa. 1711

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Figura 7 â&#x20AC;&#x201C; ComĂŠrcio de materiais diversos em Lisboa designado por Drogaria. 2011.

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Capítulo 4 Itaquera dos Campos Sabe-se que Itaquera já existia em meados do século XVII, onde a região passou a ser citada como povoamento de São Miguel e no fim do século XVIII, como território da freguesia da Penha, e por último como bairro do distrito de São Miguel Paulista. Somente pela lei estadual nº 1756, de 27 de Dezembro de 1920, o bairro foi elevado à categoria de Distrito Autônomo, com a criação do Cartório Notarial. No Diário Oficial do Estado de São Paulo, de 24 de Abril de 1921, página 2665, podemos ver a seguinte publicação da Câmara Municipal de São Paulo. A transcrição abaixo foi mantida como no original. ―Eleição de juize de Paz do Districto de Itaquera Raymundo Duprat, presidente da Camara Municipal de São Paulo. Faz publico que, devendo realizar-se, no dia 24 do corrente, a eleição para juízes de paz do districto de Itaquera, creado pela lei estadual n. 1756, de 27 de Dezembro de 1920, a Camara Municipal, em sessão de hoje, na fórma da lei, designou o edificio da Escola Publica Feminina do districto de S. Miguel, situado no Largo da Matriz, para o funcionamento da mesa da secção única do novo districto, que será nomeado, na fórma da lei, pelos juizes de paz e (…) do districto de São Miguel, do qual foi desmembrado o novo territorio. – Publique-se. Camara Municipal de S. Paulo, 2 de Abril de 1921. 368º da fundação de S. Paulo.- O Presidente Raymundo Dupat. O diretor, Plinio Ramos‖.

Figura 8 – Anúncio comercial do cartório de Itaquera, publicado no jornal “O Suburbano” nº1, de 1931. Arquivo Amaury Roldan Pereira.

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O nome Itaquera é de origem Tupi e pode ter duas origens 26, Ita Quer - Pedra Dormir, ou Taquera, que significa Jazigo de pedra ou simplesmente Pedras, já que o sufixo também pode indicar o plural. Muitas literaturas trazem também a tradução de "pedra dura", todavia, o vocábulo relativo à palavra “dura” em Tupi é Atã, portanto esta designação está fora de consideração. A data atualmente comemorada de fundação do Bairro, ou inicio de povoamento, está baseada em uma Carta de Sesmaria com a inscrição “Roça Itaquera”, referência datada do ano de 1686, contudo, infelizmente, não pudemos localiza-la. Esta citação está inserida em várias referências modernas, de forma até leviana do ponto de vista histórico, contudo, o fato é que há outras cartas de Sesmarias com datas até mesmo mais antigas e, pelos dados em consultas que pudemos obter, a data do início do povoamento de Itaquera está mais próximo do ano de 1644, segundo a doação de terras por Sesmaria dada à Antonio da Cunha de Abreu, segundo a obra de Pedro Taques e Luis Gonzaga da Silva Leme27,28,29. ―1-1 Isabel da Silva casou-se em 1633 em S. Paulo com Antonio da Cunha de Abreu, natural de Tollaes30 fº de Gaspar da Cunha de Abreu e de Anna Teixeira (1); falleceu com testamento em 1664 em S. Paulo e do seu consorcio com Antonio da Cunha de Abreu teve 6 fos: (…). ―(1) Este Antonio da Cunha de Abreu, segundo o que escreveu Pedro Taques, assentou praça de soldado de fortuna em 1625 na armada que em Portugal se preparou para vir restaurar a Bahia, que se achava occupada pelos hollandezes que a invadiram em 1624. Veio na dita armada em praça de soldado distincto da companhia do capitão-mór dom Francisco de Moura. Restaurada a Bahia não quis ficar ocioso e tomou parte na campanha da restauração de Pernambuco. Em 1639, estando já casado em S. Paulo, como vimos acima, embarcou na Bahia, tendo ido com a recruta de paulistas, levantada por dom Francisco Rendon de Quebêdo, com o conde da Torre para Pernambuco; voltando de Pernambuco para a Bahia pelo sertão com todos os paulistas que na Bahia foram agregados ao mestre de campo Luiz Barbalho Bezerra, tornou para Pernambuco com dom Antonio Oquando e se achou o dito Abreu em todos os assaltos assim em terra como no mar, servindo sempre a S. Majestade a sua custa. Isto se vê no cartório da provedoria da fazenda real de S. Paulo no liv. de reg. n.º 10, quando o mesmo Abreu pediu terras para cultura, alegando todos esses serviços, e se lhe concedeu em 1644 meia légua de terras de sesmaria, em terra de índio, começando da roça de Claudio Furquim, rio Itaquera abaixo‖. Nestes anos de 1600 já ocorriam as contínuas passagens de tropas entre o litoral Norte e Piratininga, carregando religiosos, muares e suas mercadorias e bandeiras, que tinham como objetivo as Gerais e o Rio de Janeiro, assim também como os que vinham destas regiões rumo à Piratininga e Ypanema. O nome Itaquera não vem de uma frase dita, creditada ao Jesuita Padre Anchieta, se bem que é provável que ele tenha passado por suas terras para alcançar as aldeias de Ururaí e Tacuaquisetuba via Av. Pires do Rio, mas sim ao fato de seu subsolo ser 26

Pe. A. Lemos Barbosa. Pequeno vocabulário Tupi-Português. 1967. Livraria São José. Rio de Janeiro. Pedro Taques de Almeida Pais Leme. Nobiliarquia Paulistana Histórica e Genealógica. 28 Luiz Gonzaga da Silva Leme. Genealogia Paulistana (1852-1919). Ed. Duprat & Comp. São Paulo. 1903. Vol VI - Pág. 237 a 296. 29 <http://www.genealogiabrasileira.com/cantagalo_ptindice.htm> Acessado em fevereiro de 2011 30 Tollaes ou Santo André de Telões, freguesia portuguesa do Concelho de Amarante - Portugal 27

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fecundo em rochas do tipo cristalino, como granitos da era arqueozóica, rochas metamórficas, gnaissicas e micaxistos micáceos31, bem como os índios guaianases se referirem à está região como a Itaquera que conhecemos hoje por esta mesma razão, contudo, por muitos anos os documentos históricos referem-se à região como “Casa Pintada” e “Caaguaçú”. A primeira devido a existência de um Sítio, conhecido e amplamente relatado desde 1820, o segundo referindo-se a existência da Fazenda do século XVIII, de propriedade inicial da Ordem Terceira do Carmo. É importante ressaltar que muito cuidado deve-se ter ao estudar documentos com a designação Caaguaçú pois, na tradução do Tupi, esta palavra significa “Mata Grande” e, o termo também é empregado para se referir à outra Fazenda em São Paulo, que se localizava na atual Avenida Paulista. O texto abaixo foi transcrito ipsis litteris do Jornal “O Suburbano”, de 1931. “Para a História Uma porteira simples, já gasta no ―trinco‖ e nos ―eixos‖, deixou atraz de nós o progresso, e entramos nas terras incultas da Fazenda Caguassú. Fazenda que … ―foi‖, e que tem apenas como testemunho desse passado, quasi ―morto‖, duas casas velhas, mal reparadas, no propósito, parece, de lhes conservar o estylo e a tradição. Até a porteira simples que a separa dos extranhos, o Presente caminhou e progrediu. Tem o ar da mocidade, que se enfeita e se faz gaiata. Sorri para o infinito e rejuvenesce no azul, que é a cór eterna do céo. Além da porteira, o Passado estacionou. E é hoje a engelhada recordação de uma outra mocidade que desconhecemos. A memoria que alli está tem o cunho triste da saudade dolente. É a esquálida recordação que se encheu de caus, e a que o azul eterno do céo dá o cunho melancólico da decrepitude e do cançasso. * Há muitos anos atraz, o Dr. Rodrigo Pereira Barreto32 punha um sorriso em cada canto, uma alegria geral em toda a fazenda. Lindos cavalos rinchavam naquelas encostas de largas pastagens. E pela porteira, então nova e bem posta, luxuosas carruagens deslisavam pelo caminho bem tratado e bonito. Depois… Julio Klaunit succedeu a Pereira Barreto. Aquelle, num arrendamento que termina neste anno de 1931, passou-a ao General João Francisco, que alli permaneceu algum tempo, dizem que já meditando nos seus ideaes revolucionários. Disse-nos o caseiro, o sr. Meyer, que gentilmente nos attendeu, ter visto umas vallas e escavações um pouco retirado dalli, e que o General João Francisco conservava sempre limpas. Essas vallas, que são as mesmas que servem de divisa da fazenda ficam no alto de uns montes, de onde se descortina uma grande extensão em redor. E são como trincheiras, que o grande militar mantinha em bom estado, não se sabe com que fim. A Fazenda Caguassú, que tem mais de 200 annos, é uma memória secular de São Paulo antigo, que Itaquéra conserva encravada no seu progresso. Naquellas fachadas enrugadas ainda se vé a construcção colonial daquelles tempos remotos, guardando o velho estylo naquellas semi-ruinas, que ainda se conservarão por muito tempo. 31 32

http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/subprefeituras/itaquera/historico/ Vide breve biografia no Anexo 23.

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Hoje, no largo patamar que separa as duas casas (residencia e estabulo) brincam as crianças do sr. Meyer. E no bosque de eucaliptus ao lado, pipilam e gorgeiam passarinhos. (…). (…) Há no homem mesmo a tendência de conservar entre as roupagens luxuriosas do Progresso, os talhes archaicos e respeitosos que foram o prazer artístico de nossos antepassados. São como marcos iniciais da evolução. Servem para medir o caminho do progresso. Valiosas memorias para a Historia”.

Figura 9 – Fazenda Caguassú, sede e estábulo. Jornal “O Suburbano”, 1931. Arquivo Amaury Roldan Pereira. O processo de loteamento da região de Itaquera conhecida como Vila Carmozina e Colônia Japonesa pode ser compreendida através do estudo dos artigos abaixo, extraídos de dois jornais que circularam na região, referenciados no rodapé. Neste empreendimento aparece o nome do coronel Bento Pires de Campos, cuja respeitável biografia pode ser constatada no Anexo 22. “VILLA CARMOZINA ITAQUÉRA Dirigida pelos srs. Coronel Bento Pires de Campos e Jonas Speers, a VILLA CARMOZINA tem UM QUE de sympathica, offerecendo o bem estar e conforto, e a necessária confiança aos que nella se vão installar. (…) Por isso mesmo a colónia japonesa, pratica como de facto é, está alli edificando seus lindos predios ruraes, e já mostrando os effeitos do seu labor, supprindo Itaquéra dos géneros necessários, proprios da zona, e exportando para as feiras livres da Capital o excesso da sua producção. (…) Ainda agora, conforme já noticiámos em outro numero, está edificandose, em terrenos, doados pelo sr. coronel Bento Pires, o ABRIGO DA DIVINA 32


PROVIDENCIA, obra de grande vulto , e que só poderia ter origem em coração privilegiado, de pessoa que olha, como realmente se deve, os que vivem desamparados. Além de escolas, enfermarias e azilos, o ABRIGO terá uma igreja, e um edifício offerecido pela família Pires de Campos, destinado exclusivamente á velhice desamparada. (…)”33. “ ITAQUÉRA Quem, ha 15 annos, mais ou menos, passasse por Itaquéra, não veria mais que uma estação velha e 2 ou 3 casas antigas. Á margem direita da E. de F. C. do Brasil, para quem vae ao Rio de Janeiro, de um lado do rio Jacuhy, existiam somente terras da fazenda que pertencia ao sr. Coriolano Pereira Barreto34, e que se extendiam até o bairro do Lageado. A séde dessa fazenda, que foi moradia, por longos annos, do seu proprietario, serviu depois de moradia tambem, pelo espaço de 4 annos, ao chefe revolucionario General João Francisco. Do outro lado do rio Jacuhy, na mesma margem da Central, existiam apenas as terras da fazenda que pertencia á Ordem do Carmo e que hoje pertence á Companhia Commercial Pastoril e Agricola. E do outro lado da Central do Brasil, terras de Frei Muniz. Coriolano P. Barreto dividiu uma parte da sua fazenda em lotes de 10.000 metros, vendendo-os á razão de 50 réis o metro, tendo com isso conseguido uma venda rápida a elementos que vieram iniciar o progresso local. A Companhia Commercial Pastoril e Agrícola, por sua vez, organisou a Villa Carmozina, numa area de 50 alqueires, mais ou menos, arruando e dividindo em lotes, a prestações, tendo sido também um dos maiores factores de progresso nesta localidade. Essa Companhia fundou também a colonia nipponica, tendo vendido seus terrenos a japonezes. Essa Villa é hoje habitada por brasileiros, allemães, italianos, portuguezes e outros, todos se dedicando á pequena lavoura. E colhem com abundancia tomates, morangos, fructas, ovos, etc., sendo de admirar que só esta villa, com os seus pequenos agricultores, tenha produzido no anno agrícola 1929-30 a importância de 300 contos de réis. A população actual desta localidade é de 6.000 habitantes, o que não parece devido a sua disposição topographica. As habitações, em sua maioria de bom estylo e boa construcção, são em numero de 1300. Só na Villa Carmozina existem 548 casas. Possue tambem muitas chácaras que muito produzem, mas que nos foi impossivel recensear. Os recursos de Itaquéra podem se contar entre: grupo escolar, collegio, igreja, pharmacia, medico, telephone, armazens bem sortidos, leiterias, padarias, feira livre aos domingos, e outras, que seria extenso enumerar. Alugueis baratos e abundância de fructos e legumes. Além do que acima apontamos resumidamente, existem ainda muitas olarias, uma pedreira, sociedades esportivas e recreativas e outros recursos trazidos pelo progresso,

33 34

Jornal “A verdade”, ano I, nº06, Dezembro de 1926. Coriolano Pereira Barreto era filho de Rodrigo Pereira Barreto. N.A

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e que futuramente indicaremos com suas minuciosidades, segundo os dados que formos colhendo”35.

Figura 10 - Entre os militares, o senhor à paisana e farto bigode branco é o general gaúcho João Francisco, que participou da Revolução de 1924 ao lado dos paulistas e na de 1930 contra os mesmos. Arquivo Ricardo Della Rosa36.

Jornal “O Suburbano”, ano I, nº01, Março de 1931. O sr. Ricardo Della Rosa, mantenedor da página <http://tudoporsaopaulo1932.blogspot.com/2011/04/misterioso-album-de-fotos-de1932.html> Autorizou-nos gentilmente a utilização desta fotografia em 08/2011, ao qual somos profundamente gratos. 35 36

34


Figura 11 – Anúncio comercial da Comp. Commercial Pastoril e Agricola, responsável pelas vendas dos lotes na Vila Carmozina e Colônia Japonesa. Jornal “O Suburbano” nº14, 1931. Arquivo Amaury Roldan Pereira.

35


Os mapas 12a e 12b, gentilmente cedidos pela Odontóloga dra. Marisa Sugaya, cujo avô foi o venerável agrimensor Kan Sugaya, responsável pela demarcação dos sitios, mostram estes loteamentos e a propaganda intrínseca de divulgação.

Figura 12a e 12b – Mapas de lotes compreendendo as regiões de Itaquera da Colônia e Vila Carmozina. Arquivo Familia Sugaya. 36


Figura 13 – Do lado esquerdo da foto a Farmácia N.S. do Carmo, de Augusto R. Seckler e a direita o escritório da Companhia Comercial Pastoril e Agrícola (Villa Carmozina). 1930. Arquivo Familia Sugaya.

37


Figura 14 – Propaganda dos loteamentos para a comunidade nipônica. A área da Vila Carmozina, com a Igreja do Carmo em primeiro plano e a região da Colônia. Arquivo Família Sugaya 38


Figura 15 – Página de ilustrações do documento de loteamento. Arquivo Família Sugaya.

39


Figura 16 – Itaquera de cima, com sede na Igreja do Carmo e, de baixo, com sede na Igreja de Sant’Anna - 1943. Arquivo Prefeitura de São Paulo37. Também a existência da rota conhecida como “Via Geral” (Anexos 1, 2 e 13), em mapas antigos da Região atestam a antiguidade de povoamento de Itaquera pela Vila Sant’Anna, uma das primeiras vilas, se não a primeira, a se formar em Itaquera, pois para se sair da Capital, com sentido ao Rio de Janeiro e mesmo ao litoral norte, o caminho percorrido era por Penha de França, através de uma antiga rota que passava pelas terras da aldeia de Ururaí, e que hoje são as avenidas São Miguel e Marechal Tito.

37

< http://sempla.prefeitura.sp.gov.br/historico/1940.php> Acessado em Junho de 2010.

40


Capítulo 5 Vila Santana A Vila Santana, cujo marco de povoação registro aqui como a Igreja da Paróquia de N.S. de Sant´Ana, está localizada nas coordenadas 23º31´38.63´´S e 46º27´17.55´´W, com uma elevação de 755 metros em relação ao nível do mar, no Bairro de Itaquera, à Leste da cidade de São Paulo, Estado de São Paulo, Brasil. Oficialmente, a Paróquia de Sant’Ana foi criada em 1964, conforme pesquisa em documentos da Diocese de São Miguel Paulista, contudo, quando começamos o trabalho de levantamento da história da Igreja e da Vila Sant’Ana, entramos em contato via e-mail com S. Excia. D. Manoel Parrado Carral, Bispo de São Miguel Paulista, que nos disse que a Capela que dera origem a Igreja era muito mais antiga a esta data, fato corroborado pelo Revmo. Padre Manoel Olavo Amarante, atual Cura da Paróquia de Sant´Anna. A foto mais antiga que tínhamos em nosso poder (Fig. 25), indicava que o edifício atual da Igreja era muito anterior a década de 1950, e as entrevistas com antigos moradores do local, mostravam que era mais antiga ainda, pois muitos afirmaram que quando compraram seu lote, em 1927, a Igreja já existia, na forma de tijolo a vista, em substituição a uma antiga capela. Então, começou-se o trabalhado de mineração e rastreamento de documentos, que comprovassem nossas teses sobre a antiguidade da Vila Santana e da Igreja de Sant’Ana e, devo confessar que estes documentos começaram a chegar em nossas mãos, por vários caminhos inimagináveis, pela Graça de Deus. Apresentamos no capítulo anterior, referência incontestável sobre a antiguidade de Itaquera e da Vila Sant’Ana, datando de pelo menos 42 anos anterior a data atualmente comemorada como fundação do bairro de Itaquera. Com base na obra de Luis Gonzaga da Silva Leme e Pedro Taques, Antonio da Cunha de Abreu é o fundador dos primórdios de onde está inserida a Vila Sant’Ana, como o primeiro proprietário das terras que compreendia o Sítio da Casa Pintada. Era o ancestral de Beraldo Marcondes de Abreu, 1º Suplente do subdelegado da 5ª Circunscripção da 11ª subdelegacia de São Miguel Paulista38, o qual em 1912 vendeu para o Coronel Francisco Rodrigues Seckler as ditas terras, como pode ser constatado pelos documentos no Anexo 3 e 4, cedidos pela Dra. Marisa Rivas, filha do advogado Dr. Rivas, procurador e representante do Dr. José Seckler, filho do coronel Seckler. Antonio da Cunha de Abreu, herói nacional na restituição do Brasil à Coroa portuguesa pediu, e foi atendido, uma concessão de terras por relevantes serviços prestados. Tomando posse das terras, construiu a Sede de seu Sítio que mais tarde seria conhecido como Rancho ou Sítio da Casa Pintada, erigindo uma primeira capela, mais exatamente um altar, com Orago oferecido em louvor a Sant’Ana, provavelmente influenciado pelo nome de sua mãe, dna. Anna Teixeira. Com o tempo e a utilização do rancho como pouso de descanso de tropas de muares, em meados de 1820, seus descendentes construiram uma Capela, feita de taipa de pilão como costume da época, próximo da Estrada Geral. Por volta dos anos de 1850, os moradores da região restauram a antiga capela de taipa, substituindo-a por outra de alvenaria, e cuja fachada pode ser vista na Figura 20. As obras são finalizadas nos últimos anos do século XIX, com a chegada em Itaquera do

38

Diário Oficial do Estado de São Paulo dos Estados Unidos do Brasil, nº148, 1900

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fazendeiro de café dr. Rodrigo Pereira Barreto, que adquire grandes extensões de terra no Bairro. Por anos, a Igreja de Sant’Ana permaneceu com a designação de Matriz de Itaquera e, como tal, era o ponto principal das festividades, celebrações litúrgicas e para encontros, como o caso Festa da Padroeira e a 6ª Conferência Vicentina39. ―Festa de Sant’Anna Realiza-se hoje, na matriz de Sant’Anna, a festa de sua padroeira, cujo programma, será o seguinte: Missa com communhão geral, as oito horas. Bençam das imagens, do S. Coração de Jesus, offertada pela senhorita Zezê Rebello; Santa Theresinha, offerecida pela Exma. Senhora d. Sylvia Jobim. Bençam de um Estandarte, offerecido ao Apostolado da Oração, pela senhorita Maria Teixeira Seckler. Missa Solemne as 10 horas e as 13 leilão de prendas. As 15 horas sahirá a procissão, percorrendo as ruas principaes, e em seguida ao recolhimento desta, o sermão pregado pelo Rvmo. Padre Alfredo Piquet. A noite haverá fógos, musica, leilão, kermesse e varias diversões profanas‖40. * " Realiza-se hoje, aqui, a festa vicentina da conferência de Sant'Anna, para comemorar o 6º anniversario de sua fundação e o recebimento de sua carta de aggregação ao Conselho Geral de Paris. O programma é o seguinte: As 7,30, na capella de sua Padroeira, missa e comunhão geral dos confrades e pobres, seguindo-se o café e uma reunião extraordinária da conferencia". * Em 1912, quando o Coronel Seckler adquiriu as terras do Sítio da Casa Pintada para criar um loteamento, o terreno onde estava erguido o edifício da Capela de Sant’Ana fazia parte de sua propriedade, passando assim para sua tutela (vide Anexo 13, lote 24). O Coronel Seckler e sua esposa Dna. Brasília, eram muito religiosos e conforme depoimento de algumas pessoas, inclusive de sua neta, a sra. Vera Seckler, resolveram reformar a antiga Capela, construindo no mesmo lugar um templo maior, em retribuição a uma Graça alcançada pelo casal devido ao restabelecimento da saúde de sua filha Anna, que por uma incrível coincidência, também chamava-se Anna Teixeira, mesmo nome da mãe do longinquo antepassado de Beraldo Marcondes de Abreu. Assim, em 1918 o Coronel Seckler apresenta a planta da nova Igreja, desenhada pelo arquiteto sr. Raul Simões, à Mitra Archiodiocesana de São Paulo, registrando-a também na Prefeitura da Capital (Figs. 26, 27 e 28). Em 1919 começam a construir com tijolos feitos do barro da própria região, a nova igreja, com a pedra fundamental (ou tijolo) assentado neste mesmo ano, com Orago mantido à Sant’Anna e, a fim de manter a originalidade sacra, os tijolos da antiga capela são utilizados no novo edifício, principalmente na construção do Altar, único espaço da Igreja que era pavimentado e, cujos tijolos apresentam uma marca diferente daquela utilizada na Olaria do Coronel Seckler. ―(…) Minha mãe se casou aqui, quando era uma pequena Capela. Aprendi o catecismo aqui. O altar era de tijolo e o chão de terra batida, piso só no altar41. 39

Jornal “A verdade”, ano I, nº 12, Maio de 1927 Jornal “A verdade”, ano I, nº 2, Outubro de 1926 41 Trecho retirado do capítulo “Gentes – Família Novelli”, da presente obra. 40

42


A fim de se acelerar o erguimento da nova Igreja Matriz, é criada uma Commissão de Obras da Matriz de Sant’Anna42, tendo como seu presidente Francisco Alario Bergamo, que em 24 de Abril de 1927 convoca os membros da diretoria para uma reunião, com o intuito de tratar de assuntos referentes ao prosseguimento das obras. Contudo, profundas agitações políticas transformam a realidade partidária de Itaquera do fim da década de 1920, chefiada até então pelo Coronel Seckler, presidente do diretório político do PRP e subprefeito de Itaquera e Lageado. Com a vitória da revolução de 1930 a direção partidária muda drasticamente, o Coronel Seckler perde sua força política, é extinto o cargo de subprefeito e todas as instituições criadas ou mantidas por ele em Itaquera caem em um profundo e triste ostracismo, assim foi o Club Itaquerense, fundado por ele em 1927, o Grêmio dos Moços Católicos Itaquerenses, mantido por ele em 1926, a Liga dos Lavradores e Proprietários de terrenos do Município de S. Paulo, fundado e presidido por ele em 1926 e, naturalmente, a própria Igreja Sant’Ana, que perderia seu status de Matriz para a Igreja de N. S. do Carmo, construída e mantida pelas novas lideranças políticas e econômicas que surgiram em Itaquera nesta época, vindas principalmente à convite do coronel Pires de Campos, para construir casas de veraneio no Bairro, mais exatamente no loteamento da Vila Carmozina, de sua propriedade. As figuras 17, 18 e 19 foram obtidas no jornal “O Suburbano” nº2, e ilustram bem o bom gosto e sofisticação das construções existentes no Bairro de Itaquera dos anos de 1930.

Figura 17 - Residência do sr. Leite, na Vila Carmozina. 1931.

42

Jornal “A verdade”, ano I, nº 10, Abril de 1927

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Figura 18 - Residência do empresário Sabbado D’Angelo na Vila Carmozina. 1931.

Figura 19 - Residência de Catão Montez, na Vila Carmozina. 1931.

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A Figura 20, gentilmente cedida pela neta do Cel. Seckler é histórica, e mostra o Coronel e sua filha Anna em frente a antiga fachada da Capela de Sant´Anna, e atrás, vese as paredes da nova igreja sendo levantadas, com detalhe ao arco da janela lateral, que pode ser comparada com a Figura 25.

Figura 20 – Frente da Capela de Sant’Anna, erigida na Casa Pintada. 1924. Arquivo Família Secker.

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Figura 21 – Padre Alfredo Piquet, vigário da Paróquia de Sant’Anna em 1926. Arquivo Família Neutrasdann. Além destes importantes documentos e relatos, apresentamos abaixo alguns trechos de outras referências, que vinculam a fundação da Vila Sant’Anna como primeiro povoamento de Itaquera, nos idos de 1820, através da citação de um pouso para viajantes, conhecida como Casa Pintada. Levino Ponciano43, cita que: ―O Jardim Casa pintada, na zona leste – Distrito da Vila Jacui, já aparece na história de São Paulo desde o século 18, quando o pesquisador e viajante Auguste de SaintHilaire cita o lugar em 1820. Nestas terras existia um rancho de pouso e, segundo outros viajantes que por lá passaram, era uma bela fazenda com bons pastos. O nome vinha da própria casa do rancho, devido a sua pintura que se destacava‖. No Guia do Estado de São Paulo44, vemos a descrição: (…) até está época, pois nele existiu a famosa Casa Pintada – ―bonita fazendola‖ no dizer de Spix e Martius, e também assinalada por Saint-Hilaire - , muito embora documentos de 1830 atestam não passar de um modesto rancho. Ela estaria em terras hoje ocupadas pelas casas da Vila Santana (…).

43 44

Levino Ponciano. São Paulo: 450 bairros, 450 anos. Editora SENAC. 2004 Guia do Estado de São Paulo. Volume 1- Diretório Regional de Geografia do Estado de São Paulo. 1975

46


No livro de Amália Inês Geraiges de Lemos e Maria Cecília França45, também há a citação: ―(…) Próximo ao núcleo Central de Itaquera existiu a famosa Casa Pintada que, em 1830 não passava de um modesto e muito mau rancho, este estaria na atual Vila Santana‖ Na publicação de Aroldo de Azevedo46 encontramos novamente a citação do rancho e o nome dos viajantes europeus. (…) simples pouso de viajantes – a famosa Casa Pintada, que Spix e Martius classificaram de ―bonita fazendola‖(6) e à qual também se referiu Saint-Hilaire (7). Todavia, apesar de possuir ―belíssima aguada e bons pastos realengos e gerais‖, não passava de um rancho‖. Em sua outra obra, Aroldo de Azevedo47 cita o Príncipe D. Pedro que: ―(…) atravessou a região, como alguns dos viajantes célebres do século passado (Spix e Martius, Saint Hilaire, Zaluar). A famosa ― Casa Pintada‖, com seu rancho abrigou certamente inúmeras tropas de burros (…)‖. Sylvio Bomtempi48, comenta o eixo de escoamento de mercadorias e: (…) Quanto aos cereais, mais do que suficientes para o consumo dos moradores, eram remetidos à cidade. Foi a época dos carreiros e tropeiros, para cuja comodidade, em 1830, o Fiscal da Penha e São Miguel, Antônio Joaquim Portugal, reclamava a construção de Ranchos no Franquinho e na Casa Pintada. ―(…) através da Casa Pintada e do Franquinho, por estrada que foi utilizada para a condução por animais de carga e tiro durante todo o século XIX, a fim de não causarem danos a estrada geral, o caminho da Côrte, que atravessava o humilde bairro de São Miguel‖. Na Biblioteca Pedagógica Brasileira49, encontramos outra citação à casa pintada: ―Durante muitos anos, existiu nessa área um simples pouso de viajantes – a famosa Casa Pintada, que Spix e Martius classificaram de ―bonita fazendola‖(6) e à qual também se referiu Saint-Hilaire(7). Todavia apesar de possuir ―belíssima aguada e bons pastos realengos e gerais‖, não passava de um rustico rancho‖. Quando a Arquiduquesa da Áustria, D. Leopoldina veio ao Brasil para casar-se com o príncipe D. Pedro, dois célebres cientistas acompanharam a comitiva. Eram eles,

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Amália Inês Geraiges de Lemos e Maria Cecília França. Itaquera. Departamento do Patrimônio Histórico de São Paulo. 1999 Aroldo de Azevedo. A cidade de São Paulo: estudos de geografia urbana. Volume 14. Parte 4. Companhia Editora Nacional. 1958 47 Aroldo de Azevedo. Regiões e paisagens do Brasil. Companhia Editora Nacional. 2a ed. 1954 46

48 49

Sylvio Bomtempi. O bairro de São Miguel Paulista: a aldeia de São Miguel de Ururaí. Prefeitura de São Paulo. 1970. Biblioteca pedagógica brasileira. Brasiliana, Volume 14, Partes 3-4

47


von Spix e von Martius que deixaram em sua grande obra50, a citação que descansaram na Casa Pintada. ―(…) as terras próximo de Mogi são muito bem cultivadas; mas a falta de trabalhadores, que foi causada em parte pela marcha da milícia no sul, parece ser, atualmente, muito sentida. No último dia do ano, após termos atravessado um bosque e uma área de prados, com grandes áreas alagadas, chegamos em uma propriedade com bonito rancho, chamado Caza Pintada (…)‖. Nesta obra, von Martius e Spix elaboram um mapa de sua viagem do Rio de Janeiro à São Paulo e Ypanema, referindo-se ao estudo do subsolo.

Figura 22 – Percurso de Spix e Von Martius. Detalhe ao Rancho Casa Pintada.

Na publicação oficial do município de São Paulo51, outra citação como: ―(…) simples pouso de viajantes – a famosa Casa Pintada, que Spix e Martius classificaram de ―bonita fazendola‖(6) e à qual também se referiu Saint-Hilaire(7). Todavia, apesar de possuir ―belíssima aguada e bons pastos realengos e gerais‖, não passava de um rústico rancho.

50 51

Johann Baptist von Spix e C. F. P. von Martius. Travels in Brazil, in the years 1817-1820. Vol. 1 – página 326 A cidade de São Paulo: estudos de geografia urbana, Volume 14, Parte 4, página 164.

48


Aroldo de Azevedo, no livro “Regiões e Paisagens do Brasil”, página 193 também se refere a Casa Pintada como pouso: ―(…) Entretanto, apesar de possuir ―belissima aguada e bons pastos realengos e gerais‖, em 1830 não passava de um simples e muito mau rancho, conforme documentos da época (36)‖. O pintor francês Jean-Baptiste Debret integrou em 1816, a Missão Artística Francesa, organizada por D. João VI, que tinha por objetivo fundar no Brasil a Academia de Belas Artes. Viveu 15 anos no Brasil, e organizou sua obra, um belíssimo livro ilustrado que publicou com o nome “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil‖. Nesta obra apresenta diversas pinturas sobre o povo brasileiro, paisagens, sociedade, cultura e arquitetura do Brasil. Todas as pinturas são acompanhadas por textos descritivos e neste trabalho traz uma aquarela, datada de 1827 da Casa Pintada52, onde descansou em uma viagem que fez quando saiu do Rio de Janeiro, rumo a São Paulo.

Figura 23 - Casa Pintada (1827). Sítio para descanso de tropeiros, próximo do Córrego Itaquera (Rio Jacú). Aquarela de Jean Baptiste Debret.

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Casa pintada. Aquarela sobre papel; 8,7 x 24,1 cm. 1827. Bandeira, J.; Lago, P. C. Debret e o Brasil: obra completa, 1816-1831. 2ª Ed. Rio de Janeiro, Capivara Ed., 2008. p. 289.

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Figura 24 – Vila Santana em 196753. Nesta época ainda podia-se ver as paredes externas da igreja sem o reboque e a grande quantidade de vegetação que cobria a região e, no canto inferior direito, a antiga olaria do Coronel Seckler, que depois foi tocada pela família Mangine. Arquivo Amaury Roldan Pereira. A fotografia da Figura 25 foi tirada em 1953, pelo Sr. José Coelho, comerciante português, domiciliado na travessa Jataizinho, ao lado da Igreja desde 1950.

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Jornal “O Estado de São Paulo”, Caderno Seu Bairro, nº67, de 29/02/1995.

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Figura 25- Familia Stanojev Coelho em frente a Igreja Sant´Ana. Da esquerda para direira: Valquiria, Esperança e Maria Ana. 1953. Arquivo Familia Stanojev Pereira

As Figuras 26, 27 e 28, foram obtidas por fotografias do projeto arquitetônico original, registrado na Mitra Archeodiocesana de São Paulo, do arquiteto e construtor sr. Raul Simões da empresa de propriedade do sr. Nicolau Consentino. Esta planta também foi registrada na Prefeitura de São Paulo, Diretoria de Obras e Vistoria - 6ª Seccão, obtendo o alvará nº 1763 de 1918, para o erguimento de uma igreja matriz, em substituição à pequena capela que existia no local onde estava erguida, na Sede do Sitio da Casa Pintada. 51


Figura 26 – Título frontal que consta no projeto arquitetônico concebido pelo arquiteto contratado pelo Coronel Seckler, sr. Raul Simões, apresentado à Mitra Archiodiocesana de São Paulo e registrado na Prefeitura de São Paulo. 1918. Arquivo Familia Rivas.

Figura 27 – Visão frontal do projeto arquitetônico concebido pelo arquiteto sr. Raul Simões da Igreja Matriz de N. S. de Sant’Ana, datado de 1918. Arquivo Família Rivas. 52


Figura 28 – Visão da nave, no projeto arquitetônico, da Igreja Matriz de N. S. de Sant´Ana. Arquivo Família Rivas. A Paróquia faz frente à rua que homenageia o Coronel Francisco Rodrigues Seckler, o grande responsável pelo povoamento da Banda Norte de Itaquera, nascido aos 23 Fevereiro 1880, filho de Antônio Seckler e Maria Antônia Rodrigues Seckler, sitiantes de Porto Feliz, São Paulo. Foi vereador em 1926, Presidente do diretório político do PRP em Itaquera, Subprefeito de Itaquera e diretor da Escola de Farmácia e Odontologia de São Paulo. No anexo 14 é apresentada uma breve biografia do Coronel Seckler. Entre suas diversas atribuições, também foi diretor da Faculdade de Farmácia e Odontologia de São Paulo, como podemos ver em um artigo publicado em 192754.

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Jornal “A verdade”, ano I, nº13, Junho de 1927

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“Faculdade de Pharmacia e Odontologia de S. Paulo Conforme a nossa noticia de 24 de Abril do corrente anno, foi o coronel pharmaceutico Francisco Rodrigues Seckler, eleito director da Faculdade de Pharmacia e Odontologia de S. Paulo, e sub-director o cirurgião-dentista Sr. Alberto Caldas. Assim, o povo itaquerense está de parabéns por mais esta distincção dispensada ao presidente do Directorio Politico e sub-prefeito de Itaquéra‖. Era casado com Dna. Brasilia Teixeira Seckler e teve quatro filhos, José, Maria, Anna e Lourdes. As Figuras 29 e 30 foram-nos gentilmente cedidas pela sra. Vera Seckler, neta do coronel e presidente do Instituto Histórico e Cultural de Mongaguá.

Figura 29 – O Coronel Francisco Rodrigues Seckler, fundador da Igreja e da Vila Sant’Ana. Arquivo Instituto Histórico e Cultural de Mongaguá.

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Figura 30 – O Coronel Francisco Rodrigues Seckler, sua esposa dna. Brasília (a esquerda com a criança ao colo), sua sogra e seu filho José. 1911. Arquivo Instituto Histórico e Cultural de Mongaguá. O texto que segue, nos foi passado pela advogada dra. Marisa Rivas, filha do advogado dr. Antonio Rivas Filho, constituído como representante dos interesses imobiliários do Coronel Seckler e família. ―Foi o Coronel Francisco Rodrigues Seckler o fundador da Vila Santana, através de um loteamento iniciado por ele, pela fusão de três glebas de terras contíguas adquiridas por ele em 1912. As Figuras dos anexos 3 a 5 e 6 a 11 são transcrições destas propriedades e a representação destas glebas em mapas, respectivamente. A igreja de Vila Santana foi construída pelo próprio Coronel Seckler e doada a Curia Metropolitana de S. Paulo, em cumprimento de uma promessa feita pelo Coronel e sua mulher dna. Brasilia Teixeira Seckler, pelo restabelecimento da saúde de uma de suas filhas, dna. Anna Teixeira Seckler, conhecida como dna. Neca. No próprio loteamento o Coronel tinha uma olaria e, os tijolos ali fabricados, eram doados aos compradores de terrenos, para construírem suas casas e assim povoarem o local. Muitos lotes foram doados e devidamente escriturados, e um fato curioso é que encontraram um macaco preso nos ramos de uma árvore e um artista o retratou, publicando o desenho em um jornal da época. O dr. José Teixeira Seckler, filho do Coronel, foi casado com dna. Maria Stamato Bergamo Seckler, filha de Francisco Alario 55


Bergamo e dona do laboratório que funcionava em parte da residência do casal, localizado entre a esquina da Av. Pires do Rio com a antiga rua Monsenhor Jose Rodrigues Seckler, que era irmão do Coronel Seckler, atual Rua Francisco Alarico Bergamo. Dna. Maria Stamato era farmacêutica, assim como suas três cunhadas, mais o dr. José Teixeira Seckler, pois o Coronel foi o diretor da primeira escola superior de farmácia de São. Paulo e, sua filha mais velha foi casada com o "Pucca", dono de um famoso colégio55 também fundado pelo Coronel‖.

Figura 31 – Amostra de tijolo56 fabricado na Olaria do Coronel Francisco Seckler na Vila Santana. Detalhe às iniciais de seu nome e às dimensões: 26,5cmx12,5cmx6,5cm. Patrimônio Família Stanojev Pereira.

55 56

Colégio Alfredo Pucca. N.A Amostra obtida devido a demolição em 2011, da casa dos espanhóis sr. Manolo e dna. Rosalia, datada de meados de 1920.

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Figura 32 – Anúncio de medicamento descoberto pela esposa do também farmacêutico e Juiz de Paz em Itaquera sr. Francisco Alario Bergamo (vide Anexo 19). Jornal “O Suburbano”, nº 26, 1932. Arquivo Amaury Roldan Pereira. As Figuras abaixo são de recibos de compra, datados de 1923 e 1947 e assinados por Augusto e Anna Seckler, cedidos gentilmente pela sra. Diva Mendes de Oliveira, de um terreno de 500 m2, localizado na rua Marcos Parente, Vila Santana e, no Anexo 12 pode-se ver parte da escritura de venda de um terreno de 500 m2 celebrado entre Francisco Rodrigues Seckler e Miguel Navarro Martinez no ano de 1920. A promessa de longo prazo de pagamento, verificado nas propagandas, pode ser comprovada nas datas de emissão do recibo de pagamento e de liquidação, em 24 anos.

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Figura 33a e 33b – Recibos de venda de loteamento na Vila Santana. 1923 e 1947. Arquivo Familia Mendes de Oliveira. O interesse na expansão das periferias de São Paulo era estratégico pois, com o afluxo de migrantes oriundos de várias regiões do país e imigrantes provenientes de 58


diversos países da Europa e Ásia, o desmembramento e venda de lotes era um grande negócio para os proprietários de terras. Um dos grandes problemas em colonização é o transporte e acesso às novas áreas. Neste quesito, Itaquera também foi beneficiada pois contava com a estação de trêm desde 1875, inaugurada inicialmente com o nome de Parada de São Miguel, devido ao fato que esta era a povoação mais próxima, segundo documentos oficiais da Companhia de Estrada de Ferro Central do Brasil. Assim foi que nas primeiras décadas do século XX iniciou-se o loteamento de grandes regiões em Itaquera, de um lado as terras de Francisco Rodrigues Seckler, e de outro, as terras que formava a Fazenda Cagassú, de propriedade da Ordem dos Carmelitas Fluminenses, com sede no Rio de Janeiro, e que depois foi comprada pela Companhia Commercial Pastoril e Agrícola, de propriedade do coronel Bento Pires de Campos, dando origem ao loteamento da banda Sul de Itaquera, que compreendia a Vila Carmozina e a Colônia Japonesa. Para efeito de construção temporal, a seguir é feito um relato das ruas, moradores e outras informações complementares da Vila Santana, dos períodos compreendidos entre o final da década de 1940 ao final de 1950, construído por informações coletadas de moradores. A estação e a linha de trêm dividiam Itaquera em duas. O lado de baixo, sentido Roosevelt-Brás, é a parte mais antiga e, do conjunto histórico e arquitetônico que formava a estação de trem, ainda resiste de pé a casa do Chefe da Estação, que foi erguida somente após a construção da estação, por volta de 1924 a 1926. Na cercania, próximo à estação, se concentrava o forte comércio da região, contando com a Grande Padaria Gaspar, o Cine Itaquera, a serraria, de propriedade da Família Faysano, a sorveteria do alemão sr. Germano, ponto de encontro dos jovens da região, o açougue do sr. Barreto e a barbearia “Salão Azul-Imóveis” do sr. José Mussolino, onde no mesmo local, tempos depois, foi instalada a padaria “Vencedora”. Na avenida Pires do Rio, importante rota de ligação entre Itaquera e São Miguel, havia o Bar Snooker, ponto de encontro e de distração dos jovens e adultos da redondeza, a casa do sr. João Dentista, a lavanderia do japonês sr. Isamu Tomita e a casa do correio. Também nesta Avenida, no centro de Itaquera, há ainda nos dias de hoje, em pleno funcionamento, à primeira grande fábrica construída na região, na década de 1946, a “Acumuladores Nife do Brasil”, de origem sueca. Esta empresa empregava na época grande parte dos moradores do bairro e, de sua linha de produção saiam as baterias para navios, automóveis, etc. Caminhando por esta rua, sentido São Miguel, havia outra padaria, a “Santa Helena”, de propriedade do sr. Roberto e próximo erguia-se a grande casa dos Mendonças, antiga família de contabilistas da região e, em frente a ela, havia a casa do sr. Germano de nacionalidade alemã, descrito acima.

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Figura 34 – Cine Itaquera. 1956. Arquivo Cine Mafalda57 Nas proximidades da Nife haviam pequenas Olarias, como a do próprio Cel. Seckler e a do sr. Guido, que supria de tijolos e telhas as necessidades da região, bem como forneciam material para as construções na capital, que seguiam nos vagões de carga da Maria Fumaça. As Olarias eram instaladas na região, aproveitando o barro especial para este fim, e devido a esta característica, os moradores da “Itaquera de Baixo” recebiam a alcunha de “Turma do Barro Preto”, “Pés de barro” ou “Pés Preto”. Muitos dos terrenos eram chácaras que possuíam suas hortas, criação de animais de corte e tração e pomares e, nesta sequência, do centro de Itaquera para a Vila Santana haviam as chácaras do sr. Aguilari, dos Bevillacqua, sr. Abidias Tavares, a chácara dos Carvalhos, a casa do tenente Navarro, a chácara do Teléco, enfim, todas elas usavam como cercas, enormes ciprestes, cuja circunferência dos troncos era de cerca de 1,75m, e para abraça-los, duas ou três pessoas tínham que dar as mãos. Este último, o Teleco, jogava no time de futebol do “Itaquera Futebol Clube”, que tempos depois foi refundado com o nome “Santana Itaquerense F. C.”, um dos primeiros clubes de futebol da região. Este rapaz, aborrecido com os dirigentes do clube por ter sido retirado do time por falta de “técnica”, comprou o terreno do meio do campo de futebol onde o time jogava, mandou furar um poço de água e uma fossa e cercou sua propriedade, acabando com o campo.

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http://cinemafalda.blogspot.com/2009/12/cine-itaquera.html

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Figura 35 – Mansão do Sr. Aguilar. Vila Aguilari. 1937. Arquivo Familia Mendes de Oliveira.

Figura 36 – Av. Pires do Rio. A esquerda, em primeiro plano, sentido São Miguel, o prédio da padaria Santa Helena que guarda ainda suas linhas originais. 2010. Arquivo Familia Stanojev Pereira. 61


Ainda na Vila Santana, a partir da chácara do tenente Navarro, havia uma chácara com uma grande e bela sede construída, de propriedade do italiano sr. Manocchio, que ocupava toda uma quadra entre as ruas Palmarino Calabrez, Carolina Fonseca, Rua Jataizinho e Francisco Rodrigues Seckler. Como um bom italiano que era, tinha uma grande plantação de uvas, destinadas a fabricação de vinho. Neste terreno hoje está construído um dos orgulhos de nossa região, o Liceu e um dos Campus da Universidade Camilo Castelo Branco, cuja direção teve o cuidado de preservar íntegra a sede da Chácara em toda a sua beleza original.

Figura 37 – Residência da família Vaccarelli na Rua Bento Vieira de Castro, construída em 1906, e o sr. Oswaldo Vaccarelli, um dos depoentes aqui registrado. 2011. Arquivo Família Stanojev Pereira. 62


Figura 38 - Bar do sr. Antonio Ramos (direita) entre as Ruas Francisco Rodrigues Seckler e Jataizinho. Atrás se vê o chamado “Campo de Santana”, sem as casas do conjunto habitacional. 1987. Arquivo Familia Rivas.

Figura 39 – Frente da Casa da Chácara do italiano Manocchio, e posteriormente o primeiro prédio no qual a família Calabrez utilizou para fundar o complexo educacional que daria origem ao Liceu e mais tarde à Universidade Camilo Castelo Branco. 2010. Arquivo Família Stanojev Pereira. 63


Na rua Francisco Rodrigues Seckler, do lado oposto a chácara do sr. Manocchio, erguia-se a grande casa “Vila Maria”, que primeiro foi a sede do Cartório de Paz de Itaquera, em 1931, e depois, foi residência da família Afonso Pena, uma maravilha da arquitetura do início do século passado, mas que não resistiu aos golpes da marreta do progresso, para dar lugar à um conjunto de sobradinhos.

Figura 40 – Prédio da Área de Saúde da Universidade Camilo Castelo Branco, entre as Ruas Francisco Rodrigues Seckler e Jataizinho. 1987. Arquivo Família Rivas.

Figura 41 – Ginásio Poliesportivo da Universidade Camilo Castelo Branco, localizado na Rua Carolina Fonseca. 1995. Arquivo Família Rivas.

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Continuando a direita na mesma rua e descendo-a, haviam as casinhas geminadas utilizadas pelo Cel. Seckler como escritório imobiliário (Fig. 42a), seguida da propriedade do sr. João Rodrigues e, por último na esquina, o edifício construída para comércio, cujo proprietário sr. Gino Tambeline, cedeu-a para abrigar a sede do Santana Itaquerense Futebol Clube, fundado em 1957 pelo sr. Astrogildo Pereira e o português sr. José Coelho, além de outros companheiros de futebol.

Figura 42 – Rua Francisco Rodrigues Seckler. Detalhes para as construções. Da direita para a esquerda: As casas geminadas foram construídas em 1918 pelo Cel. Seckler, com tijolos de sua Olaria e serviram de escritório de venda dos terrenos, e a da esquina era o empório do sr. Gino Tambelline. (a) 1973; (b) 1986. Arquivo Familia Rivas. 65


Na Rua Francisco Rodrigues Seckler, há uma travessa, ao lado esquerdo da Igreja Santana, onde havia 2 casinhas, do tipo edícula, uma ligada a outra (ver Fig. 43) que diziam ser a casa do sacristão e a do Padre. Ligadas as casas, havia uma construção maior, em bom terreno, dotada de cocheiras, servida por uma entrada de quase 4 metros e protegida por um forte e grande portão de madeira. O terreno onde existia este salão, com uma casa contígua, era de propriedade do sr. Gino, que mais tarde vendeu a propriedade para a dna. Águida, de nacionalidade húngara. Tempos depois ela veio a alugar o imóvel para o portugês sr. José Coelho, que vinha da Móoca com sua esposa, a romena dna. Julia Stanojev Coelho e filhos, onde instalaram um empório no ano de 1950, data que chegaram em Itaquera. Pelo grande portão de madeira, passava a carroça e o cavalo, utilizados como transporte e entrega de mercadorias aos fregueses e, por onde entrava a junta de bois, com as cargas de lenha e mercadorias que supriam o empório de secos e molhados. A venda funcionou por 25 anos seguidos, quando em 1975 passou o ponto para seu futuro genro, José Augusto Nunes Grilo, também português, da província de Figueira da Foz.

Figura 43 – Casas na travessa da Igreja Sant’Anna, onde se vê o empório, as casas do Padre e do Sacristão, a parede da igreja e os carros de boi utilizados como transporte. 1950. Arquivo Familia Stanojev Pereira.

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Figura 44 - Residência em construção da Família Roldan Pereira. 1953. Arquivo Família Stanojev Pereira. Em seguida, na esquina entre as ruas Francico Rodrigues Seckler e a Rua Miranorte (antiga Caio Alegre), havia uma casa de esquina de propriedade do espanhol Francisco Roldan (Chico Peixeiro), construído por ele próprio e que se destinava ao comércio (Fig. 45). Ao lado, moravam as irmãs espanholas dna. Clotilde e Luiza, responsáveis pelo trato das roupas e paramentos dos sacerdotes e Bernardo e Tomás, ambos sacristãos. Seguindo ainda, já quase no fim da rua, havia a chácara de 2000 metros quadrados cuja construção data de 1905 e ainda resiste em todos os seus traços originais (Fig. 46). Continuando a descer a Rua Francisco Rodrigues Seckler, sentido São Miguel, chegava-se a casa de dna. Carolina, depois a do sr. Costabille Giannella e sua esposa dna. Ercília (Ciloca) e depois a casa do sr. Miguel Guerreiro.

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Figura 45 – Em primeiro plano, a residência do sr. Francisco Roldan e sua esposa, dna Natividad Poyato Roldan, a parteira de Itaquera homenageada no ano de 2010, quando a família cedeu seu nome para o centro de referência da mulher, na Vila Santana. 1973. Arquivo. Familia Stanojev Pereira.

Figura 46 – Casa da Chácara, uma das últimas casas na Rua Francisco Rodrigues Seckler (sentido São Miguel) até meados da década de 1950. 1947. Arquivo. Família Stanojev Pereira. 68


Figura 47 – Residência da Família Giannella, datando de 1947. Arquivo Família Stanojev Pereira.

Ainda vizinho a Igreja, morava o sr. Carlos Cinti, de origem italiana, e sua esposa dna. Leonor, e onde ainda mora parte de sua família. Em seguida, era a casa do sr. Valdomiro, funcionário ferroviário da Central do Brasil e sua esposa, Romilda. Depois, chegamos no local onde havia o terreno e casa do sr. Luiz Pepe, um excelente sapateiro, que mais tarde serviu como a penúltima sede do Santana Itaquerense Futebol Clube, e que hoje dá lugar a um conjunto de sobrados. Atravessando a rua Marcos Parente, mantendo-se ainda na Rua Francisco Rodrigues Seckler, chegamos em duas casas construídas em 1952, a do sr. Nicola Riveline e dna. Maria “Manca”, avós de Clodomiro Riveline, o “Quito”, hoje um dos maiores escultores domiciliados na cidade turística de Embú das Artes, interior de São Paulo. Em seguida, havia a chácara de propriedade da família Mercier, de origem francesa, vizinha da família Chamas, originário da Turquia. Depois, a residência da familia Capano, de origem italiana e após, a casa da família Nakamura. Seguindo, temos a casa do sr. Antonio Bananeiro, um senhor viúvo, pacato, bonachão que tinha sua carroça e seu cavalo branco “Manhoso” e, um cachorro mestiço com pastor como companheiros, sem contar com o cantar dos pássaros “Anús”, o coachar dos sapos e rãs do brejo e do rio que ficava ao lado. Esta casa e a do sr. Miguel Guerreiro eram as últimas casas da rua, onde uma porteira fazia limite com um brejo. 69


Este brejo era uma região alagada periodicamente pelas cheias do Rio Jacú, e de onde os irmãos Ciro e Duirdo retiravam a argila que enchiam suas carroças puxadas por burros, e depois era levada para sua Olaria, onde outros animais tratavam de girar as rodas das pipas para amassar o barro. Assim eram batidas em fôrmas, empilhadas e, levadas ao forno de onde saiam lindos tijolos vermelhos. Esse brejo estendia-se a esquerda, fundo das citadas propriedades por toda a margem do riozinho Jacú, até os terrenos das Olarias. E neste local, mais tarde em 1957, foi feita a ponte para se atravessar o rio e chegar no Campo do Santana I.F.C. Era uma pinguela58 feita com dois troncos não muito grossos, que servia para o pessoal que morava na fazendinha passar para chegar até a Vila Santana, caminho de passagem para as venda, igreja, estação, etc. Afastado cerca de 30 metros da ponte, havia o Poção, uma lagoa larga e funda onde a criançada nadava. Nesta fazendinha, em uma grande e magestosa casa de oito cômodos, que por muitos anos achamos que fosse a sede da Casa Pintada, morava a família do Carlito, Geraldo, sua mãe e irmãos e haviam várias árvores frutíferas como caqui, pêssego, goiabas e muitas peras. Nesta propriedade também havia uma pequena casa de tijolos rebocada, onde morava, desde meados de 1935, a “Nêga” Joana, como era chamada, uma senhora não muito velha, forte, resoluta e muito trabalhadora e sempre dizia que não levava desaforo para casa. Depois da fazendinha, naquela região e muito longe das outras casas, havia a casa da dna. Beatriz, uma negra esbelta com seus 50 anos, que fazia diariamente o caminho de sua casa até a Vila, e vice-versa, para pegar roupa para lavar e, entregar para seus clientes, cerca de 3 km de várzea. Voltando até a encruzilhada, vindo da Rua Carolina Fonseca, frente a Olaria do Guido Mangine, pelo lado esquerdo da rua, a casa grande da chácara do sr. Augusto Leite e sua esposa dna. Cândida, ainda existente. Atravessando a rua na encruzilhada pelo lado esquerdo (Rua Miranorte) há a casa do Rubens Ferreira, cuja alcunha era “orelha de cabra” e a bela casa de seu Luiz, na esquina, inclusive com piscina desde 1930, quando foi construída. Seguindo nesta rua, depois de um terreno vazio na esquina, havia a casa da família Abreu, cuja patente era Cabo, depois Sargento, da polícia Militar de São Paulo, terminando a rua com a casa onde moravam a comadre e compadre “Caipirinha”, que fazia fronteira com mais terrenos vazios e brejos. Ainda na Rua Francisco Alarico Bergamo, havia a casa da família Rodrigues, onde o sr. Mário, que era funcionário da companhia cinematográfica “Columbia Pictures”, usava um reloginho de controle de pagantes na bilheteria dos cinemas. Com o total de pagantes, preenchia um relatório, o qual era enviado para a empresa, que depois efetuava o pagamento pelas exibições realizadas. Além deste, residiam nesta rua, sentido São Miguel, o sr. Zé Perfume e família, dna. Iracema e família, a Família Saraiva, a família Paes dos Anjos, a Família do Botoca, da dna. Rosa, a Família Olímpio, a família do Dito Mineiro e a da família de japonêses Nakamura. A região próxima à Igreja de Sant’Ana era de relativa maior densidade demográfica da Vila, pois era próxima da Estrada ou Via Geral, que ligava São Miguel ao Centro de Itaquera. Em toda a área compreendida após o rio, havia apenas a chácara do sr. Nakamura, nada mais. Era uma grande gleba até a rua da ponte sobre o rio, que era feita de toras paralelas, dando à um lugar que era chamado de trampolim, largo e fundo, onde as 58

Ponte improvisada com troncos, sem proteção e estreita.

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crianças nadavam. O lugar continuou sendo frequentado até mesmo depois da construção da Av. Imperador, que somente foi existir até a Pires do Rio em meados de 1968-1869. A Rua Francisco Alarico Bergamo chamava-se antigamente Rua Monsenhor Seckler, homenagem ao irmão do Coronel Seckler, e se estende da Av. Pires do Rio até a Av. Imperador. Na esquina com a Av. Pires do Rio, onde hoje está instalado o escritório regional da OAB-Itaquera, havia uma chácara muito grande, com muitas árvores frutíferas como caquis e jabuticabas e no outro extremo, na esquina com a Av. Imperador, havia a chácara do sr. Henrique Alemão, também dotada de grande pomar e hortas com plantações de verduras e temperos. Como podemos ver, a região era composta por pequenas chácaras de subsistência, onde pequenas criações e lavouras faziam parte do dia-a-dia dos moradores e, quando a propriedade não produzia determinado artigo, costumava-se adquirir com o vizinho, e o pagamento podia ser em dinheiro ou em bens diversos, inclusive o escambo, o que não era incomum. Desse ponto em diante pelo lado direito não havia nesse tempo casa alguma, até a Rua Rainha da Noite, que a cruza, já próximo da Av. Imperador. Próximo desta chácara, morava a Dna. Joana, uma senhora alta, forte e simpática, muito esclarecida. Quase em frente a esta chácara, tinha uma outra casa grande, que morava a família do sr. Clementino. Por essas ruas, picadas e atalhos é que se ia cortando caminho para São Miguel e, quebrando para à esquerda, sentido Leste, ia para o Itaim, lugar de pesca e caça, principalmente rãs. Era um local muito bonito e gostoso e, procurado pelas famílias para piquenique, pois havia bonitas lagoas e lindos campos e bosques. Na Vila Santana moravam ainda o médico dr. Loverso, que possuía um consultório junto a casa e, o dentista dr. Brandão, que gostava de pescar em Mato Grosso. E próximo tinha uma fábrica de azulejos, naqual trabalhava o japonês Toshico, também morador da região. Em tempo, citando ainda a rua Padre Gregório Mafra, morava a família do Peter Alemão. À direita bem a frente da Rua Caio Alegre, a casa do sr. Joaquim Leiteiro, mais abaixo após o córrego, a casa da esquerda do sr. Ernesto Bela e dna. Augusta, pais de Edmundo, Orlando, Macaco, Mosquito e Ivone, e só muito tempo depois foi construída, no alto do morro, a casa do dr. Rocha, que era enfermeiro casado com a dna. Odete. Em seguida erguia-se a casa do tenente, depois capitão sr. Elpídio, sua esposa Eulália e filhos, cujo interessante depoimento dado pela sua filha, consta deste trabalho, na Família Cursino. Neste tempo era possível pescar em todos os rios, como o Rio Verde e o Rio Jacú. Eram abundantes os peixes como lambaris, carás ou acarás, mandis e bagres e, a noite era a hora de se pescar traíras, camarões, carangueijos, enguias e até cágados. A igreja de Sant’Ana, nesta época e até por volta de 1970, tinha a aparência como mostrada na Figura 25. A primeira vez que se via, causava assombro pela sua majestade, mas era de causar pena. Descrevendo-a em sua estrutura, de cerca de meados do ano de 1957, visualizandoa de frente, subia-se por uma escadaria de tijolos com uns 20 degraus e chegava-se a uma porta com cerca de 6 a 8 metros de largura, que era fechada por tábuas e, por uma porta menor, entrava-se em seu interior. O chão era de tijolos assentados com cimento. As paredes laterais tinham três vãos vazios para os futuros vitraux. Indo em direção ao altar principal, subia-se por uns degraus feitos também de tijolos. Uma imagem de N.S. Sant’Ana com o menino Jesus ficava em uma espécie de arco recuado, e na frente um altar com castiçais, um de cada lado da mesa. Encostada na parede do lado direito da 71


nave, de frente para o altar, havia uma estátua de Jesus sobre um pilar largo com a mão direita sobre o coração exposto e sangrando, e a esquerda levantada com os dedos meio encolhidos e o indicador esticado, Do lado esquerdo, ainda vendo o altar de frente, havia um outro espaço, igual ao lado oposto, onde mais duas imagens, do mesmo tamanho daquela de Jesus, uma figurando a imagem de São José e outra figurando a Virgem Maria. Atrás, com porta lateral, um quartinho que servia de depósito. Voltando-se de costas para o altar, e com vistas à porta, a Nave da Igreja, onde ficavam os bancos para os presentes ouvirem a Missa, não havia telhado, ficava inteiramente exposto às intempéries. Mais a frente, no mezanino que começava onde nos dias de hoje tem o hall de entrada da igreja, haviam colunas em concreto para o suporte da lage, com quase 8 metros de altura, e onde havia por uma escada perigosa, o sacristão Bernardo tocava o sino, no alto do campanário, que era todo um espaço vazio, ficava uma cruz de ferro fundido, muito bonita e que pode ser visto na Figura 25. Pelo lado de fora da Igreja, contornando-a pela rua, via-se nas paredes de tijolos exposto o musgo verde e samanbaias do tipo paulistinha, que devido a umidade nasciam e cresciam entre os vãos dos tijolos, desde o alicerce. Do lado da casa que seria do sacristão (Fig. 43), morava o advogado sr. Plinio e sua esposa. Com a reforma e cobertura da Igreja, que aconteceu nos últimos anos da década de 1960, o italiano sr. Costabile, foi contratado para fazer a pintura de anjos na parede côncava do fundo da igreja, atrás do altar e, no teto, acima do mesmo.

Figura 48 – A Esquerda o sr. Costabile e a direita o sr. Astrogildo com seu neto ao colo. 1968. Arquivo Familia Stanojev Pereira. 72


Usava uns óculos cujo par de lentes eram muito grossa, os seus olhos por traz delas pareciam minúsculos. Era um homem baixo e troncudo, com um sotaque italiano muito carregado. Só saia de casa portando paletó e tinha sempre na boca um cigarro, que ficava quase sempre apagado. E esse Italiano fez os anjos, com finos e ricos detalhes, ao lado esquerdo e direito do altar, que duraram por muitos anos.

Figura 49 – Pintura à óleo de autoria do sr. Costabile, que decora a parede da entrada de sua casa. 1950. Arquivo Família Stanojev Pereira. Ao lado da casa da Família Trazzi, de italianos, na Rua Montanhas, cerca de 30 metros da atual Av. Jacú-Pessego, havia toda uma área de mata e brejos. A rua não passava de uma trilha larga, feito pelos sulcos das rodas das carroças que por lá passavam para entregas de compras, etc. Brejo e taboal eram abundantes, assim como as muito saborosas bananas do brejo. Deste taboal, uma família residente da região apanhavam grossos feixes para fazer esteiras, cestos e outros utensílios, os quais comercializavam e com o lucro conseguido, mantinham-se muito bem.

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Capítulo 6 Itaqueras Até alguns poucos anos atrás, Itaquera era conhecida com as alcunhas “de Cima”, com sede na Igreja do Carmo, na Vila Carmozina e, “de Baixo” com sede na Igreja Sant’Ana, na Vila Santana, e esta divisão era verificada nos times de futebol existentes e na organização social e política da região. O texto abaixo retrata a história da Vila Carmozina e ilustra a criação de duas novas paroquias em Itaquera, a N. S. do Carmo e a N. S. Aparecida. ―N.S. do Carmo, excelsa padroeira da Parochia de Itaquera Há uns cinquenta annos, quando a Estrada de Ferro Central do Brasil passava nas terras hoje Itaquéra (…) fora creada uma parada que servia de Estação mais proxima de São Miguel. De um lado da Estrada de Ferro, ficava um extremo da Fazenda Caguassú pertencente aos Carmelitas do Rio de Janeiro e de outro lado com terras da Fazendinha pertencentes ao Sr. Rodrigues Barreto. Ha uns 17 annos foram vendidas em partes estas ultimas terras (…) e há uns 11 annos foi vendida a Fazenda Caguassú á Cia. Commercial Agricola Pastoril, que a retalhou em lotes, sendo até hoje vendidos a prestações, e tomou o nome de Vila Carmozina. Mas os vizinhos desta Fazenda ha uns dois annos antes do contrato de compra e venda tinham construido uma Capella em louvor de Nª.Sª. do Carmo, fazendo trazer uma pequena imagem que se achava na séde da Fazenda, sendo mais tarde trocada por uma outra maior indo a primitiva, novamente, para a séde da Fazenda onde ainda hoje, se venera neste mesmo lugar. (…) Ha uns 7 annos com o augmento da população trataram de levantar uma Igreja em lugar da Capella, com uma área maior cedida pelos Padres Carmelitas e consentimento da Companhia Pastoril e Agricola, e para isto, o Revmo. Pe. Antão Jorge, Vigario da Penha, nessa ocasião nomeou uma commissão com os seguintes senhores Miguel Mastrocola, presidente; David Ferreira, secretario; Americo Salvador Novelli, thesoureiro, Cosmo Francisco, Manoel Carneiro Barreto, Sestilho Milani, Mano de Godoy, José Xisto, Antonio Travesano, Angelo Costa Gomes, Marcello Novelli, Francisco Gianetti e Antonio Monocchio, que fora provisionada pela Cúria, registrada, liv. 8 de Registro, fls. 146 e assignada pelo Revmo. Vigario Geral Monsenhor Pereira Barros em 11 de Fevereiro de 1925. Dado início as obras com donativos por subscripções e festas em breve foram levantadas as paredes, sendo interrompidas por falta de verba. Graças aos esforços dos Srs. Miguel Mastrocola, Americo Salvador Novelli, Lucio Ferreira, Jorge Andrade e mais tarde Sabbado D'Angelo e outros dedicados catholicos poude ser inaugurada a Igreja ha uns 5 annos. Contemporaneamente os habitantes do bairro de Sta. Anna, resolveram levantar também uma Igreja em lugar da Capella, dado início, acham-se hoje adeantadas as obras sendo inaugurada uma parte em 06 de Janeiro de 1930. Com os sempre augmento da população fora necessário para attender aos sentimentos religiosos crear uma parochia com seu respectivo vigario e foi o que em boa hora fizera o Exmo. Snr. Arcebispo Metropolitano D. Duarte Leopoldo e Silva, no dia 13 de dezembro de 1928 e escolhendo para Vigario o Revmo. Pe. José Bibiano de Abreu, que tomou posse da Parochia no dia 23 de Dezembro do mesmo anno. (…) 75


No primeiro anno de Parochia: Itaquéra ficou dotada de diversas associações como o Apostolado da Oração (secção masculina), (…). O Apostolado da Oração (secção feminina) (…). Pia União das Filhas de Maria, (…). Associação Escoteiros Catholicos e Bandeirantes Catholicas e União de Moços Catholicos, que foram substituídos pela Congregação Mariana de Nª. Sª. do Carmo e S. Luiz de Gonzaga (…). Nesse mesmo anno precisando a Igreja Matriz de uma reforma, encontrou o Revmo. Vigario na pessoa do sr. Sabbado D’Angelo um coração generoso que se prontificou a custear as despesas que importaram 180:000$, sendo inaugurada a actual Igreja Matriz, com sua Imagem nova (que illustra esta folha) a 17 de Fevereiro de 1930 com estrondosa festa que ainda está calada na memória de todos os parochianos de Itaquéra. (…) Graças á boa vontade e esforços de alguns parochianos maxime dos srs. Dr. Alvaro Mendonça e sr. Marcello Novelli o Vigario poude inaugurar a Capela môr da futura Igreja de Nª. Sª. Apparecida de Itaquera no dia 11 de Maio do corrente anno. (…)‖59

Figura 50 – Igreja de N.S. do Carmo na Itaquera “de Cima”. Arquivo Família Drumond

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Jornal “O Suburbano” nº9 – Julho de 1931.

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Figura 51 – Visão Panorâmica dos arredores da estação de Itaquera. 1930. Arquivo Família Drumond.

Figura 52 – Casa do Chefe da Estação de Itaquera. 2011.

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Figura 53 – Vista aérea de Itaquera feita pela Comp. Pastoril e Agricola para efeitos de publicidade. Na parte inferior ao meio, a estação da E.F.C.B. Jornal “O Suburbano”, nº 27. 1932. Arquivo Amaury Roldan Pereira. “A ORIGEM DA EGREJA DE N. S. APPARECIDA DE ITAQUERA60 Para festejar, em 1914, o acabamento da confortável vivenda que mandára construir nesta localidade, o Sr. Augusto Carlos Baumann dera uma festa na vespera de São Pedro, á qual afluiram muitas familias da Capital. No meio da alvoroçada alegria dos convivas, por occasião do fincamento do mastro todo enfeitado de flores e de laranja e encimado pela effigie do velho apostolo, algumas moças, dentre muitas, se destacaram pelo carinho com que ajudavam a soccar a terra ao pé do mastro, para melhor firmal-o. E como, nas nossas tradições brasileiras, as moças que ajudam solicitamente a erguer o mastro com as figuras dos santos, nas noites de S. João e S. Pedro, são tidas como casadoiras, não faltaram os gracejos dos convivas em que se apontava entre risos e protestos esta ou aquella senhorita como sendo a mais anciosa pelos “banhos de egreja”. - Mas aqui não ha egreja apartea um dos presentes, que se aquecia ao lado da portentosa fogueira cujo clarão illuminava a distancia os gestos das lindas moçoilas. - Por isso não, diz um outro, levanta-se uma bem bonitinha e todas poderão casar. - Que graça, não! Gritam entre risadas as mais directamente alvejadas com o gracejo. - Viva, São Pedro! – Viva-a…a…a!... Estouram bombas, espoucam foguetes e a creançada gritou, enquanto os pistolões vomitam chuva de ouro e despejam tiros de varias côres. Servida a lauta ceia, a construção de uma egrejinha voltou á baila e a verdade é que a idéa, partida de uma brincadeira, foi tomada ao serio e logo pensaram em tornal-a realidade. Mas construil-a aonde, em que terreno? 60

Jornal “O Suburbano” nº8, Junho de 1931.

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Consultado o antigo proprietário daquellas terras, sr. Coriolano Pereira Barreto, sobre a possibilidade de obter-se uma área de terreno para o almejado fim, elle se promptificou a dal-a condicionalmente. Não dispunha, entretanto, de terreno senão muito distante, pelo que o sr. Baumann se comprometteu a permutar a quadra que possuia sob n. 17 por outra mais longe, afim de que a egreja se fizesse. A condição estabelecida pelo sr. Barreto consistia em só doar o terreno a uma entidade que tomasse o encargo de levantar uma egreja, de construir uma escola e de cuidar da praça. Alvitrou-se então a idéa da constituição de uma associação religiosa á qual fosse doada a alludida área de terreno. Vencedora a idéa da organização de uma associação religiosa, era preciso escolher-se um padroeiro. Não foi difficil a tarefa. Procedendo-se em casa do mesmo sr. Baumann á enthronização do Sagrado Coração de Jesus, foi consultado o padre que fez a enthronização sobre a escolha. Tirando do ―breviário‖ uma collecção de pequeninas estampas de santos, elle as virou para baixo e pediu a um dos membros da familia que tirasse uma estampa e o santo que ella representasse seria o padroeiro da nova egreja. Fez-se de accordo com o sacerdote e, entre aplausos, foi anunciado que a padroeira ema Nª. Sª. da Conceicão Apparecida. Constituiu-se, assim, a ―Associação de Nª. Sª. da Conceicão Apparecida, de Itaquéra, á qual foi doada uma área de terreno com 10.000 metros quadrados, conforme Carta de doação que se encontra em poder de um dos membros da ―Associação‖. Concluido o alicerce da egreja, não foi possivel no momento proseguir nas obras. A grande guerra européa augmentava de proporções dia a dia e o futuro cada vez mais se apresentava sombrio. As contribuições dos associados diminuiam de mez a mez e de nenhuma outra parte surgia qualquer auxilio. Foi em tal situação que a maioria dos associados lembrou-se de apressar a doação, que mais tarde teria de ser feita á Curia Metropolitana, da nova egreja, na esperança de que com mais facilidade pudesse ser levada a bom termo a sua construcção. A Curia, entretanto, nada poude fazer devido, principalmente, á falta de um padre effectivo na localidade a ao fallecimento de diversos fundadores da ―Associação‖. Criada a parochia de Itaquéra, o seu operoso vigario, padre José Bibiano de Abreu, solicitou a pregação da santa missão nesta parochia no anno passado, vindo a saber, nessa occasião, da existencia dos alicerces da egreja de Nª. Sª. Apparecida, de Itaquera. Organisou então imponente romaria á formosa collina onde se assentam aquelles alicerces, e para perpetuar a pregação de santa missão cravou um cruzeiro junto aos mesmos. Decorridos alguns mezes, o mesmo vigário se lembrou de festejar este anno o aniversario do apparecimento da Santa no rio Parahyba, no dia 11 de Maio, com o levantamento da capella mor da nova egreja. Contou, para isso, com a boa vontade de seus parochianos e dentro de poucos dias a capella estava erguida, celebrando-se precisamente no dia 11 de Maio ultimo a primeira missa, assistida por grande numero de pessoas, todas ellas possuidas de um mixto de alegria e de emoção que tanto realce e brilho deram a solemnidade. A. M.‖

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Figura 54 – Igreja N. S. Aparecida (em construção). Projeto do dr. Carlos Rosencrantz. Coordenada (23º32,04,98’’S e 46º26’49,47’’O). 1931.

A divisória entre as duas Itaqueras era a linha do trem e, mesmo o primeiro padre designado para cumprimento dos Ofícios das Missas, Padre Bibiano, era disputado entre as três comunidades. Como dito anteriormente, com o loteamento das fazendas e a reserva de uma região destinada a produção Rural, chamada de “Colônia dos Japoneses”, migrantes de várias regiões do Brasil e imigrantes de muitas partes do mundo vieram para Itaquera, povoando-a. Portugueses, Romenos, Italianos, Japoneses, Húngaros e Espanhóis, foram alguns dos pioneiros das Itaqueras que deixaram sua semente e estas, frutificaram em seu solo. Da união e miscigenação destas culturas, nasceu um povo que não teme as intempéries políticas e sociais, que vez em quando varriam e varrem a região. Basta ver a quantidade de organizações sem fins lucrativos que assumiram para si a missão de melhorar a vida dos habitantes, que escolheram o bairro para estabelecerem suas raízes e história. Quem vê Itaquera hoje, com uma ampla rede de transporte, comércio e serviços, não imagina que a luz elétrica chegou aqui somente na segunda metade do século passado, embora era prometida e planejada pela empresa “Light and Power” desde 1927, conforme artigo publicado no jornal “A verdade”, nº10 e no “O Suburbano” nº13, de 1931, respectivamente. “O povo itaquerense está animado com a noticia corrente, de que em breve teremos aqui a Light dando a luz. O Catão disse-nos que isto é um facto, o que confirmam os mais da commissão incumbida de pleiteal-a perante a senhora d. Light. Oxála que se torne em realidade este optimismo da digna commissão”. *

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“Soubemos, de fonte autorizada, que até o fim do anno teremos installada em Itaquéra a luz electrica. Não obstante terem sido proteladas as varias promessas feitas, parece ser esta veridica, sendo-nos allegado, em defesa dessas protelações, a baixa do nosso cambio, causando o encarecimento exhorbitante de tódo o material, bem como vários serviços forçados a que a Light tem tido que attender. O orçamento e o projecto acham-se promptos, que foram bastante dispendiosos para a Companhia, facto que assegura, por si mesmo, ser realmente cumprida a promessa, embora tenhamos que esperar mais alguns mezes”. * Realmente, a promessa foi cumprida em alguns meses, mais exatamente 240 meses, ou 20 anos, no dia 25 de Agosto de 1951. Contudo, a Colônia Japonesa precisou esperar mais três anos para desfrutar deste benefício e, a Figura 55 abaixo, mostra a pedra fundamental da inauguração de sua eletrificação.

Figura 55 – Memorial em pedra onde se lê: Em comemoração a eletrificação desta Colônia, iniciada em Novembro de 1953 – Itaquera 25/7/1954. Arquivo Familia Sugaya Mesmo nesta época, a densidade demográfica de Itaquera era pequena. Reinava a política da boa vizinhança onde todos se conheciam. A Figura 50 mostra a Rua Flores do Piauí na década de 1930. A Figura 51 traz uma excelente vista panorâmica da região central de Itaquera, onde no meio vê-se a estação de trem e, em seu lado esquerdo, sentido Leste-Mogi das Cruzes, a Casa do Engenheiro da Estação, mostrada na Figura 52 como está nos dias de hoje. As Figuras 56 e 57 mostram a vista da Vila Campanella com algumas casas construídas e, a Figura 58 mostra o Mercadinho Central, na esquina das Ruas Gregório Ramalho e Inácio Alves de Matos. Uma outra preocupação que aborrecia os itaquerenses era a falta de um cemitério próprio. Para sanear este problema, veio em socorro às necessidades do bairro o coronel Bento Pires de Campos, que cedeu um terreno para ser instalado o Cemitério de Itaquera. 81


“O povo Itaquerense, por nosso intermédio pergunta aos poderes públicos em que ponto está a construcção do cemitério daqui. É sabido que o benemerito sr. coronel Bento Pires de Campos deu o terreno necessário para a edificação do nosso Campo Santo. Urge pois, que o sr. sub-prefeito e o Directorio Politico local empreguem o maximo dos seus esforços junto ao sr. prefeito para a construção deste importante melhoramento”61. Dois meses depois, o mesmo jornal trazia um artigo informando que as obras para a construção do Cemitério de Itaquera iriam iniciar-se62. “Consta, que está resolvida, a construcção do cemiterio desta localidade. Ao Sr. coronel Bento Pires de Campos deve-se a doação do terreno. Já o povo itaquerense, dentro em breve, não mais precisará bater á porta do visinho para pedir abrigo para seus entes queridos”. Este último parágrafo nos fez relembrar da telenovela “O Bem-Amado”, cujos moradores da cidade fictícia “Sucupira” tinham que andar vários quilômetros, para enterrar seus entes em outra cidade, até que o prefeito “Odorico Paraguassú” decidiu construir um cemitério na própria cidade. Hoje Itaquera é servida por dois cemitérios, o “Cemitério de Itaquera”, no terreno doado pelo coronel Pires de Campos ao Município e inaugurado em 1929 e, o “Cemitério do Carmo”, construído pouco mais de 25 anos atrás.

Figura 56 – Estação de Itaquera no inicio da década de 1950 à esquerda (oeste) sentido Roosevelt e a direita (leste) sentido Mogi das Cruzes. Atrás, “Itaquera de Baixo”, vê-se o local onde hoje se encontra a Vila Campanella. Arquivo Familia Stanojev Pereira.

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Jornal “A verdade”, nº13, junho de 1927 Jornal “A verdade”, nº17, agosto de 1927

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Figura 57 – “Itaquera de Baixo”. Vê-se a Vila Campanella e a atual Rua Luis Antonio Gonçalves. (1957) Arquivo Família Stanojev Pereira.

Figura 58 – Mercadinho Central de Itaquera. (1950). Arquivo Família Drumond.

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Capítulo 7 Gentes Neste capítulo, serão apresentadas fotos, ilustrações, descrições e depoimentos de pessoas que representam as diversas etnias63 que colonizaram e povoaram em grande parte a região da Vila Santana e adjacências, fato de relevância e capítulo magno ao qual se propõe o presente trabalho. Como dissemos anteriormente, Itaquera abrigou muitos imigrantes portugueses, africanos, espanhóis, italianos, poloneses, húngaros, búlgaros, romenos, japoneses, etc. Todos eles viam no Brasil uma alternativa para sua evolução social e financeira pois, em seus países de origem, muitas vezes eram assolados pela fome, doenças e o pior, a guerra. Em Itaquera, imigrantes de nacionalidades diferentes, e até hostis em suas terras natais, casavam-se e constituíam famílias, como podemos ver no caso do proclama da Figura 59, extraído do Jornal “A Verdade” de 192664. Os imigrantes oriundos da Espanha vinham para o Brasil devido as questões políticas e financeiras que o país atravessava. Em sua maioria eram trabalhadores agrícolas que chegando no Porto de Santos tinham destino certo nas grandes plantações de café no interior de São Paulo. Os espanhóis distinguiam-se dos demais grupos de imigração pois vinham para o Brasil em grupos familiares, e eram a terceira maior força de contingente de imigração, perdendo para os portugueses e italianos.

Figura 59 – Edital de Proclamas anunciando o casamento de imigrantes em Itaquera.

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A única lacuna é quanto a representação da etnia indígena, que tentaremos inserir na 2º Edição da presente obra. N.A, Jornal “A Verdade” nº2, outubro de 1926

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Os italianos começaram a imigrar para o Brasil já na década de 1870, motivados pelas crises sócio-econômicas que seu país atravessava. A grande maioria era do norte da Itália, onde as questões de propriedade de terras estavam em voga. O destino dos italianos era São Paulo. Rio Grande do Sul e Minas Gerais e, segundo o Censo de 1920, 70% dos Italianos entraram no Brasil via São Paulo, onde trabalhavam nas fazendas de café e como operários da indústria de construção e têxteis. Os japoneses, que em Itaquera marcaram presença pela unificação de sua Colônia, onde até os dias de hoje estão presentes, começaram a aportar no Brasil em 1908. A grande maioria, cerca de 93%, veio para o Estado de São Paulo, concentrando-se em fazendas de café, substituindo a imigração italiana e espanhola que decrescia, a partir de 1930. Com o passar dos anos, os descendentes começaram a migrar para a capital de São Paulo, onde começaram a desenvolver e a participar de várias atividades em importantes áreas de serviço. Outras nacionalidades vieram, olharam e venceram, fixando no Brasil seu modo de ser, de viver e crescer, influenciando o povo brasileiro com suas culturas. Mas também foram influenciados pelo gentil povo brasileiro, que recebia e ainda recebe à todos aqueles que “enrolam a língua” e falam “grego” e língua de “gringo”, com o carinhoso modo brasileiro de ser, sempre com um sorriso. O povo português, que cuja saída de Portugal para diversos países dos continentes Europeu, Africano e Americano sempre aconteceu e ainda acontece nos dias de hoje, teve seu grande êxodo para o Brasil nas primeiras décadas do século XX, com o propósito de fugir da drástica situação social que assolava principalmente o norte de Portugal. Nesta saída, muitos cidadãos desembarcavam sozinhos ou acompanhados por seus familiares no Porto de Santos. Além de imigrantes, Itaquera e a região Leste da cidade de São Paulo sempre foi destino para nossos migrantes, principalmente nordestinos que vinham para São Paulo na esperança de trabalho, educação e dignidade para sí e seus filhos.

Figura 60 – Cartum de autoria do artista Laerte65. A Figura 60, genialmente concebida pelo cartunista Laerte, mostra bem a importância e presença dos migrantes, na construção de São Paulo, remetendo-nos a lembrança da “Revolta do Monte Sagrado”, quando a plebe66 romana, cansada das 65

Em contato via e-mail, o cartunista sr. Laerte gentilmente autorizou-nos a anexar esta tira em nossa obra, a qual somos profundamente agradecidos. 66 Do latim plebem, ou multidão, pessoas que não possuiam direitos civís ou políticos em Roma até a Revolta do Monte Sagrado.

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injustiças dos governantes patrícios que tudo podiam, retiram-se completamente de Roma para fundar uma nova cidade. Em face disto e, vendo que não havia mais ninguém para ser governado, os magistrados resolvem ceder e criam as magistraturas plebéias. Um povo forte, decidido, trabalhador, com uma forte herança cultural, que foi rapidamente difundida entre o povo da “terra da garôa”, fato é a proliferação de gostos, festas, músicas, comidas, comportamento e literatura, na cultura paulistana moderna.

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Família Falcon, por Marcos Falcon67 Meu avô paterno sr. Manoel Falcon Vilanueva (Catalão) chegou ao Brasil já casado com dona Amália Gaiteiro em 1911. De imediato foi para Itaquera, pois tinha como profissão ser Mestre em Cantaria 68, profissão esta onde os espanhóis sempre se destacaram. Ele era um especialista em trabalhar com pedras. Na época, sua mão-de-obra fora muito requisitada em Itaquera, local que fornecia as pedras para a construção da nova Catedral da Sé e, para a extensão da Rede Ferroviária Central do Brasil, que a partir daquele ano, seguiria de Itaquera para Mogi das Cruzes. Em 1914 nasceu meu pai o primogênito batizado com o nome de Antonio Manoel Falcon. Meus avós moravam na “Casa da Turma” que era uma grande casa com muitos quartos e áreas de trabalho comum a todos que fora implantada na beira da estrada de ferro e lá moravam todos os trabalhadores do trecho Itaquera da Central do Brasil. Meu pai teve mais cinco irmãos que por ordem decrescente de idade foram: Daria, Alzira, Amélia, Noêmia e João. Meu pai teve que iniciar o trabalho ainda garoto para ajudar na criação dos irmãos e acabou se especializando na arte da carpintaria pesada da construção e nesta função como mestre-de-obras da Companhia Construtora Nacional participou da construção da Via Anchieta e lá sofreu uma queda da armação de um viaduto fraturando várias costelas e perfurando o pulmão. Terminou sua carreira profissional na Nife Acumuladores e Baterias, na época uma das poucas opções de emprego em Itaquera. Lá ele era responsável pelas embalagens em madeira para exportação das baterias. Em 1948 meu pai casou-se já com 38 anos (tarde para a época) com minha mãe Nair Barboza viúva de Raphael Herrera conhecido como (Fálico) que havia morrido de tuberculose deixando minha mãe viúva com dois filhos Dirceu Herrera na época com dois anos e Mauro Herrera com um ano. Foram então os quatro morar numa casa de aluguel, na Vila dos Campanelas, onde minha irmã e eu nascemos. Em 1953 meu pai comprou um terreno na Vila Corberi, do outro lado da linha do trem, pois a chácara do sr. Jacome Corberi estava sendo loteada. Lá ele construiu com as próprias mãos e ajuda dos meus meio irmãos a casa onde viveu até o fim de sua vida e onde eu e minha irmã passamos nossa infância, adolescência e juventude. A casa fica ao lado do campo do Falcão do Morro time onde aprendi a amar o futebol e hoje sou o Presidente do Conselho Fiscal.

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O sr. Marcos Falcon foi um dos nascituros que vieram ao mundo pelas mãos da parteira sra. Natividad Roldan. A cantaria é a pedra talhada de forma a constituir sólidos geométricos, normalmente paralelepípedos, para utilização na construção de edifícios ou de muros. Os profissionais que talham a pedra denominam-se canteiros. Definição cedida pelo entrevistado, consoante pesquisa na Wikipédia, a enciclopédia livre on-line. 68

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Família Stanojev Coelho, por Valquíria Stanojev Coelho Pereira De origem Romena, da cidade de Taranov, hoje pertencente à Bulgária, meu avô, avó, minha mãe e tios chegaram no Porto de Santos em 1925, pelo navio Plata, procedente do porto de Marselha. A Figura 61 mostra a família, datada de 1924, onde se vê o patriarca, sr. Stojan Stanojev, sua esposa sra. Emília, seus filhos: mais velhos Izidoro e Olga e mais novos: Spassa e Júlia. A quinta filha, Maria, nasceria já no Brasil alguns anos depois. A estória da minha família, e de sua saída da terra natal, é semelhante aquelas contadas por outras famílias de imigrantes, de outras nacionalidades, mas com o mesmo motivo. Cansados de lutas inglórias, abatidos pela fome e desesperança vieram dos campos, onde eram agricultores sem terra e, depois de passarem por culturas de café no interior de São Paulo, fixaram-se na capital, na Região da Moóca, onde mais tarde, a filha mais nova, Júlia (meio), foi trabalhar como costureira na gigante Alpargatas, fundada em 1903. Na Moóca conheceu meu pai, sr. José Coelho, filho do ferreiro Aurélio Joaquim Coelho e Maria Joanna, naturais da cidade de Pinhel, província da Guarda, norte de Portugal. Meu pai chegou no Brasil com doze anos de idade, em 1918, embarcando sozinho, também no porto de Marselha. Nesta época ocorria na Europa a Primeira Grande Guerra, e Portugal participou ao lado dos Aliados, compostos pelo Império Britânico, França e Império Russo e mais tarde, em 1917, reforçado pelos Estados Unidos contra a Tríplice Aliança, composta pelo Império Alemão, Império Austro-Húngaro e Império Turco-Otomano. Esta guerra foi a grande responsável pelo colapso de quatro impérios, inclusive o Austro-Hungaro, que foi o grande articulador da saída de meu avô Stojan da Romênia, além de mudar profundamente e de forma radical o mapa geopolítico da Europa e do Oriente Médio.

Figura 61 – Família Stanojev ainda na Romênia, nas vésperas da viagem para o Brasil. 1924. Arquivo Familia Stanojev Pereira. 91


Como Portugal e França eram inimigas dos alemães, o navio que meu pai embarcou para o Brasil portava a bandeira de França, e ele contava para nós que foi torpedeado por um submarino alemão nas costas de África, todavia, dizia ele que pela graça de Deus, o petardo não detonou, mas a confusão foi geral no convés e no porão e depois, todos se reuniram para fazer uma oração de Ação de Graças. Quando chegou, desembarcou no Porto de Santos, ficando por lá um tempo desempenhando trabalhos manuais. Meu pai sempre foi muito trabalhador e sua estatura alta e corpo forte, desenvolvido na “Academia da Vida”, o ajudou a fazer todo o tipo de trabalho. Mais moço, chegou em São Paulo, indo morar em uma pensão e trabalhar na Moóca, como entregador de leite no “Leite Paulista”. Na Moóca conheceu minha mãe e casaram-se em 30 de Junho de 1938, ela com 21 anos e ele com 32 anos, residindo neste mesmo bairro, na Rua Taquari, até 1948, depois mudaram-se para a Vila Granada, onde se estabeleceram com uma padaria. A luta sempre fora árdua, meus pais sempre trabalharam muito, mas tínhamos uma família feliz. Em Itaquera chegamos no ano de 1950 e meu pai se estabeleceu em um comércio de Secos e Molhados. O armazém do “seu” Coelho, como ficou conhecido, era muito grande e tinha de tudo. Minha mãe levantava muito cedo, por volta das 4 horas da manhã e pegava o leite, que era da Paulista ou Vigor, que antigamente vinha em frasco de vidro, e depois chegava o pão, que vinha da padaria de meus tios Gaspar e Macília, irmã de meu pai. O terreno onde se localizava a venda tinha uma área de cerca de dois mil metros quadrados e tinhamos criação de porcos, ovelhas, coelhos, galinhas e dois cavalos, um para puxar a carroça e o outro de trote. Meu pai punha de vez em quando nós para passear na charrete e também no carro de boi e, a Figura 43 mostra nós crianças em cima do carro e na frente o condutor, próximo dos bois com uma vara de ferro na mão, utilizada para guiar os animais. Meu pai era muito querido por todos, estava sempre pronto à ajudar os fregueses e amigos em suas necessidades, era sempre muito honesto e correto. Gostava de, no final do domingo, saborear um charuto acompanhado de um vinho. Quando vinha seu irmão, o tio Luiz e meus primos passar o domingo conosco, era uma festa, infelizmente não era sempre, o que fazia-nos sentir muitas saudades. Outra atividade que meu pai gostava muito de fazer era caçar, acompanhado do tio Antônio (Purruga), no morro do Santana, onde hoje está construido o Conjunto Habitacional, mas na época era só mata com muitas fontes de água. Também tinham o hábito de ir caçar em Guaianases, onde a mata era mais fechada e a caça mais abundante. Eles saiam de manhã, muito cedo, e diziam que haviam muitos animais como tatú, lebre e até veadinho, mas só traziam lebre e tatú, pois eles tinham dó de matar os bichos. O dia de trabalho de meu pai e de minha mãe era cansativo, pois levantavam cedo e iam dormir muito tarde, ficaram nesta vida por mais de 30 anos, contando somente no Armazém da Vila Santana. No dia-a-dia, conosco já na adolescência, ajudava-mos mais, o meu irmão Lelo (Aurélio) e o Zequinha (José), levavam as compras para os clientes da venda. Nestas entregas meu pai acomodava as mercadoras em caixas de madeiras, separadas por clientes e, sempre colocava na encomenda um “agrado”, como ele costumava dizer, que era uma lata de marmelada, de pêssego ou marrom glacê. Eu e minha irmã mais velha, a Lila (Maria Ana), como trabalhamos com comércio, aprendemos com papai a fazer isso, o que não custa nada e é uma alegria ver a pessoa recebendo com um sorriso. 92


Meu pai estava sempre de bom humor, mas o humor mudava e ficava bravo quando tinha que aturar uns clientes que bebiam a mais da conta, mas também gostava de receber aqueles outros que vindo do trabalho, paravam na venda, pediam um drinque, botavam a conversa em dia e depois iam para casa, com um aceno, levantando o chapéu e dizendo: Boa tarde, “seu” Zé, fica com Deus, até amanhã se Deus quiser! Quando os clientes ficavam apertados, com salários atrasados, ou mesmo devido a doenças ou outros motivos, papai sempre os atendia e deixava para o mês seguinte o pagamento ou quando as coisas se acalmassem. Onde hoje passa a Av. Jacú Pessego, sentido Av Imperador, a região era toda coberta por mata e várzea. Nesta região morava uma senhora negra que pegava seu cesto de roupa lavada e saia entregando para suas clientes que moravam nos Bairros da Bresser, Tatuapé e Moóca. Sempre sorridente e feliz, na ida e vinda sempre passava diante do armazém com um sorriso que nunca mais esquecerei. Dona Beatriz era seu nome. Dentre os muitos fregueses/amigos de meu pai, destaco a dna. Ciloca e “seu” Costabile, gente pioneira da Vila Santana e querida por todos nós. “Seu” Manolo e dna. Rosalia, casal de espanhóis. Dna. Cármem e sr. Jaime. Sr. Miguel “Saqueiro”, que fazia sacos para vender. A família Monteiro com o sr. Eupídio e dna. Eulália, não esquecendo do grande amigo de meu pai sr. Edgard (Astrogildo) e o sr. Hugo, que tocava seu violino maravilhosamente. O armazém de papai ficava do lado esquerdo da igreja, para quem a olha de frente. A direita havia o armazém do “seu” João, irmão do também português Sr. Carlos que também estabeleceu seu negócio de secos e molhados na venda cujo edifício existe ainda nos dias de hoje. Os Carvalhos, família muito antiga e tradicional de Itaquera, tinham uma chácara onde hoje está edificado um conjunto de edifícios residenciais. Também fregueses de meu pai, pessoas muito queridas, era constituída pela dna. Maria, a matriarca da família e suas filhas Dna. Thereza, casada com o comerciante sr. Paulo Dias, o advogado dr. Jaime casado com Dna. Mercedes, e o dr. Joaquim Carlos, advogado, amigo de nossa família até hoje, dono do escritório de advocacia e Imobiliária “Equipe Legis” e casado com a sra. Carminha Bevillacqua, também uma amiga que sempre estará no nosso coração. Na frente da chácara da família Carvalho, era um terreno baldio onde o pessoal da Colônia Japonesa fazia suas brincadeiras uma vez por mês, ou festividades, havia corrida de sacos, queima, e basebol. Também acampavam os ciganos durante um, dois ou três meses neste mesmo terreno. Povo nômade que como vinham, iam embora. A caravana era composta por muitas carroças, crianças, velhos, adultos, cavalos, carros. Montavam suas barracas e sempre estavam dançando, cantando, sempre muito sorridentes, portando muito ouro no pescoço, nas orelhas, nos pulsos, nos dedos e nos dentes. Quando chegavam, a população ficava muito assustada pois tinham medo das crianças sumirem. A ordem era não deixar seus filhos sozinhos, pois dizia-se que eles enfeitiçavam as crianças e adolescentes para roubarem-nas. Sempre que passava defronte ao acampamento, eu ficava admirada e parava para vê-los tocarem e dançarem com suas vestimentas coloridas, sempre com muito vermelho, muito bonitas. Assim foi minha adolescência na Vila Santana, feliz, movimentada com as quermesses e festas da Paroquia de N.S. de Santana, avó de Jesus. Frequentava-mos a igreja, acompanhávamos as procissões e vestíamos a imagem de N.S. Imaculada para a procissão. 93


Estudei na Escola Álvares de Azevedo até o Ginasial. Na primeira série a minha professora era a dna. Dalva, professora que vinha de Mogi das Cruzes, com sua irmã, também professora, dna. Berta, minha professora no primeiro e terceiro anos. Gostava tanto dela que tenho até hoje um cartão de Natal que me presenteou. Na escola levávamos lanche e dentro de minha mala de couro levava um sanduíche feito de pão com banana ou pão com manteiga “aviação” e queijo, até hoje lembro do cheiro de banana que impregnava na mala.

Figura 62 – Traje tradicional para a Primeira Eucaristia. 1957. Arquivo Família Stanojev Pereira.

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Figura 63 – Capa do Livro de Orações ilustrado (acima) com o terço ao meio do livro (abaixo) utilizado na Primeira Eucaristia. 1957. Família Stanojev Pereira. Minha professora do segundo ano foi a dna. Helena, também muito querida, irmã do também professor Ramom, membros de família muito conceituada e antiga de Itaquera, a família Flôres. Nesta época tinhamos aula de canto e coral com a profa. Evelize, ensaiávamos para nos apresentar em eventos e festas comemorativas como o sete de setembro, Festa da Bandeira, Proclamação da República, entre outros. Dna Alcina foi professora da quarta série no Álvares de Azevedo e também da Escola profissional Sábado D´Angelo, o professor Augustinho foi o da quinta série e lembro que era um professor muito jovem e bonito. Tempos bons, íamos para a escola para realmente estudar e fazer boas amizades, que duram até hoje, onde ainda tenho contato com várias amigas deste tempo de ouro e, escrever este texto me traz lembranças maravilhosas de volta a minha cabeça, um filme muito nítido se mostra à minha frente, como diz a música: “Recordar é viver69” O ensino era muito bom, se respeitava o professor, o diretor e os serventes. Nosso uniforme era composto de uma saia azul com pregas, blusa branca, com botões, meias ¾ 69

Composta pelo músico português Victor Espadinha (Victor Manuel Marques Espadinha) em 1939 na cidade de Lisboa

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e sapato preto, não é esta aberração de bustier com calça colada ou shortinho, dizem que é o progresso, pois sim, progresso para o precipício.70 Me formei e gostaria de continuar os estudos e formar-me em Magistério, mas naquela época diziam que professora só se casava com vagabundo, então meus pais me matricularam na Escola Profissional Sábado D´Angelo, onde fiz curso de Culinária, Bordado, Costura, Pintura, Puericultura, Português, Geografia, História, com as professoras dna. Wanda, dna. Fumico e dna. Norma. A dna. Conceição era a diretora e a dna. Alcina, minha professora da quarta série, era a Vice Diretora e dava aula de português e Geografia quando precisava. Havia também o sr. Paulo, motorista e o caseiro sr. Oscar que morava na casa de baixo do terreno onde funcionava a Escola Sabado D´Angelo, ou Sudan, como era conhecida. A casa e o grande terreno existem até hoje, bem conservada.

Figura 64 – Da esquerda para direita: dna. Maria Carvalho (da Chácara Carvalho), dna. Fumico (prof. Corte e Costura), dna Alcina (profa. da 4ª série do G.E. Alvares de Azevedo e diretora do Sudan), dna. Thereza Carvalho Dias (profa. do 1ª série do G.E. Alvares de Azevedo). 1963. Arquivo Família Stanojev Pereira. Minha permanência nos cursos do Sudan duraram quatro anos, quatro anos de felicidades, onde todos os dias íamos, eu e minhas amigas inseparáveis Walquiria Degaspari e Conceição, esta última morava em Guaianazes, Neide e as meninas da Colônia Japonesa, a Clara, Fumico, Vanda e outras. Sempre muito camaradas, éramos unidas em tudo que fazíamos, como a prática de educação física com o professor Ciro. Nesta aula o uniforme também era muito bonito e composto por uma saia branca, toda com pregas machos, na altura dos joelhos, camisa branca, tênis branco, um luxo (risos). Jogávamos Vôlei e Basquete, além de ensaiar para a fanfarra da escola. Que delícia, que bons tempos! Assim foi minha adolescência em Vila Santana.

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Disse isso sorrindo, como anedota. N.A.

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Dentre as atividades culturais do Sudan, havia a festa anual do Baile da Primavera, que acontecia nos meses de outubro ou novembro. Este acontecimento era para nós jovens muito esperado, pois éramos convidados a nos inscrever para participar do Concurso Rainha da Escola Sabbado D’Angelo, para tal, tínhamos que atingir uma meta, que era vender convites-ingressos para o baile, cuja contagem classificava a Rainha e Princesas do evento. Era muita a emoção que começava na inscrição e terminava no dia da festa, quando pronunciavam a vencedora.

Figura 65 - Coroação da Rainha do baile da Primavera. 1960. Arquivo Família Stanojev Pereira O baile e a coroação acontecia no Salão Social da Sociedade Esportiva Elite Itaquerense, cujo contato e a reserva nós mesmos que fazíamos e, deveria ser sempre com muita antecedência, pois o Elite era muito procurado nestas épocas para sediar vários eventos importantes na Região. Na época, o presidente do Clube era o sr. Dário Barone, ou o sr. Renato Benvenute, ambos de família muito antiga e tradicional no Bairro. Meus pais eram muito amigos da querida dna. Miriam, esposa do sr. Renato e filha do fundador do Elite, sr. Salomão. Este último era uma pessoa muito conhecida e querida no bairro, era comerciante e tinha uma loja perto da passagem do trem, onde todos o conheciam e compravam seus móveis. O baile começava as dez horas da noite e durava até as quatro da madrugada. A coroação acontecia à meia-noite, e depois o baile “corria solto” em clima de festa e amizade, pois todos os frequentadores eram amigos e conhecidos. Nossos amigos Tabinha, o Fioco, os irmãos Manabe e muitos outros participavam com muita alegria, lembro-me do rosto de um por um. 97


Figura 66 – Discurso da Rainha da Primavera e Banda do Baile. 1960. Arquivo Família Stanojev Pereira. Nestes bailes, participei e fui coroada por duas vezes seguidas como Rainha da Escola Sábado D´Angelo e destas épocas guardo as melhores recordações e vez ou outra, recordo olhando as fotos destes eventos. Sempre trabalhei com educação e adoro alfabetização e então, em 1997, decidimos abrir uma escola destinada à alfabetização e ensino supletivo de primeiro e segundo graus. Para isso dispusemos quatro cômodos de minha casa, adaptando-a para três salas de aula e uma biblioteca, que hoje conta com 1356 livros. Para atender os alunos e os professores, a antiga garagem foi transformada em secretária. Assim nasceu a Sociedade de Ensino Cáritas, mantenedora do Colégio Cáritas-Infante Dom Henrique que foi inclusive abençoada pelo papa João Paulo II, em carta. Os professores eram meus próprios filhos e outros que contratamos para lecionar disciplinas não dominadas ou devido ao horário de aulas, pois havia curso de manhã e noite, sendo que o forte, com mais procura era a noite e eu, lecionava alfabetização. Formamos cidadãos e muitos, para o nosso orgulho, voltavam para nos dizer que haviam passado na universidade, esta era a nossa maior paga. Contudo, tivemos que encerrar as portas do supletivo em 2008, pois a concorrência desleal, em cursos que ofereciam o diploma de primeiro e segundo graus, reconhecido pelo MEC, em três meses, acabou afastando os alunos de nossas salas, cujo curso demorava um ano. Hoje apenas atendemos a alfabetização, o que nos dá um grande prazer também, pois vemos os olhos das crianças que brilham, quando aprendem as primeiras letras de seu próprio nome.

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Figura 67 – Carta do Vaticano com a bênção Papal. 1997. Arquivo Família Stanojev Pereira.

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Família Sugaya, por dra. Marisa Sugaya A história de minha família no Brasil, começa quando meu avô Kan Sugaya, com a idade de 35 anos, desembarca do navio Chicago Maru no Porto de Santos em Fevereiro de 1922. Veio para Itaquera antes do nascimento do meu pai, que nasceu na Chácara da Colônia Japonesa em 1930. A Chácara era localizada na rua que hoje recebe seu nome e profissão: "Agrimensor Sugaya". No local está hoje construída a casa de Show Nação Tantan. A imagem da Figura 68, é parte integrante do livro “Família Sugaya Origem e desenvolvimento no Brasil”, publicado por meu irmão Dr. Marcos de Freitas Sugaya, em memória de nosso querido antepassado, falecido em 1979, aos 91 anos. Meu avô casou-se em 04 de Dezembro de 1913, com minha avó Moto Tomita e depois de uma expedição profissional-militar à Sibéria, de 1918 a 1920, resolveu tentar a vida em novas terras, escolhendo o Brasil. Gostava muito de pintar, principalmente paisagens. Foram inicialmente encaminhados para a Região de Registro, no Vale da Ribeira, contudo devido a inexistência de recursos educacionais para seus filhos, em 1926 decidem partir para São Paulo, escolhendo o promissor bairro de Itaquera. Já em Itaquera, foram morar uma casa modesta na Rua “A”, às portas da Colônia. Como engenheiro agrimensor, formado na Escola Militar de Engenharia, mais tarde ingressou no Departamento de Topografia do Ministério do Interior do Japão. Já no Brasil, trabalhou para a Cia. Commercial Pastoril e Agrícola e dividiu a Vila Carmozina em lotes. Era a Fazenda Caguassú dando início a povoação. Os mapas do loteamento da fazenda, localizada na Vila Carmozina e Colônia, estão representados nas Figuras 12a e 12b, com os nomes das ruas e lotes. Estes mapas foram desenhados por meu avô e datam de 1936, anunciando as vendas de terrenos à prazo longo e distantes cerca de 30 minutos da Capital. O preço da passagem de trem, que na época era a Maria-Fumaça, custava 300 réis, ida e volta. A secção referente a Colônia aparece descrita como "Secção Rural da Villa Carmozina" e consta nele "Colônia parte da Fazenda Caguassú propriedade da Companhia Comercial Pastoril e Agricola". A propaganda trazia também que a compra era sem juros, as terras eram ideais para pequenas culturas e criações, a região possuía duas magníficas estradas de rodagem que davam acesso a Itaquera e que fica a 30 min. da Capital. Chácaras e granjas para produção de leite, água corrente em todos os lotes, bom clima, ótima água e 30 trêns diários ida e volta.

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Figura 68 – Família Sugaya nas vésperas de embarcar para o Brasil. 1921. Arquivo Família Sugaya. Meu pai Naruto Sugaya (Figura 143), foi o segundo filho nascido no Brasil e quinto da família. Nasceu em 1930 e iniciou seus estudos no Grupo Escolar Álvares de Azevedo, fazendo o percuso de 3 km a pé, ida e volta. Dando prosseguimento aos estudos completou o Ginasial no Ginásio Paulista, situado no bairro do Brás, pois em Itaquera não existia o curso Ginasial. O nível Colegial foi concluído no Colégio Estadual Presidente Roosevelt, finalizando esta etapa de ensino fundamental em 1951. Especializou-se com cursos técnicos profissionalizantes em Consertos de rádio e TV, profissão que adotou. Trabalhou na General Eletric S/A., saindo da empresa em 1964 para abrir negócio próprio de consertos de TV e Rádio, no Centro de Itaquera, onde exerceu a profissão até pouco tempo atrás e, devido a profissão e as visitas às residências na região, ficou bastante conhecido no Bairro como “seu” Sugaya. Minha mãe, Ivone de Freitas Madeira, que passou a chamar-se Ivone de Freitas Sugaya, nasceu em Araraquara, onde formou-se em Magistério e lecionava como professora primária. Quando se mudou para São Paulo, foi lecionar na Colônia de Itaquera, onde conheceu meu pai, vindo a se casarem em 1960.

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Família Roldan Pereira, por Antonio Pacheco Pereira Meus bisavós maternos Julian Poyato e Madalupe Poyato, pais de minha avó Natividad Poyato Roldan, eram da cidade de Córdoba, na Espanha, e vieram para o Brasil em 1904. Minha avó contava que ela e seu marido, meu avô Francisco Roldan, eram proprietários de terras e, como haviam vendido as terras que possuíam, trazia uma certa quantidade de dinheiro guardado nos seios, como era costume. No navio, um bandido tentou rouba-la e ele foi jogado ao mar pelos passageiros. Chegaram no Porto de Santos e mais um incidente aconteceu, minha tia Trinidad, ainda de colo, caiu no mar e foi salva por um marinheiro que imediatamente lançou-se à água para resgata-la. Depois, seguiram para a cidade de Taquaritinga, depois Jurema, onde foram fazendeiros, plantando café e vendendo gado e, próximo de 1906 vieram para São Paulo, rumando para Itaquera, sendo uma das primeiras famílias a chegar no bairro de Itaquera, instalando-se na Vila Santana. Meus avós paternos eram de Guararema, interior de São Paulo, e se deslocaram para Mogi das Cruzes. Meu avô Licinio Antonio Pereira era comerciante e, minha avó Lucinda Pereira, professora. Pelo seu amor ao futebol, meu pai vinha de Mogi para Itaquera para jogar bola e, graças ao esporte e suas vindas para Itaquera ele conheceu minha mãe. Antigamente um jogo de futebol era um evento social, onde as famílias concorriam ao campo para assistir a partida e torcer pelos seus familiares e flertes. Assim começaram a namorar e casaram em 1939, indo morar em Mogi das Cruzes.

Figura 69 – Sr. Francisco Roldan, cercado de sua filha Regeneração e netos, em frente a sua casa. 1948. Arquivo Familia Stanojev Pereira.

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Uma das passagens que meus pais contavam, enquanto moravam em Mogi das Cruzes, é que durante a 2ª Guerra Mundial, todas as luzes deviam ser apagadas a noite, em Blackout oficial. Nesta altura, policiais da Segurança Social patrulhavam as ruas desertas em busca de prováveis espiões que fizessem sinais de luzes aos aviões inimigos. Certa noite, devido às necessidades de cuidados à mim e meus irmãos, meu pai acendeu uma vela e colocou-a dentro de uma lata para minimizar a luz, para que minha mãe pudesse ter condições de nos atender. Ouviu-se uma batida na porta, meu pai foi ver do que se tratava e para sua surpresa, haviam dois policiais na porta e, para piorar, minha mãe era filha de espanhóis. O Salvo-conduto71, na Figura 71, foi então dado à minha mãe, depois de tudo esclarecido no Serviço de Segurança Política e Social.

Figura 70 – Familia Roldan Pereira ainda em Mogi das Cruzes. 1945. Arquivo Familia Stanojev Pereira

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Salvo-conduto é um documento oficial de identidade que permite ao seu portador transitar por um determinado território. Este trânsito pode acontecer de forma livre ou sob escolta policial ou militar. N.A.

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Figura 71 – Frente e verso do documento de Salvo-conduto para deslocamento em viagens, devido à 2ª Grande Guerra. 1943. Arquivo Família Stanojev Pereira

Em 1943 meus pais resolveram voltar para Itaquera, pois foi onde se conheceram, onde meu pai jogava futebol e tinha seus amigos, onde era mais próximo da estação de trens “Engenheiro São Paulo”, local onde trabalhava e, próximo da família de minha mãe. Em Itaquera foram morar numa casa onde hoje está a Universidade Camilo Castelo Branco. Meu pai, Astrogildo Pereira era funcionário da Rede Ferroviária Federal e minha mãe do lar mas, para reforçar a receita da casa pois éramos em oito irmãos, era costureira. Minha mãe, com oito filhos mais meu pai, conseguia trazer a nossa família com controle financeiro, educacional, religioso e moral. Ela cuidava do modo de vestir, de calçar e de estudar de toda a família. Sempre muito bem calçado, muito bem vestido, simples, sem luxo, mas sempre impecável. Ela não permitia que um filho seu saísse com uma camisa amarrotada ou com um sapato mal engraxado. Além de funcionário ferroviário, meu pai e meu tio Oidézio Simone, que também era funcionário da E.F.C.B, escreviam novelas para a rádio São Paulo e textos para os jornais locais. Meu pai também era responsável pelo jornal “O Barro Preto”, que circulou entre 1957 até 1961, 105


manuscrito por ele que, de forma artesanal, compunha e editava, inclusive com fotos, que ele recortava e colava nas folhas. O verdadeiro nome do jornal era “Informativo da Sociedade Esportiva Sant´Anna Itaquerense” e “Barro Preto”, como ficou conhecido, era como os moradores da Vila Santana e o time de futebol eram chamados, por razões óbvias. Este jornal ele entregava para a pessoa, que pagava um tostão, lia e devolvia para alugar para outra pessoa. A renda era revertida para o Itaquera Futebol Clube, time que ele jogava aos finais de semana, fundado em 1939.

Figura 72 - Moeda de 100 reais, ou réis, de 1929, conhecida por tostão. Arquivo Família Stanojev Pereira Um dos textos que tenho guardado, e que ele havia publicado em um jornal de Mogi das Cruzes em 1935, é o seguinte72: A arte de ser marido – Para os que se casam pela primeira vez Se tua mulher fica alegre, de repente, ou triste sem motivo – observas e vigia a tua mulher. A tristeza e a alegria súbitas são, igualmente, symptomas de paixão nova – e não consta que nenhuma mulher no mundo se tenha apaixonado pelo seu marido, depois do casamento. * Uma mulher honesta nunca fala na sua honestidade. A honestidade é um facto, e não uma palavra. * Escolha a tua casa longe das pensões, hotéis ou prédios de apartamentos. Em casas dessa espécie há, sempre, rapazes desoccupados e não há, para um desoccupado melhor occupação do que conquistar a mulher dos outros. * Toda mulher tem, na vida, a sua “hora do diabo”. Em algumas, essa hora do diabo é toda hora, mas não são essas mulheres as nossas mulheres… A “hora do diabo” é uma hora que vem de repente, e quando a mulher menos espera… Ao marido é que incumbe andar de relógio em pulso… * 72

A grafia foi mantida como no original. N.A.

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Ler romances é máo symptoma. Uma dona de casa exemplar não precisa ler senão a tabella de preços das feiras livres e, aos domingos, um ou outro almanack com anecdotas familiares… * Se ler é máo, escrever é péssimo. Uma mulher pode escrever, ao seu marido, bilhetes curtos (para poupar o mais possível a sua imaginação e não cansar o cérebro) nas quaes lhe encommende um par de meias, ou um metro de fita de seda… Mais do que isso é ostentar pendores literários, sempre funestos as damas… e aos maridos… * Convém que a mulher esteja sempre occupada em alguma coisa prosaica, a mais prosaica possível. Serzir meias é um excellente exercício feminino, que tem evitado muita desgraça no mundo. Uma mulher que prega botões na roupa do marido está longe de lhe pregar peças de máo gosto… * Suspirar é indício de inquietação, desejos vagos, sonhos indefinidos, que uma dama de boa linhagem não deve nem pode ter. O suspiro é um modo de pensar pelo nariz… * Proibe-á tua mulher “amigas intimas”. A amiga íntima é o traço de união entre a mulher casada e o diabo. * Não leves, também, os teus amigos com frequência, a tua casa. Se esses amigos são imbecis, não te convém a sua amizade; se são intelligentes, a sua amizade não convém a tua mulher. * Usa cada espécie de carícia a uma hora determinada e própria, de maneira que tua mulher saiba quando vae receber um abraço ou um simples beijo no rosto. O casamento é a burocracia do amor e nada melhor para ser um funccionario exemplar do que seguir a risca o horário da repartição… * Evita o telephone em tua casa; para pedir um kilo de gelo á venda mais próxima basta um molecóte a razão de 50$ por mez. É verdade que o molecóte póde trazer e levar cartas de amor mas nunca é tão facil de desligar como um telephone… * O telephone tem abalado mais os alicerces do casamento do que o divorcio. Se o fio de cobre tivesse vergonha, e falasse sozinho, estaria por um fio a paz de milhões de lares, no mundo… * Observa, com habilidade, as relações entre a tua sogra e a tua mulher. Quando uma mãe e uma filha conversam baixinho – o diabo está em vésperas de dar uma festa no inferno… * No moral e no physico, a mãe é, quasi sempre, o retrato da filha ampliado: pela edade e pela feitura. Não ha quem entenda melhor as desgraças de um marido do que o seu sogro… * Uma mulher casada não deve sair só – nem mesmo em caso de dilúvio. A rua é, para uma mulher, o mesmo que um peccado para um christão: a maneira mais segura e mais rápida de ir para o inferno… * 107


A fidelidade é questão de temperamento – como a gordura excessiva, ou a magreza extrema. Para uma mulher que nasce assim, enganar o marido é um facto tão natural como chupar uma bala de limão. Entretanto, é bom não esquecer que ha muita gente magra a força de regime … * Um marido intelligente deve fingir, as vezes, que não é o legitimo dono de sua mulher. Deve conquistal-a como se a tomasse a outro e até, se possivel, raptal-a uma ou duas vezes por anno… * Uma pessôa que toma, em creança, uma indigestão de castanhas nunca mais póde tolerar castanhas, na sua vida… Este aviso é preciso para os maridos que suppõem o amor uma coisa mais bella do que um prato de castanhas… * A sorte de um casamento depende das primeiras 24 horas. Em 24 horas não se faz um automóvel, mas se faz um marido * Próximo de nossa casa, morava uma família de japoneses feirantes, pais de nosso amigo de escola, o Mamoro, que faleceu vítima de um acidente com o caminhão de feira deles. Toda a classe compareceu ao velório e ao enterro, que foi muito comovente e curioso para todos, pois foi distribuído grande quantidade de lanches, doces, bolos, balas e guaraná, que nós, depois de vencido o constrangimento, comemos e bebemos de tudo. Voltaríamos a ficar intrigados quando vimos, antes do fechamento do caixão, seus pais e irmãos colocarem ao lado do corpo, dentro do caixão, coisas que ele gostava como suas canetas, gaita, canivete e outros objetos. Tenho a foto de nossa classe tirada todo final de ano (Fig. 73), contudo nesta que eu tenho, ele já não estava mais conosco.

Figura 73 – Classe do 1º ano da turma de 1948 do Grupo Escolar Álvares de Azevedo. Profa. Dna. Chiquinha e o vice-diretor sr. Pascoal. Arquivo Familia Stanojev Pereira. 108


Uma das nossas aventuras era ir à chácara do sr. Manocchio para aliviar as pobres parreiras de seus pesados cachos de uvas, mesmo enfrentando suas ameaças de tiros de sal. Inocentes aventuras infantis! Um esclarecimento em relação ao nome de meu pai se faz necessário pois, embora todos o conhecessem como Edgard, seu nome de batismo era Astrogildo. Aconteceu o seguinte: quando papai nasceu, meu avô Licinio e minha avó Lucinda escolheram o nome de Edgard. Uma vez na pia batismal, em Mogi das Cruzes, o padre recusou-se de batiza-lo com este nome, pois não é um nome católico romano e sim anglicano. Pego de surpresa e diante da posição irredútivel do Padre, meu avô perguntou qual era o santo do dia, e o Padre respondeu Santo Astrogildo. Assim ficou com o nome de batismo Astrogildo Pereira e, nome de guerra Edgard Pereira. Na época em que chegamos na Vila Santana, a Igreja já lá estava e para mim, embora criança, mas que conhecia várias igrejas em Mogi das Cruzes, ao ver aquela da nossa rua, parecia-me que tratava-se de ruínas de uma antiga igreja. Essa primeira impressão marcou-me muito, era incrível aquela visão. Comentei com meus pais, depois com meus avós e tios e foi minha tia Sierrita que encarregou-se de explicar-me, que estavam construindo-a ainda, mas que um dia seria tão bonita como as que eu conhecia lá em Mogi. Eu dizia duvidar, em Mogi – dizia- elas eram iluminadas com luz elétrica, eram pintadas, com jardins e as ruas não tinham terra, barro, nem buracos. Em 1953 meu pai, meu tio Oidézio e amigos começam a construir nossa casa em terreno próprio (Fig. 44), comprado 9 anos antes. No local havia uma pequena casa edificada, todavia pequena para comportar dois adultos e oito crianças, eu e meus irmãos. Esta casa foi o centro de muitas das festas de nossa grande família, e até a década de 1990 ainda nos reuníamos lá em Junho para festejar os santos populares, com a família aumentada com nossos filhos e sobrinhos, a nova geração. Em 25 de Agosto de 1954 saímos da chácara de 2000 metros quadrados que meu pai alugava (Fig. 46) e nos mudamos para esta casa. Esta data ficou marcada em minha memória, pois foi o dia em que meu pai como funcionário público aproveitou o decreto de feriado, devido ao fato que suicidaram73 o presidente Getúlio Vargas, e fizemos a mudança. Como disse anteriormente, meus avós maternos já moravam em Itaquera desde 1906, em uma casa edificada pelo meu próprio avó, e que ficava na Rua Caio Alegre, atual Rua Miranorte (Fig. 45). Nesta casa havia duas grandes janelas que davam para o passeio, e por onde minha tia Sierrita, que tinha a fama de rezadora e milagreira, ouvia os crentes que pediam à ela orientações e preces. Nesta altura ela estava presa a uma cama, por um problema que a acometeu em seu sistema locomotor.

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O trocadilho está na crença popular de que acoteceu um assassinato, não suicídio. N.A.

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Figura 74 – Srta. Sierra Castro Poyato (Sierrita). 1953. Arquivo Familia Stanojev Pereira. No Morro do Santana, como era conhecida toda a região onde ficava e fica o campo de futebol do Santana Itaquerense Futebol Clube, havia um enorme campo de prados, com uma enorme fauna de veados, codornas, tatús, etc. Hoje no lcal está construído um conjunto habitacional horizontal. Este conjunto era para ser destinado à venda aos funcionários públicos do Estado, mas foi alvo de uma invasão de centenas de sem-tetos, na década de 1990. A polícia militar foi chamada para reintegração de posse, seguida por um batalhão de tratores prontos para deitar ao chão as casas mas, devido ao choro desesperado das mães de família, que se colocaram em frente às suas casas, o governo recuou e ficou por isso mesmo. Antigamente neste campo havia uma fazendinha, com várias árvores frutíferas como caqui, pêssego, goiabas e muitas peras. Possuía uma pequena casa de tijolos rebocada, onde passou a morar desde meados de 1935 a sra. “Nega” Joana, como era chamada, uma senhora, forte, resoluta e decidida no que queria, e que dizia não levar desaforo para casa. Nós sempre a víamos com as outras mulheres lavando roupa nas águas claras do riozinho, quando minha mãe ia as tardezinhas, até o fundo da rua, como se dizia, dar uma volta comigo e com meus irmãos Amaury e Chinito. Ela conversava com elas e com a dna. Joana que fazia muitas perguntas sobre Mogi das Cruzes e dizia para minha mãe que qualquer dia “dava-lhe a louca, pegava o trêm com seus filhos e ia morar lá”. Ela era mãe do Maninho, marido da Lurdinha, também muito antigos na região. Depois da fazendinha, em uma região ainda mais longe do centro da vila, morava a dna. Beatriz, que fazia diariamente um caminho na terra de cerca de 3 km. O trajeto contava ainda em passar por uma pinguela sobre o córrego que cruzava e ainda cruza um afluente do Jacú, que desagua no atual Parque Guarani, depois atravessava a pinguela do riozinho e vinha de manhãzinha com um grande fardo sobre a cabeça, uma “trouxa” com roupas que lavava e passava. Seguia cumprimentando todas as pessoas que por nossa rua 110


e em seu caminho ia encontrando e, na volta, vinha trazendo o que parecia ser o mesmo fardo, com o mesmo passo rápido, sobre a cabeça ereta, de volta cumprimentando à todos. Certa vez, era Junho, mês de balão, e o meu tio Libre e o Ciro, irmão do “Churi” Cinti, estavam sentados em frente a casa de meus avós, na esquina, e viram um grande balão “Santos Dumont” de duas bocas, passando alto por sobre onde seria o campo da Nife. Imediatamente resolveram espera-lo cair no morro do Campo de Santana. Neste meio tempo, a dna. Beatriz vinha vindo com seu referido fardo em direção à sua casa. O tio Libre a interceptou e disse que como estava indo para a mesma direção, pois estava a perseguir o balão, levaria a trouxa para ela e ao passar em frente de sua casa, deixaria o pacote na sua porta. Ela agradeceu, aceitou, colocou o grande embrulho na cabeça do tio Libre, olhou para o céu e, ao ver o balão disse olhando para mim e alisando minha cabeça: - Esse é dos grande heim? Mas tomem cuidado com as pinguelas. Obrigado e vão com Deus. Perguntou ainda se minha avó estava, como eu disse que não, então ela se dirigiu para a janela da tia Sierrita bater um papinho, já que encontrava-se aliviada e poderia chegar um pouco mais tarde. A noite, nós já tínhamos tomado banho para esperar o meu pai e jantar, o Tio Libre chegou com um grande embrulho cheirando fuligem de querosene. Haviam pego o balão e disse para minha mãe que levara as roupas da dna. Beatriz até a casa dela, como havia prometido, e que havia tentado levar no ombro e não dava, nas costas também não dava, era muito largo, só mesmo na cabeça, e disse para a minha mãe que ele e o Ciro não entendiam como ela sem parar, fazia aquela caminhada com tanto peso na cabeça, e para completar disse que não iria mais oferecer-se, não pelo peso, mas pela falta de posição para levar. Minha mãe chamou-lhe a atenção, ele era bem forte e jovem e fizera uma boa ação, não reclamasse. Embora gostasse de ouvir os relatos de meu tio, estava louco para que ele desdobrasse o balão para ver o tamanho, mas como havíamos tomado banho e de pijama, tivemos que ficar longe para que o resto de fumaça não nos “empesteasse” com o cheiro e fuligem. Anos depois, quando o sr. José Coelho comprou a venda da húngara dna Águida, e a dna. Beatriz - que já era sua freguesa - fazia as compras, ele a levava de carroça até sua casa, passando a receber as suas compras em domicílio, e muitas vezes ele com dó vendo-a passar carregada, pegava a trouxa e levava-a até a sua distante casa, mesmo quando não tinha entregas a fazer pelo caminho. Seus filhos, o Lelo, o Zequinha e até eu mesmo chegamos a leva-la de carroça quando já crescidos. Nosso vizinho próximo, o sr. Luigi Pepe, era além de sapateiro, uma espécie de massagista, e sua especialidade eram punhos e tornozelos destroncados que arrumava. Também criava muito boas vacas leiteiras, que vendia o leite, além de criação de cabras e porcos. Meus pais compravam leite dele e do sr. Joaquim, um outro sitiante português que morava próximo e tinha criação de galinhas, porcos, vacas, etc. Os litros eram entregues em casa, como acontecia em Mogi, com a diferença que lá era deixado na janela, junto com o pão, e aqui era colocado no portão de casa. Outro vizinho era o Cabo Abreu, pai de nossos amigos Milton e Mauro “Perereca”, que eram coroinhas da Igreja, da Marlene e Marisa. O Mauro anos mais tarde, com sua incrível semelhança com o artista americano Charles Bronson, virou artista de televisão e cinema, participando de muitos filmes. Um fato curioso e que chamou muito nossa atenção, aconteceu na casa do sr. Otoniel e da dna. Lizete, envolvendo um de seus filhos. Nesta família ocorreram fatos 111


mediúnicos que nós, mesmos jovens, participamos e, com o apoio da tia Sierrita, que estudava as obras de Allan Kardek, foi solucionado, instruindo e dando confiança e fé para a “Petra”, a filha do casal que ainda era uma menina, e que depois chegamos à conclusão que ela era médium de efeito físico, responsável pelos acontecimentos. Depois que eles compraram um terreno em A.E. Carvalho74, mudaram-se com emocionada despedida de todos nós, para a casa que fizeram com o resultado do dinheiro obtido no achado, orientado pelo espírito que havia guardado o dinheiro em uma botija e enterrado em um local indicado por ele. O montante nunca foi revelado mas lembro que eram moedas muito grandes, como antigas patacas do tempo do império ou mais antigas. Outro fato que marcou muito minha já adolescência, aconteceu com o nosso amigo Dito Mineiro. Certa vez indo com a turma assistir um jogo entre Corinthians e Santos de trêm, ele caiu do vagão direto nos trilhos, devido ao excesso de lotação das composições, e as rodas cortaram-lhe o braço. Levado as pressas ao hospital, e já na cama da enfermaria, ele sentia a mão inexistente coçar e eu coçava na altura onde ficava a mão que fora decepada, e ele sentia alívio para o espanto dos outros amigos, o Orlando, Macaco, Celso, Churi e as enfermeiras. Na Rua Francisco Alarico Bérgamo, antiga Rua Monsenhor Seckler, morava uma amiga de minha mãe, a dna. Joana, uma senhora alta, forte e simpática, muito esclarecida e cuja especialidade ou faculdade consistia em arrumar o “bucho virado”, “espinhela caída”, “benzia quebranto”, “bicha assustada”, “mau-olhado” e quando as crianças tinham tosse rebelde ou coqueluche, ela tratava com banha de galinha aquecida, depositada sobre papel de embrulho comum, que ela orientava colocar a noite no peito e costas da criança. Era muito procurada, boa de prosa, servia café, roscas, bolos, etc. Na saída, em um terreiro, havia uma horta com vários tipos de plantas para os chás e beberagens que ela preparava com os “sucos moídos”, que eram recomendados e escritos em papéis de embrulho e de pão da venda para não esquecerem. Disse anteriormente sobre a impressão que a Igreja de Sant´Ana em “ruínas” havia deixado em mim, quando a vi pela primeira vez, acompanhado de minha tia Aurora. Aquelas condições de ruína que a Igreja se encontrava perduraram por muitos anos. Em seu interior, havia a imagem de Jesus que ficava apoiado sobre um pilar largo com a mão direita sobre o coração e a esquerda, levantada com os dedos meio encolhidos e o indicador esticado. Desta mão, o punho havia sido colado pelo meu tio Chiquinho, que era pintor de quadros de tela e de paredes, escultor e decorador. Aconteceu que certo dia foi chamado por minha avó Natividad às pressas, pois havia ocorrido uma tragédia. Depois de muito beberem e totalmente ébrios e já tarde da noite, dois amigos nossos estavam preparando-se para dormirem dentro da igreja, perto da imagem de Jesus, ao lado do quarto da sacristia onde os padres colocavam suas batinas. O irmão de um deles, ao saber do porre do irmão pelos amigos, foi até a Igreja e, empurrando a porta de madeira e guiado pela claridade que entrava por cima, devido a luz da lua, pois ainda não havia teto, foi até onde eles estavam e começou a chama-los para irem para casa pois aquilo – dizia ele - era pecado. Como não queriam atende-lo, e ele temendo que os dois ficassem pior da bebedeira com o passar do tempo, disse que resolveu levar pelo menos o irmão, a força. Contudo, ocorria que ele era mais velho e mais forte que o outro e, quando se viu agarrado pelo irmão que tentava reergue-lo, levantou-se e, mesmo cambaleante, empurrou o irmão xingando-o. Mais uma vez ele tentou agarra-lo e, ao receber outro forte empurrão, viu que o irmão começou a cambalear, indo de costas e, ao tropeçar no amigo que estava esparramado no chão, 74

Bairro do distrito de Itaquera. N.A.

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perdeu o equilíbrio e chocou-se contra o suporte que sustentava a imagem de Jesus, que acabou caindo por sobre eles. Com o susto ao ver o que ocorrera, deixou os dois ébrios no chão e foi levantar Jesus, colocando-o em seu lugar, mas logo percebeu a falta da mão. Procurou-a próximo aos corpos e, mesmo virando-os para os lados, ouvindo xingos e resmungos, não a encontrava. Teve que pegar uma vela e com a caixa de fósforos que ficava ao lado de baixo da imagem de N. S. de Sant´Ana, acendeu-a e acabou descobrindo a mão, que deslizara uns três ou quatro metros de onde caira. Ele preocupado, resolveu deixa-los lá mesmo e levou a mão para casa. Embora já fosse tarde da noite, e com toda a família preocupada com a situação, resolveram pedir ajuda para tirar os dois amigos de carraspana de dentro da Igreja, porque no outro dia, um sábado, logo cedinho, os fiéis já começavam a chegar para a Missa. O pior era que o sino era repicado por um deles, que subia oito metros até a torre por uma escada de caibros de peroba já condenada, devido sua constante exposição à chuva e ao sol. Quando o irmão sóbrio ia saindo do portão de sua casa, deu de cara com meus tios Antônio e Libre que vinham chegando lá da praça. Ele contou aos dois sobre o porre do irmão e do amigo, e pediu para que o auxiliasse a tirar, pelo menos o irmão, de dentro da Igreja, ao que eles concordaram. Chegando na Igreja, pegaram os corpos amolecidos dos dois que dormiam no chão. O tio Antônio sozinho foi levando o mais magro, e o tio Libre junto com o irmão aflito, foram levando o outro, que era muito mais forte e com quase 100 quilos diziam. Quando chegaram na casa deles, que era vizinha à Igreja, contou-lhes o que havia acontecido e, que em conversa com suas irmãs, chegaram a conclusão de que iriam pela manhã, do sábado, aconselharem-se com minha avó Natividad e a tia Sierrita, sobre o que fazer. Ao pedido do tio Antonio para ver a mão de Jesus, lhe entregaram um embrulho, embalado em uma fronha de linho branco. Com muito cuidado e respeito, o tio estudou-a e, inspirado, disse a eles que ficassem despreocupados. Naquele mesmo dia ele havia encontrado na padaria do Gaspar o tio Chiquinho, que dissera-lhe que viria no sábado visitar a tia, a irmã e os pais e, como ele também era escultor, ele a consertaria, tinha certeza, principalmente com um pedido de sua mãe. Com estes arranjos e empenhos de palavra, a família pôde dormir mais sossegada. De fato, no outro dia, quando o vovô e os tios estavam na sala com suas conversas alegres, chegou o tio Chiquinho muito alegre e com sua voz grossa. Mesmo antes que tivesse tempo de ir ver sua irmã Sierrita, a vovó apareceu na porta da sala e chamou-o. Ele a atendeu apressadamente e, enquanto ele a abraçava e a cobria de beijos, ela levou-o para a cozinha dizendo ser urgente o assunto a tratar, e que depois fosse cumprimentar a Sierra. Ele preocupado com as feições severas de vovó pôs.se a segui-la e, quando entraram na cozinha, já estava lá aguardando-o o amigo com suas irmãs, que seguravam o embrulho apoiado em cima da mesa. Eles puseram-se a correr quando ouviram a inconfundível voz do tio, que enquanto descia a rua, cumprimentava à todos os vizinhos, vencendo rapidamente os cerca de 50 metros que separava a sua casa da cada de vovó. O tio estava intrigado com aqueles seis olhos aflitos que o observavam. Ele não os conheciam muito bem, pois morava longe com a tia Deolinda e os filhos pequenos. Então perguntou: “- Que se passa mama”? E ela pediu-lhe que visse com cuidado o que estava embrulhado. Quando ele abriu e viu a mão, confidenciando para nós tempos depois, concluiu que só poderia pertencer a imagem de Jesus pela posição dos dedos. Em poucas palavras 113


ela explicou o que se passara, e queria que a mão fosse colada o mais rapidamente e o mais perfeito possível, para que o severo padre Bibiano não viesse a saber, nem mais ninguem. Tomando as primeiras providências, pediu que arranjassem logo umas bisnagas de cola-tudo para um serviço de emergência e, que depois, ele traria o material adequado para o restauro. O amigo imediatamente tomou emprestado o cavalo do sr. Camargo e foi correndo buscar na praça, no centro de Itaquera. Com o material em mãos o serviço do tio, mesmo no quebra-galho, foi muito bem feito e, dias depois ele voltou para fazer o serviço de restauro, com a pintura igual inclusive, a fim de encobrir o dano. Nossos amigos de infância Milton e o Mauro “Perereca” - que foram educados em uma espécie de colégio de Padres - desempenhavam a função de coroinhas do Padre Eusébio, e nos ensinaram a levantar as caixas de garrafas de “malzebier”, que ficavam em um deposito na igreja, e pegar algumas. Nós as destapávamos com cuidado, tomávamos e depois batíamos as tampinhas que fechavam igual como estavam. Depois colocávamos nos mesmos buracos, no meio das caixas, e a pilha ficava igual. Diziam que não havia perigo, pois o Bernardo quando fosse buscar uma garrafa para o lanche do Padre, se desconfiasse sobre a garrafa vazia, logo pensava que era obra do irmão Tomas. Mas além da cerveja, nós também experimentávamos o vinho do Padre, e realmente concluímos que era muito bom. Eu estava acostumado a tomar um pouco de vinho em minha casa, pois meu avô, tios e pai ofereciam e diziam que um pouquinho fazia bem. Como era sempre vinho tinto, as mulheres e crianças misturavam “gasosa”, o que deivava os homens bravos pois diziam que estavam estragando o vinho. Meu pai ganhava também caixas de vinho e charutos “Swerdieck” dos clientes, e oferecia-os para meu avô, que ficava muito agradecido. As vezes, sob a luz do lampião, que ficava sobre a mesa grande da sala, o meu pai ao lado do meu avô sentados, enquanto iam tomando seu vinho servido em um copo especial ou em uma caneca, puxavam umas baforadas do charuto, enquanto ia ditando para meu pai as cartas que enviava para a família na Espanha. O Manolo e a Aurora Poyato eram as mais frequentes de contato, residentes ainda em Priego de Córdoba e Barcelona e, a minha mãe ficava muito contente e agradecia ao meu pai, dizendo da sua felicidade ao ver os dois tão juntinhos. Ele dizia sempre que gostava e admirava o sogro e, que além disso, era o pai dela e nosso avô. Quando meu avô ia em nossa casa para jantar, era sempre uma festa. Todos banhados e trocados, esperávamos meu pai chegar do trabalho e íamos sentar à mesa. Meu avô sempre dizia levantando as mãos: “Chôncha – era como ele chamava minha mãe - saca-me um pôquito solo”, dizia sempre isso porque ele primeiro jantava em sua casa, pois minha avó, sua esposa, queria ele na mesa junto com ela, com a tia Russa e o tio Libre. Uma coisa curiosa, e que chamava minha atenção, é que o tio Libre tomava a bênção de seu cunhado, meu pai, pois este era seu padrinho. Depois do jantar, meu avô sentava na cadeira de balanço de vime e o meu pai na de palhinha, uma cadeirona larga de braços, e os dois ficavam conversando. O assunto da época era sobre a guerra, Hitler, Mussolini, Franco, navios e submarinos torpedeados e aviões derrubados. Eu ficava extasiado ouvindo-os. Minha mãe achava ruim vendo o meu interesse, dizia que não era assunto para criança ficar ouvindo, mas eles não se incomodavam e diziam para que ela não se preocupasse, afinal eu era um “hombrecito”.

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Algum tempo depois, ele começou a levar-me para o Mercadão da Cantareira75, onde comprava as suas mercadorias para revender em Itaquera. Eu adorava estes passeios porque ele reunia-se com homens de várias nacionalidades, espanhóis, italianos, portugueses e, enquanto tomavam rodadas de vinho, iam comendo grossas fatias de presunto e queijos, que cortavam de uma grande peça de presunto e uma enorme roda de queijo parmesão, gorgonzola e salame. Eu também era bem servido e elogiado por todos, o que me deixava cheio de vento. Mas quando em casa eles falavam sobre a guerra, meu avô sempre expressava sua preocupação com o campo de aviação da Força Aérea de Cumbica, próximo de Itaquera. Todas as noites e durante a noite inteira, os holofotes varriam os céus, e de casa nós víamos os oito fachos de luz, indo para lá e para cá, e vez ou outra cruzando-se. Meu avô dizia que alguns alemães e chinos (japoneses) poderiam resolver, a qualquer hora e em desespero e revolta, levar seus aviões até lá e bombardear a Base Aérea, até mesmo jogar seus aviões sobre o Campo, saltando talvez de pára-quedas e, as munições, combustíveis e bombas do arsenal explodiriam até o bairro de São Miguel. Quando cessava o assunto, e meu pai falava sobre seu trabalho e o quanto estava satisfeito com os novos amigos, o ordenado bom, seus planos futuros, etc, o meu avô o escutava com interesse. Nessas horas minha mãe trazia a jarra de licor feito em casa e servia-os em cálices muito bonitos, vermelho e lapidado. A esta hora eu já não me interessava muito com nada, pois começava a dar-me “perrera” (sono, não a correia de amarrar perros, cachorro). Vovô fazia perguntas ao meu pai e eles ficavam conversando até que ouviam a minha avó chamar ou até que a tia Russa vinha pessoalmente chama-lo. Como a casa de meus pais sempre tinha bastante gente, familiares e amigos, a missão da tia Russa poderia demorar muito, pois cumprimentar todos com abraços e beijos levaria algum tempo. Por isso é que na maioria das vezes nós ouvíamos: “- Francisco, estoy esperandote”. Quando meu avô levantava-se, primeiro despedia-se de minha mãe, que estava grávida esperando meu irmão Chinito. Este apelido foi colocado por meu avô logo que o viu recém-nascido, pois parecia um chino, ou seja, um japonesinho). O apelido encaixouse tão bem que até os dias de hoje ele é mais conhecido por Chinito do que Francisco. Foi uma pena quando vovô sofreu o primeiro derrame, ficou com a mão esquerda “temblona”76 e passou a arrastar a perna esquerda, que foi aos poucos melhorando mas nunca recuperou-se totalmente. Passou a apoiar-se em uma bengala para andar e continuou suas idas ao Mercadão. Quando eu não ia à escola por um motivo qualquer, eu o acompanhava nas compras. Íamos de trem, depois bonde e um trecho a pé até o Local. Como disse, eu adorava o passeio, as pessoas naquela época já transitavam pelas ruas de São Paulo em passo acelerado e, no parque D. Pedro II, haviam várias lagoas naturais, pássaros como sabiás, saracuras, sapos e até rãs e peixinhos. Antes do derrame, nos íamos pela rua do Gasômetro, ou as vezes por um trecho na Rangel Pestana, e voltavamos para a estação do Norte, do Brás (como era chamada a estação Roosevelt) de bonde, carrinho ou charrete, isso devido as compras que ele fazia e carregava em dois grandes cestos, que ele amarrava na bufanda77, e passava sobre o pescoço e ombros, um de cada lado, e caminhava tranquilamente. Dizia não ser pesado por serem legumes, hortaliças, fruta, pimentões, gilós e, várias vezes e o que mais pesava, gelo com sardinhas, pescada e

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Mercado Municipal Paulistano – Ponto turístico e gastronômico da cidade de São Paulo. N.A. Do espanhol temblón, trêmulo. N.A. 77 Do espanhol, cachecol. N.A. 76

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camarões. Para impedir vazamento, a cesta era forrada com papel oleado mas mesmo assim pingava ao derreter. Quando ele sofreu o derrame, a carga era menor e eu estava com ele, carregando uma das cestas, fato que me enchia de orgulho, além de sentir-me útil ao meu avô, meu amigo, meu companheiro e que eu amava. Passamos a não ir e voltar mais a pé, e sim de bonde, chegando sempre na estação na hora do embarque. Na estação encontrávamos meu pai, que era Agente Chefe da Rede Ferroviária Central do Brasil, que de vez em quando nos dava um bilhete para viajarmos na 1ª classe de passageiros. As cestas com as mercadorias iam no vagão das bagagens até Itaquera e, quando era muita coisa, levava-mos até a padaria do tio Gaspar, para depois o sr. Chiquinho carroceiro levar até a casa de vovô, onde eu ia empoleirado na carroça aproveitando o passeio. Chegando em casa, meu avô passava pela janela da tia Sierrita, cumprimentava-a e entrava em casa com as compras pelas portas da sala, que nunca estavam trancadas, apenas com uma cadeira encostada para que o vento não a abrisse e as galinhas e os outros animais entrassem na sala. Nossa família sempre estava reunida, seja em aniversários, nas festas Natalinas, de Páscoa, Juninas ou outras que inventavam. Era sempre uma alegria, sem contar nas guloseimas que mamãe e vovó faziam. Como era uma casa de espanhóis e portugueses, não faltava vinho, cantorias e muita música a noite toda. O tio Raú (Rafael) tocava violão, tio Antonio banjo, tio Chiquinho clarineta e piston, papai cavaquinho e o tio João encarregava-se dos discos e do gramafone. Toda tarde, depois da escola e do jogo de futebol, a turma toda costumava ir à venda do sr. José Coelho para conversar. Também toda a tarde costumava ir até lá o advogado dr. Plínio, que dirigindo-se ao tio Zé - como costumávamos chama-lo - pedia sempre com a mesma frase: “- Senhor José, por favor, sirva-me um conhaque, boa tarde”! O tio Zé respondia o cumprimento e, se já não estivesse atrás do balcão, ia e serviao naqueles copinhos de vidro de fundo grosso. Depois de beber, dizia sempre a mesma frase: “ - Obrigado, anote por favor”, e saia. Uma coisa que notávamos e riamos pra valer é que, várias vezes, quando o tio Zé não estava, somente sua esposa, dna. Júlia, ele vinha até a porta e voltava no mesmo pé, pois a antipatia era recíproca entre eles. Era engraçado quando o dr. Plinio saia, pois o Mosquito que era muito engraçado, um palhaço, remedava-o. Esfregava as mãos e repetia as palavras dele com todos os trejeitos: “ - Senhor José por favor, sirva-me uma pinga, ao invés de conhaque, boa tarde!” E como se tivesse bebido, dizia esfregando as mãos magrinhas: “ - Obrigado, anote por favor, no gelo!”. Pelo modo como falava nós nos “esborrachávamos” de rir, mas o tio Zé dizia: “Cuidado que já, já, ele volta!” Era costume da nossa turma nos reunir na venda para comentarmos sobre os jogos, sobre nossos times e tudo o que ocorria na redondeza. O assunto central era futebol, e principalmente sobre o nosso Santana Itaquerense Futebol Clube, refundado em Fevereiro de 1957 pelo meu pai e o tio Zé como dirigentes, e nós como jogadores e corneteiros. O tio Zé era muito bom, educado, verdadeiro, de coração de ouro. Nossa turma era, depois de sua família, a sua alegria, todos nós o amávamos. Na época em que o tio Zé se estabeleceu em Itaquera, o Padre Bibiano era o pároco responsável pela nossa humilde e relegada Igreja de Santana. Entre as casinhas e a venda havia uma grande porteira de madeira por onde entravam as carroças e até mesmo o carro 116


de bois78, eram sempre parelha de dois e, logicamente, o único lugar possível de se entrar pela rua, pois na outra lateral do terreno tinha um alto barranco ainda hoje existente, e por esta porteira passavam as mercadorias, lenha, carvão, etc. Uma manhã, logo depois de o leiteiro passar, cerca de cinco e meia da manhã, e a carroça da padaria deixar os pães, que eram entregues um pouco depois, o tio Zé havia levantado um pouco a porta da venda e depois abaixou-a como sempre fazia, para tomar seu café sossegado até as seis e meia, quando seu filho, o Lelo, arrumava-se para ir para a escola. A dna. Júlia tinha ido até a venda para pegar mais um litro de leite, aqueles de boca larga e tampinha de alumínio, e voltou exaltada chamando o tio Zé, que com sua calma habitual tomava seu café, comendo seu lanche como sempre gostou de fazer. Entrando ela lhe disse: - Zé, vá ver o que é que está acontecendo lá na frente das portas! Ele - pelo que nos contou depois - não deu muita atenção, e sem um pingo de curiosidade ou preocupação continuou sentado com seu desjejum. - Vá lá José, vá ver! Ele muito sossegado repetiu: - Já vai Júlia, daqui a pouco, ninguém vai estar arrombando a porta a esta hora. Quando a dna. Julia disse que sairia pelo portão para ver, ai é que ele foi levantando-se e dizendo: - Deixa que eu vou lá ver! E saiu pelo portão, dando a volta por fora da casa e foi ver o que estava acontecendo. Voltando rapidamente por dentro de casa, acompanhado por toda família curiosa, aproveitou que a porta da venda já estava destrancada e levantou-a de uma vez, fazendo grande estrondo. Um homem desconhecido dele, que estava bem a frente da porta com uma cavadeira enterrada fundo na terra, quase caiu de susto por cima do buraco, se não fosse sustentado pelos cabos da cavadeira. O tio Zé olhou a equipe de trabalho e incrédulo perguntou: - O que vocês vão fazer heim? - Vamos fincar os mourões para passar seis fiadas de arame farpado. - Será que vocês não estão fazendo os buracos no lado errado? - Não senhor, é este lado mesmo e temos que fazer tudo mais rápido possível, temos uma hora e meia apenas. Nisso aproximou-se um outro que não estava fazendo furo e o tio Zé perguntou se ele estava junto, ele respondeu afirmativo e que ouvira a conversa, e que era aquilo mesmo, iriam cercar, pois haviam sido contratados para isso, teriam que executar o serviço para depois receberem o pagamento. - E quem é que poderia mandar fazer isso, o senhor não está vendo que é um absurdo? Aqui por estas duas portas entram os meus fregueses, pela outra do canto é difícil, barranco e escada, e não é só isso, minha carroça de entrega entra e sai por esta porteira que o senhor esta vendo, a mercadoria que compro entra por ai. O homem olhava para onde o tio Zé apontava, e ia concordando com o que ele dizia.

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Ver Figura 43

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Figura 75 – Em segundo plano os lados e fundos da venda e casa do sr. José Coelho. Em primeiro plano a Familia Cinti, com sr. Churi, em pé a esquerda e sua esposa, dna. Dorcas sentada com seus filhos. Arquivo Familia Cinti.

- Senhor, eu compreendo, mas a ordem severa que recebi é para executar o serviço até no máximo oito horas da manhã, como o senhor pode ver temos muito que fazer. - Bem, então o senhor ajude os rapazes também, e diga-me quem foi que encomendou o serviço. Para mim acho ainda que é um engano! Bem nas minhas portas? Não deve conhecer o local! - Há, isso é que não! Foi o Padre Bibiano quem mandou, e ele disse que o pátio é propriedade da igreja e que vai fazer a festa com quermesse e tudo o mais que tem direito, para arranjar dinheiro com prendas doadas e os jogos de bingo, roleta, leilão. Está com uma folha e cheio de planos. O tio Zé ficou ouvindo bem quieto o homem falando e, enquanto isso, o ocorrido já juntava os espectadores interessados no desenrolar do caso e, nós que íamos seguindo para a escola, demos uma paradinha para observar, naturalmente. - Muito bem, esse serviço vocês podem terminar, podem ir receber e diga para o Bibiano para vir até aqui para falar comigo e façam o favor, não soquem muito os mourões e podem pregar os arames, mas já fiquem sabendo que eu vou tirar toda esta cerca, não tenham dúvidas. Como nós não queríamos perder a aula, pois os alunos e os professores temiam muito a diretora, sra. Claudina, fomos para a escola, com a esperança de, uma vez terminada a aula, chegar em tempo para vermos o encontro. A garotada estava em êxtase, 118


e inflamados pelas palavras do Lelo, filho do tio Zé, que dizia que brigaria também ao lado do pai, nós, é claro, dizia-mos que ajudaríamos também. Mal terminou a minha aula e eu já havia guardado todo o material. Estava aflito para que nossa professora, a dna. Maluy, mandasse que levantássemos para sair. A sala de meu irmão Amaury era ao lado da minha, e a professora dele era a dna. Dalva, irmã de dna. Berta. Elas eram de Mogi das Cruzes e, como tinham que embarcar no trem das professoras, era esse o nome dado para a composição daquela hora, não faziam hora, mesmo com a estação sendo perto. Uma vez dado o sinal, levantamos, fizemos fila, fomos formar no páteo e tivemos ordem de sair em ordem. Quando “seu” Expedito, o servente, abriu o portão, eu me despenquei pela escada e fiz sinal para meu irmão que iria correr para casa, sabia que o Lelo também quando saísse iria querer chegar logo. Cheguei a tempo, pois a cerca ainda estava em pé. Quando o Padre chegou, o tio Zé já tinha cortado os arames da frente das suas grandes portas e estava atendendo os fregueses. O “seu” Augusto Leite passou por nós e entrou na venda, nós também, os xeretas, subimos e, com seu português carregado ele falava devagar. - Ó “seu” José, me falaram o que lhe aprontaram e eu vou aqui ficar até que isso se resolva. Por favor, sirva-me uma garrafa de vinho “Clarete” tinto. Eu vou estar a bebe-lo. Sentou-se e foi logo servido, acompanhando a reação das pessoas. O Lelo chegou e colocou a mala atrás do balcão, seu pai pediu para ele ficar no outro balcão junto com sua mãe, ele fez que não escutou. Mas com a repetição da ordem incisivamente, acatou e, e eu também sai para perto da outra porta. Nesse tempo, ouvimos alguém dizer: - Olha “seu” Zé, ele vem vindo. - Que venha, quero ver só. E o Padre chegou, olhou os arames cortados de um lado e enrolados de outro, balançando a cabeça disse, sem sequer cumprimentar ninguém: - O senhor não devia ter cortado esses arames que dei ordem para colocar. Mande prega-los novamente. Já paguei pelo serviço, ouviu heim. - Eu ouvi muito bem, e não tirei o resto porque fiquei esperando o senhor chegar para ver que é um absurdo e, quem sabe, um engano de lado. A cerca pode ser no outro lado, tome então providencias para que o pessoal retire tudo da minha frente. - O senhor tem que respeitar a mim que represento o Papa e os chefes da minha igreja e, se decidimos colocar uma cerca em nossa propriedade, nós o faremos, quer o senhor queira ou não. Repregue os arames já! Ninguém deve destruir nada que a igreja faz, e Deus abençoa isso, o senhor sabe. - Eu já expliquei para esse seu amigo que comandou o serviço, e pedi para que lhe explicasse também sobre meu comércio. É só o senhor ver o absurdo. - Olhe, o senhor pode achar absurdo, mas o problema não é da igreja, nós vamos precisar de todo o espaço que nos pertence, vamos fazer a festa de Sant´Ana e, portanto, trate de repregar. Não vou perder mais tempo! E virando as costas, começou a andar para ir embora. O tio Zé pegou um cabo de machado que estava junto com outros para venda, e foi batendo nos arames que soltavam-se com os grampos e nós todos olhava-mos a fúria do tio Zé. O Padre que era de fato valentão, voltou e disse gritando: - Hei, pare com isso, o senhor vai se arrepender, eu disse para arrumar a cerca, não quebrar. Ouvindo isso, o tio Zé deu uma olhadinha para ele e pegou no mourão, chacoalhouo com força, agarrou-o com os dois braços bem abaixo e foi levantando como o Hércules 119


ou Sansão, arrancou-o e o atirou para o lado, que como era em declive veio rolando e quase pegou o pé do Padre que saiu de lado. A platéia exultou e a expectativa era geral. - Isso é um desaforo, o que o senhor está fazendo. Pare já e conserte tudo, deixe de ser abusado e estúpido. Conserte já, imediatamente, senão… E foi aproximando-se. O tio Zé que arrancara o outro mourão, largou-o no chão e, com os olhos fuzilando disse alto: - Ora, abusado e estúpido, eu? - Isso mesmo que eu disse. - Pois abusado e estúpido é você, seu padre metido a besta. E senão o que? Pois fique sabendo, e todos vocês estão escutando, não vou querer nenhum fio nem mourão aqui em frente. Mande tirar tudo e, se você vier mais uma vez aqui em frente me encher a paciência, eu parto essa cabeça de melão, se duvida, dê mais um passo. Dizia isso balançando o cabo do machado no ar como um reco-reco. Quando ele ouviu as pessoas rindo e gritando: “É isso ai “seu” Coelho, muito bem, viva!”, o Padre foi correndo, correndo mesmo, subiu os degraus e entrou na igreja. O tio Zé ficou esperando e olhando para a porta. A dna. Júlia chamava ele para que entrasse, pois ela disse que chegou a pensar que ele tinha ido buscar uma arma, pois fama de valente ele tinha. Era um padre curioso. Nas procissões, quando ele indo na frente e alguém não tirava o chapéu, muito usado na época, ele não vacilava, aproximava-se e tirava a tapa ou até com um chute, levantando a perna e o pé até a cabeça do espantado e envergonhado infeliz. Passou o tempo, o pessoal foi dispersando e o tio Zé continuou sentado em um caixote perto do sr. Augusto Leite, que disse com sua fala mansa: - José, estou aqui pensando que ele mandou algum cupinxa chamar a polícia e está lá dentro só esperando chegar. - Deixa que venha, eu sei que tenho meus direitos. - É verdade, você tem, mas se vierem você diz que as terras daí uns 4 ou 5 metros na frente fazem parte da tua propriedade. Está na planta e no imposto. Você acha que ele vai mandar alguém medir? A dna. Júlia concordou, mas disse que só ia sossegar quando visse ele ir embora. Enquanto isso o sr. Augusto acabava de tomar o vinho e começava a acender um dos seus inseparáveis charutos, um daqueles que uma vez, lá mesmo na porta da venda, ele disse qualquer coisa dura para a filha e, quando ele colocou o charuto na boca, ela sentou-lhe uma forte bofetada na boca, e ele quase engoliu o charuto aceso. Então, quando ele estava acendendo um charuto e oferecendo outro ao amigo, o Padre abriu as portas e descendo os degraus da igreja foi embora andando, acompanhado de seus auxiliares. A quermesse foi então montada com suas barracas de argola, coelhinho, tiro ao alvo, paú de sebo e bingo. Como não havia luz elétrica, a iluminação era a base dos lampiões. Neste ano ocorreu uma coisa inesquecível, o que mais sucesso fez, e depois era esperado com entusiamo por todos, todos os anos que se seguiram. O Cinema ao céu aberto. O cinema da região era do sr. Evaristo Cepeda, e tenho até hoje um folheto de propaganda dos filmes79. Funcionava com enormes geradores onde por meio de postes, iluminava a área frente ao cinema e toda a praça em torno.

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A Figura 76 é uma imagem do folheto original.

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Contudo, uma vez por ano, o pessoal podia assistir os filmes e desenhos animados gratuitamente durante a quermesse de Sant´Ana. Isto ocorria pois meu tio João Palermo, como funcionário da cervejaria Antártica, levava a equipe de propaganda por todo o estado de São Paulo, capital e interior, e trouxe para nossa Vila Santana uma enorme tela que fixaram em frente a Igreja e, com os grandes geradores iluminaram todo o local. Era tocada música e distribuíram guaraná e soda para todo mundo. Nosso tio era um sucesso e então, começava a sessão com desenhos da Betty Boop e outros, seguido da dupla “O Gordo e o Magro” e depois o “Carlitos” de Charles Chaplin, inesquecível! Depois da apresentação, a mesma equipe recolhia tudo, rápida e organizadamente.

Figura 76 – Folheto de propaganda do Cine Itaquera. 1949. Arquivo Familia Stanojev Pereira. Depois do cinema, o tio Palermo e a família ficavam na casa de vovó Natividad, sua sogra, junto com a tia Trinidad, e os filhos Flávio e o Joãozinho. Ele tinha um automóvel Chevrolet e trazia um Gramofone, aparelho de toca discos, que era ligado com baterias, e tocava as músicas do Vicente Celestino, Chico Alves, Gregório Barros, Gardel, artistas muito apreciados por todos, além de Noel Rosa, Gastão Formente, e muitos outros, dia e noite a casa da vovó e vovô era uma festa, também havia a parte humorística com discos de Alvarenga e Ranchinho. 121


Bem, vimos então que o Padre e seus companheiros haviam ido embora, o tio Zé e o seu Augusto puxaram os caixotes para dentro, alguns voluntários tiraram os arames e os enrolaram e, os mourões como não tinham sido bem socados, foram fáceis de serem retirados e sumiram por encanto, menos os fios, que os assistentes do Padre, o Tomaz e o Bernardo, levaram para suas casas para guardar, se caso o Padre pedisse. Além do Padre Bibiano, as vezes vinha celebrar a missa o Padre Eustáquio, considerado milagreiro e, nestes dias a igreja enchia de gente, todas carregando garrafas com água para serem abençoadas e, depois, ele seguia para Poá. Depois do padre Euzébio, por volta de 1957, a Igreja começou a receber melhores cuidados, mas vagarosamente. Foi feito o telhado, obra do sr. Benjamim Ferreira, carpinteiro de mão cheia. O Rubens ajudava seu pai na obra, colocando as vigas e, juntamente com o sr Fortunato, pai do Guilherme e do Tô Marsura, formava a equipe de marceneiros que fizeram o primeiro telhado da Igreja. O centro de Itaquera era muito desenvolvido. Na antiga Rua 25 de Março, atual Rua Padre Viegas de Menezes, havia as casas do sr. Fortunato, a venda de meu tio Zico e tia Aurora, a casa do velho Nolla, pai do Nolinha, que tinha um conjunto musical e tocava no cinema antes dos filmes e nos intervalos. Também era onde morava a minha professora dna. Aideê, seu esposo que era aviador, e seu filho Ademar Dutra, meu colega de classe. Nesta rua também morava a espanhola Dueña Milagro, comadre da minha avó. E na rua chamada “da Delegacia”, hoje Rua Lagoa Salgada, havia o consultório do dr. Loverço. Uma das atividades recreativas de Itaquera era o cinema dos irmãos Cepeda, que ficava na antiga Rua da Estação, atual Rua dr. Aureliano Barreiros, o querido boticário. Um fato curioso envolvendo o dr. Barreiros é que, ao que parece, sua esposa tinha catalepsia e, sendo dada como morta foi devidamente sepultada. Acontece que anos depois, quando foram fazer a exumação de seu cadáver, viram que o corpo estava virado de bruços e o forro do rico caixão estava todo arranhado. A cancela das linhas do trêm, mencionada anteriormente, protegia os três pares de trilhos, os dois paralelos (Brás-Mogi) e um outro par que passava do outro lado da plataforma, destinado ao tráfego dos trens de carga somente, raras vezes por qualquer problema ou manutenção nos outros trilhos, o guarda chaves, “seu” Pedro, desviava os trens com uma alavanca manual. Foi nos trilhos dos trêns de carga que o sr. Amaury Fonseca, que era proprietário de todo o terreno onde está o prédio da Companhia Nife do Brasil, espírita, escritor, amigo dos meus avós e do meu pai, foi atropelado e estraçalhado ao atravessar a porteira que tocava um sino martelado que era ouvido até nossas casas, e como não tinham tantas casas, quando eles vinham descendo da Parada 15, que não tinha estação, nós ouvia-mos os trêns antes de apitarem, logo que saiam da parada. Neste dia minha avó ia fazer um parto, e vendo o ocorrido não teve dúvidas, foi fazendo suas costumeiras preces e no lençol que ia levando para o parto, foi colocando os pedaços do cadáver, pernas, braços, etc, era um pranto geral e reza, a população era pequena mas os curiosos sempre haviam. Era desolador a visão daquele importante centro comercial de Itaquera. Era só atravessar a bendita porteira que já deparávamos com as águas empossadas nas valetas com lodo putrefacto, desde a sorveteria do sr. Germano, até a padaria do sr. Gaspar, em direção ao rio Verde, que já neste tempo quando transbordava nas fortes chuvas, inundava toda a rua 25 de Março e, do lado do cinema ocorria a mesma coisa, com esgoto a céu aberto. Parecia-nos comum essa situação observada nos centros das vilas por todos os subúrbios sem asfalto, calçadas e redes de esgoto. Para tudo dependia-se da Prefeitura de 122


São Paulo, bem distante destes povos, só lembrado nas épocas de eleições como hoje mesmo ocorre e ocorrerá por muito tempo ainda. Por falar em política, o meu pai sempre foi procurado para dar os seus pareceres aos amigos, cunhados, parentes, enfim. Certa vez, o sr. Antonio de Melo Paiva que era amigo dele, resolveu candidatar-se a um cargo como vereador, e pediu que meu pai desse-lhe uma força. Convidado pelo meu pai, veio em nossa casa onde almoçou e expôs suas ideias. Meu pai ouviu-o e depois acompanhou-o até seu comité, acompanhados por mim e meu irmão Amaury. Na volta, trouxemos umas faixas e panfletos, “para o desencargo de consciência” e “ajudar o amigo e a região, no caso de ele ser eleito, cumprir o prometido”, dizia papai. A faixa foi posta em frente a nossa casa e de meu avô, por onde passavam cerca de uma dúzia de pessoas por dia e sempre as mesmas. Os panfletos e santinhos, que meu pai levou com ele para o trabalho, foram distribuídos aos seus colegas de serviço. Ele era agente escriturário, como um dos chefes da estação de cargas de “Engenheiro São Paulo”, onde trabalhava nos grandes depósitos, até hoje existentes, na Rua Bresser com a Rua Alcântara Machado (Radial Leste). Foi meu pai um dos criadores do “Rodo Trem”, uma maneira de, nos vagões com destino ao Rio de Janeiro e outras localidades, prender com correntes e calços caminhões carregados que, ao invés de transitarem pelas rodovias Dutra, etc, iam de trem economizando no frete. Quando encostavam os vagões para serem carregados, um exército de trabalhadores já estavam em posição, aguardando a convocação de meu pai que, com folhas sobre uma prancheta, anotava os nomes dos que eram escolhidos para transportar as sacarias empilhadas nos armazéns para dentro dos vagões. Todos os armazéns tinham portas para o lado da rua, onde recebiam as cargas e, outra do lado do pátio, fazendo ligação com a rede ferroviária. Esses armazéns só são separados por suas grandes portas como pode ser visto ainda, mas é uma longa construção com o piso a uma altura de cerca de 1,50m do solo e cerca de 70m de comprimento, vários vagões encostavam para receberem suas cargas, que algumas precisavam de cuidados especiais. Os homens, em grupos de 30 a 40 indivíduos, vestiam quase todos calções rasgados e sujos pelo trabalho que executavam. Ganhavam por produção e apresentavam-se como voluntários, preenchiam as fichas e voltavam quando eram contactados e, no dia do trabalho, eles eram entrevistados e avaliados pelos chefes de equipe, que eram sempre os que se destacavam pelas lideranças que serviam às ordens e pedidos de meu pai. Estes escolhidos eram então apreciados em suas explicações e conversas e, por um dia, no mínimo, de trabalho árduo, eles trabalhavam como carregadores, transportando a carga sobre a cabeça até o vagão, onde passavam correndo por sobre uma tábua e voltavam por outra, não paravam enquanto não terminassem o carregamento do vagão. O novo elemento saindo-se bem e, se tivesse vaga, o que sempre havia, voltava nos outros dias. Eram escolhidos e classificados pelo meu pai, que segundo as observações dos encarregados de equipes, sugeriam a escolha deste ou daquele para uma carga específica. Uma vez contratados para o serviço, assinalavam ou rabiscavam em frente a seus nomes, como assinatura de ponto, para assegurarem o recebimento das jornadas no fim do mês. Todos pareciam gostar muito de meu pai e, tinham-no como conselheiro onde depois do expediente não era raro irem conversar com ele sobre assuntos particulares em seu escritório. Meu pai almoçava todo dia no restaurante dos ferroviários “Major” e eu adorava comer lá, podia ser repetido, em uma travessa tipo do “saps” ou “quartel” que é toda 123


cheia de repartições e vinha com feijão, arroz, picadinho ou outras misturas, salada e sobremesa como um doce ou fruta e refresco. Também acompanhava meus irmãos mais novos, Amaury e Adel, ao dentista da escola, que era no 12º andar do Cine Marrocos, centro de São Paulo. Íamos de trem até Roosevelt e depois de bonde até o dentista. Na volta, de vez em quando, íamos até o trabalho de meu pai, mas ele não gostava que levasse a Adel, dizia não ser apropriado. Bem, voltemos a incursão política, o candidato eleito não voltou, mas o que gostaria de falar é que meu pai sempre foi Janista80, mas que conheceu o dr. Adhemar Pereira de Barros, célebre por sua frase “Fé em Deus e pé na tábua”, que um dia veio com a notícia de que ele queria vir fazer um comício em Itaquera, cujo centro era aquela imundice descrita acima. As bases discutiram qual seria o melhor lugar para erguer um bom palanque de madeira reforçada, pois ele era grande e gordo. Chegaram a conclusão que deveria ser em frente à padaria do tio Gaspar. Seria recebido horas antes pelo sr. Salvador Novelli, que organizaria toda a recepção e, o tio Gaspar e a tia Macília, que era ótima cozinheira, serviria um almoço e, na hora do seu pronunciamento era só sair lá de dentro e subir os degraus para ser saudado e discursar aos possíveis eleitores. Era um dia de ponto facultativo, feriado. Papai foi assinar o ponto e voltou cedo, sendo conduzido desde a estação até a padaria onde foi cumprimentar o visitante, velho conhecido desde Jacareí, Guararema, Mogi e o “puxa a cadeira”, enquanto o Adhemar comia e bebia o bom vinho do tio Gaspar, ia conversando recordando o passado, pelo Vale do Paraíba. Enquanto isso a tia continuava trazendo a comida que não acabava mais, e o ilustre candidato comia e bebia satisfeito com a boa recepção parava somente para ir ao banheiro, voltando em seguida com o mesmo apetite, conforme papai nos relatou, mais tarde. Um alto-falante e som providenciado pelo Evaristo, do cinema, gritava e convidava o povo para o comício, que foi muito divulgado antes, e a medida que os trens da tarde iam despejando seus poucos passageiros que tiveram que trabalhar, bem como os correligionários de outros bairros como São Miguel, Arthur Alvim, Patriarca, e Parada Quinze. Nesta última, estivemos presentes na inauguração, onde aconteceu no feriado de 15 de Novembro, e teve a apresentação de bandas, queima de fogos, sobrevôo de aviões da esquadrilha e salto de paraquedistas. O tempo foi passando e a concentração do povo aumentando para ouvir o discurso, onde ao som das conversas eram misturados os estrondos dos rojões, até que chegou a hora aguardada. No palanque o mestre de cerimônia, mesmo com a potência dos alto falantes em vários pontos acima, gritava muito, até que foram avisar que era a hora dele ir proferir seu comício. Ao levantar seu corpanzil da cadeira e tomar o restinho do copo, agradeceu por tudo e disse que iria até o banheiro. Comentando o caso, meu pai dizia que previu que haveria contratempo, pois seus capatazes acompanharam-no até o banheiro e, quando voltaram ele cambaleava. Mas era sempre amparado por sua equipe. Assim subiu os degraus e se posicionou. Neste momento um foguetório enfumaçou a praça e ele com os braços erguidos para cima como um lutador de boxe vitorioso nada dizia. Somente ouviase a falação do animador, do mestre de cerimônias, pois o candidato não estava em condições de falar, contudo ele só dizia, assim mesmo fora do microfone, que estava 80

Partidário de Jânio da Silva Quadros, político que chegou a presidente da república mas que renunciou. N.A.

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empunhado pelo valente, inspirado e fervoroso adepto: “Obrigado, obrigado meus correligionários”, com sua conhecida voz. Dizem que a situação política que Itaquera passa agora, ou seja, de abandono e ausência de uma representação séria e duradoura, foi devido à uma maldição dos deuses da política, pois embriagamos o primeiro candidato que pisou em terras itaquerenses. Neste meio tempo, eram convidadas para falar as lideranças políticas presentes, que permaneciam sentados na tribuna do palanque, sobre suas regiões e necessidades que esperavam dele, quando eleito. Ele sentou-se na cadeira da mesa e o Demá Gaspar subiu até o palanque para levar uma jarra com café amargo e um potinho de açúcar, que o tio Gaspar e a tia Macília mandaram, e ele com as mãos trêmulas segurando, tomou de uma vez. Ouvia os dizeres das lideranças e aplaudia junto com o povo. Nós, que estávamos próximos de meu pai ouvíamos ele dizer: “- Ele não está bem, heim?” Um pouco depois, ele pôs o queixo na mão direita, cujo braço estava apoiado na mesa, como nós estávamos muito próximo dele, percebia-mos que ele fechava seus olhos, que já eram naturalmente quase fechados e, a cabeça começava a pender para baixo, enquanto falava o terceiro mestre de cerimônias, ele debruçou a cabeça sobre o braço e não mais levantou. A turma de cabos eleitorais começou a trabalhar. Agitou-o com leves cutucões e nada, pequenas sacudidelas e chacoalhões e nada. O animador falando sem parar, elogiando tudo e todos, da certeza do êxito nas eleições, tudo para desviar a atenção do povo sobre o estado do candidato, mas a sua oratória inflamada já não estava adiantando, e os outros quatro ou cinco que deveriam falar desistiram, aguardava-se o milagre da recuperação. Por fim, disfarçando a manobra conseguiram faze-lo levantar-se e, ele que estava acostumado aos palanques, mas não a acolhida com vinho português e boa comida, farta em seus assados, que convidavam a mais vinho entre a prosa alegre, buscava em um esforço de força e energia, características dele, as melhores palavras para dirigir ao atento público, com o microfone seguro pelo seu companheiro, que tomava, vez ou outra, um gole de conhaque para a voz. Com as mãos apoiadas nos ombros dos orgulhosos amigos, e todos aguardando em silêncio seu pronunciamento, encheu os pulmões de ar algumas vezes e soltava, deveria ser alguma das técnicas de oratória, pensava o povo ansioso, que comentavam entre sí e eu ouvia, mas quando saiu sua estrondosa voz ante o microfone, estava rouca e enrolada, ele disse aos “trancos e barrancos”: “- Obrigado meu povo, votem em mim. Fé em Deus e pé na tábua”. E mais algumas palavras inaudíveis e ininteligiveis, o grupo já avisado irromperam em “Viva o dr. Adhemar”, “já ganhou” e, ao som dos fogos e em meio a fumaça, ele amparado desceu as escadas, colocaram-no no automóvel “buick” preto e lá se foi o ilustre e competente, muito amado por todos os paulistas, juntamente com dna. Leonor Mendes de Barros, grande batalhadora pelas causas femininas, como a maternidade gratuita e o Hospital das Clínicas, o HC de São Paulo, que atende todo o Brasil. Um outro “causo”, aconteceu naquele charco empossado, dito anteriormente, em frente a sorveteria do sr. Germano. Uma noite, enquanto esperavam a abertura das portas do cinema para o inicio da sessão, sempre aberta meia hora depois da bilheteria, os espectadores iam formando filas para entrar. Entre a multidão que aguardava, estava um grupo menos afoito que tomava sorvete, o tio Libre e sua turma da Vila Santana, o Churi, o Ciro, Orlando, Macaco, Dito Mineiro e outros. Enquanto aguardavam, viram vir em direção a eles um vulto branco, lembrem-se que nesta época ainda não havia luz elétrica, só dos lampiões de querosene e geradores 125


do comércio e, quando a lua estava livre das nuvens e em seus quartos mais claros, a praça era mais iluminada porém todos estavam acostumados a penumbra. Nestes níveis de escuridão, a luz de uma pequena vela ou lampião, feito com uma rodela de cortiça e uma chapinha com furinho, conhecida como lamparinas de “Santa Luzia”, fazia milagres. Estas lamparinas vinham em uma florzinha de oito lados de papelão pardo, com um furinho no meio e um paviozinho de cerca de 1 centímetro apenas e era coberto com cera cor-de-rosa. A pessoa pegava uma xícara com água e um pouco de azeite e colocava lá dentro a cortiça com o suporte do pavio boiando, acendiase e tinha uma luzinha. Todos procuravam adivinhar quem seria, porque o corpo não era do sr. Hugo que sempre trajava-se com terno branco e chapéu panamá, ou bege claro, era alto e magro com o rosto encoberto pelo chapéu. Quando chegou perto, viram que era um amigo deles, e perguntaram se ele ia a alguma festa ou tirar fotografias, talvez dançar tango na cidade, pois era sábado, e ele disse que ia até a Vila Matilde, no cinema São Sebastião para namorar. Questionado sobre a possibilidade de que o pessoal da Vila Matilde que, ao verem ele branquinho daquele jeito, não lhe desse uns rodos e o sujasse todo, respondeu confiante: - Eu não tenho medo de rodo, dou-lhes um golpe de capoeira. Em seguida o tio Libre disse: - Quero ver então, pula desta! E com grande agilidade, colocou a mão direita no chão e virou o corpo, dando-lhe uma espetacular rasteira com a perna. Com o golpe, teve as duas pernas levantadas para o ar e da mesma maneira caiu, certinho na valeta. Devido ao choque, ficou ali como petrificado por alguns segundos, sob o olhar incrédulo de todos que ficaram igualmente extáticos, sem acreditar no que haviam visto. Quando por fim, apoiando as mãos no chão e erguendo-se, ajoelhou-se e levantouse de dentro da valeta, O terno branco estava imundo e todos, até o tio Libre, ficaram mudos e sentiam muita dó. Quando ele saiu de dentro da valeta, um dos sapatos ficou preso na lama, e o tio Libre foi pedir o ferro de levantar a porta da sorveteria ao sr. Germano emprestado e, em um instante, conseguiu pescar o sapato. Disse o tio meio sem jeito: - Você heim? Sendo bom de capoeira como disse, por que não pulou? Viu, não precisou nem chegar na Vila Matilde para sujar-se. O pobre rapaz pegou o sapato que o tio lhe estendia, e disse limpando a boca com uma folha de papel que lhe deram: - É, a culpa foi minha! Devia ter passado pelo outro lado da rua. - Você queria se exibir que estava de traje chique, nos trinques, a culpa não foi nossa, eu nem pensei no que ia fazer, foi de sopetão. Acontece que o tio Libre era um esportista e treinava boxe, chegando a ser pugilista do Corinthians e nosso amigo, que morava em uma das casas próximas a saída da serraria do sr. Paulo Faisano, bem atrás do cinema (hoje Casas Pernambucanas), na Av. Pires do Rio, foi com o sapato e o chapéu nas mãos milagrosamente limpos, saindo cabisbaixo e sumiu na esquina debaixo dos olhares de todos que ficaram a lamentar a infeliz atitude do amigo que estava arrependido. A dna. Lina, vizinha da minha avó, era uma negra de corpo franzino e era casada com o “Catalão”, que muito tempo depois de morto, nós o vimos chutando com o pé um colchão que a dna. Lina pusera fogo. Quando eu e primas fomos chama-la, dizendo o que 126


vimos, ela correu para a fogueira e tentou apagar o fogo com uma vara, e puxava aflita pedaços do colchão. Depois ela comentou com a tia Sierrita que por certo era mesmo o espírito do marido, que acorrera salvar algum dinheiro ou jóia que escondera no colchão, contudo jóia não era pois procurou como quem escolhe feijão na mesa e nada achou. Após este fato, ela costumava levar-me no Centro do “seu” Nelo, junto com a tia Olésia. O marido dela fazia e vendia umas bolinhas de papel cheias de serragem e muito bem amarradas com cordonê em gomos, como uma mixirica pequena descascada. Depois amarrava um elástico fino e muito resistente, para brincar como iô-iô ou no que a imaginação fértil das crianças sugerisse. Também vendia bexigas de borracha que eram cheias de gás nos parques, quermesses, etc e, quando ele morreu, ela continuou por um tempo a criar os coelhos que igualmente o sr. Manoel, nosso vizinho, criava para vender, vivos ou limpos. O comércio ambulante, ao exemplo dos dias de hoje, era muito ativo em nossa vila. Vinham sem falhar em dias específicos da semana e, um deles era o “homem da cornetinha”, um senhor que tinha a cara, com bigodinho e tudo, do “Amigo da Onça”, charge de Péricles, que era publicada na revista “O Cruzeiro”. Ele vinha com um cesto de taquara trançada, como a do meu avô e, igualmente forrada, com pedaços de carne de porco ou boi, miúdos como fígado, bucho, etc, e com gelo por cima, minha mãe quase sempre comprava. Ele pesava o produto com uma balança de mão, como a de meu avô (Figura 77). Meu avô também era comerciante ambulante e, duas ou três vezes por semana vendia sardinha e outros tipos de peixe, fato que originou sua alcunha em Itaquera como “Chico Peixeiro”. Ele trazia os peixes do mercado da cantareira para ele revender e de encomenda para o tio Gaspar. Também trazia legumes, que a tia Macilia usava para fazer as refeições que serviam aos fregueses da padaria. Quando passava-mos em direção à estação, ele entrava na padaria e o tio Gaspar lhe dava um papel com o pedido. Quando chegava com os peixes, ele deixava a encomenda e o restante com o tio Gaspar, que colocava pedras de gelo que ele tinha em sua padaria e assim, vovô conservava os peixes frescos até acabar com o estoque. Um ajudando o outro, eu gostava deste modo fraterno que era comum em nossa Vila. Havia também o “batateirinho”, que vinha antes com carroça e depois evoluiu para um caminhãozinho. Ele vendia batatas e outros legumes como abóboras, tomates, melância, ovos, xuxú, pimentão, cebola e alho. Muitos destes produtos minha mãe não comprava, pois tínhamos em nossa horta e galinheiro, assim como um pomar com muitas frutas como peras e marmelos (que chamava-mos de pêra do inverno) e, graças a grande produção, mamãe distribuía entre os vizinhos e parentes. Havia ainda os porcos e cabritas que criávamos e eles também comiam as frutas que caiam, e eu gostava de ver, quando mastigavam, o sumo que escorria pelas bocas deles. Também haviam 4 pés de laranja comum e 2 pés de uma variedade que os gomos e o sumo era branco, muito saborosas. Além de dois pés de lima, 2 de mixirica de casca fina e 2 pés de mixirica cravo, parecida com a ponkan.

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Figura 77 - Balança de peixeiro, utilizado ainda nos dias de hoje em feiras livres e por vendedores ambulantes. Todo este pomar de frutas eram “fanáticos”, ficavam carregados. Ainda haviam 3 pés de ameixa enormes, que nunca ví até hoje de tão grande porte, 1 pé de caqui “coração de boi, 2 pés do caqui chamado “manteiga” e 1 pé da variedade “chocolate”. Quando era época, todos os pés carregavam de frutos, e isto era devido a terra em Vila Santana ser boa para cultivo ainda hoje, haja visto que o quintal de nossa casa tem plantado abacate, pitanga, cereja e amora, além de outras árvores e plantas diversas. Também tínhamos criação de cabras, a boneca, uma holandeza com uma teta grande e outra menor, que davam muito leite e eram mochas 81, com orelhinhas pequenas como se fossem cortadas. Outra era a catita, uma cabrita comum, mas com chifrinhos afiados, dava pouco leite e sempre caprichava para derrubar o caldeirão e entornar o balde, derramando o leite. Em nosso galinheiro, que era presente em quase todas as casa antigamente, criávamos muitas galinhas com seus pintinhos e patos e marrecos. Pela tarde soltávamos todos, que conviviam bem, era muito bonito ver as patas e marrecas irem com suas ninhadas, um atrás do outro em fila, do galinheiro até o riacho que passava no fundo do quintal, e na margem vizinha havia o bambuzal do Jurandir, com dois enormes coqueiros, e muitos coquinhos, que quando caiam de maduro, os patos e marrecos faziam a festa. Neste riacho também tinha peixes que vez ou outra pescávamos. Também havia o “seu” Carlitos, um libanez chamado de turco e, com uma grande trouxa pendurada no ombro, vendia tecidos que eram muito bons, segundo minha mãe, alguns mais caros, outros mais inferiores para a maioria das freguesas que eram mais humildes, ou para uso em casa, de confecão mais simples. Ele carregava amostras tais como roupas de cama, toalhas, cortinas, cobertores (lã ou flanela) e a fregueza fazia 81

Diz-se mocha daquele bovino ou caprino sem chifre. N.A.

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encomenda das peças que queria ou comprava as que trazia na trouxa. Ele anotava em uma caderneta e outro dia qualquer da mesma semana só vinha entregando. Certo dia ele trouxe um convite para meu pai do casamento de seu filho, e foi aí que soubemos que ele tinha uma loja de tecidos no bairro da Quarta Parada, na região do Brás. Ficamos admirados pois, apesar de suas posses, era humilde e trabalhador, carregando suas mercadorias em uma trouxa pesada, para atender seus fregueses distantes. Um outro ambulante era o amolador de facas, tesouras, etc, que se anunciava com seu assobiador característico, como gaita, inconfundível. O soldador, um homem baixo, magrinho, com paletó e chapéu e carregava uma espécie de fogareiro e um bornau de couro, que continha os instrumentos de solda e uma espécie de frigideira que ia batendo. Ele consertava as panelas e fazia cabos para as canecas ou latas vazias. O espanhol sr. Romero, vendia língua-de-sogra e espanador que, para nossas bandas, não tinha muita saída pois sem trânsito na rua, não tinha tanto pó. O vendedor de bijús, alegria da garotada e, outro espanhol que vendia amendoim, biscoitos de Jacareí salgados e, rolos de torresmo, além do bananeiro, que morava no fim da nossa rua e tinha uma plantação de bananas deliciosas.

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Família Cursino Monteiro, por Evanira Cursino Era junho de 1947, chegava na Vila Santana (atual Vila Taquari) o casal Elpídio e Eulália e seus 3 filhos Nelson com 7 anos completos, Glória (Maria da Glória) com 5 anos e Evanira com 1 ano e meio, vindos do Brás. Elpídio era originário do Vale do Paraíba (Jambeiro), órfão aos 8 anos, veio para a capital para “ser criado” (era como a elite da época arrumava empregados mais baratos) por um casal, ele engenheiro ela professora, que moravam no bairro do Belém. Aí meu pai trabalhou e, aprendeu muita coisa, etiqueta então... Com 17 anos foi para o Exército, depois entrou na Força Pública (como se chamava a atual Polícia Militar), lutou na Revolução Constitucionalista de 1932 e como fé de ofício tinha uma bala na perna que o acompanhou até seu desencarne. Encontrou no Brás, onde já morava numa pensão, a jovem Eulália, que trabalhava como tecelã em uma fábrica. Eulália era filha de pai espanhol e mãe portuguesa, filha mais velha, começou a trabalhar aos 11 anos, abandonando o Grupo Escolar no 2º ano. Foi a leitora mais voraz que vi na minha vida. Namoraram, casaram-se, morando no Brás. Por motivos financeiros vieram para a Penha e eis que chegam em Itaquera. Ele já Sargento do Corpo de Bombeiros, trabalhando 24 x 24 horas (dia sim, dia não) foram morar num descampado (hoje Rua Henrique de Faria), sem vizinhos, onde não havia nem ruas. Itaquera não tinha luz elétrica e evidentemente nem água. Para que as crianças fossem para a escola, o Sargento/Sub-tenente fazia “picadas” no meio do mato para que a mãe os visse, uma vez que com criança pequena não podia acompanhá-los. Ela, vinda de todo conforto, tinha que se virar improvisando e adaptando tudo e, ficando sozinha noite sim noite não. Mamãe contava que teve noites que acordava com barulho embaixo da janela, e eram vacas se alimentando, ela corria atrás delas. Ela para atender o cotidiano, aprendeu a aplicar injeção e benzer, por que não havia quem os fizesse perto. Papai contava que o trem das 5h (Maria Fumaça), não conseguia subir para Artur Alvim82, e eles desciam para jogar terra/areia nos trilhos para que prosseguissem a viagem83. No inicio de 1952, já como tenente ele foi designado comandante do 1º destacamento do Corpo de Bombeiros no Aeroporto de Congonhas. Ele saia de Itaquera para Campo Belo/Jabaquara. Este percurso era uma verdadeira viagem pois primeiro pegava-se o trem, depois bonde, outro bonde e uma caminhada à pé. Tinhamos muito o orgulho de ter um pai bombeiro e, lembro de que um dia que ele chegou em casa muito mal, foi para o quarto e minha mãe não nos deixava incomodá-lo. Depois ficamos sabendo que um avião (voltando da coroação da Rainha da Inglaterra-1952) caiu próximo ao aeroporto e quando eles chegaram para fazer o salvamento, havia uma enfermeira “queimando” presa numa árvore, ele só chorava..., ficou tempos sem poder sentir o cheiro de carne fritando. Infelizmente não tenho nenhuma foto dele vestindo farda, pois sempre foi contra seu uso fora de serviço. Quando tinha que fazer algum documento, ele ia ao quartel para se deixar fotografar, era crítico do uso da farda para auferir algum atendimento especial, ficava indignado com colegas que a usavam, ficava louco de raiva... Em 1957 reformou-se com a patente de capitão, aí a Vila Taquari já estava sendo loteada e ele era a referência do local. Graças a ele conseguiu-se que a luz elétrica chegasse na região da Vila Taquari, através de um encaminhamento político e de um 82

Estação de trêm que atendia o bairro de Arthur Alvim, sentido Itaquera-Centro. Este detalhe foi citado por todos os entrevistados onde, enquanto crianças, viam o sofrimento dos adultos que apelavam até para orações. 83

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jornalista, que não lembro o nome, que lutou com ele na revolução de 32. Sempre atencioso, gentil e carinhoso no atendimento a todos que o procuravam, desde o pedido de uma planta ou fruta do quintal, até guarda de materiais, etc... Um esposo, pai, sogro e avô fantástico, compreensivo, carinhoso, paciente, ponderado, sempre disposto a entender e ajudar os filhos sem intrometer-se em suas vidas. Um Cristão! Desencarnou em 16 de setembro de 1985 com 74 anos, vítima de um pós-operatório de uma hérnia de hiato. Ela, desencarnou em 15 fevereiro de 2004, quase com 88 anos, vítima de um câncer de pulmão, metástase resultante da mesma doença no intestino, que aos 85 anos foi operado e retirado e, em 20 dias já estava no seu quarto “pintando seus panos de prato”. Foi a mãe e avó presente (uma leoa), na defesa de sua família, a qual dedicou-se a vida inteira, no lar, no cuidar dos netos, descortinando-nos a leitura. Tenho a lembrança nítida das noites em que meu pai trabalhava, ela, sentada na mesa à luz de um lampião de querosene em cima da lata de mantimentos lendo, e nós esperando para pegar a lamparina e ir dormir..., foi extremamente feliz na iniciação minha e de minha irmã Glória na literatura. Ela fazia artesanatos e, cada um que a visitasse saia com uma peça, um sabonete pintado, um pano de louça pintado por ela, etc... Também foi uma espírita séria, responsável, fazendo a caridade e não se entregando à conversas fúteis com um ou com outro. Quem batesse a sua porta, recebia ajuda e respeito. Sobre a Igreja de Sant´Ana, houve uma quermesse no final da decada de 1950, onde meu pai (ainda sargento), o sr. Vinhas e o sr. Luiz Romano se juntaram e constituiram uma comissão para reformar a Igreja de Sant'Ana. Devido a isto, lembro de passar sábados e domingos fazendo, enrolando e fritando canudinhos para a barraca, trouxeram até o Cardeal Dom Carmelo Motta84 para conhecer e rezar missa na igreja.

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Cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, proclamado Cardeal em 1946 pelo Papa Pio XII, na Basílica de São Pedro, participou de dois conclaves para eleição de papas, em 1958 e 1963.

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Famílias Drumond e Barreto por Macília Drumond Graças ao cuidado que nossa família sempre teve com registros de nossa memória, hoje temos documentos que mostram a história de nossa família, desde pelo menos a primeira metade do século XIX85. A Família Drumond é originária da Escócia, inicialmente escrito como “Drummond”, e teve em Dom João de Drummond o iniciante deste enorme clã. Tendo sido o segundo filho da casa de Drummond de Stobhal, passou a Portugal e fixou-se na Ilha da Madeira, onde deixou descendência. Data de 1420 a época em que foi reconhecido pela Casa Real Portuguesa como um nobre e teve suas armas concedidas pelo Rei. Em Portugal, escreveu-se o nome desta família com as seguintes formas: “Drummond, “Drumond”e “Durmond”. Meus tataravós paternos eram José Luis Drumond, lavrador de profissão, português, natural da Ilha da Madeira, casado com Júlia Jacques Drumond e, Francisco da Costa, casado com Maria da Conceição, portuguesa com ascendência francesa. Meus bisavós paternos eram José Luis Drumond, nascido em 1874 na Ilha da Madeira, Freguesia do Caniço. Foi funcionário público (fiscal dos impostos). Possuía como passatempo a habilidade de construir navios em miniatura com grande perfeição e gaiolas em forma de torre. Casou-se com Angélica Maria, prendas domésticas, nascida em 1874 na Freguesia de Nossa Senhora da Consolação do Castelo de Sesimbra, Portugal e, Aurélio Joaquim Coelho, natural de Frachedas, Portugal. Ignora-se a data de seu nascimento, contudo faleceu aos 45 anos em seu país de origem. Casado com Maria Joanna, natural de Pinhel, distrito Guarda, Portugal. Também ignora-se a data de seu nascimento, todavia faleceu com 70 anos de idade, em São Paulo, de acidente de trem, na estação da Quarta Parada (antiga Central do Brasil). Meus avós paternos eram Antonio Gaspar Drumond, nascido em 1898, em São Tiago, Sesimbra, Portugal. Chegou ao Brasil em 1915 e faleceu em Itaquera em 1985, onde está enterrado. Casado com Macília de Jesus Coelho Drumond, nascida em Pinhel, Guarda, Portugal, em 25 de novembro de 1898; chegou ao Brasil em 19 de Setembro de 1917 e faleceu em Itaquera em 1988, onde está enterrada.

Seleção do livro “Presença”, editado e registrado por Macilia Drumond em 2006 - Escritório de Direitos Autorais da Fundação Biblioteca Nacional. N.A. 85

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Figura 78 – Antonio e Macilia Drumond. Arquivo Familia Drumond Meu avô Antonio foi proprietário da primeira padaria de Itaquera, a “Padaria e Confeitaria Gaspar”. De vovô, ou vô Gaspar como eu o chamava, me aflui um profundo respeito pela vida. Sua força, coragem e principalmente seu espírito aventureiro e versátil tiveram influência direta na minha vida. Acho mesmo que meu amor por viagens, povos e culturas diferentes tem origem nas histórias de suas andanças por países estranhos, que ouvia desde pequena. Sua inteligência para vencer obstáculos, sua luta pela sobrevivência, levou-me a admirá-lo. Encanta-me até hoje lembrar das inúmeras profissões que teve, como: ajudante de confeiteiro, cobrador de bonde, confeiteiro, vendedor de pão, proprietário de padaria, pedreiro, carpinteiro, pescador e exímio nadador e mergulhador, aprendidas pela necessidade de sobreviver. Dele desprendia-se um ar de sobriedade, elegância e discrição, herdados por meu pai. Lembro-me também do seu caráter extremamente zeloso e econômico, assim como seu gosto acentuado por jogos (dominó, cartas). Tocava bandolim, cantava cantigas portuguesas, era alegre, gostava de dançar, brincar e adorava frutos do mar. Minha infância foi repleta de doces, bolos e salgados, pois ele era um ótimo confeiteiro.

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Figura 79 - Padaria Gaspar, localizada na antiga Rua 25 de Março (atual Padre Viegas de Menezes nº398). 1935. Arquivo Família Drumond.

Figura 80 – Carroça de entrega de pães da Padaria Gaspar. Em cima da carroça, o sr. Elydio Gaspar Drumond, com nove anos de idade, saindo para a entrega das mercadorias. Foto dos fundos da padaria. À esquerda, o pombal. 1930. Arquivo Família Drumond.

Contava que quando era criança, mergulhava no mar para buscar as moedinhas que os turistas atiravam aos meninos do lugar. Foi também charuteiro, trabalhando em Portugal e Espanha em fábricas de fumo. Veio para o Brasil com carta de recomendação para trabalhar com fumo. Antes de chegar ao nosso país esteve também na França. Antes mesmo que eu fosse alfabetizada me ensinou a cantar trechos do hino francês, que me recordo até hoje.

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Quando chegou ao Brasil, havia uma grande greve e foi preso às 9:00 hs da manhã e mandado para Ourinhos (SP), em vagões de trem, para trabalhar no cafezal, na fazenda Santa Isabel. Sua esposa, Vó Macília, era mulher trabalhadora, ordeira e asseada. Sua valentia uniu-se à de meu avô na luta pela vida, onde se revelou uma grande companheira. Influenciou minha personalidade com sua visão de vida, moderna e avançada para a época e a importância que dava ao trabalho, aos estudos e à independência, numa época em que a mulher ainda estava engatinhando em suas conquistas. Lembro-me que quando decidi morar sozinha, já adulta, fui dar-lhe a notícia, com um certo constrangimento e esperando algum sermão por estar saindo da casa dos meus pais. Disse-lhe que seria temporário, até terminar os estudos. Ela então, surpreendentemente, me deu os parabéns e disse-me que eu não deveria voltar, e sim, ter minha própria casa. Lembro-me de suas cantigas, sua paixão pelo crochê e tricô, suas mesas postas de final de ano e o berço improvisado com duas poltronas de vime com lençóis branquinhos de linho, que arrumava para que eu dormisse. Quando nasci, em casa, permaneceu três noites comigo nos braços enrolados em cobertores de lã para que eu não esfriasse, pois segundo informações do médico, se isso acontecesse eu não teria forças para me aquecer e correria risco de vida. Por isso sempre senti que devia um pouco da minha vida a ela, além de ter herdado seu próprio nome, que gosto muito e que foi dado em homenagem ao navio francês do mesmo nome, que, no dia do seu nascimento aportou em Lisboa. Também não esqueço dos seus dotes culinários, das linguiças caseiras que fazia (alheiras) e defumados que adoro até hoje. Teve seis filhos, quatro sobreviveram: José Luis, Oswaldo, Elydio (meu pai) e Waldemar.

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Figura 81 – Antonio e Macília Drumond. 1926, com seus filhos José Luis (Zico) e Oswaldo (Vado). Arquivo Familia Drumond

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Figura 82 – Entrevista com o Patriarca da família, Antonio Gaspar Drumond ao Jornal “A Voz do Povo”. 1949. Arquivo Família Drumond.

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Figura 83 – Primeiro telefone e bomba de gasolina entre 1935 e 1940, na Estrada de Itaquera, esquina com a Rua Heitor. Foto de 1935 (cima) e 2010 (baixo). Arquivo Família Drumond. O responsável pelo telefone era o Sr. José do Patrocínio Freire, o primeiro da fotografia, à direita. O proprietário da bomba era o Sr. Arlindo Cleto, de tarja preta na lapela e o menino com violão é seu filho Mario Cleto. Aparecem ainda o Sr. Seraphim Barreto (meu avô materno), segundo da esquerda para a direita, Sr. Antonio Gaspar Drumond (meu avô paterno), terceiro da direita para a esquerda, Sr. Gabriel Maltone (dono do único onibus de Itaquera), sr. Francisco Roldan, sr. Barreiro, dna. Edmeia e sr. Noveli. Meses depois, foi instalado o primeiro posto telefônico, na residência do sr. José do Patrocínio Freire, à Rua Heitor, esquina com a rua 15 de novembro. Quando se aposentou, o responsável pelo posto foi agraciado com o “sino de ouro” pela Cia. Telefônica Brasileira. 139


Meu pai, Elydio Gaspar Drumond, nasceu em São Paulo, na Vila Mariana, em 1926. Formou-se em Contabilidade na Escola Técnica de Comércio Carlos de Carvalho em 1948, em São Paulo. Foi Professor de Taquigrafia na Escola Profissionalizante Sudan, em Itaquera, Tesoureiro (1961/62) e Diretor do Círculo Operário de Itaquera. Foi comerciante, sócio-proprietário do Mercadinho Central no Centro de Itaquera (Fig. 58) e da Padaria e Confeitaria Gaspar. Foi Contador em vários escritórios e empresas, até se aposentar. Jogou bola nos Clubes Democrático e Elite Itaquerense, onde foi Conselheiro por muitos anos. Em 2008, foi homenageado pelo Clube Elite, em cerimônia de entrega de placa nominal comemorativa.

Figura 84 - Democrático Itaquerense Futebol Clube, nos anos de 1950. Da esquerda para a direita: Em pé - Zé Coco, Roldão Valente, Barretinho, Renato, Elydio, Bibi, Fernando, Gabrielzinho e Nerel. Agachados - Badu, Antonio Barreto, Canhoto e Neguita. Arquivo Sr. Sylvio Pimenta – Bibi.

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Figura 85 - Democrático Itaquerense – quando os homens se fantasiavam de mulher. Em pé, o segundo, da esquerda para a direita, Elydio, Walter Valente (3 o), Osvaldo Barreto (5o) , Nelson Francisco de Paula (7o). Sentados: Darci de Oliveira (2o) e Antonio Barreto (pai e filho – 5o e 6o.)

Figura 86 – S. E. Elite Itaquerense – Em pé, sexto da esquerda para a direita, sr. Elydio. 141


Meu pai passou sua infância na casa situada à rua Olga, no 4, Jardim das Camélias, Itaquera, com a seguinte distribuição: uma sala, dois quartos, uma cozinha, um depósito de farinha e mantimentos, salão da padaria com forno. Nos fundos, chiqueiro e galinheiro. Na frente da cozinha, poço com carretilha e um tanque. Foi nessa morada que realmente começou a funcionar a primeira padaria de Itaquera, que viria a se chamar “Padaria Gaspar”, depois instalada na antiga rua 25 de Março, no centro do bairro, onde passou sua adolescência. Nesse tempo, a iluminação era por meio de lampião a querosene, lamparina e velas e, para movimentar a masseira do pão utilizava-se um gerador movido a gasolina. Esta casa era assim distribuída: um armazém grande, na frente e nos fundos, um depósito de farinha e mantimentos e salão da padaria com forno. Em cima do armazém, moradia com seis cômodos, assim divididos: três quartos, duas salas e um quarto de brinquedos. No quintal havia outros dois cômodos pequenos para depósito, uma cocheira de animais e ao lado desta, um banheiro com sanitário. No meio do quintal, depósito de lenha ao ar livre para alimentar o forno da padaria. Nos fundos do quintal, tendo como divisa o Rio Verde, um chiqueiro e um galinheiro. Na parede de fundo do salão da padaria havia um grande pombal. Em frente à porta de entrada, nos fundos da padaria, um poço com balde puxado à mão fornecia toda a água pura que era consumida. Com o passar dos anos, meus avós passaram a morar em pequenas casas construídas por meu avô, no quintal, pois já não podiam subir as escadas do casarão. Toda a propriedade foi demolida e no local encontram-se atualmente as Lojas Marabráz, na rua hoje denominada Padre Viegas de Menezes. Meu pai casou-se em 08 de Setembro de 1951, com minha mãe, Iracema Barreto Drumond, na Paróquia Nossa Senhora do Carmo de Itaquera. A paquera rolou desde o curso primário, quando meu pai, intuitivamente, apontava para minha mãe dizendo: “vou casar com essa menina”.

Figura 87 - Vista da Igreja N.S. do Carmo, centro de Itaquera. 1952. Arquivo Família Drumond. 142


A energia elétrica tinha sido recentemente inaugurada pela Light, e a sensação do momento no bairro era a realização do primeiro casamento com este tipo de iluminação. Ocorre que, no momento da cerimônia, depois de a igreja ter sido realmente iluminada, a energia elétrica faltou e meus pais se casaram literalmente no escuro. A casa onde meus pais residem até hoje, fica no Centro de Itaquera, na Rua Ken Sugaya, 67, antiga Rua Barão do Rio Branco.

Figura 88 - Casa dos meus pais na Rua Ken Sugaya, antiga Rua Barão do Rio Branco, centro de Itaquera. 1952. Arquivo Família Drumond Numa manhã de 1978, enquanto tomava o café, fui surpreendida por minha mãe dizendo que a nossa rua não se chamava mais Barão do Rio Branco, pois tinham mudado a placa para “Morro da Fumaça”. Lembro-me que o café ficou na xícara, tal o meu desapontamento e indignação. Achei um desrespeito para com a comunidade. Corri na Regional de Itaquera e pude constatar que, realmente, através do Decreto no. 15.040, de 25/4/78, tinham alterado o nome da nossa rua e de muitas outras do bairro. Fui ao IBGE86, órgão responsável pelas novas denominações, e lá descobri que os nomes tinham sido dados aleatoriamente, e que Morro da Fumaça era o nome de uma zona de carvão em Santa Catarina. Resolvi comprar a briga. Colhi assinaturas em toda a rua para um abaixo-assinado e pedi para a família Sugaya elaborar um curriculum do falecido dentista e nosso vizinho, Dr. Ken Sugaya. De posse dessa documentação dei entrada num requerimento junto à Câmara Municipal de São Paulo solicitando que a rua tivesse seu nome alterado novamente.

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Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. N.A.

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―São Paulo, 19 de Junho de 1978 * Excelentíssimo Senhor Doutor Celso Matsuda Digníssimo Vereador do Município de São Paulo. NESTA * Senhor Vereador * Apresentando cumprimentos a Vossa Excelência, eu MACILIA DRUMOND, residente à antiga rua Barão do Rio Branco nº 7, Itaquera, venho em nome dos moradores da referida, submeter à sua apreciação o que segue. Através do Decreto 15.040 de 25/4/78, publicado no Diário Oficial do Município em 26/4/78 (anexo 1), a mencionada rua, de acordo com projeto do CADLOG (Cadastro de Logradouros), código 17.123.9, teve seu nome mudado para rua ―Morro da Fumaça‖. Considerando o atual nome da rua absurdo, pejorativo, sem justificativa popular, histórica ou geográfica para o local, venho representando a insatisfação geral dos moradores, solicitar sua intercessão junto ao Excelentíssimo Senhor Prefeito da Capital, a fim de que o nome da rua seja alterado para, rua dr. Ken Sugaya‖, sugestão baseada em fatos concretos e significativos para a comunidade e o local. Dr. Ken Sugaya, sempre presente em nossa memória pelos préstimos realizados em favor da população de Itaquera (anexo 2), faz jus ao nome gravado na rua em que ele próprio morou e cuja família reside até hoje, a fim de que nunca se apague a lembrança de tão nobre caráter e personalidade. Certa de que este pedido merecerá toda a atenção de Vossa Excelência, reintero protestos de elevada estima e consideração‖. Macilia Drumond. Procurei também uma revista da época, “Bases”, da Momento Editorial e publiquei o artigo “Tecnocracia x Periferia”, que saiu na revista no. 34, de 1979. Em 1980, recebi comunicação da Câmara Municipal de São Paulo, informando que o abaixo-assinado tinha formado um projeto de lei e tinha sido aprovado pelo Legislativo. Finalmente, em 12 de Abril de 1980, foi publicada a Lei no.9041, de 11 de Abril de 1980, alterando o nome da rua para a atual “Ken Sugaya”. Meu pai sempre representou para mim a estrela guia, o amor maior. Amigo, brincalhão, sempre rodeado de crianças, humano e solidário, me ensinou a viver através de suas atitudes ponderadas, suas decisões serenas, sua fé inabalável em Deus e no ser humano. São muitas as suas qualidades, reconhecidas por unanimidade: senso de humor, humildade, confiança e amor pelos valores simples e reais da vida. Homem justo, corajoso, com uma capacidade ilimitada de amar, sem nunca esperar recompensa. Honesto, sensível, cavalheiro, verdadeiro, de caráter correto, imensa capacidade de trabalho, pureza de sentimentos, inteligência brilhante, organização e elegância. Amava os esportes e se destacou nadando e jogando futebol, volei, e tênis de mesa. Quando jovem lutou boxe e também gostava de jogar cartas e dominó. Temos em casa muitos troféus e medalhas ganhas por ele em competições. 144


Hoje, aos 85 anos, com a saúde já bastante abalada continua nos dando lições de amor, força, humildade e coragem. Se pudesse escolher, não escolheria outra pessoa para ser meu pai.

Figura 89 – Documento recebido da Câmara Municipal de São Paulo.1980. Arquivo Família Drumond. * O ramo Barreto de minha família começa com meus tataravós maternos, chamados João Valillo, sapateiro em Nápolis, Itália, e sua esposa Izabel, brasileira e, Firmino casado com Cecília. Conta-se que minha tataravó Cecília era “escrava branca” na Fazenda do Carmo, local onde hoje está o Parque do Carmo. Certa vez um boi de estimação comeu ervas 145


daninhas e morreu. Os padres Carmelitas, então proprietários da fazenda, concluíram que o boi tinha comido o angú e o fubá dos escravos, assim decidiram castiga-los. O castigo era dar seis voltas na Fazenda de dois em dois. Nesse dia os escravos não foram para a roça, esperando o castigo. O padre responsável pela administração da fazenda apareceu com um chicote acusando-os e, aquele que negasse era chicoteado e quem confirmasse era perdoado. Às 4:00 hs da tarde os escravos temerosos pediram para Nossa Senhora do Carmo fazer um milagre que revelasse a verdade. Antes do castigo, apareceu um raio, embora o céu estivesse azul e Nossa Senhora do Carmo caiu do altar da capela e não se quebrou, embora fosse de louça. Os padres então suspenderam o castigo. Minha tataravó presenciou o acontecimento, pois se encontrava entre os escravos nesse dia e conheceu de perto a vida que eles levavam. Meus bisavós maternos eram Manuel Carneiro Barreto, brasileiro, comerciante, dono de armazém (localizado na esquina da atual Rua Barros Cassal com Estrada de Itaquera), casado com Rosa Monteiro Barreto, parteira, de origem portuguesa e, Vicente Valillo, natural de Nápolis, Itália, nascido em 1863 ou 1883 e falecido em 02 de Dezembro de 1924. Era casado com Rosa Maria do Carmo, brasileira, nascida em 1825 em Pedreiras (Itaquera). Era exímia costureira e exercia esse ofício gratuitamente para os mais necessitados. Faleceu em Pedreiras no ano de 1935 de um distúrbio gastro intestinal.

Figura 90 - Manuel Carneiro Barreto. Arquivo Família Barreto. Temos conhecimento, através de consulta no documento da página 12 do 1º Livro do Tombo da Paróquia Nossa Senhora do Carmo de Itaquera, que por volta de 1925, meu bisavô Manuel foi nomeado para participar da comissão de construção da referida Igreja (ver citação no Capítulo 6: “N.S. do Carmo, excelsa padroeira da Parochia de Itaquera87. N.A). Era um homem que se vestia muito bem e usava muitas jóias. Sua presença impunha muito respeito, mas tinha fama de mulherengo. Depois que a mulher morreu, caiu em profunda depressão. Minha bisavó Rosa, era parteira, oficio que exercia gratuitamente. Vestia-se sempre muito bem e usava duas libras esterlinas como brincos. 87

Jornal “O Suburbano” nº9 – Julho de 1931

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Vicente Valillo era funcionário da Pedreira de Itaquera e festeiro da Igreja Nossa Senhora do Carmo. Era de confissão católica, mas não tratava bem a esposa, embora sempre muito ajudado por ela. Quando fez seu testamento deixou a maior parte de seus bens para seu filho Luppo. Nos carnavais tinha o hábito de se fantasiar de fantasma e mulher. Era devoto de São Luppo e todos os anos mandava dinheiro para a festa do santo na Itália, que ocorria no dia 29 de Julho. Na sua mesa de Natal não podia faltar panquecas de mel. Faleceu vítima de desastre de trêm, quando caiu da composição em Itaquera. Embora italiano, falava corretamente o português, sem sotaque nenhum, sendo difícil acreditar que fosse napolitano. Imigrou para o Brasil com 20 anos de idade, pois a fama do país como sendo terra promissora o fascinou. Seu pai que não concordava com sua partida, ameaçava-o dizendo que se fosso embora ele (seu pai) iria ficar doente. Mesmo assim, Vicente comprou a passagem e quando o pai soube, já estava no Brasil, passando a mandar-lhe dinheiro periodicamente. Juntou uma pequena fortuna, pois sua intenção era comprar o Largo do Arouche, que na época era mata virgem. No entanto, nessa mesma ocasião, soube através do pai que o irmão estava com uma doença incurável em um dos olhos. Então, suspendeu imediatamente a negociação da compra do Largo do Arouche, e financiou a passagem do irmão para o Brasil, onde um médico brasileiro já estava contratado para tratá-lo. Na viagem, a doença atacou o outro olho e o irmão, não podendo mais continuar, voltou para a Itália. Vicente então voltou à antiga decisão de comprar o Largo do Arouche, mas os proprietários não quiseram mais vender a terra. O irmão, cego dos dois olhos e de volta à Itália, passou a pedir esmolas, tocando violão, juntamente com sua filha Assunta, de apenas 5 anos de idade, que tocava violino. Sabendo que haveria uma grande festa em frente ao palácio do rei Umberto, para lá se dirigiram. Neste dia a rainha estava sentada na sacada do palácio quando eles começaram a tocar, em meio à multidão. A rainha ouvia a música do violino, mas não podia ver quem estava tocando. Quando a festa terminou e o povo se retirou, a rainha conseguiu enxergar a menina Assunta, e imediatamente mandou que os guardas fossem buscar o cego e a menina, antes que se perdessem na multidão. Uma vez na presença da rainha, ela perguntou-lhes quem eram e o nome dos restantes familiares de Assunta, anotando em seguida tudo o que diziam e, finalizando a entrevista mandando-os embora em seguida. Quando chegaram em casa, comentaram o acontecido e o avô de Assunta perguntou-lhe o que tinham ganhado da rainha. Esta, para decepção do avô, respondeu-lhe que nada lhes tinha sido ofertado. Passado um mês, o pai de Assunta recebeu uma carta dizendo que ele não precisaria mais pedir esmolas, que todos os seus filhos seriam internados nas melhores escolas de Roma e, receberiam bolsas de estudo na profissão que escolhessem. Sabe-se que dentre seus filhos formaram-se engenheiros, e que Assunta formou-se professora de música, concertista e chegou a ter dois conservatórios (Conservatório Sta. Cecília - Milão). Confesso que ao ouvir essa estória fiquei bastante impressionada e incrédula sobre a veracidade dos fatos relatados. Fui, então, pesquisar na história da Itália e a menção ao rei Umberto coincidiu com a sua existência real, na época em que ocorreram os fatos mencionados. Sua esposa, Rosa Maria do Carmo era extremamente bondosa, trabalhadora e generosa pois nunca pensava em recompensa. Mulher sofrida, de muito bom coração, era adorada por todos. Era muito inteligente e ciumenta. Passou sua infância e adolescência 147


na Ladeira do Carmo, no Centro de São Paulo, onde se casou e teve 21 filhos. Trabalhou na roça de milho e feijão. Admirava as pessoas inteligentes e cultas. Aprendeu a costurar sozinha e chegou a confeccionar ternos completos. A arte de costurar era seu dom natural. Costurava para pessoas pobres a preços irrisórios. Quando um amigo necessitava de ajuda largava tudo para auxiliá-lo. Meus avós maternos eram Seraphim Carneiro Barreto, nascido em 04 de janeiro de 1891 em Portugal e falecido no dia 03 de janeiro de 1984, na casa situada na Estrada de Itaquera, onde atualmente localiza-se o SENAC e está enterrado no Cemitério de Itaquera. Trabalhou como canteiro, feitor, encarregado de cantaria, cabo de força e administrador na Pedreira de Itaquera até 1958, quando se aposentou. Casou-se em 1911 com Izabel Valillo Barreto, de prendas domésticas, nascida em abril de 1892, em Itaquera e falecida em Maio de 1975, em Itaquera, em sua casa da Estrada de Itaquera, onde hoje existe o SENAC. Está enterrada no Cemitério de Itaquera também. Meu avô Seraphim era uma figura misteriosa. Homem forte, inteligentíssimo, sempre quieto, taciturno, de poucas palavras, fumando seu cachimbo e jogando suas baforadas de fumaça nos nossos rostos, hábito que as crianças odiavam. Sua honestidade, capacidade de trabalho e liderança sempre foi admirada e reconhecida por todos. Sua simples presença transmitia respeito e nunca era possível adivinhar suas reações, quase sempre intempestivas. Nunca deixou transparecer emoção alguma. Assemelhava-se às pedras com as quais trabalhou a vida inteira e muitas vezes me incitou a pergunta: até que ponto o meio molda a personalidade? Quando eu era criança sentia medo dele. Ao conhecer um pouco de sua vida e ao vê-lo tão envelhecido e lapidado pelo tempo, passei a sentir ternura por ele e grande admiração. De minha Vó Beta, guardo comigo sua lembrança e seu jeito simples, humilde de ser. Não há quem a tenha conhecido que não admirasse sua bondade, nobreza de sentimentos e sua imensa capacidade de amar. Foi uma mulher sofrida, mas que nem por um minuto deixou em seu coração lugar para a revolta ou o desamor. Sua simplicidade, sua delicadeza e compreensão eram inatas. Adorava cozinhar, passear, andar e servir ao próximo. Era católica praticante e assídua às Missas. Representou em vida um pólo de atração, de união, de irradiação de amor e hoje, não estando mais presente fisicamente entre nós, revive em nossos pensamentos e corações. Com sua luminosidade permanece influenciando-me como em vida, marcadamente. Teve quinze filhos, dez sobreviveram: Isaura, Vicente, Ernesto, Rosalina, Iracema (minha mãe), Cristina, Dulce, Antonio, Oswaldo e Dora.

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Figura 91 – Seraphim e Izabel, no quintal de sua casa da Estrada de Itaquera, centro do bairro (atual Senac). Arquivo Família Barreto. Minha mãe, Iracema Barreto Drumond, nasceu em 1926, na região das Pedreiras, em Itaquera e, antes de se casar trabalhou na Fábrica de Chocolates Dizziolli e na Fábrica de Cigarros Souza Cruz. Nesta época, a maioria das casas nas Pedreiras, onde nasceu e passou a infância e a adolescência, eram feitas de madeira e cobertas por zinco. Algumas eram de tijolos e cobertas por telhas e com piso de terra batida, sendo bem poucas as de piso atijolado. A casa dela era uma dessas poucas e foi construída em volta da Pedreira de Itaquera, com os compartimentos assim distribuídos: uma sala de jantar muito grande (mais ou menos de 7mx6m) e uma sala de visitas (mais ou menos de 4mx4m) na entrada. Atrás das duas salas, havia dois dormitórios (de mais ou menos 4mx4m cada). Uma cozinha ao lado da sala grande (mais ou menos 6mx6m). Saindo da cozinha havia outro dormitório (de mais ou menos 6 x 4m). Os quartos eram bem espaçosos e, um deles, era mobilhado com uma cama de casal e uma mesa enorme, onde ficavam expostas várias frutas da época, colhidas no pomar. Num canto, ficavam os sacos de mantimentos e no outro, a forragem para a criação. Embaixo da mesa, as crianças brincavam nos dias de chuva. No meio desse quarto tinha um viveiro em formato de coreto, onde ficavam os pássaros maiores e outro viveiro menor, entre a cama e a mesa, com pássaros pequenos. O banheiro era fora de casa e sem teto. Na parede lateral da cozinha, do lado de fora da casa, havia um grande barracão que servia de garagem para a máquina do trole da Pedreira e de curral para as vacas. Ao lado da garagem, havia mais dois cômodos que serviam de galinheiro. Na outra parede lateral da cozinha, também do lado de fora da casa, tinha um barracão com um forno de tijolo para pão.

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Figura 92 – Família Drumond na festa de batizado da depoente. Da esquerda para a direita: sra. Iracema com o bebê no colo. No quintal ficava o chiqueiro, de madeira, que dava fundos para o Rio Verde. As pedras provenientes da Pedreira de Itaquera, foram utilizadas na construção da Catedral da Sé e em vários outros monumentos históricos de São Paulo, como o Monumento à Bandeira, no Parque do Ibirapuera, bem como para calçamento de ruas, como as do Brás88. Eram transportadas via trole até a estação de trem de Itaquera, seguindo para o Centro de São Paulo através de vagões de carga. Depois dos 17 anos de idade, minha mãe mudou-se para o centro de Itaquera, na estrada de Itaquera no. 143, antiga Rua Caguassú (atualmente Senac), onde de duas casas geminadas fizeram uma. Esta casa era composta por uma sala, três dormitórios, uma cozinha, um banheiro. No fundo do quintal, um cômodo para guardar ferramentas e ao lado, um quartinho com vaso sanitário. Ainda no fundo do quintal, um chiqueiro e um galinheiro. No meio do quintal, uma cobertura com poço e carretilha, que depois foi substituída por sarrilho e dois tanques para lavar roupa. Minha mãe e meu pai, plantaram juntos um grande sentimento de amor e união em nossa família, presentes em todos os momentos. Forte, realista, inteligentíssima, vivaz, à frente do seu tempo nas idéias, com uma capacidade de percepção da realidade, ela foi meu ponto de equilíbrio e acredito, de meu pai também, pois sem ela estaríamos flutuando no espaço. Amante das plantas, com discreto bom gosto e caprichosa ao extremo.

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Bairro de São Paulo característico pela grande concentração de Italianos.

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Figura 93 - Casamento da sra. Arminda Barreto e Domingos. Na foto se vê o italiano sr. Vicente Valillo (à esquerda da noiva), sr. Seraphim Carneiro Barreto (o último no alto à direita, de terno e chapéu) entre outros na Pedreira de Itaquera. 1930. Arquivo Família Valillo. Excelente cozinheira, amante da música e dança, corajosa, revolucionária, de uma personalidade marcante, sempre ativa, transformando o meio ambiente e as circunstâncias. Sincera e destemida ao defender suas opiniões, revelou-se uma mãe amorosa e zelosa ao extremo e seu senso prático e de justiça fazem dela uma grande amiga e companheira ainda hoje com seus 85 anos. Se pudesse escolher, não escolheria outra pessoa que não fosse ela para ser minhã mãe.

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Família Ramos, por Antonio Luiz Ramos Rizzo Nasci em 1928 em Itaquera, na casa da Chácara de meus avós, sr. Antonio de Araújo e dna. Maria de Araújo, onde assistiu meu parto e de todos os que nasceram em minha família a dna. Natividad. Hoje sou o Itaquerense, nascido aqui, mais velho ainda vivo, segundo artigo em jornal do Bairro.

Figura 94 – Sr. Antônio L. Ramos Rizzo. Atrás um Gramofone restaurado pelo próprio sr. Antônio Ramos em pleno funcionamento, guardado em um quarto com várias fotografias de época. 2010. Meus avós tiveram dois filhos, meu pai José Luiz Ramos, casado com dna. Maria Adelaide Ramos e, Antônio Augusto Ramos, casado com dna Lucinda Augusta da Fonseca Ramos, pais de meus primos Alzira, José Marcellino (Tito) e Laurinda Ramos Marcellino89, os dois primeiros já falecidos. Sou casado com Conceição Capitão Rizzo, filha de Manoel Joaquim dos Ramos Rizzo e Maria Cândida dos Ramos Rizzo e tenho dois filhos, Walter e Carlos Luiz Ramos. Meu pai foi dono por vários anos do empório do Gino Tambelline, próximo a Igreja Santana, esquina da Rua Santana (hoje Jataizinho) com a Rua Cel. Francisco R. Seckler. Meu tio era dono do prédio da outra esquina, na mesma rua, em frente à Igreja, onde sua filha Alzira, casando-se com o também português Sr. Carlos Alves da Luz, tocaram um bar até a morte dele. Hoje é o Bar do Vá (Figura 38). Quando menino, gostava de acompanhar o futebol e, aos sábados, domingos e feriados, ia assistir o Itaquera E.C. e ver meu tio Antônio jogar, inclusive no jogo em que 89

A sra. Laurinda dá um relato, inserido no final, complementando o de seu primo sr. Antônio

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fraturou a perna, eu assisti tudo. Eu também joguei futebol e, por muito tempo, no time da Sociedade Esportiva Elite Itaquerense, na posição de zagueiro. A sede onde nós e os adversários trocávamos de roupas era em uma das casinhas que o sr. Gaspar da padaria cedia como vestiário improvisado e de lá, íamos fardados até o campo. Depois a sede mudou para mais perto, em cima do Bar do Chico, depois na beleza da padaria Vencedora que o Vicente e o Arsênio montaram e por fim, fomos para a casa do Learde, na beira do rio e do campo, que era só atravessar uma ponte que ele, anos atrás, mandou construir. A margem com o rio ficou como uma piscina com suas águas ainda limpas e com peixes, sapos, rãs, preás, saracuras, frangos-d’água. Tinha de tudo por aqueles brejos que o rio Jacú formava desde lá dos lados da Colônia Japonesa, e a bola quando caia na água, isso acontecia sempre que chutavam forte em direção ao gol e erravam o chute, lá ia a bola e logo corriam para pegar a vara que na ponta tinha um cesto, tipo de basquete, fechado como peneira e num instante a bola voltava para trás do gol, até outra bola voltar a cair. O Manoel dos Anjos, o Dário Barone e também o Tonhão, que naquele tempo era o caseiro e cuidava do material esportivo, todos eles eram craques em pescar a bola. O campeão de bola ao rio era o Arthur, irmão do Baton, pois tinha um chute muito forte. Durante a Segunda Guerra, servi na Base Aérea de Cumbica, e acabei incorporado como taifeiro, chefe do Rancho. Nesta época precisava pegar uns recrutas para, de caminhonete e mesmo jipe, írmos até o bairro de Bom Sucesso buscar lenha para o forno e fogão do quartel, para preparar as refeições gerais do Rancho para os praças e oficiais. A viagem de Itaquera até Guarulhos era uma aventura diária pois tinha que pegar o trenzinho da Cantareira na hora certa para chegar lá, senão teria que fazer o percurso a pé até Ermelino Matarazzo. Em certa altura, minha vida de caserna me aborreceu. Gostava de jogar bola, namorar, passear e, pelo regime do quartel, as vezes tirando serviço, tinha que ficar lá. Dei baixa e fui trabalhar e, meu primeiro emprego foi na Fábrica de Morsas Somar. Depois na Fábrica de cofres e móveis de aço Amaral, Fábrica de fogões Alpha, Fábrica de pilhas Rayovac e a mais distante, a Fabrica de rolamentos “FAG”, na Av. Das Nações Unidas, em Santo Amaro. Estamos falando do início da década de mil novecentos e setenta, o transporte público não era esta facilidade de hoje e, mesmo assim, nunca cheguei atrasado. Era sempre o primeiro a chegar, mesmo morando em uma cidadezinha considerada na época de “fim do mundo”. Tinha orgulho e sempre falava bem da minha querida Itaquera. Foi nesta empresa que em 1979 me aposentei. Despedi-me de todos e foi muito triste, fiz boas amizades lá e os olhos de alguns tinham até lágrimas. * Complementando o relato de meu primo, vou dar o meu depoimento sobre nossa família. Meu nome é Laurinda Ramos Marcellino e, bem diferente dos meninos em nossa época nós, as meninas, éramos mais controladas pelos pais, e o meu era fogo e, até meu irmão Tito era levado na rédea curta. Meu pai Antônio Augusto Ramos, e minha mãe Lucinda Augusta da Fonseca Ramos eram ambos nascidos no ano de 1901 e, naturais do Concelho de Moncorvo, distrito de Bragança no norte de Portugal. A diferença é que ele era do mês de Maio e ela de Agosto, mas casaram-se aqui, no bairro da Consolação, em São Paulo, no ano de 1921. As tardezinhas eu e meus colegas, que eram os vizinhos da nossa rua, meninos e meninas, brincávamos sob as vistas de nossos pais, de pular corda, pião, bolinha, raquete, peteca, mãe da rua, e outras brincadeiras de rua, que era de terra. 154


Meu pai tinha orgulho de ser um dos fundadores da Vila Santana, até do time de futebol. Ele sempre trabalhou por conta própria. Com a carroça que tinha (Figs. 96 e 97), puxada por uma bonita e muito mansa égua preta chamada boneca, vendia verduras e frutas. Com este trabalho ele levantou suas casas, tijolo por tijolo. A àgua consumida vinha dos poços que eles mesmo faziam, ele, o “seu” Ramos, como era chamado e a minha heroína mãe, dna. Lucinda, deixou uma casa com terreno para cada filho. Além da carroça, “Seu Ramos” tinha um Ford bigode (Fig. 95), com o qual ele fazia carretos para o sr. Luiz Romano, para o sr. Aguilar e até para o sr. Gaspar da padaria. Enquanto ele ia atender a sua freguesia, a minha mãe ficava tomando conta do empório que eles tinham, o que aparece na fotografia (Fig. 96). Ela atendia a freguesia e ambos, por conta própria, aprenderam a ler e escrever, sem nunca terem ido a uma escola, mas incentivava eu e meus irmãos Alzira e Tito à estudar no Grupo Álvares de Azevedo. Ele era muito inteligente e contavam para nós que a vida aqui no Brasil tinha sido no início muito dura, principalmente na época da Revolução de 1932, e contavam que para irem trabalhar, tinham que passar pelas trincheiras na linha de fogo, cheias de soldados. Lembro-me dos racionamentos de carne, açúcar preto, pão, óleo, querosene, etc, e que tínhamos que levantar de madrugada para ir pegar lugar na fila. Os rios daqui eram muito limpos, e meu pai e meu irmão Tito iam pescar até de peneira. Próximo tinha um bambuzal que fazia uma sombra fresquinha e era onde ficávamos esperando-os. Desta água bebi várias vezes, pegando-a com as mãos e hoje, nossos rios são verdadeiros esgotos mal-cheirosos.

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Figura 95 – Família Ramos em picnic. O sr. Antônio de Araújo no alto à direita tomando vinho, pai do sr. José Luiz Ramos, a esquerda em primeiro plano e do sr. Antônio Augusto Ramos, a direita em primeiro plano. 1931. Arquivo Família Ramos.

Figura 96 – Frente do armazém de secos e molhados de propriedade da Família. 1927. Arquivo Família Ramos 156


Figura 97 – Sr. Antônio A. Ramos em frente ao seu empório na Rua Francisco Rodrigues Seckler com a Rua Metodista. 1929. Arquivo Família Ramos.

Figura 98 – Família Ramos em frente ao armazêm de propriedade da família. 1928. Arquivo Família Ramos

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Figura 99 – Carteira de Habilitação de Antônio Ramos. 1926. Arquivo família Ramos.

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Família Mercier, por Yedda Mercier Meu avô, Benedicto Augusto Mercier, filho de imigrantes franceses, nasceu em Caçapava em 1872 e minha avó Maria de Almeida Motta, nasceu em 1877. Chegaram em Itaquera em 1925, instalando-se na chácara que faz fundo com a antiga Rua 15 de Novembro e que ainda hoje é de nossa propriedade. Nesta propriedade, meu avô e meus tios tinham cavalos de raça, que treinavam para corrida de trote, juntamente com outros vizinhos nossos que também possuíam cavalos de raça. Eu nasci em Araranguá, Santa Catarina, em 1931, e fui criada pelos meus avós com muito carinho e amor. Meu pai chamava-se João Motta Mercier e nasceu em Santa Catarina em 1898. Ele era artista de teatro, apresentando-se em circos e chegou, tempos depois, com a idade de 54 a 56 anos, a participar de programas, no começo da TV no Brasil. Além de artista, meu pai também era escritor de peças de teatro e, um dos roteiros completos que guardo comigo tem o título “A Última Fuga”, peça em dois atos e quatro quadros, registrada na Câmara de Autores em 03/06/195990. Foi quando estava em turnê com um dos circos, fazendo seus espetáculos, conheceu uma moça que, segundo dizia para seus amigos, era uma das mais bonita, simpática, simples e inteligente que conhecera. Ele também era considerado um galã então, apaixonaram-se e em 1930 casaram-se. A partir dai, ela passou a acompanha-lo em suas apresentações. Era uma vida de aventuras, enfrentavam muito trabalho e dificuldades e, minha mãe, que chamava-se Helena Dias, nascida em Araranguá, Santa Catarina, em 1904, ficou grávida de mim e a vida dura deles continuava. Minha mãe, com aquela vida atribulada, além de dura, como falei, acompanhando sempre meu pai nos ensaios circenses desde manhãzinha, com apresentações a tarde e noite a dentro, morando nos circos onde faziam suas refeições, sem hora para dormir direito pois, como disse, logo pela manhã começavam a lida. Com estes tipos de atividades, a minha mãe grávida adoeceu, ficou tuberculosa e teve que seguir os conselhos médicos e foi internada no sanatório de tuberculosos da Lapa. Eu nasci em Fevereiro de 1931 e ela morreu seis meses depois, com apenas vinte e sete anos de idade, sem a satisfação de pelo menos pegar-me ao colo e, só podia ver-me por trás de vidraças. Meu pai ficou arrasado, quase enlouqueceu. Não se conformava com a morte de minha pobre mãe que amava muito e culpava-se pela sua perda. Eu fui deixada aos cuidados da família dela que estavam cuidando dos documentos para minha adoção. Mas minha avó, mãe de minha mãe era uma mulher muito severa, não perdoava meu pai que dizia ser um aventureiro irresponsável. Naquele tempo, artista de qualquer tipo, até jogador de futebol, não eram vistos com bons olhos, ao contrário de hoje, ninguém queria tê-los na sua família e ela, entre as coisas da filha morta, encontrou cartas com o endereço de meus avós e, não perdeu tempo, escreveu-lhes comunicando que eu havia nascido, estava órfã de mãe e que eles deveriam ir buscar a neta, se lhes interessasse, pois a iriam adotar. Como meu avô era dos Correio, logo que recebeu a carta, à ele dirigida, a abriu e leu no ali mesmo e, conforme nos disse, sofreu um grande choque emocional, presenciado pelos seus companheiros que o ampararam e o aconselharam a sair mais cedo, ir para a casa. Mais que depressa ele assim o fez, pegou o primeiro trem que saiu 90

Gentilmente, a sra. Yedda nos presenteou com uma cópia da peça, cujo enredo é deveras empolgante e viável de representação nos dias atuais.

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do Brás, onde trabalhava e rumou para casa. Segundo as queridas tias Ondina e Lúcia, estava suado e espavorido, elas assustaram-se muito, dando-lhe copo um copo d´água com açúcar, totalmente o inverso do que era naturalmente, calmo e tranquilo. Quando ele acalmou-se, abraçado por minha avó Maria, ele deu a carta a ela e, quando ela leu alto para as filhas ouvirem, diz-se que após a leitura, foram as três que tiveram que sentar. Era novidade a morte e o nascimento de uma menina, sem mãe e sem pai? Choro geral e, depois de debater muito, chegaram a seguinte conclusão: Iriam o mais rápido possível buscar a neta. Calcularam estar já com seus quase dois anos, tomariam meu avô e meu tio as providências, já usando as suas influências, e aproveitaram o fim-de-semana, viajaram para buscar-me, o vovô, o tio José e a tia Nair, foram até o juiz, comunicando-o com documentos, etc, e rumaram para a casa da avó. Diziam que foram recebidos com certa hostilidade pois estavam muito revoltados com o meu pai que o consideravam um irresponsável, mas responsável sim pela morte da filha que, levada pela paixão por ele, tudo largara para acompanha-lo nas aventuras tresloucadas em que envolviam-se. Ela era moça frágil, de família, de respeito, mas ele a havia enfeitiçado com sua galanteria e tudo resultara nisso: a filha morta e a pequena órfã. Meu avô, com sua fineza, concordou com o que dizia aquela mãe que reconhecia estar sofrendo a perda da filha e, com muita sinceridade, apresentou-lhe seus pesares e também disse que lhe preocupava a situação emocional do filho, que desconhecia o paradeiro. Minha avó materna, vendo a postura firme e fina de meu avô, que desconhecia como os outros da família que o acompanhara e, vendo que a carta que enviara era de dois dias atrás que a recebera e já lá estando todos a sua frente, eram então pessoas sérias e íntegras, disse isso a eles e demonstrou mais brandura, perguntando-lhes as intenções. Meu avô muito calmo, com o chapéu nas mãos, disse que tinha ido para buscar a neta já como filha, e até levara a nora para que a pequena ficasse mais calma na viagem de volta e como pai, lamentava a sorte do filho, o que lhe dava o direito legal de levar a neta. Ouvindo-o ela disse que a família estava providenciando, como escrevera, os documentos para adoção mas, que por ela, não haveria nenhum obstáculo para que a levassem com eles afinal, sempre via na criança uma das razões da perda de sua linda filha. E desse modo, graças à Deus, tudo foi resolvido. Meu avô Benedito e minha avô Maria que foram meus verdadeiros pais. O resto de meus familiares, principalmente a tia Ondina e a Lúcia, desde quando cheguei, logo as amei. Enchiam-me de carinho que eu pouco recebera até então. Mas eram também enérgicas, porque era geniosa, teimosa demais e, quando emburrava com elas, ficava de mal, sem conversar, e as duas, algumas horas depois não aguentavam e passavam a me adular oferecendo-me coisas até que eu me enchia, ria e pronto, paz novamente. Me controlavam em tudo, até nas brincadeiras de rua, em frente em casa. Era sempre de casa para a escola e vice-versa. Mesmo quando moça, eu nunca havia ido à festas, como baile de carnaval e, em conversa com minhas amigas, que um dia já estavam se preparando para o baile de carnaval no cinema do Antônio Cepeda, que eu só tomava conhecimento através dos cartazes presos à parede, me perguntaram se eu ia com elas. Ficaram bobas quando disse que nãos as acompanharia de modo nenhum, que tirassem o cavalo da chuva e era impossível. Intrigadas perguntaram o porque, se era por causa delas e da companhia. Ai eu não aguentei e comecei a chorar, explicando sobre a rigidez férrea de minhas tias quanto a essas coisa. Embora eu gostasse muito de ver um baile de carnaval, as fantasias, alegria, 160


músicas, as cores que eu só conhecia pelas reportagens e fotos nas revistas O Cruzeiro, Manchete, jornais e rádio do meu avô, que ficava escandalizado com os biquínis e fantasias das mulheres na época. Mas acontece que o sr. João Dentista que estava próximo, ouviu-me e disse, vindo nos cumprimentar, que naquele baile que elas me convidaram, eu iria sim, ele garantia isso. Iria até minha casa e pediria para levar-me com suas meninas, como amigo de minha família. Depois de muito argumentarem, por fim consentiram que eu fosse e assim, fui ao meu primeiro baile e, quando voltei, elas estavam me esperando no portão. Vovô era muito esclarecido, acompanhava sempre a política e nunca deixou de votar, até sua isenção no alistamento eleitoral quando completou 78 anos de idade (Fig. 102). Como funcionário público federal dos Correios e Telégrafos, subiu de categoria sempre por méritos, até sua aposentadoria em 1941. Na promoção para Carteiro de Primeira Classe (Fig. 103), datada de 1935, quem assina é o então Presidente da República Getúlio Vargas e este documento é uma das preciosidades que guardamos com muito carinho. Ele quem trazia para os moradores da Vila os jornais e correspondência e para o sr. Francisco Roldan, jornais e correspondência de parentes da Espanha. Fiz meus estudos básicos aqui em Itaquera, no G. E. Alvares de Azevedo e graças ao meu tio, sr. Luiz Motta Mercier, que era o Secretário de Educação daquele tempo, pude dar continuidade aos meus estudos com uma bolsa que ganhei dele, no Ginásio Vera Cruz, na Rua Piratininga, no Brás. Depois fui estudar a escola normal em Suzano, a E.N. Liceu Santo Antônio, o que era muito divertido. Eu ia sempre em companhia no trem com o Waltinho Faysano, como um primo protetor, e todos os dias, logo que chegávamos na estação, ele corria para a padaria, onde em uma bisnaga de pão enorme, os donos que já estavam acostumados, enchiam de mortadela, queijo e, as vezes, salame. Este era o nosso lanche e comia-mos com gosto. Ele ainda pegava umas balas ou doces e, rapidamente nós tomávamos uma xícara de café com leite e corria-mos para nossas salas de aula. Era difícil o trem atrasar, chegávamos sempre com mais ou menos meia hora de antecedência, o que dava tempo de sobra para nosso lanche. Estas aventuras aconteceram até minha formatura em 1966 pois em 1967 comecei a trabalhar como professora, assim como minha avó. Casei-me e tive dois filhos, Mário e Marcus, trazidos ao mundo pelas mãos da parteira dna. Natividade, esposa do sr. Francisco Roldan. Dois anos depois do nascimento de meu filho, me separei, mas continuei trabalhando, mesmo com dois filhos pequenos, no Colégio Geraldo Domingues Cortês, aqui de Itaquera, localizado atrás do Sudan. Trabalhei lá até 1982, 15 anos consecutivos dedicados a uma só escola. Como meu avô e tios eram muito politiqueiro, sempre queriam ver se eu aceitava que eles arrumassem uma transferência para algum lugar melhor. Sabiam que eu era muito competente e estudiosa, mas sempre tive meu amor-próprio, meu orgulho e, acreditava em minha capacidade. Dizia que já estava muito grata ao tio Luiz que, como secretário deu-me a bolsa para o Grupo Vera Cruz e, eu não o decepcionara. Meu tio José Motta Mercier era, creio, um dos fundadores do diretório do PRP de Itaquera e em 1951, tinha 20 anos, fui com eles em uma reunião que, vou dizer, estava a nata de Itaquera. Eu via tudo muito interessada, meu tio estava na mesa, era presidente ou vice, não me recordo, o dr. Washington Mendonça, o João Vaccarelli, Chefe da Estação de Itaquera, o Bergamo, o Luiz Romano, o Nelson Mendonça, os Mastrocolla e o Calabrez, a dna. Lucia Izaura Amaral e até a dna. Macília Gaspar, que eram metidas em 161


política para as melhorias do Bairro e para a conquista da luz elétrica, que acabou chegando em 1951. Eu queria vencer por meus méritos, e neste tempo estudava, e foi assim que depois de estar esses anos em Itaquera, ele, como secretário, mandou-me para uma escola nova lá do Jardim Robrú que eu não conhecia, como quase ninguém de Itaquera, mas eu iria como a sua diretora, era a E.M.E.I. de Vila Nanci, que depois passou à ser a E.M.E.I. Magdalena Tagliaferro. Fui uma das que a inauguraram com muito orgulho, fiz um bom serviço por lá. Mas não pensem que foi fácil. Por lá o perigo era de manhã, tarde e noite. Ouvia-se tiros, correrias, brigas, polícia atrás dos bandidos e, com meu gênio, dava-me bem com todos eles, até almoçava com os bandidos, e dizia preocupar-me com as minhas crianças e, com cara de pau, pedia que eles me ajudassem a protege-las, e eles todos juravam que nos protegeriam, e de fato o faziam. Sempre me respeitaram e onde estivesse, sempre me cumprimentavam.

Figura 100 – Esquerda para direita – Sr. Benedicto Mercier, Ondina (filha), Nair (nora), Marcia (avó), Lucia (filha), José (filho). Crianças: Denise e Yedda (netas). 1939. Arquivo Familia Mercier.

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Figura 101 – Promoção do primeiro carteiro de Itaquera, sr. Benedicto Mercier. 1921. Arquivo Família Mercier.

Figura 102 – Declaração de isenção de alistamento eleitoral do sr. Mercier. 1955. Arquivo Família Mercier 163


Assinatura de Getulio Vargas, obtida em seu Titulo de Eleitor de 1935.

Figura 103 – Despacho assinado pelo presidente da República Getúlio Vargas91, promovendo o sr. Benedicto Mercier carteiro de primeira classe. 1955. Arquivo Família Mercier

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Assinatura original obtida em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:T%C3%ADtulo_de_eleitor_de_Get%C3%BAlio_Vargas_1934.jpg, acessado em 29/12/2010.

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Família Brenneisen por Arthur Victor Brenneisen Meu pai sr. Arthur Victor Frederico Brenneisen (1890) era de Pirassununga e filho de Sabino Frederico Brenneisen (1871) e Ana Laura Michel Brenneisen (1877), ambos de Barra Velha, Santa Catarina. Minha mãe, sra. Maria Jandyra Chagas Brenneisen (1905) era de Taubaté, filha do professor de português Bento Lopes das Chagas e Cândida Pereira Chagas, ele de São Paulo e ela de Piquete, interior de São Paulo. Eu nasci em 1929 no Bairro do Ipiranga, São Paulo. Quando eu, meus pais, minha avó materna, dna. Cândida Pereira Chagas, meu irmão Clóvis e meus tios: Dulce, Noêmia, José, Jurandir, Francisco, Messias e João (estes cinco últimos conhecidos no meio seresteiro como os “Irmãos Chagas”), viemos residir em Itaquera, oriundos do Cambucy, lá pelo ano de 1935, nosso bucólico bairro era apenas uma grande várzea salpicada de chácaras, atendida pela Estrada de Ferro Central do Brasil. Fomos morar em uma chácara de propriedade do casal Amaury Fonseca e Carolina Fonseca, que mais tarde veio a dar seu nome à uma das principais ruas da Vila Santana. Esta chácara situava-se onde hoje está edificada a fábrica “Acumuladores Nife-Saj do Brasil”, terreno que também acolheu, muitos anos antes da Nife, a primeira escola de Itaquera, que depois mudou-se para o prédio onde, até Janeiro de 2011, abrigava a Sede da Subprefeitura. Nós viéramos da capital para, como se pensava na época, o interior, só que não era o matão que minha mãe e vovó pensavam que iriam encontrar. A casa era muito bonita e bem cuidada pelo casal Fonseca. Possuía um enorme e variado pomar, além de alamedas e jardim, muito bonitos, bem cuidados e, todas as árvores possuíam chapinhas de metal com o nome conhecido e científico das árvores, colocadas pelo cuidadoso dono. Moramos lá por três anos mas, com a morte por acidente ferroviário do sr. Amaury a propriedade foi vendida, então nós nos mudamos para um sobrado do Gino Tambelline, que era encostado com a delegacia e, desde o primeiro dia e noite na nossa nova casa, a minha avó Cândida protestava energicamente. A pouca população existente no bairro gerava poucos crimes, raros mesmo. Na cadeia se encontravam bêbados, briguentos (inclusive casais) e arruaceiros de modo geral, que eram trancafiados. Quando eles se viam presos, era costume de todos começarem a gritar e bater contra as grades com o que tivessem nas mãos. Como a cadeia era um prédio residencial improvisado como prisão, as paredes eram finas, as janelas também, então tudo o que eles falavam ou gritavam era ouvido na rua e nas casas, principalmente na nossa. Minha avó não tolerava o barulho e palavrões que ouvíamos, e sabia que logo depois do barulho feito pelas canecas nos ferros das grades, vinha a bronca do carcereiro e dos soldados e, se continuassem, levavam surras de cacetete, e os berros até aumentavam. Como a vovó só vivia queixando-se e ameaçando pegar um trêm e ir embora (e meus pais também não suportavam os gritos), resolveram mudar-se de lá e fomos para a Vila Carmozina92 em 1939. Eu estava cursando o terceiro ano e foi a época que mais me ficou gravado por muitos anos na memória. Foi a época da professora dna. Edméa, do sr. Barreiro, a enérgica diretora dna. Claudina, meus amigos de escola e, o servente sr. Antoninho, que cuidava da disciplina dos alunos no páteo da escola. 92

Vila também Pertencente à Itaquera. N.A.

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A primeira família que a minha fez amizade, logo no inicio, foi a do sr. Antônio Mendonça. Ele tocava violão junto com o Nelson, que era chefe da estação, e o Washington93, que também tocavam muito bem o cavaquinho, no conjunto do sr. Antônio Di Nolla, e se apresentavam antes das exibições e no intervalo dos filmes no cinema de Itaquera. “O NOSSO CINEMA Por informação directa do sr. Antonio de Nolla, proprietário do novo edifício destinado ao cinema local, proximo á Estação, informamos aos nossos leitores que o referido sr. pretende em breve fazer funccionar aquella casa de diversão publica, o que até agora não fez, por esperar o cumprimento da promessa da Light, de nos fornecer força e luz. É, ao menos, uma esperança para o macambúzio povo itaquerense, que vive certamente, com uma saudade doida de um cineminha. E dada a grande concorrência que logrou o Circo que esteve ha pouco em Itaquéra, é de esperar que o cinema não fique ás moscas, sendo o cinema, como é, a cachaça do povo divertido e sentimentalista. Parece-nos que o sr. Nolla, mesmo com algum sacrifício inicial, e ainda que com a installação de um motor e dynamo particulares, devia dar-nos esse prazer, além de poder estar certo de que o seu capital não seria perdido, dando, com a pratica que já possue, uma bóa directriz á sua casa de diversões. Já concorrendo com espectáculos comicos, já alugando o seu salão a sociedades recreativas, ou a particulares, etc. Seria, cremos, um elemento muito bom de progresso para a localidade e de concentração com que muito lucrariam o seu proprietário e o povo de Itaquéra‖ 94. Minha família morou um tempo em Poá mas, quem já tinha tomado como nós a água de Itaquera e banhara-se no seu luar, o mais bonito de São Paulo, não quer mais saber de outro lugar e voltamos, saudosos da turma. Dos Carvalhos, Ciro e Nêgo, filhos do tenente Navarro, do Pai da Vaca, do Teléco, Cuica Minha Gente, Walter Espirro, Chico Sorveteiro, Ramos, os Roldan, etc. Também atuei no futebol de várzea de Itaquera. Joguei no 1º e 2º quadro do Juvenil e Esporte do E.C. Relâmpago, até que um domingo briguei com o técnico, então fui convidado a ir jogar no time da Nife. Lá, o Narciso e o Vampiro não me deram a camisa nem de reserva, dizendo que os times estavam completos, e eu só dava chutão. Ai eu disse para eles e para os jogadores lá mesmo no vestiário: “ – Está bem, não sirvo para jogar na Nife, mas digo para vocês que em qualquer time que eu jogar sempre o meu é que irá ganhar, vocês verão”. De fato, joguei quatro vezes contra eles e nunca perdemos. Ai fui convidado por um time que havia sido fundado recentemente. No primeiro jogo enfrentamos justamente a Nife, que tinha um baita time, e achei que desta vez iria perder. Placar final: Mourisco 3x2 Nife, com uma perda de penalti pelo “Mula”, no finalzinho, mantendo-se minha palavra. Neste tempo, 1952, conheci minha futura esposa, sra. Dayse. Sua família era vizinha do sargento Fabruzzi. Começamos a namorar e, no primeiro domingo, em vez de namorar fui jogar no Ipiranga pelo Elite. A disputa estava tão acirrada que acabou saindo até briga. Voltamos todos “ferrados” e “estropiados”, e ainda levei bronca da namorada, mas pelo Elite valeu a pena pois ganhamos da Nife por 4x2, e eu havia comprado e inaugurado o primeiro filme colorido para fotografar os times. 93

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Dr. Washington L. de Mendonça, depoente aqui registrado. N.A jornal “O Suburbano” nº23 – Janeiro de 1932.

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Nos finais de semana eram os jogos de futebol de manhã à tarde, a noite eram os bailes e cinemas. Era a maneira de que nós homens encontrávamos para acalmar as namoradas e as esposas. Naquele tempo não existia luz elétrica no Bairro e à noite, centenas de lampiões e lamparinas de querosene ou luz de velas iluminavam a escuridão Itaquerense. Os moradores de mais posse possuíam lampiões a gasolina ou carbureto, e muita gente tinha lanternas a pilha para sair à noite e iluminar o caminho. Nesta época, as vovós, mamães e titias, após o jantar, colocavam cadeiras em frente às suas casas e ficavam contando “causos” e batendo papo, pois o termo “fofocar” também era inesistente. Enquanto isso as crianças brincavam por ali, à vista de todos e até a hora de dormir, pois não existia luz elétrica, muito menos televisão, apenas as revistas do Flash Gordon, de saudosa memória. Quem podia, possuía um rádio de Galena, daqueles de fones de ouvidos. Essa era a pacata e serena vila dos Itaquerenses, nos velhos tempos que não voltam mais. Entretanto, nas noites em que a lua cheia banhava de prata o pequenino bairro, os seresteiros apareciam nas ruas, a cantar modinhas, canções, Valsas e, executar os belos Chorinhos de Pixinguinha e outros. O maior organizador destas serenatas era o sr. Antonio Di Nolla, o célebre “Nolla”, exímio flautista, acompanhado de seus amigos, Jurandyr, Zezinho, Messias e Chico “Pandeiro” (os irmãos Chagas), Reis (violão), Onça (banjo), Armênio (Tantãn), Diamantino (violão Tenor), dr. Washington Luiz de Mendonça (cavaquinho, e outros mais cujos nomes me fogem à lembrança. Eu gostava de acompanhar as vezes os bailes e serenatas animados pelo sr. Antônio Di Nolla e pelos meus tios, os “irmãos Chagas”. E para todos os lugares que a turma ia, carregavam os seus instrumentos e íamos a família toda, inclusive minha avó Cândida, como podem ver nas fotos (Figs. 104 e 105).

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Figura 104 – Turma de seresteiros de Itaquera. 1947. Arquivo Família Brenneisen.

Figura 105 – Os Seresteiros de Itaquera participando de uma festividade na cidade vizinha de Poá em frente à Gruta do Padre Eustáquio. 1947. Arquivo Família Brenneisen.

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O sr. Antonio di Nolla foi também sub-delegado de Itaquera e foi quem construiu o Cine Itaquera, que até a inauguração da luz elétrica no bairro era iluminado por um gerador movido à gasolina, permitindo que os Itaquerenses tivessem acesso à maravilha do século, graças à visão de futuro e inteligência do sr. Nolla. Infelizmente e, apesar de tudo o que fez pela região, não tem o seu nome em nenhuma rua do bairro, nem de travessa, nem mesmo um “Bêco do Nolla”, bairro que viu e trabalhou para crescer. O luar de Itaquera era, e ainda é, o mais bonito de se ver. Muitos anos depois, em 21 de novembro de 1980, relembrando aquelas célebres Serestas ao Luar, naqueles tempos felizes, eu criei uma melodia e que dei o nome de “Luar de Itaquera”. Eis a letra para a posteridade:

Luar de Itaquera (Arthur Victor Brenneisen - 21/11/1980) Há quanto tempo, que eu não vejo a luz da lua. Nesta cidade, que é tão bomita assim, Há quanto tempo, não escuto as Serenatas, De Cavaquinho, Violão e Bandolim … Antigamente, não havia luz elétrica, Em Itaquera, era total escuridão, E nas noites de Luar Itaquerenses, A gente ouvia os seresteiros de então … Era tão bom o som da Flauta do “Velho Nolla”, Zezinho Chagas e o Reis aos Violões, E o luar de Itaquera, tão bonito, Que saudades as vezes sinto, do tempo dos Lampiões … Por suas Ruas, hoje eu passo tão tristonho, Ao ver que o sonho, tão bonito, teve fim, Da serenata, só restou o som da Flauta, Do Cavaquinho, Violão e Bandolim … Em 2007 eu e o amigo Walter Faysano escrevemos outra letra de música, para ser cantada com a música “Gente Humilde”, de autoria de Aníbal Augusto Sardinha, o “Garoto”.

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Bons tempos de Itaquera (Letra Arthur Victor Brenneisen e Walter Faysano - 10/09/2007) Faz muito tempo, vim morar nesta cidade, E a mocidade quase toda aqui passei. Uma cidade pequenina, simplesinha, Mas, tão bonita, que logo me apaixonei… Naquele tempo, luz eletrica não tinha, E à noitinha, se acendiam os lampiões; Os Seresteiros desfilavam pelas ruas, Com suas flautas, cavaquinhos, violões… Aos domingos, após a missa na Matriz, A rapaziada ia assistir ao futebol; Amor e Glória, Democrático e Elite, Se enfrentavam sob chuva ou sob sol… Depois do jogo, havia sempre uma retreta, Lá no Coreto, para a gente apreciar; Pois, a Bandinha, caprichava nos Dobrados, E as Melodias, ecoavam pelo ar… Festa do Pêssego na Colônia Japonesa, Todo o ano, a gente ia festejar; Os carnavais, aconteciam no Cinema, Lindas marchinhas, para nos fazer sonhar… E as batalhas de confete e serpentina, Lanças-perfumes, se espargiam pelo ar; Os namoricos, lá na Ponte do Suspiro, Junto à biquinha, sempre davam o que falar… Na estação, a Maria Fumaça apitava, E a gente ia a contragosto trabalhar; Mas, na viagem, com o trem superlotado, Os passageiros, não viam a hora de voltar… Os “Irmão Chagas”, animavam as festinhas, E os bailinhos, no Cine Wanderley; Lá esperavam, as nossas namoradinhas, Tão bonitinhas, cheirosas, que nem sei… Me lembro ainda, da Pedreira, explodindo, Sempre as onze horas, que era hora de almoçar; Por entre as pedras, o granito azulado, Que era entre todos, o mais difícil de encontrar… Lá no planalto eu passava toda a tarde, Observando a fabriquinha funcionar; E a garotada, sempre, depois das aulas, Ia correndo ao Poção, para nadar… O nosso ponto, era lá na Vencedora, Onde a gente ficava, apreciando o trem passar; São tantas coisas que eu guardo na memória, Sinto no peito, uma dor a apertar… Com alegria, vou falar de minha Vila, Vila Santana, que eu jamais esquecerei, Vila Santana, onde mora a poesia, E o Santana Itaquerense, onde eu joguei… Vou pelas ruas, relembrando na memória, Grandes amigos que aqui vim encontrar; Ai! Que saudade minha gente, sinto agora, Tanta saudade e uma vontade de chorar… E essa vontade de chorar, que agora eu sinto, Digo e não minto, é uma vontade sem igual, Pois, quando eu passo pelas ruas da cidade, Que antigamente, era subúrbio da Central; Fico tristonho, e uma saudade tão pungente, Invade a ama e se desfaz no coração; Então me lembro, era tudo diferente, Antigamente, tudo em Itaquera, era tão bom…

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Figura 106 – Festa de São João no Cine Itaquera. 1952. Arquivo Família Brenneisem Meu primeiro emprego em Itaquera foi no escritório de contabilidade do Barrocas, que era cego. Depois o Nelson Mendonça juntou-se à equipe e o dr. Washington em seguida. A esposa do Barrocas, dna. Brasiliana também trabalhava e a dna. Lorena era a datilógrafa. Certo dia, minha tia Noêmia depois de conversar comigo indicou-me para um emprego na Tecelagem Mourisco, onde eu iria trabalhar por pouco tempo pois acabei sendo demitido no dia 30 de Junho de 1960. Mas no dia 01 de Julho do mesmo ano, o sr. Fausto Betine, que era dono da tecelagem e que fornecia os tecidos, contratou-me. Ele era tio da minha esposa e todos os funcionários o amavam pela sua bondade. Eu logo fui encarregado de fazer as contas e trabalhávamos todos com muito gosto. Um dia apareceu uma proposta do Sizenando, irmão da minha esposa, que queria me contratar para trabalhar em sua firma. O problema para resolver era sério pois o sr. Fausto gostava muito de nós e dizia que como não tinha parentes que se interessassem pela tecelagem, iria deixa-la para nós. Até para nos agradar, comprou jogos de camisa completos e caros, e foi o primeiro a assinar o Livro de Ouro do “Mourisco Futebol Clube”. O Sizenando insistia para irmos trabalhar com ele. Dizia que nosso salário seria o mesmo dos funcionários públicos, etc, etc. Água mole em pedra dura… Eu fui dizer ao bondoso patrão que iria pedir a conta e ele tomou um choque. Olhou bem para mim e disse que o que sempre falava era a pura verdade, que iria deixar a fábrica para nós e, que só fazia um pedido, que ele morrendo, nós déssemos uma pensão para sua esposa enquanto ela fosse viva, só pedia isso. Eu tive que fazer força para não fraquejar e disse que ele não ficasse aborrecido comigo, reconhecia a sua generosidade e agradecia de coração a sua oferta, mas eu não estava de olho em seus 171


bens, pois também o amava como a um pai. Ai veio-me na cabeça uma desculpa inspirada e, pedindo~lhe mais desculpas disse que o problema era um só e sem remédio, o barulho dos teares estava prejudicando o meu sistema nervoso e, a conselho médico, eu teria que renunciar tão agradável ambiente de trabalho, onde só haviam amigos, uma verdadeira família, mas que sabia que Deus o conservaria vivo por muito tempo ainda. Saindo de lá, fui para o escritório onde trabalhei alguns anos, até ser convidado para ser sócio, mesmo com quase nenhum capital, em uma firma de construção na Rua Barão de Itapetininga. Mas acabei me arrependendo muito pois o serviço que tínhamos que executar era carregar areia, cimento, pedra, cal, etc. Pedia em oração que Deus me ajudasse e, um dia almoçando ví um anúncio no Jornal Diário Popular, que precisavam de uma pessoa para trabalhar em um escritório. Essa era a minha área e não perdi tempo, rumei para lá. Fui recebido por um homem que me perguntou se tinha experiência em preencher títulos, ofícios, duplicatas, etc. Respondi que era datilógrafo e, sem piedade disse que eu não servia, acompanhando-me até a porta. Foi quando chegou nosso amigo de Itaquera, o João Dentista que me cumprimentou com sua alegria e perguntou-me o que estava fazendo lá. Expliquei-lhe tudo e ele dirigindo-se ao homem disse: “Ele pode ser contratado sim, é primo”. E foi assim que pelo pai do meu amigo Délcio da Silveira, o sr. João Dentista, eu fui contratado para trabalhar para o sr. Etervaldo, no escritório do Oficial Maior, sr. Mário da Silva Rangel, em 1963. Em 1953, decidi comprar um lote na Vila Santana e fui informado que o sr. Aguilar, ia lotear sua gleba, onde tinha o antigo campo do Elite. Neste tempo eu ainda namorava e, meu pai aprovando a ideia deu-me de presente a importância da entrada que foi de Cr$1.000,00, e eu ia pagando as prestações de Cr$100,0095. A Dayse era escrivã, ganhava seu ordenado e ia guardando para o enxoval, etc., eu também e, como já disse, nós queríamos casar. Um dia, naquelas conversas de namorados e sonhadores, nós combinamos que todos os meses ou sempre que fosse possível, nós compraríamos um bilhete de loteria, uma fração e, Deus nos ajudando, se ganhássemos, seria para construir a nossa casa, a de nossos sonhos. Eu admirava a fé da minha noiva, inclusive a da esperança na loteria. Acontece que naquele tempo, por vários anos, nós tínhamos o costume de passar o carnaval em Caraguatatuba96. Íamos todos com carros e um dos caminhões do grande amigo Paulo Faysano, a turma toda. Em uma destas viagens, enquanto fazíamos os preparativos para a viagem, a Dayse nos chamou e disse que ia comprar o nosso bilhete da loteria. Toda a turma aproveitou e comprou a sua fração. No outro dia, logo cedinho o Binau tocou a buzina do caminhão e fomos todos para dentro. Caraguatatuba e a casa da praia nos esperava. Passamos o carnaval nos divertindo bastante na praia, e no sorteio da quarta-feira nossos bilhetes foram sorteados. O que a Dayse havia escolhido deu. Que baita alegria! Deus nos ajudara, a casa estaria garantida e a Dayse já tinha escolhido o modelo.

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Em Janeiro de 1953 o salário mínimo estava em Cr$1.200,00, relativo à U$64,21, equivalente à 7g de ouro ou na moeda de hoje R$559,00. Fonte: <http://www.jfpr.gov.br/ncont/salariomin.pdf> Acessado em março de 2011. N.A 96 Cidade Litorânea do Estado de São Paulo.N.A.

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Figura 107 – Dr. Washington Mendonça, a esquerda, e o dr. João da Silveira “Dentista” a direita. 1957. Arquivo Família Mendonça. Foi um final de carnaval maravilhoso e a Dayse não cansava de agradecer à Deus com preces e até eu fiquei com mais fé e agradecido. Mas ainda faltava ir receber a nossa bofunfa, que era de Cr$200.000,00 que, com o desconto do imposto de renda foi para Cr$199.000,00. Fomos falar com o Babi, que tinha o depósito de construção em Itaquera e uma equipe que cuidava das construções. Fez o orçamento e o total foi de Cr$135.000,00. A casa ia ficar do jeito que a Dayse queria, até com telhas paulistinha, inédito no bairro por muitos anos. Separamos o que gastaríamos na casa e, como havia prometido, deu uma parte para ajudar a família. Como sempre em construção, o valor orçado é um e o gasto é outro, resumo, tivemos que pedir Cr$30.000,00 emprestado mas a casa ficou pronta. Nós dois duros e endividados mas felizes, a nossa casa enfeitava o terreno e nossa Vila Santana. Fiquei morando sozinho na casa, que era enorme e vazia, por um ano, até o nosso casamento. Depois que pagamos a dívida, fomos até o Mappim97 e compramos uma cozinha americana completa. Tinhamos amizade com o dono de uma loja de móveis, perto da Tecelagem Mourisco onde havia trabalhado, e ali compramos o resto dos móveis.

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Tradicional loja de departamentos paulistana. A sede era inglesa, fundada em 1774, e trazida para o Brasil pelos irmãosWalter e Hebert Mappin na década de 1930.

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Depois da casa estar montada, linda por fora e por dentro, só alegria, muito amor, carinho, fé e esperança, fizemos os convites e, em Maio de 1957 realizamos nosso sonho de amor e, em Março de 1959, nasceu meu primeiro filho, Waldir, seguido de Sidney e Sandra, completando nossa felicidade. Fomos felizes juntos, até o seu passamento e, ainda graças à Deus, posso me considerar feliz. Hoje canto meus louvores em Odé à esta terra querida, na qual tantas alegrias, tantos momentos felizes e tanto amor que ela proporcionou e continua proporcionando à mim e minha família, terra dos netos. Vou por enquanto ficando por aqui, estou preparando-me para o jogo do meu próximo aniversário em Fevereiro no Campo do Santana. Conto com todos fardados ao meu lado, jogaremos juntos mais uma vez e tiraremos bastante fotos. * Em 2008, o sr. Arthur Victor Brenneisen foi agraciado pela Câmara Municipal de São Paulo com um voto de júbilo e congratulações, por servir como mesário voluntário há 45 anos, colaborando com a Justiça Eleitoral da 248ª Zona Eleitoral, em Itaquera, fato registrado em Maio do mesmo ano98.

Figura 108 – Artigo publicado em Jornal do Bairro, noticiando a homenagem oferecida pelo Serviço Eleitoral ao mais antigo mesário de São Paulo. 2004. Arquivo Família Brenneisen.

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<http://www.tre-sp.gov.br/noticias/textos2008/not080731a.htm> Acessado em julho de 2011

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Família Vaccarelli por Oswaldo Vaccarelli Neste relato, foi mantido o aspecto de diálogo entre o entrevistador e entrevistado, a fim de ilustrar o “modus operandi” utilizado na construção da presente obra. - Toninho, o que eu puder ajudar, eu faço com muito gosto. É como o caso da sua esposa e o da sua família, vindos da Europa, e tantas coisas fizeram aqui, no tempo lá da venda sem luz, mas com os lampiões. O seu Gaspar era cunhado do seu sogro, eu sei porque éramos seus conhecidos, o meu pai o conhecia a muitos anos, desde a vendapadaria lá do Parque Guarani, eu era muito amigo do “Dema” Gaspar, e ajudava-o na entrega dos pães e doces que ele fazia. Toninho, você sabia que meu avô foi o primeiro a fazer uma padariazinha lá no Centro de Itaquera? Sabe onde tinha aquele grande CataVento de água perto da casa do Chefe da Estação, e que meu tio João Vaccarelli morou quando era o chefe da estação? - Sei, claro. - Ele tinha comprado várias terras aqui em Itaquera, como também o outro meu avô, e uma destas terras era lá perto da Casa da Estação, assim fez uma padariazinha que nem dava conta da freguesia, pois vinha gente até lá de São Miguel. Com o tempo e outras atribulações, meu avô não mais poderia tocar a sua, e estava preocupado, pois não havia outra padaria para suprir a falta. Então chegou o “seu” Gaspar e montou a dele, e meu avô ficou contente, porque eles não ficariam na mão. Depois nós nascemos e crescemos e acabamos, como disse, ajudando a levar os produtos de carroça por muito tempo, depois ele comprou aquele furgãozinho fechado de cor azul, lembra? O meu avô tinha uma olaria lá para o lado da colônia japonesa. - Lembro, mas como você já viu, eu gostaria que você fosse me dizendo os nomes, as datas de vinda, as coisas da família, porque eu estou anotando como você está vendo, aí você conta. - É mesmo Toninho, tem razão e você pode ter outras coisas para fazer, não é mesmo? Mas vamos lá, vou dizendo de cabeça porque depois eu vou procurar mais algumas coisas, ver com a minha família e as primas e elas passam para você. Vou começar por nossa família, comigo primeiro não é? Meu nome é Oswaldo Vaccarelli e nasci aqui na Vila Santana, ai no casarão em que a parteira foi a sua avó, dona Natividade espanhola, e fez o parto não só os da minha família ou meus irmãos, como dos meus primos e primas, e o da Dita Novelli. Eu era pequeno, tinha uns dez anos e já estava na escola, no Álvares de Azevedo, e a professora era a dna. Edméia, a esposa do grande farmacêutico “seu” Barreiro, cuja experiência era semelhante à do nosso médico, o dr. Loverso. Bem, um dia a professora na aula de história ou geografia, eram juntas, lembra? Pediu para que nós desenhássemos a bandeira de nossa pátria, com as orientações que ela havia escrito na lousa. Eu desenhei a do Brasil bem caprichada e pintada com lápis de cor. Então fiquei olhando o desenho, que já tinha terminado e, prestei atenção no que estava escrito na lousa: “nossa pátria”. Na minha inocência e ignorância ainda, não quis arriscar, e fiz a bandeira das treze listras de nosso estado, que é a nossa pátria, não é mesmo? Mas quando nós entregamos os desenhos, a professora pegou minha folha e olhou-a bem, com muita atenção. Eu fiquei até satisfeito por ver a sua atenção no meu desenho caprichado, gostava de saber desenhar mais ou menos bem, mas tremi de medo quando a vi fechar a cara e rasgar a minha bandeira. 175


Lembra-se de como a diretora dna. Claudina fazia com os alunos no páteo, ou na fila do recreio, ou nas filas da entrada ou saída, pegando e puxando as orelhas, ou pegando e apertando o músculo do ombro perto do pescoço? E isso doí pra burro. Pois bem, a professora puxou-me a orelha sacudindo-a, e já era hora da saída, eu saí correndo, meu pai ia em frente passando e, ao ver-me chorando com uma mão na orelha e a outra com a minha malinha do material, quis saber o que ocorrera, se brigara na escola e levara um “pé no ouvido”, como se dizia naquele tempo. O que tinha me acontecido pelo meu choro, não era tanto a dor, mas sim que eu não entendia o que ocorrera e mais, não me conformava com o resultado da minha boa intenção com o desenho e a preocupação de não errar. Acabei recebendo como nota um puxão de orelha bem forte? Meu pai voltou a insistir e eu disse o que ocorrera direitinho. Novamente insistiu na pergunta, se eu estava dizendo a verdade mesmo ou inventado, como eu jurei, e isso era coisa séria entre nós, meu pai disse que ia falar com a professora ou com a diretora. - Melhor, com as duas, isso não se faz com filho meu, vou antes que ela saia para pegar o trêm das professoras. Vem comigo mesmo chorando, vamos lá, quero ver o que elas vão me dizer, onde já se viu uma coisa dessa, sei que você falou a verdade. E subimos as escadas e entramos pelo portão a dentro. Eu fiquei com medo, o que a minha professora iria fazer comigo depois? Fui seguindo ele até a diretoria, onde as professoras assinavam o livro de ponto e saiam. Foi quando a dona Claudina viu-nos e disse com sua fisionomia autoritária para meu pai entrar e dizer qual era o problema. Meu pai repetiu para a diretora o que eu dissera, e queria saber o porque da tentativa para arrancar-me a orelha, mostrando-a que estava vermelha, que eu não podia ver mas ainda doía. Ela chamou a minha professora, que confirmou o que havia feito, e meu pai perguntou o porque do ato tão violento contra a criança. Disse-lhe que quando me viu saindo da escola correndo chamou-me e, só depois reparou que eu segurava a orelha e chorava, fez-me contar o que ocorrera e só dissesse a verdade. - É tudo verdade - disse ela - só que eu pedi-lhes a bandeira do nosso país, e ele a fez, só que também desenhou, e bem feitinho como a do Brasil, a de São Paulo, que eu não poderia pedir, nem apresentar os trabalhos na diretoria de jeito nenhum. - Por que? Não estavam do seu gosto mesmo bem feitinho como a senhora disse? - Estava sim o trabalho bem feito, mas ele teve o desaforo de fazer a bandeira Paulista, e que ela foi tirada de todo o País e proibida pelo Getúlio Vargas. O senhor não sabia? Meu pai disse que isso era um dos absurdos do Getúlio e sua laia e, o filho pagara. A dona Claudina, que conhecia meu pai, entrando na conversa perguntou-me: - Vaccarellinho, diga-nos o que deu na sua cabeça para fazer isso. Foi desaforo? Eu fazendo força para não chorar, contei, “tim-tim por tim-tim” o porque do desenho. Elas então se reuniram e comentaram entre elas sobre o ocorrido. A minha professora chegou perto de mim e disse: - Oswaldo, agora nós entendemos, até compreendo sua dúvida e o querer acertar tendo o trabalho dobrado. Peço que você me perdoe. Você sabe que não sou bruta com vocês, e você até que é bom aluno. Foi um ato impensado e que eu já havia me arrependido. Puxa, falar a verdade, ouvindo-a e sentindo sua mãozinha na minha cabeça eu disse que estava tudo bem, que ela também me desculpasse e, veja só, até gostei do ocorrido. No outro dia a aula foi normal e tudo esquecido, veja só como a gente era nesse tempo! 176


Mas voltando à minha casa. Lá eu nasci e me criei, até que me casei. Nasci em 14 de Dezembro de 1936. Como já disse, nesta casa feita pelo meu pai e avô, casei-me com a Maria de Lourdes Vasconcelos Vaccarelli, nascida em 15 de Maio de 1943. Ela nasceu em Rancharia99 onde estão todos seus parentes. Quando lá vamos, ficamos quase um mês, porque todos eles querem nos ver e ficamos uns dias com cada família, e é duro para voltarmos, mas temos os filhos. Meu pai Francisco Vaccarelli nasceu em 08 de Agosto de 1907, no bairro do Bom Retiro, mesmo lugar que mamãe, Maria Carmém Vaccarelli, nascida em 06 de Janeiro de 1912. Meus avós paternos são Antonio Francisco Radin, nascido em 1837 e minha avó Maria Radin, nascida em 1844, ambos italianos e venezianos. Lá trabalhavam na lavoura de sua família desde meus bisavôs. Chegaram no Brasil em 1877 e foram trabalhar no comércio. Meus avós maternos eram Cosme Jean Francisco, italiano da Sicilia e Josefina Jean Francisco, também italiana de Verona. Ele nasceu em 1832 e ela em 1835. Em 1870 vieram para o Brasil. Lá em Itália também trabalhavam na terra, só que em propriedade de seus familiares à séculos, onde produziam uvas e fabricavam vinho. Também eles ficaram um tempo no Bom Retiro, trabalhando no comércio de secos e molhados, bebidas, laticinios, etc, como a dos amigos Francisco e Maria. Sua casa era próxima do lugar que fundaram o Corinthians e eles conheciam os fundadores, que eram seus amigos e fregueses. Meu avô tinha muitos relacionamentos, pois era inteligente e possuidor de boa cultura. Também tinha muita experiência em dirigir trabalhadores, conseguida lá na Itália, nas terras de seus pais e avós. Influenciado pelas conversas de amigos que migravam para o Brasil, e diziam ser uma terra de muitas oportunidades para progredir, enriquecer, criar e dar estudos aos filhos, pegou a parte do que lhe cabia como herdeiro e vieram para o Brasil, ele e sua esposa. Dizia que nunca havia se arrependido pela resolução que tomou. Como estava dizendo antes, ele, por suas experiências, foi convidado e contratado para ser um dos chefes de turma na construção da estrada de ferro Central do Brasil – linha Variante. Ele foi conhecer o trecho que trabalharia junto com o pessoal que estava sendo arregimentado para formar a “sua turma”, e tanto ele como os responsáveis pela engenharia viram que o serviço seria árduo. Ele estava acostumado com as terras de sua Itália, cuja formação era de vales e montes mas, a do Brasil era de outro tipo, cortariam grandes extensões, sempre procurando manter a reta. Ele viu que havia lugares que até precisaria de aterros. Existia muita água pelo caminho que a estrada de ferro iria cortar, e muitos trechos eram bem próximo de um rio de respeitáveis águas 100. Logo imaginaram possíveis transbordamentos, como ele já havia presenciado nas margens do Tamanduateí e do Anhangabaú do início do século passado, mas como dizia, não era problema dele, mas nem por isso deixou de dar os seus palpites a pretexto de conselhos e alerta. Meu avô gostou muito dos lugares em que iriam trabalhar, as paisagens se alternavam de quilômetro à quilômetro. Passariam por matas, por campos cobertos por capim, várzeas com lagos, onde ele deliciava-se vendo os bandos de garças voando, outras nas margens e no meio das lagoas, com suas pernas compridas e seus longos pescoços. Via que estas últimas quando davam bicadas, mergulhando a cabeça na água e levantando em seguida, traziam sempre um peixe preso ao bico, em que as vezes eram de tamanho grande e chacoalhavam-se, tentando se libertarem daquelas pinças que os seguravam. 99

Cidade de Rancharia, interior do estado de São Paulo, próximo da cidade de Presidente Prudente. O Rio Tietê.

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Ele chamava a atenção de seus companheiros para observarem a cena, e todos se admiravam com o fato, perguntando como era possível os peixes mais grossos que o pescoço da tão bonita, elegante e branca ave ser engulida com movimentos tão precisos. Viam os movimentos de seus bicos para o alto, posicionando o peixe que, como por encanto, desciam de cabeça para baixo por seus pescoços, engrossando-os até que chegavam ao papo, que se confundia com o corpo. E elas após essa caça (ou pesca), seguiam andando com suas passadas calmas e graciosas pela lagoa. Eles ficavam comentando como é que cabiam peixes tão grandes e largos nos papos ou no corpo delas, e meu avô tido como estrangeiro culto era levado a explicar aos companheiros, onde todos prestavam atenção: -É meus amigos, são criaturas como tantas outras das criações de Deus, que quando foram criadas com seus corpos, já traziam e trazem os conhecimentos em seus bicos, olhos, pernas, estômago e papo, que são capazes de alargarem-se para permitirem que engulam e, como nós vimos já várias vezes, como não sei como dizer em português, conseguem manipular qualquer coisa com seus grandes bicos. Como fazem nos circos os malabaristas, jogando para o alto, bolas, garrafas e outras coisas sem deixarem cair E os que engolem espadas, engolindo as lâminas até o punho delas. E vejam que são de aço, pois eles sempre as dão para a platéia para que as examinem antes e depois do espetáculo. Parece impossível mas não o é, são criaturas especiais mas que treinam muito para isso, como aquelas aves, espetáculos da natureza para quem tem olhos para ve-las. Assim como as cobras, que também já vimos engolirem os pobres sapos, rãs, ratos e os maiores, que disseram-me ser preás. Todos estes também são maiores que suas pequenas bocas, e elas as engolem inteiras, Assim como aquelas cobras, que não vi ainda, que engolem cães, cabras, bois e até gente. Mas as garças que vimos faz-me pensar que as vezes, eu e muitos de vocês ao levar o garfo ou colher na boca com alimento, o derrubamos na mesa ou sujamos o peito, isso com duas mãos que temos, e se fossem bicos então, sem mãos para ajeitar antes? E todos concordavam, e isso fazia-os respeitarem mais o chefe com seu sotaque, e nós que desde garotos quando ouviamos estes casos, também o admirávamos orgulhosos de sermos seus netos. Todo o caminho era feito no lombo de cavalo e, deram um lindo cavalo para ele. Na Itália ele também já os utilizava, e assim, logo ele e o cavalo já fizeram amizade, a ponto de que ele dormindo na sela, o cavalo voltava sozinho ao acampamento. Tinha também, como disseram meu avô e pais, os importantes “doutores geólogos”, que iam na frente da comitiva examinando o dureza do chão, a constituição da terra, e orientando o que tinha que ser feito em locais específicos, que marcavam com uma espécie de bandeira com ponteira. Meu avô ia junto, anotando em um bloco que levava em um embornal101, e os que traçaram o caminho também iam sempre mais a frente (os topógrafos e agrimensores). Depois de muitos dias de estudo, eles chegaram a mais importante e única povoação depois da Penha, era o pequeno pequeno bairro de São Miguel. Vovô, muito católico, foi na capela fazer suas orações, agradecer e pedir por ele, por seus familiares e pelos companheiros de trabalho. Disse que sentiu-se tão reconfortado naquela tão simples e tão humilde capela, que imaginou-se tal como vendo Jesus menino no estábulo, no presépio em que nascera, e resolveu ali que compraria algumas terras naquela cidadezinha. Era para ele, como dizia, como um marco, como 101

Sacola confeccionada em tecido grosso, como lona, couro ou brim, com alças laterais do mesmo tecido, usada à tira-colo. Mesmo que bornal. N.A.

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outros o fora ao longo de sua vida, da mesma forma como era o bairro do Bom Retiro, primeiro lugar de sua residência com a família. Enquanto os que pensavam planejavam, os outros iam ajeitando o chão, colocando os pesados dormentes todos no nível e, depois, no muque, os homens levavam os muito pesados trilhos de ferro ou aço, sei lá! Era um trabalhão. Tudo feito na mão, na enxada, enxadão, picareta, broca de furar a dura madeira, rodada nas mãos como saca-rolhas com grandes chaves e, por incrível que lhes poderia parecer, eles tinham prazos para as metas que eram pontos bem distantes de paradas, por isso trabalhavam com chuva ou sol, calor ou frio, e meu avô sempre em cima de seu fiel cavalo, que quando recebeu tinha um nome, que não me recordo, mas meu avô trocou para “vagão”, porque ele sempre estava em cima dele e muitas vezes andava por entre os trilhos, observando os trabalhadores e dando suas instruções. O animal era bem inteligente, tanto a passo como trotando, nunca pisava em falso, o que era um perigo, podendo quebrar a pata e ter de ser sacrificado. Entendia o vovô tão bem que, ainda sem que o levasse pelas rédeas, ele o seguia andando atrás, como um caõzinho. Todos admiravam a afeição dos dois, também pudera, desde pela manhã até a noite estavam sempre juntos. A medida que os trilhos iam avançando, vinha sempre atrás uma locomotiva, que trazia com dois ou três vagões, os trilhos e os dormentes que seriam colocados à frente, levando e trazendo também os trabalhadores que precisavam voltar, vovô entre eles. Montavam tendas e barracas para vigiarem o material e o acampamento, e muitos decidiam pernoitar no acampamento para descansarem mais, as vezes vovô também ficava e, do lado de fora o seu amigo “vagão” ficava a sua espera como cão de guarda. O pessoal se divertia pois até com seu assobio, o cavalo atendia e se aproximava dele. Mas acontece que entre os trilhos precisavam colocar as pedras de brita como existem até hoje e, pode estar certo, que no mínimo 90% são daquele tempo ainda. Em toda a extensão era somente um par de trilhos, somente nos entroncamentos antes das estações eles dividiam-se, dois para cada lado, quem ia e quem vinha dos lados de São Paulo e Rio de Janeiro. E vovô precisava conhecer também o lugar que fornecia uma parte das pedras, e foi assim que pelos caminhos que foram percorrendo a cavalo, sempre passavam próximo ao Rio Jacú, entrando pelas terras da fazenda da Casa Pintada, saindo pela Vila Santana. Também tinham o costume de parar e orar na capela de Sant’Ana, que também o impressionou, e dali seguiram até atravessarem as terras da estrada ao lado da estação de Itaquera, indo sempre em direção a pedreira que foi muito importante para o desenvolvimento das estradas de São Paulo, sem falar na construção da Catedral.102 E foi assim que a família começou a interessar-se pela Vila Santana. Comprou toda a frente desta nossa casa, de ponta a ponta, da atual Rua Carolina Fonseca até a Rua Coronel Rodrigues Seckler, que foi o primeiro representante da Prefeitura de São Paulo em Itaquera, assumindo como subprefeito, nomeado pelo prefeito Dr. Pires do Rio e, em 1918 vovô construiu estas casas geminadas, onde viemos morar enquanto fazia o casarão que eu nasci. Veja como são as coisas, na esquina da Rua Carolina Fonseca nossa família colocou uma construção destinada ao comércio e, somente tempos depois o nosso amigo Juvenal Vampiro montou um barzinho. Ele morreu, o estabelecimento ficou fechado por

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Catedral Metropolitana de São Paulo ou Catedral da Sé.

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anos e somente agora o Japonês e a família tocam a pizzaria e, se você já experimentou, viu que ele e sua esposa, a dna. Amélia, fazem boa pizza, não somente pastel103. Mas vamos continuar então, eu já disse que a casa ficou pronta, a casa que nasci, em 1922, ano do Centenário da Independência, e então meus pais mudaram para lá e vieram os filhos. Tínhamos uma casa de aluguel, onde primeiro morou a família de espanhóis do sr. Francisco Roldan, e depois a família dos Camargos, a dna. Nenê, o Carlito e o Tinho, que fazia bola de capotão, ainda as de pingulim e couro104, e que se amarrava depois de encher. Nós e todos os times jogavam com estas bolas e, na hora de cabecear, se batia as tiras de couro onde estava o fecho com o nó na cabeça, era fogo, principalmente se o cara chutava forte, pois doía muito. - Oswaldo, diga de quem seu avô comprou o terreno. Veja se está na escritura pois é interessante. - Eu infelizmente nesses negócios de datas antigas não sei lá muito bem, eu era novo e não me interessava. É que os meninos da nossa época estavam ligados em outras coisas. Primeiro a escola e as lições para não levar broncas nem castigo, e depois as brincadeiras. Nestas tinha o futebol, empinar quadrado, bolinhas de vidro, rodar piões, nadar e pescar. A noitezinha tomar banho, trocar de roupa, jantar, dormir, acordar, lavarse, tomar café da manhã, ir para a escola, tudo de novo, não é mesmo? A gente não tinha tempo para mais nada, mas aqui em frente de nossa casa tinha uma grande área onde as vacas e cavalos pastavam e onde os ciganos acampavam. Era um medo geral, pois diziam que roubavam crianças, mas era crendice. Neste campo costumávamos tirar rachas de futebol, até que a NIFE fez um campo oficial. A NIFE foi uma mão-na-roda com suas baterias (acumuladores) para os carros e rádios. Em 1951 já tinha a luz mas quem tinha rádios, principalmente de galena, estes funcionavam a baterias. - Mas Oswaldo, vamos voltar à compra do terreno e as datas. - Esta bem, tem razão. Eu ouvia que tinham comprado estas terras do Coronel Bentinho, que era o mesmo que, creio que já disse, não? O Coronel Bento Pires de Campos. Grande homem! Tinha o nome de rua, mas mudaram para rua Colonial das Missões, que não tem nada a ver com a gente, uma pena. Lembro que o Coronel Seckler era o homem da Prefeitura. Sempre que ele ia lá na Igreja105, visitava as pessoas que tinha amizade, entre eles, o sr. Francisco e a dna. Natividad. Estava naquele tempo com o negócio da construção da Igreja de Santana em substituição da capela, é o que sempre ouvi, e ele como tinha uma olaria, fornecia os tijolos para a igreja - pois para ele era fácil - para a minha família e para as outras da região também, mas datas certas eu não sei. Pois bem, ainda falando de meu avô aconteceu um dia em que eles, como sempre, estavam todos muito preocupados com o andamento do serviço, trabalhando a todo vapor como dizia ele, e como precisavam de mais alguns materiais, como grampos e parafusos de ferro, meu avô tinha ido buscar no acampamento, distante cerca de 400 metros para trás, como disse antes, eles iam desmontando e colocando nos vagões todo o

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Ao falar isto o sr. Vacarelli sorriu pois, em São Paulo os japoneses são tradicionais em oferecer uma iguaria muito apreciada em feiras livres, o pastel acompanhado com caldo de cana. 104 Bola feita de couro, com gomos costurados pelo avesso, formando uma esfera chamada de "capotão". No interior havia uma "câmara de ar", feita inicialmente da bexiga de boi e mais tarde de borracha. Um prolongamento da câmara, chamada "pingulim" era por onde se inchava a câmara com uma bomba manual de ar, fato que deixava a bola mais ou menos redonda. Uma vez cheia, o pingulim era dobrado e guardado dentro do capotão, por uma abertura entre os gomos que depois era fechada apertando um cadarço de couro. 105 Igreja de Santana. N.A.

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acampamento ,que era remontado no local onde os trilhos avançavam, mas enquanto não faziam a mudança, tinham que voltar até o local do acampamento. Lembra das pedras? Existia para este fim um trolezinho de quatro rodas movido por uma espécie de alavanca, que eles movimentavam com as mãos para deslizar sobre os trilhos, e assim carregavam as coisas. Quando meu avô vinha chegando, ele já havia reparado que tinha um sujeito em cima de um cavalão que lhe chamara a atenção, pois tinha uma guasca 106 de couro na mão e ameaçava bater nos homens que trabalhavam, apesar dos ameaços. Meu avô pulou do trôle, chegou-se aos homens e perguntou o que ocorria, dizendo que ele era o chefe do grupo, o responsável. O homem deu uma levantada no chapéu e com o cavalo irriquieto, movendo-se para lá e para cá, como marchando parado, disse bravo que ele não permitiria que eles continuassem a caminhar naquela direção, porque senão logo estariam invadindo suas terras, cerca de mil metros a frente, e ele tinha naquele local criações e plantações. Meu avô disse que nada tinha a ver com isto e iria, como lhe competia, seguir aqueles marcos que ele podia muito bem ver. O homem respondeu que já havia derrubado alguns quando vinha vindo e, já que havia dado o recado, iria tirar aqueles próximos, apontando com o dedo. O meu avô disse então que tudo aquilo era propriedade do governo, sob sua responsabilidade, e ele não poderia admitir de jeito nenhum esse ato. O homem disse aos berros que nada tinha com as ordens do governo, e que tinha muito espaço nas terras. Sendo meu avô o responsável era então melhor ainda, pois ele então que tratasse de pegar sua tropa e mudar o rumo do caminho, e para o espanto de meu avô e dos homens que assistiam a conversa, o cavaleiro foi até um dos páus que tinha o pano como bandeirinha demarcatória de direção e pôs-se a chacoalha-lo de cima do cavalo. Arrancando-o, jogou de lado e foi para o outro lado fazer o mesmo com o outro. O meu avô pegou das mãos de um de seus espantados trabalhadores uma enxada e correu até perto do cavaleiro dizendo-lhe que se ele pusesse as mãos na estaca de demarcação, ele dava com a enxada na cabeça, pois tinha autoridade para isso. Então ele disse rindo, e chamando meu avô de “gringo invasor”, que queria ver acontecer, seguiu até a estaca, agarrou-a e puxou-a, tirando-a do chão. Sob o olhar de mais de uma dezena de honestos e bons trabalhadores, meu avô que conservara levantada a enxada com os braços fortes estendidos acima da cabeça, desceu-o com toda a força. Enquanto a lâmina descia, o cavalo voltara-se rapidamente para o lado, para a sorte do homem pois, o golpe que meu avô desfechara, obedecendo sua natureza guerreira dos romanos, veio por fim decepar não a cabeça do infeliz humano, mas o rabo do mais infeliz inocente que relinchando, saiu em desabalada carreira, com o cavaleiro segurando o chapéu com o braço que segurava o rebenque, sumindo do cenário, restando apenas o rabo no chão. O meu querido e respeitável avô, que já havia a muito tempo conquistado o respeito e a admiração de todos, e tratado pelos trabalhadores como “seu patrão” ou “patrone”, instruídos pelo grupo de engenharia avançada, somaram além da sua inteligência, ainda a sua coragem e bravura. Vovô era para eles um verdadeiro herói, e dizia que quando o homem sumiu-se de vista ao galope, todos eles gritaram: “- Viva o nosso patrone, viva! viva!”. Mas o vovô que ficara muito aborrecido e apiedado pelo belo animal, pediu que ficassem quietos, em respeito ao cavalo, por sinal muito bonito e, certamente caro, quase comparável ao seu “vagão”, e se alguém decepasse o seu rabo, ele com toda a certeza o mataria. 106

Tira ou cinta confeccionada de couro crú. N.A

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E disse que depois desse dia, além de trazer à cinta seu facão que parecia um sabre, começou a portar o seu colt cavalinho107 para qualquer eventualidade, que ele não usava até este episódio, pois, dizia, que se o fizesse, o belo animal ainda teria seu lindo rabo. Para guardar a recordação deste dia ele mandou seca-lo e guardou-o por muito tempo, como prova da sua enxadada. Quanto ao fazendeiro, de acordo com os escritos que fez, relatórios que eram apresentados aos seus superiores, estes tomaram as cabíveis providências, que permaneceu sumido sabe-se lá por onde, pois com seu gênio forte e, sendo o protetor direto do trabalho e de seus trabalhadores, até mataria, se fosse necessário!

Figura 109 - Revólver Colt cavalinho. Arquivo Familia Neutrasdann - Caramba heim Toninho, tempo lascado mesmo, mas a estrada com sacrifícios, sangue e mortes seguia. - É verdade Oswaldo, tiro o meu chapéu para estes heróis anônimos. -O meu avô e seu trabalho foram até que bem reconhecidos. Foi homenageado lá na capital do Brasil, na época no Rio de Janeiro, com festas, coquetéis, jantares e o escambáu108, mas e aí? -Bem, isso foi uma pena, mas ele ganhou seu dinheirinho por isso, não é mesmo? E o outro avô? É verdade Toninho, ganhou bem, gastou bem também, mas aplicou boa parte junto ao que tinha trazido. Enquanto isso, o meu outro avô, Cosme, ia tocando a sua vida, e tinha muito trabalho com a sua Olaria. Sabe onde era? -Não, mas imagino que era perto do Espacão109. -É, lá perto do Olaria 88110. Depois que ele fechou a olaria, o terreno foi alugado para ser a garagem da antiga “Viação de ônibus Tabú111”, você se lembra, não é mesmo? -Claro que me lembro, passava muito por lá em direção à colônia para caçar, pescar, pegar frutas. 107

Revólver Colt, mod. Police em 32 SW e 38 SPL, 44 SPL e 44-40, estes três últimos mais raros. Palavra de domínio popular, informal, emprega-se quando se quer relacionar varias coisas ao mesmo tempo. Espacão era o apelido que o sr. Francesco Gianetti, dono da Olaria 88 era conhecido na região. 110 Olaria 88, tradicional Clube de Futebol e bocha, mantido pelo sr. Francisco Gianetti Neto. 111 A garagem e a olaria situava-se na rua Sabbado D'Angelo. 108 109

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-Isso mesmo, e depois foi vendida ao Grupo de Supermercados Irmãos Lopes, que ainda está lá. - Oswaldo, sendo seu avô dono da Olaria, por que as casas de sua família foram construídas com tijolos da Olaria do Coronel Seckler. Os tijolos eram melhores? - Que nada Toninho. Tijolo é tijolo, barro e forno. Muda somente as letras de dentro – C.T. ou D.88. É que antigamente a maioria das entregas eram feitas com carroças, carros de boi, carriolas com rodas de madeira e tijolo pesa, tá pensando o quê? Eles eram todos amigos, e os pedidos ao Cel. Seckler, que era muito conhecido e respeitado, que vinham bem depois da linha do trem, no centro de Itaquera, ele passava para meu avô que mandava entregar, e tudo era anotado para não esquecer na hora do acerto. Já a maioria das construções de nosso lado, o da igreja de N.S. de Sant´Ana, eram feitas com os tijolos da olaria do Cel. Seckler e das outras próximas. Mudando de assunto, lembro que quando eu era garoto era muito amigo da família do sr. Gaspar e da dna. Macília. Sempre estava por ali ajudando em que podia seus filhos. O Vado, o Elídio e o Zico eram mais velhos, mas me tratavam bem, porém amigo mesmo era o Dema Gaspar, alegre, brincalhão, gozador, ele era sete anos mais velho que eu. Nos meus oito anos ele já era rapaz, mas quando eu passava por lá na volta da escola, sempre tinha alguma encomenda que meu pai deixava lá para pegar ou levar. O Dema pedia para que eu fosse com ele de carroça fazer a freguesia, eu ficava contente e logo subia na carroça. No caminho ele passava na minha casa, está mesmo que estamos, e eu deixava as coisas da escola e encomendas e ia com ele, enquanto minha mãe, a dna Maria Cármem, gritava: - Dema, não demora heim, ele tem lição! E lá íamos nós, isso por anos, até que ele sendo “de maior”, começou a trabalhar com o furgão que você conheceu. Toninho, eu senti muito quando ele morreu, até chorei, e me lembro bem, ele era de Março, 11 ou 12, uns dias depois do aniversário de minha filha Eliana. Ele morreu no dia 09 de Outubro de 2003, antes do feriado, perdi um amigo. Bem, estava falando da dna. Macília. Um dia que era sábado, e o meu pai estava desde cedo em casa, ele chamou-me e dando-me uma nota de vinte mil réis (Fig. 205), pediu-me que fosse até o “Gaspar” e comprasse um filão sovado, uma bengala grande de água, meio quilo de café e meio de mortadela. Eu fui com as quatro coisas na cabeça e nela também os vinte mil réis para pagar tudo. Cheguei na padaria e como era sábado tinha fila para ser atendido. Eu esperava minha vez quando o Dema me chamou para dentro, atrás do balcão, e perguntou o que eu ia levar. Disse-lhe e ele logo foi pegando, enquanto me dizia que no domingo, antes do jogo, ele tinha entrega e, se eu quisesse eu ia com ele e, na segunda feira à tarde também. Eu alegre disse que sim, iria sem falta. Ele colocou minha compra na sacola enquanto eu procurava o dinheiro nos bolsos. Estava já desesperado e quase chorando quando ele me perguntou o que havia acontecido. Contei-lhe que meu pai havia me dado uma nota de vinte mil réis e eu não o encontrava nos bolsos, então ele começou a me ajudar e a dna Macília vendo a cena e minha cara vermelhinha de choro, perguntou ao Dema o que estava fazendo com o menino (eu). Ele então respondeu que estava ajudando a procurar uma nota que havia recebido para as compras mas que havia perdido. Nunca e jamais me esquecerei! Ela veio perto de nós, encostou minha cabeça no peito e disse: - Não vá chorar, calma! Dema, sôme o que ele vai levar, para eles pode-se servir tudo que precisarem, com dinheiro ou sem, veja quanto dá e dá-lhe o troco dos vinte mil réis. 183


Ai é que me deu mais vontade ainda de chorar. O Dema embrulhou o troco e, pondo em minha mão ainda disse: - Veja se não vai perder este troco também, ai apanha do seu pai! Toninho, ai você vê como eles tinham bom coração, não é? Bem, mas não acabou a minha lição por aí. Quando cheguei em casa o meu pai já estava sentado na mesa com a caneca de louça que ele usava para beber o café fumegante, e foi dizendo: - Caramba, até que enfim você chegou né? Eu coloquei a sacola em cima da mesa e fui dando-lhe o troco, quando minha mãe foi chegando com a nota de 20 mil reis na mão e dizendo: - Oswaldo, você esqueceu na sua cama o dinheiro? Ficou devendo ao Gaspar? Meu pai com o troco na mão, que já tinha conferido, foi logo dizendo: - Menino, que estória é essa? Que dinheiro e troco é esse? Explique logo, vamos! Eu já estava chorando como Madalena arrependida, e contei-lhes tudo, tim-tim por tim-tim, e o meu pai, agradecido à eles pela bondade, mas bravo comigo pela cabeça de vento que tinha, disse-me que tomasse café e fosse entregar o dinheiro para a dna. Macília e o Dema Gaspar. Eu só tomei o café porque ele me obrigou, e fui correndo devolver, ou pagar, a boa dna. Macília. Quando lá cheguei, estava mais vazio e foi ela que perguntou-me se esquecera de alguma coisa e eu, envergonhado, contei-lhe que esquecera a nota na cama, e como o quarto ainda estava com a janela fechada, estava meio escuro, peguei a camisa e o sapato e saí, pensando que levava comigo o dinheiro e, me assustei, crente que o perdera. Ai sabe o que ela disse? – Oswaldo, esse dinheiro eu dei para você, pode ficar com ele, nós lhe demos de coração, é seu, guarde para comprar alguma coisa para você. Eu fui para casa com a nota na mão, cheio de pensamentos que não entendia na cabeça. No domingo, voltando para casa a tarde, meu pai parou na padaria para tomar seu costumeiro trago e dirigindo-se ao canto do balcão para agradecer a dna Macília, ela falou primeiro, dizendo que admirava meus pais pela honestidade e boa intenção em querer devolver em paga o dinheiro, mas era um presente de coração, o menino merecia e todos gostavam dele (de mim né?), e além disso, eu e o Dema eramos muito amigos. Ficou assim, minha mãe comprou para mim uma camisa nova e uma sandália, eu fui, isso dias depois, mostrar a ela, que achou tudo muito bonito, e até deu-me um sonho doce, meu preferido, para arrematar. Meu pai tinha o bar em frente ao cinema, e bar não era lugar para criança ficar, dizia ele e minha mãe. Eu só poderia ficar lá dentro quando crescesse. Os meus tios, irmãos de meu pai, eram o Miguel sapateiro, o Bernardo, que era metalúrgico no ABC112, a tia Júlia, a tia Catarina, mãe do Leopoldo e Conceição, a Judite, mãe do dr. Tarcísio, do Padre José Antônio e do Afonso. Os da parte de minha mãe eram os tios Nelson, Tadeu, Francisco e Miguel, que morreu atropelado pelo trem, ainda o tio João, chefe da estação por 35 anos, pai do Walter e da Irene. A família foi crescendo, casando-se com pessoas daqui, outras famílias velhas e conhecidas. Mas era um tempo muito bom. Eu, como já disse antes, pescava por todos os trechos deste rio Jacú e íamos à pé até São Miguel, onde tinha o cinema “Lapena”. Como o trecho era escuro, sem luz e sem luar, usávamos uma pequena lanterninha quadrada, que iluminava bastante, para irmos pelas ruas. Na região moravam o sr. Ernesto Cola e a sra. Marlene Cola, donos da fábrica Antárctica, o depósito de São Miguel. Eles tinham um motorista chamado Benedito, que 112

Região metropolitana de São Paulo, compreendendo os municipios de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul.

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vinha com um caminhão carregado de caixas de cerveja, para ir distribuindo pelos comerciantes de Itaquera, e meu pai era um dos fregueses. Quando ele chegava no Centro de Itaquera, parava logo em frente da padaria e do bar do pai, eu ia com ele no caminhão fazer a freguesia até a tarde, por volta das seis horas. Ele entregava tudo sozinho, carregava as caixas cheias para o comércio e, as vazias de volta para o caminhão, que as arrumava direitinho e não deixava que eu ajudasse, só queria minha companhia, na volta ele atravessava a cancela dos trilhos, parava em frente do cinema e ia comigo ao seu lado agradecer meu pai, aproveitando para tomar um gole antes de ir pela estrada levantando poeira. Eu admirava muito o seu Benedito, o bom “seu Ditinho”, como nós o chamávamos. Bons tempos aqueles, não tinham muitas oportunidades para passeios e as que apareciam, a gente aproveitava. Eu sempre que podia andava de caminhão, carro, carroça, o que aparecesse. O “seu” Antonio bananeiro tinha a quitanda lá perto do comércio do japonês “seu” Kamijo, que vendia ração para toda Itaquera, e que morreu na passagem de via de Itaquera, quando vinha atravessando com a caminhonete carregada e o trem os atropelou, ele e o João. “Seu” Antonio tinha uma carroça e um cavalo que se chamava “Mouro”. Ele era espanhol e a mulher também. Ele sempre usava um casacão com bolsos grandes para colocar o dinheiro das vendas das bananas, frutas e verduras. Uma tarde eu estava zanzando pela praça, bar do pai e pela padaria do “seu” Gaspar e, quando olhava os cartazes do cinema, meu pai chamou-me do bar, fui ver o que é que ele queria. Era para ir no bananeiro comprar uns limões para as caipirinhas. - Dos “galegos” heim? Disse ele. - Sim senhor, estou indo! Disse e saí. Quando cheguei lá, ele estava atendendo a dna. Dora Faysano, contando as bananas e conversando. Enquanto eu esperava, vi uma ratoeira com um ratinho preso e morto. Levantei o arame, joguei no chão e peguei o rato pelo rabo. Estava bem atrás dele, olhei para o rato e para o bolsão escancarado do paletó dele e, não tive dúvidas, sem ao menos pensar, joguei lá dentro e sai de lado. A dna. Dora deu-lhe o dinheiro, ele pegou e quando enfiou a mão no bolso para pegar as moedas de troco, tirou o rato junto. Ele ficou como paralisado olhando o rato, o dinheiro e a mão com um pouco de sangue, que saira da boca do rato. – Credo, que nojo! Disse ela, este troco não quero, só da gaveta e lava bem as mãos! Ouvindo isso, eu “rachei” de rir, porque quando ele acordou do pasmo, jogou tudo no chão, moeda, rato, tudo e, como precisava desabafar, olhou para mim e disse bravo: - Estás rindo do que, seu moleque? Eu pedi desculpas e pegando do chão para ele as moedas, disse que eu fora buscar limões galegos para meu pai. Ele mais calmo falou para que pegasse meia dúzia e depois pagava, enquanto isso ele saia enojado para lavar as mãos. Eu e a dna. Dora saímos de lá, eu sem pagar, ela sem receber o troco, que depois tudo foi resolvido. Ele queixou-se ao meu pai dizendo que desconfiava ter-lhe eu metido no bolso o rato, porque estava morto e a ratoeira desarmada. Meu pai defendeu-me, disse-me depois, mas como estávamos somente nós três na quitanda, perguntou-me se fora eu e, eu temendo levar um dos seus cascudos, disse que sim, mas fora sem pensar. Ele riu-se, eu também um pouco, de olho nele, e tive que prometer que não faria mais aquilo. As vezes eu gostava de estar por ali, na esperança de ajudar em alguma coisa, e o meu pai fazendo muitas recomendações, dava-me um papel com pedidos de compras. Como me conhecia bem, pedia para que o motorista do ônibus, da linha que tinham inaugurado que ia de Itaquera até São Miguel, ficasse de olhos em mim. Eram dois 185


ônibus verdes, da Empresa de Ônibus N. S. de Lurdes, eu ia feliz na janelinha em um e voltava no outro, mas sempre dava tempo de dar uma espiada no cinema e nos cartazes, decorando os nomes dos filmes e dos artistas para falar em Itaquera, além de tomar um sorvete, beber uma Coca-Cola ou uma Crush. Até a hora do ônibus sair, dava tempo para fazer tudo. Chegando em casa, eu ia logo me apresentar ao papai e dar-lhes os papéis que recebia, se fosse hoje com telefone, fax, etc, adeus passeios. Toninho, você sabe como eu sempre tinha um dinheirinho no bolso? - Posso imaginar, como todos garotos faziam naqueles tempos, fazendo pequenos serviços às pessoas, vendendo latas e ferro velho e outras coisinhas, não é? - Isso também, mas o garantido mesmo era quando eu ia a noite, e as vezes a tardinha, aliviar as parreiras do Manocchio. Eu levava uma sacola escondido da minha mãe e a tesoura, para não machucar as uvas. Depois batia palmas no portão dele, ele vinha me atender, via a sacola cheia de cachos, mandava eu entrar e esperar na porta. Depois voltava com a sacola vazia e as moedas de pagamento. Eu dizia a ele que eram das parreiras de meu avô, eles se conheciam, e tem mais, ele me dava as vezes duzentão113 ou pouco mais para pisar as uvas que eu levava e as que ele havia colhido. Eram todas postas no tachão para fazer o vinho, eu tinha que lavar bem os pés e ir sapateando devagar. Ele ia vendo vez por outra até chegar o ponto, e quando acabava, eu lavava os pés e ia para casa cheirando uva azeda como vinho mas, com um dinheirinho no bolso. Mas eu tinha outra fonte de grana quando precisava. Eu não abusava das fontes, sabe como é né? A outra fonte era o Paulo Kubo, lembra-se dele? Tinha uma oficina. Eu ia a noite lá, entrava com um saco de carvão vazio, punha uma boa quantidade de carvão coque114, que ele usava muito na forja, e no outro dia ia lá e vendia para ele. Eu lhe dizia que pegava dos trilhos do trem, principalmente de dentro da estação, que era proibido. Ele sabia que meu tio era chefe da estação e as máquinas eram tocadas com fogo de carvão coque, por isso não desconfiava. Então Toninho, era assim que eu me virava, entendeu? - Entendi muito bem e, agora, eu posso ver que aquele garoto considerado educado e comportado era um verdadeiro pilantrinha, isso sim!115 - Ha não! No caso do “seu” Manocchio eu, de qualquer jeito, ganhava meus trocados. Era só as uvas estarem com os cachos no ponto e, se eu não pegasse por conta própria e as vendesse à ele, eu ia e me oferecia para colher os cachos bons. As vezes ele queria, quase sempre aliás, mas ele dizia: - Está bem “Pichinin”, era assim que me chamava, ele gostava de mim, mas toma cuidado heim, se precisar suba no banquinho e cuidado para não cair e acabar se machucando e ir reclamar para a mamãe. E eu acabava ganhando o mesmo que se lhe tomasse as uvas, não era roubo e garantia as amassadas. O caso dele era diferente do Kubo, só que eu achava mais legal pegar escondido. Ele ameaçava à todos de dar um tiro de sal na bunda, tinham medo os garotos. No caso do Paulo Kubo, em meu entender daquele tempo, era diferente. Diziam que ele ganhava muito dinheiro com sua oficina movida à carvão. As uvas não davam dinheiro. O vinho que ele fazia era para o seu consumo e da família, além de distribuir para os parentes e os amigos para experimentar, inclusive nós. Também sempre dava um punhado de cachos para eu levar para casa, mas sempre com meus protestos: - Não senhor, não precisa, eu posso pegar do meu avô! E ele sempre dizia: 113

Duzentos Réis. Coque é um combustivel obtido a partir do carvão betuminoso, ou hulha, de origem vegetal. N.A 115 Dizendo isso, ambos riem-se da observação. N.A. 114

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- Stai zitto, Pichinin bobo, as minhas são melhores, se os papás perguntar, eu que dei! Mas voltando, quando estava falando das pescarias no Rio Jacú. Uma tarde, que fazia um calorão no rio, eu estava batendo umas Traíras116 com a vara mais grossa, linha grossa e anzol grande próprio. Quando joguei o anzol cheio de minhoca brava, não sei como, a linha enroscou atrás e, quando dei um puxão, ela veio com tudo e o anzol atravessou a minha orelha e aquele “baita” anzolzão me deixou apavorado. Corri para casa e mamãe mais apavorada ainda levou-me com o anzol na orelha até a farmácia do “seu” Barreiro, que deu uma “gozada” comigo: - Que belo pescador você é, heim? E que pontaria! Pescou a própria orelha, onde já se viu? E com esta conversinha, ele com um alicate pequeno cortou o anzol com muita facilidade, colocou na minha mão os dois pedaços, depois colocou iodo e disse para minha mãe: - Dna. Cármem, agora pode comprar um brinco e colocar na orelha dele! Todos riram e eu protestei. Mamãe ainda perguntou se tinha que me dar a injeção anti-tetânica e ele respondeu que não, que “minhoca não é ferrugem”. No outro dia, fui lá nos lados da chácara do “seu” Manocchio, vendo-o cumprimentei-o, já com segundas intenções, ele me chamou e disse que queria que eu voltasse no dia seguinte, pois ia precisar de um favor. Quando ele viu a minha orelha, perguntou o que era aquele amarronzado, se eu não havia lavado bem a orelha. Eu expliquei o caso e ele perguntou se o sr. Barreiro cobrara algo de mamãe, eu disse que não cobrara nem um vintém. Ele disse novamente para voltar no outro dia, que seria sábado e eu não teria aula, manhã livre. Chegando depois em casa, falei para minha mãe sobre o sr. Manocchio, e ela disse que eu fosse logo cedo para atende-lo. Aos sábados papai ia cedo para o bar e logo pela manhã, lá fui eu. Ele já estava a minha espera, acordava de madrugada, dizia ele, e quando ele chegou perto de mim, eu vi que tinha um embrulho nas mãos, entregou-me dizendo a frase de sempre: - Cuidado para não deixar cair no chão heim! Você vai dar de presente para o “seu” Barreiro estes dois litros de vinho, e diga para ele que não é do que seu avô tem, são de minha produção, eu lhe mando pelo favor de tirar o anzol da orelha do meu amigo bambino Pichinim e, depois vá lá na loja, preciso de elástico, carretel de linha, envelopes, está tudo escrito aí, na volta, vá na padaria do Gaspar e peça a ele ou a Macília uma quantidade do fermento que eles usam, o dinheiro está aí embrulhadinho, não vá perder! Não esqueça, primeiro no Barreiro! - Sim senhor, eu vou direitinho! Passei por casa, mostrei para minha mãe os litros bem embrulhados e ela ficou muito emocionada pelo ato do velho amigo, e viu como ele gostava mesmo de mim, ou melhor, de todos nós. Eu quase que me arrependi de furtar-lhes as uvas, mas foi passageiro pois, nos outros dias que vieram, tudo voltou ao normal. Quando voltei com a sua encomenda, passei antes em casa para deixar as coisas, minha mãe entregou-me um volume embrulhado em um pano branco e mandou-me entregar para ele, eu não sabia o que era, fui até sua bela casa, e o vi sentado na área lendo alguma coisa. Mandou que eu entrasse pois estava aberto o portão, entreguei-lhe tudo e já ia saindo quando me chamou: - Hei, Pichinim, espera um pouco! Colocou o embrulho de pano sobre a cadeira e tirou o pano, tinha uma forma com uma bela torta das que mamãe fazia. 116

Traíra é um peixe de água doce muito comum no Brasil. É carnivoro e podem atingir 70 cm de comprimento e podem passar dos 2 kg de peso

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– Diga para sua mãe que agradeço, mas que não precisava se incomodar. Toma, leva a toalha, a forma leva depois, vá bene? Eu, com meus dez anos, via os jogos do Itaquera, depois Vila Santana, e gostava de assistir também as partidas do Elite, Amor e Glória, Demo, Relâmpago e Olaria 88. Depois veio a Nife e o Falcão juntos, até o Vila Brasil, você se lembra? - Claro, do “seu” Carlos, do Berto Tavares! - Isso mesmo, teve até aquele time que o Airton dirigia, o Ferroviário, ele vivia catando os jogadores dos outros times para jogar para ele. Andava com os sacos de fardamentos nas costas por aí. O dirigente do Democrático era o Deva, que chamava-se Edward, e era muito amigo de meus pais, e aos sábados à noite ele vinha me buscar em casa para ir dormir em sua casa, pois no domingo pela manhã me dava um fardamento completo, até com chuteirinha, para entrar no campo junto com os jogadores como mascote do time do Democrático. E quando chegava o carnaval, eles me vestiam também, e era o único garotinho que ia em cima do caminhão-carro alegórico, todo enfeitado e desfilando com a escola de samba pelas ruas de Itaquera. Depois, lá por 1950 e pouco, o Falcão do Morro com o Zulú foi tomando conta das ruas, uma beleza naquele tempo. Depois tinham as baterias e os concursos de melhores fantasiados, que desfilavam ao final das matinês de carnaval, no cinema do Antônio Cepeda e o Evaristo, e saiam todos para as ruas, juntando tudo o que era de foliões, e iam pela noite adentro. Quando veio a luz era uma festa, só alegria com guerras de serpentina, confetis e lança-perfume, muito depois, com as coisas mais bem organizadas, o Leandro fundou a sua Escola de Samba117, um dos orgulhos de Itaquera. Mas aquele encanto antigo foi acabando, como acabaram-se os meus tempos de mascotinho que me fazia tão feliz e orgulhoso com meus fardamentos, mas eu fui crescendo, ano a ano e comigo crescido, também acabou a tradição da mascote. Eu sou mecânico de automóveis e muito me orgulho de minha profissão com a qual criei honestamente a minha família, e tenho a certeza de que este livro que estão fazendo com nossas estórias de vida, e que são tão simples, vai ser um grande presente à todos nós daqui, desta nossa Vila, nossa Itaquera, com Brasão e tudo, até bandeira, para os nossos netos Toninho, e os filhos e netos deles. Vai ser um sucesso, pode crer. Até nas escolas poderão aproveitar, não é? Olha Toninho, estou muito emocionado e agradeço esta oportunidade. - Oswaldo, meu querido amigo, Deus lhe pague pela contribuição.

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Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Leandro de Itaquera fundada em 03 de março de 1982 pelo sr. Leandro Alves Martins, seu fundador e atual presidente.

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Família Giannella por Roberto Giannella Aos 26 de Março de 1903 nasce na Itália Costabile Giannella, na província de Salerno, Serra Mezzana. Seus pais, meus avós, eram Josepe Giannella e Fortunata Cataneo e meu pai adorava ver o pai dele trabalhar, ficava admirando o que ele pintava e, sempre que podia acompanhava-o no trabalho. Como meu avô via seu interesse espontâneo, começou a dar-lhe pequenas tarefas mas, como ele contava, era difícil conseguir-lhe as pequenas tarefas, isso porque seu pai, nosso avô, era especializado em pintar igrejas, palacetes e até castelo, vejam bem, ele não pintava só as paredes, mas pintava os quadros, as imagens, as paisagens, sendo considerado um bom pintor, um artista, e como estava dizendo, mesmo pequenas tarefas eram sempre grandes, para o pequeno mas entusiasmado menino. O pai o observava carregando com muita disposição e alegria os baldes de tinta para as paredes. Via o interesse e carinho com que o filho lavava e secava os pincéis que ele usava nos esboços e pinturas dos quadros. Observou que o filho tinha além da vontade, inclinação para a nobre arte da pintura, assim, deu inicio ao ensino do que viria a ser sua profissão. Mas o rapaz pintor revelou-se um sonhador, imaginava-se viajando para outras terras levando sua arte no coração, com a esperança de, quem sabe, vir a ser com ela que conseguiria viver, constituir uma família e até ser um reconhecido artista. Admirava Rafael, Miquelângelo e outros. Quem sabe? Ele tinha fé e pedia a Deus e Jesus que o guiasse e indicasse o rumo a tomar. E foi assim, trabalhando e sempre esperançoso, que aos vinte e três anos, em mil novecentos e vinte e seis, veio para o Brasil, indo morar com a sua irmã no Bairro do Cambuci. Uma vez estabelecido logo procurou trabalho, mas o país estava passando por momentos difíceis, principalmente São Paulo do fim dos anos vinte, quando estourou a revolução e, eles sendo estrangeiros passaram por grandes apuros, principalmente ele que era um dos homens pois, como ele sabia, em toda a Europa, homem e guerra tinham muita ligação. Nas conversas em casa e no trabalho sempre estiveram presentes a preocupação e o medo do incerto. Começou a dar ouvidos às conversas de que no interior tudo estava muito mais calmo, não deveriam ver soldados e tropas marchando pelas ruas, como ocorria na capital e até no Cambuci, além de haver mais trabalho e, por intermédio de um colega, soube que poderia assumir um trabalho em Itú. Ele comunicou a sua irmã a decisão que tomara de ir para lá e, por um bom tempo trabalhou nesta cidade, mas como sabemos, logo a cidade também viu as tropas marcharem por suas antes pacatas ruas. Novamente o receio de achar-se no meio de batalhas voltou, mas outra oportunidade de trabalho em Indaiatuba apareceu e lá foi ele. Enquanto o conflito corria solto, ele só tinha os seus olhos e pensamentos no trabalho. Quando estava concluindo a obra lá, surge outra proposta para ir assumir outra em São José do Rio Preto, onde ele teve que ficar um bom tempo, e por seu gênio de isolar-se no trabalho, não ser dado a confusões e cultivando as amizades, era bem quisto e querido por todos, que gostavam de ouvi-lo contar suas viagens e seus trabalhos. Por essas suas qualidades despertava o interesse dos que o cercavam e esse respeito fazia com que os que o conheciam, falassem dele e de sua capacidade como um artista, o que acabava por conseguir-lhe serviços. 189


E foi assim que ele foi trabalhar em Piracicaba, em mil novecentos e trinta e dois, onde veio a conhecer a minha mãe, dna. Ercília Rodrigues de Barros. Foi um namoro e noivado rápidos e, no dia vinte e oito de Outubro de mil novecentos e trinta e três eles casaram-se e, lá mesmo nasceu, em mil novecentos e trinta e cinco o primeiro filho, José, o Zezito, logo depois voltou para São Paulo, lá para o Cambuci, onde nasceu aminha irmã Lourdes, em mil novecentos e trinta e sete. Nesse mesmo ano resolveu mudar-se para Poá, onde trabalharia por lá, e foi quando eu, Roberto, nasci em seis de Dezembro de mil novecentos e trinta e oito. Meus pais gostavam de Poá, principalmente minha mãe, por parecer-se, até certo ponto, com as cidades interioranas à que ela estava acostumada, com seus pastos, vacas, cavalos, etc. Muito diferente do Cambuci e, como éramos ainda pequenos - o Zezito com três anos eles recebiam o leite em casa mesmo, o leiteiro logo tornou-se amigo da família. Um dia, o leiteiro disse para o meu pai que tinha uma pequena propriedade em Itaquera, e como seu comércio de leite em Poá ia bem, ele estava pensando em vende-la e que o lugar era muito bom, alem de ser mais perto de São Paulo, meia hora apenas de trêm. Perguntou se meus pais não queriam compra-la, o meu pai disse que iria pensar e daria a resposta, que ele a aguardasse, e o amigo leiteiro concordou, logicamente. Meu pai disse para a mamãe logo que ele se foi: - Ciloca - era assim que mamãe era chamada - acho que chegou a hora de nós termos a nossa casa própria, as crianças são pequenas, lá disse ele ser mais perto da capital, tem mais recursos, mais trabalho e chego mais cedo, com as nossas economias do que tenho ganho, amanhã vou perguntar qual o preço, acho que temos o suficiente e ainda deverá sobrar para, se for preciso, fazer alguma reforma, pintura, etc, não é? Mamãe disse-lhe que fizesse o que achava melhor, porque conhecia muito bem o seu marido, o que tinha de bom, honesto e trabalhador, tinha também de teimoso e turrão, não iria adiantar nada não concordar e, no fundo, ela também pedia à Deus que lhes ajudasse na casa própria, que é o sonho de todo casal. Eles vieram então conhecer a propriedade. Gostaram dela não pelo lugar em sí, muito mato e o pior, sem luz elétrica. Este detalhe era o que a mamãe mais lamentava pois, como era costureira e, devido o cuidado com os filhos e o trabalho de casa, restavalhe o período da noite para a costura. O preço era bom, a casa não era grande, mas o terreno tinha quinhentos metros quadrados e meu pai, como estava acostumado com as lides das obras de construções que acompanhava, pois uma vez pronta ele as pintaria, logo imaginou as modificações que poderia fazer, e o negócio foi fechado. Foi assim que nós chegamos em Itaquera, na escura Vila Sant´Ana de 1944, onde passamos nossa feliz infância. Pouco depois, na chácara vazia118 chegou a família Roldan Pereira e logo nos tornamos grandes amigos dos filhos, o que ocorreu também com os nossos pais119. Eles se identificavam pela honestidade, como trabalhadores, pais amorosos e inteligentes e, nós fomos crescendo felizes. Para nossa alegria e de nossos pais, uma tarde que nós estávamos na rua brincando, frente a minha casa, vimos uns caminhões enormes, o que era muito raro. Paravam e deles desciam vários homens que, de espaço em espaço, derrubavam árvores compridas. Nós todos já sabíamos e gritávamos: “- Oba, a luz vai chegar, viva”! Eles, ante nossos olhos curiosos, colocaram os postes deitados perto da casa da dna. Natividade, a espanhola parteira, em frente a dna. Amélia, a chácara dos Roldan Pereira e na minha, terminando em frente ao terreno vazio, ao lado do sr. Miguel.

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Vide figura 46. Vide figura 48.

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Os postes, quando eles se foram, atrapalhavam um pouco nosso jogo de futebol, mas no outro dia vieram outros caminhões com brocas, onde faziam os buracos no chão e os enfiavam. Meu cão Nero, que não era muito grande, mestiço de Paulistinha120, mas era muito ágil e esperto e, sua maior habilidade, desenvolvida enquanto meu pai e meu irmão faziam trabalhos de pedreiro em casa, era aproveitar a escada encostada na parede, subir por ela até a laje. Os homens da Light121 que esticavam os fios, trepados nas escadas altas, ficavam muito admirados quando o viam fazer a mesma coisa nas escadas encostadas nos postes, trepando nelas até em cima. Por fim, em mil novecentos e cinquenta e um, que para a alegria geral a luz chegou em Itaquera. Principalmente para nossas mães costureiras também. A minha logo ficou muito conhecida, “Dona Ciloca Costureira”, da Vila Santana. Em mil novecentos e cinquenta e nove, meu pai comprou uma casa na Vila “Pó de Arroz”122, o Zezito já havia casado com a Odila Saraiva, depois a Lourdes com o Alcindo, eu comecei a namorar com a Yara e casamo-nos em mil novecentos e sessenta e dois, temos quatro lindos e bons filhos, nossa alegria na vida e do que ainda viveremos.

Figura 110 – Família Giannella – Sr. Costabile, sra. Ercília (Ciloca), Roberto e o mascote Nero. 1950. Arquivo Família Giannella Com meu casamento com a Yara, passei a fazer parte, com muita honra, da família Roldan Pereira, digo honra pois enquanto esta família era muito grande, a maior em componentes na Vila Santana, as outras resumiam-se a pais e filhos na maioria cinco pessoas. Além disso, podia jogar futebol no Time da Família, que tinha um timão. 120

O Fox Paulistinha é uma das raças caninas originárias do Brasil. Light ou São Paulo Tramway, Light and Power Company, foi fundada no Canadá em abril de 1899 e em outubro do mesmo ano foi autorizada a atuar no Brasil por decreto do presidente Campos Sales, operando os serviços de geração e na distribuição de energia elétrica. 122 “Vila Pó de Arroz”, como era conhecida a Itaquera de Cima. 121

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Em algumas oportunidades, muito raras, nós recebíamos a visita de minhas tias, de Sorocaba, Piracicaba e Cambuci, meus primos Osley e Paschoalina. Eu ficava todo cheio de alegria e orgulhoso de que vissem que também tínhamos família, pelo menos de vez em quando poderiam vê-la, família é importante ter.

Figura 111 – Roberto Giannella (esquerda) e Celso Bella (Mosquito) em frente ao quadro pintado pelo sr. Costabile na parede de sua casa. 1960. Arquivo Família Giannella. Por isso e outros detalhes é que considero que na Vila Santana passei os melhores anos de minha vida, mas ao mudarmos, pelo gosto do meu pai, ficou um pouco dele ainda nela, na paisagem pintada nas paredes interna e externa de casa com o carro de boi, e na Igreja Santana, onde na parede circular atrás do altar, pintou os dois grandes anjos e os anjinhos, onde permaneceram lá até pouco tempo atrás, quando modificaram com a reforma. A muitos anos atrás, o meu pai começou a sofrer com os seus olhos, mas nem por isso deixou de trabalhar com suas belas pinturas, o seu amor pelo trabalho de arte que fazia, superava sua limitação visual, tudo o que ele fazia, fazia devagar, com capricho e esmero. Eu sempre admirava os presépios que ele fazia e, o que ele sonhava fazer ele fez. Outra curiosidade dele é que sempre dizia que não queria ser enterrado em terra mas, 192


sepultado em gavetas, assim um dia ele chegou mostrando os documentos de compra nas mãos. Viu seu último desejo realizado. Nossos pais já partiram para o outro lado, mas nos deixaram muito boa educação. Isto que relato e deixo registrado é um pouco de nossas vidas e dos nossos muito amados e inesquecíveis pais, o italiano Costabile Giannella e a Piracicabana dna. Ercília Rodrigues de Barros, dna. Ciloca.

Figura 112 – Família Giannella no quintal de sua residência. 1954. Arquivo Família Giannela.

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Família Novelli Por impossibilidade de contato com algum membro da família, a presente descrição foi construído com base em pesquisas nos jornais da época e atuais e, o relato abaixo é parte integrante de um documento elaborado e disponibilizado pelo Revmo. Sr. Pe. Manoel Olavo Amarante, Pároco da Igreja de Sant’Ana, inserido no Anexo 20 da presente obra . ―Sra. Edina Romano Novelli Data de nascimento: 13 de janeiro de 1935 Testemunho colhido em 23 de março de 2004 ―(…) Minha mãe se casou aqui, quando era uma pequena Capela. Aprendi o catecismo aqui. O altar era de tijolo e o chão de terra batida, piso só no altar. Eram bancos simples, depois se compraram bancos próprios. Mais tarde cobriram a Capela, mas não colocaram o forro e então as pombas viviam dentro da Igreja. O primeiro Vigário foi o Pe. Mariano em 1964, depois ele voltou para a Espanha. Antes vinha o Pe. José Luis do bairro XV de Novembro. Meus pais, o Sr .Luiz Romano e a Sra. Deolinda Manocchio Romano moravam na casa onde hoje é a creche da Universidade Camilo Castelo Branco. (…) Esta Paróquia era para ser a primeira Igreja de Itaquera, porém aqui o povo era bem mais pobre e, um industrial construiu a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, pois queria que colocasse duas cadeiras no altar porque não queria juntar-se com o povo mais pobre. O Padre, na ocasião, deixou que se construísse a Igreja, mas nunca colocou estas cadeiras. Meu esposo trabalhou na NIFE e na ocasião solicitou aos donos a confecção e colocação da porta da Igreja, o que foi feito como doação em 1964, pois até então era uma porta de madeira muito simples. O Centro Social foi criado na época do Pe. Narciso, provavelmente. Havia um Centro Médico que era atendido por uma Irmã, médica, a Sra. Maria do Carmo, uma espanhola. Depois veio um certo japonês,do qual não me lembro o nome, e por fim, o Dr. Roberto Carlos Ascensão que ficou como responsável. Quando nasci, minha família morava na Av. Pires do Rio. Morei durante 64 anos nesta região. Atualmente moro nas proximidades da Igreja Nossa Senhora do Carmo, onde participo como paroquiana. Minha mãe nasceu nesta região e meu avô, Sr. Antonio Manocchio tinha uma Olaria, próxima da Igreja na Av. JacuPessêg;, acredita-se que alguns tijolos desta Olaria estão na construção da Igreja. O piso da Igreja foi meu pai e o esposo da Sra. Desdemona quem os colocou em 1965. Já o sino da Igreja veio da Itália e foi doado pelo Sr. Francesco Giunti, esposo da Sra. Bambina. A pedra de mármore do altar foi doação do Sr. Vito de Donato. Quando se realizou pela primeira vez a Primeira Eucaristia, as meninas foram vestidas de ―freirinhas‖ e os meninos de ―coroinhas‖. Eu cantava no coro também, com a Dinah coordenando. Uma das quermesses, que foram feitas no terreno da Universidade, foi a Festa das Nações, com as barracas dos países e as pessoas vestidas a caráter. ‖ Esta família reside em Itaquera desde 1902, quando o patriarca, Sr. Américo Salvador Novelli, contando dez anos de idade, mudou-se para o bairro junto com seus pais, vindo de Caieiras, interior de São Paulo. De origem Italiana, são das províncias da Calábria e Sicilia (lado paterno) e Nápoles e Florença (lado materno). A primeira residência da família foi a Fazenda Santa Etelvina, na Vila Iguatemi, em Itaquera. Lá extraíam madeira e as comercializavam, onde eram transportadas em 195


carros de boi e entregue para as várias olarias da região, bem como padarias de outras regiões, que seguia via estrada de ferro. Aos 20 anos o sr. Américo já aparece como jurado qualificado na 2ª Vara Criminal de São Paulo123 e, aos 24 anos de idade, compra uma grande extensão de terras nos arredores de Itaquera e continua a trabalhar com seu pai, sr. Paschoal, no ramo de lenha. Algum tempo depois investem também no ramo de olarias, onde seus tijolos alimentam a região local e seguem, também via estrada de ferro, para a região do bairro Brás, onde são distribuídos para toda a cidade. Américo Salvador Novelli casa-se com sra. Julieta Vaccarelli Novelli, e tem nove filhos. Os filhos homens trabalhavam com o pai, e as filhas ajudavam a mãe nos serviços domésticos em trabalhos como costura e bordado, na confecção das próprias roupas além da manutenção dos lampiões, transporte de água das nascentes até a casa, recolha de ovos nos galinheiros, cuidado e colheita de hortaliças e frutas, ordenha, etc. A produção dos tijolos na olaria era por tração animal, que rodavam uma pipa, misturando a massa. Após a massa pronta, funcionários preenchiam as formas com o barro e as colocavam para secar ao sol e, uma vez secos, iam ao forno para queimar. A olaria era de grande produção, servida com dois fornos de grande capacidade, movimentada por cerca de 32 funcionários, que moravam em casas no terreno da própria Olaria.

Figura 113 – Funcionários da Familia Novelli. Montado o sr. Américo Salvador Novelli. 1938. Arquivo Família Vaccarelli. Sua mãe é quem preparava o almoço e no domingo não faltava o macarrão caseiro, brachola, frango assado, leitão, etc, tudo da própria criação. A criação também fornecia o alimento para a semana e, de um porco saiam as linguiças produzidas em casa, o toucinho, que frito fornecia o torresmo e a gordura, que servia para armazenar as carnes do porco, que eram retirados para se fazer as refeições do dia. As sobremesas também 123

Diário Oficial de São Paulo, 18/06/1912, Pg. 2541

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eram caseiras, produzidas com as frutas do próprio pomar e, graças a criação de vacas, também faziam doces à base de leite. Com os filhos crescidos e casados, o Sr. Salvador Novelli construía uma casa para a nova família dentro da propriedade, pois como um bom italiano, gostava de toda a família reunida, os netos, os filhos as noras e os genros, todos em volta da mesa, no almoço de domingo. Na ausência do Oficial do Cartório de Itaquera o sr. Novelli assumia ad-roc124. De boas relações com políticos, era amigo íntimo do sr. Ademar de Barros, sendo o responsável pela sua visita do político no bairro, relatada anteriormente, além do dr. Elias Chamas, vereador e Presidente da Câmara Municipal de São Paulo. Com estas relações, formou uma comissão, juntamente com Antônio Cepeda e Domingos Nizzoli, e em 1947 partiram para o Rio de Janeiro, então capital federal, onde foram recepcionados no Palácio do Catete. Lá, em audiências com autoridades responsáveis pela eletrificação pública foram informados que o processo estava “engavetado”, contudo graças aos seus conhecimentos na esfera política, voltaram para Itaquera com a promessa da instalação da tão aguardada luz, mesmo assim levou quatro anos para a realização da obra, onde a inauguração foi feita pelo próprio Ademar de Barros. De confissão católica, a família sempre participava das festividades da Padroeira, comemorada dia 16 de Julho, dia de N.S. do Carmo, cuja imagem fora trazida para Itaquera por outra família de Italianos, a família Papalado. O sr. Novelli participava da irmandade da igreja e, durante todo o mês de Julho acontecia a quermesse, todo sábado e domingo, com leilão de prendas como leitão, cabrito, etc, doado pelas pessoas em prol da igreja. A procissão que as irmandades organizava era o ápice da festa, com concorrência de todos os moradores de Itaquera. Por grandes serviços prestados à comunidade, este pioneiro e homem de grande visão e atuação de Itaquera foi homenageado em virtude de seu falecimento, em 1961, pelo então vereador Aurelino de Andrade, que anunciou em plenário na Câmara Municipal um voto de pesar nominal125 e, em 1962, cede seu nome para designação de uma rua no bairro126. ―Projeto de Lei N. 28162 A Câmara Municipal de São Paulo Decreta: Artigo 1.0 Passa a denominar-se ―Rua Américo Salvador Novelli" a atual Rua 25 de Março, que começa na Rua Municipal e termina a 69 (sessenta e nove) metros, aproximadamente, depois da Rua 2 de Dezembro, no Subdistrito de Itaquera. Artigo 2.0 As Placas denominativas conterão os seguintes dizeres: "Rua Américo Salvador Novelli" * 11-2-1892  18-1-1961. (…)‖

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Jornal “A verdade”, ano I, nº 9, Março de 1927 . Diário Oficial de São Paulo, Ano LXXI, nº 25, 01/02/1961 126 Diário Oficial de São Paulo, Ano LXXII, nº 129, 10/06/1962 125

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Família Giannetti Da mesma forma que o relato anterior, este também foi construído com base em referências e colaborações de terceiros. A Família Giannetti é originária da Itália e inicialmente emigraram para o Bairro de Lageado (atual Guaianazes) e, em 1912 se instalaram em Itaquera no ramo de Olaria. O Patriarca da família, sr. Francesco Giannetti e sua esposa, tiveram sete filhos, três homens e quatro mulheres, todos nascidos em Itaquera e todos trabalhavam na Olaria do pai. Do costume e do modo sempre impecável de vestir-se, veio a alcunha “Espacão”, palavra utilizada como referência à todos os membros do clã em Itaquera. A primeira Olaria da família, localizava-se na antiga rua Jacú e, em 1948, foi transferida para a propriedade da família na Rua Sabbado D’Ângelo onde, devido a grande extensão territorial e dificuldades de transporte, os empregados moravam na propriedade, em residências individuais com suas famílias. A localidade de uma Olaria era estratégica, e as olarias da família Giannetti, do sr. Egídio, do Xisto, dos Novelli, do Coronel Seckler, e outras, eram próximas aos rios que cortam a região, pois a retirada da matéria-prima era facilitada, além do abastacimento constante da água abundante. Cada Olaria tinha um timbre, uma “marca registrada”, que servia para os compradores identificarem o fornecedor. A marca da Olaria Giannetti é “88”, que aparece em alto-relevo em uma das faces do tijolo, cuja produção e transporte envolvia toda a família. Para isso os tijolos eram transportados de carroça até a estação de Itaquera e, carregado nos vagões especiais com destino à Roosevelt, onde abastecia toda a cidade. Destes tempos, ficou o nome que a família batizou o time de futebol, Esporte Clube Olaria 88, fundado em 1956, cuja sede é dotada de quadra de futebol de salão society e campo de Bocha. Seu atual presidente é o sr. Francisco Giannetti Neto.

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Família Alves dos Santos por Dário Alves dos Santos Meus Bisavós, avós e pais, André Alves dos Santos e Joana Alves dos Santos eram todos de São Luiz do Paraitinga127, onde meus bisavós ainda eram escravos, o que não aconteceu com meus avós, já libertos, mas trabalhando de sol a sol na lavoura de café. Meus bisavós e avós pela carga de trabalho não puderam estudar mas meus pais tiveram a oportunidade de frequentar a escola. Meus pais trabalhavam em uma fazenda de café e eram muito queridos pelo dono e sua esposa, de tal forma que quando teve que acompanhar o marido, que havia comprado mais uma fazenda longe da que moravam, em Taubaté, a dona resolveu que levaria a Joana, que naquele tempo já namorava, com autorização, com meu pai. O patrão, que gostava muito do jovem e robusto André, que era como sua sombra, pau para toda a obra, resolveu que fariam o casamento de ambos, e fizeram. Lá em Taubaté, eles trabalhavam na lavoura também e minha mãe Joana ajudava no trabalho da casa. Diziam que no ano de 1910 o patrão ficou doente dos pulmões e uma noite, entre tosse e sangue, morreu. Foi uma tristeza e a patroa, que era d. Maria Josefa ficou desorientada com os dois filhos. Os seus parentes vieram para Taubaté em seu auxílio e viram que o melhor seria voltar para junto de sua família. Meu pai, muito preocupado com a situação, e com seu primeiro filho já nascido, conversou com minha mãe e lhe disse que um dos amigos do patrão, que ele gostava muito, dissera-lhe que se não fosse voltar com a patroa, ele o indicaria para um seu irmão que tinha uma chácara em Poá e ele poderia mudar para lá. Com a concordância de minha mãe, ela foi-se despedir da sua boa amiga e patroa e, depois de muito chorarem juntas, foram arrumar as trouxas. Disseram que de 1920 até 1930 ficaram em Poá, trabalhando na tal chácara e minha mãe, sempre muito trabalhadora, fez amizade com as filhas da dona da casa, onde era doméstica. Como era lutadora e esperta (lia e escrevia), as moças um dia perguntaram se ela não gostaria de experimentar ir com elas trabalhar na cidade128, na fábrica Matarazzo do Brás, só que teria que pegar o trêm de madrugada, mas ganhava-se muito bem, igual a homem. Dizia a mãe que quando meu pai chegou a noite em casa, cansado e sujo, ela esperou que ele se lavasse e jantasse e contou-lhe a proposta recebida. Ele perguntou se ela estava disposta a tentar, mas que sabia ser isso difícil. Ele sabia que minha mãe era esforçada, inteligente e até bonita, mas era negra. Poderia ser que patrões tão ricos da cidade não a aceitariam, que ela pensasse bem nisso. Além disse haviam as meninas, minhas irmãs. Ela que faria? Ou ele que cuidaria delas? Perguntou ele. Minha mãe respondeu que os fazendeiros também eram ricos, que ela dissera para as moças sobre ser negra, mas elas disseram que com elas também trabalhavam moças “de cor” sem problema, era só ser limpa, o que ela era e sempre bem vestida, pois ganhava vestidos bem bonitos das moças e, as filhas continuariam como de costume com as filhas da amiga, que eram madrinhas delas. Como sabia meu pai, que quando minha mãe queria alguma coisa ela não desistia, ela acabou conseguindo o trabalho. Começou a trabalhar e pegava o trêm ida e volta, 127

Municipio do estado de São Paulo considerado estância turística é particularmente famosa pelas suas águas, património histórico preservado e seu carnaval de marchinhas. 128 Nesta época e há bem pouco tempo atrás, “ir à cidade” significava sair dos subúrbios, das várzeas, e chegar ao Brás, rumo ao centro da cidade de São Paulo.

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ganhava bom ordenado e achava que deveriam mudar para mais perto do Brás. Neste meio tempo, o patrão acabou vendendo a chácara e meu pai ficou sem serviço, ficando um tempo fazendo “bicos”, até que um dia conversando no bar soube que em Itaquera tinha uma casa em uma fazendinha que precisava de alguém. Ele disse a novidade para minha mãe, que já estava preocupada que teriam que começar a pagar aluguel pela casa onde moravam na chácara, pois a dona estava apurada em dificuldades. Conversou com a patroa e lhe disse que entregaria a casa, agradecida, mas iria para Itaquera, mais perto do serviço. Era assunto certo, nem conheciam o lugar, mas em 1931 levaram as coisas para a estação e colocaram no vagão de bagagem, rumo à nova terra, para Itaquera. Chegando na estação de Itaquera, minha mãe, que estava grávida, ficava com minhas irmãs lá na estação. Era um sábado e minha mãe, embora trabalhasse meio período, conseguiu uma licença, não indo trabalhar neste dia para fazer a mudança, mesmo assim, meu pai não conseguiu levar tudo até o anoitecer. Ele já tinha vindo conhecer a casinha e o lugar e, pelo que dizia, ficou muito desiludido e preocupado, não por ser um pouco longe da estação, mas pelo lugar em si, com rio, brejo mato e tudo o mais que nós conhecemos, mas não falou à mamãe. Foi até a Olaria do Coronel Seckler e conseguiu uma das carroças, colocando dentro dela, que não era grande, pouco espaço, o que coube, levando a primeira carga. Pelo caminho tinha que atravessar o rio em uma parte mais estreita, por uma pinguela, que ele tinha reforçado para suportar o peso da carroça que levava a mudança até a casa. Papai falou com o Chefe da estação, sr. João Vaccarelli, e conseguiram autorização para passarem a noite dentro do armazém e, no domingo de manhã, meu pai voltou à Olaria, desta vez com minha irmã Dalva, que era maiorzinha, para pegar novamente o burro e a carroça para o transporte. O chefe da Olaria emprestou novamente, mas disse que tinha que terminar naquele dia mesmo, porque na segunda-feira tinha trabalho na Olaria. Concordando e dizendo que faltava pouca coisa, lá foram eles, rumo à estação. Carregada a carroça minha irmã quis ir até a casa com papai, como ele dissera que não, e ela principiava chorar, mamãe mandou que fosse sim, e foram. De volta à estação, para pegar o resto das coisas, ela disse que até ajudou a descarregar mas, ai ela começou a chorar e contou para minha mãe o lugar muito feio e a casa no meio do mato que iriam morar, sem luz e nada. Meu pai ficou preocupado com a reação da minha mãe, mas dizia sempre que ela o surpreendeu, limpou as lágrimas da cara da Dalva e disse que não precisava chorar, ela levaria lampião e velas e, a luz deles iria iluminar tudo pois aquela seria a casa deles. E foi de fato assim, o dono da fazendinha acabou morrendo pouco depois, ninguém mais se interessou pelas terras, minha mãe continuou trabalhando na Matarazzo, até que por causa da guerra, pelo menos era isso que disseram, fecharam as portas da fábrica e foram despedidos. Minhã mãe ficou lavando roupa para fora e fazendo serviços de faxina, meu pai ficou doente, infarto e derrame, meus irmãos crescendo e trabalhando e as irmãs casando e mudando. Hoje estão vivos uma irmã, que é viúva, eu e o Aparecido, que todos conhecem por Maninho. Ficamos na fazendinha até 1955, e minha mãe gostava muito da família da dona Natividade129, que fez o parto de todos meus irmãos que nasceram em Itaquera. Até quando chegou a luz em Itaquera nós vivíamos lá. O “seu” Saraiva, a dna. Juventina e as filhas sempre ajudaram a gente, mandando algumas coisas para nós. Minha mãe e irmãs em agradecimento e consideração, os ajudavam também, sempre que precisavam de 129

Já descrita enteriormente – Família Roldan Pereira. N.A.

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alguma mão, como lavar e passar e, para reforçar orçamento em casa, fazia doces e salgados por encomenda, para as festas como natal, batizado, casamento, festas juninas. Em 1951 tinha chegado a luz lá na vila, mas para nossa casa e do sr. Naldinho, lá na casa da fazenda que ele ficara encarregado da propriedade que tinha sido a fazendinha, até o sítio da Casa Pintada, que era divisa até São Miguel, ainda estava as escuras. Depois de um tempo, minha mãe conheceu uma família, que ela fazia trabalhos para eles, da Vila Granada. Nesta época, meu pai ainda estava se tratando e a dona disse que gostaria que ela fosse com a família morar lá perto. Eu ainda estudava no Grupo Escolar Álvares de Azevedo, mas para minha mãe não tinha problema. Ela foi até a Vila Granada ver a casa e, quando chegou em nossa casa, foi comunicando ao meu pai e à nós que fossemos arrumando as trouxas porque no outro dia, nós iríamos mudar, pois “estava cheia já”, dizia ela! Meu pai quis saber para onde iriam, ela disse que ele esperasse para ver. Naquela casa, que sempre seria grata, onde ele havia levado sua família, onde tinha feito amigos, criado as meninas e os meninos, pois elas já iam começar a namorar e casar, então ele que não esperasse muita coisa. No outro dia, minha mãe saiu cedo com minhas irmãs, Dalva, Mafalda e Elza (a Neuza era a mais nova e ficou com nós três) e foram pegar o trêm, bem arrumadinhas. Quando era tardinha, ela chegou sozinha e meu pai, que ficou esperando desde cedo elas voltarem, quis saber das meninas, minha mãe disse que ficaram limpando e lavando a casa, e que nós fossemos levando as coisas para a pinguela, pois o motorista do caminhão estava esperando. Nós fomos levando só o que ela mandava, pois tinha comprado umas coisas novas. Mesa, cadeiras, armário ela disse que não iria levar nada disto para a casa nova, só uma das camas, os colchões eram de palha, e as roupas que eram boas, a maioria era presente das freguesas. Como nós tínhamos umas galinhas, patos e marrecos, ela pediu para amarrar os pés deles e pegar o cachorro, que chamava leão, e amarrar um pedaço da corda no pescoço dele. Neste tempo o meu pai já tinha desmontado as camas, que eram quatro, as irmãs dormiam juntas, duas em cada e nós também, mas minha mãe só queria os colchões e a melhor cama. Enquanto nós levávamos as coisas para a beira do rio, onde o motorista e o Maninho iam pondo no caminhão, minha mãe e a Neuza pegaram as aves e o cachorro e foram para a casa dos Saraivas e dos pais do Zé do Morro, deixando-os lá, ganhando ainda uma cama desmontada do “seu” Saraiva. Depois de tudo dentro do caminhão, minha mãe, que estava com a Neusa dentro da cabine, pediu para o motorista esperar mais um pouco. Voltando-se para nós, disse que fossemos rápido nos lavar e colocar a roupa limpa que ela havia separado para o pai e nós, e colocasse a suja nas sacolas que elas tinham levado as aves, é que ela queria que nós estivéssemos com boa aparência para as pessoas que nos esperavam ver, e ficamos bem bonitinhos. Se sentimos saudades? Claro que sentimos. Minha mãe lembrava sempre, contava os casos, as pessoas amigas, até das alegrias naquela casa simples, quase uma tapera 130, mas que estava sempre bem limpinha e arrumada, mas deixa eu contar o restinho sobre a mudança. Nós fomos em cima do caminhão e quando ele ia pela rua Francisco Rodrigues Seckler, a rua da Igreja, eu ia fazendo tchau para as pessoas que estavam nos vendo, 130

Casa simples, desolada ou em ruínas.

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lembro do Churi (Carlos Cinti), que estava com o “seu” Zé Coelho, o “seu” Júlio, pai do Amadeu, nosso amigo da escola, o Elias “vaca brava” e o Batalhão. Minha mãe tinha pedido para diminuir a velocidade para gritar adeus e agradecer o “seu” Zé Coelho, o português tão bom que foi para nossa família. Depois de cerca de meia hora, nós chegamos na Vila Granada, casa muito boa e grande, porque nós tínhamos pouca coisa. Uma semana depois já estava cheia de móveis, fogão a gás, a cozinha com mesa, cadeira, móveis na parede já haviam. Minha mãe e irmãs tinham gosto de arrumar tudo muito bem, era um tal de gritarem: “Limpem os pés, tira o sapato!”. Lá na casinha, no meio do mato elas já enchiam nosso saco com isso, é aquela perseguição que as mulheres têm contra os homens. Mas eu, principalmente sinto saudades e lembro quando o seu Edgard veio com um enxadão nas costas, demarcando onde seriam postas as traves do gol do futuro campo do Santana. Tinha 9 anos de idade, era pequeno, mas não era bobo, já me metia nas peladas de rua para completar um dos times, até chegar algum menino maior ou melhor que eu. Começaram a carpir o mato (capim e barba de bóde) do campo que o sr. Edgard tinha medido com a fita, e que depois fiquei sabendo que era uma trena, e tinham colocado dois paus em cada lado, as traves, e mais seis, três de cada lado, o do meio do campo e do escanteio. Lembro que vinham com três garrafões com água e umas canecas feitas com latas de leite moça, com cabo soldado. Eu ficava perguntando para eles se a água tinha acabado, porque quando acabava eu ia todo orgulhoso buscar no poço da casa do Geraldo, irmão do Carlito caminhoneiro, que também nos ajudou umas vezes. Quando o campo ficou pronto “o Geraldo foi esperto, montou uma barraca e ganhou muito dinheiro vendendo pastel, tubaina, guaraná, pinga e cerveja!”, minha mãe sempre dizia isso, até que chegou o dia de nossa saída de Itaquera, quase um ano depois da inauguração do campo. Certa manhã vi o sr. Edgard trazendo, além dos enxadões e enxadas, machados, facões e foices. Eu logo vi para que era tudo aquilo, pois estavam subindo o morro, rumo a uma plantação de eucaliptos. Escolhiam as árvores, cortavam, limpavam e carregavam para a beira do rio. Ai com o sr. Edgard mostrando onde eles seriam colocados, cortavam pedaços como mourões, faziam buracos e enfiavam eles bem fundos, socados no barro de dois em dois, isso por três dias seguidos e eu, sempre curioso, ajudava no que podia, pegava o martelo para eles e segurava o serrote. Eles pregavam com pregos grandes, que tinham um palmo da minha mão, eu me lembro, pois os media e ficava admirado. Então eram madeiras e caibros, de mais ou menos um metro e vinte de comprimento, e os dois mourões ficavam iguais, traves de gol estreitas e altas. O sr. Edgard repetia que eram precisos uns 200 mourões, isso só de um lado do campo, próximo da rua. Minha surpresa não acabava pois, certo dia, trouxeram dois postes enormes e colocaram por cima do rio, lado a lado, apoiados sobre escoras no barranco. Éramos os maiores interessados, acho que mais que eles próprios, pois íamos ter uma ponte para ir e vir da Vila Santana até minha casa, sem ter que pisar mais no barro. Durante o serviço da ponte e do campo feito na enxada e enxadão, comi tantos sanduíches de pão com mortadela e queijo que eles me davam, por fazer parte da equipe, que acho que até hoje, depois disso, não comi o mesmo tanto131. Estava alegre “prá burro”. O campo ficou lindo e o sr. Edgard, ele que era o “Xerife”, foi com os outros medir o campo e cavar as valetinhas das marcas. A primeira foi a do meio do campo, depois as outras das áreas e por último, o redondo, o círculo do 131

Dizendo isso, abre um sorriso, parando o olhar.

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meio. A colocação do cal foi só no outro dia de manhã, porque escureceu, mas logo cedo, lá estava a equipe toda, o sr. Edgard, os filhos, o Rúbens “Orelha de cabra” e lógico, eu. Trouxeram os sacos de cal e iam preenchendo as valetas. O campo ficou lindo e eu fiquei por ali só admirando e, não imagina, veja só, eu fiquei bravo, era ciúmes do meu campo quando vi uns garotos chutando bola nele e dali a pouco, tirando um racha nele. Minha mãe gritou para eu ir comer, e só fui quando ela me ameaçou de dar-me uma surra e, quando cheguei perto para pegar o prato que tinha que comer tudo, ela perguntou: - Que cara é essa? O que aprontou? Eu disse da turma que estava jogando no campo novinho. Ela riu, minha mãe, que Deus a tenha, era muito alegre, e disse: - Onde já se viu uma coisa desta? O campo não é seu e, campo é para jogar bola, fique sabendo! E veja se para de encher o rabo das coisas que te dão por lá. Depois não consegue comer. A janta que faço para vocês, não é para ir para o cachorro, nem para a lata de lavagem dos porcos, vê se come! Eu ainda estava comendo, quando comecei a escutar uma porção de barulhos de martelos batendo. Fui me levantando, intrigado, e ela disse logo: - Dário, não vá você pensando em largar o prato e a comida ai e azular para lá para fuçar132 o que eles estão fazendo. Eu, daqui mesmo sei que estão pregando. - Mãe, pregando o que com tantos martelos? - Isso eu não sei, mas logo você verá. Engoli o resto da comida ainda quente, coloquei o prato na pia e, como a minha mãe disse, azulei como um foguete para o rio. Quando cheguei próximo, não sabem o que meus olhos arregalados viram e quase morro lá mesmo de alegria, com o coração quase saindo pela boca? Era o pessoal colocando tábuas nos cáibros sobre a ponte e pregando-as. Quando cheguei, já tinham colocado mais de vinte metros. Era um tal de uns trazerem tábuas, outros pregando, que era um só cantar de martelos. Ficava vendo o “Orelha de Cabra”, admirado, que punha vários daqueles pregos na boca e não perdia uma martelada, três pregos de cada lado da tábua. Eu ajudava dando os pregos para o sr. Edgard, que era um bom pregador, mas o “Orelha de Cabra” era melhor. O Quito133, o escultor, que na época tinha minha idade, um garoto como eu, também ajudava a segurar as tábuas, e dava os pregos. As últimas que faltavam o “seu” Manolo e o “seu” Costabile deram e, enfim, depois de poucas horas, todas estavam pregadas e a ponte sobre o rio estava pronta. E a alegria maior veio depois, a tarde. Eu estava andando por cima da ponte comprida e até corria como bobão, quando vi uma porção de gente descendo a rua. Tinha mulheres, crianças, homens, mas a surpresa: vinham jogadores fardados! Ai eu gritei para meu irmão João, que também tinha ajudado na ponte: - Olha lá João, vai ter jogo no campo! E foi uma festa daquelas naquele sábado, continuando no domingo. Desde a manhãzinha eu já estava lá no campo, e muito mais gente veio, uma porção de mulheres e crianças. Eu e minha família foram as que mais se utilizaram da ponte, além da família do Carlito e Geraldo, porque nossa família era maior. Meus irmãos e irmãs iam para o trabalho, íamos na feira, na venda, na escola, pegar o trêm, cinema e tudo ficou mais fácil, com chuva ou sol e, até nas enchentes, quando a água subia até a casa da dona 132 133

Do transitivo direto: Bisbilhotar, sondar. Escultor nascido em Itaquera, já descrito anteriormente, que possui um atelier na cidade de Embú das Artes, interior de São Paulo.

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Clotilde, a espanhola da Igreja, até a casa do Sálvio, da dona Amélia, do outro lado da margem do rio. Então, o Campo do Santana trouxe uma alegria maior para a Vila e para nós lá de casa, sem falar na família do Geraldo. Meu irmão, Odílio Alves dos Santos, trabalhava na Central do Brasil, depois que desistiu de ser Bombeiro. Depois da Central, ele e uns colegas alugaram um armazém no bairro da Bresser e trabalhavam para a siderúrgica Belgo-Mineira. Eu ia, as vezes quando não tinha aula, com ele até lá e via eles levarem minérios para embarcar e desembarcar na estação de Engenheiro São Paulo. Ele era muito inteligente e trabalhador, comprou caminhões para o trabalho, que era duro. O João Onofre Alves dos Santos, que era do exército e o Laerte Alves dos Santos, já morreram. Meus pais tiveram dez filhos, que foram casando e mudando para vários bairros: Itaquaquecetuba, Cumbica, Poá, Suzano, Jumdiapeba. Minhas irmãs eram muito bonitas e a Elza tinha um admirador, que estava apaixonado por ela. Certa vez, ele mandou fazer uma mandinga134 para ela gostar dele, mas uma amiga que soube disto delatou em segredo, e elas começaram a revirar todas as coisas dela procurando o embrulhinho que a amiga dissera. Como não acharam no colchão e como só sobrava a almofada e o travesseiro, acharam um sapo seco dentro dele. Estas coisas nos fazem pensar em cada coisa que aconteceu. Estas coisas de espírito não se deve brincar, por falar nisso, lembro de uma porteira que tinha do lado de cima do campo. Era do tempo da fazendinha. Saia lá por onde hoje tem a Rua Mariano Mouro e a Rua Catarina Lopes. Era pouco usada, somente carroças e caminhão para fazer entregas ou outras coisas. Bem, nesta porteira tinha uma alma penada de um homem que minha mãe, pai e irmãos viram muitas vezes a noite, por isso evitavam de passar lá. Outras pessoas também contaram a mesma estória e um deles, o sr. Antônio Roldan disse que certo dia, voltando de uma caçada de rãs com seu sobrinho e outros amigos, viu o homem com chapéu, sentado em cima da porteira. Sossegando os outros, disse que não precisavam ter medo, pois ele não fazia mal. Então ele gritou: - “Hei irmão, deixa a gente passar em nome de Deus, somos do bem, fica em paz”! E continuando a andar em direção à porteira, repetiu a mesma frase, mais baixo. Já próximos da porteira, o homem pulou no chão, do outro lado da porteira, era magro e muito alto e, de costas, colocou a mão direita no chapéu e sumiu. Ai o sr. Antonio disse alto: - “Vá em paz! Vá com Deus e obrigado! Dias depois, a porteira tinha sumido, inteirinha. Minha mãe e irmãos disseram que tinham roubado ou a alma penada tinha cumprido a pena. Nós todos nos benzemos, fazendo o sinal da cruz. Minha mãe entendia dessas coisas de fantasmas e espíritos. Não tinha medo e dizia que via e falava com eles, quando eles queriam. Quando ela falava destas coisas, de noite, naquele breu, iluminado por lamparina, só para nós ficarmos com medo, não era só eu o medroso da casa, todo mundo arregalava os olhos e se encostavam uns nos outros. Eu era o mais pequeno e subia na cama, na cadeira ou no colo de alguém. Era fogo! O sr. Antônio Roldan era conhecido por Purruga, e caçava pelo morro e pescava por Itaquera e redondeza. Nós também comemos várias vezes codornas, tatú, preás, rãs e, peixe nem se fala. Pombas, rolinhas e até sabiás, que crime, heim? Hoje em dia a gente vê, mas na época tinha prá caramba. 134

Mandinga era um termo que, no período colonial brasileiro se referia à trechos do alcoorão que negros muçulmanos traziam em cartuchos confeccionados de couro costurados e presos em volta ao pescoço. Os negros de outras etnias referiam-se aquilo por patuás. Mais tarde serviu para referir-se a práticas de feitiçaria.

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Nossa infância era muito divertida e tinha amizade com todos os garotos da minha classe no Grupo Escolar Alvares de Ázevedo. Quase sempre em feriados, as professoras no final da aula iam pelas carteiras dando para os alunos uma entrada, uma espécie de bilhetinho, que no dia do feriado a gente dava na porta da entrada do cinema e víamos os desenhos e filmes de graça. Passavam filmes engraçados do estrangeiro e também dos brasileiros, com Oscarito, Grande Otelo, etc. Um dia o Zequinha, meu amigo de escola que eu gostava muito dele, filho do português “seu Zé Coelho” da venda, deu dois ingressos para mim. Um só poderia ser dele, o outro acho que de uma de suas irmãs. Como disse, nossa infância era um barato, os divertimentos com bola, quadrados, fogueiras, balões, nadar nos rios, essas coisas de moleque. Sem falar nas bolinhas de gude, raquete, pião! Era tão legal o parque de diversões com cavalinhos, roda gigante, os carrinhos que a gente saia andando, igual gente grande com carro de verdade. Eu adorava e pensava em queimar todo o dinheiro que minha mãe e meus irmãos davam. Olhavam para minha cara, que eu fazia “olho de peixe morto”, e eles davam. Não regulavam a grana, acho que ficavam com dó de mim. Eu achava que era sorte minha e eles só diziam: - Vê se não perde nem gasta à toa, viu? Eu ia todo trocadinho e enquanto eles iam namorar, eu ia me divertir. Minha família tinha uma baita negrada, dez pessoas, filhos as pampas, mas sempre comemos muito bem e todos tinham muito apetite. Dinheiro sempre tinha, graças à Deus, pois todos que trabalhavam ajudavam em casa. Minha mãe dizia que era preciso a gente saber dar valor para o nosso dinheirinho, e o trabalho era para ganhar o nosso sustento, comprar comida, calçado e pagar o aluguel e, como vivemos muitos anos lá na Vila, perto do campo, aluguel não tinha e ela economizava.

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Família Szarota por Waclaw Szarota Meu nome é Waclaw Szarota, nasci em 21 Abril de 1926 na cidade de Rejtanow, Polônia, e no dia do meu aniversário fizeram ser feriado no Brasil, só para nós comermos churrasco, beber vodka, cerveja e vinho. Meu pai, Jan Szarota (se fala Ian), nasceu em 1891 na Cracóvia, Polônia, e minha mãe Helena Zonteck nasceu em 1906 em Luck, também Polônia. Os irmãos de meu pai tralhavam em uma fazenda, onde plantavam e tinham criação e, em uma fábrica metalúrgica em Varsóvia a “Chrzanow”, muito grande e antiga. Meu pai dizia que por toda sua vida lá na Polônia, ele e a família viviam preocupados com as guerras, a Polônia-Russa. Nesta época ele tinha 23 anos de idade e a Polônia era uma monarquia e, em 1914, ela foi invadida pelos alemães e em 1920, eles lutaram contra a Rússia novamente porque eles queriam “roubar” uma parte da nossa Polônia, mas não conseguiram, os poloneses defenderam com a vida sua terra. Meus pais casaram em 1924, o papai com 33 anos e mamãe com 17 para 18 anos. Mas parecia que todos sempre queriam tomar a nossa terra, pois a guerra de 1938 também foi assim. Eles tinham nós já, os filhos, foram sete: eu, Waclaw, o Tadeusz, Waleriam, Broniswaw, Janina, Staniswaw e, depois o Henry. Os meus pais estavam muito preocupados com a segurança da família na fazenda onde morávamos, em DubnoWaalin nº 18, e minha mãe estava grávida em 1938. Como os soldados estavam invadindo tudo e judiando das pessoas, os russos e meus pais conversaram e resolveram fugir para salvar a sí e os filhos. Pegamos tudo o que pudemos e quando chegou a noite, saímos todos a pé com muito medo, para uma cidade chamada Wulca Kotowska, e ficamos lá escondidos e trabalhando, meus pais e os filhos mais velhos. Até que em 1942, meus pais resolveram que deveríamos fugir dali, pois começamos a ver que novamente estávamos passando perigo de vida. Já tínhamos feito amizades, gostavam de nós e nós gostávamos de todos. O meu pai sempre dizia que sentia-se forte ainda, e precisava cuidar de nossa segurança, já estava com mais de cinquenta anos, assim, saímos novamente para a estrada em uma noite. Lembro-me que o meu irmão Henry chorava incomodado nos colos de todos, nas costas e nos ombros, porque meu pai fazia-nos andar pela estrada, pelo mato e morros, depressa. Quando nós saímos da Polônia era Outubro, e fazia frio, nós tínhamos agasalhos, o Henry tinha uns três anos somente, e não conseguia acompanhar a turma, quando ia andando o pessoal, ele corria, tropeçava e caia e todos nós riamos e ele ficava bravo, coitadinho. Nós andávamos desde cedo e minha mãe pedia para meu pai parar em algum lugar seguro para preparar a nossa alimentação. Ele ia olhando até que achava um lugar bom, não podia ser perto de caminhos e estradas. Eu e os irmãos pegávamos lenha e ele fazia o fogo e ajudava a mamãe no preparo da comida. Precisávamos comer para ter forças para andar e também carregar as sacolas e alimentos, batatas, repolho, beterrabas, queijo, salames, levávamos carne salgada, pão e biscoitos. Éramos oito pessoas e meia, meia era o irmão pequeno. Todos ajudavam, nesta época o Henry tomava leite na minha mãe, enquanto ela caminhava, ele ia no colo agarrado e sugando, como um cabrito e, quando ela sentava para descanso ou comer, ele corria, subia no colo e ela o alimentava, beijava e lamentava a sorte do pequeno. Mas nós todos, os maiores, parece brincadeira, com todo o perigo em nossa volta, nos divertíamos entre nossas brincadeiras com nosso pequeno irmãozinho, depois de 209


descansar e comer, meu pai apagava o fogo, enterrava o que ficava de lixo, e nós seguíamos cada vez mais longe de Wulca Kotowska. Certo dia, em uma das paradas que fazíamos na estrada, acampamos para descansar e comer perto de um riozinho, que aproveitamos para tomar banho. Minha mãe e irmãs preparavam a comida, que já estava acabando e preocupava muito meus pais, quando eu, o Tadeusz e o Waleriam, que estávamos vendo se avistássemos alguma lebre, ave, ou o que pudessemos comer, ouvimos barulho de carros. Eram jipes cheios de soldados que reconhecemos serem alemães. Eles vinham muito rápido, nós corremos apavorados e eles nos viram e, num instante o nosso acampamento ficou cercado de soldados. O meu pai estava barbudo, a roupa já estava muito usada, as minhas irmãs agarraram-se na minha mãe e começaram a chorar baixinho, com medo, mas o Henry sorria. Eu e os irmãos ficamos juntos de meu pai, os soldados com os fuzis e as metralhadoras saíram dos jipes e chegaram perto de meu pai e, um deles perguntou se nós entendíamos o que falavam e de onde éramos. O pai disse que conseguia entender, que éramos poloneses, que vínhamos de nossa fazenda e que tinha sido invadida pelos soldados. Eles então perguntaram para onde íamos, se sabíamos nosso destino. Meu pai disse que não sabia, só queria proteger sua família, mas estavam já preocupados porque a maioria do mantimento já tinha acabado e eles estavam economizando, dando pouca comida aos filhos, e o outro, o pequeno, que estava na sua inocência, rindo e brincando com os soldados, ainda tinha o leite da mãe. Estavam entretidos conosco, quando chegou um caminhão grande, também cheio de soldados. Um jipe que vinha a frente parou bem perto de nós, e os soldados fizeram o cumprimento deles, do Hitler. Era um oficial superior deles, que começou a ouvir o que os soldados falavam. Depois de algum tempo com muito silêncio, o oficial quis saber se todos eram mesmo filhos dos meus pais, eles disseram que sim. O oficial ficou muito quieto, só olhando, ai ele falou em nossa língua, e muito bem, para meu pai mostrar os documentos, meu pai nem se mexeu, ele insistiu perguntando se meu pai não tinha entendido, já que tinha falado em nossa língua. O meu pai respondeu que era porque estavam embrulhados e guardados entre as coisas para não molhar, e que iria precisar deles, tinha que procurar entre os embrulhos, iria levar algum tempo para encontrar. O oficial, que era um coronel, disse ao meu pai que ele tinha três minutos para encontrar os documentos de toda a família e colocar em suas mãos, porque se não fizesse, iria se arrepender muito, e foi para o jipão. Meu pai pediu para minha mãe a sacola dos documentos, ela soltou-se de minhas irmãs e foi pegar a mochila, abriu, tirou umas roupas e o embrulho. Um soldado foi perto e tirou das mãos da minha mãe, vendo aquilo o oficial chamou a atenção dele, e pediu para entregar ao meu pai, ele pegou das mãos do soldado e levou até ele. O tal do coronel abriu os documentos e, a medida que lia um por um, ia olhando para nós, que estávamos todos juntos. Conferiu quantos éramos e então chamou meu pai, dizendo que ficara satisfeito por ele dizer a verdade, então mandou outro soldado entregar para minha mãe e que ela tornasse a guarda-los. Acontece que meu pai tinha dito que tínhamos comido muito pouco, para economizar, mas não era verdade, nós tínhamos comido muito bem e não estávamos com fome nenhuma, nem com sede. Ficaram preocupados quando ouviram o coronel mandar que trouxessem comida para todos nós, e que comêssemos tudo o que quiséssemos, depois pegássemos nossas coisas porque ele iria nos levar dali e, que meus pais alimentasse-nos enquanto eles iriam descansar e consultar uns mapas, abrindo-os no capô do jipe. 210


Nós ficamos só olhando, enquanto isso os soldados trouxeram várias caixas com alimentos, um fogareiro grande e pratos e travessas. A minha mãe tinha suas panelas e caldeirões, nas quais preparava as nossas refeições, ela perguntou se iria precisar e eles disseram que não, e dali a pouco já tinha no ar cheiro de carne assada, legumes, chucrutes e, para alívio de nossos pais, sentimos vontade de comer. O coronel chegou perto de nós, espetou uma faca em um dos pedaços da carne e enfiou na boca, estava experimentando, achou bom, então ele falou para um soldado, que sempre o seguia, para ir buscar duas garrafas do vinho dele, o soldado foi e voltou com as garrafas. Pediu três copos, deu um para meu pai, outro para minha mãe e encheu-os, como também o copo dele, e mandou que bebessem e comessem também, e todos nós comemos mais do que podia-mos imaginar, não cabia mais. Minha mãe vendo que iríamos deixar que sobrasse muita comida, foi colocando tudo dentro do caldeirão, colocou a tampa e embrulhou em uma toalha, guardando-o com as panelas. O oficial ficou satisfeito de ver que tínhamos comido tudo, mandou que pegássemos nossas coisas e subíssemos no caminhão. Quando nós já tínhamos subido, ele mudou de idéia, chamou meu pai e pediu para que trouxesse todos nós para embarcarmos no jipão. Ele também subiu e ficou ao lado do motorista e nós, ficamos todos juntos sentados nos bancos de trás. Virou-se então para olhar como nós estávamos acomodados e achou que deveria modificar. Pediu para os meus pais irem para o banco de trás e mandou que dois soldados sentassem no banco junto deles, um de cada lado e os pais no meio. Pediu para que eu, que era o maior (14 a 16 anos, por ai), fosse sentar-me perto dele na frente. Colocou o braço para trás e pegou o Henry, colocando-o em meu colo, entre ele e o motorista. Em seguida falou para que o Tadeusz e o Waleriam ficassem um de cada lado de Broniswaw, Janina e Staniswaw. Quando viu que todos já estavam bem acomodados, falou que segurassem bem, porque iam andar muito depressa e as estradas tinham muitos buracos. Ninguém poderia cair, porque seria quase certo, quem caísse, ser esmagado pelos caminhões ou jipes, sem tempo para parar, alem do perigo de provocar engavetamento. Alem do mais, logo escureceria, o que faria com que os motoristas não enxergassem a tempo alguém que caísse, isso acontecia as vezes com civis e até com soldados. Perguntou se meus irmãos e irmãs tinham entendido, elas com seus olhos muito abertos em seus rostos bonitinhos responderam que tinham entendido. Ele então falou para meu pai: - Senhor Jan, eu quero que vocês se comportem como meus prisioneiros, não precisam ficar preocupados, nós, como já falei, vamos viajar com a maior velocidade possível, vou mandar dois carros a nossa frente. É quase certo que atirem contra nós, eu quero protege-los e os seus filhos, se tivermos que parar, mesmo sendo por soldados alemães como nós, quero que as meninas coloquem seus gorros e capuzes na cabeça e, por baixo das saias, coloquem as calças dos irmãos e tirem os vestidos do corpo, sujem um pouco os rostos uma da outra, ou a mamãe. Isso é para que pareçam rapazes. O sr. como pai, tem que compreender, é para proteger suas bonitas filhas. Não sou bruxo para adivinhar que tipos de homens temos pela frente. Sr. Jan, eu sou o comandante responsável por este grupo de assalto de 400 soldados, são seis caminhões especiais e seis jipes, nós só queremos parar perto de Neumeister, onde pretendo deixa-los em segurança com conhecidos meus. Achei que você e vossa família merecem esta oportunidade, se tudo correr bem, não vou precisar prestar contas de quem são vocês, por isso é que pedi que colaborem, a viagem é longa, se vocês têm alguma fé, rezem aos céus, por todos vocês e por nós. 211


Eu entendi tudo e fiquei até alegre, o meu pai, segurando as mãos de minha mãe disse estas palavras que nunca mais esqueci, e ele também quando lembrava repetiu por muitos anos: – Senhor comandante, em nome da minha família, eu já agradeço tudo o que o senhor nos ajudou, e nós temos muita fé em Deus, e como já estamos vendo, ele está nos ajudando e vai ajuda-lo também e aos seus. Obrigado pela atenção às minhas filhas e pode contar conosco, seremos seus prisioneiros comportados até a liberdade que o senhor acredita que nos irá conseguir. Deus o ajude. O oficial sorriu com o queixo apoiado no braço sobre o banco do Jipe e o rosto virado para mim bem perto do meu e, eu, naquele momento vendo os seus olhos azuis tão brilhantes, acreditei e confiei nele. Tudo daria certo, Jesus nos protegeria, abracei forte o corpinho do meu irmãozinho e fiquei prestando atenção nas batidinhas do seu pequeno coração, eram leves. O oficial ficou em pé com seu enorme tamanho no jipe, e gritou forte e alto: - Em frente! E o comboio foi seguindo. Eu pensava comigo mesmo, eu já com minha idade me considerava um homem, tinha quase 1,70m de altura, pensava também que era bem esperto, um pouco inteligente, admirava aquele soldado mas eu não seria um soldado. Ter que expulsar e perseguir as pessoas, até mata-las, soldados ou não, moços, velhos, animais, destruir casas, igrejas, tudo. Vi como a vida era curiosa! Até aqueles momentos estava até um pouco contente, grato por aquele simpático e forte soldado. Compreendi então que ele não deixava de ser um inimigo, e senti que precisaria de muita força e coragem, muita raiva e ódio para tentar mata-lo. - Não serei soldado! – Pensava. Nosso jipão corria sacolejando atrás, bem próximo dos dois da nossa frente, e na verdade era o nosso que dirigia a velocidade deles. Vi que os dois que iam adiante conservavam uns três metros de distância, e o nosso oficial falava de vez em quando para o motorista dar mais velocidade, e assim que íamos encostando no pára-choques do da frente, este aumentava a velocidade, obrigando o outro a correr mais, era divertido, e se diminuía era a mesma coisa, depois de cerca de meia hora, o pequeno já se acostumara com os trancos e solavancos, e com seu rostinho bonito ria-se e começou a mexer nos mostradores do painel, tudo cheio de pó, eu tentava segurar suas mãos e chamava sua atenção, mas o motorista e o oficial sorriam e falavam com ele. Mesmo eles dois sendo grandes e fortes, e eu também não era pequeno, sobrava mais espaço que nos bancos de trás, quatro em cada banco. Por isso o Henry descia, entrava e passava pelas pernas do oficial para ir ao lado da porta, onde segurava-se com as mãozinhas, e o oficial com as grandes mãos segurava-os pelos ombros. Eu quase chorava de emoção vendo-o sorrir, divertindo-me com alegria com meu inocente irmãozinho, e pensava, como era absurda essa guerra, as pessoas tinham coração, sentimentos, amor naquele espaço pequeno do jipe que parecia um cavalo pulando, nós todos éramos como irmãos, eu sentia que todos se respeitavam e se gostavam, interessando-se uns pelos outros, pensei, é isso que Jesus ensinava. Meus pais sempre liam as palavras de Jesus na bíblia da família que sempre nós cuidávamos. Todos juntos, eles e nós, fazíamos a reza, depois ele lia, a mãe também, e comentavam sobre a passagem, no nosso modo de entender. Com muito respeito nós escutávamos e o nosso pai até ficava parecendo Padre, como os que nós ouvíamos e víamos nas nossas Igrejas. Mesmo antes de os alemães nos acharem, todas as noites em 212


nosso acampamento, depois de comer e com o fogo aceso, ele acendia a vela de sebo, que nós tínhamos uma porção, e lia a Bíblia. Depois os soldados nos deixavam usar seus lampiões, nos deram dois, e a claridade melhorou. Mamãe aproveitou e guardou bem as velas, e o meu pai falava baixinho para minha mãe, para ela observar com cuidado o oficial encostado no caminhão que ficava perto. Ele lá ficava fumando e escutando tudo que o meu pai lia e comentava e, no final nós agradecíamos e nos benzíamos. Passamos a dormir na barraca militar de proteção, que nós mesmos armávamos. Uma noite, quando apagava o lampião perto dela, minha irmã diz que viu ele fazer o sinal da cruz junto conosco. Estivemos dentro de uma espécie de forno do inferno, que poderíamos ter morrido todos nós juntos, como o que aconteceu com milhões. É bom saber sobre as tristezas de uma guerra, Deus nos livres. A guerra começou na nossa Polônia. Por abuso dos direitos de nossa pátria Polônia. Nós tínhamos direito de levarmos nossos produtos para o porto de Danzig135, que até trabalhavam lá alguns parentes e conhecidos nossos, era o tal de “corredor”, e por causa disso os alemães resolveram invadir a Polônia, que lutara pelo seu direito, assim que começou em 1938-39 a Segunda Guerra Mundial. Ai então os russos e alemães fizeram acordos entre eles e dividiram a nossa terra. Todos nós, sabendo disso depois, choramos muito. Tantos mortos por nada, mas já estávamos preocupados desde antes de acontecer de fato e, em 1942 como eu contei, pela esperteza de nossos pais, saímos como fugitivos, e logo depois, milhões e milhões fizeram o mesmo, saindo da Polônia, uns levados para a Alemanha, outros para a Rússia e muitas famílias, pais irmãos filhos, foram divididos. Nós, por Deus, não o fomos e as brigas por lá duraram até quando nós já estávamos em terra do Brasil, na Itaquera de 1951-52. A luz da “Light” tinha chegado e nós escutávamos o rádio, ficamos sabendo que quando a guerra acabara os poloneses tinham colocado um governo, mas nós já não estávamos interessados, aqui no Brasil e na Itaquera-Vila Santana era calmo, nós trabalhávamos e vivíamos bem, sem medo de guerra. Mas hoje não, tem guerra aqui todo dia, Polícia no Rio de Janeiro, até parece lá no nosso tempo, soldados, bombas, tanques, até helicópteros, e não é como lutas de lá, contra estrangeiros invasores, é entre brasileiros136. No caminho para a cidade, que seguíamos com grande velocidade, nossa turma encontrava as vezes com grupos de pessoas andando. Umas indo e outras vindo pelas estradas que nós seguíamos e, as vezes, os soldados as paravam, mas o coronel mandava que as deixassem seguir, como nós íamos junto dele, ouvíamos as ordens, e muitas vezes a gente ouvia e via os aviões indo em direção à nossa terra, e com tristeza escutávamos barulho de tiros e de bombas e, quando noite, até clarões víamos. Quando nosso comboio encontrou-se na estrada com outro grande também, ficou parado muito tempo lado a lado, com os soldados cumprimentando-se e juntando-se, foi então que pudemos ver como o coronel tivera razão de vestir minhas irmãs de roupas masculinas e escurecer seus rostos, com as rolhas dos vinhos que papai ia queimando e mamãe passando, pareciam mesmo meninos, a Janina ficou igual a um rapaz. Até que uma manhã, nós vimos que estávamos chegando em uma cidade, vimos campos, casas, vacas, cavalos, e fomos passando por ela. Via as crianças do vilarejo que acenavam para a caravana que passava e, muitas vezes, algumas iam correndo por algumas distâncias acompanhando os caminhões, seguidas de cachorros, que iam latindo.

135

Gdańsk é uma cidade da Polônia que durante a dominação alemã, compreendida entre 1793 a 1945, era conhecida por Danzig . Quando o sr. Waclaw deu este depoimento, o exército havia invadido as principais favelas do Rio de Janeiro para medidas de pacificação e controle contra os traficantes, fato que ocasionou grande troca de tiros entre as partes. 136

213


Os soldados então jogavam punhados de balas e chocolates e divertiam-se. Nós também comíamos muitas coisas gostosas que nos davam. Nosso Jipão foi parar perto de umas casas grandes, em uma espécie de praça, e que tinha uma igreja. O coronel desceu, falou com os outros oficiais e nos chamou para que o acompanhássemos. Estranhamos quando ele foi entrando na Igreja e logo chamou um homem, que estava lá arrumando o altar. Falou para ele levar minha mãe e os filhos para o banheiro e, voltando-se para nós, pediu que o acompanhasse também, mas o meu pai ficou com ele. Nós utilizamos o banheiro, estávamos com saudades, naqueles dias era só nos matos. Estávamos já prontos para nos lavarmos, quando o homem veio até nós e falou em polonês atrapalhado. Era para dizermos a mamãe que conservássemos a roupa, todos os filhos com calças de rapazes, mamãe entendeu e as irmãs não lavaram o rosto. Quando voltamos para o lugar da Igreja que estariam eles, estava vazia. Um soldado nos indicou os bancos, mas mamãe já quase chorando perguntou de meu pai, o soldado entendeu, mesmo não entendendo a língua, e chamou a mim e o Tadeusz. Nós o acompanhamos até a porta e ele mostrou-nos uma espécie de venda na praça, muito próximo da igreja, e mandou que fossemos até lá. Nós pensamos um pouco e decidimos que o Waleriam e Broniswaw ficariam com elas e o Henry, que teimava em nos acompanhar, mas o soldado não permitiu, nós gostamos e fomos para lá, ouvindo aindo os protestos do Henry. Quando chegamos, vimos o coronel escrevendo apoiado em uma mesa, com meu pai e outro oficial com medalhas ao lado, todos sentados e com grandes canecas de cerveja bebendo com muito gosto, o papai também. Nós ficamos contentes, o coronel chamou-nos e nos apresentou como filhos do meu pai. O homem era muito alegre, achou-nos grandes, era o dono da venda e parente do coronel, e o que ele estava escrevendo era para entregar aos outros seus parentes, para onde ele iria nos enviar. O homem conversou com o coronel, que chamou um soldado e o mandou buscar o resto da família, achamos engraçado quando vimos que elas chegaram chorando, é que os soldados não falavam nossa língua, fazendo-as acompanha-los com gestos feitos com os fuzis, que as assustaram até chegarem lá. O homem muito risonho, levou os seis amedrontados para uma mesa nos fundos do armazém, que funcionava também como bar. Quando nos viram, estávamos como os adultos, tomando também cerveja e comendo pedacinhos de presunto e queijo. O dono então pediu para que lá continuassem sentados e, algum tempo depois, enquanto nosso pai e os oficiais conversavam, fazendo os planos do que iriam fazer, nós vimos que uma senhora e uma moça tinham trazido duas panelas e caldeirão grandes e posto na mesa, e falavam muito alegres com mamãe e dali a pouco todas estavam comendo. Nós dois também queríamos ir lá para comer, mas ficamos com vergonha e dali a pouco o coronel, que depois soubemos chamar-se Keyserling e alguns também o chamavam de Keiteimas, levantou-se e chamou meu pai e foram até a mesa que estava minha família, nós dois também fomos, sentamos juntos e comemos com vontade. Enquanto ia comendo, ele foi muito entusiasmado contando para minha mãe o que tinha combinado com seu parente, e que ele era um dos donos de uma fazenda em um lugar que se chamava Maienfeld. Nós iríamos ficar lá trabalhando e sabia que lá nós estaríamos protegidos dos perigos da guerra. Ai ele disse assim: - Se Deus quiser, logo acaba! Tinha certeza que iríamos gostar, que depois de comer, fossemos todos espera-lo lá na igreja, era quase certeza que ele iria com o primo levar-nos e apresentar-nos lá. 214


Fomos de barriga cheia para a igreja, minha mãe foi logo ver nossas coisas, mas estava tudo lá, tinha um soldado guardando, minha mãe abraçou e beijou meu pai dando graças à Deus, e depois veio e nos abraçou e beijou todos nós, estávamos sentados nos bancos quando tocou um sino e foram entrando as pessoas. Um tempo depois um padre apareceu perto do altar e seus ajudantes, três rapazes, falou cumprimentando os presentes e começou a celebrar a missa. Meus pais pediram para ficarmos lá e foram os dois para a frente e ajoelharam-se nos degraus, perto do altar com outras pessoas, e ficaram lá ajoelhadas muito tempo, até quase o final, quando se aproximou de meu pai aquele homem que havia nos recebido, e vimos que ele batia no ombro de meu pai e falava alguma coisa. Papai e mamãe levantaram-se, benzeram-se e chamaram-nos para pegarmos nossas sacolas, com a ajuda do homem. O jipão já estava na praça nos esperando com o parente sorrindo perto do motorista e o coronel em pé ao seu lado. Mandou que subíssemos novamente e meus pais sentaram-se atrás, com os soldados um de cada lado. Desta vez eu não fui na frente, mas o oficial colocou novamente o alegre Henry entre eles, e assim já anoitecera. Nós iniciamos a viagem e só um outro jipe nos acompanhava e ia atrás. Depois de muito tempo de viagem nós chegamos em frente a uma porteira grande. Vimos, pela luzinha, que havia uma casa muito longe e entramos e, quando já estávamos perto, um grupo de pessoas estava fora de casa, todos alegres, e todos se abraçaram, e mesmo antes do oficial nos apresentar, nós também fomos abraçados e beijados por todos. Quando nós nove entramos, e mais os dois, vimos que a sala era muito grande, com uma mesa enorme, muitas cadeiras, móveis, poltronas e quadros nas paredes e uma grande lareira. Fomos convidados para sentar e o oficial então com o primo, que era um dos donos, foram contando para eles, veja só, que meus pais eram seus amigos, todos eram filhos, mas que também tinham filhas, contou sobre as calças dos irmãos e o rosto sujo, e foi uma grande risada de todos, ficaram sabendo os nossos nomes, que éramos cristãos e disseram que seus nomes eram sr. Bush e dna. Mushi, e que os víssemos como parentes deles. A dona Mushi levantou-se e chamou minha mãe, pedindo que chamasse minhas irmãs e pegassem as sacolas e a seguisse, nós ficamos lá, mas o sr. Bush falou em nossa língua, mais ou menos, mas dava para entender bem, que também fossemos tomar banho e se quiséssemos trocar as roupas, que o fizéssemos. Uma moça nos levou até o banheiro, era de homens e muito grande, tinha uma linda banheira, mas não a usamos, a moça trouxe umas toalhas, mas eu mandei meus irmãos usarem as nossas. O meu coração batia forte, alegre. O Henry fugiu do banho e quando saímos do banheiro, sentimos o cheiro bom de comida, parece mentira, a gente estava sempre com fome, era só pensar ou cheirar comida. Quando nós chegamos na sala vimos que todos estavam sentados na mesa. Meus pais até trocados de roupa, a Janina havia pego o Henry na marra e dado banho nele no banheiro das mulheres, deixando-o limpinho, trocado e com o cabelo penteado. Estava todo risonho. A dona Mushi, mamãe e irmãs traziam as travessas e grandes tigelas de comidas e cozidos, parecia um banquete. Meu pai falou algumas palavras em pé, de agradecimento e deu graças à Deus, todos acompanharam no amém. Os homens as mulheres, e nós também, levantamos nossos copos e canecas e brindamos com vinho. Eu sempre me lembrei deste dia e, até hoje, naquela hora que todos brindávamos, eu pensava em minha cabeça, vendo todos rindo e falando todos juntos, com toda a alegria como no dia de Natal: - Puxa vida, Deus e Jesus, muito obrigado, nós somos prisioneiros. 215


Não sei nem contar o quanto que naqueles três anos, com o sr. Bush, a sra. Mushi e toda a sua família, fomos felizes. Tudo que disseram quando nos receberam eles cumpriram, tratavam-nos mais que parentes, nossos pais igual irmãos e nós como seus filhos, as irmãs fizeram amizades com as filhas deles e nós com os filhos. Minha mãe, nas conversas com meu pai, perguntava se quando a guerra acabasse nós iríamos voltar para a nossa fazenda. Papai dizia que seria quando Deus quisesse. As duas famílias rezavam juntas e, nas vezes que o coronel vinha, ele também nos acompanhava sem nenhuma vergonha, e perguntava para nós se estávamos bem, gostando e, se éramos bem tratados, e dizia: – Senão eu trago soldados e mando fuzilar todo mundo e vocês tomam conta da fazenda de uma vez, e ria-se até ficar vermelho, o que era muito fácil. Preciso dizer que todos nós trabalhávamos na fazenda, do mesmo jeito que fazíamos na nossa e como já estávamos mais crescidos e fortes, rendia mais o serviço e tem mais, eles tinham combinado de fazer um pagamento mensal e disseram que como não precisávamos pagar nada, mamãe fosse guardando, junto com os documentos para garantir o futuro que Deus conhecia. E assim era feito, só tirando alguma importância quando todos nós, jovens das duas famílias, íamos nas festas da cidade, isso era de vez em quando. E neste meio tempo, o Henry ia crescendo como filho e irmão de todo mundo, quando chegamos na fazenda era pequeno. Assim passaram os dias, semanas, meses e anos. Nós todos, sempre com alegria, trabalhávamos e estudávamos também e, com esperança, rezávamos pedindo a Deus o fim da guerra e até uma possível volta para nossa pátria, nossa fazenda. Uma tarde, os filhos dos donos da fazenda vizinha entraram pela porteira, com a charrete grande de dois cavalos, e nós vimos que as moças e os rapazes vinham balançando panos e lenços gritando e cantando muito alegres e foram parar em frente da casa. Nós todos corremos para lá e nos juntamos à alegria, quando soubemos que era porque a guerra tinha acabado. A noite, depois da farra, fomos jantar, como sempre todos sentados em torno da mesa. Meu pai Jan e o sr. Bush fizeram as preces agradecendo a Deus pela paz, pelas bênçãos sobre as famílias e pelo nosso alimento. Todos estávamos emocionados, com lágrimas nos olhos. Íamos comendo como se não tivéssemos fome. Eu também parecia que tinha alguma coisa na garganta apertando, vontade de chorar, todos em silêncio, até o Henry já bem grandinho, com quase seis anos. Eu olhava para todos, compreendendo que o motivo do silêncio e dos olhares tristes para nós, por parte do sr. Bush, da dona Mushi e dos filhos, era como dissessem, que depois de tantos momentos alegres, a tristeza do adeus. Até que meus pais, depois de muitas conversas entre eles e nós, eu já era um homem forte com dezoito anos, opinávamos se deveríamos voltar para nossa fazenda, onde antes da guerra era nosso lar e local de trabalho. Os homens eram a favor, as mulheres não tinham muita certeza, sentiam-se seguras e até felizes com a família amiga. Uma noite na hora do jantar, chegou nosso amigo coronel com muita alegria e uma porção de pacotes, eram presentes para todos nós. Abraçou todos nós e o Henry, que logo correu abraça-lo também, ele elogiou-o dizendo que havia crescido bastante e deu um pacotinho, tinha um boné e uma caneta da Parker, dizendo que era para os seus estudos. Durante o jantar, depois de o coronel contar várias histórias tristes para nós todos, os perigos que passou, quase morrendo por várias vezes, pediu para que rezássemos por ele que tivera que ser responsável por muitas mortes, o meu pai muito emocionado 216


comunicou a decisão que tinha tomado, embora lamentasse muito e não tinha como agradecer tanta bondade, amor e amizade que de todos tínhamos recebido. Foi um choro geral, até parecia que já estávamos indo embora e era um tal de pedirem: “- Não vão, fiquem aqui!”, as moças mais ainda. O nosso amigo, também emocionado, como estava acostumado a dar as suas ordens como oficial, disse que entendia, era um direito nosso de lá ficar ou irmos de volta a pátria. Pediu para meu pai escrever uma carta para a família, alguém que ficara lá, algum vizinho, etc, e que ele se encarregaria de leva-la e voltaria em breve com a resposta. Meu pai foi escrever a carta e entregou para ele. Logo depois das despedidas ele partiu e, novo choro geral, até eu, e quando fui deitar para dormir, lembrei o que meu pai tinha aconselhado para todos nós, que trabalhássemos, fossemos gentis, estudássemos bastante, mas que de modo nenhum nos envolvêssemos com namoros com nenhum deles por respeito, éramos como irmãos, porque nós iríamos embora dali qualquer dia, isso ele garantia, todos eram muito bons, mas lá não era nossa pátria, e dizia que duvidava que mesmo na Polônia seriamos tão bem acolhidos. Minha mãe concordava, dizendo que nem os familiares dos dois, ainda mais que éramos nove pessoas, e lá ocorria a guerra, ruim para todos. Depois daquela noite, todos os dias eram de espera e também das lamentações, sensação de despedidas constantes, nossas coisas preparadas para viagem a qualquer hora. Uma tarde, já escurecendo, vimos um carro se aproximando, era o coronel que chegava sorrindo e nós quinze o observávamos, nossa família e o casal com seus quatro filhos. O coronel foi ao banheiro, todos nós sentados em volta da mesa, todos calados esperando, quando o oficial chegava, era ele que sentava na outra ponta da mesa, onde meu pai sempre sentava, e ele, papai, ficava ao lado do Henry, perto de mamãe. Por fim o coronel chegou, pediu licença e sentou-se. Olhou para meus pais, bem ao seu lado direito, pegou um envelope dobrado no bolso da camisa e disse: - Sr. Jan, dona Helena, eu acredito que sei o que está escrito ai nesta carta. Lamento muito, fiquem sabendo, mas leiam, depois eu falo novamente. Meu pai pegou o envelope, com a faca abriu, tudo muito devagar, todos o olhavam. Ai ele colocou ao seu lado a folha aberta para que minha mãe também pudesse ler, e os dois começaram a ler e logo a minha mãe começou a chorar balançando a cabeça, nós também sem saber ainda porque, mas vendo-a chorar a acompanhamos, todo mundo chorava. Meu pai deu a carta para o oficial ler também, mas ele pediu que passassem até a outra ponta da mesa, até o sr. Bush, mas ele disse com as folhas nas mãos que encontrava um pouco de dificuldade com o idioma, devolvendo para o coronel que pegando leu-a e traduziu ao mesmo tempo. Foi uma lágrima só, quer dizer, todos choravam. Os amigos, vizinhos de nossa casa e uma tia, diziam que os russos tinham tomado posse da fazenda, tudo por lá estava uma grande bagunça e, mesmo tendo a guerra acabado, por lá ainda ocorriam invasões, saques, assassinatos, desaparecimento de homens, mulheres, crianças e muitos suicídios. Pediam que “pelo amor de Deus”, se estávamos em segurança mesmo, que ficássemos por lá ou que fossemos para outro lugar qualquer, lá não. Meu pai então falou que tendo terminado a guerra, mesmo assim, nós éramos estrangeiros lá e que nada mais tínhamos. Ele já imaginava que isso poderia acontecer, já havia dito para a minha mãe que deixasse as nossas coisas de jeito, prontas para partir, e 217


nós deveríamos, com muita pena, procurar outro local e que arranjaríamos uma maneira para irmos para outro país, sairíamos sim. Perguntou, depois de muitos agradecimentos, o que nossos amigos achavam e para onde nos aconselhavam írmos. O sr. Bush disse que primeiro aconselhava que as mulheres colocassem a janta na mesa e, que todos deveriam comer e tomar vinho para acalmar os nervos e pensarem melhor, mais claro. Fizemos as orações de costume, pedindo a Deus que nos ensinasse um caminho e então, meu pai colocou as duas mãos na cabeça e disse: - Pelo amor de Deus também, por favor, parem de chorar, nós fomos muito ajudados até aqui. Estamos todos vivos, as duas famílias com muita saúde, enquanto dos dois países tantos já morreram e ainda estão morrendo. Ouviram a carta? Só nos resta sentir-mos é muita alegria. Vamos já seguir o conselho do nosso amigo, comer a comida abençoada e pensar. Então todo mundo comeu muito bem e, depois de conversarem muito, comentando e ouvindo os casos tristes contados pelo amigo militar, vistos na recente visita à Polônia e, mesmo ouvindo os novos pedidos para que lá continuássemos, pois sentiriam muitas saudades de nós e do Henry, sempre alegre, brincalhão e inteligente e, ainda a preocupação que iriam sempre sentir por nós, como nos iríamos arrumar, enfim, deveríamos ficar por lá. O oficial então perguntou se meus pais já haviam resolvido mesmo irem para outro lugar, meu pai respondeu que sim, quanto mais tempo por lá ficasse, pior seria a separação. Não era cigano, mas queria experimentar viver em outros lugares. O amigo perguntou se mesmo com os filhos, família grande ele pensava assim. Meu pai então respondeu que graças à Deus tinhamos saúde, e já estávamos bem crescidos, até o Henry, que ele mesmo vira quase como um bebê, ainda mamando, já estava crescido. Concordando com papai, então disse dirigindo-se aos dois, como de costume: - Senhor Jan, sra. Helena, como vim até aqui, mas vou voltar amanhã cedo para resolver algumas coisas complicadas, eu peço que me dêem dois ou três dias no máximo. Vou ver o que posso fazer por vocês e, se conseguir o que estou pensando, eu mesmo talvez os possa levar para algum lugar seguro, para vocês resolverem os passos futuros. Concordam comigo? Vão esperar? Meus pais agradeceram e disseram que sim, estaríamos preparados e, o Henry que mesmo sendo muito pequeno naquela aventura, nunca mais esqueceu e deu muitos vivas: - Oba, viva! Vamos passear com o tio Kei de carro novamente! Viva! Era assim que os filhos do sr. Bush, dois rapazes como nós e duas meninas, chamavam o tio oficial deles, e de nós também. Ele perguntou como estávamos nos estudos, respondemos que íamos todos bem. Como eu já estava grande e forte ele me apertou o ombro com aquela mão grande e disse sorrindo: - Você pode já ir se preparando, é bem capaz de arranjar um emprego em alguma outra atividade que não seja igual a arar, plantar, cuidar de vacas, porcos, cavalos, estas coisas que vocês estão acostumados na fazenda, por isso, vá se preparando para isso em sua cabeça, mas deve sempre lembrar-se que tudo será experiência, fiquem certos que eu vou procurar o melhor para vocês, mas não será como aqui. Depois do jantar, ficamos sentados nas cadeiras largas da área, conversando e ouvindo o rádio, que o tio oficial tinha trazido de presente, e o gramofone, que ouvíamos os discos de músicas e cantos. Eu ficava perto dos adultos, ouvindo os restos que chegavam aos ouvidos sobre os planos, o tio fumando charuto, o sr. Bush um cachimbo 218


daqueles gordos e torto para baixo. Instantes depois fomos todos dormir pois ele logo cedo iria embora. Meus pais repetiram o que o coronel havia dito na mesa, que mesmo encontrando o melhor, não seria como ali. Nós os ouvíamos e ficávamos também comentando, até que meu pai falou bravo para que fossemos dormir e rezar para Deus e Jesus para nos ajudar, porque nós iríamos embora sem falta. Três dias depois ele veio realmente, vinha com o jipão, o motorista e o soldado, aquele mesmo que o acompanhava, como a pistola inseparável do seu cinturão, e vimos que vinha mais alguém junto, era civil. Logo chegaram, foram parando, ele logo saltou do jipão e foi abraçado pelo Henry que recebeu um pacotinho que tinha balas e bombons. Todos receberam também, as meninas ganharam blusas e as duas senhoras chalés e chinelos, os dois homens uma linda bota marrom que serviram direitinho, o meu pai não sabia como agradecer, estava muito contente. O homem que vinha com ele era o outro dono da fazenda, irmão do sr. Bush, aquele do armazém-bar. Entramos todos e eles, como da outra vez, foram ao banheiro. Nós todos fomos sentar em nossos lugares, ficando vaga a ponta e um outro lugar onde, quando voltaram do banheiro, foram sentar-se. Ficaram os dois irmãos um em cada ponta, e o oficial ao lado dos sobrinhos. Vimos que ao contrário da outra vez ele estava mais alegre, risonho e brincalhão. O sr. Bush então, para alívio de meu pai, perguntou se tinham boas notícias mas antes, o melhor seria as mulheres servirem o jantar e, depois, com mais calma, tratar dos assuntos. Eles dois disseram que sim e que poderiam servir a janta, e novamente fizemos brindes, tomaram bastante vinho e nós também fomos servidos. Depois cantaram, até as Polcas, foi só alegria. O sr. Bush pediu para que as mulheres fizessem o favor de retirar o jantar da mesa e, como elas estavam muito curiosas para ouvirem as novidades que os dois tios haviam trazido, em duas piscadas de olho tudo já tinha desaparecido da mesa, e elas todas sentadas em seus lugares com seus olhos azuis, verdes e castanhos, todos em cima dos tios e do pai, só esperando que começassem a falar. Foi o irmão, dono do armazém que começou dizendo que sentia muito que nossa família fosse embora, deixando-os, que desde o dia que o primo os levara para sua casa, porque eles moravam na casa nos fundos do armazém, eles também gostaram muito da família Szarota, os pais atenciosos e os filhos bem-educados. Sabia do modo alegre e feliz que todos nós, junto com seus sobrinhos e cunhada, trabalharam aqueles três anos, e davam-se bem como irmãos, sendo que uma grande amizade unia seu irmão Bush e Jan e, a Mushi e Helena. Ele, Jan, era o companheiro do irmão, o que ficava sentado na varanda conversando a noite tendo que sentir o cheiro da fumaça do cachimbo do amigo, suportando quieto, já que não fumava. Todos rimos. Disse que nossa partida já estava sendo sentida até por ele e a família lá na cidade, mas que todos respeitavam a decisão e que depois que o primo oficial dissesse o que tinha que dizer, ele iria pedir aos meus pais um favor, e deu a palavra ao oficial. - Bem sr. Jan e sra. Helena, agradeço por confiarem em mim e esperarem, como eu dissera, ia ver se poderia arranjar um modo de leva-los daqui em segurança e, para lugar seguro. Acredito que consegui alguma coisa boa para todos com amigos e parentes nossos. Todos nós, que quase choramos ouvindo as palavras ditas antes pelo tio, ao ouvirmos estas, todos deram vivas e bateram palmas e começaram a falar ao mesmo tempo uns com os outros, até que pedindo calma ele continuou: – Depois de ouvirem o pedido do nosso primo eu vou explicar tudo bem direito, para onde vamos leva-los e, quais já são as providencias que tomamos para vocês quando 219


chegarem lá, ouvindo seu pedido e aceitando, fiquem sabendo que não mudará nada para a viagem, só me dará um tempo. Disse o outro: – O que vou pedir, foram minha mulher e meus filhos que deram a ideia e ela disse que vocês deveriam aceitar, é de coração, e também não fará o Keiti ter que se atropelar, ele tem compromissos e responsabilidades militares, cumpre ordens também. É o seguinte, faltam nove dias para o Natal, como eu sou o irmão mais velho, toda a família se reúne no salão do nosso comércio que nestes dias não abrimos para os nossos fregueses, atendemos alguns por uma porta ao lado, vocês já conhecem aquele salão. Quando ele disse essas palavras, eu aqui na minha cabeça comecei a adivinhar o que ele iria pedir, e pensei: Será que papai irá querer esperar mais nove dias? E continuou falando: - Então, como o Bush e a Mushi e os filhos sempre vão, este Natal nós gostaríamos de ter vossa família junto, rezando na missa da meia-noite, e já todos pedindo a Deus e Jesus as bênçãos e a ajuda para o ano novo, e agradecendo muito tudo o que nós recebemos todo este ano, com saúde também entre todos, vocês também, não é? Ficaram todos agora olhando para meu pai, que olhou para minha mãe com o rosto virado para ele a pouco mais de um palmo. Eles só se olhavam, não diziam nada, era um costume que eles tinham de entenderem-se só com os olhos. Daí, meu pai levantou os braços e disse que se sentia muito honrado com o pedido, era ocasião especial também para nossa família e nossos costumes, que naqueles dois natais que passamos só com a companhia dos filhos, porque Bush e família iam para a casa dos parentes. Ficávamos felizes por estarmos todos juntos na casa que nos acolhia, e era o nosso lar também pelo qual orávamos, agradecíamos e pedíamos por nossas famílias e pelos amigos, e que agora neste natal, a felicidade seria completa, mas que depois do natal viajaríamos. O coronel agradeceu dizendo que já esperava isso, e disse que com a alegria do Natal, já estaríamos fazendo as despedidas. Continuou dizendo que já que meus pais tinham aceitado passarem o natal com eles, que a honra era deles também, ele iria então dizer o que já havia arranjado para nós. Ele iria nos mandar ou levar para Hamburgo, e já tinha arranjado uma casa lá com um grande amigo, que tinha uma espécie de oficina mecânica, e na guerra até o exercito a tinha utilizado, agora não tinha mais soldados e, dando uns tapas nas minhas costas, disse para o meu pai: – Senhor Jan, outro dia eu disse que o Waclaw já está grande e forte e já poderá trabalhar em outras coisas, sem que seja fazenda, lembra? Eu disse que sim, não haveria problema, eu aprenderia. – Muito bem, é assim que se fala, com toda certeza quando ele o ver irá pedir que o ajude e o pagará! Agradeci feliz. Passamos o Natal dos mais bonito e felizes das nossas vidas até aquela data, festa linda com muita alegria, brinde e cantorias e os discos com as valsas, etc. Depois foi só esperar para a viagem para Hamburgo, que acabou acontecendo com muito choro, ninguém tinha vergonha, as lágrimas escorriam. Olha, os brasileiros têm ideias erradas de nossos povos lá da Europa, nós também somos gente, humanos e com sentimentos. Amamos a família e os amigos, é isso ai, nós choramos, rimos, ficamos tristes, alegres, bravos, xingamos, tudo isso. Deixa pra lá isso tudo. Por fim, nós chegamos em Hamburgo e como o nosso amigo tinha falado, nós nos acomodamos. Eu esqueci de falar uma coisa, depois da ceia na mesa do Natal, depois de acertarem a nossa viagem, o coronel perguntou aos meus pais se tinham algum dinheiro ainda, ai eles responderam que alem do que trouxeram da Polônia, tinham quase tudo o que recebiam como pagamento do sr. Bush, por todo aquele 220


tempo de trabalho na fazenda e, como nada pagávamos, tinham um bom dinheiro. Minha mãe falou o montante e eles ficaram contentes, pois daria para nos manter por bom tempo, e na despedida, além de presentes, deram mais um pouco de dinheiro, além de muitos abraços, beijos e lágrimas. Eu fui mesmo trabalhar de mecânico, vendo o meu jeito alegre de trabalhar, meu interesse, o parente deles, meu patrão, fez com que eu fosse fazer um curso de mecânica. Eu fui aproveitando e estudando mecânica geral, tudo que podia. Já estava muito bem em meus conhecimentos, trabalhava e até ensinava os colegas. Alguns meses depois, em uma visita do coronel, ele disse que estava contente com todos nós, trabalhando e estudando, todos muito inteligentes e que tinha novidades para mim, que ficasse preparado, logo ele viria nos visitar e nós resolveríamos o assunto. E você não vai acreditar, era verdade, veja como são as coisas, nós fugitivos e poloneses, na terra de nossos invasores, e eu acabei entrando para a escola de polícia do Kirl, lá na cidade de Libec. Tudo ficou para a família mais fácil, mas meu pai fazia seus planos, estudava e se informava e, resolveu com minha mãe que mudariam de país. Com uns amigos foram arranjar uma viagem para a Italia e, com as costumeiras despedidas chorosas, chegamos em Nápoles. Lá e em lugar nenhum eles aceitavam refugiados de guerra. Ai souberam que o Brasil, lá na América do Sul, era o único que estava aceitando. Meus pais já estavam sabendo alguma coisa daqui e saímos de Hamburgo em 1949. Em 13 de Maio de 1949 embarcamos no navio General Hersh e, no dia 27 de Maio de 1949 chegamos no Rio de Janeiro.

Figura 114 – Navio General Hersh. 1949. Arquivo Familia Szarota Do Rio fomos para Goiás, ficamos um pouco por lá e viemos para Itaquera no mesmo ano. Em 1951 já tínhamos nós mesmos feito a casa, fomos muito felizes lá. Meu pai Jan morreu e foi enterrado no cemitério velho de Itaquera em 1955. 221


Nós nos casamos depois, Waleriam, Henry e minha mãe foram para o Canadá em Agosto de 1960. Lá casou-se e mamãe morreu, assim como ele. Nós ficamos por aqui e montei nosso negócio na área de mecânica.

Figura 115 – Família Szarota já no Brasil. 1953. Arquivo Família Szarota.

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Família Mendonça, por dr. Washington Luiz de Mendonça Nasci em Mogi das Cruzes, São Paulo, em 1920 e em 1931 meus pais, sr. Antônio Augusto de Mendonça, filho de portugueses, natural da Baixada Fluminense e dna. Zelinda Barbosa de Mendonça, também filha de portugueses estabelecidos em Sabaúna137, e meus irmãos Nelson, Abigail, Heráclito, Nadir, Maria e eu, mudamos para a Penha138. Papai era ferroviário e, devido ao trabalho, foi transferido para lá, onde moramos por três anos na Av. Penha de França. Em 1934 aconteceu uma nova transferência e mudamos novamente, agora para Itaquera, onde ele assumiria o posto de Chefe da Estação. Contando com meus quatorze anos de idade, conclui meus estudos básicos em Mogi e lá continuei dando segmento aos meus estudos, até que em 1939 tive que fazer o Tiro de Guerra. Eu até que gostava e fui convocado para a Força expedicionária que lutaria na 2ª Guerra Mundial, para mim uma aventura patriótica, para a família motivo de muitas lágrimas. Mas minha alegria durou pouco, por ser estudante fui dispensado e voltei para casa. Em 1941 formei-me no Ginásio do Estado como Bacharel de Ciências e Letras e, neste tempo, estava bem enturmado em Itaquera no grupo de esportistas, políticos e músicos do bairro. Eu gostava de todos e participava de tudo então, seguindo a tendência familiar, teria que ingressar no funcionalismo federal. Quando contava com vinte e dois anos de idade, inscrevi-me em um concurso da Estrada de Ferro Central do Brasil e fui aprovado para o cargo de auxiliar de escritório. Neste mesmo ano fui convidado pelos colegas e pelo Dr. Aldo Gianelli para compor a diretoria da S. E. Elite Itaquerense, ele eleito presidente e eu secretário. Em 1950 fui eleito presidente da diretoria executiva e, tenho orgulho de dizer, que foi em nossa gestão que compramos o terreno da sede atual e que teve o inicio das grandes festas que marcaram uma época em Itaquera e redondeza, como o Reveillon, Carnaval, Festa da Cerveja, o Casino de Sevilha, o Baile da Saudade com o Francisco Petrônio, etc. Hoje estou integrado no Clube como conselheiro.

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Distrito de Mogi das Cruzes. Bairro da Penha de França, Distrito de São Paulo.

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Figura 116 – Convite distribuído pela Diretoria da S.E.Elite Itaquerense para as festas Juninas promovidas pelo Clube. 1949. Arquivo Família Mendonça. Certa vez, quando a sede do Clube era em cima do prédio da padaria “Vencedora”, foi convocada uma reunião para que nós, atendendo a diretoria de esportes, discutíssemos a punição à um jogador nosso, por indisciplina e agressão a um jogador de outro time e, como eu era o presidente, deveria dar a última palavra. Ouvi a acusação e achei-a justa de punição, caso grave, perguntei ao acusado, que estava presente, se queria dizer algo em sua defesa. Ele então disse que o que havia feito faria novamente, se tivesse outra oportunidade. Perguntei se não estava arrependido, e ele disse que nem um pingo, perguntando-me com ar de deboche: “- E ai, o que você vai resolver?”. Indignado respondi que estava suspenso e se voltasse a fazer outra baderna no campo, no clube ou com o uniforme, estaria expulso. Ele então partiu para cima de mim, parando na outra ponta da mesa disse um palavrão que, naquele tempo, era a maior ofensa. Eu perguntei o que ele havia dito e ele repetiu. Meu sangue subiu e eu que sempre fui calmo, da paz, vendo que minha santa mãezinha foi ofendida peguei o revólver que estava comigo, que sempre andava com ele quando as vezes levava dinheiro dos clientes comigo para casa, e fui por cima da mesa para cima dele, mas ele como um foguete despencou pela grande escadaria, e eu atrás dele gritando para que parasse. Ele atravessou os trilhos da porteira de trens e correu para o campo do Elite, e eu atrás. Ele pulou para o campo vizinho do Amor e Glória e se meteu no mato do Rio, no brejo. Fiquei por lá procurando ele até a madrugada, e a turma me chamando, mas de longe. Estava louco de raiva. Depois fui me acalmando e a turma me levou para a casa. Graças à Deus sem nada acontecer. Em 1943 fui convidado para prestar concurso para contabilista, da sessão de seleção e concursos da Rede Ferroviária Federal Central do Brasil, lá no Rio de Janeiro e concorreria com mais de 400 pessoas. Quando foi publicado o resultado, meu nome 224


aparecia em primeiro lugar. Mesmo não sabendo quase nada de contabilidade, sabia sobre as matérias da prova, graças à Deus a recompensa pelos estudos. Este resultado provocou admiração e muitos elogios a meu respeito e procuraram conhecer-me. Fui indicado para encarregado da contabilidade do almoxarifado, com o dobro do salário, dos Cr$350,00 para Cr$700,00. Passei a ganhar mais que meu chefe e, neste mesmo ano fui convidado para transferir-me para a cidade de Cachoeira Paulista, a fim de organizar o almoxarifado. Retornando ao meu antigo posto, depois do trabalho concluído, fui designado para o cargo de professor de matemática e português, no preparo dos funcionários que prestariam concurso no fim do ano de 1944, para chefe de trêm e agente de estação, enquanto isso eu conclui o curso de contabilidade no Ateneu Rui Barbosa, em Penha de França, no ano de 1947. Dois anos depois, incentivado por amigos, decidi prestar concurso para a Companhia Goodyear do Brasil. O ordenado era excelente e empolgado com a contabilidade e cheio de sonhos, desliguei-me do cargo público e fui inscrever-me na Cia. Goodyear. O caso era que, para prestar as provas de admissão, precisava-se assistir aulas durante um tempo. As matérias abordadas eu dominava, mas era exigido conhecimento em inglês e francês, então fui à luta. O professor de idiomas era muito bom, mas exigente e enérgico e cobrava nosso empenho, não tínhamos tempo a perder. E não é que por sua insistência em que decorássemos até poesias, aprendi e recito-as até hoje? Fui aprovado com distinção e exerci vários cargos, adquirindo muita experiência e muito bem remunerado nos dois anos que lá trabalhei. Resolvi sair da Goodyear pois estava muito envolvido com a vida social e familiar de nossa Itaquera. Em 1948 meu irmão Nelson havia fundado a “Organização Técnica Contábil Irmãos Mendonça” e convidou-me a juntar-me a ele, onde estou até hoje e tenho orgulho de dizer que por este escritório, profissionais de expressão e muita competência, como o sr. Amaury Roldan Pereira, o Nelson Ventura Seco e outros, trabalharam conosco por longos anos. Como disse, desde muito cedo estive envolvido em política e, em Outubro de 1953 participei da fundação do diretório do Partido Republicano de Itaquera, juntamente com outros nomes ilustres do Bairro, como Francisco Alario Bérgamo, Augusto Rodrigues Seckler, Macília Gaspar Drumond, Iolanda Manochio Calabrez, entre outros descritos na nota de jornal (Fig. 118).

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Figura 117 – Instalação do Partido Republicano em Itaquera. 1953. Arquivo Família Mendonça.

Figura 118 – Comunicação em jornal da Capital notificando a instalação do diretório do Partido Republicano em Itaquera. 1953. Arquivo Família Mendonça. 226


Neste mesmo ano de 1953, fui eleito presidente da comissão para elevar Itaquera à Município. Organizávamos encontros, debates, palestras, enfim, tudo o que nos era possível para orientar os eleitores e a população em geral sobre a importância deste pleito para o crescimento de Itaquera. Não conseguimos o intento por muito pouco, graças a desonestidade de alguns companheiros que, uma vez atingido o nosso objetivo, a situação política seria revista e seus cargos políticos estariam em jogo. Isto eles egoisticamente pensavam e comentavam. O Antenor, por exemplo, que era o Agente Funerário, liderou um grupo de colegas interessados nesta tese e votaram “NÃO”, por muito pouca margem venceram. Foi uma desilusão geral, traição aos interesses dos verdadeiros itaquerenses, um retrocesso político que amargamos até hoje.

Figura 119 – Campanha para elevação do bairro de Itaquera à município. Sentado esquerda para direita: 4º- Gerson Bérgamo, 6º - Jurandir Pereira Chagas. 1953. Arquivo Família Mendonça.

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Figura 120 – Plenárias públicas para elevação do bairro de Itaquera à Município. 1953. Arquivo Família Mendonça. Mas a vida continuava e, em 1954, no ano que São Paulo completava seu 400º aniversário, casei-me com sra. Dalila Cristino, completando 57 anos de muita felicidade. Em 1963, cedendo às pressões dos companheiros, fui candidato à vereador do Município de São Paulo e, na contagem dos votos fui roubado escandalosamente pelos nossos políticos desonestos. Triste e desiludido nunca mais candidatei-me, mas continuei cooperando com os movimentos políticos partidários e supra partidários.

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Figura 121 – Corpo a corpo na campanha para vereador. 1963. Arquivo Família Mendonça.

Figura 122 – Showmício de campanha para vereador. 1963. Arquivo Família Mendonça.

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Depois, participei na fundação do diretório de Itaquera da “Aliança Republicana Nacional - a Arena”- que tornou-se muito forte na região. Várias pessoas como o sr. Astrogildo Pereira compuseram a lista de filiados e eu, chefiei o partido por décadas seguidas, até sua extinção.

Figura 123 – Posse da Comissão Executiva da Arena em Itaquera. 1- Rafael Baldacci, 2 – Gilberto Mota, 3 – Bequila, 4 – Elderico Barone, 5 – Evaristo Cepeda, 6 – Valter Cornazani, 7 – José Leite, 8 – Docca139, 9 – dr. Washington, 10 – Jânio Jornaleiro. 1972. Arquivo Família Mendonça.

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Trata-se da pessoa que foi atingida por uma facada no campo do Elite, citado no depoimento da família Roldan Pereira.

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Figura 124 – Noite de autógrafos do livro de Jânio da Silva Quadros. Em pé dr. Washington conversando com Jânio e o Dep. Afonso Arinos no canto direito.1968. Arquivo Família Mendonça. Em 1973, contando com 53 anos e em plena forma, motivado pela minha constante vontade de vencer desafios, decidi matricular-me no curso de Direito da Universidade de Brás Cubas, onde formei-me Bacharel em Direito e Ciências Jurídicas e Sociais e, em seguida, fui aprovado no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), exame que até hoje muitos são os reprovados. Seguindo a diretriz política, fundamos em Itaquera o Partido Social Progressista, em 1986. Eu, como presidente do partido em Itaquera, acompanhado de todo o diretório e a população, recebemos o prefeito Olavo Setúbal, fundador do partido, quando veio nos visitar, acompanhado por Aurelino Soares de Andrade, afim de inaugurar o Metrô, em 1988. Nesta ocasião vários políticos estiveram presentes na solenidade, o que alias sempre ocorre em época de eleições, eles aqui aparecem como as aves migratórias e vãose embora, retornando passados dois ou quatro anos.

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Figura 125 – Prefeito Olavo Setúbal na inauguração do Metrô de Itaquera. 1988. Arquivo Família Mendonça. Mas se coisas ruins os políticos fizeram, como a demolição da Estação Ferroviária, que não posso me conformar, só não demolindo a Casa do Chefe da Estação porque nós, os itaquerenses, opuseram-se fortemente, senão viria abaixo, com toda certeza, também a política nos trouxe coisas boas, como a Radial Leste, o Pólo Industrial, a Av. Jacú Pessego e, embora eu seja saopaulino140, ficarei contente, como todos os itaquerenses e brasileiros devem ficar, quando o campo do Corinthians estiver pronto e, a abertura da Copa do Mundo de 2014 no Brasil for neste estádio.

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Torcedor do São Paulo Futebol Clube.

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Figura 126 – Carta assinada pelo Deputado Estadual Cantídio Sampaio ao seu correligionário apresentando suas intenções futuras quanto à Itaquera. 1961. Arquivo Família Mendonça. Eu já afirmei várias vezes que Itaquera é o verdadeiro Bairro do futuro, é só esperar, não falta muito tempo para que isto ocorra, vejam bem, já começou. Itaquera era desconhecida, agora só se fala nela. É Itaquera prá lá, Itaquera prá cá, para o nosso orgulho! Bem, estas são algumas das estórias vividas em nossa Itaquera, a única cidadezinha no mundo que um garoto com uma pedrada derrubou no campo de futebol do Elite um helicóptero do Bradesco141.

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Sigla do Banco Brasileiro de Desconto S.A.

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Família Trazzi, por Márcia Trazzi Quando fui convidada para participar desse projeto fascinante, a minha primeira reação foi a mais positiva, pois tenho muita admiração pela história das pessoas, pela coragem com que desbravavam terras com o mínimo de recursos que possuíam. Tenho a honra de fazer parte de uma dessas famílias pioneiras, que ajudaram a formar Itaquera dos Campos, transformando-a na imensidão que é hoje. A partir desse momento as idéias começaram a fervilhar em minha cabeça, o que escrever, sobre o que contar, fatos, momentos, fotos, os relatos contados pelo meu avô? Parecia que o tempo tinha voltado atrás, eram tempos difíceis, porém éramos felizes, e acredito que todos nós que morávamos aqui, à sua maneira, éramos felizes. Meu avô, Sr Alfredo Trazzi, nasceu em Campinas e antes de completar um ano de idade foi para a Itália, região de Mantova, com os seus avós paternos. Depois de 14 anos, retornaram para o Brasil, todos juntos, fixando residência no bairro da Moóca, reduto italiano até os dias de hoje. Minha avó, Lúcia Torezani, também italiana, chegou no Brasil acompanhada de toda a família, com dois anos de idade, e foram também morar na Moóca, lá se conheceram e casaram-se. Depois de algum tempo trabalhando na região, encontraram uma oportunidade numa vila distante. Os anúncios em jornais e panfletos diziam que era uma terra maravilhosa, com bons ares, boa terra para plantação e criação e boas águas, tudo a bom preço, localizada nos subúrbios de São Paulo e que contava já com um pequeno povoamento próximo a estação de trêns. Assim, decidiram vir para a Vila Santana com toda a família, onde fixaram residência.

Figura 127 – Foto da Família Trazzi no terreno da olaria. Ao fundo vê-se um caramanchão de uvas para a produção de vinho e, sob ele o poço e tanque de lavar roupas, atrás a primeira casa da família, logo ao lado ficava a olaria. 1931. Arquivo Família Trazzi. 235


O primeiro lugar onde meus avós moraram foi em uma chácara que ficava perto da lagoa, que mais tarde, não sei porque, chamavam de viúva. Neste lugar eles edificaram sua Olaria, e os tijolos feitos com o barro que retiravam do rio próximo, era o suficiente para o consumo próprio e para os comercializar na região, que supria as encomendas das outras famílias que iam chegando, e assim foi-se formando nosso pequeno vilarejo. Nesta família nasceu meu pai, sr. Nelson Trazzi. Quanto a minha mãe, dna. Deolinda, ela nasceu em Boribi, estado de São Paulo, filha de pai espanhol e mãe italiana. Aos 8 anos de idade ficou órfã de pai, e a mãe se mudou para Itaquera, numa casinha que ficava na Rua Fontoura Xavier. Devido as dificuldades financeiras da família, minha mãe foi criada pela família Bertozzi, se não me engano fizeram parte da fundação do clube do Democrático, sei com certeza que moravam em uma chácara que hoje pertence ao ex-vereador Dito Salim e, que atuavam como artistas em peças no teatro Democrático. Também trabalhou em uma fábrica de vidros na Moóca até seu casamento em 1957, vindo morar com os sogros por dois anos, até que junto com meu pai, compraram o terreno ao lado da casa de meus avós, onde nascemos e onde eles viveram até o fim da vida. Minha mãe partiu muito cedo, aos 41 anos, e meu pai completou nossa educação sozinho, com uma coragem e determinação que só compreendi quando tive meus filhos. Para mim, um homem raríssimo nos dias de hoje, meu exemplo, minha luz e meu guia. Meu avô paterno era sapateiro e também comercializava verduras, frangos e ovos. Teve quatro filhos, mas somente meu pai fixou-se em Itaquera. Em minhas memórias, tenho bem nítida a década de 1960. Era uma época de grandes dificuldades, tempo em que tínhamos a COAP142, cuja sede localizava-se na Av. Pires do Rio com esquina da Rua Francisco Rodrigues Seckler. Era uma cooperativa onde comprávamos alimentos através de uma carteirinha, pois havia racionamento de alimentos e, cada família podia comprar o que estava relacionado e na quantidade estipulada. Graças a Deus os terrenos das propriedades eram enormes, em média 500 metros quadrados, e era comum plantar uma horta e criar animais como galinhas, cabras, porco, vaca, de onde a gente tirava o que faltava para alimentar a família e ainda sobrava para comercializar ou repartir entre os vizinhos, que não possuíam criações ou que não tinham como manter uma horta. Era um tal de levar alface e trazer tomates, ir com couve e voltar com ovos, que a gente fazia uma farra danada. E quando era época de frutas e a produção de bananas e goiabas era grande, fazia-se doce para não perder nada, onde um gostoso cheiro de doces variados pairavam no ar e fazia a felicidade da criançada. Em frente à Unicastelo, no terreno onde hoje está instalada uma empresa de fotocópias, moravam o sr. Vicente e sua esposa a dna. Cármem. Assim como a maioria dos moradores de Itaquera da década de 1950, eles também cultivavam sua própria horta, e trocávamos mudas de verduras e legumes. Eu e a minha irmã estávamos incumbidas do serviço, o que nos agradava muito, pois a dna. Cármem sempre nos esperava com biscoitinhos ou docinhos que ela mesmo preparava. Ainda hoje quando entro na casa, cujo edifício mantêm todas as suas características originais, para tirar uma fotocópia, me lembro deles com muito carinho. Nós todos estudamos no Grupo Alvares de Azevedo, depois seguimos os estudos no Colégio Emília de Paiva Meira, onde concluímos o colegial (hoje segundo grau). Meu pai gostava muito da Vila Santana, e até falecer em 2005, gostava de ficar olhando por

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A Comissão de Abastecimento e Preços (COAP) era um órgão estadual, vinculado à Comissão Federal de Abastecimento e Preços (COFAP), e que tinham o poder de intervir no meio econômico a fim de assegurar a distribuição de bens de consumo primário ao povo. Foi criada em 1951 durante o governo de Getúlio Vargas.

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cima do muro o pessoal passando, e muitas pessoas se lembram dele assim, como “aquele velhinho que ficava no muro, respondendo aos cumprimentos de todos”.

Figura 128 – Panfleto de propaganda de atividade Cultural em Itaquera. 1932. Arquivo Família Trazzi. O “Salão Iris”, ou “Cine Wanderley”, fundado em 4 de Dezembro de 1925, de propriedade de Manoel Pinto e o grupo “Irmãos Unidos de Itaquera”, localizava-se na Estrada de Itaquera, antes do Campo do Democrático, e era um local, juntamente com o Casino Estrella, onde a população de Itaquera, Lageado e arredores assistiam filmes, peças de teatro e demais atividades culturais e sociais. Na Figura 128 chamo a atenção para o ator sr. Bertozzi e o patrocínio do empresário Sabbado D´Angelo, proprietário da empresa de cigarros Sudan Tivemos, eu e meus irmãos, como todas as crianças daqueles tempos, a felicidade de passar toda a nossa infância sempre em convívio dos pais, avós, e vizinhos maravilhosos que consideramos como extensão de nossa família.

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Figura 129 – Família Trazzi na Rua Montanhas, em frente a Unicastelo. Ao fundo se vê a casa do sr Alfredo e, mais longe, havia o rio e uma mata. 1952. Arquivo Família Trazzi. Na Figura 130, vê-se à esquerda a casa de meu pai, que ficava ao lado da casa de meu avô (Fig. 129). Ao fundo, onde era uma mata bosqueada, já se formava uma vila de casas, após o rio.

Figura 130 – Residência da Família Trazzi e a sra. Márcia e sua irmã sobre o carro de seu pai. 1964. Arquivo Família Trazzi. 238


Figura 131 – Fotografia da Estação de Itaquera, semanas antes de sua demolição. 2004. Arquivo Família Trazzi.

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Família Rivas, por dra. Marisa Rivas Somos descendentes de espanhóis, onde meu avô Antônio Rivas, nascido em 1872 em Santa Fé, casou-se com Ana Santos, nascida também em 1872 em Purchill, ambos da província de Granada, Meu avô fazia alpercatas e, decididos em fugir da miséria que se abateu na Europa nesta época, decidiram imigrar para o Brasil em 1905, com quatro filhas: Cármen, Josefa, Trinidade, e Dolores, e aqui nasceram mais quatro: Manoel, Conceição, Elisa e Antônio Rivas Filho, meu pai. A família desembarcou no Porto de Santos e depois, foram levados para a Hospedaria dos Imigrantes, sendo encaminhados para a cidade de São Pedro, interior de São Paulo, para trabalharem numa fazenda de café. Lá ficaram poucos dias, pois meu avô havia decidido ir para a capital, onde foram morar em um cortiço do Brás, ao lado da Casa Grande, onde moravam italianos e espanhóis. São Paulo também atravessava grande crise e as filhas mais velhas trabalharam como domésticas na Vila dos Ingleses, até se casarem, também com imigrantes espanhóis. Um detalhe que diferenciava a família Rivas é que todos eram alfabetizados, trabalho feito pelos meus avós, pois minha avó foi criada na Paróquia de Purchill, onde seu tio era o Pároco, por isso lia e escrevia corretamente, e sempre manteve o hábito de ler diariamente o jornal. Meu pai nasceu em 1913 e aos seis anos de idade já trabalhava em seu primeiro emprego como modelo, posando para um pintor italiano. Aos sete anos trabalhava para um sapateiro, separando os pregos e as solas dos calçados. Aos oito anos era levado, ainda de madrugada, pelos cunhados que eram construtores, para ligar a bomba d’água dos poços dos “chalés” que construíam na praça da Árvore. Aos dez anos entregava leite nas casas, saindo de carroça da Rua Ana Nery em direção ao Cambuci. Na revolução de 1924 sua família, assim como muitos imigrantes, deixaram o Brás, fugindo dos “vermelhinhos”, aviões que bombardeavam a cidade, e mudaram-se para o Bairro do Jabaquara. Aos sábados a tarde ia com o irmão Manoel esperar suas irmãs (pois nos domingos toda a família ficava reunida), no ponto final do bonde Praça da Árvore, linha que chegava na casa do “Miguelão”, o Miguel Stefano, pai de dna. Maria Maluf e avô de Paulo Maluf. Aos catorze anos, meu pai teve seu primeiro e único emprego com registro em carteira, trabalhando para a firma de um empreiteiro responsável pela construção da Catedral de São Paulo. Começou levando as ferramentas para os operários e depois tornou-se canteiro143, hoje profissão extinta. Muitas colunas da Catedral foram esculpidas por ele. Quando começou a trabalhar a catedral tinha um metro de altura e os bondes descarregavam os “matacões de pedra” dentro da obra, isto é, da Catedral.

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Profissão já descrita anteriormente – Família Falcon.

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Figura 132 – dr. Rivas entre as pedras, dentro das obras da Catedral da Sé. 1938. Arquivo Familia Rivas. O Cristo colocado no portal de entrada foi esculpido, sem qualquer emenda, de um único bloco de mármore, por um escultor italiano que faleceu num acidente de trânsito na ponte da Rua Ana Nery sobre o Rio Tamanduateí. Meu pai deixou as obras da catedral ao contrair tuberculose, pois os empregados bebiam água no mesmo garrafão, e muitos deles estavam contaminados. Na época não existiam leis trabalhistas, a jornada era de 10 horas por dia, com folgas aos domingos depois do almoço. Como era alfabetizado, sempre ajudou os colegas, escrevendo cartas cujo destino era a Itália e Espanha. Esta qualificação permitiu que também fizesse parte do sindicato dos Canteiros. Aos 26 anos casou-se com minha mãe, sra. Ofélia Ruiz Rivas, e logo após adoeceu. Antes da descoberta da penicilina144 a tuberculose era fatal, mas depois de muitas crises, curou-se milagrosamente sem nenhuma sequela. Constatando que havia sido contaminado no trabalho, procurou um tradicional advogado da época, dr. Roberto Gnecco, que antes de ingressar em juízo foi procurar o dono da Cantaria propondo um acordo, porém o dono negou-se a fazê-lo por que tinha seguro, mas disse ao dr. Gnecco que o Rivas era um moço de bem, tinha sido um ótimo funcionário e nunca havia faltado ao trabalho. Poucos dias depois o dr. Roberto viu meu pai sentado em uma mesa do “Bar Viaduto” preenchendo alguns requerimentos e cumprimentou-o perguntando o que ele estava fazendo, e meu pai brincando respondeu: “estou no meu escritório trabalhando, sente-se comigo doutor”. Em seguida o dr. Roberto lhe disse: “Foi até hoje, a partir de amanhã você fará parte do meu escritório”. Tornaram-se grandes amigos e compadres, pois o dr. Roberto batizou a mim, a única filha do dr. Rivas com o mesmo nome de sua filha mais velha, Marisa, em sua homenagem. 144

A penicilina, descoberta pelo médico inglês Alexander Fleming em 1828, somente foi disponibilizada como fármaco na década de 1940.

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O dr. Roberto e irmãos incentivaram meu pai a estudar, lhe emprestaram dinheiro para que comprasse um imóvel próprio e anos mais tarde, vibraram quando ele abriu o próprio escritório, advogando até os 90 anos, indo ao escritório todos os dias, com muita alegria.

Figura 133 – Da esquerda para direita: dr. Roberto Gnecco, dr. Iris Machado e dr. Rivas. 1943. Arquivo Família Rivas.

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Figura 134 – Calculadora alemã a manivela Schubert (1961) e máquina de escrever Ollivetti (1965), utilizados pelo dr. Rivas em seu escritório e ainda funcionando em perfeito estado. Arquivo Família Rivas. A calculadora foi usada durante a década de sessenta no imóvel da Rua Francisco Rodrigues Seckler (Fig. 42a), onde funcionava nos finais de semana o escritório de vendas dos lotes da Vila Santana, logo após o Dr. Rivas ser contituído advogado pela família Seckler, para reintegrar inúmeros terrenos que haviam sido invadidos. O mencionado imóvel foi construído pelo Cel. Seckler logo após a criação do loteamento da Vila Santana, com tijolos feitos em sua olaria situada no final da Rua Carolina Fonseca. Vale lembrar que a esposa do Cel. Seckler, dna. Brasília Teixeira Seckler, era inventariante do Espólio, e compareceu em algumas audiências, contando já com seus mais de 90 anos de idade, vindo a falecer pouco antes de completar 100 anos. O rádio (Fig. 138), foi o primeiro objeto de valor adquirido por meu pai, ainda no início da década de quarenta. Conheceu Itaquera em 1951, quando foi procurado por uma cliente para retirar o caseiro de sua chácara. Depois do evento e ficando desencantada com o imóvel, insistiu 244


para que meu pai o comprasse, permanecendo na família até 1998, quando vendeu para o Hospital Santa Marcelina. No inicio da década de sessenta, meu pai teve catarata nos dois olhos, provocadas por um medicamento para baixar o colesterol. Poucos dias após o início do tratamento o médico, seu amigo, procurou-o para que ele parasse imediatamente o uso das drágeas, mas os efeitos colaterais logo surgiram e ele além da catarata teve queda de cabelo, isso antes de completar 50 anos. Naquela época a cirurgia era de alto risco e só podia ser realizada após a perda total da visão, o que levou quase 3 anos. Para continuar ele mesmo datilografando suas petições, trabalho que adorava fazer, ressuscitou sua velha máquina (Fig. 138), mandando espaçar suas teclas, adaptando-as à visão que diminuía gradativamente.

Figura 135 – Da esquerda para direita: 1º - Dr. José Seckler, filho do Coronel Seckler, 3ª - Dra. Marisa Rivas, 4º Dr. Antônio Rivas, na Chácara da Rua Santa Marcelina. 1975. Arquivo Família Rivas. Trabalhou nela até Julho de 1963, quando um dos olhos foi totalmente tomado pela catarata e pode opera-lo. O outro não operou, e aos 80 anos a catarata desprendeu-se naturalmente e ele passou a enxergar novamente com os dois olhos. Levou vida normal com visão monocular, renovando sua carteira de habilitação, pela última vez, com mais de 80 anos, e manteve-se a frente de seus negócios até os 90 anos, trabalhando com muito entusiasmo. 245


Figura 136 – Panfleto de propaganda dos terrenos do loteamento da família Seckler. 1967. O valor de NCr$60,00 nos dias de hoje é o equivalente a R$454,65145 Arquivo Família Rivas. Sempre teve um carinho especial por Itaquera e pela Vila Sant’Ana e para lá ia uma ou duas vezes por semana.

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http://www.fee.tche.br/sitefee/pt/content/servicos/pg_atualizacao_valores.php.

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Figura 137 – Entrevista com o dr. Rivas publicada no jornal Folha de São Paulo, 2º Caderno-Local, em 31 de Março de 1974. Arquivo Família Rivas.

Figura 138 – Rádio de válvulas (1940) e lampião à querosene (1952), utilizados na chácara em Itaquera. Arquivo Família Rivas.

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Capítulo 8 Educação Em uma época onde a maioria da população recebia as noções de alfabetização em casa, Itaquera contava com pessoas dedicadas que se predispunham a ajudar na grande e venerável missão de lecionar as primeiras letras. Os espaços onde eram ministradas as aulas, muitas vezes eram em cômodos nas sedes das fazendas, que os proprietários cediam, onde a instrução das crianças ficava a cargo das mulheres da família, que atuavam como professoras ou, contratava-se um mestre-escola. Foi o caso do dr. Rodrigo Pereira Barreto, que instalou em sua fazenda um espaço destinado a instrução, pelos anos de 1900, onde sua esposa, conhecida por Sinhá Barreto e sua filha, Leopoldina Barreto eram as professoras146. Uma nota com foto, bastante curiosa, foi publicada no jornal “A Verdade” de 27 de Março de 1927, trata-se da referência ao Grupo Escolar de Itaquera que, pelo que parece, observando os detalhes da construção, tratava-se de um edifício soberbo e próprio para abrigar uma escola, não um prédio adaptado (Figura 140), que primeiro acomodou a família do proprietário e depois a Subprefeitura de Itaquera. O texto da figura traz a mensagem: “ITAQUERA – O bello edifício do grupo escolar, que sob a direcção competente do professor Juvenal Appelt147 vem difundindo o ensino primário entre nós.

Figura 139 – Prédio do primeiro Grupo Escolar de Itaquera. 1927. Arquivo Amaury Roldan Pereira. Este prédio era de propriedade do sr. Amaury Fonseca, que em 1926 oferece à Secretaria de Estado da Educação sua compra, onde em nota, publicada no Diário Oficial do Estado de São Paulo, de 24/12/1926, pg.10674, declina da oferta. 146

<http://www.itaquera.com.br/viewpage.aspx?id=1742059194> Acessado em junho de 2010 O professor Juvenal Cornélio Appelt foi designado diretor do “Grupo Escolar de Itaquera” em 1923, segundo publicação no DOSP de 16/03/1923, pg. 2034. 147

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―Requerimentos Despachados Amaury Fonseca, propondo a venda do prédio de sua propriedade, onde funciona o Grupo Escolar de Itaquera. – Não convem ao Estado a acquisição proposta‖. À este prédio adaptado, existente ainda nos dias de hoje e localizado na Rua Gregório Ramalho, centro de Itaquera (23º32’12,46’’S e 46º27’16,36’’O), os alunos provenientes de todas as localidades da região, como a Colônia Japonesa, que contava com um núcleo de ensino primário próprio148 e a antiga Pedreira, dirigiam-se muitas vezes a pé e descalços, o que equivale uma distância de até 5 km sob chuva, frio ou sol.

Figura 140 – Propriedade do sr. José Rizzo, onde funcionou a subprefeitura de Itaquera e Lageado até 1930, depois foi instalado o Grupo Escolar de Itaquera e depois, novamente, a sede da subprefeitura. Hoje estuda-se a implantação de um centro cultural na propriedade. Foto publicada no jornal “O Suburbano” de 1931. Arquivo Amaury Roldan Pereira.

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Demartini, Zeila de Brito Fabri. Relatos orais de famílias de imigrantes japoneses: Elementos para a história da educação brasileira. Educ. Soc.( 2000) vol.21 no.72 . Campinas.

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Figura 141 – Nota do movimento financeiro do Grupo Escolar de Itaquera publicado no jornal “O Suburbano” de 1931, com detalhe ao número de alunos matriculados. Com base no texto transcrito do mesmo jornal, reproduzido neste trabalho no Capítulo 16, podemos supor que a totalidade das crianças existentes na região estava matriculada, contudo, a média de frequência era muito baixa, talvez devido a aspereza do deslocamento de suas casas até a escola. Arquivo Amaury Roldan Pereira.

Um outro artigo, publicado no mesmo ano de 1931, mostra um resumo mais claro da situação escolar de Itaquera149. “GRUPO ESCOLAR DE ITAQUERA Este estabelecimento de Ensino que o anno passado funcionou com 10 classes, encerrou o ano letivo com 415 alunos, sendo 218 masculinos e 197 femininos. Este ano a sua matricula aumentou consideravelmente. Estão frequentando as aulas 485 meninos: 250 masc. e 235 fem. Distribuídos por 12 classes, sendo 4 extraordinarias. As aulas começam ás 7,10 horas e terminam ás 16,15 horas, com pequenos intervalos entre os períodos. Em Junho foram promovidos 44 alunos dos 4 primeiros graus, formando-se um 2º mixto que está funcionando desde o dia 1º do corrente. Damos abaixo o resumo dos promovidos: 1º gráu A masculino regido pela subst. effª. D. Maria das Dores Sartoreili que substitue a adj. D. Maria de Lourdes Pinho Oliveira, licenciada por um ano. Matriculados 45; Promovidos 9; Porc. de promoção 20% 1º gráu B masc. regida pela adj. D. Lucinda Pinto. Matriculados 44; Promovidos 12; Porc. de promoção 22,50% 149

Jornal “O Suburbano”, Ano I, nº10, Julho de 1931

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1º gráu A fem. regida pela adj. D. Lydia Padovam. Matriculados 40; Promovidos 9; Porc. de promoção 22,50% 1º gráu B fem. regida pela adj. D. Ismenia I. Fonseca Ferreira. Matriculados 43; Promovidos 14; Porc. de promoção 32,55% Por decreto de 3 do corrente foi removida para o grupo escolar ―José Bonifacio‖ a adjunta D. Lydia Padovani”. A Instituição de Ensino de Itaquera era conhecida oficialmente, como vimos, de “Grupo Escolar de Itaquera” mas, através do decreto nº 16.120 de 1947150 seu nome mudou. Situando-nos no tempo e espaço, lembremo-nos que o Brasil vivia sob a ditadura Vargas, e não haviam Governadores eleitos no Brasil, mas Interventores indicados pelo Governo Federal. Neste ano de 1947, o Interventor Federal no Estado de São Paulo, usando das atribuições que a lei lhe conferia, decretou que o “Grupo Escolar de Itaquera” fosse agora denominado de “Grupo Escolar Alvares de Azevedo, em homenagem ao grande poeta paulista. Um dado interessante, encontrado no Diário Oficial de São Paulo de 1955151, é relativo à falta da ligação da luz elétrica no prédio do “Grupo Escolar Alvares de Azevedo", conforto este disponível em Itaquera desde 1951. O destaque em negrito é meu, chamando a atenção para a citação referente ao ensino em Itaquera “ser dos mais antigos” de São Paulo. “INDICAÇÃO N. 923. DE 1955. Indico à mesa se digne de oficiar ao Poder Executivo, solicitando-lhe as necessárias providencias no sentido de ser feita ligação de luz no Grupo Escolar ―Alvares de Azevedo", em Itaquera, na Capital. JUSTIFICATIVA Chegou ao meu conhecimento que o Grupo Escolar ―Alvares de Azevedo", Itaquera. Distrito da Capital, não obstante ser dos mais antigos, ate hoje, não possui luz elétrica. Em consequência não é possível a instalação, naquele estabelecimento de ensino de cursos noturnos, que tantos benefícios trazem ao povo. Além disso, nos dias nublados, sobretudo durante o inverno, o ensino é bastante prejudicado, notadamente nos primeiro e último períodos. Tratando-se de uma providencia de fácil execução e de grande alcance, é de esperar que indicação mereça do Poder Executivo a atenção devida. Sala das sessões em 22 de Junho de 1955. Bento Dias Gonzaga”. * Também havia a “Fundação Sabbado D´Angelo - Núcleo Profissional Livre Sabado D'Angelo” ou como era mais conhecido o “Sudan”, na propriedade do industrial Sabbado D´Angelo, proprietário da Industria de Cigarros Sudan. O prédio é existente ainda nos dias de hoje e está localizado na rua que leva seu nome. Em 2008, estava 150 151

Diário Oficial do Estado de São Paulo (Estados Unidos do Brasil). Ano 57, nº12, pg. 4 de 16/01/1947 Diário Oficial do Estado de São Paulo (Estados Unidos do Brasil). Ano LXV, nº137, 23/06/1955

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prestes a ser demolido para o erguimento de um conjunto residencial, fato que foi suspenso por ordem judicial. Devido ao crescimento da demanda de alunos, notadamente nos anos de 1956/57, o Curso de Ginásio sai do Grupo Escolar Alvares de Azevedo e é transferido para o prédio do Sudan, funcionando no período da manhã. Também eram oferecidos cursos profissionalizantes em duas linhas: “Economia Doméstica”, onde as moças faziam curso de corte e costura, bordados, arranjos de flores e jardinagem, culinária, puericultura e prática de enfermagem, com duração de 2 anos e a outra linha era “Prática de Escritório” com o curso de datilografia, para os jovens de ambos os sexos que terminavam o 5º Ano. Concomitante com o curso escolhido, eram também oferecidas as disciplinas da grade curricular, para um aperfeiçoamento dos conhecimentos, preparando os candidatos, homens e mulheres para a realização das provas para o ingresso em cursos de níveis superiores, como o próprio magistério.

Figura 142 – Grupo Escolar da Colônia de Itaquera. 1949. Arquivo Família Sugaya.

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Figura 143 – Alunos da 4ª série do Grupo Escolar Alvares de Azevedo. 1938. Arquivo Família Sugaya.

Figura 144 – Banco escolar das décadas de 40, 50 e 60. O orifício que aparece no canto superior direito da imagem, era destinado ao frasco de tinta nanquim, pois nesta época usava-se o bico de pena pra escrever. 254


As professoras eram severas e não era raro usarem artifícios pedagógicos de contato, como reguada, puxão de cabelo e de orelhas, todavia, nesta época os professores tinham autoridade moral sobre os alunos, ratificados por seus pais, onde um olhar bastava para que a paz reinasse durante as aulas. Neste ambiente, na década de 1947, reinavam soberanos a diretora dna. Claudina, as professoras dna. Chiquinha, dna. Dalva, dna. Berta Franco, dna. Anita e dna. Aideê, que lecionavam, igualmente como hoje em dia, para muitos dos alunos que iam a pé e descalços para a escola, sempre incentivados pelos seus pais, que sabiam que era na educação onde estava o futuro de seus filhos. O uniforme básico, que começou a ser cedido pelo Estado, dos alunos de meados de 1950, consistia de um calção de cor azul para os meninos e saia com pregas para as meninas, camisa branca, que tinha pregado o distintivo do Grupo Escolar Álvares de Azevedo e sapato do tipo colegial de cor preto. A profa. Evanira Cursino deu o seguinte relato em relação à educação da época: ―Haviam outras escolas e, posso dizer que na Igreja Metodista 152 havia 1º ano, pois foi lá que eu fiz, devia ser reconhecida uma vez que fui para o Grupo Escolar já na 2ª série, onde repeti porque não fazia lição de casa e, por conta disso, fui até para a diretoria, pois a Dna Maluhi não perdoava. Tivemos também algumas salas de aulas mantidas pelo poder municipal (creio que 2), que funcionavam no terreno do Sr Vinhas, localizado na Rua Carolina Fonseca, esquina com a Rua Bento Vieira de Castro, e que tem uma história curiosa. O Sr Vinhas era um pai extremamente conservador, sua filha Rute formou-se no Normal153, mas como ele não admitia que ela trabalhasse fora, ele cedeu o terreno para a prefeitura construir um galpão com, creio, 2 salas para ela trabalhar como professora sem sair dos limites de sua casa. A prefeitura nesses anos de 1950/60 construia galpões e chamava de escolas agrupadas. A educação na época tinha os seguintes segmentos: Curso Primário no Grupo Escolar - 1º ao 4º ano. No final dos anos 50 já constituíam pelo menos 1 classe de 5º ano para preparar o aluno para o curso Ginasial (1ª a 4ª série) uma vez que o exame de Admissão para o Ginásio era extremamente rigoroso e haviam poucas vagas, a maioria das crianças em Itaquera fazia junto com o 4º ano o Curso de Admissão com a Dna. Maria Kinoshita que era certeza de passar. O Ginásio Estadual tinha na época um professor de Matemática que era um terror, Prof. Callioli. Meus irmãos não passaram, o Nelson foi fazer o ginásio na cidade de Poá, deveria ser municipal, e a Glória foi fazer no colégio particular Liceu Santo Antônio, em Suzano, que era de um tio do prof. Maurício, que anos mais tarde administraria e ampliaria o Liceu Camilo Castelo Branco e fundaria a Universidade Camilo Castelo Branco, na Vila Santana, Itaquera. Este ginásio em Poá era o destino de todos aqueles que não conseguiam o Grupo Escolar de Itaquera. Lembro de que no 2º ginasial da Glória, meu pai tentava traze-la para Itaquera e não conseguia transferência, é claro. Como ele era comandante do destacamento do Corpo de Bombeiros no aeroporto de Congonhas, ele conseguiu uma entrevista com a prof. Marina Cintra, diretora de educação na época, e ela fez a seguinte pergunta: Mas o sr. quer traze-la para o ginásio mais difícil de São Paulo, ela vai repetir, sargento?! Mas a Glória conseguiu. No 2º grau tínhamos o Curso Normal, para formação de professores e Curso de Contabilidade, para formação de

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A igreja Metodista, cujo prédio original ainda está erguido na Rua Francisco Alarico Bergamo – Vila Santana - foi um dos pólos de alfabetização mais antigos de Itaquera, datando do príncípio dos anos de 1940. 153 Equivalente ao curso de Magistério, preparando o candidato para lecionar nas quatro primeiras séries do ensino fundamental. N.A.

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contadores, estes considerados profissionalizantes. O Curso Cientifico, que contemplava a área de exatas e o Curso Clássico, área de humanas propedêuticas. O ―olhar‖ da época era o seguinte: Curso Normal - para mulheres esperarem maridos; Contabilidade - para quem precisava trabalhar e não tinha condições de continuar os estudos, era um curso dirigido para homens. Científico - era para os mais aquinhoados, que seriam futuramente médicos e engenheiros, também para homens e, o Clássico para sonhadores, para as mulheres só para saberem mais e, para os homens mais afrescalhados, diziam. Depois havia só a USP154 com seus vestibulares alucinantes, como nos dias de hoje! Do Sudan tenho três grandes recordações: Epidemia de Gripe Asiática - para evitar recomendava-se tomar muita limonada, lembro que eu e minha amiga Jacira levávamos a limonada numa garrafa de guaraná todo dia para o lanche. Mesmo assim tivemos a gripe e passamos muito mal, tipo isolamento em casa e na casa. Quando íamos iniciar a disciplina de Enfermagem foi-nos solicitado uma caixa de pronto socorro (branca com a cruz vermelha), com todos os apetrechos concernentes, inclusive amoníaco, que eu não conhecia. Estávamos esperando para entrar, sentadas na grama ao lado das salas, quando veio uma menina e falou para que eu cheirasse bem forte o frasco - quase morri. Já havia bulling, viu? Alguém achou escrito em algum lugar a palavra boce..., a Diretora Dna. Conceição reuniu todos os alunos no pé da escadaria da escola, tomou do dicionário e leu a definição da palavra, explicando que queria dizer uma caixa pequena para guardar rapé, um tipo de fumo moído que se aspirava na época. Profs. que lembro: Dna. Fumiko de corte e costura moradora da colônia japonesa aqui em Itaquera, ainda viva, as vezes encontro com ela na padaria e na feira; Dna Wanda professora de bordados e Dna Neusa, professora de economia doméstica e bolos artísticos‖.

Figura 146 - Certificado de conclusão cedido aos concluintes do ensino ginasial no Grupo Escolar Alvares de Azevedo. 1954. Arquivo Família Stanojev Pereira. 154

Universidade de São Paulo.

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Figura 147 – Frente do certificado de conclusão cedido aos concluintes de um dos cursos profissionalizantes da Escola Profissional Comendador Sabbado D´Angelo. 1955. Arquivo Família Stanojev Pereira.

Figura 148 – Carimbo do verso do certificado de conclusão dos diplomas da Escola Profissional Comendador Sabbado D´Angelo. 1955. Arquivo Família Stanojev Pereira.

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Figura 145 – Classe do 2º ano da turma de 1949 do Grupo Escolar Álvares de Azevedo. Profa. dna. Maria Lúcia. Arquivo Família Stanojev Pereira.

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Figura 149 – Frente e Verso do boletim de notas cedido aos alunos do Grupo Escolar Alvares de Azevedo, nota para a assinatura mensal do responsável tomando ciência. 1954. Arquivo Família Stanojev Pereira.

Digno de nota, se faz quanto ao Educandário Divina Providência de Itaquera, localizado na Rua Barra de Guabiraba, travessa da Av. Itaquera. A história de sua criação começa em 1925, quando o Coronel Bento Pires de Campos doou uma área de 8.856 m2 à Congregação de Pequenas Irmãs da Divina Providência, em Itaquera, a fim de que fosse construído um local para abrigar órfãos e idosos carentes e inválidos. “Ainda agora, conforme já noticiamos em outro número, está edificando-se, em terrenos, doados pelo sr. coronel Bento Pires, o ABRIGO DA DIVINA PROVIDENCIA, obra de grande vulto, e que só poderia ter origem em coração privilegiado, de pessoa que olha, 259


como realmente se deve, os que vivem desamparados. Além de escolas, enfermarias e azilos, o ABRIGO terá uma igreja e um edifício offerecido pela família Pires de Campos, destinada exclusivamente á velhice desamparada”155. O objetivo foi alcançado em 1928, com a inauguração de dois prédios, contudo, devido a não adaptação por parte dos idosos, estes se retiraram findo cerca de três meses depois, restando somente as crianças. Seis anos depois acontecia o reconhecimento por parte da Secretaria da Educação das escolas primárias que funcionavam em regime de internato e externato, cuja denominação é “Abrigo da Divina Providência D. Gertrudes de Campos”, em homenagem à mãe do Coronel Bento. Em 1948 o abrigo torna-se inteiramente de propriedade da Congregação, que mantêm a mesma finalidade original, mudando o nome para “Casa da Divina Providência D. Gertrudes de Campos”, que continuava a receber e amparar as meninas órfãs, pobres ou abandonadas da região. Cinco anos depois a Instituição cria uma área para acolher idosos e adolescentes com problemas mentais também do sexo feminino. Alem do Coronel, também figura como benfeitor da obra o empresário Sabbado D’Angelo, que auxiliava financeiramente a manutenção do abrigo156.

Figura 150 – Educandário Divina Providência (23º32’36,66’’S e 46º27’26,41’’O). 2011.

155 156

Jornal “A Verdade”. Ano I, nº 6, dezembro de 1926 <http://www.edudivinaprovidencia.com.br/> Acessado em 08/2011

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Também inserimos neste capítulo, apesar de atuação recente, mas de grande impacto e importância cultural, social e moral na região, a Obra Social Dom Bosco157, administrada pelo Revmo. Padre Salesiano Rosalvino Morán Viñayo, que desde 1981 desenvolve em Itaquera e Guaianazes atividades de grande mérito humano, em serviços como Educação Infantil, Ensino Profissionalizante, Ensino Socioeducativo, Convívio de Idosos, Acolhimento Institucional e Medidas Socioeducativas. Seus programas atingem a alfabetização de Adultos, Educação ambiental, Inclusão digital, Gestão de Talentos, Atendimento odontológico, Casa do Adolescente, atendimento e orientação à Dependentes Químicos, Farmácia Comunitária, Medicina Alternativa, Escola de Samba, Orquestra Filarmônica e organização de atividades de férias e finais de semana, além de gerenciamento do Projeto “Mutirão Habitacional”.

157

<http://www.domboscoitaquera.org.br/dbosco/histo.htm> Acessado em 08/2011

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Capítulo 9 Saúde No início do século XX, devido as epidemias de varíola cujos focos de concentração estavam localizados principalmente no Rio de Janeiro, o governo Federal instituiu a polícia sanitária, comandada pelo grande médico sanitarista Oswaldo Cruz. Esta polícia tinha plenos poderes para vacinar todos os moradores de uma área e, caso alguém se recusasse seria internado em local apropriado, com as despesas correndo por sua conta. Foi uma verdadeira revolução no costume sanitário do Brasil e, como tal, houve a estrondosa oposição a Oswaldo Cruz contra a vacinação obrigatória, que contou com embates da população com a polícia sanitária, greves foram declaradas pelas centrais sindicais, construção de barricadas pela população para enfrentar a polícia, depredações, etc. Em 1927 a polícia sanitária esteve em visita a Itaquera, onde “o guarda sanitario Severiano da Silva Junior visitou 51, domicilios situados nas ruas Caio Alegre, Villa D. Pedro II, América, Tatuhy, cel. Seckler, Jacú, Victoria, Estação e Itaquera e logares onde não existem ruas, tendo vac. 7 e rev. 11 contra a varíola. Visitou 2 predios em obras e attendeu 2 reclamações158.” Desde 1931, as lideranças do bairro já demonstravam preocupação quanto ao atendimento médico especializado da população da região, fato é que encontramos no Jornal “O Suburbano”159, um artigo sobre a instalação de uma Santa Casa em Itaquera, cuja construção estaria a cargo da Instituição “Philanthropia Itaquerense”. ―O sr. Francisco Alario Bergamo, MM. Juiz de Paz de Itaquera, conseguiu do sr. Franklim de Faria, a concessão de um terreno para a construcção da nossa projectada Santa Casa‖. Contudo, não sabemos se o intento consolidou-se pois, não encontramos mais nenhuma referência sobre o assunto nas bibliografias consultadas. Até o ano de 1961, data da Fundação do Hospital Santa Marcelina, principal instituição de saúde da região até os dias de hoje, o acesso à saúde oficial dos moradores de Itaquera era muito precário. Naturalmente havia consultórios médicos particulares. Na década de 1927, por exemplo, o médico geral, “especialista em doenças de crianças senhoras, venereas e syphiliticas‖ dr. A Bottiglieri, atendia das 8 as 9 da manhã em Itaquera, depois seguia para a Rua Wenceslau Braz, na Pça. da Sé, onde atendia das 1 às 3 horas, e terminava seu dia no consultório de sua residência, na “Rua Piratininga, das 3 e meia ás 6 e meia horas‖160. Na década de 1930 podemos citar o dr. José Marcondes do Nascimento, especialista em sífilis e vias urinárias, cujo consultório era localizado junto a Farmácia N.S. do Carmo e que atendia adultos e crianças, o dentista Lúcio dos Santos Ferreira, com consultório na Rua Italina e o dr. Luis do Val Penteado, clínico de adultos e crianças com especialidade em doenças do coração e pulmões.161 Também havia o atendimento das rezadeiras e, principalmente, a medicina doméstica, lançando mão de chás e unguentos feitos com ervas medicinais, retiradas da 158

Diário Official, sexta-feira, 11 de março de 1927. pp. 2158. Jornal “O Suburbano”, nº4, Maio de 1931 160 Jornal “A verdade”. Ano I. 1927 161 Jornal “O Suburbano”. Itaquera. Ano I. 1931 159

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horta doméstica e os emplastros, preparados com substâncias animais misturados com sumos de plantas. Outra opção era contar com a Farmácia N.S. do Carmo, do farmacêutico Augusto Seckler, irmão do Cel. Francisco R. Seckler, depois administrada pelo sr. Aureliano Barreiros, que exercia seu ofício como o “físico-cirurgião” dos séculos XVIII-XIX, onde atuava inclusive como médico.

Figura 151 – Anúncio comercial publicado no jornal “O Suburbano”. 1931. Arquivo Amaury Roldan Pereira.

No consultório do dentista dr. Brandão, já na década de 1940 e seguinte, os pacientes chegavam e eram entretidos em uma agradável prosa. Após a anestesia fazer efeito, “extraia tantos dentes quantos lhe davam na cabeça”, conforme o depoimento de um dos entrevistados162, restando para os pacientes procurarem os serviços de outro profissional odontológico, o sr. Nolinha, competente protético da região para a confecção de uma dentadura. Nestas épocas e nestas regiões de pouco povoamento, a vinda ao mundo de uma criança era através das parteiras e, a Vila Santana e Itaquera tinha a sua profissional altamente qualificada, a espanhola dna. Natividad Castro Poyato Roldan 163 e a história que segue foi relatada por seu neto e auxiliar nas intervenções, sr. Antônio Pacheco Pereira. ―Na década de 1930, dois pezinhos incansáveis e ligeiros, dona de uma voluntariosa, briosa, valente, resoluta e respeitada competência, que exerceu a arte da obstetricia prática, também conhecida por ―parteira‖ nas terras itaquerenses e adjascências.

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Quando perguntamos ao depoente o porque não detivera a ação do dentista, este respondeu sorrindo que não havia se dado conta, parecendo que estava hipnotizado. 163 Em sua homenagem e, pelos relevantes serviços prestados, a Subprefeitura de Itaquera atribuiu seu nome ao Auditório do Centro da Cidadania da Mulher de Itaquera, em 13 de Novembro de 2009.

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Apresentava orgulhosamente seu diploma, conservado muito bem, embrulhado em papel oleado que trouxera de sua terra natal, onde foi educada em Convento e Seminário de Cordoba. Andou esta valente e destemida mulher, dia e noite, por toda a imensa região de Itaquera, a pé, ou de carroças como a do Chico Carroceiro, de Charrete do ―seu‖ Lopes Leiteiro e também podia contar com os raros automóveis e caminhões, dos srs. Gabriel Maltone e Lá Ferreira, sendo esta parteira a responsável pelo bom parto dos filhos destes e de tantos outros incontáveis itaquerenses da época. Atendia de bom grado a todos os chamados, à qualquer hora do dia ou da noite, fosse o dia que fosse da semana, domingos, feriados. Mesmo nas festas natalinas e de ano novo, não pensava duas vezes em deixar, por alguns momentos, seus filhos, noras, genros e netos que se reuniam em sua casa para festejar, e ia auxiliar as crianças que cismavam em vir ao mundo nestas datas. Frizamos que este relato não pretende servir de biografia de tão ilustre dama, pois se assim fosse, que é o que ela merece por sua importância, demandaria apurada pesquisa e entrevistas com as inúmeras famílias das incontáveis famílias em que ela atendeu como parteira, a começar por seus próprios filhos com o auto-parto e os netos que vieram ao mundo por suas hábeis e carinhosas mãos. Os médicos que a conheciam e reconheciam sua capacidade, como o dr. Loverço, dr. Estevam, o amigo da família dr. Murtinho Nobre, dr. Milton Cruz, o querido boticário e farmacêutico sr. Aureliano Barreiro, mesmo o controvertido Padre Bibiano e depois o Padre Euzébio, indicavam e pedia que levassem as grávidas para que ela pudesse avaliar seus estados, utilizando seus aparelhos, auscultava-as e analisava as condições, inclusive o dia aproximado do início dos trabalhos de parto, errando por questões de horas, fato que nos dias de hoje, dispondo de equipamentos de última geração, os médicos erram por dias e até mesmo meses. Se ela percebesse ser de muito risco, aconselhava à Maternidade. Até o final de sua atuação, orgulhava-se de nunca haver perdido uma paciente ou bebê, por alguma infecção do puerpério, ou umbigo gangrenado, muito comum naquele tempo e mesmo nos dias de hoje. Quando era necessário, por falta de dilatação natural, que possibilitaria a saída do bebê, ela servia-se de seu bisturi, pinças e tesoura, previamente esterilizados, costurando o períneo da mamãe após o parto. Em sua maleta espanhola, de couro marrom duro e lustroso, talvez de algum touro abatido na arena por bravo toureiro, ela carregava seus adorados e bem cuidados apetrechos, entre os quais os apropriados, e para os leigos intrigantes, para a esterilização dos instrumentos. Este era uma pequena gaveta de zinco com água que se aquecia por meio de um recipiente que se enchia de álcool e o colocava por baixo desta gaveta. Nesta água fervente é que se colocava as tesouras, pinças, agulhas, bisturi e um rolinho de cordonê muito forte para ocasionais pontos. Muitas vezes levava pedaços de lençol lavados e passados a ferro que eram aquecidos com brasas de carvão (Vide Fig. 152), e que conforme a parturiente, que ela conhecia já de antemão, ela sabia que por pobreza ou desconhecimento, não teria à mão. Após o parto, com o bebê lavado, enfaixado e com o umbigo estancado, colocava o bebê para mamar, não antes de ter lavado o mamilo da mamãe, ensinando-a também da importância do colostro para a formação e saúde da criança. Pelo menos uma vez por semana, a mãe era religiosamente fiscalizada e, conforme o que via, a mãe era elogiada e estimulada ou até mesmo chamada a atenção. Muitas vezes, preocupada com a alimentação da mãe, preparava canja do resguardo, ou dieta, com galinhas do próprio galinheiro de criação ou do galinheiro da filha, sua querida Chonchica, a sra. 265


Regerenação, ou para muitos, Dna. Chom, além de ovos, legumes e frutas de seus quintais. Ficava feliz e grata quando constatava que mãe e filho ganhavam peso e saúde. Por toda aquela vila em formação, lá da pedreira de onde saiam as pedras da Catedral da Sé, dos paralelepípedos que calçaram as ruas, Largos e avenidas da capital por onde corriam os trilhos de bonde puxados à burro e depois movidos à eletricidade, lá iam aqueles pezinhos. Toda a Colônia Japonesa, Fazenda do Carmo e arredores, a nascente Arthur Alvim, 15 de Novembro, São Miguel, etc, tinha ela suas comadres, como as chamavam, aquelas que por gratidão davam seus filhos para batismo. Muitos dos que a tiveram como parteira, cresciam, casavam-se e a tinham como verdadeira conselheira, que atendia à todos com amor, competência e caridade. Esta é a espanhola Natividad Castro Poyato Roldan, esposa de Francisco Roldan, mãe de Manoel Roldan, Maria Sierra Roldan, Trinidad Roldan, Luiz Roldan, Rafael Roldan, Francisco Roldan Filho, Regeneração Roldan Pereira, Antonio Roldan, Aurora Roldan, Livre Roldan‖164.

Figura 152 – Ferro de passar roupa à carvão com braseiro. 2011. Patrimônio Família Stanojev Pereira. Uma outra farmácia, mais posterior, na segunda metade da década de 1950, foi relatada pela prof. Evanira Cursino e que transcrevemos abaixo: ―Havia também uma farmácia, se não me engano chamava Itaquera, na esquina da Av. Itaquera, em frente onde era o campo do Democrático, próximo onde hoje está sendo construído o Parque Linear Rio Verde. O farmacêutico era o Sr. Guilherme (um japônes) que minha mãe confiava, ela não gostava do Sr. Barreiro - parece que ele foi indelicado com ela. Lembro-me bem pois com mais ou menos 4, 5 anos de idade, enfiei 164

Publicado no Jornal “Itaquera em Notícias” de Novembro de 2008.

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uma faca na testa (estava afiando a faca de limpar sapato na beira do "poço" - uma construção redonda que protegia o poço d’água), vinha entrando em casa com a faca na mão para cima, escorreguei, cai e enfiei a faca na testa. Minha mãe ficou alucinada com o tanto de sangue que jorrava e saiu correndo comigo no colo para a farmácia. Em frente a casa do Cabo Pitanga encontrou-se com o Sr José Carroceiro (transporte da época), ele nos colocou na carroça e levou-nos a farmácia do Sr Guilherme, onde senti pela primeira vez o cheiro de éter, dando-me os pontos necessários. As carroças eram o meio de transporte da época, as cargas, mantimentos, ou que o valha, vinham por viaférrea e eram carregados por elas até as vendas, como do sr. Coelho, ou outros destinos‖. Em 1931, os alunos do Grupo Escolar passaram a ser atendidos por um dentista, o sr. Sylvio Fonseca, filho de Amaury Fonseca e sua Esposa, Carolina Fonseca, cujos honorários eram pagos pela Associação de Pais e Mestres.

Figura 153 – Balancete da Associação de Pais e Mestres do Grupo Escolar de Itaquera, detalhe ao preço do litro de álcool da época, base para o cálculo dos valores envolvidos relativos aos dias de hoje. Jornal “O Suburbano” nº17 – Novembro de 1931. Arquivo Amaury Roldan Pereira. Itaquera sempre foi procurada para fins de tratamento de saúde, graças à sua exuberante mata, que fornecia ares saudáveis e água abundante. Nestas águas, que corriam livres nos inúmeros rios que a cortam, haviam também as centenas de nascentes, que jorravam a mais pura das águas minerais. Uma destas fontes, existente na chácara de Urbano Rebello, foi analisada no laboratório do Estado e segundo o relatório expedido, 267


“foi considerada uma das melhores que ali entrou”, conforme artigo publicado no jornal “O Suburbano”, nº25 de Fevereiro de 1932.

Figura 154 – Nota informativa publicada no jornal “O Suburbano” nº25 – Fevereiro de 1932. Arquivo Amaury Roldan Pereira.

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Capítulo 10 Esportes e o Futebol de Várzea165 Quando se pensa em esportes e várzeas, nosso pensamento é imediatamente remetido à idéia de que a única prática esportiva possível e conhecida nos subúrbios é o tradicional esporte bretão. Nas consultas de nossas bases bibliográficas e entrevistas, constatamos que não era bem assim, e a gama de esportes praticados e disponíveis era bem ampla, desenvolvida nos vários clubes existentes na região e arredores, como por exemplo o atletismo, o boxe, o ping-pong, o remo, a bocha, a malha e, a prática e ensino de esgrima pelo Major C. França166. “CURSO NOCTURNO (…) Mantem ainda um curso especial de desenho e pintura, gimnastica e esgrima de sabre, espada, floreta e bayoneta”. Uma outra notícia surpreendente foi publicada no Jornal “A verdade” de 1926167, relatando a participação de uma equipe do Lageado no “Raid Rio a New-York”. Amaro Baro, Américo Radiante, Casimiro Baro e Raphael Ferrol compunham a equipe de aventureiros, e em resposta à pergunta do jornalista, se os “destemidos esportistas estão dispostos a enfrentar com coragem todos os obstáculos que lhe surgirem”, eles respondem que “Certamente, para isso estamos munidos – o nosso ―Ford‖ esta adaptado para esse fim”. Não possuíam custeio oficial, pois segundo eles isso poderia tirar o mérito do feito, “a nossa melhor verba é a nossa vontade”, remataram.

Figura 155 – Equipe automobilística do Lageado rumo à New York. 1926. Arquivo Amaury Roldan Pereira. 165

Várzea é uma campina plana que sofre inundação, devido sua localização às margens de um rio que tem suas águas aumentadas em épocas de enchente. 166 Jornal “A Verdade” nº3, outubro de 1926 167 Jornal “A Verdade” nº3, outubro de 1926

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As várzeas sempre foram um terreno muito fértil para o nascimento e desenvolvimento de craques da bola, que figuraram e figuram no mundo futebolístico, e Itaquera possui seu “Dia do Esporte”, conforme artigo publicado no jornal “O Suburbano”. “O DIA DO ESPORTE EM ITAQUERA A data de 26 de Abril, para o esporte em Itaquera é histórica. Representa o dia em que, ha annos, foi fundado o primeiro clube que existiu nessa localidade: o Flôr de Itaquera F.C., ora extincto. Por isso não poderá passar sem ser comemorada, mórmente neste anno em que coincide cahir num domingo – dia apropriado para a pratica do esporte. * * * Nesse dia, realizar-se-á no campo do E. C. Itaquéra, por iniciativa desse clube um festival puramente esportivo, que, por certo, se revestirá de grande êxito. Serão disputados vários trophéos e, em tal data, o referido Clube estreiará seu novo uniforme. Opportunamente, daremos outros informes sobre este festival, que constituirá um verdadeiro acontecimento esportivo em Itaquéra”168. Bastava um terreno baldio, duas varas ou dois pedaços de entulho de construção, ou qualquer outro objeto que servisse de traves, uma bola, um time com camisa e outro sem e pronto, a alegria tomava conta da garotada, que até esqueciam a hora de comer e mais ainda de tomar banho, jantar e dormir, para um novo dia de aula. Das pessoas que conversamos, todas guardam lembranças maravilhosas destes tempos, onde era fácil montar um timinho e desafiar a turma da “rua de baixo”, da “rua de cima”, do “fundo da rua” e de outras vilas, que figurava como um clássico, com direito até a concentração. O relato que se segue é de um dos depoentes aqui registrados, e é referente à década de 1950: ―O Miltinho, amigo nosso, e que era aleijado das pernas, se deslocava arrastando-se no chão apoiado nos joelhos, guarnecidos por uma capa de couro que meu pai ajudou a adaptar e com um chinelo em cada mão. Quando ele vinha na hora do jogo, a gente tirava par ou impar, que podia ser o mais velho, os que eram reconhecidos os melhores jogadores ou aquele que teve a ideia do jogo, para escolher os jogadores e, quem ganhava começava a escolher os jogadores do seu time. A equipe considerada mais forte, ficava com o Miltinho no gol, que eram dois paus fincados na terra, um de cada lado. Ninguem se importava em te-lo na equipe pois ele se enjoava logo e pedia para sair, ai então o gol era aumentado em largura e um novo goleiro entrava. Um outro caso curioso era a presença de um rapaz afeminado, o Jair, que jogava futebol e era bom jogador, só que era muito violento, um verdadeiro ―cavalo‖ em campo, um dos piores que pudemos ver em campo. Devido suas divididas agressivas, quebrou várias pernas, braços e cabeças dos adversários. Tinha o hábito de levantar a bola, para dar de bicicleta contra o adversário e, quando eu jogava no gol, gostava de agarrar as faltas que ele cometia, sempre próximo do gol‖.

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Jornal “O Suburbano” nº1, Março de 1931

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As agremiações eram fundadas sempre vinculadas à um grupo, seja de familiares, amigos, profissionais e/ou moradores de um mesmo sitio geográfico. Desta forma, desde a década de 1920 clubes como a Soc. Esp. Elite Itaquerense fundado em 1922, o Esporte C. Itaquera fundado em 1930, Democrático Itaquerense F.C. fundado em 1927, Santana Itaquerense F.C. fundado em 1957, Esporte Clube Ferrolho, fundado em 1974, Falcão do Morro E.C. fundado em 1954, entre outros, eram fundados e administrados por apreciadores, na verdade apaixonados do nobre esporte britânico. Para jogar, os atletas pagavam uma taxa, estipulada pela diretoria, e que tinha por objetivo pagar a lavagem do fardamento, pagar o aluguel da sede do clube e comprar novo fardamento. Também havia a possibilidade, e que não era raro, o apadrinhamento, ou seja, para aqueles que se destacavam no esporte mas que não possuíam condições financeiras, havia sempre um apreciador externo que desempenhava o papel de patrocinador. O nascimento do Esporte Clube Itaquera, por exemplo, aconteceu devido um desentendimento entre os membros do clube Elite Itaquerense, conforme artigo no jornal “O Suburbano”, em sua 1ª edição datado de 1931. “Os Nossos Clubes Esporte Clube Itaquéra Foi em Janeiro de 1930 que houve uma scisão no seio do Elite Itaquerense F.C., devido a razões que não vém a pello citar, tendo então se desligado desse Clube varios associados, dentre os quaes alguns directores, como os snrs. Carlos Ranieri, então presidente em exercício, Francisco Oliveira e Antonio Herrera, além de regular numero de jogadores, alguns do primeiro quadro. (…) Foi assim, que, em 2 de Fevereiro do citado anno, surgiu um outro gremio esportivo, que tomou o nome de ESPORTE CLUBE ITAQUÉRA, a conhecida sociedade que hoje honra o esporte local, dada a sua primorosa direcção e disciplina. A primeira directoria do E.C. Itaquéra foi a mesma que ainda hoje dirige os destinos do Clube, sendo composta dos seguintes senhores: Albertino Cintra, presidente; Francisco Oliveira, vice; Joaquim Ferreira, 1º thesoureiro; Antonio Herrera, 2º dito; Francisco Trindade, Secretario geral; Edgard Pereira, 1º secretario; José André Alves, 2º dito e Carlos Ranieri, director esportivo. O primeiro acto dessa directoria foi conseguir do coronel Seckler a concessão de um terreno do bairro de Sant’Anna, onde installou o seu campo futebolístico, a principio muito acanhado, e hoje já algum tanto melhorado e ampliado, podendo ser considerado bom. O primeiro grupo de rapazes que defendeu as córes do novel Clube, logo apoz a sua fundação, foi o seguinte: André; Theodoro, Eduardo; Jayme, Oliveira, Edgard; Russinho, Russo, Palermo, Fallico e Oliveira. Ao ESPORTE CLUBE ITAQUÉRA, auguramos prosperidades e um turbilhão de victorias no decorrer deste anno”. Esta cisão deu origem à uma disputa de futebol travada entre as duas equipes e chamada de “Melhor das Três”. Abaixo reproduzimos a Crônica do 1º Jogo, pois a

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consideramos assaz interessante e ilustra, de um modo empolgante, uma partida de futebol que acontecia nas heróicas Várzeas169. “Não contrariou a grande expectativa com que era aguardado o primeiro jogo da melhor das tres, entre o E.C. Itaquera e o Elite Itaquerense F.C. Constituiu mesmo um verdadeiro acontecimento esportivo. Enorme foi a assistencia que affluiu ao campo do alvi-rubro, afim de presenciar o embate. E ambos os jogos - o dos 1ºs e o dos 2ºs. quadros – lograram agradar pois decorreram num ambiente de relativa harmonia, sem nenhum facto grave a empanar-lhe o brilho. A preliminar, que teve inicio ás 14 horas, foi disputada com ardor de parte a parte, despertando grande enthusiasmo na assistencia. Os quadros se apresentaram assim constituidos: Elite: Paulo, Margarino e Oswaldinho; Guirello, Solé e Abreu; Salvador, Miné, Luiz, Arnaldo e Adolpho. Itaquera: Amadeu; Felix e Augusto; Jorge; Ráu e Octavio; Chumbinho, Haroldo, Oliveira, Fernando e Baptista. Após 80 minutos de peripecias brilhantes, os locaes triumpharam por 2 pontos a zero. Marcaram os tentos: Miné e Arnaldo. Terminado que foi este jogo, pizam o campo as esquadras principaes. A expectativa é enorme! O capitão do Itaquera, Theodoro, no centro do campo, entrega a Flamengo, capitão do Elite, uma bella corbeille de flores. Responde, agradecendo, o sr. A. Tavares, diretor do alvi-rubro, e, em seguida, os capitães são photographados. Logo após, entra em campo uma commissão de gentis torcedoras do Elite, conduzindo uma rica corbeille offerecida ao vencedor pelas seguintes senhoritas: Matihlde Loebel, Antonia Crociatti, Nadyr Tavares, Noemia de Oliveira, Carolina Alves, Lydia Ribeiro, Lucilia Ribeiro e Dina Loebel; entusiastas adeptas do Elite, que são tambem photographadas. Alguns outros instantaneos são tirados pelo nosso chronista esportivo. Em seguida, o campo fica desimpedido e as esquadras se alinham, notando-se a escalação seguinte: Elite: Juca; Luiz e Casillo; Osorio, Sobral e Carneiro; Chiquinho, Nelson, Flamengo, Xixa e Miúdo. Itaquéra: Duarte; Pinto e Eduardo; Jayme, Theodoro e Edgard; Domingos, Guerreiro, Palermo, Falico e Amadeu. A sorte coube ao auri-azul, e, precisamente ás 15 e 55 horas, o Elite dá a sahida. A primeira investida, porém, é feita pelo Itaquéra, sem resultado. Reage o Elite mas a bola vae fóra. Posta a bola em jogo, Sobral commete falta, que Edgard chuta, nada resultando. O Elite investe-se pela direita e Nelson toca a bola com a mão. De novo a ala direita do Elite ataca, mas Eduardo salva. Bola fóra. Ha ataques de lado a lado. Nelson, talvez devido ao seu ardor, começa a actuar com muita violencia, fazendo falta em Edgard. Nada resulta. Xixa, de posse do couro, finta Theodoro, mas Edgard entra com opportunidade e salva. O jogo torna-se movimentadissimo e bastante violento. Ha bôa combinação dos avantes do Itaquéra, mas Palermo arremata mal. Ataca o Elite e Nelson comette falta em Theodoro. Este chuta, e Guerreiro, ao avançar, comette falta em Casillo. Ataca depois o Elite pela esquerda, mas Jayme entra e devolve o couro aos seus. Flamengo força ainda a defesa, mas em vão. Xixa procura abrir uma brecha, mas Theodoro rechassa. Flamengo, logo depois chuta e Duarte defende, originando-se confusão na porta da méta do Itaquéra, até que a bola vae fóra. A seguir, o jogo prosegue violentissimo, e conduzido quasi que unicamente pelo Elite, que, ajudado pelo 169

Jornal “O Suburbano”, nº 11, Agosto de 1931

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forte vento que continuava soprando sem cessar, domina o adversario, mantendo-se os seus zagueiros no meio do campo. Entretanto, poucas defesas pratica Duarte, salientando-se os defensores do Itaquéra. Que fazem prodigios para evitar a quéda de sua cidadella, auxiliados por Falico e Palermo que retrocedem. A certa altura, Chiquinho atira formidavel pelotaço, que Duarte defende com difficuldade, revertendo a escanteio, que Miúdo chuta sem resultado. Sobral entra com violencia e faz falta. Duarte defende, de novo, chute de Xixa. Á seguir, Nelson, que continua agindo com grande violencia, atinge Pinto na bocca. Este sáe do campo sangrando, para logo após retornar. Flamengo age com violencia e faz falta em Jayme. Este tambem esta jogando com grande violencia, prejudicando o seu quadro com continuas faltas que comette, sempre com grande perigo para sua méta. Eduardo, vendo o perigo, adverte-o. Prossegue o jogo, e Osorio faz falta em Palermo. Ataca o Itaquera, e o proprio Osorio segura. Eduardo se destaca com bellas rebatidas. Falico passa a Amadeu, mas Luiz intercepta o couro, mandando-o fóra. Flamengo tambem actua com violencia, e faz falta em Theodoro. Este chuta e nada resulta. Jayme tranca Xixa. Tirada a falta, Eduardo salva. O vento continua prejudicando o Itaquéra. Chiquinho se esforça, mas Eduardo é uma barreira. Pinto também se destaca com bonitas defesas. A zaga do Itaquéra joga com muita calma e segurança, devendo a isso o Club não ter a sua méta vazada. Xixa dribla Jayme, e este tranca-o. Carneiro chuta e Edgard salva. Nelson, de posse da bola, atira formidavel balaço, que Pinto envia a escanteio. Nada resulta. Duarte, logo após, escanteia tambem. Tirando, Pinto, de novo, escanteia. O Elite insiste ainda, e Xixa põe fóra. Edgard commette falta em Chiquinho. Sobral chuta fóra. A linha do Elite faz bella exhibição de passes. A bola vae de Flamengo a Xixa, deste a Nelson, depois a Flamengo, de novo a Nelson, que passa a Chiquinho. Este centra. Miúdo entra, e Jayme commette falta. Carneiro chuta e Jayme defende. Sobral commette toque. O Itaquéra ataca agora. Casillo repelle. Miúdo foge, sendo seguro por Jayme. Carneiro toca a bola com a mão. Palermo chuta, sem resultado. Palermo faz bonitas tiradas na defesa. Flamengo investe mas perde. O Itaquera reage. Nelson continua agindo com violencia extrema, pouco produzindo technicamente. Prejudica mesmo o ataque de seu Clube com as suas successivas faltas. Jayme tranca Nelson. Estes dois elementos primam pela violencia, prejudicando ambos os quadros. O vento é fortissimo. Chiquinho chuta fóra, e logo depois Flamengo faz o mesmo. Domingos investe-se. Finta Casillo, mas põe fóra. Miúdo investe-se, depois, e chuta fóra. Posta a bola em jogo, termina o primeiro tempo. 0x0. 2º TEMPO Palermo movimenta a pelota. São 4,40. O elite reage, em vão. O vento cessou quasi que completamente. Há uma falta de Osorio, chutada por Edgard, sendo defendida. O jogo movimenta-se por momentos. Ha nova falta de Osorio, Edgard bate-a, e o couro viaja alto, fortemente, e, após roçar na cabeça de Palermo, se aninha nas redes do Elite. Estava marcado o primeiro tento do Itaquéra, sob um enthusiasmo indescriptivel dos seus torcedores. Alguns, mais enthusiasmados, penetram no campo para abraçar o excelente jogador pelo seu brilhantíssimo feito. O Elite dá nova sahida. O Itaquera retoma a offensiva e Casillo salva. Á seguir, Sobral defende tiro de Palermo. Avança o Elite e Pinto defende. Ataca depois o Itaquéra e Casillo, em recurso, manda a escanteio que não surte effeito. Ha bella combinação do Itaquéra, Guerreiro, Palermo e Domingos trocam passes entre si, mas Casillo intervém chutando para fóra, salvando a sua area. O Itaquéra continua atacando e Osorio escanteia. Edgard inutiliza. Em uma investida dos visitantes, Luiz rechassa. O Itaquéra agora está dominando. Seus zagueiros se collocam no meio do campo. Miúdo tenta escapar, mas Theodoro o segura. Domingos chuta e 273


Casillo defende, escanteiando. Tirado, Amadeu cabeceia, e Sobral faz novo escanteio, que Domingos atira, sem resultado. Ataca o Elite, mas Eduardo está firme. Palermo chuta fóra. Ha uma costura de Domingos, Guerreiro e João, porém Domingos se colloca em impedimento. Juca pratica algumas defesas, nesta phase. Chiquinho tenta escapar, mas perde a bola. Nelson entra resoluto, mas Jayme impede sua tentativa. O jogo tornase violentissimo. Luiz bate uma falta e Theodoro salva. O Elite ataca pela esquerda sem resultado. O jogo se torna cada vez mais pezado. Miúdo chuta por cima da trave. O Itaquéra reage, de novo. Ha varias faltas de lado a lado. Não ha technica. Jogo violento sem linha do Elite se esforça para desfazer a proveito para os degladiantes. Após, a defesa do Elite se vê em apuros, quasi resultando um novo ponto. Casillo, porém, escanteia, do que nada resulta. Avança o Elite. Nelson chuta forte e Duarte segura bem. O jogo se equilibra. Está bonito agora, com algumas exhibições de bom futebol. A differença, mas a defesa antagonista está firme. Ataca de novo o Itaquéra. Falico dribla e passa a Amadeu. Este chuta e Juca defende. A seguir, Xixa faz uma série de fintas, mas perde a bola. O Itaquéra agora entra de novo a dominar. Guerreiro, infeliz, chuta fora. Falico, logo depois, faz o mesmo. Ha cerrado ataquedos auri-azues. Falico investe-se decidido, e, á porta do gol, dá lindo golpe de cabeça que Juca não consegue deter. A bola porém, bate na trave superior e resalta para o campo. Guerreiro, que vinha em vertiginosa carreira, alcança-a e em lindo estylo, aninha-a nas redes do Elite, conquistando o 2º ponto das suas cores. Faltam cinco minutos para o fim. O Elite parece esmorecer pois, após a sahida, os avantes do Itaquéra tomando a pelota prosseguem na offensiva. Ha uma confusão na porta da méta. Domingos entra e Juca sáe a seu encontro. Domingos, a duas jardas, com as redes desguarnecidas, perde optima opportunidade de marcar outro ponto, chutando por cima. Decepção. Em dado momento, Guerreiro, de umas vinte jardas, emenda em gól, surprehendendo Juca. Porém o couro passa a um palmo da trave. Depois, o Elite procura reagir, e o faz brilhantemente. Ha confusão próximo á meta do Itaquéra, Palermo toca a pelota. Penal. Ha protestos dos itaquerenses. O juiz, porém, mantem sua decisão. Xixa é encarregado de chutar a pena-maxima. Chuta por cima da trave, perdendo a mais facil occasião de fazer ponto. O Elite reage, volvendo depois aquelle a atacar. Guerreiro, de novo, chuta de longe e quasi marca novo tento. Mas a bóla vae fóra. Posta a bola em jogo, o Juiz apita, dando por terminado o prelio, com a victória do E. C. Itaquéra, por 2 pontos a zero. Os victoriosos foram acclamado , recebendo a rica taça offerecida pela Fabrica Bencvenutti e a corbeille offertada pelas torcedoras do Elite ao vencedor. Não podemos terminar esta chronica sem elogiar o procedimento brilhante dos contendores”. O resumo do embate é a vitória do Elite nos outros dois jogos, conquistando a taça “Melhor de três” em 21 de Fevereiro de 1932, contudo o cronista do jornal relata que a competição perdeu o brilho inicial pois “no tocante ao seu fim (disputa da supremacia futebolistica da localidade) é que o jogo não respondeu. Isto porque, um dos Clubes reforçou o seu quadro, fazendo estrear no mesmo, 3 elementos, e o outro, tendo conhecimento de tal facto, tratou de recorrer ao auxilio de elementos extranhos deixando o prelio de ser um encontro decisivo para a conquista do ―titulo de campeão local”, servindo somente para garantir ao alvi-rubro a posse da taça em disputa, definitivamente”. 274


Figura 156 - Campo do Santana I.F.C. Ao centro o sr. Astrogildo Pereira, fundador do Clube, cercado por seus filhos – Da esquerda para a direita: Francisco (Chinito), Antonio (Toninho), Júnior (Alemão), Alex e Amaury. Atrás a Vila Santana. 1964. Arquivo Familia Stanojev Pereira.

Figura 157 – Time do Esporte C. Itaquera. em seu campo. 1940. Arquivo Familia Stanojev Pereira. 275


Figura 158 – Equipe composta por membros da família Roldan Pereira prontos a enfrentarem a família dos Pimentas. 1950. Arquivo Familia Stanojev Pereira.

Figura 159 – Equipe do Santana I.F.C., formado para jogar contra o Elite Itaquerense em seu campo. 1965. Arquivo Familia Stanojev Pereira. 276


Figura 160 – Equipe da empresa NiFe. Em pé, esquerda para direita: Zóio de porco; Zeca Saraiva, Pedrão, Zé Côco, Zé Movido, Narciso. Agachado: Liné, Tozinho, Virgem, Renato, Joaquim “Coelho”. 1956. Arquivo Familia Ramos.

Figura 161 – Jogo entre o Santana I.F.C. e a empresa NIFE, em seu campo. 1962. Arquivo Familia Stanojev Pereira. 277


Figura 162 – Antigo campo da S.E. Elite Itaquerense. 1962. Arquivo Família Brenneisen. A extinção do Esporte C. Itaquera. em 1945, como dissemos anteriormente, deu origem a fundação de um dos mais tradicionais clubes de futebol de várzea de Itaquera, o Santana I.F.C., que ainda possui seu campo próximo à várzea do rio Verde, e sua criação aconteceu em 1957, depois de uma simples observação aritmética. Segundo o sr. Amaury Roldan Pereira, filho do fundador do Santana Itaquerense Futebol Clube sr. Astrogildo Pereira e, atual presidente da agremiação, a criação do clube aconteceu devido a verificação de que, a maioria dos jogadores do Democrático Itaquerense F.C., eram residentes na Vila Santana e que atravessavam o bairro para jogar no campo que era próximo à estação de onde hoje é a estação do Metrô de Itaquera. Com este fato, propõe que renasça o “Itaquera”, agora com a nova designação de Santana, cujo nome, cores, escudo e campo permanecem os mesmos desde a sua fundação.

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Figura 163 – Componentes do futuro Santana I.F.C. com o fardamento do Democrático em seu campo. 1956. Arquivo Família Stanojev Pereira.

Figura 164 – Da esquerda para a direita, o sr. Astrogildo Pereira (Edgard) e o sr. José Coelho, fundadores e diretores do Santana I.F.C. 1965. Arquivo Família Stanojev Pereira.

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Figura 165 – Da esquerda para direita, sr. José Coelho e sr. Astrogildo Pereira, acompanhando a equipe do Santana I.F.C. em jogo contra o time da cidade de Guararema. 1960. Arquivo Família Stanojev Pereira. Um campeonato muito tradicional, proposto pela primeira diretoria e, que continua vivo ainda nos dias de hoje, é o “Torneio dos Pais”, festa futebolística que tinha o objetivo de homenagear os pais da região. A festa era muito concorrida, as famílias faziam piquenique nas beiradas gramadas do campo e, a abertura e encerramento da festa contava com a presença do vereador João Aparecido de Paula (Fig. 174), eleito com a ajuda da região. No encerramento do torneio, todos participavam de uma sardinhada na brasa, regada por um bom vinho tinto, distribuídos gratuitamente à todos os presentes. Em homenagem ao fundador do Santana I.F.C., o torneio nos dias de hoje chama-se Torneio Festival Astrogildo Pereira.

Figura 166 – Depois de realizado a marcação do campo do Santana com sulcos feitos no enxadão e preenchidos com cal, o fundador do Santana I.F.C. recupera suas energias com um cochilo pois, na tarde deste sábado, começariam os primeiros jogos do torneio do dia dos pais. 1957. Arquivo Família Giannella. 280


Figura 167 – Jogadores uniformizados para o jogo do Torneio dos Pais do Santana Itaquerense F.C. Primeiro a direita sr. Edgard, fundador do time e idealizador do torneio. 1969. Arquivo Família Stanojev Pereira.

Figura 168 – Jogadores do Santana Itaquerense F. C., depois da conquista da Copa de Várzeas. 1953. Arquivo Família Stanojev Pereira.

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Figura 169 – Time do Santana I.F.C. fardado para jogo contra o Democrático, no campo da Nife. 1967. Arquivo Família Stanojev Pereira.

Figura 170 – Time do Falcão do Morro E.C. em seu campo. 1954. Arquivo “Zé Couro”.

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Figura 171 – Time do Falcão do Morro E.C. Em pé, da esquerda: Tonhão, Budi, Ermímio, Dinho, Taturana, Orlando, agachado: Milton, Zé Couro, Dejair, Dema, Finho. 1958. Arquivo “Zé Couro”.

Figura 172 – Fundação da Sociedade Atlética Vila Corberi Itaquerense. No Centro o Sr. Nelson “Faixa Branca”. 1950. “Arquivo Zé Couro”

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Figura 173 – Campo do Santana na ocasião do Festival do Dia dos Pais. De Chapéu e barba o sr Amaury Roldan Pereira, presidente do Santana I.F.C. Atrás se vê o campanário da Igreja Sant´Ana. 1975. Arquivo Família Stanojev Pereira.

Figura 174 – Na ordem, em primeiro plano; Juvenal Juvêncio, presidente do São Paulo Futebol Clube, dr. Washington Mendonça e o vereador João Aparecido de Paula. 1973. Arquivo Família Mendonça. 284


Ainda nos dias de hoje, O Santana I.F.C. promove em seu campo, torneio de futebol de várias modalidades, movimentando e fazendo vibrar as centenas de corações que, apaixonados por este esporte, mantém acesa a chama do desporto amador na zona Leste.

Figura 175 – Foto do time do Santana I.F.C., campeão da Copa Veteranos Cincoentão de 2009, ano que completou o seu 66º aniversário de fundação. Vestindo a camisa oficial está Grão, Zeca (Cagé), Cidão, Luiz e Dão; Biá, Acrésio e Pãozinho; Euzébio (Donizetti), Pônei (Geraldinho) e Cabral. Diretor: Geraldo; Técnico: Espiguinha; Coordenador: Alemão do Vila Regina. 2009. Arquivo Amaury Rodan Pereira.

Figura 176 – Camisa oficial comemorativa do Santana Itaquerense F. C. “Veteranos”. 2011. Arquivo Família Stanojev Pereira. 285


No ano de 2010, como parte das comemorações do 324º aniversário do bairro de Itaquera, várias entidades como o Santana Itaquerense F. C., o Falcão do Morro F.C. e a ACEMI, uniram-se e organizaram o “Festival de Amigos “Recordar é Viver””, um evento esportivo cujo objetivo era homenagear o futebol e antigos futebolistas da região. Graças à ação da Subprefeitura de Itaquera, os jogos aconteceram na Praça de Esportes do Clube do Metrô Itaquera. O trecho abaixo, de autoria do sr. Amaury Roldan Pereira, presidente do Santana Itaquerense F.C., foi retirado do Jornal “Fato Paulista”170. “O evento coroado de êxito contou com a ajuda de clubes co-irmãos de Itaquera, Democrático, Falcão do Morro, Santo Antonio, Grêmio José Bonifácio, Santana, Aruã Clube, Santana Itaquerense, Santana da AECarvalho, Planalto e Ferrolho; imprensa local, Jornais Fato Paulista, Itaquera em Noticias, Noticias de Itaquera; empresários e esportistas, Miro Leitão, Emilio Fujii, Marcelo Magalhães, Marcio Hinoue e Norberto Romero, responsáveis pela concretização do sonho, (…). O ponto mais importante do evento foi a possibilidade do reencontro de vários craques da "velha guarda", como é papo de "boleiro", diante do comparecimento de pessoas inesquecíveis que num passado recente, nos anos 60 à 80, brilharam jogando nos campos do futebol varzeano defendendo a camisa dos times da região de Itaquera, à exemplo de craques como Piloto, Mosquito, Máquina, Ramon, Perez, Giba, Pelado, Toninho, Alemão, Pãozinho, Cidão do Santana, De Carlo, Chinito, Jorginho, Bento, Cidão do Ferrolho, Silva "Becão do Verdão" João Maria, Maurinho "Marreco", Kazuza, Paraíba, Natale, Totonho, Marcinho, Frú, Geraldinho (artilheiro especializado em gols olímpicos), Stica, Décio, Cobrinha, Nelsão, Berola, Expedito, Lauro, Ventura, etc. sendo que alguns ainda em atividade participaram jogando nas equipes "cinquentão" do memorável evento, conforme a programação (…)‖.

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Jornal Fato Paulista. Ano VIII, edição 151. 19/11/2010.

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Capítulo 11 Culinária A região não possui uma culinária específica, como pratos principais ou sobremesas. Devida sua povoação ter sido de indivíduos de várias origens do Brasil e do mundo, a culinária servida é bastante variada, assim existem restaurantes especializados em comida nordestina, italiana, libanesa, portuguesa, etc. Como a povoação de Itaquera se deu pelas passagens constantes de tropas de muares, podemos imaginar uma culinária primitiva, com base nos hábitos alimentares dos tropeiros e suas tropas171, verdadeiros herdeiros dos bandeirantes que cozinhavam durante suas viagens. Os ingredientes básicos de uma tropa eram toucinho, feijão, arroz, carne seca, café, rapadura, ovo e açúcar cristal. O feijão era preparado colocando-se em um caldeirão um pedaço de toucinho para fritar. Uma vez derretida a banha e o toucinho morenado, este era retirado da panela e reservado. Na gordura da panela, era colocado o sal e alho para refritar e depois, o feijão já cozido. Neste conjunto, o torresmo frito era adicionado e com uma colher de pau o feijão era bem amassado, formando uma pasta uniforme, que era servido com farinha e café recém coado. Este era o café da manhã. Após o café, a tropa levantava acampamento e seguiam para mais um tiro de jornada, até o próximo pouso. No novo pouso, que podia ser o Rancho da Casa Pintada, a tropa chegava ao entardecer. A rotina era a mesma: desmontar, desatrelar os burros e lhes dar água e pasto, armar novamente a trempa e atear fogo na fogueira, para preparar novamente o feijão, frito em gordura de toucinho, com a diferença de que o torresmo segue separado, do feijão, como mistura, acompanhado de farinha de mandioca e arroz. O arroz também tinha o seu ritual de preparação, e era feito fritando alho e sal em gordura do toucinho. Uma vez morenado, o cozinheiro da tropa adicionava carne de porco salgada, carne seca de vaca ou linguiça. Quando a carne já estivesse refritada, era adicionada a água e, quando fervesse, adicionava-se o arroz, deixando cozinhar, com cuidado para não secar demais, o arroz deveria ficar um pouco húmido. Um dos ingredientes sagrados em uma tropa era o café, cujos grãos eram preparados sempre de véspera. O café era socado no pilão, para soltar da casca, limpo e torrado em um tacho pequeno, direto na fogueira. O ponto de torra variava de cozinheiro para cozinheiro e, uma vez atingido, era adicionado na mistura um pouco de rapadura raspada, mantendo o movimento da mistura, “até ficar bem lustroso e preto”. Esta mistura, com o café ainda em grão era colocada em uma peneira para esfriar, depois era posto no pilão e socado, até ficar em pó. O depoente deste procedimento ainda dá o seguinte conselho: ―É bom socá duas pessoas, pruque vai ligeiro e o café não perde o cheiro". Se não houvesse coador, o café era preparado da seguinte maneira: "Põe água pra fervê com açucar mascavo, demerara ou mesmo cristal. Bota o pó aí junto. Quando subi a fervura, joga um tição de fogo dentro. O pó baixa e o café tá pronto". 171

Tom Maia. O folclore das tropas, tropeiros e cargueiros no Vale do Paraíba. Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Folclore / São Paulo, Secretaria de Estado e Cultura: Universidade de Taubaté, 1981

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Com o passar dos tempos e a população de Itaquera crescendo, novas dietas alimentares foram surgindo. Como disse anteriormente, os lotes eram grandes o suficiente para os moradores possuirem pequenas criações e plantações. Nestas plantações, em hortas cuidadosamente cultivadas, saiam alfaces, beterrabas, repolhos, cenouras, cebolas, agrião, couve, almeirão, pepino, abóbora e especiarias para tempero e medicina caseira, graças as terras férteis da região. As criações forneciam ovo fresco, frango assado no fogão à lenha, leite de vaca e cabra, que era consumido in natura, ou utilizado para preparar manteiga, batida em casa, queijos e doces. Além de fornecer carne fresca, que era salgada, para prolongar sua utilização, ou guardada na gordura, em recipientes específicos para tal. Nestas práticas se fazia em casa os próprios embutidos, como linguiça de carne de porco, chouriço172 e alheiras173. Uma receita de linguiça, obtida com um antigo morador da região, utiliza os seguintes ingredientes174 e procedimentos: 3 peças grandes de pernil, tripas de porco, 15 gramas de sal de cura, 1 pitada de açúcar, 20 gramas de conservante, 1 copo de água, condimento feito à base de noz-moscada e alho. Em primeiro lugar limpa-se o pernil, tomando o cuidado de não retirar muita gordura, para não ressecar quando frita-la. Em seguida moa bem a carne e, em uma tigela grande, tempere a carne com a pimenta calabresa seca, orégano, erva-doce, sal, alho, sal de cura, açúcar, conservante e um condimento feito triturando noz-moscada com alho, misturando tudo muito bem. Adicione a água e misture mais, até sentir que os ingredientes estão ligados. Coloque esta massa na tripa, utilizando um enchedor ou, se tiver paciência, com uma colher. Divida em gomos e conserve na geladeira ou pendurada sobre um fogão à lenha, para curar. Pode ser frita, servida com ovo frito e arroz tropeiro ou branco. Outro prato típico na região é a Galinhada. A receita original requer galinha caipira, devido sua carne ser mais dura, mais saudável e mais gordurosa, o que dá mais sabor, todavia, a receita original somente poderá ser feita por aqueles que ainda tem criação ou conhece alguém que tenha. A receita também era muito utilizada por moradores da região e sua preparação é muito simples. Para se fazer a Galinhada, utilizase os seguintes ingredientes: 1 quilo de Galinha picada; 2 medidas de arroz , já lavado e escorrido; A mesma medida de água fervente; 1 colher de sobremesa rasa de açúcar (antigamente utilizava-se rapadura ou açúcar mascavo, fica melhor); 2 cebolas; 3 dentes de alho amassados e picados; suco de 1 limão, de preferência galego; meio pimentão verde picado; 3 tomates picados; Salsa e cebolinha à gosto picados; sal a gosto; pimenta do reino moida a gosto; azeite. Tempere com algum tempo de antecedência os pedaços da galinha com o alho, 1 cebola picada, o suco de limão, a pimenta e sal. Coloque uma panela ao fogo e acrescente o azeite e o açúcar. Aqueça até o açúcar derreter e caramelizar. Neste momento, vá colocando os pedaços de galinha temperada no caramelo, que vai se dissolvendo aos poços, a medida que a galinha solte a gordura e água. Refrite até a carne ficar dourada e, neste momento, retire os pedaços da galinha da panela, escorrendo o excesso de gordura em outra vasilha, que pode ser aproveitado para se preparar uma canja, para restaurar as forças175. Coloque os pedaços de galinha novamente nesta panela, que restou um pouco da gordura e deixe refritando mais um pouco. Quando a cor da carne estiver satisfatória, ao gosto da pessoa, adiciona-se os outros ingredientes na panela e mexa, em seguida adicione o arroz e mexa, deixando 172

Enchido feito com o sangue suíno coalhado, bem condimentado e embutido em tripa grossa. Enchido típico portugues. Existem alheiras feitas de carne e gordura de porco, de aves, de pão, de azeite, de alho, etc. 174 Existe hoje em mercados e lojas especializadas, o material necessário para se preparar linguiça de vários tipos em casa. 175 Esta canja de galinha era preparada pela parteira dna. Natividad Roldan. N.A. 173

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refritar um pouco. Coloque então as duas medidas de água fervente, mexa bem e experimente o sal. Tape a panela e deixe cozinhar, observando quase próximo a secura, se o arroz está macio, caso contrário coloque mais meia medida de água fervente e tape a panela novamente. Uma vez seco, retire do fogo e adicione na panela a salsa e cebolinha picados, mexendo a mistura. Despeje tudo em uma travessa ou deixe na panela. Acompanha uma broa de milho. Devido a presença de imigrantes de várias nacionalidades, era comum nas mesas de datas festivas como o Natal, a rabanada, bolo de nozes, queijadas e outros doces tradicionais. Assim como, graças à presença de migrantes, principalmente nordestinos, podemos saborear pratos como vatapá, baião-de-dois, escondidinho, chouriço, carne de sol com farofa, tapioca doce e salgada, caldo de mocotó, entre outras delícias. Com os pomares, presentes na maioria das residências da região, as próprias familias preparavam os doces e compotas em casa, assim sempre havia para sobremesa ou oferecer às visitas, doces de abóbora, de pera, de maçã, geléias, bananadas, marmeladas, goiabadas, etc, receitas estas que ainda podem ser obtidas de nossos parentes mais velhos e, quem sabe, publicadas com o título “Receitas Itaquerenses”, trazendo e propondo pratos típicos de nossa região.

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Capítulo 12 Política No desenvolvimento deste trabalho verificamos a participação da sociedade civíl, principalmente nas ações de conquista de bens e serviços e, na grande maioria das vezes, no ontem e hoje, como fruto da ação de uma única pessoa, que motivada pela necessidade de seus conterrâneos e pelo sentimento de orfandade junto às Instituições Governamentais, mobilizam-se e constroem uma sociedade melhor. Hoje Itaquera conta com 146.937 eleitores176, mas em 1922 este número era de apenas 317, inscritos em Secção Única, com direito a votar nas eleições presidenciais que aconteceram em 01 de Março deste mesmo ano, e que levou à vitória o candidato Arthur Bernardes177. Contudo, nas eleições de 1925 para a escolha de um Deputado na Assembléia Legislativa de São Paulo, este número já era de 361, divididos em duas Secções eleitorais. Um fato curioso de se notar é que no recém-criado Distrito de Itaquera haviam mais eleitores que seu vizinho São Miguel Paulista, que contava com 47 eleitores com direito a voto, inscritos em Secção Única178. Como vimos nos capítulos anteriores, muitos imigrantes escolheram Itaquera para fixar residência, depositando neste chão suas esperanças e seus sonhos. Um destes foi Caio Alegre, que chegou no Bairro em 1906, contando apenas 20 anos de idade e, uma vez instalado e já trabalhando para o desenvolvimento social e político da região, entra com pedido de inscrição eleitoral em 1913. Acontece que seu pedido é indeferido pelo juiz eleitoral, devido sua situação de “estrangeiro”, como define o despacho. Contudo, em 1923 sua situação já está resolvida, sendo designado no Diário Oficial de São Paulo como mesário, juntamente com David Ferreira e Francisco Nobreza Barbosa, este último como presidente da mesa receptora de voto, instalada em Secção Única no Grupo Escolar de Itaquera, para a eleição de um Deputado ao Congresso Nacional no pleito que iria acontecer em 16 de Abril de 1923. Com sua situação política e de cidadania resolvida sua atuação continua e, no Diário Oficial de São Paulo de 10 de Fevereiro de 1924 é designado como 2ª Suplente do Dr. Álvaro de Mendonça, 5ª Subdelegado da 7ª Subscrição de Polícia, que é a região de Itaquera. Com todo este currículo teve seu nome homenageado como designação de logradouro, contudo devido a burocracia obtusa de nosso país a denominação da rua foi alterada para “Miranorte”. Estas pessoas, de ontem e de hoje, munidas de sentimentos e visão coletiva, coordenam e pensam a “Res publica” de uma forma maior, ampla, até mesmo utópica, contudo necessária para o amadurecimento político e social de um aldeamento, que passou à povoamento, depois Vila, Distrito e tentou chegar ao “status‖ de cidade, no plebiscito do ano de 1953, descrito anteriormente pelo dr. Washington Mendonça.

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<http://www.tse.jus.br/eleicoes/estatisticas-do-eleitorado/quantitativo-do-eleitorado/consulta-por-zona> Acessado em dezembro de 2011. 177 Diário Oficial do Estado de São Paulo – Sexta-feira, 03 de Fevereiro de 1922. Pgs. 760 – 762. 178 Diário Oficial do Estado de São Paulo – Quarta-feira, 15 de outubro de 1924. Pgs 6065 a 6066.

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“PLEBISCITO EM ITAQUERA E SÃO MIGUEL PAULISTA EDITAL179 O Doutor Durval Pacheco de Mattos, Juiz de Direito da Primeira Vara da Família e das Sucessões, especialmente designado para presidir os trabalhos dos plebiscitos a que alude o artigo 73 da Constituição Estadual, FAZ PÚBLICO (…) o resultado seguinte: ITAQUERA: Comparecimento …743 Votos ―sim‖ ……274 Votos ―não‖ ……468 Votos ―brancos‖.. .001 Votos ―nulos‖….000 SÃO MIGUEL PAULISTA Comparecimento…1628 Votos ―sim‖……..709 Votos ―não‖….…875 Votos ―branco‖..…18 Votos ―nulos‖.…026 (…) Dado e passado nesta cidade de São Paulo, aos trinta dias do mês de Novembro de mil novecentos e cinquenta e três”. Em Itaquera sempre existiram movimentos partidários, suprapartidários, sindicais e, a militância era constante no Partido Integralista, Partido Constitucionalista, Partido Comunista, Partido Social Democrático, Partido Trabalhista Brasileiro, fundado pelo presidente Vargas e, a União Democrática Nacional (UDN), principal partido de oposição ao governo Vargas, até que na década de 1960, com o Golpe Militar cria-se o regime de bipartidarismo, sendo criados a Arena, que reunia partidos do governo, e o MDB, que aglutinava as chamadas oposições. Até 1930, se pudermos fixar esta data como marco, o centro de Itaquera estava localizado no Largo de sua Matriz, a Igreja de Sant’Ana, foco de todas as atividades cívico-religiosas da região. Em 1922, o chefe político era o coronel Francisco Rodrigues Seckler, presidente do diretório do PRP de Itaquera (Partido Republicano Paulista), futuro Subprefeito da região e dono de uma grande extensão de terras, que compreendia o terreno onde estava inserida a antiga Capela de Sant’Ana, hoje Paroquia de Sant’Ana, e que pode ser verificada no Anexo 14. Neste ano de 1922, o diretório de Itaquera reunido envia uma carta ao então governador de São Paulo dr. Washington Luiz, confirmando o apoio ao candidato Arthur Bernardes para presidente da República. A vitória do candidato de seu partido deu, ao que parece, ao Coronel Seckler muita força política e, entre 1922 e 1930 seu nome sempre está vinculado nas atividades sociais, esportivas, políticas e religiosas da região como seu Subprefeito e, como tal, representa as necessidades da população de Itaquera junto à Capital, como o artigo publicado no jornal “A Verdade”, nº 2, de Outubro de 1926. “É de lamentar-se que as autoridades a quem o caso compete, não tenham ainda tomado providencia no sentido de restabelecer-se o transito pela antiga estrada de rodagem, denominada «Santa Luzia», que daqui vae á Penha.

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Diário Oficial do Estado de São Paulo (E.U. do Brasil) – Terça-feira, 01 de Dezembro de 1953, Nº 271 – Ano 63º - Página 43.

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Trata-se de um grande melhoramento de utilidade publica, em vista de encurtar quasi que pela metade a caminhada que hoje se faz pela estrada de S. Miguel. Existem aqui varios carreiros que, por muitas vezes trafegaram, conduzindo tijolos, lenha, e outros materiaes por essa velha estrada de Santa Luzia. Urge pois que se peçam á Camara ratificação dessa estrada, attendendo o interesse da população”. Tomando ciência de tal necessidade, o Subprefeito de Itaquera prepara um documento pedindo que a estrada, que já existia havia muito tempo, fosse melhorada, e envia este ofício para a distante Prefeitura de São Paulo. A resposta de tal pedido pode ser visto no Ofício da Figura 181, assinado pelo próprio Prefeito e enviado ao Subprefeito de Itaquera e Lageado. Em 1927, seu companheiro de partido, dr. José Pires do Rio, vence as eleições para a prefeitura de São Paulo para o quadriênio 1926-1930 e, o Coronel Seckler é reeleito como Subprefeito de Itaquera e Lageado. Neste mesmo ano de 1927, falece o então Presidente do Estado de São Paulo, Carlos de Campos180, e novas eleições são convocadas, pois seu vice-presidente, o coronel Fernando Prestes de Albuquerque renuncia ao cargo. Nestas novas eleições, Júlio Prestes é eleito presidente do Estado de São Paulo, assumindo o cargo em 14 de Julho de 1927 e governando até 21 de Maio de 1930. Com as eleições presidenciais aproximando-se, Júlio Prestes foi indicado, em 1929, candidato ao cargo pelo presidente Washington Luis, fato que desagradou os governadores de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba, pois quebrava com a tradição do revezamento “Café-com-leite”. Com esta “traição”, o Partido Republicano Mineiro costurou uma aliança política com os estados descontentes, apoiando o então governador do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas, para Presidência da República. As eleições de 1º de Março de 1930, contudo, deram a vitória para Júlio Prestes, onde somente em São Paulo ele obteve 91% dos votos válidos. Com a vitória presidencial, Júlio Prestes transfere o cargo de Presidente do Estado para seu vice, Heitor Penteado, e viaja pelos Estados Unidos da América e Europa, retornando em Agosto do mesmo ano. Mas a vitória de Júlio Prestes não havia sido digerida pela Aliança Liberal de Vargas, que afirmava que houvera fraudes, e já era sentida uma agitação mais extremista. O caminho pensado pelos revoltosos era depor Washington Luis e impedir a cerimônia de transmissão do cargo. Foi o que aconteceu em 24 de Outubro de 1930 por meio de um golpe militar. O presidente foi deposto, assumiu uma junta militar que impediu o presidente eleito Júlio Prestes de ser empossado e, em 03 de Novembro do mesmo ano Getúlio Vargas assume a presidência por um período de 15 anos ininterruptos. Com isso, as novas lideranças de Itaquera se articulam e elegem o diretório do Partido Democrático de Itaquera, redesenhando a situação política da região.

180

Na revolução de 1924, o então Governador Carlos de Campos refugiou-se no antigo bairro de Guaiaúna (atual Carlos de Campos), na Zona Leste, devido aos bombardeiros aéreos que a Capital Paulista sofreu das forças federais.

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Figura 177 – Oficio de apoio, enviado pelo diretório do PRP de Itaquera, aos candidatos Arthur Bernardes e Urbano dos Santos para as eleições presidenciais daquele ano de 1922, quando foram eleitos com 466.877 votos (59,5%). Arquivo Família Seckler/ Instituto Histórico e Cultural de Mongaguá.

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Figura 178 – Quotização para organização da recepção comemorativa da reeleição para o cargo de Subprefeito de Itaquera e do aniversário do Cel. Seckler. Arquivo Família Seckler/ Instituto Histórico e Cultural de Mongaguá.

Figura 179 – Convocação do diretório político de Itaquera, para as eleições estaduais de 24 de Fevereiro de 1927. Jornal “A verdade” nº8, de 20 de Fevereiro de 1927. Arquivo Amaury Roldan Pereira. 295


Figura 180 – Resumo das eleições no Distrito de Itaquera, dando vitória a Júlio Prestes como Governador de São Paulo em 1927 e cujo resultado iria selar, em 1929, com sua indicação à Presidência da República pelo presidente Washington Luiz, os destinos da Vila Sant’Ana, Itaquera, São Paulo e Brasil, com a revolução de 1930.

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Figura 181 – Oficio recebido pelo Subprefeito de Itaquera, Cel. Seckler em resposta ao seu pedido para melhoria da via pública que ligava o Centro de Itaquera à Penha, chamada de Estrada de Santa Luzia. Arquivo Família Seckler/ Instituto Histórico e Cultural de Mongaguá.

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Figura 182 - Artigo sobre a eleição do diretório do Partido Democrático de Itaquera, detalhe ao telegrama enviado à Getúlio Vargas, publicada no jornal “O Suburbano” nº17 – Novembro de 1931. Arquivo Amaury Roldan Pereira.

Figura 183 – Panfleto de campanha do Cel. Seckler. 1945. Arquivo Família Rivas 298


Durante sua história, Itaquera tem recebido várias personalidades da esfera política e, desta forma, citamos a visita de Serafino Manzzolini, Consul da Itália em São Paulo (Fig. 184), de Reynaldo de Barros, descrita anteriormente, do Cardeal D. Carmelo Motta, do presidente da República Gal. João Batista de Oliveira Figueiredo, que em 1980 esteve em Itaquera para inaugurar o Conjunto Habitacional José Bonifácio, do presidente da República Fernando Henrique Cardoso, que em 1996 esteve em visita ao Hospital Santa Marcelina, retornando algum tempo depois para anunciar, juntamente com o então governador Mario Covas, o plano de retomada das obras para a extensão do metrô, de Itaquera à Guaianases e, do presidente da República Luis Inácio Lula da Silva em 2004, quando juntamente com a prefeita Marta Suplicy, candidata a reeleição, participou do palanque e desfilou pelo recém construído prolongamento da Radial Leste até Guaianazes. Itaquera também recebeu a visita do trineto do imperador D. Pedro II, S.A.I.R 181 o príncipe D. Luiz de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial Brasileira, no ano de 1993. S.A. esteve em solo itaquerense para oficializar a fundação do Círculo Monárquico de Itaquera e proferir uma palestra de elucidação acerca da diferença entre a monarquia e a república, com vistas ao plebiscito que iria acontecer naquele ano. O evento aconteceu no salão social da Sociedade Esportiva Elite Itaquerense, com a participação massiva da população.

Figura 185 – Ao meio, S.A. o príncipe D. Luiz de Orleans e Bragança. 1993. Arquivo Família Stanojev Pereira.

181

Sua Anteza Imperial e Real (S.A.I.R.), tratamento formal ao Chefe da Casa Imperial do Brasil.

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Figura 184 - Artigo social relatando a recepção do industrial Sabbado D’Angelo oferecida ao Cônsul da Itália em São Paulo. Jornal “O Suburbano” nº25 – Fevereiro de 1932. Arquivo Amaury Roldan Pereira.

Apesar de todo movimento político, o fato triste constatado durante toda a vida do bairro de Itaquera, bem como pelos bairros da periferia de São Paulo, é que após as visitas dos candidatos e representantes de todas as esferas do poder, após os comícios inflamados e as salvas de palmas, volta-se ao estado de abandono político, somente quebrado quando novas eleições estão próximas, quando os candidatos relembram do potencial eletivo dos votantes dos subúrbios. Contudo, temos observado um amadurecimento político na região. Cada vez mais pessoas, de todas as idades, classes sociais e ocupações tem engrossado as fileiras da representatividade política, disputando cargos no legislativo e se Deus quiser, em um futuro próximo, também no executivo. Vemos verdadeiros D. Quixotes que, com altruismo e desinteresse, lutam pela coisa pública, conquistando com seu trabalho e das associações que representam, benfeitorias que atingem diretamente o interesse comum. Assim podemos citar as conquistas no terreno da saúde, com construção de postos de saúde e equipamentos de última geração nos hospitais da região, escolas, creches, pavimentos de ruas, iluminação pública, etc. Entre muitos destes abnegados cidadãos, citaremos o sr. Carlos Roque Damas (Fig. 186, primeiro à esquerda sentado), um dos fundadores da “Sociedade Amigos do Jardim Morganti”, que em pleno ano de 1964, “anos de chumbo”, ano do AI-5, defendia melhores condições de vida para a população de Itaquera, frente aos órgãos governamentais. Em conversas, dizia sempre que as lutas eram diárias, mas sempre contou com o apoio dos associados, dirigentes e amigos, para manter as portas da verdadeira democracia sempre abertas para todos, referindo-se a entidade que sempre recebeu em 300


suas dependências todos as raças, cores, credos, partidos políticos e times de futebol, sem preconceito, sem discriminação.

Figura 186 – Diretoria da ACEMI em reunião de posse do mandato. 2008. Arquivo Família Stanojev Pereira. Nesta mesma figura, ainda pode-se ver representantes de outras entidades, como o sr. Délcio da Silveira (2º esquerdo), membro do Conselho de Segurança (ConSeg); sr. Nilton Ribeiro Mariano (3º esquerdo), membro fundador da Associação Movimenta Itaquera (AMI); sr. Amaury Roldan Pereira (4º esquerdo), líder comunitário em várias linhas de atuação; sr. Antônio Pacheco Pereira (1º direita), diretor da ACEMI; sr. Francisco Roldan Pereira (2º direita), presidente da ACEMI. Em pé: srs. Miro e Edmar Leitão (2º e 3º esquerdo), diretores do Projeto Social Leitão; sr. Vivaldo Bispo (4º esquerdo), diretor do boletim “Sol do Povo”, e o sr. Robson Lima (1º direita), presidente da AMI.

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Figura 187 - Reunião entre o ex-Subprefeito de Itaquera Roberto Tamura com as entidades de bairro, para os acertos da mudança da sede da Subprefeitura, do antigo prédio do Grupo Escolar Álvares de Azevedo para o prédio da Rua Augusto Carlos Baumann. Segundo a esquerda o sr. Francisco Roldan Pereira, presidente da ACEMI. 2010. Arquivo ACEMI.

Figura 188 – Presidente da Associação do Comércio e da Economia Informal de Itaquera, Paulo Ferreira da Costa (Ceará), que ocupa a casa do Chefe da Estação, por concessão da RFFSA, desde 2004182. 182

É graças a esta ocupação, e a oposição corporal da sociedade civil de Itaquera frente à equipe de demolição que já havia deitado ao chão a Estação de Trêm de Itaquera, que a Casa do Chefe da Estação não veio abaixo. No dia que foi tirada a foto, em dezembro de 2010, o sr. Paulo nos informou que a restauração do prédio pela RFFSA estava próxima e, o destino será um museu.

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Em 1996, a região elege seu primeiro representante no legislativo municipal com 45.234 votos nominais, o vereador Benedito Salim Ide do Partido Progressista Brasileiro (PPB), comerciante e antigo morador de Itaquera, o que era ideal, pois conhecia a fundo as necessidades do bairro. Apresenta um projeto de lei de interesse social, o qual reproduzimos abaixo, retirado da página on-line da Jusbrasil183. “LEI Nº 13.036, 18 DE JULHO DE 2000 Diário Oficial do Município de São Paulo, 19 de julho de 2000 (Projeto de Lei nº 668/98, do Vereador Dito Salim PPB) Altera o Art. 3º da Lei nº 11.248, de 1º de outubro de 1992, que dispõe sobre o atendimento preferencial de gestantes, mães com crianças de colo, idosos e deficientes em estabelecimentos comerciais, de serviço e similares. Art. 1º - O Art. 3º da Lei nº 11.248, de 1º de outubro de 1992, passa a vigorar com a seguinte redação: "Art. 3º - O não cumprimento dos dispositivos desta lei sujeitará os infratores a multa equivalente a 10.000 (dez mil) UFIR's, devidas em dobro no caso de reincidência." Art. 2º - As despesas decorrentes desta lei correrão por conta de dotações orçamentárias próprias, suplementadas se necessário. Art. 3º - Esta lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário‖. Contudo em 2000 é homologada sua renúncia, conforme documento nº11621 apresentada ao TRE, sobre a desistência de disputa para as eleições futuras 184,185,186, e novamente Itaquera e região voltam a ficar com o chapéu na mão e órfãos.

183

http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/busca?q=dito+salim+vereador&s=legislacao&p=3 > Acessado em 03/2011 http://www.tre-sp.gov.br/eleicoes/elei2000/candidatos/71072/ vereador.htm#PPB. 185 http://www.stj.gov.br/portal_stj/publicacao/engine.wsp?tmp.area =398&tmp.texto=67789 186 http://camaramunicipalsp.qaplaweb.com.br/iah/fulltext/relatoriocomis/ RELPARRPP06-0009-1999PENHA.pdf 184

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Capítulo 13 Economia e sistema monetário Este capítulo tem o propósito de ilustrar o dinheiro que circulava pela região, considerando os períodos Colonial, Império e República. Na década de 1940, as medidas econômicas tomadas pelo governo Vargas, permitiram uma aparente estabilidade do antigo padrão monetário criado no império, e o mil-réis possuía uma relação aproximada de 20$000 (vinte mil réis) por dólar. Nesta época uma nova moeda foi lançada com o nome de Cruzeiro (Cr$), com o mesmo valor do mil-réis. A quantia de 1 milhão de réis era chamada de “Um Conto de réis”, e esta palavra passou a ser utilizada em todas as moedas, quando o valor equivale à mil, assim hoje em dia, é comum referirmo-nos à mil reais (R$) como “Um Conto”. Após o final da II Guerra Mundial e a conferência de Bretton Woods, a paridade do cruzeiro foi oficialmente fixada em Cr$ 18,72 por dólar e este manteve a paridade de 35 dólares por onça (31,103g) de ouro puro, de forma que o Cruzeiro correspondia exatamente a 0,047471 g de ouro187. Essa taxa se manteve oficialmente de Agosto de 1946 a Janeiro de 1953. Porém, devido à elevada inflação que acompanhou o processo de industrialização e desenvolvimento a partir dos anos 50, essa paridade teve de ser abandonada. A moeda brasileira desvalorizou-se com enorme velocidade nas décadas seguintes e o Brasil efetuou mais sete reformas monetárias entre 1967 e 1994. Em 1950 o salário mínimo da época era de Cr$380,00, o equivalente a 210 dólares. As figuras das cédulas e moedas abaixo fazem parte do arquivo numismático da Família Stanojev Pereira e serão apresentadas segundo uma ordem cronológica.

Figura 189 – Moeda em cobre de 10 réis cunhada em Portugal, por D. João V e que circulou no Brasil colonial. 1743.

187

Fonte DIEESE. http://www.dieese.org.br/esp/salmin/salmin00.xml - acessado em abril de 2010

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Figura 190 – Moeda em cobre de 80 réis, do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, cunhado na Casa da Moeda da Bahia, por D. João VI. 1821.

Figura 191 – Moeda em cobre de 40 réis, do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, cunhado na Casa da Moeda da Bahia, por D. João VI. 1822.

Figura 192 – Moedas em cobre de 40, 20 e 10 réis, do Brasil império. 306


Figura 193 – Moedas em prata de 50 e 200 réis do Brasil Império.

Figura 194 – Moedas em prata de 100 e 200 réis dos primeiros anos do Brasil como república, com o nome Républica dos Estados Unidos do Brasil.

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Figura 195 – Moedas em prata, única série com as datas cunhadas em algarismos romanos, do inicio do século XX (MCMI188), de 100, 200 e 400 reis.

Figura 196 – Moedas em cobre (500 e 1000 reis) e prata (2000 réis), comemorativa do 1º Centenário da Independência do Brasil.

188

MCMI – algarismo romano para 1901

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Figura 197 – Moeda em prata de 2000 réis, com a efígia personificando a república.

Figura 198 – Moedas em bronze, da década de 1930, homenageando os grandes homens do Brasil. Da esquerda para direita, Anchieta, Tobias Barreto, Floriano Peixoto e Caxias.

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Figura 199 – Moedas de liga cobre-niquel, da década de 1930, homenageando os grandes homens do Brasil. Da esquerda para direita, Marques de Tamandaré, Barão de Mauá, Carlos Gomes e Oswaldo Cruz.

Figura 200 – Moedas de liga cobre-níquel cunhadas por Getúlio Vargas durante o Estado Novo.

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Figura 201 – Moeda do primeiro cruzeiro de Getúlio Vargas.

Figura 202 - 2000 réis, 1932. Série conhecida como Vicentina, em comemoração aos 400 anos do início da colonização do Brasil. Reverso: Valor facial, armas portuguesas com 8 torres e a inscrição "REI DE PORTUGAL". Verso: D. João III (O colonizador).

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Figura 203 – Medalha com a Figura de Luiz Carlos Prestes - F.D.L.N (Frente Democrática de Libertação Nacional), mandada cunhar para a Propaganda Comunista.1952.

Figura 204 - Cédula de Um Mil Réis que circulou durante o 2º reinado até 1942.

Figura 205 - Cédula de Vinte Mil Réis com carimbo para 20 cruzeiros 1942.

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Figura 206 - Cédula de Um Cruzeiro (1944-1967). Marquês de Tamandaré.

Figura 207 - Cédula de Dois Cruzeiros (1944-1967). Duque de Caxias.

Figura 208 - Cédula de Cinco Cruzeiros (1944-1967). Barão do Rio Branco.

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Figura 209 - Cédula de Cinco Cruzeiros (1961-1967). Índio e Jangada.

Figura 210 - Cédula de Dez Cruzeiros (1944-1967). Getúlio Vargas.

Figura 211 - Cédula de Vinte Cruzeiros (1944-1972). Deodoro da Fonseca.

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Figura 212 - Cédula de Cinquenta Cruzeiros (1944-1972). Princesa Isabel.

Figura 213 - Cédula de Cem Cruzeiros (1944-1972). Dom Pedro II.

Figura 214 - Cédula de Duzentos Cruzeiros (1943-1973). Dom Pedro I.

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Figura 215- Cédula de Quinhentos Cruzeiros (1944-1973). Dom João VI .

Figura 216 - Cédula de Mil Cruzeiros (1943-1973). Pedro Álvares Cabral .

Figura 217 - Cédula de Cinco Mil Cruzeiros (1963-1974). Tiradentes.

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Figura 218 - Cédula de Dez Mil Cruzeiros (1966-1975). Santos Dumont.

Figura 219 - Cédula de um Cruzeiro (1972-1984). República.

Figura 220 - Cédula de Cinco Cruzeiros (1970-1984). D. Pedro I.

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Figura 221 - Cédula de Dez Cruzeiros (1970-1984). D. Pedro II.

Figura 222 - Cédula de Cinquenta Cruzeiros (1970-1984). Marechal Deodoro da Fonseca.

Figura 223 - Cédula de Cem Cruzeiros (1970-1987). Marechal Floriano Peixoto.

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Capítulo 14 Itaquera Hoje Itaquera conta com uma população de 525.337 pessoas, segundo o senso de 2008, contingente maior que a de Lisboa, compreendida no ano de 2009 em 480.766 habitantes. Segundo as informações colhidas na página da Prefeitura de São Paulo 189 e, em uma dissertação de Mestrado apresentada em 2003190, a Subprefeitura de Itaquera compreende os distritos de Cidade Lider, Itaquera, José Bonifácio e Parque do Carmo, com uma área de 55, 32 km2. Do total desta população, cerca de 53.241 são crianças entre 0 e 5 anos de idade e 29.020 são pessoas com mais de 60 anos. Para 59% da população, o IDH191 é de 0,803, caracterizado como Médio, o rendimento per capita mensal é de R$230,46 e a expectativa de vida é de 70,2. Quanto à instrução, seus habitantes possuem em média 6,6 anos de estudo. De outro lado, os outros 41% da população estão enquadrados na faixa de IDH- baixo, onde 52% destes são analfabetos e contam com uma renda per capita de R$130,86 e possuem em média 5,7 anos de estudo. De acordo com o boletim oficial da Prefeitura do Munícipio de São Paulo “Relação das Unidades da Secretaria Municipal da Saúde por Subprefeitura do Município de São Paulo”192, de Julho de 2011, existem na Subprefeitura de Itaquera 01 Ambulatório de Especialidade, 10 Assistências Médica Ambulatorial, 01 Centro de Atenção Psicossocial álcool e drogas, 01 Centro de Atenção Psicossocial Adulto, 01 Centro de Atenção Psicossocial Infantil, 01 Centro de Convivência e Cooperativa, 01 Centro de Especialidades Odontológicas, 01 Hospital Municipal, 02 Núcleos Integrados de Reabilitação, 01 Núcleo Integrado de Saúde Auditiva, 01 Serviço de Atendimento Especializado em DST/AIDS e 23 Unidades Básicas de Saúde. Em termos de educação formal, Itaquera conta com 01 Universidade, 21 Centros de Educação Infantil Direto, 28 Centros de Educação Infantil Indireto, 03 Centros Educacionais Unificados – CEI, 3 Centros Educacionais Unificados – EMEF, 4 Centros Educacionais Unificados – EMEI, 01 Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos, 74 Creches Particulares Conveniadas, 39 Escolas Municipais de Educação Infantil, 28 Escolas Municipais de Ensino Fundamental e 42 Movimentos de Alfabetização193, 92 Escolas Estaduais de Ensino Médio194, 01 Escola Técnica da Capital - ETEC - e em 2012 terá a inauguração da Faculdade de Tecnologia – Fatec - conforme previsão do Governador do Estado dr. Geraldo Alkmim, em boletim oficial e divulgado na mídia. Na Página da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano da Prefeitura de São Paulo, link: Rede Hídrica Ambiental – Caminhos Verdes Parques Lineares, no quadro “Plano Regional Estratégico da Subprefeitura Itaquera – PRE – IQ, QUADRO 01- do Livro XXVII - Anexo à Lei nº 13.885, de 25 de agosto de 2004”195, encontramos a seguinte proposta, com conclusão para 2006: 189

http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/subprefeituras/subprefeituras/dados_demograficos/index.php?p=12758. Marcel de Moraes Pedroso. Desenvolvimento Humano no Município de São Paulo. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo (2003) 191 Índice de Desenvolvimento Humano. 192 Relação das Unidades da Secretaria Municipal da Saúde por Subprefeitura Fonte: MS/SAS/CNES – SMS/Atenção Básica/CEInfo – Novembro de 2010. PMSP/SMS/CEInfo 193 Pagina Eletrônica da Diretoria Regional de Educação de Itaquera. <http://eolgerenciamento.prefeitura.sp.gov.br/frmgerencial/NumerosCoordenadoria.aspx?Cod=108700> Acessado em 08/2011. 194 Escolas Estaduais DER Leste 1. <http://deleste1.edunet.sp.gov.br/escolas_bombril/brombril_estaduais_derleste1.html> Acessado em 08/2011. 195 http://ww2.prefeitura.sp.gov.br/arquivos/secretarias/planejamento/zoneamento/0001/parte_II/itaquera/589%20QUADRO%2001 %20do%20Livro%20XXVII.pdf. Acessado em 03/2011. 190

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“Revitalização das margens do Rio Verde com destinação de áreas verdes para uso da comunidade, parque com equipamentos, criação de uma ciclovia que acompanha o perímetro do parque. Utilização do viário existente em sua maioria com melhorias para comportar a nova proposta viária da Via Parque Rio Verde. Perímetro: Distrito Parque do Carmo - Av. Itaquera, Av. Dr. Francisco Munhoz Filho, Rua Francisco Jorge da Silva, Rua Arcádia Paulistana, Av. Afonso de Sampaio e Souza, Rua Harry Dannenberg, delimitando a Via Parque Rio Verde, até o ponto inicial.” A Figura 224 mostra que, até 2010, nada foi feito, figurando mais uma vez o descaso e abandono da região, ao qual nos referimos anteriormente. O mesmo se aplica ao Conjunto Cultural do Planetário do Carmo, uma maravilhosa obra de grande impacto cultural para todas as idades. Sua construção começou em 2002 e, em 2005 foi inaugurado com uma frequência de “20 mil visitantes por mês”, segundo artigo publicado no site da “Folha on-line de 14/9/2010196”. Contudo, depois de menos de dois anos de funcionamento, o Planetário fechou para reforma, e assim permanece, até que os responsáveis burocratas decidam se a região Leste merece-o ou não. Caracterização Oficial da Vila Santana A região geográfica onde está inserida a Vila Santana é chamada de UIT197 252 Rio Verde, e apresenta as seguintes características: Está vinculada a Subprefeitura de Itaquera, possui os limites referenciais em Norte: Avenida do Imperador, Sul: Avenida José Pinheiro Borges, Oeste: Avenida Jacu-Pêssego/Nova Trabalhadores, Leste: Avenida José Pinheiro Borges, Rua Rio Bom e Avenida Pires do Rio. Segundo o Censo de 2008, possui uma população estimada em 93.825 habitantes, ou seja, 17,86% em relação ao distrito de Itaquera. Possui 9.812 domicílios (Censo 2000), ou 18,23% em relação ao Distrito de Itaquera, que é de 53.832 domicílios. Sua área esta inserida em uma extensão de 2,382km², compreendendo 16,15% da área total do Bairro, e sua densidade demográfica é de 15.109 hab./km2. Estão instalados 269 estabelecimentos, contribuindo com apenas 18,37% do total do Bairro, e nestes contam-se 40 de carácter Industrial, ou 19,51%, 155 dedicados ao Comércio, ou 20,75% e 74 de Serviços, ou 14,45%. Existem cadastrados na Vila Santana 5.611 empregos formais, o que compreende 33,36% do total. Destes 843 são na Industria, 808 no Comércio e 3.960 nos Serviços. A ocupação de suas áreas é caracterizada como bastante intensa, com predomínio horizontal e destinada a população de baixa renda. No item “Equipamentos Urbanos Referênciais”, (Cultura, esportes, turismo e lazer) aparece somente a “Gilser Grêmio Esportivo e Recreativo”, não fazendo nenhuma referência à “Quadra Poliesportiva Fé e Alegria”, mantida pela Paróquia de Sant’Ana. Em termos de Educação cita a Universidade Camilo Castelo Branco – Unicastelo; o Liceu Camilo Castelo Branco; as Escolas Estaduais “Edson Luiz Ribeiro Luzia”, “Profª Helena Lombardi Braga” e a “Deputado Cássio Ciampolini”. Como uso especial está 196

<http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/798326-planetario-do-carmo-em-sao-paulo-reabre-sem-projetor.shtml> Acessado em 09/2011 197 Unidades de Informações Territorializadas. Publicação: Emplasa Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano SA (2008). São Paulo / SP

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registrada a Igreja Evangélica Quadrangular, a Igreja Presbiteriana Coreana e a Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil para Cristo. Uma curiosidade passível de registro é relativo ao fato de que quando ouvimos os líderes comunitários dizerem, que os órgãos oficiais publicam dados sobre a região Leste sem as devidas e totais informações, achamos que estão exagerando. Todavia uma constatação grave foi observada nesta caracterização, especialmente da UIT que está inserida a Vila Santana. Não consta no item 6, subítem “Uso especial” a Igreja de Sant’Ana e a Creche Fé e Alegria, como obra social, vinculada a Prefeitura de São Paulo, existente desde 1987. A seguir são mostradas algumas figuras de pontos variados de Itaquera.

Figura 224 – Visão da Av. Itaquera, lado esquerdo, sentido Centro-Bairro, antigo Campo do Democrático, futuro Parque Linear. 2010.

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Figura 225 – Cruzamento das Ruas Padre Viegas de Meneses e Lagoa Salgada.2010.

Figura 226 – Vista da Igreja Sant’Ana a partir do cruzamento das Ruas Jataizinho e Carolina Fonseca. 2010.

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Figura 227 – Vista atual da Figura 45. 2010.

Figura 228 – Vista da Rua Francisco Rodrigues Seckler, sentido Sul. 2010. 323


Figura 229 – Centro de Itaquera, local exato onde estava erguida a Estação de trêm de Itaquera. Vista da Radial Leste, sentido Centro. 2010.

Figura 230 – Centro de Itaquera, local onde as autoridades prometem a reconstrução da réplica da antiga Estação, sede de um museu ou centro cultural. 2010. 324


Figura 231 – Vista do alto do Viaduto Jacú-Pêssego, sentido norte. Abaixo o Cruzamento das Ruas Padre Viegas de Meneses e Lagoa Salgada. 2010.

Figura 232 - Vista do alto do Viaduto Jacú-Pêssego, sentido Sul, detalhe ao campanârio da Igreja N. S. do Carmo. Abaixo o Cruzamento das Ruas Padre Viegas de Meneses e Lagoa Salgada. 2010.

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Figura 233 – Vista do alto do Viaduto Jacú-Pêssego (sentido Oeste). Abaixo o prolongamento da Av. Radial Leste (Acesso para a Av. David Domingues Ferreira) e a Rua Gregório Ramalho. 2010.

Figura 234 – Vista do alto do Viaduto Jacú-Pêssego (sentido Oeste). Abaixo o prolongamento da Av. Radial Leste e a Rua Lagoa Salgada. 2010.

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Figura 235 – Área do Metrô de Itaquera, ao fundo o prédio da Fatec-Itaquera. 2011

Figura 236 – Prédio do antigo Grupo Escolar e Subprefeitura de Itaquera (23º32’12,70” S e 46º27’16,28” O). 2011.

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Itaquera hoje, como ontem, mantêm suas tradições e atividades culturais que sempre marcaram sua importância na história de nossa cidade e de nosso país. Somente para citar algumas atividades contemporâneas, ainda temos as quermesses paroquiais, tão característico de nossa gente; as festas cívicas, como as comemorações do dia da pátria, onde vemos a participação massiva das fanfarras e desfiles cívicos de escolas e entidades da região; a festa das cerejeiras em flôr no Parque do Carmo, que enchem os olhos daqueles que reservam um tempo de seu dia, para estender uma toalha no gramado sob a sombra de uma cerejeira, e apreciar a beleza e generosidade de nossa terra. Sem contar na área da educação, com a construção de Fatecs, Etecs e Universidades particulares e públicas, como a futura Universidade Federal, além dos CEU’s e Centros de Convivência, etc, enchendo nosso coração de fé e esperança no futuro próximo. Mas resaltamos que ainda falta uma coisa, uma instituição que recolha, preserve e exponha o acervo de nosso patrimônio local, que por falta de espaço nas residências, podem estar em risco de extinção. Falamos de um Museu, quesito que, segundo nossos estudos, vem sendo solicitado desde 1982, principalmente pela sra. Magdalena Pellicci Monteiro, que sugeriu a construção de uma “Casa de Memória” no Parque do Carmo.

Figura 237 – Panfleto de divulgação da tradicional festa anual do Kodomo-no-Sono, realizada na Colônia Japonesa de Itaquera. 2011. Arquivo Família Sugaya. 328


Capítulo 15 Segurança Até a década de 1960, a principal preocupação em termos de segurança pública em Itaquera envolvia ladrões de criação para provimento doméstico (galinha, marrecos, porcos e cavalos), roupas que eram estendidas em varais nos quintais das casas para secar ao sol, arruaceiros e, a presença de Ciganos que periodicamente montavam seus luxuosos e enormes acampamentos nas terras compreendidas hoje entre as ruas Bento Vieira de Castro, Rua Francisco Rodrigues Seckler e Carolina Fonseca, cuja fama era de roubar víveres e crianças, conforme relatos orais dos moradores mais velhos, que diziam utilizar deste artifício para impedir que as crianças saíssem na rua desacompanhadas. “Na noite de 4 para 5 do corrente, um grupo de individuos, prelambulando pelas ruas do bairro, promoviam arruaças, desordens e outros desatinos. Chegando o facto ao conhecimento da autoridade, esta orientou o comparecimento dos arruaceiros ao posto policial, e com surpresa verificou que entre os desordeiros encontrava-se o soldado Mario Bastos, vestido civilmente e aqui destacado para serviço policial. Diante deste facto, grave attestado do comportamento do tal soldado, espera-se que a autoridade o faça recolher ao seu batalhão, pois destes mantenedores da ordem aqui não precisamos”198. Em 1924 é nomeado como 1º Suplente de Sub-delegado o advogado dr. Bento Vieira de Campos (ver Anexo 15), designado para a região de Itaquera 199. Quatro anos depois é promovido para Sub-delegado da 7ª Circumscripção da Capital (Itaquera), conforme publicação no Diário Oficial e reproduzida na Figura 238200. Em sua homenagem, a população de Itaquera resolveu denominar uma rua na Vila Santana com seu nome, contudo, os órgãos responsáveis erraram na grafia e cadastraramno como “Bento Vieira de Castro”, necessitando de uma correção justa. Em meados de 1955, chefiava a segurança do bairro o delegado dr. Faysano, que nestes tempos pouco trabalho tinha e era difícil encontrar um preso detido nas celas. O que quebrava a monotonia do local era a detenção de um ou outro ébrio, casos de brigas de vizinhos ou casais, entre outros. Certo dia, acontecia concomitantemente uma partida de futebol no campo do E. C. Amor e Glória e no campo da Sociedade Esportiva Elite Itaquerense, campos separados por uma faixa de barranco, onde ficavam sentados os torcedores que dividiam suas atenções entre as duas partidas. Dado momento, surgiu uma briga, seguida de vários gritos e correria, o que não era habitual, provocando os olhares de todos os presentes e a paralisação dos jogos nos dois campos. Um dos torcedores, de nome Doca, que estava sentado no barranco, desentendeu-se com alguns torcedores e ele, que era muito forte e robusto, fora atingido por um punhal, profundamente cravado em suas costas. Neste dia o delegado e seu pequeno destacamento tiveram bastante trabalho. A vítima não veio a falecer, mas perdeu um dos pulmões, vivendo ainda por muitos anos e administrando seu bar. Um outro caso que suplantou o “Caso Docas”, como ficou conhecido, aconteceu durante uma partida de futebol entre a “Vila Santana” e a turma do “Campinho da Jornal “A Verdade”, nº13, junho de 1927 http://www.jusbrasil.com.br/diarios/3797764/dosp-diario-oficial-10-02-1924-pg-1247 200 http://www.jusbrasil.com.br/diarios/3845242/dosp-diario-oficial-11-07-1928-pg-5253/pdf 198 199

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Padaria”, no campo velho da S. E. Elite Itaquerense. Uma partida disputadíssima, com o placar de 4x2 para a Vila Santana, o juiz apita falta cometida a favor do Vila Santana e enquanto a barreira estava sendo posicionada frente ao gol do Luiz, que segundo o depoente deste episódio era um ótimo e promissor goleiro, até mesmo visado pelo São Paulo F.C, um destacamento de três soldados da força policial se aproximaram e rapidamente seguraram o goleiro, que tinha fama de maconheiro 201, pegando-o totalmente distraído. Muito tempo depois é que vieram a saber que ele havia roubado, assassinado e ateado fogo em um homem, desconhecido na região. Amargou anos de reclusão, maldizendo a distração de ter esquecido junto ao cadáver a caixa de fósforos com seu nome, que era um costume que ele tinha, colocar seu nome ou apelido nas caixas de fósforo e, assim evitar que outros usuários as furtassem.

Figura 238 – Diário Oficial dos Estados Unidos do Brasil, caderno do Estado de São Paulo, de 1928, nomeando como sub-delegado de Itaquera dr. Bento Vieira de Campos.

201

Maconheiro é um usuário do cigarro feito com folhas de maconha, cujos componentes estão substâncias psicotrópicas que levam a dependência química. Antigamente era evitada sua companhia por terem fama de celerados. N.A.

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Capítulo 16 Imprensa Itaquera sempre foi muito bem servida de imprensa local, seja falada ou escrita, cujos editores responsáveis destinavam, e destinam, em suas páginas reais ou virtuais, concebidas por prensas, bico de pena, ondas de rádio e internet, informações políticas e sociais da região e do mundo, efemérides, diversão, cultura, etc. Em 1926 os srs. F. Arantes Machado e Sebastião Medeiros lançam o semanário “A Verdade”, cuja redação estava situada na Rua Coronel Francisco Rodrigues Seckler.

Figura 239 – Frontispício do 2º número do Jornal “A Verdade”, de 1926. Arquivo Amaury Roldan Pereira.

Figura 240 – Notícia vinculada no Jornal “A Verdade” nº 13, 12 de Junho de 1927. Arquivo Amaury Roldan Pereira. 331


Este jornal circulou com este nome até 1931, quando mudou para “O Suburbano”, sob a direção do sr. J. P. Maraccini, agora editado na Rua do Carmo.

Figura 241 – Frontispício do 1º número do Jornal “O Suburbano”, de 1931. Arquivo Amaury Roldan Pereira.

Figura 242 – Notícia vinculada no Jornal “O Suburbano” nº 9, Julho de 1931. Arquivo Amaury Roldan Pereira. Em 1935 aparece o “Itaquera-Jornal”, sob a direção de J. Costa Motta, que devido a falta de outros exemplares ou informações, não pudemos identificar sua duração.

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Figura 243 – Frontispício do 1º número do Jornal “Itaquera-Jornal”, de 1935. Arquivo dr. Washington Mendonça.

Figura 244 – Nota vinculada no Jornal “Itaquera -Jornal” nº 1, 03 de Fevereiro de 1935. Arquivo dr. Washington Mendonça. Infelizmente não temos conhecimento de outros jornais que circularam na região nas décadas seguintes, contudo, no fim da década de 1970 surgiram várias empresas de grande qualidade jornalística, sendo a maioria ainda em circulação até os dias de hoje, informando e entretendo a região de Itaquera e arredores, como o Jornal “Notícias de Itaquera”, fundado em 1979 e dirigido pela sra. Lídia Paniaga, Jornal “Tal e Qual”, fundado em 1984 e dirigido pelo sr. Francisco Roldan Pereira (ver anexo 24), “Imprensa da Zona Leste”, fundado em 1987 e dirigido pelo sr. Aladim Rocha, o “Espalhaphatos”, fundado em 1988, “Jornal de Itaquera”, fundado em 1991 e dirigido pelo sr. Jovilson Carvalho, “Itaquera em Notícias”, fundado em 2000 e dirigido pela srta. Acácia Gutierrez e o jornal “Fato Paulista”, fundado em 2003 e dirigido pelo sr. Luiz Mário Romero. De todos os citados, apenas os jornais “Tal e Qual” e “Espalhaphatos” não mais circulam. 333


Figura 245 – Seleção da 1ª Página do Jornal “Imprensa da Zona Leste”, fundado em 1987. Arquivo Amaury Roldan Pereira.

Figura 246 – Seleção da 1ª Página do Jornal “Espalhaphatos”, fundado em 1988. Arquivo Amaury Roldan Pereira.

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Figura 247 – Seleção da 1ª Página do “Jornal de Itaquera”, fundado em 1991. Arquivo Amaury Roldan Pereira.

Figura 248 – Seleção da 1ª Página do Jornal “Itaquera em Notícias”, fundado em 2000. Arquivo Amaury Roldan Pereira.

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Figura 249 – Seleção da 1ª Página do Jornal “Fato Paulista”, fundado em 2003. Arquivo Amaury Roldan Pereira. Em 11 de Janeiro de 2011, entrou no ar a Rádio Comunitária Itaquera (FM 87,5), autorizada pelo Ministério das Comunicações com o Prefixo ZYU 916, sob a responsabilidade do jornalista sr. Paulo Augusto Ferraz Simões. Sua grade de programação é bastante variada, com programas musicais, entrevistas e atualidades e, entre estes últimos destacam-se a “Voz da Comunidade” (domingo às 9hs), “Itaquera Empreende” (segunda à sexta às 18hs), “Revista Itaquera” (sábado às 18hs) e “Itaquera, Bola da Vez” (segunda à sexta às 21hs). Na internet temos as páginas <http://www.encontraitaquera.com.br/> e <http://www.itaquera.com.br/>, que trazem importantes informações sobre comércio e serviços encontrados no Bairro; a página da Prefeitura Municipal de São Paulo com o link: http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/subprefeituras/itaquera/>, sobre as atividades da Subprefeitura de Itaquera, entre outros, que aparecem as centenas quando digitamos “Itaquera” ou “Parque do Carmo” em um site de busca.

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Capítulo 17 Escudo de Armas do Distrito de Itaquera e da Vila Santana202.

Figura 250 - Escudo de Armas do Bairro de Itaquera Memorial Sobre um manto de arminho, com as cores nacionais e dois cetros cruzados com o orbe em ouro, repousa o escudo de armas do distrito de Itaquera formado pelos seguintes elementos: 5 escudetes distribuídos em seu corpo, onde cada cor, representa um continente, representando a população que forma Itaquera. Chefe, em esmalte blau onde em seu Cantão destro e sinistro está o sol e a lua, respectivamente, que indicam que o brasão é considerado com força e poder permanentes, de dia e noite, para todo o sempre. Indica ainda que esta sujeito a um poder mais alto, celestial. No alto, um escudete em ouro com linhas onduladas cravadas em prata e blau, representando os rios que cortam a região Sobre o campo em ouro, no Flanco destro, assenta um escudete blau com um castelo de pedra em ouro que representa as primeiras fundações de Itaquera No coração ou centro do escudo, um escudete em gules, representando as vitórias alcançadas pela nossa gente com uma árvore em ouro, representando as nossas matas e florestas locais. 202

No anexo 25 estão apresentados os Escudos de Armas dos Distritos de José Bonifácio (Fig. 264); Cidade Lider (Fig. 265) e, Parque do Carmo (Fig. 266), onde junto com o Distrito de Itaquera, formam a área urbana administrada pela Subprefeitura de Itaquera.

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No Flanco esquerdo, um escudete em sinopla, e um cruzeiro em ouro, ambos representando a fé em Deus. Contra chefe em prata com um escudete em sable, representando firmeza e obediência, com um leão rampante em ouro, que representa a nobreza, a constância e o poder. Encimando o Brasão, uma coroa mural em prata de 4 torres, representando a condição de Bairro ou distrito de Itaquera. Em listel de prata, livre no escudo, inscreve-se, em ouro, a legenda Itaquera, no centro.

Figura 251 - Escudo de Armas da Vila Santana. Memorial Sobre um resplendor em ouro, repousa o escudo de armas da Vila Sant’Anna com os seguintes elementos: No Chefe, em seu Cantão destro sobre campo em ouro se assenta linhas onduladas, cravadas em sable e blau, representando os rios que cortam a região. Em sinistro sobre um campo em prata, se assenta um cruzeiro em blau que representa a lealdade e a fé sobre um suporte em gules, que representa a chama viva da caridade, inflamada pelo Divino Espírito Santo e o conjunto simboliza a Igreja de Vila Santana, primeira Igreja construída em solo Itaquerense. No Contrachefe destro, em campo de prata, um castelo aberto de pedra, em Sépia, representando a Casa Pintada, marco de fundação da Vila Santana. No Contrachefe sinistro, em campo de ouro, um escudete com fundo em blau com cinco estrelas, quatro em prata e uma em ouro, representando esta última o posicionamento geográfico da Vila Santana e o conjunto, a Constelação do Cruzeiro do Sul. Como divisor das partes, uma Cruz da Ordem de Cristo, simbolizando ao mesmo tempo fé e memória na ascendência Lusitana, onde com a Cruz da Ordem de Cristo, o Brasil foi descoberto e os sertões foram desbravados pelas entradas e bandeiras. 338


Encimando o Brasão, uma coroa mural em prata, de 3 torres, representando a condição de Vila. Em listel blau, atada em uma espada em prata com punho em ouro, simbolizando justiça, inscreve-se, em ouro, a legenda Vila Sant’Anna, no centro, e ainda as expressões 1644, na extremidade destra, e 1912, na sinistra, representando a primeira a data de sua criação e a segunda a data de seu loteamento. Estes Brasões de Armas, que representam o bairro de Itaquera e a Vila Santana, São Paulo-SP/Brasil, foram idealizados e constituídos dentro das normas internacionais da heráldica, por nossa pessoa, e oferecido às Gentes de Itaquera como um humilde tributo de gratidão à minha terra amada.

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Capítulo 18 Monumento aos Desbravadores Com vistas às comemorações do 1º Centenário do loteamento da Vila Santana em 28 de Junho de 2012, dos seus 370 anos de povoamento em 2014 e, do 1º Centenário da Igreja de Sant’Ana em 2018, concebemos a construção de um memorial que marca tão solenes datas. a) Grã-Esfera Armilar dos desbravadores

Figura 252 – Monumento aos Desbravadores de Itaquera

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ANEXOS

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Anexo 1

Anexo 1 – Seleção da Planta de Itaquera (Setor 114), do Departamento de rendas imobiliárias da PMSP. 1943. Arquivo Família Rivas.

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Anexo 2

Anexo 2 – Seleção da Planta de Itaquera (Setor 114), do Departamento de rendas imobiliárias da PMSP. 1943. Arquivo Família Rivas.

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Anexo 3

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Anexo 3 – Transcrição da Venda do terreno de cento e noventa e cinco mil e duzentos metros quadrados, de Beraldo Marcondes de Abreu, representado por seu procurador Francisco Ignácio Xavier de Assis Moura, para Francisco Rodrigues Seckler, por Dois Contos e oitocentos mil Réis (equivalente à R$140.800,00), no ano de 1912, pela razão de R$0,67/m2.

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Anexo 4

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Anexo 4 – Transcrição da Venda do terreno de cento e noventa e cinco mil e duzentos metros quadrados, com averbação feita em 1914 corrigindo a dimensão das terras vendidas para duzentos e onze mil e duzentos metros quadrados, de Beraldo Marcondes de Abreu para Francisco Rodrigues Seckler.

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Anexo 5

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Anexo 5 – Transcrição da Venda do terreno de sessenta e cinco mil e setecentos metros quadrados, de Matheus Falcone para Francisco Rodrigues Seckler, por quatro contos de Réis (Equivalente à R$204.000,00), em 1917, pela razão de R$3,11/m2, aproximadamente um fator 5 vezes maior.

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Anexo 6

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Anexo 7

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Anexo 8

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Anexo 9

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Anexo 10

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Anexo 11

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Anexo 12

Anexo 12 – Trecho de Escritura de venda de terreno de 500 m2 entre Francisco Rodrigues Seckler e Miguel Navarro Martinez no ano de 1920, por cento e cinquenta mil réis (equivalente a R$7.650,00), pela razão de R$15,3/m2. 360


Anexo 13

Anexo 13 – Planta da propriedade, composta pelas três glebas adquiridas pelo Coronel Seckler, já divididas em lotes. 1918. Arquivo Família Rivas. 361


Anexo 14 Coronel Francisco Rodrigues Seckler

Figura 253 - Coronel Francisco Rodrigues Seckler, aos 53 anos. Patrimônio da sra. Vera Helena Seckler Tavares de Lima, Presidente do Instituto Cultural e Histórico de Mongaguá. Em 1812, nasce o patriarca da Família Seckler, Henrich Seckler em Araçoiaba da Serra e em 1831 casa-se com Maria Walter, também nascida em 1812 na mesma cidade. Deste casamento nascem Maria Seckler (1832), Marianna Seckler (1838), Luiz Seckler (?) e Antônio Seckler (?). Antônio Seckler casa-se com Maria Antonia Rodrigues, aos 9 de Setembro de 1865, natural de Porto Feliz, São Paulo, Brasil, onde se fixam como agricultores em um sítio. Deste casamento nascem Anna Seckler (1867), Monsenhor José Rodrigues Seckler (1868), Cândida Maria Seckler (1870), Antônio Seckler (?), Coronel Francisco Rodrigues Seckler (1880), Augusto Seckler (?), Benedicta Seckler (1882) e Joaquim Seckler (?). Em 09 de Maio de 1908, o sr. Francisco Rodrigues Seckler casa-se com a sra. Brasilia Teixeira Seckler na Igreja de N. S. da Aparecida do Norte, e nascem, José Teixeira Seckler (1909), Maria Seckler Pucca, Maria de Lourdes Seckler Fillipine e Anna Teixeira Seckler. Em 1909 adquire terras no bairro paulista de São João Clímaco, divisa entre as Paróquias de São Joaquim (Cambuci) e a Matriz de São Bernardo do Campo, do dr. João Mendes de Almeida Júnior, cujas terras também compreendiam uma Capela, construída pelo dr. João Mendes em 1892. Com a aquisição das terras, a tutela da Capela passa também à família Seckler, que a administra até 1951, quando o coronel doou parte da chácara, incluindo a agora 362


Paróquia de São João Clímaco (com área de 2.000 m²), para a Cúria Diocesana de São Paulo. Em 1912, contando apenas 32 anos, chega em Itaquera e adquire uma grande extensão de terra de Beraldo Marcondes de Abreu, que se faz representar pelo juiz Francisco Ignácio Xavier de Assis Moura, formando aí a futura Vila Santana, nome devido a presença da capela cujo Orago é dedicado à Santa de mesmo nome. Em 1914 ruma para a cidade de São Bernardo do Campo e funda o bairro Paulicéia, antes denominada Sítio dos Alves, situada no fim da “Estrada Alves” com acesso pela Estrada do Sacramento e do Cavalheiro a partir do Bairro dos Meninos. Nesta mesma época divide a área em quarteirões de 40.000 m2 que se constituía em quatro quadras de 10.000 m2, iniciando as vendas em 1918.

Figura 254 – Propaganda imobiliária dos loteamentos do Coronel Seckler. Jornal “A verdade” nº 3, Outubro de 1926. Arquivo Amaury Roldan Pereira

Em 1915, ano que já aparece com a patente de Coronel da Guarda Nacional, obtida graças à sua atuação como grande proprietário de terras, chega em Mongaguá na pequena estação ferroviária que hoje leva o seu nome, por indicação do então deputado estadual André Franco Montoro. Lá adquire as Fazendas Promissão e Rondônia, iniciando um grande loteamento e funda o Bairro Oceanópolis. A pedido de sua esposa dona Brasília Teixeira Seckler, construiu em 1922 a 1ª Capela da Vila dedicada à Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, e a 1ª sala de alfabetização no terreno em que hoje está instalada a Casa da Memória de Mongaguá.

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Figura 255 – Edifício construído pelo Coronel Seckler, em 1920 para abrigar a primeira escola de alfabetização em Mongaguá. Arquivo Instituto Histórico e Cultural de Mongaguá. Foi Presidente da Associação dos Proprietários da Praia Grande, onde comprou o 1º ônibus que fazia o percurso Santos - Praia Grande - Itanhaém. E foi um dos incentivadores para a construção da estrada Padre Manoel de Nóbrega.

Figura 256- 1º ônibus da companhia de transportes do Cel. Seckler (2º da direita para esquerda). 1920. Arquivo Instituto Histórico e Cultural de Mongaguá. Em 1918 inicia a construção da Igreja de Sant’Ana, em substituição à Capela erigida em 1820 e reformada em meados da década de 1855, e que desde então aparece em todos os impressos como a Igreja Matriz de Itaquera. 364


―Festa de Sant’Anna Realiza-se hoje, na matriz de Sant’Anna, a festa de sua padroeira, cujo programma, será o seguinte: Missa com communhão geral, as oito horas. Bençam das imagens, do S. Coração de Jesus, offertada pela senhorita Zezê Rebello; Santa Theresinha, offerecida pela Exma. Senhora d. Sylvia Jobim. Bençam de um Estandarte, offerecido ao Apostolado da Oração, pela senhorita Maria Teixeira Seckler. Missa Solemne as 10 horas e as 13 leilão de prendas. As 15 horas sahirá a procissão, percorrendo as ruas principaes, e em seguida ao recolhimento desta, o sermão pregado pelo Rvmo. Padre Alfredo Piquet. A noite haverá fógos, musica, leilão, kermesse e varias diversões profanas‖ 203. " Realiza-se hoje, aqui, a festa vicentina da conferência de Sant'Anna, para comemorar o 6º anniversario de sua fundação e o recebimento de sua carta de aggregação ao Conselho Geral de Paris. O programma é o seguinte: As 7,30, na capella de sua Padroeira, missa e comunhão geral dos confrades e pobres, seguindose o café e uma reunião extraordinária da conferencia". Em 1927, com o apoio político do Governador Carlos de Campos e do Prefeito Pires do Rio, é reeleito Subprefeito de Itaquera. Com a morte de Carlos de Campos em 27 de Abril de 1927 por embolia cerebral, e a renúncia do vice-governador, o coronel Fernando Prestes de Albuquerque, novas eleições são convocadas (Fig. 179) e Júlio Prestes foi eleito presidente do estado de São Paulo (Fig. 180), assumindo o cargo em 14 de Julho de 1927. Neste mesmo ano, funda e patrocina várias entidades esportivas e cívico-religiosas em Itaquera, como o Club Itaquerense e o Grêmio de Moços Católicos de Itaquera. Com injeção de fundos, a fim de salvar a Faculdade de Farmácia e odontologia de São Paulo, é indicado seu diretor em 1927.

Figura 257 – Nota de fundação do Club Itaquerense. Jornal “A verdade” nº 8, Fevereiro de 1927. Arquivo Amaury Roldan Pereira. 203

Jornal “A verdade”, ano I, nº 2, Outubro de 1926

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Figura 258 – Notas de fundação do Grêmio de Moços Católicos Itaquerense. Jornal “A verdade” nº 2 e nº 3, respectivamente, Outubro de 1926. Arquivo Amaury Roldan Pereira.

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Figura 259 – Nota de Patrocinadores do Grêmio de Moços Católicos Itaquerense. Jornal “A verdade” nº 2, Outubro de 1926. Arquivo Amaury Roldan Pereira.

Figura 260 – Nota informando o patronato à Faculdade de Farmácia e Odontologia de São Paulo. Jornal “A verdade” nº 10, Abril de 1927. Arquivo Amaury Roldan Pereira. 367


―Faculdade de Pharmacia e Odontologia de S. Paulo Conforme a nossa noticia de 24 de Abril do corrente anno, foi o coronel pharmaceutico Francisco Rodrigues Seckler, eleito director da Faculdade de Pharmacia e Odontologia de S. Paulo, e sub-director o cirurgião-dentista Sr. Alberto Caldas. Assim, o povo itaquerense está de parabéns por mais esta distincção dispensada ao presidente do Directorio Politico e sub-prefeito de Itaquéra‖204. Contudo, o Ministério Público rescinde o contrato, segundo publicação no Diário Oficial da União, paginas 13 a 16, Seção 1, de 14 de Agosto de 1928. Em 23 de Fevereiro de 1927, é oferecida uma festa de aniversário e de reeleição ao cargo de Subprefeito de Itaquera, conforme artigo publicado no Jornal “A Verdade”, de 1927 e em documento cedido pela sra. Vera Seckler, neta do Coronel (Fig. 178 e 261).

Figura 261 – Nota publicada no Jornal “A verdade”, de Fevereiro de 1927, sobre a festividade da passagem natalícia e de reeleição do Coronel Seckler como Subprefeito de Itaquera e Lageado. 204

Jornal “A verdade”, ano I, nº13, Junho de 1927

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Anexo 15 Dr. Bento Vieira de Campos205 “N. da Redacção. ―O Suburbano‖, que, com a opinião publica, era devedor ao Sr. Bento Vieira de Campos, de uma homenagem, pelos seus relevantes serviços prestados á população itaquerense, e achando-a opportuna, ora que convergem para S.S. todas as attenções, pezarosas e gratas, o faz, certo de que, nem fugindo ao seu programma, nem indo de encontro á opinião publica e aos sentimentos delicados da sua alma enluctada, cumpre um dever, que se apressa em realizar, embora na modestia de suas possibilidades intellectuaes e materiaes. S.S., é natural de Itú onde nasceu em Julho de 1881. Filho do advogado sr. João Vieira de Campos e d. Maria Rita Vieira. Permaneceu em sua terra natal ate a idade de 21 annos, tendo cursado varios gymnasios do interior do Estado. Começou sua vida publica como ajudante habilitado no 1º Tabellião de Sorocaba, exercendo, por essa occasião varios cargos publicos. Foi official do Registro de Hypothecas de S. Cruz do Rio Pardo, durante vários annos. Dalli veiu para S. Paulo, dedicando-se ao commercio, chefiando diversos escriptorios de firmas importantes. Vindo para Itaquéra em 1920, assumiu a Sub-Delegacia local em 1923, a convite do Dr. Arthur Ribeiro206, quando já exercia o cargo de 1.º Supplente. E dada a dignidade e justiça de seus actos, á sua grande dedicação pelo povo de Itaquéra, foi mantido depois da revolução de 24 e pelos Governos revolucionarios, após a victoria da Revolução. Durante a revolução de 1924, estabeleceu um serviço de soccorros publicos, dividido em duas secções: de alojamento e de abastecimento, em que fez heroicos esforços no sentido de abastecer a população e cuidar de outras providencias necessarias e urgentes. Espirito recto e leal, procurou sempre evitar, com o seu prestigio, quaesquer perseguições contra as famílias dos revolucionarios aqui domiciliados. Eis em syntese a vida publica do Sr. Bento Vieira de Campos. A confiança que merece ao Governo actual, como mereceu ao governo passado, attesta bem as qualidades de S. S., postas a prova muitas vezes, e, por tal ainda mais revigoradas, cada vez mais nobres, cada vez mais sympathicas. Pode S. S. ter certeza de que neste seu Povo, não terão encontrado terreno safaro as bôas sementes lançadas. Ha onze annos que elle, (este Povo), por entre embates politicos e sociais, sente a sombra benefica de sua protecção. Ha onze annos que se vem gravando nos corações itaquerenses o nome, mil vezes abençoado, de Bento Vieira de Campos, como um exemplo protector de justiça, e bondade, caracter e tolerancia, trabalho e dedicação. Bem haja, pois, S. S., que sabe despertar gratidões e sabe distribuir Justiça. Nesta pequenissima homenagem, a que, por modéstia e solicitação de S. S., não damos o realce que merece, vae uma simplissima demonstração de quanto ―O Suburbano‖ o aprecia e admira, quer como Autoridade, quer como cavalheiro, quer como cidadão”.

Artigo em homenagem ao delegado de Itaquera dr. Bento Vieira de Campos publicada no jornal “O Suburbano” nº13 – Setembro de 1931. Arquivo Amaury Roldan Pereira. 206 O Dr. Arthur Ribeiro era o Ministro do Supremo Tribunal Federal da época. 205

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Anexo 16 Augusto Carlos Bauman207 “(…) Prestamos hoje, em nosso primeiro numero, uma homenagem de honra e de gratidão ao sr. Augusto Carlos Bauman, que foi um dos maiores, sinão o maior, dos impulsionadores do progresso de Itaquéra. Fallecido ha dois annos, ainda vive indelevelmente na memoria e no coração daquelles que conheceram a sua actividade em favor do povo desta terra. Foi um benemérito e um luctador, empregando capitaes sem visar lucros, defendendo na politica a creação do districto de paz, trazendo amigos valiosos para collaborarem com elle e deixando traços de energia e de bondade no patrimonio e no archivo legados á povoação progressiva. Que o seu nome respeitavel se grave no coração de todos e o brilho de sua vida devotada ao bem commum seja um estimulo de trabalho pela colletividade”. Anexo 17 Emilio Cialone208 ―CONDECORAÇÂO O Sr. Emilio Cialone, aqui residente, acaba de ser condecorado por S. M. Rei da Italia, com a ―Cruz do Trabalho‖, (Croce al Merito del Lavoro). Durante a grande Guerra, o Sr. Cialone trabalhou, com a competência e as revelações de um fino artista, na ―Aula dos Deputados‖ e na ―Zecca‖, duas instituições de grande destaque e mérito na Italia. O Brasil, e destacadamente Itaquéra, também devem ao Sr. Cialone vários trabalhos de arte. Os desenhos artísticos da nossa Matriz foi o sr. Cialone que fez. É um artista, que tem a Italia como primeira pátria e o Brasil como segunda, tendo aqui preso o coração, pelos laços da gratidão e da familia. Razão porque, depois de alguns annos de permanencia na Europa, as saudades o fizeram voltar á sua segunda pátria, onde, actualmente, desenvolve sua actividade artistica e operosa, na fabricação de finíssimos violinos, em que é mestre consumado (…)”.

Artigo em homenagem à Augusto Carlos Bauman publicada no jornal “O Suburbano”, nº1 de 1931. Arquivo Amaury Roldan Pereira. 208 Artigo em homenagem ao ítalo-itaquerense Emilio Cialone, condecorado por S. M. Vitor Emanuel III. Jornal “O Suburbano” nº26, Março de 1932. Arquivo Amaury Roldan Pereira. 207

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Anexo 18 Sabbado D’Angelo209

“(…) Sabbado D’Angelo, começou… com a simples claridade da sua chamma interior. Quando veio da Italia, trazia apenas, o sangue activo da sua raça, mocidade robusta, imaginação tensa e clara. Bastaram vinte e poucos annos para se fazer o maior industrial do seu genero na America do Sul, onde com os seus 25 annos de residencia e actividade pouco vulgar, escreveu no coração dos Brasileiros um título de concidadão, pois que também elle se deixou prender á terra hospitaleira e amiga, onde só teve que semear e colher. O primeiro reclamo, ao iniciar sua industria foi o dos cigarros ―Barão‖. E com tal intelligencia o fez, que, por muito tempo, teve elle também a alcunha de ―Barão‖. O seu machinario inicial foram simples machinas manuaes, de que conserva lembrança. Hoje é proprietário de um dos maiores estabelecimentos da America do Sul, que dirige só, em contraste com os seus congeneres, de companhias organisadas, de que leva talvez, por isso, largas vantagens, e que denotam, precisamente, o seu genio verdadeiro, revelando-se no optimo organizador e administrador que ahi está. Mas, além dessa atividade quasi phenomenal, o grande industrial exerce a caridade com a mesma preoccupação com que exerce a sua industria. O que revela a outra face da sua alma.

Artigo em homenagem ao ítalo-itaquerense Sabbado D’Angelo, grande benfeitor de Itaquera. Jornal “O Suburbano” nº27, Março de 1932. Arquivo Amaury Roldan Pereira. 209

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Asylo da Divina Providencia, União Catholica Italiana, Commissão do Monumento a S. Antonio do Pary, perto de 100 afilhados, a que dá sua valiosa protecção, têm em Sabbado D’Angelo, senão o unico, o mais certo dos seus amigos e auxiliadores. Itaquéra, que, a par de outros benefícios, lhe deve a gratidão da sua preferencia, para moradia, deve orgulhar-se de o ter tambem como amigo, que já lhe fez regios presentes, como o apedregulhamento da estrada de rodagem, a reforma da igreja matriz, a construcção e embelezamento do seu palacete, que é uma obra-prima architectonica, digna de figurar ao lado do bello palácio Luiz XV que Sabbado D’Angelo tem, quasi sempre fechado, no Largo S. Paulo. (…) Sabbado D’Angelo é uma dessas forças que nascem no meio da humanidade, como os jequitibás no meio das florestas. Absorvem mais seiva, mas protegem com sua sombra”.

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Anexo 19 Francisco Alario Bergamo210

“Passa hoje a data natalícia do sr. Francisco Alario Bergamo, membro e primeiro secretario do Directorio Politico de Itaquéra e Lageado, Juiz de Paz em exercicio e cavalheiro da fina sociedade paulistana. ―A Verdade‖ rende-lhe justa e merecida homenagem, trazendo para estas columnas os exemplos de sua vida, como estimulo e caminho aos que desejam merecer a confiança e respeito de uma população inteira. É preciso que se diga logo de começo, que este jornal, deve em grande parte, sua existencia ao nosso homenageado; pois foi elle quem nos animou, offerecendo-nos o apoio moral de que precisávamos no momento em que á nossa frente surgia o desanimo. Como politico, muito já tem feito em prol deste districto, e diante da sua admirável energia e patriotismo o povo itaquerense pode ainda de S.S. muito esperar. Amigo dedicado, capaz de ir ao sacrifício em pról das nobres causas, é o Sr. Alario Bergamo possuidor de uma delicadeza captivante e senhor de um coração magnânimo, já provado em varias circumstancias e patenteado no terrível periodo da grippe, com a distribuição de grande quantidade de medicamentos, gratuitamente feito por S.S. da pharmacia que nessa época possuía. Presidente das obras da Matriz de Sant’Anna, não tem poupado esforços para em breve dar ao povo itaquerense esse inestimável melhoramento. Na sua passagem, como thesoureiro da ―Liga dos Lavradores e Proprietarios de terrenos do Municipio de S. Paulo‖, foi tambem incansavel, e a dita ―Liga‖ deve-lhe ao lado do (…trecho apagado…) nasceu a 25 de Junho de 1888, sendo filho do fazendeiro, (ja fallecido) Sr. José Nicolau Bergamo e de D. Maria Alario Bergamo, ainda hoje 210

Artigo em homenagem à Francisco Alario Bérgamo, nome no qual apresenta-se com grafia errada nas placas de logradouro. Jornal “O Suburbano” nº14, Junho de 1931. Arquivo Amaury Roldan Pereira.

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proprietaria, residente em Monte Alto, Matriculou-se no Gymnasio Cruz‖, em Rio Claro, depois de ter estudado as primeiras letras, passando mais tarde para o ―Gymnasio Macedo Soares‖, nesta capital, cocluindo seu curso gymnasial em 1909 em Pouso Alegre, Estado de Minas Gerais. De posse dos preparatorios, matriculou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, estudando pharmacia. Mais tarde, regressando para esta Capital, matriculou-se ainda na extincta ―Universidade de S. Paulo‖ cursando medicina, estudo que deixou por circunstancias inopinadas. Logo que entrou em execução a lei do serviço militar obrigatório, fez parte do primeiro corpo de voluntarios, seguindo em 1908 com o 12 batalhão de infantaria, para Lorena, onde foi graduado a primeiro sargento, sendo logo após nomeado instructor do Gymnasio de Pouso Alegre. Deixando o serviço militar regressou o Sr. Alario Bergamo a esta Capital, casando-se com a Exma. Sra. D. Joanna Stamato, ilustrada pharmaceutica, diplomada pela ―Faculdade de Pharmacia‖ de S. Paulo, filha do Sr. Raphael Stamato, inventor do conhecido ―Engenho Stamato‖ e da exma. Sra. D. Maria T. Stamato. Estabeleceu-se com pharmacia em Monte Alto, depois em Pirangy e em 1914 transferiuse definitivamente para esta Capital, estabelecendo-se à travessa da Gloria e depois á rua Conselheiro Furtado, onde a ―Pharmacia Bergamo‖ conseguio em breve uma clientela selecta devido ao escrúpulo se seu proprietário. Deixando a pharmacia (…)‖211.

211

Final do texto perdido na cópia xerográfica. N.A.

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Anexo 20 Transcrições comentadas do Primeiro Livro de Atas da Irmandade de Sant’Ana, pelo Revmo. Sr. Pe. Manoel Olavo Amarante, Pároco da Igreja de Sant’Ana. “Este Livro de atas foi aberto aos 17 de setembro de 1922 no ―recinto da Capella de Sant’Ana‖ para o registro das atas de reuniões da ―Irmandade de Sant’Ana‖. 1. Fala-se em reforma da “Capella de Sant’Ana”. No dia 17 de setembro de 1922 ―no recinto da Capella de Nossa Senhora de Sant’Ana, em Itaquera, reuniram-se‖ (Ata da Reunião realizada em 17 de setembro de 1922) um grupo de pessoas, entre estes, encontrava-se o Coronel Francisco Rodrigues Seckler (posteriormente nome dado a Rua onde hoje está localizada a Igreja de Sant’Ana), com o objetivo de criar a ―Irmandade de Sant'Ana‖ , como de fato o fizeram, conforme fonte escrita da ata deste encontro. Hoje a ―Irmandade de Sant’Ana‖ não existe mais. Não sabemos os motivos da sua extinção. Podemos intuir motivos ligados à cultura e à História, por exemplo, as irmandades de fato foram acontecimentos ocorridos no seio do catolicismo popular que refletem um momento singular da História da Igreja. Algumas, de fato, hoje permanecem vivas e fortes, embora tenham passado por adaptações aos tempos modernos. A ―Irmandade de Sant’Ana‖ nasce no intuito de ―reconstruir a Capella de Sant’Ana‖ (Ata da Reunião realizada em 17 de setembro de 1922), ou seja, o objetivo primeiro e último da Irmandade era a ―reforma‖ da Capela de Sant’Ana, como de fato, percebemos no relato da ata já mencionada. Destarte, criou-se uma ―Comissão‖ para coordenar os trabalhos da ―reconstrução da Capella de Sant’Ana‖, bem como, para fins econômicos. Nota-se na constituição desta ―Irmandade de Sant’Ana‖ a ausência total da presença feminina no corpo da mesma, bem como, na composição de sua diretoria. É uma irmandade com a presença exclusiva de homens. Isto reflete, em parte, o modelo eclesial da época e perdura por algum tempo subseqüente. A datação de reunião realizada a 17 de setembro de 1922, no intuito de debater a ―reconstrução da Capella de Sant’Ana‖, confirma, de fato, a veracidade dos testemunhos orais que apontam a afirmação de que a construção da Igreja de Sant’Ana venha a ter 100 ou mais anos, portanto, um século de existência e história. Assim, nossa Igreja hoje remonta aproximadamente à segunda metade do século XIX. 2. Ata da sessão da Comissão da Reforma da “Capella de Sant’Ana” realizada aos 07de outubro de 1922. Nesta ata tem-se um dado importante e relevante: não se fala mais em ―reconstrução‖ ou ―reforma‖, mas de ―construção da nova Igreja de Sant’Ana‖. Outros dados importantes e relevantes: a. nesta secção ocorreu à nomeação dos sócios constituintes da Irmandade e Comissão para a reforma da Igreja; b. fixação de um valor a ser creditado pelos membros mensalmente (taxa) para ajudar a Igreja: dois mil réis, sendo que àqueles que não tivessem condições poderiam ajudar com mil reis, nunca menos; c. promoção de um leilão para novembro de 1922; prestação de contas da última ―festa de Sant’Ana‖ com apresentação de documentos no valor de $Rs 704. 600 (setecentos e quatro mil e seiscentos reis), saldo líquido, realizado pelo festeiro Sr. Antônio do Amaral, membro também da referida comissão. 3. Ata da sessão da Comissão da Reforma da “Capella de Sant’Ana” realizada aos 03 de dezembro de 1922. Destacamos dois fatos importantes e relevantes para a construção da consciência histórica da Paróquia: a. leilão realizado em 05 de novembro de 1922 no qual fora arrecadado $Rs 47.300 (quarenta e sete mil e trezentos reis); b. 375


prestação de contas de um ―Livro de ouro‖, sem dizer valores, no entanto faz menção a doação de nove mil e quinhentos tijolos para a construção da Igreja Sant’Ana. 4. “Em 07 de janeiro de 1923 ocorreu no recinto da Capella de Sant’Ana uma sessão extraordinária da Irmandade de Sant’Ana”. Ocorreram as seguintes deliberações: a. pagamento no valor de $Rs 133 .600 (cento e trinta e três mil e seiscentos réis). A ―Casa Oxitrica Brazileira‖, por um trabalho de retoque no sino da Igreja que apresentava problemas de manutenção; b. prestação de contas do exercício econômico referente ao ano de 1922; c. eleição dos novos membros da ―Comissão da Irmandade de Sant’Ana‖; d. definição pelo Vigário da Capella, que não se menciona o nome, o pagamento de espórtulas de missas no valor de $rs 20.000 (vinte mil réis) a V. Revma. Sr. Frei Cornélio. 5. Ata da sessão da Comissão Reforma da “Capella de Sant’Ana” realizada em 04 de março de 1923. Elementos relevantes: a um saldo econômico de ―um conto‖, $Rs 110.900 (cento e dez mil e novecentos réis). Fala-se pela primeira vez, aqui de uma prestação de contas a toda comunidade, fixando-se resultado na porta da Igreja; b. o Sr. Pedro Vasconcellos sugeriu que iniciasse as ―obras de construção da nova Igreja de Sant’Ana‖. Entretanto, esta proposta não foi aprovada, por motivos não relatados. É importante notar que a Comissão ao tratar do assunto da construção – reforma – da Igreja a partir de 1923, não usa mais a terminologia ―Capella de Sant’Ana‖, mas Matriz de Sant’Ana. Podemos ver aí, já um vislumbrar, o sonho de tornar-se Paróquia de Sant’Ana? Pode ser que sim. Nota-se também que o Sr. Cel. Francisco Rodrigues Seckler a partir do ano de 1923, tem uma ausência significativa nas reuniões da Comissão. Nada se diz a respeito. O Livro de Atas passa bruscamente do ano de 1923 para o ano de 1926. Assim, nada consta no Arquivo Paroquial quanto a anotações acerca dos anos de 1924 e 1925. 6. Ata da Comissão da Obras da Matriz de Sant’Ana, realizada em 10 de janeiro de 1926. Elementos relevantes e importantes: a. constatação de um profundo desânimo na Comissão; b. criou-se uma caderneta de poupança na Caixa Econômica Federal, para guardar o dinheiro da reforma da Igreja; c. volta a insistência do nome do Cel. Francisco Rodrigues Seckler para a presidência da Comissão (isto ocorrido em 1924 e datado em 1926, na referida ata); d. comunicação do falecimento do Sr. Antônio do Amaral; e. nesta reunião faz-se um balanço dos trabalhos dos últimos anos; f. pela primeira vez, nos Anais escritos da História da Igreja de Sant’Ana, faz-se menção ao nome de uma mulher, a Sra. Elisa do Amaral, viúva do falecido Sr. Antônio do Amaral; g. realização de uma ―Festa de Sant’Ana‖ no período de 15 e 16 de setembro de 1926; h. no ano de 1925, ocorreu uma reforma na Igreja de Sant’Ana. 7. Ata da reunião de 20 de dezembro de 1926. Elemento preponderante e importante: criação, de fato, de uma caderneta de poupança nº 57.310, série B, na Caixa Econômica Federal em nome das ―Obras da Matriz de Sant’Ana‖. 8. Ata da reunião de 22 de dezembro de 1926. Elementos relevantes e importantes: a. eleição de novos membros para a Comissão; b. início, de fato, da Igreja nova de Sant’Ana, com um projeto de construção. Este projeto encontra-se no Arquivo Paroquial; c. Criou-se um ―Conselho Consultivo‖ que deveria reunir-se com a Comissão. 9. Ata da sessão de 06 de janeiro de 1927. Antes de elencar os elementos relevantes desta Ata, convêm notar que, a partir do ano de 1926, ganha notoriedade preponderante o Sr. Francisco Alário Bérgamo, assumindo os trabalhos de ―construção da nova Igreja de Sant’Ana‖ (na Ata cuja datação é 16 de março de 1927, disse aí que ele é o presidente da Comissão). Elementos relevantes e importantes: a. esta reunião da 376


Comissão acontece com os membros do Conselho Consultivo; b. o Sr. Bento Vieira Campos relata um certo descontentamento – uma crise – com o Revmo. Sr. Pe. Alfredo Piquet, Vigário possivelmente, da ―Capella de Sant’Ana‖; c. faz-se menção de novo, pela segunda vez, da Sra. Elisa do Amaral. 10. Ata da reunião de 16 de março de 1927. Elementos preponderantes: a. fala-se de um ―projeto real de construção‖ da nova Igreja de Sant’Ana, assumido pelo Dr. Engº paulista Luiz de Anhaia Mello, que se propôs, gratuitamente, a elaborar uma planta de construção da Igreja, após sua visita à localidade da Capela. Isto causou na comunidade motivo de louvor e alegria. 11. Ata da reunião de 17 de março de 1927. Elementos relevantes e importantes: a. a constatação real da visita do Dr. Engº Luiz de Anhaia Mello à localidade da Capela para o estudo pormenorizado da construção; b. usa-se pela primeira vez nos Anais escritos historiais o termo ―visita a este subúrbio‖, refletindo, com certeza, a mentalidade na época ao tratar os espaços geográficos que estavam distantes do centro de São Paulo. 12. Ata da reunião de 20 de abril de 1927. Elementos preponderantes: a. a presença do Vigário Revmo. Sr. Pe. Alfredo Piquet para possível solução da crise instaurada no seu relacionamento com a comissão (Irmandade de Sant’Ana). É a primeira vez que os anais históricos notificam a presença de um presbítero na reunião da Comissão (e isto, acontece para uma prestação de contas e possível solução da crise); b. faz-se alusão ao Vigário da Quinta Parada, o Revmo. Sr. Pe. Nicolaco. Não se diz o nome da capela ou paróquia na qual este presbítero presta serviços. Hoje, de fato, na Quinta Parada há a Paróquia de N. Senhora das Graças. Nos Anais escritos da História da Igreja de Sant’Ana, nada se diz sob este aspecto. 13. Ata da reunião de 24 de abril de 1927. Elementos relevantes e importantes: a. suspensão das celebrações eucarísticas da Igreja de Sant’Ana, por parte da V. Revma. Sr. Pe. Alfredo Piquet. Supõe-se que o clima de atrito entre comissão e presbítero não fora resolvido satisfatoriamente como se, possivelmente, se esperava; b. eleição de uma pequena Comissão para ir à Cúria Metropolitana da Arquidiocese de São Paulo, para resolver a proibição da realização das missas na ―Capella Sant’Ana‖; c. alusão ao Vigário Geral da Arquidiocese de São Paulo, sem falar o seu nome. Este promete que o bairro de Sant’Ana não irá ficar sem celebrações eucarísticas.Nota-se que pela primeira vez a Vila de Sant’Ana é denominada bairro nas Atas de reuniões. Este Livro de Atas foi arquivado fechado aos vinte e um dias do mês julho de 1971. Aqui já se fala da existência “Centro social fé e alegria”. O livro possui cem páginas, mas somente são usadas vinte e duas páginas, num total de vinte e duas Atas de reuniões relatadas e arquivadas, para perpétua memória da história desta comunidade paroquial eclesial”.

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Anexo 21

Anexo 21 – Balanço anual da Companhia Commercial Pastoril e Agricola sob a presidência do coronel Bento Pires de Campos, com um Ativo de quase dois mil contos, ou nos valores de hoje algo em torno de cem milhões de reais.

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Anexo 22 Coronel Bento Pires de Campos

Figura 262 – Coronel Bento Pires de Campos enquanto presidente da Associação Comercial de São Paulo212. O Coronel da Guarda Nacional, Bento Pires de Campos Júnior nasceu em 09 de Agosto de 1860 na cidade de Tatuí, São Paulo, foi batizado na mesma cidade aos 20 de Agosto do mesmo ano e, em 22 de Março de 1884 casa-se com a sra Julia Ette Alexandrina Kenworthy de Campos, natural da cidade de Oldham, Inglaterra, que falece em 1907, deixando-o viúvo com 5 filhos, Julieta de Campos, Zoraide de Campos, Iracema de Campos, Heitor de Campos e Maria de Lourdes de Campos. Seus pais eram o Tenente-coronel Bento Pires de Campos e dna. Gertrudes de Campos, que segundo Luiz Gonzaga da Silva Leme213: ―8-5 Coronel Bento Pires de Campos que casou com Gertrudes Maria de Freitas f.ª do capitão Antonio Xavier de Freitas (que tomou parte importante ao lado do governo na revolução de 1842 tendo 600 homens sob o seu comando, com os quais fez sua entrada em Sorocaba no dia 20 de junho à tarde, tendo o barão de Caxias feito sua entrada na manhã desse mesmo dia, depois da debandada dos revoltosos) e de Maria das Dores Fiuza. V. 3.º pág. 255. Faleceu o coronel Bento Pires em 1900 em S. Paulo, e teve os seguintes f.ºs: 9-1 Maria das Dores de Campos Seabra; 9-2 Tenente-coronel Bento Pires de Campos (1860); 9-3 Rosalina de Campos Cesar (1863); 9-4 Capitão Virgilio Pires de Campos; 9-5 Jovino Pires de Campos; 9-6 Jovina de Campos Seabra; 9-7 Anna de Campos Nogueira; 9-8 Amelino Pires de Campos; 9-9 Theodorica de Campos Camargo; 9-10 Ovidio Pires de Campos. Em 28 de Julho de 1893, recebe a patente de Coronel da Guarda Nacional214 e é nomeado 3º suplente de subdelegado. Em 1904, foi eleito vereador da Capital paulista215, 212

<http://www.dcomercio.com.br/especiais/outros/acsp110anos/galeria.htm> acessado em novembro de 2011 Luiz Gonzaga da Silva Leme, Genealogia Paulistana - (1852-1919). Vol VII- Parte III-Título Moraes Pág. 84 a 126 < http://www.arvore.net.br/Paulistana/Moraes_3.htm> acessado em Outubro de 2011. 213

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jurado da 4ª Vara Criminal da Comarca da Capital e deputado eleito da Junta Commercial de São Paulo, ocupando o cargo de presidente nos anos de 1914 a 1916 e 1919195,216. Em 1909, funda a Companhia Commercial Pastoril e Agrícola e adquire a Fazenda Caguassú, mais conhecida por Fazenda Nª Sª do Carmo, dividindo em lotes a área próxima a estação de trêns e batizando-a de Vila Carmozina. Com o sucesso do empreendimento, adquire novas áreas nas adjacências, e faz sua primeira doação de terras para a construção da futura Igreja Nª Sª do Carmo, bem como um terreno de 300m2 para a construção de uma escola Paroquial, seguida da doação de terras para as Irmãs da Divina Providência e do terreno para a instalação do Cemitério Municipal. Em 1925 inicia o loteamento da Colônia Japonesa e doa uma área de cerca de 12000m2 para a instalação de um campo para jogos esportivos. Em 1932 a Companhia havia aberto cerca de 35 km de estradas em Itaquera, onde somente na Colônia haviam 21km construídos, com um projeto já iniciado para a construção de outra estrada, ligando Itaquera com o Município de São Bernardo do Campo, com vistas ao Porto de Santos217. Em 1930 foi nomeado Subdelegado da 5ª Subdelegacia da 7ª Circunscripção da Capital (Itaquera). e em 29 de Novembro de 1937 renuncia a presidência da Companhia Commercial por motivos particulares218. Em 28 de Abril de 1950, o vereador da Capital dr. Mário Ottobrino Costa, pede a palavra na Câmara Municipal para ler um discurso em homenagem ao Coronel Bento Pires de Campos, que havia falecido naquele ano. Neste texto, que reproduzimos abaixo, ele cita que sua “ascendência provinha de velhos troncos piratininganos”, e pesquisando na referência de Luiz Leme, descobrimos tratar-se da Família Taques, de antigos bandeirantes paulistanos. “São Paulo perdeu um filho ilustre, cuja ascendência provinha de velhos troncos piratininganos e que deixa uma tradição de bondade e filantropia, de empreendimento no campo da indústria textil e de pioneirismo associativo. O sr. Bento Pires de Campos faleceu aos 90 anos de idade. Natural de Tatuí, ai iniciou suas atividades comerciais, até quando se transferiu para esta Capital, onde continuou a exercê-las, dedicando-se, ainda, durante vários anos, à indústria têxtil nas cidades de Jundiaí e Sorocaba. Tipo genuíno do paulista, onde quer que atuasse a sua ponderação e austeridade, que não chocavam a ninguém, pela simplicidade e espontaneidade de que se revestiam, fazia amigos e colaboladores, graças à sua bondade e ao seu coração largo e acolhedor. Tendo principiado a sua vida no comércio pela integridade do caráter e soluções práticas que encontrava para os seus principais problemas, além de ser um dos fundadores da Associação Comercial de São Paulo, foi o seu primeiro presidente demonstrando sua capacidade de administrador e de arregimentação da classe. Preocupado com a saúde e a imprevidência social dos comerciários, também foi um dos fundadores da Sociedade Humanitária dos Empregados no Comércio de São Paulo, devotada à prestação de recursos médicos, farmacêuticos, hospitalares e económicos aos seus associados.

214

Diário Oficial dos E. U. do Brasil, pg. 3300, 28/07/1893 http://www.jusbrasil.com.br/diarios/3711272/dosp-diario-oficial-04-11-1904-pg-2194. 216 Diário Oficial de São Paulo de 18-11-1904, pg-2318 217 Jornal “O Suburbano” nº27, Março de 1932 218 http://www.jusbrasil.com.br/diarios/3713722/dosp-diario-oficial-18-11-1904-pg-2318 215

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A longa existência do sr. Bento Pires de Campos que, por sinal, acompanhou o período mais acentuado da evolução de São Paulo na agricultura, no comércio e na industria, quando a nossa Capital abandonava o provincialismo para atingir à alta concentração demográfica e produtiva, das metrópoles, foi inteiramente voltada ao progresso da sua terra e ao bem estar das suas gentes. Como comerciante, foi um dos leaders da classe; como industrial, o pioneiro da exportação de tecidos para o Rio da Prata e, como cristão, participou de vários movimentos de benemerência. Na sua simplicidade de representante da velha estirpe paulista, o sr. Bento Pires de Campos foi um dos mais clarividentes filhos desta terra, pondo-se à frente das principais iniciativas que visavam prevenir os problemas sociais e econômicos que, com o progresso de São Paulo, pouco a pouco viriam à tona, como de fato vieram, e que, assim, não nos encontraram completamente desprevenidos. Esta câmara Municipal, prestando essa homenagem à uma figura tão relevante de nossa gente, estará cumprindo com um dever sagrado para com um homem que, trabalhando, soube honrar a sua terra‖219. No desenvolvimento do presente trabalho, vimos a atuação de um homem com visão filantrópica e empreendedora, que mudou a característica de Itaquera, transformando-a de província para uma comunidade emergente, juntamente com a presença de várias outras personalidades respeitáveis. Podemos ter uma pálida ideia de sua influência, somente observando os números do balancete anual da empresa que nos interessa, a Companhia Commercial Pastoril e Agrícola (Anexo 21), e do que Itaquera possuia em termos de capital presente. Em um tempo que exportação era uma atividade nascente, devido ao nosso atraso no processo industrial, encontramos referências importantes da atuação do Coronel Pires de Campos na indústria, por exemplo, em 1904 assumiu, juntamente com outros empresários a fábrica de fiação e tecelagem “Santa Maria” em Sorocaba 220. Em 1908 funda, juntamente com outros acionistas, a “Companhia Fiação e Tecidos São Bento”, em Jundiaí e em 1925 participa como acionista das “Indústrias Martins Ferreira”. Sua atuação na indústria têxtil foi tão importante, que o Governo Federal concede ao Coronel um ramal telegráfico, quando em 1918 representou o Brasil em uma exposição internacional: ―Ao Ministerio da Viação e Obras Publicas, a expedição das necessarias ordens no sentido de ser concedida franquia telegraphica ao Sr. coronel Bento Pires de Campos, presidente da commissão paulista organizadora dos mostruários para a Exposição de Tecidos brasileiros no Prata‖221. Além de exportação de produtos da indústria Têxtil, a indústria Agrícola também exportava, e para a Europa, como vemos no Despacho abaixo:

―Sr. ministro: N. 115 — Tenho a satisfação de communicar a V. Ex. que, as primeiras partidas de laranjas embarcadas no porto de Santos já chegaram a Londres, Allemanha e Canadá, 219

Diário Oficial do Estado de São Paulo (E. U. do Brasil), nº94, ano 60, 28/04/1950 http://www.jusbrasil.com.br/diarios/3681134/dosp-diario-oficial-12-04-1904-pg-668 221 Diário Oficial do Estado de São Paulo (E. U. do Brasil), 16/02/1918, pg. 2390 220

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em perfeito estado de conservação, segundo informações prestadas pelo agronomo Henrique I.obbe, fiscal do serviço no porto de Santos. De accórdo com a declaração dos exportadores o preço alcançado de cada caixa foi de 32$000. Annexo um recórte de jornal sobre o assumpto. — Sr. inspector agricola federal do 14' Districto — São Paulo: N. 117 — Incluso vos remetto, para os devidos fins, o registro da Companhia Commercial Pastoril e Agricola, desse Estado, como exportadora de laranjas‖222.

222

<http://www.jusbrasil.com.br/diarios/1961294/dou-secao-1-23-05-1930-pg-19>

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Anexo 23 Dr. Rodrigo Pereira Barreto Rodrigo Pereira Barreto nasceu em 28 de Dezembro de 1835, na fazenda Monte Alegre, em Vargem Grande, cidade de Resende no Rio de Janeiro. Era filho de Fabiano Pereira Barreto, nomeado aos 41 anos (1852) Comandante da Guarda Nacional e feito Cavaleiro da Ordem de Cristo e Comendador da Ordem Imperial da Rosa e, Francisca de Salles Pereira Barreto223. A história da Família Pereira Barreto é recheada de pioneirismo, fato é que em 1876 saem de Resende na famosa “ Caravana Pereira Barreto”, onde migram para a região de Ribeirão Preto intalando-se em fazendas de café. Em 1862 forma-se em direito pela faculdade do Largo de São Francisco. Exercendo o oficio e militando na política, chegou a Presidência da Câmara Municipal de Ribeirão Preto em 1887. Embora monarquista, fato curioso pois todos seus irmãos eram republicanos, defendia acirradamente a abolição dos escravos e, em um movimento histórico antecipa a lei áurea em Ribeirão Preto, quando em Agosto de 1887 propõe a criação do “Livro da Redempção”, onde os fazendeiros que assinassem estariam libertando seus escravos. Acontece que nem todos comungavam dos mesmos ideais libertários de Rodrigo Pereira Barreto, e as ameaças começaram a chegar em suas mãos, como o caso quando recebe uma caixa contendo um chicote de couro torcido e um bilhete, dizendo que o chicote seria usado caso não reconsiderasse sua proposta apresentada na Câmara. A fim de se evitar derramamento de sangue na cidade, decide vender todas as suas propriedades e deixar Ribeirão Preto, todavia sem alterar a sua proposta de redenção dos cativos, rumando para São Paulo, onde compra grandes extensões de terra em Itaquera, mais exatamente a fazenda Caguassú, onde desenvolve o cultivo de café. Rodrigo Pereira Barreto falece em Maio de 1910, aos 75 anos. O trecho abaixo foi retirado do Diário Oficial de São Paulo de 1958 224, e traz um interessante histórico dos proprietários da fazenda Caguassú. ―…Coriolano Pereira Barreto houve a totalidade do Sitio Caguassú, partes no inventário de seu pai Doutor Rodrigo Pereira Barreto, por força de sua legítima e da renúncia de seus sobrinhos, Dr. Mario Whately e Carlos Wathely (…), e partes pela desistência feita por suas sobrinhas, Donas Estephania Whately e Berta Whately, dos quinhões que lhes couberam na referida fazenda Caguassú (…). O Doutor Rodrigo Pereira Barreto houve o referido Sitio Caguassú com os terrenos a ele pertencentes, denominados ―Caçapava‖, de Augusto Rodrigues dos Santos e dos Doutores Americo Rodrigues dos Santos e Brasílio Rodrigues dos Santos, por escritura pública de 30 de Janeiro de 1890 (…); 5) Os vendedores Augusto Rodrigues dos Santos e Doutores Américo Rodrigues dos Santos e Brasílio Rodrigues dos Santos houveram o Sitio Caguassú, por herança de seu falecido Pai, Doutor Gabriel José Rodrigues dos Santos, e por permuta que fizeram com o Doutor Antonio Ribeiro dos Santos, casado com a herdeira restante, D. Gabriela Ribeiro dos Santos, conforme a escritura lavrada com as notas do tabelião de Pirassununga (…) em 20 de maio de 1877; 6) Pela partilha no inventário do finado Doutor Gabriel José Rodrigues dos Santos, coube o sítio Caguassú e os terrenos a ele pertencentes, denominados Caçapava, aos seus herdeiros, os 223 224

< http://www.cbg.org.br/arquivos_genealogicos_g_04.html> Acessado em 02 de dezembro de 2011 Diário Oficial do Estado de São Paulo. Ano LXVIII, nº 146, pg. 14, 1958

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referidos Augusto, Américo e Gabriela Rodrigues dos Santos, então menores, datando a respectiva sentença de 23 de Agosto de 1869 (…), constando dele que o Sítio Caguassú, inclusive os terrenos ―Caçapava‖, foram havidos por escritura pública de 28 de Setembro de 1857 (…) da cidade de Resende, sendo vendedores Delphim Franco da Silva Fróes e sua mulher D. Mafalda do Carmo Fróes, e tendo as terras sido adquiridas pelos vendedores, parte por herança do Padre Francisco do Carmo Fróes e parte dos co-herdeiros deste, Cassiano, Américo, Agueda e Norberto do Carmo Fróes, todos perfilados por escritura pública, constante do inventário do referido finado, julgado em 23 de Maio de 1848 (…); 7) Das terras do Sitio Caguassú, era dona D. Gertrudes Tereza Gonçalves, por falecimento de seu marido João José Rodrigues, e, dos terrenos Caçapava, O Alferes Antônio José Fernandes e s.m. d. Maria Rosa Ferraz (…), tendo D. Gertrudes Tereza Gonçalves vendido o Sitio Caguassú por escritura de 26 de Março de 1833, (…), ao Padre Francisco do Carmo Fróes (…) e o Alferes Antônio José Fernandes e sua mulher, por escritura de 20 de Dezembro de 1831 (…), os terrenos Caçapava, ao mesmo Padre Francisco do Carmo Fróes (…) e seu sócio Norberto Fróes; (…)‖.

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Anexo 24

Figura 263 â&#x20AC;&#x201C; Jornal Tal e Qual, editado em Itaquera no ano de 1984 pelos srs. Francisco Roldan Pereira e Arthur Victor Brenneisen. Arquivo Francisco Roldan Pereira.

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Anexo 25 Escudos de Armas dos Distritos de Itaquera Quatro Distritos formam a área urbana administrada pela Subprefeitura de Itaquera, são eles, José Bonifácio, Cidade Lider, Parque do Carmo e Itaquera. Com base restrita nas regras da heráldica internacional, constituímos os escudos de armas dos quatro distritos que formam a área sob jurisdição da Subprefeitura de Itaquera, de modo que possam ser apreciados e discutidos, a fim de serem utilizados na representação de cada localidade. Junto aos escudos, segue a referida Descrição Heráldica, instruindo sobre o significado de cada símbolo utilizado na constituição das Armas.

Figura 264 - Escudo de Armas do Distrito de José Bonifácio. Memorial Sobre um campo em blau filetado em ouro, no coração se assentam dois leões rampantes em combate, um em prata e outro em ouro, representando as lutas travadas pelas minorias na construção e conquistas de sua identidade. Em chefe, apartando os leões, ao mesmo tempo sendo elevada em glória, uma Cruz de Lorena em ouro, símbolo das minorias fiéis à verdade e justiça, que na hora do abandono geral, agarram-se a fé e partem para uma epopéia de resistência e superação. Atravessam inúmeros obstáculos e provações, sem recursos humanos de qualquer espécie, mas com fé na Providência, que no fim da batalha, as glorifica com a vitória, que de início e para os incrédulos, afigurava-se como humanamente inviável. Em contra chefe, um castelo aberto, em ouro, representando os edifícios do maior conjunto habitacional das Américas. 386


Encimando o Brasão, uma coroa mural em prata de 4 torres, representando a condição de Bairro ou distrito de José Bonifácio. Em listel de prata, livre no escudo, inscreve-se nas extremidades, em ouro, a legenda “Virtus Unita Fortius Agit” (A união faz a força). E no Centro, em blau a legenda José Bonifácio.

Figura 265 - Escudo de Armas do Distrito da Cidade Lider. Memorial No Chefe, sobre um campo em gules, um castelo aberto em ouro representando o empreendimento que na década de 1940 deu origem ao Bairro. Sobre o campo em blau, no Flanco destro e sinistro se assenta duas cornetas em ouro, representando a força, dignidade e tenacidade nos propósitos, clamando a todas às pessoas, na dianteira e retaguarda social, económica e política o engajamento na construção do futuro. No Coração, em linhas cruzantes em ouro, representando a convergência e a diversidade dos caminhos, se assenta um leão rampante em gules segurando uma espada em sinopla apontando para a frente, enquanto olha a retaguarda, representando a persistência na esperança e a coragem na constante defesa da justiça. No Contrachefe, em campo em gules, um resplendor em ouro e prata com um escudete em blau contendo 5 estrelas em ouro, representando a constelação do cruzeiro do sul. Encimando o Brasão, uma coroa mural em prata de 4 torres, representando a condição de Bairro ou distrito da Cidade Lider.

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Em listel de prata, livre no escudo, inscreve-se nas extremidades, em ouro, a legenda “A Deo lex, a rege lex” (A Lei vem de Deus, a Lei vem do Rei). E no Centro, em blau a legenda Cidade Lider.

Figura 266 - Escudo de Armas do Distrito do Parque do Carmo. Memorial Sobre um campo em blau, no Cantão destro do Chefe, um cruzeiro em ouro evocando a história da formação do Distrito com a presença dos Carmelitas no século XVIII. No Cantão sinistro do Chefe, em campo sinopla uma árvore em ouro, representando a maior riqueza natural da região, o conjunto ecológico do Parque do Carmo. No Cantão destro do Contrachefe, em sinopla, um edifício em ouro com as janelas e a fumaça em prata, representando o desenvolvimento industrial na região. No Cantão sinistro do Contrachefe, em campo blau, linhas onduladas em prata, representando os vários rios e nascentes presentes na região. Encimando o Brasão, uma coroa mural em prata de 4 torres, representando a condição de Bairro ou distrito do Parque do Carmo. Em listel de prata, livre no escudo, inscreve-se nas extremidades, em ouro, a legenda “Fide in Brasilia” (Fé no Brasil). E no Centro, em blau, a legenda Parque do Carmo.

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BIBLIOGRAFIA Além destas Referências, outras estão descritas na sequência do presente trabalho, nas indicações de rodapé. - ABREU, J. Capistrano de - "Capítulos de História Colonial. Os Caminhos Antigos e o Povoamento do Brasil", 5ª ed., Editora da Universidade de Brasília, 1963. - ALMEIDA, Eugênio de Castro e. "A expedição de Martim Afonso de Souza". In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Volume 29. São Paulo, 1932. - ALMEIDA, João Mendes de. "Algumas notas genealógicas". Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Volume 10. São Paulo, 1905. - ANDRADE, Wilma Therezinha F. de e Falcão, Ana Jovita de Sousa. "Coleção Biográfica". Cubatão, Prefeitura Municipal, 1975. - AZEVEDO MARQUES, Manuel Eufrásio de. "Apontamentos Históricos, Geográficos, Biográficos, Estatísticos e Noticias da Província de São Paulo". São Paulo, Livraria Martins Editora, 1953. Vols 1 e 2. - CADERNOS DE HISTÓRIA nos 1 e 6. "Diário de Navegação - Pero Lopes de Souza, Memórias de Martim Afonso de Souza". São Paulo, Editora Obelisco, 1965. - CALIXTO, Benedicto. "Algumas notas e informações sobre a situação dos sambaquis de Itanhaém e de Santos". Revista do Museu Paulista. Volume 6. São Paulo, 1904. - CALIXTO, Benedito - "Capitanias Paulistas, São Vicente, Itanhaém, São Paulo", 1924. - FLEIUSS, Max. "Martim Afonso de Souza". Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Volume 29. São Paulo, 1932. - FRANCO, Francisco de Assis Carvalho. "Os capitães-mores vicentinos". Separata da Revista do Arquivo nº 65. São Paulo, Departamento de Cultura, 1940. - GAIARSA, Octaviano A. "A cidade que dormiu 3 séculos - Santo André da Borda do Campo, seus primórdios e suas evolução histórica". 1ª ed., Santo André, Prefeitura Municipal, 1968. - GRANDES PERSONAGENS DA NOSSA HISTÓRIA. Volume 1. São Paulo, Editora Abril Cultura, 1972. - INSTITUTO GEOGRÁFICO E GEOLÓGICO DO ESTADO DE SÃO PAULO "Mapa do Município de Cubatão". Organizado em observância à Lei nº 8092 de 28 de fevereiro de 1964. - INSTITUTO GEOGRÁFICO E GEOLÓGICO DO ESTADO DE SÃO PAULO "Mapa do Município de Santos". 1ª ed., São Paulo, 1972. 389


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- SPIX Joh. Bapt. e MARTIUS, Carl Friedrich P. von - "Viagem Pelo Brasil (18171820)", vol. I (trad. de Lúcia Furquim Lahmeyer), 2ª ed., Edições Melhoramentos, São Paulo. - TAUNAY, Affonso de E., - " História geral das bandeiras paulistas ", 1924-1950. - TAUNAY, Affonso de E., - " História: São Paulo nos primeiros anos ", 1920. - TAUNAY, Affonso de E., - "História Seiscentista da Vila de São Paulo", Tipografia Ideal, São Paulo, 1929. - TAUNAY, Affonso de E., "João Ramalho e Santo André da Borda do Campo". 2ª edição. São Paulo, Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1968. - VÁRIOS AUTORES, "História da Colonização Portuguesa no Brasil". Porto, Litografia Nacional, 1922. - ZUBILLAGA, S.J. Felix. "Cartas y escritos de San Francisco Javier", 2ª edição, Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 1968.

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Os autores

Marco Antonio Stanojev Pereira - Licenciado em Química pela Unicastelo, Mestre e Doutor (PhD) em Física Nuclear pela Universidade de São Paulo, membro efetivo do Conselho Científico da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, professor efetivo da UNIP, pesquisador contratado no Instituto Superior Técnico-Campus Tecnológico e Nuclear (Portugal) e pesquisador colaborador do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares IPEN-SP (Brasil). Autor de livros nos campos da literatura, técnico e filosofia. Autor e co-autor de diversos artígos em revistas científicas nacionais e internacionais.

Antonio Pacheco Pereira - Joalheiro e professor de Teologia e Filosofia das religiões na Sociedade de Ensino Cáritas. Autor do livro “Dos deuses Sanguinários ao Deus de amor”, Chiado Editora. Lisboa 2010

Valquiria Stanojev Coelho Pereira – Micro Empresária, Professora e diretora da Sociedade de Ensino Cáritas.

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© Marco Antonio Stanojev Pereira. 2012 É permitida a reprodução, desde que citada a fonte e comunicado o autor. mstanojev@hotmail.com

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História e Estórias do Povoamento e Gentes de Vila Sant'Ana e Itaquera  

This present work presents the historical of the one of the oldest Districts of the city of São Paulo (Brazil), the District of Itaquera, wh...

História e Estórias do Povoamento e Gentes de Vila Sant'Ana e Itaquera  

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